“‘Você é uma sanguessuga inútil’, meu marido gritou para mim enquanto me expulsava de casa para ficar com outra mulher. O que ele não sabia era que acabara de entregar sua carta de demissão para a dona multimilionária da empresa dele: eu.”
A mala barata, a mesma que eu havia trazido para este casamento oito anos atrás, caiu aos meus pés com um baque surdo no piso de mármore de Carrara.
“Quero que você vá embora”, disse Marcos. Sua voz estava fria, irreconhecível. Ele ajeitou a gola de sua camisa de seda, uma das muitas que comprara para comemorar a promoção, a qual, ironicamente, eu mesma lhe dera de presente de aniversário.
“Valeria se muda na segunda-feira”, continuou ela, caminhando pelo amplo hall de entrada da nossa casa em La Moraleja. “Ela é uma mulher de verdade, Sofia. Apaixonada, vibrante. Diferente de você.”
Ele fez um gesto de desprezo na minha direção. “Você não passa de uma sanguessuga. Um parasita. Oito anos sugando minha energia vital. Mas acabou. Cansei de te sustentar.”
Fiquei imóvel junto à porta. Meu rosto estava pálido, sim, mas meus olhos brilhavam com uma frieza que ele, em seu monólogo arrogante, confundiu com as lágrimas de uma mulher desprezada. Ele pensava que estava garantindo seu futuro; não fazia ideia de que acabara de assinar os papéis que não só destruiriam sua carreira, como o deixariam sem um tostão. Literalmente na rua.
Apertei a alça da mala com força. Era um modelo usado, a mesma que eu havia trazido para esta casa. Marcos sempre prometia me comprar um conjunto novo da Louis Vuitton, mas, por algum motivo, nunca encontrava tempo. Agora eu estava feliz. Era um desfecho poético.
Seus olhos seguiram meu olhar enquanto eu observava as paredes do saguão, as mesmas que eu havia pago com uma transferência discreta de uma conta da qual ele não tinha conhecimento.
Ele deu uma risada curta e feia. “Não adianta ficar sentimental com a casa. A Valeria vai trazer a decoradora dela semana que vem. Ela detesta o seu gosto insosso e sem graça. Francamente, eu também.”

Insosso. Chato. Um parasita. As palavras ecoaram no saguão de mármore.
Lembrei-me dos nossos começos. Ele não era assim. Quando o conheci, Marcos era um analista de nível intermediário no Grupo Alarcón, simpático, modesto e, aparentemente, sem nenhum interesse em ascender na empresa.
Foi por isso que o escolhi.
Após a morte do meu pai, o magnata dos negócios Roberto Alarcón, fui sufocada por uma série de pretendentes gananciosos. Homens que farejavam minha herança como tubarões farejam sangue. Marcos tinha sido meu refúgio. Ele me amava, ou assim dizia, pelo meu “coração simples”. Não por uma fortuna que eu nunca lhe contei que possuía.
Eu só queria ser Sofia. Não Sofia Alarcón, a herdeira do império.
Meu pai me advertiu em seu leito de morte, com a voz num sussurro áspero: “O poder é um fardo pesado, querida. Tenha cuidado com quem você deixa carregá-lo. Case por amor, mas assine os papéis pensando na guerra.”
E eu tinha assinado os papéis. Um acordo pré-nupcial tão à prova de falhas que era praticamente uma fortaleza. Marcos riu enquanto assinava, mal lendo. “O que é isso, Sofia? Que todos os bens de antes do casamento ainda estão separados? Querida, tudo o que eu tenho é dívida estudantil e um Seat Ibiza usado. Pode ficar com ele.”
Eu não tinha conhecimento de que meus “ativos anteriores” incluíam 51% de todo o conglomerado Alarcón.
Eu havia guardado meu segredo, desfrutando de nossa vida aparentemente simples. Eu administrava meu império de um escritório tranquilo em casa, que ele pensava ser para minha “pequena loja online de aquarelas”. Eu assinava contratos de aquisição multimilionários antes de descer para preparar o jantar para ele. Todos os meus representantes e membros do conselho se comunicavam por meio do advogado idoso da minha família, Arturo Soler. Para o mundo, e para meu marido, eu era um fantasma.
Mas, à medida que a carreira de Marcos na minha empresa crescia, o mesmo acontecia com seu ego.
Eu havia facilitado as coisas para ele. Discretamente, eu me certificava de que seu bom trabalho chegasse às pessoas certas, acreditando que estava apoiando os sonhos do meu marido. Em vez disso, eu estava alimentando um monstro.
