Eles nos tiraram tudo, exceto uma vinha morta e 100 pesos: o segredo enterrado que destruiu minha madrasta e construiu um império.
CAPÍTULO 1: O JULGAMENTO DO ABUTRE
O calor naquele escritório não era normal. Era um calor abafado e sujo, daquele tipo que penetra na roupa e dá a sensação de que você não se lava há dias, mesmo tendo acabado de tomar banho. Era meados de julho no interior da Espanha, onde o sol não acaricia, mas castiga como um martelo contra uma bigorna. Mas o suor que escorria pelas minhas costas, gelado como gelo, não era por causa da temperatura. Era medo. Um medo primitivo, animalesco, que gritava para mim que minha vida, como eu a conhecia, estava prestes a acabar para sempre.
O tabelião Ruiz era um homem que eu sempre considerei uma figura de autoridade na cidade. Ele costumava cumprimentar meu pai, Fernando Álvarez, com um tapinha nas costas e um largo sorriso quando se encontravam na praça aos domingos. “Dom Fernando, que bela colheita este ano!”, dizia ele. Agora, porém, Ruiz parecia ter encolhido. Sentava-se atrás de sua enorme escrivaninha de mogno, abarrotada de papéis desorganizados e manchas de tinta, incapaz de erguer os olhos. Suas mãos rechonchudas e enrugadas tremiam visivelmente enquanto segurava o documento lacrado à sua frente. O papel amarelado farfalhava no silêncio da sala, um som que me lembrava folhas secas sendo esmagadas sob os pés.
À minha direita estava Valentina. Minha irmãzinha. Cinco anos de inocência e cachos castanhos. Ela vestia sua melhor roupa de domingo, um vestido azul com flores brancas que a mamãe comprara para ela meses antes de morrer, embora agora estivesse um pouco curto. Ela abraçava o Sr. Coelho , um bichinho de pelúcia que perdera um olho e tinha uma orelha rasgada, com tanta força que seus nós dos dedos estavam brancos. Seus pés não alcançavam o chão e balançavam nervosamente, batendo ritmicamente nas pernas da cadeira de madeira. Toc, toc, toc . Aquele som era a única coisa que me mantinha ancorada na realidade.
E bem na nossa frente… ela estava.

Gabriela Ruiz de Álvarez. Minha madrasta. A mulher que entrou em nossas vidas dois anos depois que mamãe, minha amada Elena, morreu dando à luz Valentina. No começo, Gabriela era doce, ou pelo menos era o que pensávamos. Ela trazia presentes, sorria para papai, preparava o jantar para nós. Mas crianças e cachorros percebem as intenções, e eu sempre notei algo estranho em seu perfume: era doce demais, forte demais, feito para mascarar algo podre. Hoje, três dias depois do enterro de papai, vítima daquele ataque cardíaco fulminante, Gabriela não estava mais fingindo.
Ela estava reclinada em sua cadeira, com as pernas elegantemente cruzadas. Usava um vestido preto de grife que custava mais do que a comida de um ano inteiro para qualquer família da aldeia. Apesar de estar dentro de casa, usava enormes óculos escuros que escondiam seus olhos, mas não conseguiam disfarçar a curva cruel de seus lábios vermelho-sangue. Não havia uma única lágrima em seu rosto. Nenhum lenço amassado em sua mão. Apenas impaciência.
“Podemos terminar com isso hoje, Ruiz?”, disse Gabriela. Sua voz soava metálica, desprovida de qualquer emoção humana. “Tenho um jantar às oito e esse calor está estragando meu penteado.”
O tabelião pigarreou, produzindo um som úmido e desagradável. Desapertou o nó da gravata, que parecia estar lhe apertando o pescoço.
“Sim, sim, claro, Sra. Álvarez. Vamos prosseguir… vamos prosseguir com a leitura do testamento do Sr. Fernando Álvarez”, disse Ruiz, com a voz embargada na última sílaba.
Sentei-me ereto na cadeira. Meu pai sempre me dizia: “Diego, quando as coisas ficarem difíceis, mantenha as costas retas e o queixo erguido. Você é um Álvarez.” Então, firmei os calcanhares no chão, alonguei a coluna e respirei fundo, tentando ignorar a náusea que se agitava em meu estômago vazio.
—“Eu, Fernando Álvarez…” —Ruiz começou a ler— “…em pleno poder das minhas faculdades mentais, passo a ditar meu último testamento…”
O jargão jurídico zumbia nos meus ouvidos, mas eu só esperava pelo que importava. Papai havia nos prometido que sempre estaríamos bem cuidados. O vinhedo La Esperanza prosperava, uma das melhores propriedades da região. Tínhamos a casa grande, os tratores, as adegas. Era um legado transmitido por gerações.
—“…Para minha amada esposa, Gabriela Ruiz de Álvarez…” —o tabelião fez uma pausa, engoliu em seco ruidosamente e continuou mais rapidamente, como se quisesse cuspir o veneno de uma só vez— “…Deixo para ela toda a Casa Senhorial, incluindo móveis, joias e utensílios domésticos. Deixo também para ela o Vinhedo Principal de sete hectares em plena produção, com denominação de origem, todas as máquinas de vinificação, os três veículos da família e todos os fundos nas contas bancárias do Banco Santander e da Caja Rural.”
O silêncio que se seguiu àquela frase foi ensurdecedor. Senti como se o chão tivesse se aberto sob minha cadeira e eu estivesse caindo em um abismo escuro. O mundo inclinou-se ligeiramente para a esquerda.
Tudo? A casa? O vinhedo do meu pai? O dinheiro?
Olhei para Gabriela. Ela ajustou os óculos de sol e, por um segundo, vi um sorriso triunfante surgir no canto de seus lábios. Era o sorriso de uma predadora que acaba de capturar sua presa e sabe que não há escapatória.
—E… quanto a nós? —A voz de Valentina quebrou o silêncio. Ela era tão pequena, tão frágil, que eu tive vontade de gritar para protegê-la.
O tabelião Ruiz empalideceu ainda mais, se é que isso era possível. Sua testa brilhava de suor. Ele evitou olhar para a garota. Fixou o olhar em um ponto indefinido na parede atrás de nossas cabeças.
—“Aos meus filhos, Diego e Valentina Álvarez Moreno…” —leu ele, baixando a voz uma oitava para um sussurro vergonhoso— “…deixo-lhes a propriedade conhecida como ‘El Lindero Este’, que consiste no antigo alojamento dos trabalhadores sazonais e nos cinco hectares de terra pedregosa adjacente, anteriormente cultivada experimentalmente pela minha falecida primeira esposa, Elena. Um pagamento único em dinheiro de 100 pesos (aproximadamente 5 euros à taxa de câmbio atual, mas usaremos a moeda local para efeitos desta conta) também é estabelecido para cobrir despesas imediatas.”
Cem pesos.
Cem malditos pesos.
Nenhum músculo do meu corpo se moveu. O choque foi tão profundo que eu nem conseguia processar a magnitude da traição. Papai jamais teria feito isso. Papai amava Valentina mais do que a própria vida. Papai me ensinou a podar as trepadeiras com a delicadeza de um cirurgião. Papai não nos deixaria na rua.
“A fronteira leste?” Gabriela soltou uma risada curta e seca, como um latido. Tirou os óculos escuros com um movimento teatral, revelando olhos frios e calculistas da cor de gelo sujo. “Ah, a seção morta. Que… poético.”
Ela se inclinou para a frente, invadindo nosso espaço. O aroma do seu perfume caro me atingiu como um tapa na cara.
—Aquelas videiras murchas que sua mãe, a grande “cientista”, plantou enquanto estava grávida de… aquela ali—ela apontou para Valentina com o dedo indicador impecavelmente cuidado, a unha longa e vermelha parecendo uma garra—. Plantas que nunca produziram uma única uva. Exatamente como os sonhos estúpidos da sua mãe.
“Senhora, por favor…” o tabelião Ruiz tentou intervir timidamente.
“Cala a boca, Ruiz!” ela disparou sem olhar para ele, com os olhos fixos nos meus. “É justo, Diego. Sua mãe esbanjou a fortuna do seu pai em experiências botânicas absurdas naquele deserto. E quando finalmente teve este filho, seu corpo não aguentou. Ela morreu de teimosia.”
Ele se virou para Valentina, e seu rosto se contorceu numa máscara de puro desprezo.
“Sua mãe morreu ao dar à luz a você. Seu corpo não aguentou, pois estava fraco de tanto trabalhar naquela terra amaldiçoada. Então agora, meu querido, você viverá com o fracasso dela. É o ciclo natural, não acha?”
Valentina começou a chorar. Não era um choro alto, era aquele choro silencioso e aterrador em que o peito se agita e as lágrimas escorrem, mas nenhum som sai porque a dor é grande demais para ser expressa em palavras.
Eu a puxei para perto de mim, abraçando sua cabeça contra meu peito e tapando seus ouvidos com as mãos.
“Não dê ouvidos a ela, Valen. Não dê ouvidos a ela”, sussurrei em seu ouvido, embora eu mesma estivesse tremendo.
Gabriela levantou-se, alisando seu vestido impecável.
“Essas plantas mortas são a herança perfeita para os filhos de um sonhador fracassado. Uma cabana dilapidada e uma terra árida onde nem mesmo ervas daninhas crescem. É tudo o que vocês merecem. E se apressem e saiam da minha casa. Quero vocês fora antes do anoitecer.”
Levantei o olhar. Meus olhos castanhos, idênticos aos da minha mãe, segundo todos, encontraram os de Gabriela. Naquele instante, algo dentro de mim, algo infantil e ingênuo, morreu para sempre. E em seu lugar, nasceu algo duro, frio e resistente como aço.
Eu não chorei. Não lhe dei essa satisfação. Não implorei. Apenas a encarei com uma intensidade que a fez, por uma fração de segundo, dar um meio passo para trás e desviar o olhar.
“Ela não era uma sonhadora”, eu disse. Minha voz soava estranha aos meus próprios ouvidos, profunda, calma, mortal. A voz de um homem no corpo de uma criança. “Ela era uma botânica. A melhor que esta Terra já viu.”
Gabriela soltou uma risada nervosa e colocou os óculos de volta.
“E o que a botânica lhe deu, Diego?”, perguntou ele em tom de deboche enquanto caminhava em direção à porta. “Uma sepultura. E para você, miséria.”
