“Ele controlava a cidade inteira com mão de ferro, mas na véspera de Ano Novo foi rejeitado seis vezes até que uma mãe solteira lhe ofereceu sua humilde mesa, sem saber que esse simples ato de bondade forçaria o ‘monstro’ a incendiar seu próprio império criminoso para salvá-los das trevas.”

PARTE 1: A MESA DO SILÊNCIO

Marcos de la Vega controlava o pulso de Madri. Se estalasse os dedos, os estivadores de Valência parariam o carregamento. Se franzisse a testa, um vereador renunciaria por “motivos pessoais”. Durante dezessete anos, ele construiu um império alicerçado no medo, no respeito e na violência calculada. Aos quarenta e dois anos, Marcos não era apenas um homem; era uma instituição nos bastidores.

Mas a véspera de Ano Novo tem uma maneira cruel de democratizar a solidão.

Às onze horas da noite de 31 de dezembro, o homem mais poderoso da capital caminhava pela Rua Serrano, o vento gélido cortando-lhe o rosto. Seu motorista, um ex-legionário leal até a morte, esperava no Mercedes preto com o motor ligado, seguindo seu chefe a passos de pedestre, como um tubarão escoltando outro.

Marcos acabara de ouvir a palavra “não” pela sexta vez em uma hora.

“Sinto muito, senhor”, disse o maître do Horcher , suando profusamente ao reconhecer vagamente a perigosa elegância daquele cliente desinibido, “mas estamos absolutamente lotados. Não há um único lugar disponível.”

Marcos nem sequer discutiu. Simplesmente assentiu com a cabeça, ajustando a gola do seu casaco de caxemira, e voltou para o frio.

A rejeição era uma sensação nova, um gosto metálico na boca que não sentia desde os dezenove anos, e nada nos bolsos. Sua assistente pessoal havia se demitido três dias antes — um colapso nervoso, disseram os médicos, embora Marcos soubesse que a moça tinha visto alguns arquivos que não devia — e, no caos da transição, ninguém se lembrou de reservar uma mesa para o Chefe.

Madri brilhava ao seu redor. Luzes de Natal pendiam como colares de diamantes sobre o Paseo de la Castellana. Casais em trajes formais passeavam, rindo, embriagados de champanhe e promessas para o futuro. Em algum lugar perto da Puerta del Sol, as pessoas já se aglomeravam, aguardando o toque dos sinos.

Seu celular vibrou no bolso interno do paletó. Ele ignorou. Era Vicente, seu braço direito, perguntando por que ele não estava na reunião de família no armazém em Coslada. Eles sempre se encontravam lá na véspera de Ano Novo. Era uma tradição familiar : negócios antes das uvas. Mas naquela noite, Marcos não tinha estômago para fingir camaradagem com homens que o apunhalariam pelas costas se pudessem.

Seu estômago roncou. Um som humano e vulgar.

Quando foi a última vez que ela sentiu fome de verdade? Suas refeições apareciam magicamente em sua mesa ou em mesas reservadas. Comida era combustível. Mas esta noite, o combustível havia se tornado uma obsessão.

Ele virou numa rua lateral, afastando-se do luxo da Golden Mile, aventurando-se nos becos mais estreitos onde restaurantes cinco estrelas davam lugar a estabelecimentos mais modestos. E então ele viu.

“Casa Rosa”.

O letreiro de néon tremeluzia com um zumbido elétrico quase apagado. O “S” de Rosa estava derretido. Através do vidro, embaçado pelo calor do cômodo e pelo vapor da cozinha, ela viu que o lugar estava meio vazio. Não havia toalhas de mesa de linho, nem talheres de prata. Guardanapos de papel estavam em dispensadores de metal, e o chão era coberto com aqueles ladrilhos pretos e brancos de bares antigos.

Perfeito.

Marcos empurrou a porta. Uma campainha enferrujada anunciou sua entrada.

Uma onda de calor a atingiu, junto com o cheiro de lula frita, café torrado e água sanitária. Uma mulher na casa dos sessenta, com os cabelos tingidos de um tom mogno escuro e um avental manchado de tomate, ergueu os olhos de trás do balcão. Ela estava secando um copo com um pano que já vira dias melhores.

“A cozinha vai fechar, bonitão”, disse ela com aquele sotaque carregado e rouco, de tanto fumar cigarros Ducados. “Ao meio-dia quero estar brindando, não fritando croquetes.”

Marcos aproximou-se do bar. Seu casaco de três mil euros contrastava fortemente com a máquina caça-níqueis que piscava no canto.

“Só preciso de algo rápido”, disse Marcos. Sua voz, geralmente usada para dar ordens sussurradas que faziam homens durões tremerem, soava estranhamente suplicante. “Qualquer coisa que você tiver.”

Rosa o examinou com o olhar. Viu o relógio suíço, os sapatos de couro italiano, a postura rígida. Então, viu seus olhos. Eram os olhos de um cão espancado disfarçado de lobo.

Ele deu de ombros.

—Ainda tenho carne moída e batatas sobrando. Se você não for exigente, posso preparar um combo para você.

-Perfeito.

—Sente-se onde quiser. Eu trago para você agora.

Marcos se virou. O lugar era um museu da solidão urbana. Um senhor de boina tomava um carajillo num canto, assistindo à televisão na parede, onde Anne Igartiburu já discutia os preparativos. Perto da janela, dois adolescentes dividiam um prato de batatas bravas, absortos em seus celulares.

E ao fundo, quase escondidas por uma coluna coberta de fotos de antigos toureiros, estavam uma mulher e uma menina.

Marcos escolheu uma pequena mesa para dois, encostada na parede. Sentou-se de costas para a parede, de frente para a porta. Velhos hábitos de sobrevivência. Se alguém entrasse com uma arma, ele a veria primeiro.

Rosa deixou uma garrafa de água de plástico sobre a mesa, sem copo.

“Dez minutos”, disse ele, e desapareceu na cozinha.

Marcos olhou para o celular. 23h47. Treze minutos para a véspera de Ano Novo. Vicente havia ligado mais três vezes. Marcos colocou o celular no modo “Não perturbe” e o deixou com a tela virada para baixo sobre a fórmica pegajosa.

-Com licença.

A voz era suave, quase um sussurro temeroso.

Marcos ergueu o olhar, sua mão direita se tensionando instintivamente, buscando uma defesa desnecessária.

A mulher na mesa do fundo estava a cerca de um metro dele. Era jovem, talvez tivesse acabado de fazer trinta, mas tinha aquele cansaço no olhar que envelhece a alma. Usava um suéter de lã um pouco largo demais e calças jeans surradas. Ao lado dela, agarrada à sua perna, uma menininha de uns sete anos o encarava com olhos enormes e escuros, segurando um coelho de pelúcia sem uma orelha.

“Desculpe incomodá-lo”, disse a mulher, mexendo nervosamente na barra da manga. “Mas notei que… bem, que você vai jantar sozinho.”

Marcos olhou fixamente para ela. Em seu mundo, ninguém se aproximava dele sem marcar hora. Ninguém falava com ele sem permissão. As pessoas que se aproximavam geralmente queriam dinheiro, favores ou sua vida. Mas essa mulher não estava com medo, ela estava… arrependida.