Sua recente promoção a vice-presidente, da qual ele estava tão orgulhoso… Eu a havia aprovado pessoalmente. Era para ser meu presente de aniversário de casamento.
E ele estava comemorando me substituindo.
“Você é surdo?” Marcos disparou, me tirando do meu devaneio. “Eu disse para você sumir.”
Meus olhos desviaram-se de seu rosto, ruborizados de raiva, e se fixaram em uma pequena e insignificante pintura pendurada perto da porta. Era uma simples aquarela de uma costa cinzenta.
“Aceito”, eu disse, com a voz calma, mas firme.
Marcos bufou. “Essa coisa feia? Meu Deus, você não tem bom gosto. Valeria adora arte moderna. Peças grandes e ousadas. Não esse esboço sem graça. Tudo bem, fique com ele. Um lembrete apropriado da mulher sem vida e cinzenta que você é.”
Ele arrancou o quadro da parede, quebrando um pouco o gesso, e o jogou em minhas mãos.
Ele não sabia, mas era a chave.
Não era uma obra-prima, mas a parte de trás da moldura escondia as chaves privadas de toda a minha carteira de criptomoedas e os códigos de acesso direto e indetectável aos meus servidores privados. Eram, literalmente, as chaves do reino.
Coloquei-a debaixo do braço, peguei minha mala e saí pela porta da frente sem olhar para trás. Nem sequer olhei para o Audi preto reluzente estacionado no final da rua, onde pude ver a silhueta de uma mulher de cabelos loiros claros no banco do passageiro.
Passei pelos portões do condomínio, peguei meu celular e disquei um único número da minha lista de contatos.
“Arturo”, eu disse. Minha voz já não era pálida. Era de aço. “Acabou. Invoque a cláusula de fidelidade. Congele tudo. As contas conjuntas, os cartões de crédito, tudo. E a casa. Quero colocá-la à venda antes do meio-dia.”
Fiz uma pausa, respirando o ar fresco da manhã.
“E ele está convocando uma reunião de emergência do conselho para as 9h da manhã. É hora de ir para casa.”
Marcos acordou na manhã seguinte sentindo-se mais leve do que em anos. A casa estava em um silêncio maravilhoso. Nenhum vestígio da presença deprimente de Sofia. Valeria já estava lá, andando de um lado para o outro na cozinha com uma de suas camisas sociais, tomando café de uma caneca que dizia “O Melhor Marido do Mundo”.
“É perfeito, querido”, ela ronronou. “Finalmente podemos ser felizes. Chega de esconder coisas. Chega de fingir que você é casado com aquela… aquela mulher bege .”
Marcos sorriu, puxando-a para mais perto. “Bege. É a palavra perfeita para ela. Ela era um parasita, Val. Sugando minha energia vital. Mas agora estou livre. Sou o vice-presidente. Você e eu, vamos chegar ao topo.”
Ele sentiu uma onda de poder. Era o novo Vice-Presidente de Aquisições, um cargo que havia conquistado, ou assim acreditava, com pura garra e brilhantismo. Ele havia esmagado seus rivais. Suas apresentações tinham sido impecáveis, e o CEO, um homem de terno cinza chamado Jiménez, finalmente reconhecera seu talento.
Hoje, eu entraria na torre do Grupo Alarcón não apenas como um funcionário, mas como um rei.
Ele beijou Valeria, que já apontava para as cortinas. “Essas têm que sair. Quero veludo.”
Marcos riu. “O que você quiser, querida. O novo salário permite isso.”
Ele praticamente desfilou em direção à reluzente torre de vidro do Grupo Alarcón, bem no Paseo de la Castellana. As pessoas pareciam observá-lo, cochichando. Ele confundiu a energia nervosa delas com admiração.
“Bom dia, Janet”, disse ele em voz firme à recepcionista.
“Sr. Jennings”, disse ela, com a voz tensa, sem olhar nos olhos dele. “Haverá uma reunião de emergência com toda a equipe na sala de reuniões principal em cinco minutos.”
O sorriso de Marcos se alargou. Uma reunião de emergência um dia depois da sua promoção? Provavelmente anunciariam para a empresa inteira, talvez até lhe dessem um bônus maior. Ele imaginou os aplausos. Ajeitou a gravata, uma monstruosidade de seda que Valeria havia escolhido. Lembrou-se por um instante de como Sofia costumava ajeitar suas gravatas, suas mãos pequenas e frias tão macias. Afastou o pensamento. Isso era passado. O futuro era brilhante, ousado e loiro.