Ela saiu do escritório, deixando para trás o eco de seus saltos batendo no piso de madeira e um rastro de perfume caro.
O tabelião Ruiz desabou na cadeira, escondendo o rosto nas mãos.
“Me desculpem, pessoal… Me desculpem mesmo”, murmurou ele. “Mas é legal. O testamento… está assinado. Não há nada que eu possa fazer.”
Peguei os 100 pesos que ela havia deixado sobre a mesa. Uma nota amassada e suja. Peguei a mão de Valentina.
—Vamos lá—eu disse a ele.
“Para onde, Diego?”, perguntou ela entre soluços.
“Lar”, menti. “Para o nosso novo lar.”
CAPÍTULO 2: O ÊXODO DAS BOLSAS PRETAS
Duas horas depois, estávamos parados na entrada de cascalho daquela que tinha sido nossa casa por toda a vida. O sol das quatro da tarde batia forte, distorcendo o ar sobre o asfalto. As cigarras cantavam alto, um zumbido constante que piorava minha dor de cabeça.
Rosa, nossa governanta, uma mulher robusta, de braços fortes e coração de ouro, chorava abertamente. Seus olhos estavam inchados e vermelhos. Em suas mãos, ela segurava um pacote de sacos de lixo industriais, aqueles grandes e pretos usados para resíduos de jardim.
“Crianças, pelo amor de Deus, me perdoem”, soluçou Rosa enquanto enfiava nossas roupas nas malas de qualquer jeito. Camisetas misturadas com sapatos, livros com roupas íntimas. Era o caos de um despejo. “Eu não quero fazer isso. Se dependesse de mim, eu levaria vocês para minha casa, mas…”
“Mas se você fizer isso, ele vai te demitir e você vai ficar sem emprego, e você tem três filhos para alimentar”, completei a frase por ela. Minha voz ainda era monótona, vazia.
Rosa assentiu com a cabeça, constrangida.
“Aquela mulher… ela é o diabo”, sussurrou ele, olhando para a janela do segundo andar, onde sabíamos que Gabriela nos observava. “Escuta, Diego.”
Rosa certificou-se de que ninguém estava olhando e enfiou a mão no avental. Tirou uma nota de 20 pesos e um pacote de biscoitos Maria meio aberto. Colocou os dois no bolso do meu short.
—É tudo o que tenho comigo. Esconda. Não deixe que ele veja.
—Obrigada, Rosa.
Seis sacos de lixo. Era tudo o que restava da vida da família Álvarez. Roupas, alguns livros escolares, o bichinho de pelúcia da Valentina e uma foto emoldurada dos meus pais no dia do casamento, que consegui resgatar do criado-mudo antes que Gabriela invadisse meu quarto gritando.
A porta da frente se abriu de repente. Gabriela apareceu, segurando uma taça de vinho branco gelado.
“Vamos! Não tenho o dia todo! Preciso desse espaço livre para os meus convidados”, gritou ela. “E não levem nada que não seja seu. Já fiz o inventário.”
Eu carregava três sacolas no ombro esquerdo. Estavam pesadas. Senti o plástico esticar e pressionar minha pele. Com a mão direita, peguei uma quarta sacola.
“Certo, pode levar essa?” Apontei para a sacola menor, que continha seus brinquedos e algumas roupas.
Valentina assentiu com a cabeça, fungando. Ela apertou a sacola com as duas mãos, cambaleando sob o peso, mas não reclamou. Abraçou o Sr. Coelho contra a sacola, com o braço encostado nela.
Começamos a caminhar. O som do cascalho rangendo sob nossos tênis baratos era o único som além das cigarras. Eu não olhei para trás. Sabia que se olhasse para trás, se visse a janela do meu quarto, o balanço no jardim onde papai costumava me empurrar, a roseira que mamãe havia plantado… eu me quebraria. E eu não podia me dar ao luxo de me quebrar. Não agora. Valentina precisava de mim inteira.
Caminhamos pela trilha empoeirada que saía da mansão e adentrava os campos. O calor era sufocante. Em dez minutos, minha camisa estava encharcada de suor. A poeira subia a cada passo, cobrindo-nos com uma fina camada cinza, que penetrava em nossas gargantas e olhos.
—Diego… —A voz de Valentina era um fio—. Estou com sede.
—Estamos quase lá, Valen. Aguente firme mais um pouco.
—Onde vamos dormir?
Olhei para a frente, em direção ao horizonte que cintilava com o calor. A cerca de dois quilômetros de distância, isolada do resto da próspera fazenda, uma mancha acinzentada era visível entre fileiras de postes retorcidos. A Fronteira Leste.
“Ali”, apontei. “Na casinha de campo.”
“A casa das aranhas?” perguntou Valentina, com os olhos arregalados de terror. Era assim que a chamávamos quando éramos crianças. Era uma ruína onde nunca nos deixavam brincar.
“Vamos limpar. Vai ser uma aventura, como nos contos de fadas”, menti novamente. Eu estava perigosamente boa em mentir naquele dia.
“Eu não quero ir lá, Diego. Estou com medo. Quero o papai.”
Parei. Larguei as sacolas, que caíram no chão em uma nuvem de poeira. Ajoelhei-me diante dela, ignorando as pedras que cravavam nos meus joelhos. Afastei uma mecha de cabelo suado da sua testa. Suas bochechas estavam vermelhas pelo esforço e pelo calor.
“Escuta, Valentina”, eu disse, olhando-a diretamente nos olhos. “Papai não está aqui. Mamãe não está aqui. Mas eu estou. Olha para mim. Você me vê?”
Ela assentiu com a cabeça, com os olhos cheios de lágrimas.
—Enquanto eu estiver respirando, nada de ruim vai te acontecer. Entendeu? Nada. Eu sou o homem da casa agora. E eu prometo, pela alma da minha mãe, que tudo vai ficar bem. Vamos transformar essa casa empoeirada num castelo.
Ela me abraçou pelo pescoço, soluçando contra meu ombro sujo. Deixei-a chorar por um minuto. Depois, levantei-me, peguei as sacolas novamente — que agora pareciam pesar o dobro — e continuamos caminhando.
A jornada parecia interminável. Cada passo era uma tortura. A 500 metros do destino, Valentina não aguentou mais. Suas pernas de cinco anos simplesmente cederam. Ela se sentou na poeira, derrotada.
—Não posso, Diego. Meus pés doem.
Sem dizer uma palavra, coloquei as sacolas no chão. Inclinei-me.
—Sobe nas minhas costas.
—Mas as malas…
-Entrem.
Valentina subiu nas minhas costas e me abraçou pelo pescoço com seus bracinhos. Levantei-me, cambaleando. Carreguei as sacolas como pude, arrastando duas e carregando outra pendurada no braço. Parecia uma mula de carga, suando, ofegante, com os músculos queimando.
Um passo. Outro. Outro. O sol começava a se pôr, tingindo o céu de um laranja sangrento, zombando de nossa miséria com sua beleza.
Daquela distância, eu conseguia ver todo o vinhedo. Cinco hectares. Era uma visão desoladora. Vinhas cinzentas, retorcidas e secas, como mãos esqueléticas emergindo da terra, implorando água ao céu indiferente. Nem uma única folha verde. Nenhum vestígio de vida. Apenas fileiras intermináveis de morte sob o céu impiedoso.
E ao fundo, quase invisível em meio à vegetação rasteira seca, a “barraca”.
Quando finalmente chegamos à porta, meus braços tremiam tanto que mal conseguia movê-los. Coloquei Valentina no chão com cuidado e larguei as sacolas. Minhas mãos estavam vermelhas, marcadas pelo plástico.
Observei a estrutura. “Casa” era uma palavra generosa demais. Era uma cabana de pedra e adobe, construída cinquenta anos atrás para servir de abrigo para trabalhadores sazonais durante a colheita. O telhado de telhas estava cedendo em um canto. A porta de madeira estava apodrecida na base e pendurada por uma única dobradiça enferrujada.
Empurrei a porta. O rangido foi agudo, como o grito de um animal.
A escuridão lá dentro era quase total, embora ainda estivesse claro lá fora. O cheiro me atingiu como um soco no estômago: fezes de rato, mofo, poeira velha e algo mais… o cheiro de abandono.
Dei um passo para dentro, esperando que meus olhos se acostumassem à temperatura.
Um único quarto. Chão de terra batida. Num canto, uma cama de metal enferrujada sem colchão. Noutro, um fogão a lenha com a chaminé meio desmoronada, repleta de ninhos de pássaros. Teias de aranha pendiam do teto como cortinas cinzentas fantasmagóricas. Não havia janelas com vidros, apenas buracos negros na parede por onde entravam o vento, e certamente a chuva.
“Aqui não…” Valentina resmungou atrás de mim, recuando. “Os monstros vivem aqui.”
Virei-me para ela, forçando um sorriso que me doeu o rosto.
“Não existem monstros, Valen. Apenas poeira. E a poeira pode ser limpa.”
Passei as três horas seguintes, as últimas da manhã, trabalhando como um louco. A adrenalina e a raiva me deram uma força que eu não sabia que tinha.
Arranquei um galho seco de um arbusto próximo e usei-o como vassoura para varrer os excrementos de rato e o lixo. Retirei pedras, latas enferrujadas e trapos velhos que se desfaziam ao toque.
Arrastei o colchão fino e manchado que Gabriela nos permitiu trazer (provavelmente o da casinha do cachorro) e o coloquei no canto menos sujo, longe do buraco no teto.
Valentina me ajudou como pôde, usando suas mãozinhas para pegar gravetos, embora desse um pulo toda vez que via uma aranha.
Não havia água corrente. A torneira enferrujada na parede externa tossia ar seco e poeira vermelha quando eu a abria. Nada. Nem uma gota.
Não havia eletricidade. Quando o sol se punha atrás das colinas, a escuridão descia sobre nós como um cobertor pesado e sufocante. Escuridão absoluta, daquelas que não existem na cidade.
Sentamo-nos no colchão. Acendi uma pequena vela que tinha encontrado numa gaveta da cozinha antes de sairmos. A chama bruxuleante iluminava as paredes de pedra nuas, projetando sombras longas e dançantes que pareciam espectros.
“Estou com fome”, disse Valentina. Ela não comia nada além de medo havia 14 horas.
A voz dela soava tão fraca, tão perdida em meio àquele vazio, que senti meu coração se partir em dois.
Revirei meu bolso. Os 20 pesos da Rosa. O pacote de biscoitos.