“Sim?”, respondeu ele secamente.

Ela hesitou, quase se arrependendo, mas olhou para a filha e reuniu forças.

“Ainda há lugar à nossa mesa. Se quiser juntar-se a nós para as uvas… É muito triste passar a véspera de Ano Novo sozinho. Ninguém deveria começar o ano em silêncio.”

Ninguém deveria começar o ano em silêncio.

Marcos sentiu um nó na garganta que não conseguia engolir. Olhou para a menina. Ela se escondeu um pouco mais atrás da mãe, mas sorriu timidamente para ele. Faltava-lhe um dente da frente.

“Não quero incomodá-lo”, disse Marcos, e ficou surpreso ao perceber que estava falando sério.

“Não tem problema”, insistiu ela, sorrindo. Um sorriso cansado, mas genuíno. “Eu sou Ana. E esta é Sofia.”

—Marcos.

—Prazer em conhecê-lo, Marcos. Vamos, as batatas estão esfriando.

Marcos se levantou. Ele se sentiu ridículo. Ele, que havia negociado tratados de paz entre cartéis colombianos e máfias russas, estava nervoso por trocar de mesa em um bar de bairro.

Ela sentou-se em frente a Ana. Sofia acomodou-se ao lado da mãe. A mesa estava repleta de restos de um jantar modesto: sanduíches variados e um prato de azeitonas. Estavam a fazer o orçamento ao limite.

“Sempre jantamos fora na véspera de Ano Novo”, explicou Ana, chamando a atenção de Marcos para os pratos vazios. “É nossa tradição. Antes… bem, quando o pai da Sofia era vivo, costumávamos ir a lugares maiores. Agora somos só nós, mas a tradição é sagrada.”

“É um costume simpático”, disse Marcos.

Rosa apareceu com o prato combinado. Dois hambúrgueres gordurosos, um ovo frito crocante e uma montanha de batatas fritas congeladas. Ela ergueu uma sobrancelha pintada ao ver a mudança de lugar, mas não disse nada. Bateu o prato na mesa em frente a Marcos.

-Desfrute de sua refeição.

O cheiro de gordura fez seu estômago revirar de fome. Marcos pegou o garfo, mas percebeu que os olhos de Sofia estavam fixos em suas batatas fritas. A garota olhava para as batatas fritas como se fossem barras de ouro.

—Você gostaria de um pouco? — perguntou Marcos, empurrando o prato em direção ao centro.

Os olhos de Sofia brilharam, mas ela imediatamente olhou para a mãe em busca de aprovação.

“Já jantamos, Marcos, obrigada”, disse Ana rapidamente. Rápido demais. Havia dignidade em sua voz, a dignidade de alguém que não quer caridade, mesmo com o estômago roncando.

“É demais para mim”, mentiu Marcos com a fluência de um profissional. “Se você não me ajudar, vai ter que jogar fora. E é um pecado jogar comida fora.”

Ana hesitou. Olhou para as batatas, depois para a filha, e finalmente assentiu levemente com a cabeça.

—Só uma, Sofia.

A pequena mão estendeu-se e apanhou uma batata com uma delicadeza reverencial. Marcos sorriu pela primeira vez em semanas.

“O que te traz à Casa Rosa numa noite como esta?”, perguntou Ana, enquanto Sofia mordiscava seu tesouro.

—Planejamento ruim. Não consegui mesa em nenhum outro lugar.

Ana riu. Uma risada melodiosa que contrastava com a tristeza do lugar.

—Bem-vinda ao clube dos exilados. Embora… —ela apontou para o casaco com o queixo— algo me diz que seus “outros lugares” são um pouco diferentes dos nossos.

“Quando se está com fome, a comida tem o mesmo gosto em qualquer lugar”, disse ele.

Eles começaram a conversar. Foi fácil. Surpreendentemente fácil. Ana tinha dois empregos: limpava escritórios de manhã e trabalhava em um call center à tarde. Moravam a quatro quarteirões de distância, em um prédio antigo que Marcos conhecia bem porque sua organização comprava prédios assim para lavar dinheiro, embora nunca se preocupassem com a manutenção.

Sofia estava na segunda série. Ela adorava pintar e detestava matemática. Seu coelho se chamava “Sr. Bigodes” e era mágico, segundo ela, porque espantava seus pesadelos.

Marcos escutou. Não falou de si mesmo. O que ele ia dizer? “Sou eu quem decide quem trabalha e quem não trabalha nesta cidade. Tenho sangue nas mãos que nem sabão consegue lavar .” Em vez disso, perguntou sobre a escola de Sofia, sobre a aldeia de Ana na Extremadura, se elas gostavam de chocolate.

“Faltam dois minutos!” gritou Rosa do bar, aumentando o volume da TV.

A Puerta del Sol preenchia a tela. A capa de Ramón García, o vestido da apresentadora, a multidão de pessoas sob o relógio.

Ana tirou um pequeno recipiente de uvas da bolsa. Ela as havia trazido de casa, descascadas e sem caroço, para Sofia. Contou-as cuidadosamente em guardanapos de papel. Doze para ela, doze para Sofia.

Ele olhou para Marcos.

“Não tenho uvas”, disse ele.

Ana não hesitou. Dividiu sua pilha. Seis para ela, seis para Marcos.

“Vamos dividir”, disse ela. “Dizem que quem divide as uvas divide a sorte. E acho que nós duas precisamos de um pouco de sorte este ano.”

Marcos olhou para as seis pequenas uvas verdes no guardanapo de papel barato. Elas valiam mais do que todas as caixas de champanhe francês que Vicente e seus amigos estavam abrindo naquele momento.

“Obrigado”, murmurou ele.

Começaram as quartas de final. Onde… Onde… Onde…

Sofia colocou uma uva na boca, concentrada, com os olhos fechados. Ana encarava a tela com uma mistura de esperança e medo. Marcos as observava.

—Doze! Onze! Dez!

Começaram a comer. Marcos engoliu as uvas mecanicamente, sentindo a doçura explodir em sua boca. Ao seu redor, os adolescentes gritavam, o velho ergueu o copo.

“Feliz Ano Novo!” gritou Sofia com a boca meio cheia, lançando confetes imaginários para o ar.

Ana inclinou-se sobre a mesa e beijou a testa da filha com intensa devoção. Depois olhou para Marcos e estendeu-lhe a mão.

—Feliz Ano Novo, Marcos. Espero que você encontre o que procura.

Marcos apertou a mão dela. Estava áspera por causa do trabalho e fria, mas seu aperto era firme.

—Feliz Ano Novo, Ana.

E pela primeira vez em dezessete anos, Marcos de la Vega sentiu algo que não conseguia nomear. Não era poder. Não era controle. Era… calor. Ele se sentiu humano. Apenas um homem comendo uvas emprestadas com estranhos.

Sofia bocejou, um bocejo tão grande que quase deslocou sua mandíbula.

“Hora de dormir, Cinderela”, disse Ana suavemente. “Temos que acordar cedo amanhã.”