Ele entrou na sala de reuniões com ar de superioridade.
O ambiente não era festivo. Parecia uma casa funerária.
Todo o conselho executivo, incluindo o idoso e imponente Arturo Soler, principal consultor jurídico da empresa e presidente do conselho, estava presente. Até mesmo o CEO Jiménez parecia pálido.
A confiança de Marcos vacilou por um segundo. “Olá, bom dia a todos. Qual é a ocasião?”
Arturo Soler, um homem que parecia ter sido esculpido em granito, olhou para ele com raiva. “Sente-se, Sr. Jennings.”
“Sr. Jennings” soava estranho. Não era “Mark, garoto”. Era “Sr. Jennings”, como se ele fosse um estranho.
Ele se sentou. De repente, suas palmas começaram a suar.
“Estamos aqui”, começou Soler, com a voz ecoando pela sala, “para tratar de uma falha catastrófica de liderança. Uma violação da ética que atinge o cerne desta empresa.”
A mente de Marcos trabalhava a mil. Seria possível que fosse seu rival, Henderson? Teriam descoberto que Henderson estava falsificando os números? Ele quase sorriu.
“O Grupo Alarcón tem uma política de tolerância zero para conflitos de interesse”, continuou Soler, com o olhar percorrendo a sala. “Não toleramos executivos que se aproveitam de suas posições dentro da empresa para obter ganhos pessoais. Nem toleramos confraternizações com subordinados.”
O sangue de Marcos gelou.
Valéria. Tecnicamente, ela era gerente de marketing, dois níveis abaixo dele. Mas todo mundo fazia isso. Não era crime que justificasse demissão. Não para uma vice-presidente.
“Arturo”, começou Marcos, tentando adotar um tom familiar. “Se isto tem a ver com Valeria Latorre, é um simples mal-entendido. É um assunto privado.”
Os olhos de Soler se estreitaram. “Isso se tornou um assunto da empresa, Sr. Jennings, quando o senhor usou seu cartão corporativo — um cartão financiado por esta empresa — para comprar um carro, um apartamento e inúmeros outros presentes. Tudo isso enquanto o senhor era casado com uma mulher que, por oito anos, personificou a humildade e a integridade sobre as quais esta empresa foi fundada.”
Marcos ficou estupefato. Como eles poderiam saber? Ele havia escondido essas despesas.
“Mas esse não é o principal motivo desta reunião”, disse Soler, baixando a voz. “Durante oito anos, a acionista majoritária do Grupo Alarcón permaneceu anônima, satisfeita em administrar seus ativos à distância, confiando à sua equipe executiva a gestão das operações diárias.”
Ele fez uma pausa. O quarto estava tão silencioso que Marcos conseguia ouvir as batidas do próprio coração.
“Tendo em vista os recentes acontecimentos pessoais , ela decidiu que esta empresa exige uma abordagem mais prática. Senhoras e senhores, permitam-me apresentar a proprietária do Grupo Alarcón… e sua nova Diretora Executiva, a Sra. Sofía Alarcón.”
A porta lateral da sala de reuniões se abriu e Sofia entrou.
Mas não era Sofia. Não podia ser.
A mulher que eu demiti ontem usava jeans baratos e uma camiseta desbotada. Esta mulher vestia um terno preto sob medida, tão elegante que provavelmente custava mais do que o carro dela. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo liso e austero. Seu rosto era o mesmo, mas o olhar em seus olhos…
Era o mesmo fogo frio que ele vira junto à porta, mas agora era um inferno de pura autoridade ártica.
Ele não olhou para ele. Caminhou até a cabeceira da mesa e sentou-se ao lado de Arturo Soler. Todo o conselho se levantou em uníssono.
“Dona Sofia”, disse o CEO Jiménez, inclinando levemente a cabeça.
“Sofia?” Marcos sussurrou, com a voz embargada. “O quê? O que é isso? O que você está fazendo aqui?”
Ela finalmente virou a cabeça, o olhar fixo nele em sua cadeira. Era como ser observada por um deus.
“Vim recolher o lixo, Marcos”, disse ela, com a voz calma. Mesmo assim, cortou o silêncio como um bisturi. O conselho estremeceu.