“Tenho uma surpresa”, eu disse, tirando o pacote entreaberto como se fosse um tesouro. “Um jantar de gala!”
Dei-lhe três biscoitos. Ela os devorou em segundos, deixando apenas migalhas nos lábios.
—Você não está comendo, Diego?
Meu estômago roncou, um som gutural de protesto. Apertei-o com a mão.
“Não, eu comi bastante antes de sairmos. Estou satisfeita”, menti. Outra mentira. Eu estava com tanta fome que me sentia tonta, mas só restavam quatro biscoitos e eu não sabia quando conseguiríamos mais comida.
“Estou com sede”, disse ela depois de comer os biscoitos. Sua boca estava com uma sensação pastosa.
—Amanhã. Amanhã iremos à aldeia e beberemos toda a água da fonte. Agora precisamos dormir.
Valentina aconchegou-se a mim no colchão que cheirava a mofo e cachorro. Ela abraçou o Sr. Coelho e fechou os olhos.
—Diego…
-O que está acontecendo?
Será que a mamãe está nos observando?
Olhei para o buraco no teto. Através dele, pude ver uma estrela brilhante, solitária no céu escuro.
“Sim”, sussurrei, com a garganta apertada. “Ela está nos observando. E está furiosa com Gabriela. Então não se preocupe, mamãe está cuidando de nós.”
Valentina finalmente adormeceu, vencida pelo cansaço. Eu permaneci acordado.
Escutei os sons da noite. Um coiote uivando à distância. O vento assobiando entre os cipós secos, produzindo um som como um lamento, como se as próprias plantas estivessem chorando. O rangido da velha porta de madeira.
Tenho 10 anos. Sou o homem da casa. Papai não está aqui. Mamãe não está aqui. Sou só eu.
A dimensão da nossa situação me atingiu em cheio. Não tínhamos água. Tínhamos comida suficiente para um dia, se economizássemos nos biscoitos. Tínhamos 120 pesos no total (os 100 da herança e os 20 da Rosa). E tínhamos cinco hectares de plantas mortas que todos diziam ser inúteis.
Tirei a jaqueta de trabalho velha do meu pai de uma das sacolas. Me cobri com ela como se fosse um cobertor. Tinha o cheiro dele. Cheirava a tabaco escuro, terra úmida, o perfume barato que ele usava. Enterrei o rosto no tecido áspero e, pela primeira vez desde que tudo isso começou, me permiti chorar.
Chorei em silêncio para não acordar Valentina. Chorei de raiva. De medo. De impotência. Chorei até não ter mais lágrimas e meus olhos arderem.
E então, quando o choro cessou, algo mais permaneceu. Uma brasa ardente no fundo do meu peito.
Lembrei-me do olhar de Gabriela. “Esses eram os sonhos estúpidos da sua mãe. O fracasso dela.”
Levantei-me com cuidado para não acordar minha irmã. Caminhei até a porta rangente e saí para a noite. A lua cheia iluminava o vinhedo fantasmagórico. As videiras retorcidas pareciam estender-se em minha direção.
Abaixei-me e peguei um punhado de terra. Estava seca, empoeirada e escorregava entre meus dedos como areia. Mas era terra. Nossa terra.
“Mamãe não era boba”, murmurei para a noite. “Mamãe era cientista. Se ela plantou isso, foi por algum motivo.”
Olhei para as intermináveis filas da morte.
“Não sei como”, eu disse às plantas mortas, “mas vou acordá-las. Vou fazer vocês darem uvas, mesmo que tenha que regá-las com meu próprio sangue.” E Gabriela vai engolir cada palavra que eu disse.
Naquela noite, sob as estrelas e rodeado de ruínas, Diego, o menino, morreu um pouco mais, e Diego, o sobrevivente, assumiu o comando.
CAPÍTULO 3: A BUSCA PELA ÁGUA E O COELHO BRANCO
O amanhecer no campo não tem nada de romântico quando se acorda com a boca cheia de poeira e os lábios rachados de sede. O sol nasceu implacavelmente, prometendo mais um dia de calor infernal.
Valentina acordou chorando.
—Estou com sede, Diego. Minha garganta está doendo.
Verifiquei a torneira externa novamente. Nada. Bati no cano com uma pedra, na esperança de um milagre. Apenas um som oco e metálico.
—Fique aqui, Valen. Na sombra. Não se mexa. Vou até o poço antigo.
Eu sabia que havia um poço artesiano perto da divisa norte do nosso pequeno terreno. Corri até lá, ignorando a fome. O poço era uma estrutura de pedra com uma manivela enferrujada. Espiei lá dentro. Estava escuro.
Atirei uma pedra. Demorou um segundo para atingir o fundo. O som foi seco. Clack . Pedra contra pedra. Nem um respingo.
Seco. O poço estava seco.
O pânico subiu-me à garganta. Sem água, não duraríamos dois dias neste calor. Morreríamos de desidratação em nosso próprio território.
Corri de volta para a cabana.
—Certo, levem as garrafas de plástico vazias que trouxemos para o lixo. Vamos para a cidade.
—É longe?
—Três quilômetros. Nós conseguimos.
Caminhamos sob o sol. Foi uma marcha da morte. Valentina reclamava a cada passo. Às vezes eu a carregava, às vezes a arrastava pela mão. Quando chegamos à praça da cidade, nos atiramos na fonte pública como animais selvagens.
Bebemos até a barriga doer. Enchemos as duas garrafas de 1,5 litro que tínhamos.
Compramos um pão amanhecido (era mais barato) e uma lata de feijão com os 20 pesos da Rosa. Ainda tínhamos os 100 pesos da herança, intocados. Precisávamos fazê-los durar.
A viagem de volta foi pior. Carregar água sob o sol do meio-dia foi exaustivo.
Passaram-se dois dias. A água era racionada. Um gole por hora. O pão ficou duro como pedra; tínhamos que molhá-lo na água para conseguir mastigá-lo.
No terceiro dia, o calor se intensificou. Era um calor sufocante que fazia o ar vibrar.
“Diego, a água acabou”, disse Valentina, sacudindo a última garrafa. Só restavam algumas gotas.
Olhei para o céu, procurando uma nuvem. Nada. Um azul impassível.
—Preciso voltar para a aldeia.
-Estou chegando!
“Não, Valen. Você está muito cansado. Veja só, seus lábios estão brancos. Fique aqui, dentro da cabine, onde é mais fresco. Já volto. Correndo.”
—Não me deixe sozinho. Tenho medo de aranhas.
—Eu disse para eles não te incomodarem. Leve o Sr. Coelho . Ele vai te proteger. Volto em uma hora, prometo.
Saí correndo com as garrafas vazias. Minhas pernas estavam pesadas, mas o medo de que Valentina desmaiasse me manteve em pé.
Valentina, porém, tinha a teimosia da família Álvarez. Dez minutos depois que eu saí, o tédio e o calor a venceram. Ela saiu da cabana arrastando seu bicho de pelúcia.
Ele caminhava entre as fileiras de trepadeiras mortas, procurando uma flor, um inseto, alguma cor naquele mundo cinzento.
Então ele viu.
Um coelho de verdade. Marrom, com um rabo branco e fofo. Estava sentado à sombra de uma trepadeira retorcida, mexendo o nariz.
Aos olhos de uma menina de cinco anos que havia perdido tudo, aquilo era mágico.
“Coelhinho!” ela sussurrou.
O coelho deu um pulo e correu alguns metros. Parou e olhou para ela.
Valentina sorriu pela primeira vez em dias. Ela largou seu bichinho de pelúcia e caminhou lentamente para a frente.
—Vem cá, coelhinho. Eu não vou te machucar.
O coelho saltou novamente, adentrando ainda mais o labirinto de cipós secos, em direção à parte mais rochosa e selvagem do terreno, onde a vegetação rasteira crescia alta e espinhosa.
Valentina o seguiu.
—Espere… eu quero ser seu amigo.
Ela correu atrás dele. Para a esquerda, para a direita, saltando sobre raízes expostas. O coelho parecia estar brincando com ela, levando-a cada vez mais para longe da cabana.
Chegaram a uma área onde o terreno subia ligeiramente, coberto de grandes rochas e arbustos secos. O coelho desapareceu atrás de um denso matagal.
“Te peguei!” gritou Valentina, lançando-se em direção ao arbusto.
Mas não havia chão atrás do arbusto.
O mundo desapareceu sob seus pés. A terra cedeu.
Valentina nem teve tempo de gritar antes de cair. Seu pequeno corpo despencou na escuridão, atingindo a terra e as raízes, rolando para as entranhas do solo.
—Ahhhhh!
O grito foi agudo, interrompido abruptamente pelo impacto final.
Então, silêncio. Apenas o zumbido das cigarras e o sol queimando as pedras.
Eu estava voltando da cidade. Corri o caminho todo. As garrafas cheias tilintavam contra meus quadris. Eu estava a uns 500 metros da cabana quando ouvi o grito. Era distante, abafado, mas eu conhecia a voz da minha irmã melhor do que a minha.
—VALENTINA!
Deixei cair uma das garrafas para correr mais rápido. Meu coração batia forte na garganta, como um soco.
Cheguei à cabana. Vazia. O Sr. Coelho estava deitado de bruços no chão.
“VALENTINA! VALENTINA!” gritei, girando nos calcanhares, procurando seu vestido azul no mar de cinza.
—Diego! —uma voz fraca e abafada que parecia vir de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo.
Onde você está? Grite mais alto!
—Aqui! Abaixo! Diego, estou com medo!
Segui a voz. Corri entre as fileiras, arranhando as pernas nos espinhos. “Para baixo.” O que significava “para baixo”?
Cheguei à área rochosa. Vi a trilha. Pequenas pegadas de tênis na poeira, terminando abruptamente atrás de um grande arbusto.
Aproximei-me com cuidado. Afastei os galhos secos.
Um buraco. Não, não um buraco qualquer. Era uma abertura no chão, com quase dois metros de largura, escondida por anos de ervas daninhas e abandono. Parecia a entrada de uma caverna ou o desabamento de um túnel antigo.
Olhei para fora. Escuridão total.
—Valen?
—Diego! Minha perna dói. Está tudo escuro. Tem… tem um monstro respirando.
—Não se mexa. Vou descer.
Eu não tinha corda. Eu não tinha lanterna. Mas eu tinha minha irmã lá embaixo.