Marcos se levantou quando eles se levantaram.

Você está caminhando?

“Moramos perto”, disse Ana, vestindo o casaco. Era uma peça fina, feita de lã barata, que dificilmente a protegeria do frio de janeiro. Sofia vestiu um anoraque rosa com mangas curtas demais.

“Eu vou com você”, disse Marcos. Não era uma pergunta.

Ana olhou para ele com cautela. O instinto de sobrevivência de uma mulher que vive sozinha brilhou em seus olhos.

—Não há necessidade, na verdade. Já estamos acostumados.

“As ruas estão cheias de bêbados e gente soltando fogos de artifício”, disse Marcos gentilmente. “Por favor. Só até a porta da frente. Para minha tranquilidade.”

Ana estudou o rosto dele por mais um segundo e então assentiu com a cabeça.

—Certo. Obrigada.

Marcos deixou uma nota de duzentos euros debaixo do prato sujo. Rosa, que estava limpando uma mesa próxima, viu e seus olhos se arregalaram em choque, mas Marcos levou o dedo aos lábios, pedindo silêncio.

Eles saíram para o frio. A cidade estava em chamas. Havia explosões de foguetes, gritos de júbilo e sirenes ao longe. O chão estava coberto de cacos de vidro e serpentinas.

Marcos caminhava pela beira da estrada, posicionando-se como um escudo entre eles e a rua. Mantinha uma distância respeitosa, com as mãos nos bolsos, alerta como um dobermann.

Caminharam quatro quarteirões. O bairro estava mudando rapidamente. As luzes de Natal desapareceram, substituídas por postes de luz piscantes e contêineres de lixo transbordando. Chegaram a um prédio de tijolos com a fachada descascando e grafite na porta.

“Está aqui”, disse Ana, parando em frente à porta. O interfone havia sido arrancado, pendurado por alguns fios abandonados. A porta da frente não tinha fechadura; estava fechada apenas pelo peso das dobradiças enferrujadas.

Marcos franziu a testa. Ele conhecia aquele tipo de prédio. Eram armadilhas mortais. Ninhos de insegurança.

“A porta não fecha?”, perguntou ele.

“Está assim há meses”, suspirou Ana. “O senhorio diz que vai mandar alguém, mas nunca aparecem.” Subimos as escadas apressadamente.

“Obrigada pelo jantar”, disse Sofia, abraçando o Sr. Whiskers. “Você foi gentil para um homem tão sério.”

Marcos deu um leve sorriso.

—Obrigado pelas uvas.

“Boa noite, Marcos”, disse Ana. Houve um momento constrangedor, uma pausa onde algo mais poderia ter sido dito, mas o abismo entre seus mundos era muito grande. “Se cuida.”

-Boa noite.

Ele as observou entrar. Viu Ana empurrar a porta pesada e Sofia pular o primeiro degrau quebrado. Esperou na calçada, no frio, até ver uma luz fraca acender em uma janela do terceiro andar. Viu a silhueta de Ana fechando as cortinas.

Só então Marcos se virou.

Ele voltou para onde seu carro o esperava, mas algo havia mudado. O frio o penetrava mais profundamente agora.

Seu motorista, Paco, estava fumando, encostado no Mercedes. Ele jogou o cigarro no chão e pisou nele quando viu seu chefe.

“Chefe, Vicente está histérico. Ele fica perguntando se aconteceu alguma coisa, se precisamos mobilizar os rapazes.”

Marcos não respondeu de imediato. Olhou para a rua escura onde Ana e Sofia moravam. Pensou na porta quebrada. No casaco fino. No pote de Tupperware com as poucas uvas.

—Chefe… Para onde vamos? Para a festa?

Marcos abriu a porta do carro e se jogou no banco de couro aquecido. O contraste era obsceno. Ele passou do frio da pobreza ao calor da riqueza em um segundo.

—Para casa, Paco. Leve-me para casa.

—E Vicente?

—Que Vicente vá para o inferno.

O carro arrancou suavemente, deslizando pelas ruas de Madri como um fantasma negro. Marcos olhou pela janela. Em sua mente, ele não viu os prédios luxuosos nem os bancos. Ele viu um par de olhos escuros e uma mãozinha lhe oferecendo uma batata frita.

Ele chegou à sua cobertura no bairro de Salamanca vinte minutos depois. O porteiro noturno o cumprimentou com uma reverência exagerada. O elevador privativo o levou diretamente ao último andar.

Seu apartamento era uma fortaleza de vidro e aço. Trezentos metros quadrados de minimalismo italiano, arte moderna e vistas panorâmicas. Estava vazio. Estava sempre vazio.

Marcos serviu-se de uma garrafa de uísque Blue Label . Tirou o casaco e atirou-o num sofá de couro branco que custava mais do que o salário anual de Ana.

Ele aproximou-se da janela. Lá embaixo, o Madrid ainda comemorava.

Em algum lugar naquele conjunto escuro de prédios ao sul, Ana estaria colocando Sofia na cama, cobrindo-a com cobertores extras porque o aquecimento provavelmente também não estava funcionando. Ela estaria pensando em como pagar o aluguel, como fazer o dinheiro render até o fim do mês.

O telefone dele tocou. Vicente, de novo.

Dessa vez, Marcos respondeu.

“Onde diabos vocês estão?” bradou Vicente do outro lado da linha. “Os russos estão fazendo perguntas. Parece que estamos os ignorando.”

“Tive um revés”, disse Marcos com uma voz calma e gélida.

Você está bem? Precisa que eu mande alguém limpar alguma coisa?

—Estou bem. Escute, Vicente.

-Diga-me.

—Amanhã quero que você procure o dono de um prédio no número 42 da Rua Alondra.

Houve um silêncio confuso do outro lado da linha.

—Rua Alondra? Aquilo não é terra de ninguém, Marcos. É uma ruína. Pra que você quer isso?

Descubra quem é o dono. E compre.

-Que?

—Compre. Em nome de uma das empresas de fachada. Certifique-se de que não esteja vinculado a mim. Quero que seja feito rapidamente. Amanhã.

—Mas Marcos, é feriado. E isso não significa nada…

—Faça uma oferta que o faça engasgar com o próprio nougat. Pague o dobro, se for preciso. Mas eu quero aquele prédio em meu nome antes do meio-dia do dia 2.

—Chefe, você está bêbado?

“E Vicente…” Marcos ignorou a pergunta, encarando seu próprio reflexo no vidro. Ele parecia o mesmo de sempre, mas se sentia um estranho. “Quero que você mande uma equipe de empreiteiros para o terceiro andar. Consertem a porta, o interfone, o aquecimento central. Tudo. Façam parecer que o novo proprietário quer revitalizar a área.”

-Não entendo nada.

—Não te pago para entenderes. Pago-te para executares. Boa noite.

Ele desligou.

Marcos terminou o uísque num só gole. O líquido âmbar queimou sua garganta, mas não aliviou o resfriado.

Ele foi até seu enorme quarto, deitou-se na cama king-size e fechou os olhos. Mas não conseguiu dormir.

A imagem de Ana contando as uvas não lhe saía da cabeça. “Quem divide as uvas, divide a sorte.”