O mundo de Marcos estava desmoronando. Não era possível. Aquela mulher insípida, entediante, sem graça…
“Você… você é dona do Alarcón?” ela gaguejou. “Você é… você é minha chefe.”
Sofia esboçou um sorriso pequeno e arrepiante. “Eu não sou sua chefe, Marcos. Você não trabalha mais aqui.”
Ele olhou para ela, confuso, e depois para Soler. “O quê? Você não pode estar falando sério. Acabei de ser promovido a vice-presidente. Sou o melhor especialista em aquisições que vocês têm.”
Soler deslizou uma única pasta sobre a mesa. “O senhor foi promovido, Sr. Jennings, a pedido expresso da Rainha Sofia. Foi um presente de aniversário, se bem me lembro.”
O sangue desapareceu do rosto de Marcos.
Tudo. Suas promoções, seus bônus, o caminho mais fácil. Não fora seu brilhantismo. Era ela mesma. Uma esmola. Um caso de caridade.
O parasita era o hospedeiro desde o início.
“Isso é um erro”, implorou Marcos, com a voz embargada por um grito desesperado. Ele a olhou, olhou-a de verdade, e viu todo o seu casamento passar diante dos seus olhos. As noites “entediantes” dela lendo relatórios financeiros. As “coincidências” dela encontrando membros do conselho em eventos de caridade para os quais ele a arrastava. Os comentários calmos e espontâneos dela sobre o mercado que sempre , sempre se mostravam corretos.
“Sofia, querida, podemos conversar sobre isso? Ontem à noite foi um erro. Eu estava estressada. Não foi minha intenção.”
Sofia levantou a mão.
Ele parou de falar instantaneamente. O poder daquele gesto simples era absoluto.
“Sr. Soler”, disse ela, com voz entediada. “Por favor, prossiga com a dispensa.”
Soler assentiu com um semblante sombrio. “Marcos Jennings está demitido com efeito imediato por conduta grave, em violação da cláusula de ética corporativa. Além disso, a Rainha Sofia invocou as cláusulas de fidelidade e conduta de seu acordo pré-nupcial.”
A mente de Marcos voltou àquele dia, quando assinou os papéis. Ele havia rido.
“Devido à sua comprovada infidelidade”, leu Soler monotonamente, “você perde todos os direitos a bens conjugais, bens comuns e pensão alimentícia. Visto que todos os principais bens, incluindo sua casa e veículos, foram adquiridos exclusivamente com o patrimônio próprio de Dona Sofia, você tem direito a… precisamente… nada.”
Nada.
A palavra ficou suspensa no ar.
“Mas as contas conjuntas!” gritou Marcos. “Meu salário! Minhas economias!”
Sofia falou novamente. “Suas economias, Marcos? As contas conjuntas eram uma conveniência que eu financiei. Seu salário era depositado lá, sim. Mas seus saques excederam em muito suas contribuições. Você viveu às minhas custas durante oito anos. Você simplesmente chamava isso de ‘seu salário’. Desde ontem à noite, essas contas estão encerradas para você.”
Uma mulher do departamento de Recursos Humanos, acompanhada por dois seguranças de semblante sério, entrou na sala. “Sr. Jennings, precisaremos do seu crachá, das chaves do carro da empresa e do seu telefone corporativo.”
Marcos tremia, o rosto uma máscara de fúria púrpura e terror absoluto. “Você… Você!” ele cuspiu para Sofia. “Você é uma bruxa!”
Os seguranças o agarraram pelos braços.
Sofia simplesmente o encarou, com uma expressão indecifrável. “Uma sanguessuga, Marcos”, disse ela suavemente. “Ela se alimenta de um hospedeiro para sobreviver. Você, no entanto, parece ter envenenado o hospedeiro e agora está surpreso por não ter nada para comer. Tire-o do meu prédio.”
A última coisa que Marcos viu enquanto era arrastado para fora, com os calcanhares raspando no mármore italiano, foi Sofia se virando para o conselho. “Agora, senhores, vamos falar sobre as projeções para o quarto trimestre. Vejo algumas ineficiências que pretendo corrigir.”
A humilhação no saguão foi um inferno sem precedentes. Fizeram-lhe marchar por entre centenas de funcionários, todos assistindo e filmando com seus celulares. O homem que entrara como um rei estava sendo conduzido para fora como um criminoso.
Assim que saíram, os guardas literalmente jogaram a caixa com os pertences dela aos seus pés, espalhando o conteúdo pela calçada. “Não volte”, rosnou um deles.