Sentei-me na beira, tateando com os pés em busca de apoio. O chão estava solto. Escorreguei. Caí cerca de dois metros, deslizando por uma encosta de terra e pedras até aterrissar em solo firme.
O ar aqui embaixo era diferente. Frio. Úmido. Cheirava a… musgo?
Meus olhos levaram alguns segundos para se ajustar à penumbra. A luz do sol entrava pelo buraco acima como um holofote divino, iluminando uma nuvem de poeira suspensa.
Valentina estava encolhida em posição fetal a poucos metros de distância, soluçando.
Rastejei em direção a ela e a abracei.
—Eu te protejo. Estou aqui. Você está ferido?
—Ralei o joelho. E torci o tornozelo.
Examinei seus ossos com as mãos. Parecia que nada estava quebrado, apenas hematomas.
“O coelho… foi por ali”, disse ele, apontando para a escuridão mais profunda do túnel.
Olhei para onde ele apontava. Era uma galeria natural, talvez um antigo tubo vulcânico ou uma formação calcária, que se estendia sob nossas terras.
E então eu também ouvi. O som que ela havia confundido com a respiração de um monstro.
Glug. Glug. Shhhhhhh.
Ele não era um monstro.
—Fique aqui—eu disse a ele.
-Não!
—Vou ver o que é isso. São três etapas.
Avancei na escuridão, tateando o caminho ao longo da parede rochosa. Estava molhada.
Dei mais três passos. Meus tênis respingaram água.
Água.
Olhei para baixo. Um fio de água corria pelo chão de pedra. Acompanhei o fluxo com os olhos até que eles se acostumassem à escuridão.
No fundo da caverna, jorrando de uma fenda na rocha, havia uma nascente. Água cristalina, pura e fria jorrava, enchendo uma pequena piscina natural antes de desaparecer por um canal esculpido à mão na pedra que levava… para cima. Em direção às raízes.
Caí de joelhos. Coloquei as mãos na água. Estava gelada. Bebi. Era doce, mineral, perfeita.
“Valentina!” gritei, rindo e chorando ao mesmo tempo. “É água! Tem um rio aqui embaixo!”
Ela se aproximou, mancando. Lavei seu rosto com água fresca. Bebemos até nos fartarmos.
Enquanto ela brincava na água, reparei na parede de pedra perto da nascente. Havia algo esculpido na pedra. Não era natural. Eram marcas de cinzel.
Aproximei-me, passando os dedos pelas frestas.
EA 2015.
Elena Álvarez. 2015. O ano em que ela começou a plantar a vinha.
E abaixo, uma flecha esculpida e uma palavra: ESPERANÇA .
Um arrepio percorreu minha espinha. Mamãe estivera aqui. Mamãe encontrara esta nascente escondida.
Observei o canal escavado no chão. Ele acompanhava o curso da água, que desaparecia por um antigo cano de cerâmica embutido na parede, subindo em direção à superfície.
“Um sistema de irrigação subterrâneo”, sussurrei, compreendendo de repente. “Ela não estava louca. Ela encontrou a água e construiu um sistema para irrigar as raízes por baixo, para que não evaporasse ao sol.”
“Foi a mamãe que fez isso?”, perguntou Valentina, tocando as letras.
—Sim, Valen. Mamãe sabia que havia água aqui. Foi por isso que ela comprou este terreno “inútil”. Foi por isso que ela plantou aqui.
As videiras acima não estavam mortas porque o solo era ruim. Elas estavam mortas, ou dormentes, porque o sistema havia ficado obstruído ou parado.
“Precisamos sair daqui”, eu disse, sentindo uma nova energia. “Temos muito trabalho a fazer.”
Saímos com dificuldade, ajudando-nos mutuamente a escalar as raízes que pendiam do buraco. Quando emergimos, o sol parecia menos impiedoso. Não estávamos mais sozinhos no deserto. Estávamos sentados em um oceano secreto.
Naquela noite, de volta à cabana, não consegui dormir. A imagem das letras EA 2015 queimava na minha mente. Se a mamãe tinha escondido uma mola inteira… o que mais ela teria nos deixado?
—Valen, onde está a vela?
—Terminou ontem à noite.
-Merda.
Eu tateei no escuro. Lembrei-me de que nos filmes as pessoas escondem coisas debaixo da terra. Era um clichê, mas era tudo o que eu tinha.
Comecei a bater com o calcanhar no chão de madeira podre da cabana.
Toc. Toc. Toc. (Sólido).
Toc. Toc. Toc. (Sólido).
Croac! (Oco).
Parei. Estava debaixo da cama velha.
Afastando o colchão, notei uma tábua ligeiramente mais alta que as outras. Coloquei os dedos na fresta e puxei com força. A madeira velha rangeu e cedeu, levantando uma nuvem de poeira.
Coloquei a mão no buraco escuro. Meus dedos tocaram algo frio e liso. Plástico.
Retirei um pacote envolto em várias camadas de sacos plásticos grossos, lacrado com fita adesiva prateada.
Abri desesperadamente, rasgando o plástico com os dentes.
Dentro havia um livro. Um caderno de campo de couro marrom, gasto pelo uso, com as pontas dobradas. E em cima do caderno, um envelope branco com dois nomes escritos na caligrafia elegante e inconfundível da minha mãe:
Para Diego e Valentina.
Senti o ar escapando dos meus pulmões. Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei o envelope cair.
“O que é isso?” perguntou Valentina, acordando com o barulho.
“É da mamãe”, eu disse, com a voz embargada. “Ela nos deixou uma carta.”
Abri o envelope à luz do luar que entrava pela porta entreaberta. Retirei a carta.
“Meus amados filhos:
Se você está lendo isto, significa que meus piores medos se concretizaram e eu não estou mais com você. A gravidez de Valentina é complicada. Meu coração está exausto. Mas meu amor por você é inesgotável.
Eu sei que Fernando, seu pai, é um bom homem, mas ele é ingênuo. E eu tenho medo da Gabriela. Vejo o jeito como ela olha para a terra. Ela vê dinheiro. Eu vejo vida.
Se você ficou sozinho com a Fronteira Leste, não chore. Enxugue suas lágrimas agora mesmo. Porque eu lhe deixei a coisa mais preciosa que possuo. Não é ouro, nem joias. É o futuro.
Este vinhedo não está morto, Diego. Está apenas dormente. Enxertei uma variedade antiga, anterior à filoxera, que eu pensava estar extinta. É resistente, é forte, como você. Mas precisa de cuidados especiais. Precisa de água da nascente profunda.
Este caderno contém todas as minhas anotações. Meus segredos. A fórmula do solo. Os ciclos de poda. Tudo o que aprendi em vinte anos de botânica está nestas páginas.
Gabriela conseguirá facilmente a casa e a vinha. Mas essa vinha é velha e desgastada. A sua… a sua é pura magia à espera de despertar.
Diego, cuide da sua irmã. Valentina, dê forças ao seu irmão.
E lembre-se: o que é plantado com amor verdadeiro jamais morre. Apenas espera pelas mãos certas.
Eu te amo além da morte.
Mãe.”
Lágrimas caíram sobre o papel, manchando a tinta azul. Eu abracei Valentina e li a carta para ela. Choramos juntas, mas desta vez não era um choro de desespero. Era um choro de alívio. De conexão.
Não éramos órfãos perdidos. Éramos herdeiros de um segredo. Tínhamos um mapa. Tínhamos água. E tínhamos uma missão.
“Amanhã”, eu disse, fechando o punho sobre o jornal, “começaremos a acordar os adormecidos.”
CAPÍTULO 4: A BÍBLIA DE COURO E A MULHER DA IGREJA
A manhã seguinte à descoberta da fonte e do diário não trouxe um milagre imediato, mas sim a dura realidade da luz do dia. Tínhamos água, sim, e um livro cheio de esperança, mas o estômago de Valentina continuava a roncar com a ferocidade de um leão enjaulado.
Acordei com o livro encadernado em couro pressionado contra o peito, como se temesse que fosse um sonho e que desaparecesse se o soltasse. Sentei-me no colchão úmido e abri as páginas reverentemente. A luz da manhã entrava pelas frestas da parede, iluminando os diagramas que minha mãe havia desenhado à mão. Eram desenhos primorosos, detalhados com tinta preta fina: raízes que pareciam veias humanas, folhas de papel com anotações em latim, diagramas de sistemas de irrigação que lembravam mapas do tesouro.
Mas quando tentei ler, me deparei com um muro de ignorância.
“O solo da fronteira leste tem um pH alcalino de 8,2. É imprescindível acidificá-lo incorporando enxofre elementar e matéria orgânica para desbloquear a absorção de ferro. A clorose férrica será o primeiro inimigo.”
Li a frase três vezes. Clorose. Alcalino. Enxofre elementar.
“Droga”, sussurrei, sentindo lágrimas de frustração arderem nos meus olhos.
Eu tinha dez anos. Sabia somar, subtrair e ler histórias de aventura. Sabia que o céu era azul e que o fogo queima. Mas não fazia a mínima ideia do que era um pH alcalino. Minha mãe tinha me deixado um mapa, sim, mas estava escrito em uma língua que eu não falava. Era como ter a chave do cofre, mas não saber onde ficava a porta.
“O que você está dizendo, Diego?” Valentina havia acordado. Seus cabelos estavam despenteados e seus olhos inchados, mas ela me olhou com aquela confiança cega que me aterrorizava e me dava forças ao mesmo tempo.
“Diz…” Engoli em seco, fechando o livro com força, “…diz que precisamos de ajuda.”
Lembrei-me da última frase da carta da minha mãe, aquela que ficou gravada na minha memória na noite anterior: “Se você não souber como continuar, procure Carmela Soto. Ela é a minha voz quando eu não puder mais falar.”
—Vista-se, Valen. Coloque suas roupas mais limpas. Vamos à missa.
“Vamos rezar?”, perguntou ela, franzindo o nariz. Papai nunca foi muito de frequentar a igreja, e nós também não.
—Não. Para caçar.
Nos lavamos com a água que tínhamos trazido da fonte na noite anterior. Tentei pentear o cabelo de Valentina com os dedos, trançando seus cachos castanhos da melhor maneira possível para que ela não parecesse uma criança selvagem, embora seu vestido azul estivesse manchado de poeira e meus sapatos estivessem furados. Nos entreolhamos. Éramos exatamente o que éramos: duas órfãs que sobreviveram a um naufrágio.