Marcos de la Vega, o homem que não acreditava em nada além do poder, percebeu que acabara de cometer o primeiro erro fatal de sua carreira: se importar com alguém. E em seu mundo, se importar com alguém é como colocar um alvo nas costas dessa pessoa.

Eu não sabia que, do outro lado da cidade, Ana também não estava dormindo.

Ana estava sentada na cozinha de seu pequeno apartamento, enrolada em um cobertor, com as mãos em concha ao redor de uma caneca de leite morno. O radiador fazia barulhos estranhos, gorgolejos metálicos que não eram um bom presságio.

Tinha sido uma noite estranha. Aquele homem, Marcos… Havia algo nele que não se encaixava. Suas roupas, seu relógio, o jeito de andar, como se fosse dono da calçada. Mas seus olhos… seus olhos eram tão tristes quanto os dela.

Ele olhou para o envelope que havia deixado no balcão. Era o aviso de despejo.

O senhorio, um tal de Sr. Volkov (que corria o boato na vizinhança de ser testa de ferro de alguma máfia), queria aumentar o aluguel em 40% ou despejá-los para poder reformar e vender o imóvel. Ana tinha até o dia 5 para aceitar o aumento ou sair. E ela não tinha o dinheiro.

“Um desejo”, sussurrou Ana no ar frio da cozinha. “Só preciso de um milagre para Sofia.”

Ela não sabia que seu milagre já estava em andamento. E não sabia que milagres, quando vêm do diabo, sempre têm um preço.

PARTE 2: O MILAGRE DA RUA ALONDRA

O dia 2 de janeiro amanheceu com o céu sobre Madrid da cor de cimento fresco, uma placa cinzenta que ameaçava nevar, mas que apenas trouxe um vento cortante.

Para Ana, o som que a acordou não foi o do despertador, mas um clangor metálico. Tum, tum, tum .

Ela se sentou no sofá-cama, com o coração na garganta. Seu primeiro pensamento, aquele que sempre rondava sua mente como um predador, foi: Eles estão aqui. Vieram nos expulsar.

Ela olhou para o relógio digital na mesa de cabeceira: 7h45. Sofia ainda dormia, enroscada sob o edredom gasto com estampa de princesa, alheia ao pânico da mãe. Ana vestiu um roupão de lã e caminhou descalça até a porta, sentindo o chão frio penetrar as solas das meias.

O barulho vinha do corredor. Vozes masculinas. Som de ferramentas.

Ana abriu a porta com a corrente de segurança, mal espiando para fora.

O corredor, normalmente escuro e silencioso, exceto pela ocasional discussão entre vizinhos, parecia uma zona de guerra. Havia três homens de macacão azul, caixas de ferramentas e rolos de cabo. Um deles desmontava o painel do elevador, que estava marcado como “FORA DE SERVIÇO” havia meses.

“O que… o que há de errado?” perguntou Ana, com a voz trêmula.

O trabalhador mais próximo, um homem corpulento com bigode, virou-se.

—Bom dia, senhora. Desculpe o barulho. Estamos trabalhando na instalação elétrica e no elevador.

“O elevador?” Ana piscou, confusa. “Mas o proprietário disse que não havia orçamento…”

O homem riu, enxugando as mãos num pano.

“O antigo? Ele não gastava um centavo com lâmpadas. Não, isso é obra dos novos donos. ‘Horizon Investments’, ou algo assim. Eles compraram o prédio inteiro ontem e parecem estar com pressa. Ordenaram uma reforma completa dos serviços básicos: caldeira, elevador e segurança. Prioridade urgente.”

Ana fechou a porta devagar e encostou-se nela, sentindo as pernas tremerem. Imóvel novo? Ontem? Prédios não se vendem em feriados. Reformas não começam às oito horas do dia 2 de janeiro.

O celular dela, que estava carregando na bancada da cozinha, começou a tocar. Número desconhecido.

“Sim?”, respondeu ele, esperando o pior.

“Sra. Chun?” A voz do outro lado da linha era de Dimitri Volkov, seu senhorio. Mas soava diferente. Não tinha mais aquele tom arrogante e desdenhoso de sempre. Ele parecia… assustado. Nervoso.

—Sim, sou eu. Veja, Sr. Volkov, sobre o aluguel, eu…

“Esqueça isso”, interrompeu ele apressadamente. “Esqueça a carta, esqueça o aumento, esqueça tudo. O prédio não é mais meu. Foi vendido.”

—Os funcionários acabaram de me dizer, mas…

“Escute com atenção, Ana. Os novos proprietários assumiram todos os contratos existentes. Seu contrato está honrado. O preço está congelado. E eles me fizeram… me fizeram assinar uma cláusula cancelando quaisquer dívidas pendentes como parte da transferência. Eles não me devem nada do mês passado. Estamos quites.”

Ana teve que se sentar na cadeira bamba da cozinha.

—O quê? Por que você faria isso?

“Porque… porque foi isso que combinamos”, hesitou Volkov. “Olha, não faça perguntas. Você tem sorte. Muita sorte. Aproveite seu apartamento. Adeus.”

A linha foi cortada.

Ana encarou o telefone como se fosse um objeto alienígena. Volkov, o homem que certa vez a ameaçara de demissão por um atraso de três dias no pagamento, acabara de perdoar sua dívida e desligou o telefone, apavorado.

Ela se levantou e foi até o radiador da sala. Estava frio, como sempre. Mas então, enquanto olhava para ele, ouviu um som. Um gorgolejo diferente. Um chiado de ar escapando, seguido pelo som inconfundível da água quente circulando pelos canos.

Ele colocou a mão sobre o metal pintado de branco.

Estava morno. E estava ficando mais quente a cada minuto.

“Mãe…” Sofia apareceu na porta, esfregando os olhos. “Está quentinho.”

Ana correu em direção à filha e a abraçou com força, escondendo o rosto em seus cabelos desgrenhados.

—Sim, querida. Está bem quentinho.

Foi um milagre. Não havia outra explicação. Um milagre de Ano Novo. Mas, no fundo, uma parte dela — a parte cética que a vida a obrigara a desenvolver através de duros golpes — pensava num homem de casaco caro comendo uvas num bar do bairro.

Não. Impossível. Foi apenas uma coincidência.

A cinco quilômetros de distância, no 42º andar da Torre de Cristal, Marcos de la Vega contemplava Madri do seu trono.

Seu escritório era um espaço aberto com um design arrojado, repleto de ângulos retos e superfícies refletoras. Não havia fotos de família, plantas ou qualquer tipo de bagunça. Apenas poder.

Vicente entrou sem bater, trancando a porta com uma tranca dupla. Vicente era o seu oposto: baixo, nervoso, com ternos sempre um pouco grandes demais e uma mente para números criminosos que rivalizava com a de qualquer diretor financeiro do IBEX 35.

“Está feito”, disse Vicente, atirando uma pasta azul sobre a mesa impecável de Marcos. “O prédio na Rua Alondra pertence à ‘Inversiones Cástor SL’, que é propriedade de uma holding no Panamá, que por sua vez pertence a um fundo fiduciário cego em Luxemburgo. Nem mesmo o CNI conseguiu rastreá-lo até você em menos de seis meses.”