Marcos ficou ali parado, tremendo em seu terno caro.
Ele tentou ligar para Valeria. “O número que você discou não está em serviço.” Ela o havia bloqueado. Claro. Ele deve ter recebido a ligação do RH ao mesmo tempo.
Ela tentou usar seu cartão de crédito para chamar um táxi. A transação foi recusada.
Ela tentou outra. Rejeitada. E a seguinte. Rejeitada.
Ela consultou sua conta bancária pessoal no celular. Aquela que ela pensava não poder tocar.
Saldo: €43,12.
Ela cambaleou até o metrô. Uma raiva crescia em seu peito. Ele não podia tirar a casa dela. Estava no nome dos dois. Ela tinha se certificado disso. Iria contratar um advogado. Ele… Ele… O quê?
Ele chegou ao gramado impecável de sua mansão em La Moraleja. Foram duas horas de viagem de transporte público, um trajeto que não fazia há anos. Em vez de encontrar a entrada vazia, deparou-se com um pesadelo.
Uma placa grande e chamativa com os dizeres “VENDE-SE” estava afixada no gramado. Um corretor de imóveis de alto padrão, que eu não reconheci, estava mostrando a varanda a um casal sorridente.
“Com licença!” gritou Marcos, correndo pela trilha. “Que diabos é isso? Esta é a minha casa!”
A agente, uma mulher com um sorriso forçado, ergueu uma mão impecavelmente cuidada. “Senhor, terei que pedir que se retire. Esta é uma visita particular.”
“Privado? Eu moro aqui! Saia da minha propriedade!”
O sorriso do corretor não vacilou. “De acordo com a escritura que tenho aqui, esta propriedade pertence exclusivamente ao Fundo Fiduciário da Família Alarcón. Seu nome, Sr. Jennings, não consta nela. Agora, por favor, retire-se antes que eu chame a polícia.”
Ele tinha sido tão arrogante, tão convicto da sua mentira sobre os bens do casal, que nunca verificou a escritura definitiva. Ela estava brincando com ele desde o início.
Derrotado, ele foi para o único outro lugar onde podia ir: o apartamento de Valeria. Aquele pelo qual ele vinha pagando.
Quando ele chegou, a porta estava entreaberta e ouvia-se o som de uma correria frenética para arrumar as coisas lá dentro.
“Val!” ela gritou, entrando de repente.
Ela se virou, o rosto banhado em lágrimas e fúria. “VOCÊ!” ela gritou. “Você me arruinou!”
Ela atirou um sapato de salto alto na cabeça dele. Ele desviou.
“Fui despedido! Tiraram-me o carro da empresa! Estão a auditar as minhas despesas! A culpa é toda sua!”
Marcos estava perplexo. “Eu? Essa era a Sofia! Ela é… ela é a dona! Ela é dona de tudo!”
Valéria caiu na gargalhada. “E você não sabia? Seu idiota! Eu me apeguei a um cavalo morto! Pensei que você fosse um leão, Marcos. Um vice-presidente, um homem de verdade. Mas você não é nada. Você é só um… um brinquedo. Um bichinho de estimação do qual ele se cansou. Bem, eu não vou afundar com você. Some daqui!”
Ele o empurrou para o corredor e bateu a porta. A fechadura fez um clique.
Durante dois dias, Marcos dormiu no metrô, com o terno amassado e manchado. Vendeu seu relógio de € 2.000 por € 150 para comprar comida. Era um fantasma, invisível para a cidade que pensava estar prestes a conquistar.
Seu celular, com a bateria quase descarregada, vibrou. Era uma mensagem de texto de um número desconhecido.
Era uma única imagem.
Era a pequena aquarela “feia” da costa cinzenta. Agora, ela estava pendurada em uma parede vasta e minimalista em um escritório deslumbrante na cobertura. Através das janelas do chão ao teto atrás dela, todo o horizonte da cidade cintilava. Ela reconheceu a vista. Era o escritório particular do CEO na torre, as Quatro Torres, onde ninguém, nem mesmo Jiménez, jamais tivera permissão para entrar.
A pintura, que ele havia chamado de monótona e insípida, era a única coisa que adornava a parede. Era o seu troféu.
Chegou uma segunda mensagem. Era de Sofia.
“Esqueci de te agradecer, Marcos. Ao me expulsar, você me lembrou quem eu sou. Eu era feliz sendo esposa, mas nasci para ser uma Alarcón.”