Caminhamos em direção à cidade de San Rafael. Era domingo. Os sinos da igreja tocavam ao longe, um som metálico que ecoava pelos campos secos. Quando chegamos à praça, vimos pessoas entrando na igreja caiada. Homens com suas melhores camisas, mulheres com véus e leques.
“Procure uma mulher mais velha”, sussurrei para Valentina. “Mamãe disse Carmela Soto.”
-Como vai?
—Não sei. Mas minha mãe confiava nela, então ela provavelmente parece ser uma pessoa legal. Ou inteligente.
Entramos. O interior da igreja cheirava a incenso, cera derretida e madeira velha. Sentamo-nos no último banco, tentando passar despercebidos. Durante a homilia do Padre Miguel — um homem de barba grisalha e olhos cansados que falava sobre caridade e amor ao próximo (palavras que me soavam vazias depois do que Gabriela nos fizera) — passei o tempo observando a nuca dos fiéis.
Então senti um olhar.
Foi uma sensação física, como um dedo pressionando a minha nuca. Virei-me lentamente.
Na quinta fila, uma mulher nos observava. Ela não olhava para o padre. Ela olhava para nós. Tinha cerca de sessenta anos, com os cabelos brancos presos num coque austero, porém elegante, com um pente de tartaruga. Vestia um vestido cinza simples e segurava um terço de contas pretas, mas seus dedos não moviam as contas. Estava imóvel, com os olhos fixos em mim.
Eram inteligentes, de olhos penetrantes, rodeados por rugas que pareciam marcas de muito riso e choro.
Quando a missa terminou, tentei sair rapidamente, intimidado por aquele olhar penetrante. Mas a mulher foi mais rápida. Moveu-se com uma agilidade surpreendente para a sua idade e bloqueou-nos o caminho no pórtico, mesmo debaixo do arco de pedra.
“Você tem o jeito de andar do Fernando, mas os olhos da Elena”, disse ele. Sua voz era rouca, firme, como a casca de uma árvore antiga.
Eu paralisei, instintivamente colocando Valentina atrás de mim.
“Quem é você?”, perguntei, tentando soar desafiador.
—Você sabe quem eu sou, Diego Álvarez. Você está me procurando desde que encontrou aquele livro volumoso no bolso da sua calça.
Coloquei a mão no bolso onde guardava o diário.
“Sou Carmela Soto”, disse ela, com a expressão suavizando-se ligeiramente. “Sua mãe era minha melhor amiga. A única pessoa nesta cidade teimosa que entendia a diferença entre cultivar e explorar a terra.”
—Mamãe me disse… que deixou um bilhete pedindo para eu procurá-la.
Carmela assentiu com a cabeça, e eu vi um brilho de umidade em seus olhos.
“Eu sei. Elena sempre esteve dois passos à frente de todos nós. Até da morte.” Ela olhou para Valentina, que estava espiando por trás da minha perna. “Olá, pequena. Você se parece com ela quando tinha a sua idade. Você tem o queixo teimoso dela.”
“Você entende de plantas?”, perguntou Valentina diretamente.
Carmela sorriu, e aquele sorriso transformou seu rosto austero em algo caloroso e acolhedor.
—Eu sei o que a terra me diz, criança. E sei o que sua mãe me ensinou. Venha para minha casa. Não podemos conversar aqui, com tantos ouvidos curiosos.
A casa de Carmela era pequena, mas cheia de vida. Ficava nos arredores da cidade, e seu jardim frontal era uma explosão de cores em meio à paisagem árida. Havia gerânios, roseiras, ervas aromáticas e um gato gordo e laranja dormindo em um muro.
Ela nos serviu limonada gelada e biscoitos caseiros que estavam divinos. Valentina comeu quatro sem nem respirar. Carmela não disse nada sobre nossa fome evidente, apenas encheu nossos copos novamente.
“Pegue o jornal, Diego”, disse ela finalmente, sentando-se em sua cadeira de balanço.
Coloquei-o sobre a mesa. Ela tocou-o com a ponta dos dedos, acariciando o couro gasto como se fosse a pele de um ente querido.
“Elena passou os últimos três anos de sua vida escrevendo isso”, murmurou ela. “Ela vinha aqui à tarde, quando Gabriela ia às compras. Sentava-se naquela mesma cadeira e escrevia, desenhava, calculava. Lia-me fragmentos. ‘Carmela’, dizia ela, ‘estou projetando o futuro’”.
Ele abriu o livro em uma página aleatória. Era um diagrama de poda.
—Você entende isso, garoto?
Balancei a cabeça negativamente, envergonhada.
—Não. Ele fala sobre pH, enxertos, coisas que eu não sei.
“Claro que você não sabe. Você tem dez anos e foi criado para ser o jovem senhor da casa grande, não um agricultor.” Ele fechou o livro com força. “Mas isso acabou. Você é pobre agora, Diego. E os pobres só têm duas opções: ou se matam de trabalhar ou morrem de fome. Sua mãe escolheu a terceira opção: usar a cabeça.”
Ele se inclinou na minha direção.
“Proponho um acordo. Não tenho filhos. Meu conhecimento morrerá comigo se eu não o transmitir a alguém. Vocês têm a terra e o manual, mas não sabem como lê-lo. Eu os ensinarei. Ensinarei vocês a ler a língua de suas mães. Ensinarei química, biologia e paciência, que é a coisa mais difícil.”
“Em troca de quê?”, perguntei. Gabriela me ensinou que ninguém dá nada de graça.
“Com a condição de que você não desista”, disse Carmela, com a voz endurecida. “Porque vai ser um inferno, Diego. Essas videiras estão abandonadas há anos. Revivê-las será mais difícil do que criar um filho. Você vai criar calos na alma. Vai chorar. Vai querer mandar todo mundo para o inferno. Em troca da minha ajuda, quero sua palavra de honra de que lutará até a última videira dar uvas, ou até morrer tentando.”
Olhei para Valentina, que estava adormecendo no sofá com a barriga cheia e um sorriso de chocolate no rosto. Olhei para as minhas mãos, macias como as de uma criança.
“Eu juro”, eu disse.
— Ótimo. — Carmela se levantou. — A primeira aula começa amanhã ao amanhecer. Mas primeiro, vocês precisam comer. E para comer, precisam de dinheiro. Esses 100 pesos não vão durar uma semana.
—Não temos mais dinheiro.
—Não. Mas você tem lavanda.
-Lavanda?
—A divisa leste está cheia de lavanda selvagem. Sua mãe a plantou entre as trepadeiras para atrair polinizadores. Está florida agora. Tem cheiro de dinheiro, se você souber como vendê-la. Traga sacos amanhã. Vamos colocar essa terra para trabalhar antes que ela trabalhe para você.
CAPÍTULO 5: O NEGÓCIO DAS FLORES ROXAS E A PRIMEIRA DERROTA
A semana seguinte foi um turbilhão de atividades frenéticas e dores físicas.
Carmela tinha razão. O solo pedregoso ao redor das trepadeiras mortas estava salpicado de arbustos de lavanda selvagem, resistentes e lenhosos, que sobreviveram ao abandono graças às suas raízes profundas. Suas flores roxas balançavam na brisa quente, exalando um aroma tão intenso que era quase inebriante.
“Cortem apenas os caules verdes, deixem a parte lenhosa para que possa crescer novamente”, instruiu-nos Carmela no primeiro dia. Ela me deu uma tesoura de poda velha e enferrujada e a Valentina uma tesoura de cozinha.
Passamos três dias inteiros sob o sol, colhendo. Minhas mãos, não acostumadas ao trabalho braçal, estavam cobertas de bolhas que estouravam e voltavam a inchar. Os arbustos de lavanda estavam cheios de abelhas e espinhos secos. Valentina chorou duas vezes quando foi picada, mas Carmela passou lama nas picadas e disse a ela: “As abelhas defendem seu trabalho, assim como você defende o seu. Respeite-as e elas a respeitarão.”
Enchemos quatro sacos de juta com flores. O cheiro na cabana era tão forte que mal conseguíamos dormir, mas era um cheiro de limpeza, um cheiro de esperança.
Em seguida, veio o processo de secagem. Carmela nos mostrou como amarrar os buquês de cabeça para baixo e pendurá-los nas vigas do telhado da cabana, onde o ar quente circulava.
“Cinco dias”, disse ele. “Se você as vender frescas, elas murcham em poucas horas. Secas, duram para sempre.”
Durante cinco dias, cuidamos dos buquês como se fossem lingotes de ouro. Valentina cantava canções para eles para que “secassem lindamente”.
Mas o infortúnio tem uma maneira cruel de atacar quando você está distraído.
Na manhã do quinto dia, entrei na cabana pronto para retirar os buquês e guardá-los. Um zumbido estranho encheu o ar.
Mariposas.
Uma nuvem de mariposas cinzentas e empoeiradas levantou voo quando abri a porta. Elas tinham entrado pelas frestas das janelas durante a noite.
Corri em direção aos buquês. Sacudi um deles. Uma chuva de poeira cinzenta e pétalas murchas caiu no chão.
“Não! Não, não, não!” gritei, espantando os insetos com as mãos e esmagando-os contra as paredes.
Quase metade da colheita foi perdida. As traças depositaram ovos e as larvas devoraram as flores mais tenras, deixando apenas caules nus e desolados.
Valentina entrou atrás de mim e, ao ver a bagunça, tapou a boca.
“Eles o comeram…” ela sussurrou.
Desabei no chão, com um buquê amassado nas mãos. Queria incendiar a cabana. Queria ir até a mansão de Gabriela e gritar para ela que ela tinha razão, que éramos fracassados. Tanto esforço, tanto suor, só para uns insetos estúpidos devorarem tudo.
Carmela chegou uma hora depois. Ela viu meu rosto, viu a bagunça. Ela não me ofereceu consolo fácil.
“Bem-vindo à agricultura, Diego”, disse ele secamente. “A natureza não é sua amiga. Ela é uma parceira caprichosa. Às vezes dá, às vezes tira.”
“Perdemos tudo”, disse eu, amargamente.
“Nem todos.” Carmela examinou os buquês. “Estes aqui, os mais próximos da corrente de ar, sobreviveram. As traças detestam correntes de ar fortes. Salvamos metade.”
—Metade não basta.