Marcos não se virou. Continuou olhando pela janela.

Volkov causou problemas?

“Ele ficou apavorado, para dizer o mínimo”, disse Vicente, servindo-se de um copo d’água da jarra de vidro. “Quando colocamos o dossiê com as irregularidades fiscais na frente dele e oferecemos 20% acima do valor de mercado, ele assinou tão rápido que quase quebrou a caneta. Mas Marcos… precisamos conversar.”

-Fala.

“Isto é uma loucura.” Vicente começou a andar de um lado para o outro no escritório. “Gastaram um milhão e meio de euros num prédio em ruínas que nem sequer vale metade do terreno. Mobilizaram três equipas de renovação durante as férias, pagando horas extraordinárias exorbitantes. E tudo isto… para quê? Para um jantar?”

Marcos finalmente se virou. Seu rosto era uma máscara de calma, mas seus olhos estavam cansados.

—É um investimento, Vicente. Aquela área vai se valorizar.

“Não se meta comigo!” Vicente bateu com o punho na mesa. “Aquela área é uma armadilha mortal. Sou eu, Marcos. Estou com você desde que roubávamos rádios de carro em Vallecas. Não minta para mim. É por causa daquela mulher.”

Marcos sentou-se em sua cadeira ergonômica de couro. Um silêncio se estendeu entre eles, tenso como a corda de um violino.

—O nome dela é Ana—, disse Marcos, e pronunciar o nome dela em voz alta naquele escritório, o lugar onde se ordenavam espancamentos e subornos, pareceu-lhe um sacrilégio.

“Ana”, repetiu Vicente com desdém. “Uma garçonete, uma faxineira… uma civil. Marcos, você conhece as regras. Não nos misturamos. Se os Castellanos descobrirem que você tem uma fraqueza…”

—Não é uma fraqueza. É uma dívida.

—Uma dívida? Ele salvou sua vida no Vietnã ou o quê?

“Ele me alimentou quando eu estava com fome”, disse Marcos. “E olhou nos meus olhos sem se importar com a minha carteira ou com a minha reputação. Isso vale mais do que um milhão e meio, Vicente.”

Vicente suspirou, passando a mão pela calvície incipiente.

—Certo, chefe. Você está no comando. O prédio é seu. Os reparos estão em andamento. Ela está sã e salva. Fim da história?

Marcos assentiu com a cabeça, mesmo sabendo que era mentira.

—Fim da história. Nunca mais a verei.

—Ótimo. Porque temos problemas sérios. Tony Castellano está movimentando mercadorias pelos nossos portos sem pagar o pedágio. Se não reagirmos, ficaremos com uma imagem de fraqueza.

“Preparem uma reunião”, disse Marcos, colocando sua máscara de monstro de volta. “Deixem eles saberem que eu ainda estou aqui.”

Mas, enquanto Vicente saía do escritório falando sobre represálias e territórios, Marcos abriu a gaveta da sua mesa. Lá dentro, guardado como um tesouro, estava um guardanapo de papel barato, amassado e manchado de óleo, com um número de telefone escrito à caneta. Ana o havia dado a Rosa para uma rifa do bairro, e Marcos o memorizara depois de vê-lo no mural de avisos do bar antes de sair.

“Fim da história “, repetiu para si mesmo.

Mas os monstros também têm memórias. E a solidão é uma fera que está sempre faminta.

Três dias se passaram. Três dias em que Marcos tentou ser o Marcos de sempre. Frio, calculista, implacável. Mas se pegava distraído nas reuniões, olhando para o relógio, se perguntando se o elevador da Rua Alondra já estava funcionando, se Sofia gostava do calor dos novos radiadores.

No dia 5 de janeiro, véspera do Dia de Reis, a cidade foi tomada pelo Desfile dos Três Reis Magos.

Marcos tinha uma reunião do outro lado da cidade, num depósito de logística jurídica que eles usavam como fachada. Ele poderia ter enviado um advogado. Ele deveria ter enviado um advogado.

Em vez disso, ele pegou as chaves de seu carro pessoal, um Audi comum que raramente usava, e dirigiu ele mesmo.

Na volta, o GPS indicou a M-30 para chegar em casa. Mas suas mãos viraram o volante para o sul.

“Vou dar uma passadinha “, disse para si mesmo. ” Só para ver se as luzes estão acesas.”

Ele estacionou a dois quarteirões de distância, numa zona de carga e descarga. Levantou a gola do casaco e colocou óculos de sol, apesar de ser um dia cinzento. Sentia-se ridículo, como um adolescente apaixonado ou um perseguidor. Provavelmente ambos.

Ele caminhou em direção à Rua Alondra.

O prédio parecia um pouco melhor. A porta da frente tinha sido consertada e pintada de verde escuro. O novo interfone brilhava.

Marcos permaneceu na calçada oposta, escondido atrás de um abrigo de ponto de ônibus, observando. Ele se sentia sujo. Não pertencia àquele lugar. Sua presença maculava a inocência daquele bairro operário.

Ele estava prestes a partir, a retornar à sua torre de marfim e esquecer tudo isso, quando a viu.

Ana estava saindo de um supermercado Ahorramás na esquina. Ela carregava uma mula de carga. Tinha duas sacolas enormes e pesadas em cada mão, e uma terceira pendurada no ombro que ameaçava escorregar. O plástico de uma das sacolas estava perigosamente esticado, revelando o formato das latas baratas dentro.

Ele vestia o mesmo casaco fino que usara na véspera de Ano Novo e um gorro de lã puxado até as sobrancelhas. Caminhava com dificuldade, parando a cada poucos metros para reajustar o peso, o rosto vermelho pelo esforço e pelo frio.

O instinto de Marcos foi automático. Antes que seu cérebro pudesse lembrá-lo de ficar para trás, seus pés já estavam atravessando a rua.

Ele viu Ana parar num semáforo, colocar uma das sacolas no chão para esfregar as mãos dormentes e suspirar, olhando para o céu como se pedisse paciência.

“Parece que você precisa de um guia”, disse Marcos, parando ao lado dele.

Ana deu um pulo e se virou. O medo inicial em seus olhos se transformou em reconhecimento e, para surpresa de Marcos, em um sorriso genuíno e caloroso.

“Marcos!” exclamou ele. “O homem das uvas.”

-Ele mesmo.

“O que você está fazendo neste bairro?” Ela olhou em volta, percebendo o quão deslocado ele parecia com suas roupas de grife, mesmo tentando ser discreto. “Você não parece ser alguém que vem comprar presentes de Natal.”

“Tenho… negócios por perto”, mentiu ele. A mentira saiu com naturalidade, como se tivesse sido ensaiada. “Uma reunião com alguns fornecedores. Eu te vi do carro e me pareceu que aquelas malas pesavam mais do que você.”

Ela apontou para as sacolas.

-Posso?

—Ah, não, não se preocupe. Estou acostumado. É a minha academia particular.

—Eu insisto. Minha mãe me mataria se me visse deixando uma senhora carregando todo esse fardo.