“P.S.: O Grupo acaba de adquirir o banco que administra todos os seus empréstimos pessoais pré-casamento. Todos vencem agora.”
O telefone desligou.
Marcos afundou no banco frio do parque, a notificação de sua iminente falência total passando pela sua mente. Ele estava demitido. Estava sem-teto. Estava sem um tostão. E devia dinheiro a ela.
A mulher a quem ele chamara de parasita inútil acabara de provar que era dona de todo o oceano.
Ele enterrou o rosto nas mãos, um homem vazio e destruído, enquanto a noite fria caía sobre a cidade que ela possuía.
Seis meses depois, a cidade foi assolada por um inverno implacável. O homem encolhido na fila que serpenteava em volta do refeitório comunitário San Judas estava irreconhecível em comparação com o orgulhoso vice-presidente que outrora entrara com ar de superioridade na torre Alarcón.
Seu terno caro havia desaparecido há muito tempo, vendido por uma semana de comida. Agora ele vestia um casaco esfarrapado que encontrara na caixa de doações de um abrigo, fino e inútil contra o vento cortante. Marcos Jennings estava magro, o rosto coberto por uma barba rala e desgrenhada, os olhos opacos e vazios.
Ele tentou encontrar trabalho, mas a história de sua demissão e os processos subsequentes por suas dívidas o tornaram uma pessoa tóxica. Ninguém contrataria um homem na lista negra de Sofia Alarcón.
Ela tinha ouvido falar do que acontecera com Valeria. Depois de ser demitida e processada pelo Grupo Alarcón por peculato, ela declarou falência. A última notícia que teve foi que Valeria estava trabalhando como garçonete em outra cidade, morando com os pais, seu futuro brilhante e ambicioso reduzido a servir café.
Quase a invejei enquanto ela caminhava arrastando os pés, agarrada à sua tigela de plástico.
Seu olhar se desviou para o enorme placar eletrônico que percorria o prédio em frente ao refeitório comunitário. Ela não conseguia ignorá-lo. Lá, a dez metros de altura, estava seu rosto.
A manchete dizia: “REESTRUTURAÇÃO DA ALARCÓN, UM SUCESSO. PRESIDENTE SOFÍA ALARCÓN ELEITA LÍDER EMPRESARIAL DO ANO APÓS LUCROS RECORDES NO QUARTO TRIMESTRE.”
Ela observou a imagem digital dela sorrindo, confiante e serena, antes de mudar para um anúncio de um carro novo que ela jamais poderia sonhar em comprar. Sentiu a familiar bile amarga subir à garganta. Ele a havia chamado de sanguessuga. Era ele quem estava sugando sua vida. E ela nem sequer sabia disso. Ele era o parasita, e ela finalmente, calmamente, se livrara dele.
A fila andou. Ela pegou sua tigela de sopa rala e encontrou um lugar na calçada, invisível para o mundo.
Milhas acima dele, no escritório da cobertura do presidente, Sofía Alarcón não estava junto à janela, mas sim de frente para a pequena e monótona aquarela da costa cinzenta. Era a única obra de arte na vasta sala minimalista.
Seu advogado principal, Arturo Soler, estava ao seu lado.
“O conselho aprovou por unanimidade a sua iniciativa de energia verde, Rainha Sofia”, disse Arturo, com um raro toque de cordialidade na voz. “Jiménez e sua equipe tentaram obstruí-la durante anos. A senhora a aprovou em dois meses.”
“Jiménez era um substituto, Arturo. Ele tinha medo de causar problemas”, respondeu Sofía, com os olhos fixos na pintura. “Não se pode ser dono de um oceano e ter medo de causar problemas.”
“De fato”, disse Arturo. “E os últimos bens apreendidos do Sr. Jennings foram liquidados. Suas dívidas foram pagas. Ele não tem mais nada.”
Sofia ficou em silêncio por um instante. Estendeu a mão e tocou um grão de poeira imaginário na moldura simples do quadro. Pensou no homem que o arrancara da parede. O homem que a chamara de parasita inútil, fracassada, uma mulher sem graça.
Ela estava tão enganada. Ela não era o parasita. Ela era a hospedeira. E finalmente parou de deixar o parasita drená-la.
“Ótimo”, disse ela, com a voz clara e firme. Ela se afastou da pintura, do seu passado, e encarou o horizonte brilhante da cidade que se estendia diante dela como um mapa do seu futuro.
“Traga a equipe de aquisições, Arturo. É hora de expandir.”