“Metade é melhor que nada. E agora você aprendeu uma lição: a lavanda precisa de proteção. Da próxima vez, colocaremos uma rede. Ou penduraremos pimentas secas, que as espantam. Pare de chorar e mãos à obra. Temos que costurar os saquinhos para as que sobraram.”
Naquela tarde, sentamos na varanda da Carmela. Ela trouxe retalhos de tecido velho: camisas xadrez, lençóis floridos, cortinas antigas. Ela nos mostrou como cortar quadrados e costurá-los com agulha e linha.
Valentina revelou-se uma pessoa com talento natural. Seus dedinhos eram ágeis. Eu vivia me furando, manchando o tecido com gotas de sangue, mas continuava costurando.
Enchemos trinta sachês com a lavanda que sobreviveu. O cheiro era divino. Valentina desenhou etiquetas com papel e giz de cera. Ela desenhou uma flor roxa torta e escreveu “LAVANDA ELENA” com sua letra trêmula de criança de cinco anos.
“Está perfeito”, disse Carmela, amarrando a última fita. “Amanhã é dia de feira na praça. Vamos vender tudo.”
No domingo de manhã, montamos nossa barraca num canto da praça, longe das bancas profissionais que vendiam queijos e embutidos. Tínhamos uma caixa de papelão virada de cabeça para baixo como mesa e nossas trinta sacolinhas enfileiradas como soldadinhos.
“Por quanto devemos vendê-los?” perguntou Valentina, abraçando o Sr. Coelho para se encorajar.
—Quinze pesos —disse Diego—. É caro, mas é o que precisamos.
As pessoas passavam. Olhavam para nós. Viram duas crianças com roupas velhas e sujas, vendendo artesanato tosco. Algumas sorriam com pena e continuavam andando. Outras nem sequer olhavam para nós.
Passou-se uma hora. Ninguém comprava. Meu coração afundou.
“Ninguém quer nossa lavanda, Diego”, disse Valentina, com os olhos marejados.
-Espere.
Então vi alguém conhecido se aproximando. Era Rosa. Ela carregava sua cesta de compras. Parou em frente a nós. Seus olhos se encheram de lágrimas ao ver os rótulos: “ELENA LAVENDER”.
“Tem cheiro… tem cheiro de armário da sua mãe”, disse Rosa, pegando um saquinho e inalando profundamente.
— Serão quinze pesos, Rosa — eu disse, tentando manter a dignidade profissional, embora por dentro eu quisesse abraçá-la.
Rosa tirou sua bolsa gasta do bolso. Ela contou setenta e cinco pesos.
“Vou levar cinco. Para mim e para as minhas irmãs. E não é caridade, Diego. É que tem um cheiro melhor do que qualquer coisa que vendem na loja.”
Essa primeira venda quebrou o gelo. As pessoas viram alguém comprando, e a curiosidade humana fez o resto. Uma senhora idosa comprou duas para o seu reumatismo. Um jovem casal comprou uma para o carro.
E então, o padre Miguel se aproximou.
—Bem, bem… o que temos aqui?
—Lavanda, padre. Então a igreja está com um cheiro agradável — disse Valentina com naturalidade.
O padre riu.
—Bem, você tem razão, filha. Às vezes cheira muito a cera velha. Vou levar dez. Para a sacristia.
Ele nos deu uma nota de duzentos pesos.
—Fique com o troco, padre.
—Não, filho. O troco é para o fundo de investimento La Esperanza . Esse é o nome da sua vinícola, não é?
Ao meio-dia, já tínhamos vendido tudo. Tínhamos 450 pesos no bolso.
Quando contei o dinheiro, parecia uma fortuna. Fomos ao supermercado. Compramos arroz, feijão, ovos, óleo, sabão e, como um luxo indispensável, um pacote de biscoitos de chocolate para Valentina.
Ao sairmos da loja, carregados com nossas sacolas de comida “de verdade”, vimos um carro preto brilhante passar lentamente pela rua principal.
Era o Mercedes de Gabriela.
Ela estava no banco do passageiro. Ela nos viu. Viu nossas sacolas de comida. Viu que não estávamos mortos nem mendigando. Ela baixou os óculos de sol um milímetro. Nossos olhares se encontraram. Não houve cumprimento. Apenas um olhar de fria surpresa.
O carro acelerou e partiu em direção à mansão.
“Você viu o rosto dele?” perguntou Valentina, dando uma mordida em um biscoito.
“Sim”, respondi, sentindo uma enorme satisfação. “E isso é só o começo.”
CAPÍTULO 6: O LONGO DESERTO (ANOS 1-3)
O sucesso da lavanda foi uma tábua de salvação, mas o verdadeiro desafio era o monstro de cinco hectares que jazia adormecido atrás de nós.
Os três anos seguintes não foram um filme de ritmo acelerado com música inspiradora. Foram longos, difíceis e monótonos. Foram anos de rotina esmagadora que me roubaram a infância.
Carmela vinha duas vezes por semana. Ela se sentava à sombra de uma oliveira raquítica e me dava ordens enquanto eu as executava.
“Pode com força, Diego. Mais! Não tenha medo!”, gritou ele. “Essa madeira está morta. Se você não cortar a madeira morta, a vida não poderá crescer de novo.”
Passei meus dias com tesouras de poda, cortando galhos cinzentos e secos. Minhas mãos, antes macias, ficaram ásperas como casca de árvore. Calos se formaram sobre calos. Meus ombros se alargaram pelo esforço de cavar valas para melhorar o sistema de irrigação subterrâneo que minha mãe havia projetado.
No primeiro ano (eu tinha 11 anos), nada aconteceu. Absolutamente nada. As trepadeiras continuavam parecendo gravetos fincados no chão.
“Eles estão mesmo mortos?”, ele perguntava a Carmela à noite, exausto.
—Paciência. As raízes estão trabalhando. O que acontece embaixo não é visível em cima. É como ter fé.
Os moradores da cidade começaram a nos chamar de “os loucos de Lindero”. Eu ouvia os assobios quando ia comprar comida.
—Olha só, lá vai o lenhadorzinho—diziam os velhos no bar. — Aquele menino vai acabar maluco, igualzinho à mãe dele.
Cerrei os dentes e continuei andando.
No segundo ano (quando eu tinha 12 anos), a seca foi terrível. O nível da nascente baixou. Tivemos que racionar a água novamente. Parei de ir à escola da aldeia. Eu não tinha tempo e não tinha dinheiro para comprar livros. Tudo o que ganhávamos com a lavanda (que agora cultivávamos direitinho, em fileiras organizadas) era usado para comprar comida para Valentina e adubo.
Valentina foi à escola, sim. Isso era inegociável.
“Você vai estudar”, eu lhe dizia todas as manhãs enquanto ajeitava o uniforme que tínhamos comprado em segunda mão. “Você vai ser inteligente. Eu vou cuidar da terra.”
—Mas você é esperto, Diego. Você lê o livro da mamãe todas as noites.
Era verdade. À noite, à luz de um candeeiro a gás (tínhamos economizado para comprar um), eu estudava o jornal. Já entendia o pH. Entendia a fotossíntese. Entendia o ciclo do nitrogênio. Tinha-me tornado um especialista teórico num jardim de cadáveres.
O terceiro ano foi o ponto de ruptura.
Era março. O inverno tinha sido cruel, com geadas que nos faziam tremer debaixo dos finos cobertores na cabana. Eu tinha 13 anos, mas aparentava ter 16. Era magra, esguia e tinha a pele queimada de sol.
Eu estava conferindo a fileira número 42. Era uma manhã fria e com neblina.
Abaixei-me para verificar um tronco que parecia ter uma rachadura.
E então eu vi.
Um ponto. Um pontinho. Não era cinza. Não era marrom.
Era verde.
Um verde elétrico, vibrante, impossível.
Tirei a luva suja. Toquei o botão com a ponta do dedo, temendo que fosse uma alucinação ou tinta. Era macio. Estava vivo.
Um broto. Um botão inchado rompendo a madeira morta.
Meu coração parou. Olhei em volta. Na planta seguinte, outro broto. E na seguinte.
“VALENTINA!” gritei. Minha voz falhou. “VALENTINA, CORRA!”
Ela saiu da cabana com o Sr. Coelho na mão, assustada com meus gritos.
—O que foi? É uma cobra?
“Não! Olha!” Eu a agarrei e a levei até a trepadeira. Apontei para o ponto verde.
Valentina aproximou-se. Olhou para ele. Seus olhos se arregalaram em choque.
“Ela está viva…” ele sussurrou. “Mamãe acordou.”
Corremos os três quilômetros até a casa de Carmela. Entramos na cozinha dela sem bater, ofegantes, suadas e chorando.
“Verde! Tem verde!” gaguejei.
Carmela deixou cair a xícara de café que segurava. Ela se estilhaçou no chão, mas ninguém ligou.
—Tem certeza?
—Eu toquei. É real.
Carmela fechou os olhos e ergueu as mãos para o céu.
—Elena… droga, você conseguiu.
Naquela tarde, Carmela veio conosco. E ela não veio sozinha. Ela trouxe mais uma pessoa.
—Diego, Valentina, esta é Isabel — ele nos apresentou a uma jovem, de cerca de vinte anos, com óculos redondos e uma pasta cheia de anotações.
“Olá”, disse a garota timidamente. “Sou estudante de agronomia na universidade da capital. Carmela me contou muito sobre você… e sobre o experimento da sua mãe.”
“Experimento?”, perguntei, em tom protetor.
“Sua mãe estava tentando recuperar uma variedade de uva pré-filoxera”, disse Isabel, ajustando os óculos. “Uma uva antiga e resistente, que se acreditava estar extinta nesta região. Se essas videiras brotaram depois de cinco anos de dormência… Diego, você não tem um vinhedo comum. Você tem um tesouro genético.”
Olhei para as minhas plantas, meus galhos secos que agora tinham sardas verdes.
“Você pode me ajudar?”, perguntei a Isabel.
“Preciso escrever minha tese de doutorado”, ela sorriu. “Se você me deixar estudar suas vinhas, eu te ajudo a aplicar a ciência moderna à sabedoria de sua mãe. De graça.”
-Negócio.
Naquela primavera, a divisa leste deixou de ser um cemitério. Estava coberta por uma penugem verde. Nem todas as plantas sobreviveram (perdemos 30%), mas as que sobreviveram despertaram com um vigor selvagem.
Mas com a vida vieram novos problemas. E o maior de todos tinha nome e sobrenome: Gabriela.