Sem esperar por uma resposta, Marcos se abaixou e pegou as duas sacolas mais pesadas. Elas pesavam uma tonelada. Leite, batatas, enlatados, laranjas. Comida de sobrevivência.

“Meu Deus”, disse ele, pesando-os nas mãos. “Vocês estão carregando pedras aqui?”

“Melões”, ela riu. “Estavam em promoção. Sofia adora melões, mesmo fora de época.”

Eles caminhavam juntos. O ritmo de Marcos acompanhava instintivamente o dela.

“Como está Sofia?”, perguntou ele.

“Ela… ela está feliz.” O rosto de Ana se iluminou. “Aconteceram coisas incríveis, Marcos. Desde a véspera de Ano Novo, tudo mudou. O prédio foi vendido, consertaram o aquecimento… É como se tivéssemos ganhado na loteria sem nem comprar um bilhete.”

Marcos manteve o olhar fixo à frente, concentrado no asfalto rachado.

—Que bom! Às vezes a sorte muda quando menos se espera.

—Sofia diz que é mágica. Ela diz que você nos trouxe sorte.

Marcos sentiu uma pontada no peito.

—Eu não fiz nada. Apenas comi suas uvas.

—Bem, funcionou.

Eles chegaram à entrada. Ana pegou uma chave nova e brilhante e abriu a porta recém-pintada.

“Funcionou!” disse ele, empurrando-a com o quadril. “Antes, você tinha que chutá-la. E espere até ver isso…”

Ele chamou o elevador. A máquina desceu suavemente e abriu as portas com um alegre som de “ding”. Cheirava a limpeza.

“Eu sei que você tem coisas para fazer, Marcos, e tenho certeza de que você é um homem muito ocupado…” Ana começou, mordendo o lábio inferior. “Mas vou fazer espaguete para a Sofia. Não é nada sofisticado, só molho de tomate pronto e carne moída, mas se você quiser subir… A Sofia não para de falar de você. Você é a celebridade da casa.”

Marcos sabia que tinha que dizer não. Vicente o havia avisado. Tony Castellano estava procurando por pontos fracos. Cada segundo que ele passava ali era um risco.

Mas ele olhou para o rosto de Ana, esperançoso e aberto, sem qualquer traço de malícia ou interesse oculto.

“Eu adoro espaguete”, disse ele.

Eles subiram até o terceiro andar. O corredor cheirava a água sanitária e ao ensopado de lentilhas do vizinho.

Ao entrarem no apartamento, Marcos teve que prender a respiração. Era minúsculo. Um único cômodo que servia como sala de estar e quarto, com uma cozinha americana num canto e um banheiro separado. Mas estava impecável.

E quente. Os radiadores emitiam um calor constante e agradável.

Mas o que mais o impressionou foram as paredes. Estavam cobertas de desenhos. Centenas deles. Folhas de papel coladas com fita adesiva, formando um mural vibrante sobre a tinta descascada. Havia flores, castelos, animais fantásticos. Era uma explosão de vida em meio às dificuldades.

-Mãe!

Sofia saiu do banheiro, com os cabelos ainda molhados e vestindo o pijama. Ela parou abruptamente ao ver o homem alto na porta.

Seus olhos se arregalaram em choque.

“É o Sr. Marcos!” ela gritou e correu em sua direção, abraçando suas pernas sem hesitar por um segundo.

Marcos ficou paralisado por um instante, ainda segurando as sacolas de compras, e então, desajeitadamente, deixou as sacolas caírem e levou a mão à cabeça.

—Olá, pequenino(a).

“Eu sabia que você viria!” Sofia olhou para a mãe triunfante. “Eu fiz um desenho para ele para poder chamá-lo de [nome da pessoa].”

“Ah, é mesmo?” Marcos se agachou para ficar na altura dela.

Sofia correu até a mesa e trouxe um pedaço de papel. Era um desenho de três figuras de palito sentadas ao redor de uma mesa cheia de uvas roxas gigantes. Acima da figura mais alta, ela havia escrito “MARCOS” com letras irregulares e um coração vermelho.

“Este sou eu”, disse Marcos, apontando para a figura alta. Ele tinha um sorriso enorme que ocupava metade do seu rosto. Fazia anos que não sorria assim.

—Claro que é você. Sente-se, sente-se. Mamãe vai fazer macarrão.

O jantar foi surreal.

Marcos de la Vega, sentado numa cadeira dobrável, comendo espaguete barato num prato lascado, sentia-se mais em casa do que na sua cobertura de três milhões de euros.

Ana conversava enquanto cozinhava, movimentando-se com eficiência no pequeno espaço.

“Eles me ofereceram hora extra no trabalho”, disse ela. “E com o que eu economizar no aluguel, acho que vou conseguir matricular a Sofia em aulas de pintura de verdade no mês que vem.”

“Ela tem talento”, disse Marcos, olhando para os desenhos. “Você deveria incentivá-lo.”

—Eu sei. Mas as aulas são caras. Tudo é caro.

Marcos lutou contra a vontade de tirar a carteira e colocar cinco mil euros sobre a mesa. Ele não podia. Isso destruiria a ilusão. Isso o transformaria no “benfeitor rico”, em algo meramente transacional. Ele queria apenas ser Marcos.

“E o que você faz da vida, Marcos?”, perguntou Sofia, com a boca manchada de tomate. “Você é espião?”

Marcos e Ana riram.

—Não, eu não sou espião. Eu trabalho em… logística. Importação e exportação. Eu movo coisas de um lugar para outro.

—Que chato— declarou Sofia.

—É mesmo — admitiu Marcos—. Muito chato.

—E você tem família? — perguntou Ana, servindo-lhe mais água da torneira.

A atmosfera mudou sutilmente. A pergunta pairou no ar, carregada de significado.

“Não”, disse Marcos. “Meus pais morreram há muito tempo. Não tenho irmãos. Nem esposa, nem filhos.”

“Você está sozinha nessa casa enorme?”, perguntou Sofia com uma inocência brutal.

—Sim. Estou sozinho.

Ana olhou para ele com uma profunda empatia que o fez sentir-se nu. Ela sabia o que era solidão; reconheceu-a nele como um animal reconhece outro da sua espécie.

“Bem”, disse Ana gentilmente, “você não está tão sozinha agora. Você tem amigos na Rua Alondra.”

Marcos sentiu os olhos arderem. Olhou para o prato, mexendo o resto do espaguete.

-Obrigado.

Após o jantar, Sofia insistiu em mostrar-lhe sua coleção de pedras “preciosas” (pedrinhas do parque pintadas com caneta permanente). Marcos examinou-as uma a uma com a seriedade de um joalheiro avaliando diamantes.

Às dez horas, Ana olhou para o relógio.

—Sofia, vá para a cama. Os Três Reis Magos chegam amanhã.

—Você acha que eles vão me trazer o conjunto de tintas?

—Se você for dormir agora, tenho certeza que vai conseguir.

Sofia deu um beijo estalado na mãe e depois se virou para Marcos. Ela estendeu a mão formalmente.

—Boa noite, Marcos. Obrigado por ter vindo.