Algumas semanas após o “milagre verde”, recebemos uma visita. Não foi uma visita social.
Um carro da Guarda Civil parou em frente à nossa cabana. E atrás dele, a Mercedes preta.
Gabriela saiu do carro. Eu não a via de perto há anos. Ela parecia mais velha, mais amargurada. Seu vinhedo, o grande, não ia bem. Corria o boato de que a qualidade do seu vinho havia caído drasticamente e que ela estava endividada.
“O que você quer?”, perguntei, saindo para a trilha com a enxada na mão. Agora eu era mais alto que ela.
“Vim inspecionar minha propriedade”, disse ela, olhando com saudade para as folhas verdes que cobriam nossa terra.
—Esta propriedade não é sua. O testamento diz que é nossa.
Gabriela sorriu, e era aquele sorriso de tubarão de três anos atrás.
“O testamento diz que estou lhe legando as ‘plantas mortas’”. Ele apontou para o vinhedo. “Essas plantas estão vivas. Claramente, houve um erro na classificação dos bens. Se essas plantas têm valor, elas pertencem à propriedade principal. Ou seja, a mim.”
O guarda civil, um jovem que parecia desconfortável, pigarreou.
—Sra. Álvarez, os documentos do tabelião especificam o número do lote cadastral 4B. Este é o lote. Tudo o que cresce nele pertence aos proprietários.
Gabriela se virou para o guarda com raiva.
“São as minhas videiras! Aquela mulher, Elena, roubou-as do meu… do dinheiro do meu marido!”
“Gabriela”, interrompi, dando um passo à frente. Minha voz era grave e ressonante. “Vá embora.”
—Vou te processar, pirralho. Vou tirar cada página sua.
“Experimente”, eu disse, olhando-a nos olhos. Eu não tinha mais medo. Eu havia sobrevivido à fome, ao frio e ao desespero. Uma mulher com roupas caras não ia me assustar. “Mas tenha cuidado. A cidade inteira sabe que seu vinhedo está morrendo enquanto o nosso prospera. Se você nos processar, as pessoas vão começar a se perguntar por que a terra te odeia e nos ama. Azar? Ou karma ruim?”
Gabriela ficou vermelha de raiva. Ela cerrou os punhos. Olhou para o guarda, que deu de ombros, e depois para mim.
“Isto não acabou”, sibilou ele.
Ele entrou no carro e partiu, levantando poeira sobre as folhas verdes que tanto apreciava.
“Podem levar nossa vinha?” perguntou Valentina, tremendo ao meu lado.
“Não”, eu disse, embora não tivesse certeza. “Mas ele vai tentar. Temos que nos apressar, Valen. Temos que fazer vinho. Um vinho tão bom que, quando o provarem, ninguém poderá negar que é nosso.”
Isabel, que estava ouvindo tudo da cabine, saiu com seu caderno.
“Se você quer vencer esta guerra, Diego, uvas não bastam. Precisamos de ciência. Estas uvas amadurecerão em setembro. Temos seis meses para preparar a melhor colheita da história desta região. Está pronto para parar de dormir?”
Olhei para o diário da mamãe. Olhei para as páginas verdes. Olhei para minha irmã.
—Eu nasci inteligente.
CAPÍTULO 7: O VINHO DE VINAGRE E A QUARTA LÁGRIMA
Chegou setembro. O quarto ano. Eu tinha quatorze anos, mas minhas costas carregavam a experiência de um homem de quarenta. Minhas mãos eram mapas de cicatrizes e sujeira incrustada sob as unhas, que nenhum sabão conseguia remover. Valentina, aos nove anos, não era mais a menina tímida; ela era a guardiã dos registros, aquela que controlava cada grama de fertilizante e cada litro de água com precisão militar.
O vinhedo El Lindero (ninguém mais o chamava de “El Este”) era um espetáculo para os olhos. As videiras pré-filoxera produziam cachos de uvas pequenos e compactos, de um violeta tão escuro que pareciam quase pretos. A colheita não foi abundante — mal deu para trezentas garrafas —, mas Isabel, nossa aliada agrônoma, estava radiante.
“Olha só isso, Diego”, disse-me ele, esmagando uma uva entre os dedos e medindo o açúcar com o refratômetro. “24 graus Brix. Acidez perfeita. Casca grossa. Isso não é uma uva, é dinamite.”
Colhemos tudo à mão. Éramos só nós: Carmela (que, com seus sessenta e poucos anos, cortava os cachos mais rápido do que eu), Isabel, Valentina, o Padre Miguel (que veio ajudar depois da missa) e eu. Tratamos cada cacho como uma joia da coroa, colocando-os delicadamente nas caixas para não romper a casca prematuramente.
Não tínhamos máquinas modernas. Gabriela tinha prensas pneumáticas e tanques refrigerados de aço inoxidável. Nós tínhamos um desengaçador manual emprestado e rangente, três barris de carvalho francês de segunda mão que Carmela havia conseguido por meio de um misterioso favor, e nossas próprias mãos e pés.
Sim, pés. Como não tínhamos dinheiro para uma prensa, Valentina e Isabel lavavam os pés meticulosamente e pisavam as uvas num grande tonel de madeira, rindo enquanto suas pernas ficavam roxas. Era uma cena primitiva, ancestral. Mamãe havia escrito em seu diário: “O melhor vinho é feito com o toque humano. A máquina não tem alma. O pé sente a temperatura da uva . ”
O mosto fermentava nos barris dentro da cabine, que agora cheirava a levedura e álcool, um aroma inebriante que prometia glória.
Aguardamos. O processo de envelhecimento foi curto, seis meses em barris de carvalho, conforme indicado na documentação para essa variedade específica.
Chegou o dia da degustação. Era uma noite fria de fevereiro. Estávamos todos reunidos em volta da mesa na cabana, iluminados pela lâmpada a gás. Carmela trouxe taças de cristal de casa (porque vinho não é degustado em copos de água).
Retirei uma amostra do barril com uma pipeta de vidro. O líquido era denso, escuro e de ótima qualidade.
Eu servi cinco copos. Todos prendemos a respiração.
“À Elena”, brindou Carmela, com a voz trêmula.
“Para a mamãe”, dissemos Valentina e eu.
Nós bebemos.
O silêncio que se seguiu foi terrível.
Não houve sorrisos. Não houve exclamações de alegria.
O vinho era ácido. Forte. Agressivo. Tinha gosto de vinagre misturado com madeira velha. Arranhou minha garganta quando o engoli.
Valentina fez uma careta e cuspiu no chão.
—Tem um gosto ruim, Diego. Tem um gosto podre.
Isabel colocou delicadamente o copo sobre a mesa, evitando olhar para mim.
—Tem… tem um alto nível de acidez volátil. Talvez… talvez tenha estragado durante a fermentação. Ou o barril estava contaminado.
Senti a terra se abrir. Quatro anos. Quatro malditos anos de fome, trabalho escravo, luta contra insetos, secas e Gabriela. Tudo para isso. Para fazer vinagre.
O copo escorregou da minha mão e se estilhaçou no chão.
“É tudo uma grande mentira!” gritei, chutando a mesa. “Tudo isso é uma grande mentira! Mamãe mentiu para nós! É tudo inútil!”
Saí correndo da cabana. Corri em direção ao vinhedo na escuridão, tropeçando, caindo, levantando. Abracei uma videira e gritei para o céu escuro até minha garganta doer. Chorei como não chorava desde o dia do funeral do meu pai.
“Por quê?!” gritei para o vazio. “Eu fiz tudo o que você disse! Eu segui o maldito livro!”
Senti uma mão no meu ombro. Era Carmela. Ela tinha corrido atrás de mim, apesar da idade.
—Levante-se, Diego.
—Me deixe em paz. Nós falhamos. Gabriela tinha razão. Somos inúteis.
“Cale a boca e escute.” Carmela me obrigou a me virar. Ela tinha o diário da minha mãe na mão. “Você não leu o livro todo, não é?”
—Eu sei de cor.
—Não. Você conhece a parte técnica. Você pulou as notas pessoais no final. Página 102. Leia.
Ele acendeu um isqueiro para me dar luz. Minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia segurar o livro.
Ler:
“Nota para mim (ou para quem vier depois): Minha primeira microvinificação foi um desastre. O sabor estava horrível. A uva ‘Esperanza’ é traiçoeira. Ela tem uma acidez natural muito alta que mascara a fruta no início. Não jogue fora. Não se desespere. Ela precisa de uma segunda fermentação malolática induzida por calor e, em seguida, um repouso em frio extremo para precipitar os tartaratos. Se o primeiro gole te fizer chorar, você está no caminho certo. Se tiver gosto de vinagre, está prestes a se transformar em ouro. Só precisa de paciência e um choque térmico. Confie em mim.”
Encarei a letra da minha mãe. “Se o primeiro gole te fizer chorar… ”
“Ela sabia que isso ia acontecer”, sussurrou Carmela. “Ela sabia que você ia se desesperar.”
Enxuguei minhas lágrimas com a manga suja.
“Choque térmico”, murmurei. “Precisamos de calor e depois de frio.”
“Temos o fogão a lenha para nos aquecermos”, disse Carmela. “E as noites de fevereiro para o frio. Você desiste ou tentamos?”
Olhei em direção à cabana. Valentina e Isabel estavam à porta, olhando para mim com preocupação.
“Nós tentamos”, eu disse.
Passamos o mês seguinte fazendo alquimia. Aquecíamos a cabana como um forno para reativar as bactérias. Depois, colocávamos os barris do lado de fora em noites congelantes, cobrindo-os com cobertores durante o dia. Era um trabalho insano.
Um mês depois. Segunda degustação.
O líquido ainda estava escuro, mas agora brilhava de forma diferente. Levei-o ao nariz. Não cheirava mais a vinagre. Cheirava a amoras, couro, terra úmida e chocolate amargo.
Eu bebi.
Era como morder uma ameixa madura. Era suave, sedosa, complexa. Encheu minha boca com um sabor que eu nunca havia provado antes, algo ancestral e poderoso.
Olhei para Isabel. Ela estava com os olhos fechados e um sorriso de êxtase.
“Meu Deus…” sussurrou o agrônomo. “Isto… isto ganharia prêmios na França. É único.”
Valentina tomou um gole (Carmela deixou).
“Tem gosto de geleia deliciosa”, declarou ele.
Tínhamos o vinho. Agora precisávamos do palco.
CAPÍTULO 8: DAVI CONTRA GOLIAS NA TAÇA DE CRISTAL
O Concurso Regional de Vinhos de Rioja foi o evento do ano. Todos os grandes produtores estavam presentes: as vinícolas centenárias, os investidores estrangeiros… e Gabriela.
Chegamos na velha van do padre Miguel. Parecíamos um grupo de foliões: um padre, uma senhora idosa, um estudante de óculos e duas crianças vestidas com suas melhores roupas de domingo, que já eram pequenas demais para elas.
Tínhamos três garrafas sem rótulo, marcadas apenas com giz branco: AMOSTRA 4B .
O salão de baile do luxuoso hotel estava repleto de pessoas elegantes. Gabriela estava no centro, rodeada de bajuladores, segurando uma taça do seu “Reserva da Família”. Eu a vi de longe. Parecia cansada; a maquiagem não disfarçava completamente as olheiras. Seu vinhedo estava em decadência, todos sabíamos disso, mas ela mantinha as aparências.
Quando ele nos viu entrar, aproximou-se.
“O que você está fazendo aqui?”, ele sibilou. “Este é um evento privado para profissionais. Mendigos entram pela entrada de serviço.”
—Viemos para competir, Gabriela—eu disse, segurando a caixa com nossas garrafas.
Ela soltou uma gargalhada tão alta que fez várias pessoas virarem a cabeça.
—Competir? Com o quê? Com suco de uva feito numa banheira? Me faça um favor e não me envergonhe mais. Vá embora antes que eu chame a segurança.
—Estamos registrados—Isabel interrompeu, mostrando os documentos—. Categoria “Novas Descobertas”. Tudo legal.
Gabriela olhou para nós com puro ódio.
—Ótimo. Fique. Quero ver os jurados rirem de você. Vai ser divertido.
A degustação foi às cegas. Os cinco jurados, sommeliers e críticos gastronômicos experientes, provaram os vinhos sem saber quem os havia produzido.
Estávamos sentados na última fila. Eu segurava a mão de Valentina; ela estava tremendo.
Observamos enquanto eles provavam o vinho de Gabriela. Assentiram educadamente, anotando brevemente algumas observações. “Bom”, ouvi um dizer. “Um pouco sem gás”, disse outro. Gabriela, na primeira fila, não ouviu nada. Ela sorriu com confiança.
Em seguida, foi a vez da Amostra 4B.
O juiz principal, um francês de nariz aquilino, ergueu o copo. Ele segurou a taça contra a luz. Franziu a testa.
Ele fungou. Sua expressão mudou. Ele fungou novamente, mais profundamente.
Ele bebeu.
Ele permaneceu imóvel por alguns segundos. Então olhou para os outros juízes. Todos tinham a mesma expressão de surpresa. Começaram a cochichar entre si em voz baixa, empolgados. Tentaram novamente.
Gabriela parou de sorrir. Ela se virou para nos olhar.
O juiz francês levantou-se e pegou o microfone.
—Senhoras e senhores… passamos a tarde inteira degustando vinhos excelentes, vinhos decentes, vinhos tecnicamente impecáveis. Mas o vinho que acabamos de provar, a amostra 4B… é algo que eu não provava há vinte anos. É uma variedade que eu achava perdida. Tem alma. Tem defeitos, sim, é um vinho rústico, mas tem uma força e uma verdade que envergonham todos os outros nesta mesa.
O silêncio na sala era absoluto.
—O Prêmio Especial do Júri e a Medalha de Ouro de Melhor Vinho Novo foram concedidos à Amostra 4B. Quem é o produtor?
Eu me levantei. Minhas pernas pareciam de gelatina. Valentina se levantou comigo. Caminhamos pelo corredor central. Eu sentia os olhares de centenas de pessoas fixos em minhas costas.
Subimos ao palco. O juiz olhou para mim, surpreso com a minha idade.
—Foi você que fez isso, garoto?
“Foi minha mãe quem desenhou”, eu disse ao microfone, minha voz ecoando na sala. “Minha irmã e eu apenas seguimos as instruções dela. O vinho se chama ‘Legado de Elena’”.
A sala irrompeu em aplausos. Vi Carmela chorando abertamente. Vi Rosa, que havia entrado sorrateiramente pelo fundo, aplaudindo com as mãos erguidas.
E eu vi Gabriela.
Ela estava pálida. Seu copo havia tombado em sua mão, e vinho tinto pingava em seu vestido branco de grife, manchando-o como uma ferida sangrenta, mas ela não percebeu. Olhou para mim com uma mistura de terror e compreensão. Ela acabara de se dar conta de que havia perdido. Não apenas a competição. Ela havia perdido tudo.
CAPÍTULO 9: A QUEDA DA RAINHA E O PAIXÃO FINAL
Ganhar a competição não foi apenas um troféu. Foi uma validação. No dia seguinte, distribuidores estavam batendo à porta da nossa cabine (que agora tinha uma porta nova, graças ao prêmio de € 10.000). Eles queriam comprar toda a produção.
Vendemos as 300 garrafas por um preço astronômico. Tínhamos dinheiro. Dinheiro de verdade.
Mas a verdadeira vitória veio duas semanas depois.
Eu estava na vinha com Isabel, planejando a expansão para o ano seguinte, quando vi o tabelião Ruiz chegar. O mesmo homem que havia lido nosso testamento quatro anos antes.
Ele caminhava de cabeça baixa. Parecia ter envelhecido dez anos.
“Diego…” ela disse, sem ousar olhar-me nos olhos.
—O que você quer, Ruiz? Trouxe outra ordem de despejo?
—Não. Vim confessar.
Ele sentou-se numa pedra e começou a falar. Contou-me a verdade que eu já suspeitava.
“Gabriela… ela me pressionou. Ela ameaçou revelar um segredo pessoal meu se eu não alterasse o testamento do seu pai. O testamento original… deixava metade de tudo para você. Metade do grande vinhedo, metade do dinheiro. Eu o alterei. Eu o falsifiquei.”
Senti uma onda de fúria intensa. Queria bater nele.
—Por que você está me dizendo isso agora?
“Porque Gabriela está acabada. O banco vai executar a hipoteca da mansão e do grande vinhedo amanhã. Ela está falida. Tentou vender a propriedade, mas com todas as dívidas, ninguém a quer. E…” Ruiz tirou um envelope do bolso. “Trouxe o testamento original. Vou me entregar à polícia esta tarde. Vou para a cadeia, mas não posso morrer com isso na consciência.”
Naquela tarde, fui à mansão.
A porta estava aberta. Havia caixas de mudança por toda parte. Os móveis estavam cobertos com lençóis.
Encontrei Gabriela na sala de estar, sentada no chão, bebendo direto da garrafa. Ela não usava maquiagem, seu cabelo estava despenteado. Parecia o fantasma da mulher arrogante que nos expulsara.
Ele me viu entrar e nem se mexeu.
“Você veio para se vangloriar, suponho”, disse ele com voz rouca.
—Vim comprar seu vinhedo—eu disse.
Ela soltou uma risada amarga.
—Com que dinheiro? Com o que você ganhou no concurso? Isso nem cobre os juros da minha dívida com o banco.
—Não. Não com isso.
Peguei o testamento original que Ruiz havia me dado.
Gabriela ficou paralisada. Seus olhos fitaram o papel.
“Se eu levar isso ao juiz”, eu disse calmamente, “você não vai perder apenas tudo. Você vai para a cadeia por fraude, falsificação e peculato. Você vai passar os próximos dez anos em uma cela, não em um hotel de luxo.”
Ela engoliu em seco. O medo verdadeiro surgiu em seus olhos pela primeira vez.
—O que… o que você propõe?
—Compro a vinha e a casa pelo valor da dívida bancária, mais um euro. Você assina a venda voluntária agora mesmo. Em troca, queimo este papel. Você estará livre. Sem dinheiro, mas livre.
“Por que você faria isso?”, perguntou ela, incrédula. “Você poderia me destruir. Você poderia me ver atrás das grades.”
Olhei em volta, para a casa onde cresci, para as fotos do meu pai que ela havia tirado das paredes.
“Porque minha mãe não gostaria que eu desperdiçasse minha vida te odiando em processos judiciais intermináveis. Ela gostaria que eu recuperasse as terras. E porque ver você partir daqui sem nada, sabendo que foi derrotado pelas crianças que você desprezava… isso é um castigo melhor do que qualquer prisão.”
Gabriela tremia. Pegou a caneta que lhe ofereci. Assinou os documentos de venda com a mão trêmula.
“Vai”, eu disse a ele quando ele terminou. “Você tem uma hora.”
Ela saiu de casa com uma única mala. Eu a observei caminhar pela trilha de cascalho, a mesma que havíamos percorrido com sacos de lixo quatro anos antes. Ela não olhou para trás. Entrou em um táxi e desapareceu de nossas vidas para sempre.
EPÍLOGO: O VERDADEIRO LEGADO
Dez anos se passaram desde então.
Hoje, a Bodegas Elena é uma referência mundial. Restauramos a casa principal, mas Valentina e eu decidimos não morar lá. Transformamos o espaço em uma escola agrícola para jovens carentes. Isabel é a diretora.
Moramos em uma casa nova, bonita, mas simples, construída bem ao lado da antiga cabana de pedra, que mantemos intacta como um santuário.
Carmela faleceu no ano passado. Ela morreu em paz, sentada em sua cadeira de balanço, sabendo que seu legado estava garantido.
Estou sentada na varanda, observando o pôr do sol sobre os 50 hectares de vinhedos unificados. Valentina, que agora tem 19 anos e estuda arte em Florença, está me visitando. Ela está fazendo esboços em seu caderno.
“No que você está pensando?”, ele me pergunta.
Observo as trepadeiras. Elas são fortes, verdes e cheias de vida.
“Nos 100 pesos”, digo, sorrindo. “E no coelho branco.”
Valentina ri.
“Mamãe tinha razão, não tinha?”, diz ela. “O que é plantado com amor jamais morre.”
—Nunca —respondo.
Pego uma taça do nosso vinho, o “Herança de Elena”. Ergo-a contra a luz. É escuro, denso, como o sangue da terra.
Gabriela disse que nossa herança foi um fracasso.
O tabelião disse que foi uma injustiça.
Mas minha mãe sabia a verdade: ela nos deixou um deserto para que aprendêssemos a fazer chover.
E, nossa, como choveu!
FIM