Marcos apertou a mãozinha dela.

—Boa noite, Sofia.

Quando a menina desapareceu atrás do biombo que separava seu “quarto”, Ana acompanhou Marcos até a porta.

O corredor estava silencioso. Eles ficaram ali parados por um instante, na porta, sem jeito, mas relutantes em se despedir.

“Obrigado pelo jantar”, disse Marcos. “Estava delicioso.”

—Era só macarrão barato, Marcos.

—Foi o melhor jantar que tive em anos.

Ana cruzou os braços, encostando-se no batente da porta. Ela o encarou com aqueles olhos escuros que pareciam ver demais.

—Você é um homem estranho, Marcos.

-Porque?

“Porque você tem sapatos que custam mais do que tudo na minha casa, mas come a minha comida como se fosse uma iguaria e olha para os desenhos da minha filha como se fossem Picassos. E você é tão triste…” Ela balançou a cabeça. “Você não se encaixa. Eu não sei quem você é, mas você não é quem parece ser.”

Marcos ficou tenso. Teria ele descoberto alguma coisa?

—Sou apenas um homem cansado, Ana.

“Talvez.” Ela hesitou e, por impulso, colocou a mão no antebraço dele. Seu toque era eletrizante. “Volte quando quiser. Sofia gosta de você. E acho que isso também é bom para você.”

“Não deveria”, disse Marcos, com a voz rouca. “Eu sou… complicado. Minha vida é complicada.”

—Coisas complicadas não me assustam. Coisas vazias me assustam. E você está cheio de algo, mesmo que tente esconder.

Marcos queria beijá-la. O impulso foi tão forte e repentino que ele teve que dar um passo para trás, com medo de si mesmo. Beijar aquela mulher a contaminaria. A arrastaria pela lama.

—Boa noite, Ana.

-Boa noite.

Marcos desceu as escadas correndo, de dois em dois degraus, fugindo. Ele precisava de ar. Precisava de distância.

Ele saiu para a rua fria e caminhou rapidamente até seu carro. Seu coração batia forte, pulsando uma mistura de euforia e pânico. Ele se sentia vivo.

Ele ligou o Audi e saiu dirigindo do bairro, prometendo a si mesmo mais uma vez que aquela seria a última vez.

Ele não viu o sedã cinza estacionado na esquina oposta.

Dentro do carro, Frankie Castellano, o primo mais novo do clã rival, baixou sua câmera com lente teleobjetiva. Ele revisou as fotos na tela digital.

A imagem era nítida, apesar da penumbra: Marcos de la Vega, o “Intocável”, o homem de gelo, emergindo de um conjunto habitacional com um sorriso estúpido no rosto e um olhar sereno que ninguém no submundo jamais vira.

Frankie sorriu, mostrando alguns dentes amarelados.

—Bingo — ele sussurrou.

Ele discou um número em seu telefone.

—Tony, sou eu. Você tinha razão. Ele tem uma namorada. E ela não é ninguém. É uma civil. Uma mulher faminta em Vallecas. Sim… sim, eu tenho fotos. Eu tenho o endereço. Eu tenho tudo.

Do outro lado da linha, Tony Castellano caiu na gargalhada. Uma gargalhada que prometia dor.

“Bom trabalho, Frankie. Não faça nada ainda. Vamos ver o quanto essa mulher realmente importa para o grande Marcos. Vamos pressioná-lo até ele sangrar.”

Marcos dirigiu-se para o norte em direção à sua torre solitária, ouvindo música clássica para acalmar os nervos. Ele não sabia que o relógio havia começado a correr. Ele não sabia que seu pequeno jantar de espaguete acabara de assinar uma sentença de morte.

E, acima de tudo, ele não sabia que estava prestes a perder tudo para ganhar a única coisa que realmente importava.

PARTE 3: FOTOGRAFIAS EM PRETO E BRANCO

A manhã de 7 de janeiro chegou com uma calma enganosa aos escritórios de Marcos de la Vega. O céu sobre Madri permanecia aquele cinza plúmbeo, indiferente às tragédias humanas que se desenrolavam sob seu manto.

Marcos estava revisando alguns contratos de transporte marítimo, tentando se concentrar nas cláusulas de indenização, quando sua secretária, uma mulher eficiente chamada Elena, que trabalhava com ele há dez anos e sabia quando não perguntar, entrou com um envelope pardo.

Não tinha selo postal. Não tinha remetente. Só tinha escrito “PARA MARCOS” em letra de forma angulosa, com um marcador preto grosso.

“Um mensageiro trouxe de moto”, disse Elena, colocando o envelope sobre a mesa de vidro como se fosse um explosivo. “Ele se recusou a assinar. Disse que era algo pessoal.”

Marcos sentiu um arrepio repentino na nuca. O instinto, aquele animal adormecido que o mantivera vivo por duas décadas, despertou sobressaltado, eriçando os pelos de seus braços.

—Obrigada, Elena. Deixe-nos em paz. Não deixe ninguém passar.

Quando a porta se fechou, Marcos pegou o envelope. Não era muito pesado. Ele usou um abridor de cartas prateado para rasgar a borda.

Ao despejar o conteúdo sobre a mesa, o mundo de Marcos parou. O som do trânsito na Castellana desapareceu. O zumbido do ar condicionado cessou. Apenas a pulsação ensurdecedora do seu próprio coração batendo contra as costelas permaneceu.

Eram fotografias. Doze fotografias de alta resolução, impressas em papel brilhante.

A primeira foto mostrava Ana saindo do supermercado, lutando com as sacolas. A segunda, Marcos atravessando a rua em sua direção. A terceira, os dois caminhando juntos, rindo. Marcos parecia… relaxado. Vulnerável. A quarta, a pior de todas, foi tirada com uma potente teleobjetiva através da janela da sala de estar de Ana. Mostrava Sofia sentada no chão, mostrando um desenho para Marcos. Mostrava o rosto de Ana olhando para Marcos com aquela mistura de curiosidade e afeto.

Havia um bilhete anexado no final. Um simples cartão de papelão branco com o brasão da família Castellano gravado em dourado.

O bilhete dizia: “Que família simpática. Seria uma pena se vocês pegassem um resfriado. Vamos conversar. Meia-noite. Armazém 4.”

Marcos recostou-se na cadeira. O ar parecia ter se solidificado, tornando difícil respirar.

Tony Castellano. Filho do velho Don Salvatore. Um psicopata de terno Armani que apreciava o caos tanto quanto o dinheiro. Se Tony tinha essas fotos, significava que o estavam vigiando há dias. Significava que sabiam onde Ana morava. Sabiam em qual escola Sofia estudava. Sabiam que Marcos, o Homem de Gelo, havia se derretido diante de um prato de espaguete.

A porta do escritório se abriu de repente e Vicente entrou correndo, pálido como um cadáver.

—Chefe… temos um problema no porto. Eles queimaram um contêiner. E deixaram uma mensagem pintada na lateral: “ANA”.

Marcos fechou os olhos por um segundo. A raiva, intensa e vermelha, começou a substituir o medo.

—Eles sabem disso, Vicente.

Marcos empurrou as fotos pela mesa em direção ao seu parceiro. Vicente olhou para elas e murmurou um palavrão baixinho.

—Droga, Marcos. Eu te avisei. Eu te disse que isso ia acontecer.

—Poupe-me do “Eu te avisei”. Preciso de soluções.

“A solução era não dormir com civis”, cuspiu Vicente, em pânico. “Agora eles nos pegaram pelas bolas. Se formos à guerra, eles vão atrás da garota. Ela é o seguro de vida deles. Eles sabem que não vamos atacar se ela estiver na linha de fogo.”

“Não vou atacar”, disse Marcos, levantando-se. Sua voz soava estranhamente calma, a calmaria antes da tempestade. “Vou fortificá-la.”

—O que você vai fazer?

“Quero duas equipes de segurança. As melhores. Ex-militares, nada dessa palhaçada de bandido de bairro. Quero vigilância 24 horas por dia para Ana e a menina. Mas invisíveis. Se ela vir um único homem armado, vai se assustar e correr, e se correr, será um alvo fácil. Eles têm que ser como fantasmas, Vicente.”

“Isso vai custar uma fortuna, Marcos. E não garante nada. Um atirador de elite, um carro-bomba…”

“Faça isso!” rugiu Marcos, batendo com o punho na mesa. O copo tilintou. “Agora mesmo! E preparem o carro. Vou vê-la.”

“Não!” Vicente se colocou entre ele e a porta. “É exatamente isso que eles querem! Se você for lá agora, vai confirmar que se importa. Vai confirmar que esse é o seu ponto fraco.”

—Você já sabe, Vicente. As fotos comprovam. Não há mais nada a esconder. Agora, só resta minimizar os danos.

Marcos empurrou Vicente e saiu para o corredor.

A viagem até a Rua Alondra foi agonizante. Marcos dirigia com uma mão no volante e a outra segurando o celular, coordenando a segurança. Cada carro que passava parecia suspeito. Cada motocicleta parecia pertencer a um assassino de aluguel. A paranoia, sua velha amiga, havia retornado com força total.

Ele chegou ao prédio de Ana às duas da tarde.

Ele bateu com força na porta do 3B. Não tocou a campainha. A urgência queimava em suas veias.

Ana abriu a porta com um sorriso que desapareceu instantaneamente ao ver o rosto de Marcos. Ele estava pálido, suado e com os olhos arregalados e fixos. Não era mais o cara simpático da noite anterior. Era o lobo.

—Marcos? O que houve?

“Posso entrar?” Ele não esperou por uma resposta. Entrou no pequeno apartamento e bateu a porta, trancando os três ferrolhos. “Sofia está aqui?”

—Ele está na escola. Marcos, você está me assustando. O que houve?

Marcos caminhou pela sala de estar, inspecionando as janelas. Ele fechou as cortinas abruptamente.

“Não se aproximem das janelas”, ordenou ele.

—O quê? Mas está tudo em plena luz do dia…

“Eu disse para não se aproximar das janelas!”, gritou ele.

Ana recuou, esbarrando na mesa da cozinha. O medo genuíno começou a transparecer em seus olhos.

“Quem é você?”, ela sussurrou. “O que está acontecendo?”

Marcos parou. Ele a viu tremendo e se odiou com uma intensidade que não acreditava ser possível. Ele havia trazido escuridão para a vida brilhante dela. Ele havia envenenado seu pequeno oásis.

Eu precisava contar para ela. Precisava quebrar a ilusão para salvá-la.

—Sente-se, Ana.

—Não quero me sentar. Quero que você me diga o que está acontecendo, ou vou chamar a polícia.

Marcos soltou uma risada amarga e seca.

“A polícia não pode te ajudar com isso. Ana… tem gente me procurando. Gente má. E eles me viram com você.”

Ana levou a mão à boca.

—Que tipo de gente? Agiotas? Dívidas de jogo?

Quem me dera fosse tão simples. Quem me dera fosse apenas uma questão de dinheiro.

—Não. Eles são… rivais. Concorrência.

—Você disse que trabalhava com importação e exportação.

“E eu faço isso”, disse Marcos, olhando-a diretamente nos olhos. “Eu importo e exporto coisas ilegais. Eu sou…” A palavra ficou presa na garganta, mas ele a forçou a sair. “Eu sou um criminoso, Ana. Eu dirijo uma organização. Eu movo dinheiro sujo. Eu controlo os portos. As pessoas me pagam para evitar que coisas ruins aconteçam com elas. E às vezes, sou eu quem faz com que essas coisas ruins aconteçam.”

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Apenas o zumbido da geladeira podia ser ouvido.

Ana olhou para ele como se tivesse crescido uma segunda cabeça. Uma compreensão lenta e dolorosa se espalhou por seu rosto.

—Você é… da máfia?

—Não usamos essa palavra, mas sim. Algo parecido.

“Meu Deus.” Ana desabou na cadeira, como se seus tendões tivessem sido cortados. “Meu Deus. E você esteve aqui… com a minha filha. Jantando à minha mesa. Brincando com os desenhos dela.”

—Eu jamais te machucaria. Juro pela minha vida.

“Vocês já nos machucaram!” ela gritou de repente, levantando-se com a fúria de uma leoa. “Vocês trouxeram o mundo de vocês para dentro da minha casa! Será que aqueles homens sequer sabem onde moramos?”

Marcos assentiu com a cabeça, incapaz de mentir novamente.

—Sim. Eles sabem.

Sofia está em perigo?

A pergunta pairava no ar como uma guilhotina.

“Eu vou resolver isso. Prometo. Coloquei homens para guardar a escola. Ninguém vai chegar perto dele.”

“Não quero seus homens perto da minha filha!” Ana estava histérica, com lágrimas escorrendo pelo rosto. “Quero que vocês vão embora! Vão e nunca mais voltem!”

—Ana, escuta…

“Não! Escute você!” Ela apontou para a porta com um dedo trêmulo. “Eu pensei que você fosse um bom homem. Pensei que você fosse alguém solitário que precisava de um amigo. Mas você é um monstro. Você usou minha filha para… para quê? Para se sentir melhor? Para brincar de casinha por um tempo antes de voltar aos seus crimes?”

As palavras dela eram como facas, e Marcos sabia que merecia cada golpe.

“Eu só queria…” ele começou, mas parou. Que diferença fazia o que ele queria? “Você tem razão. Eu sou tudo isso. Mas agora, a sua segurança é a única coisa que importa. Você precisa me ouvir. Não saia de casa a menos que seja necessário. Não fale com estranhos. Se vir algo suspeito, me ligue neste número.”

Ela escreveu um número em um guardanapo e o deixou sobre a mesa.

-Vá embora!

Marcos caminhou em direção à porta. Antes de sair, virou-se uma última vez. Queria dizer a ela que sentia muito por ter comprado o prédio. Que sentia muito por ter lhe dado esperança. Que sentia muito por ter experimentado, mesmo que por apenas algumas horas, o que era ter uma vida normal.

“Eu vou consertar”, ele repetiu. “E quando eu consertar, vou desaparecer. Você nunca mais vai me ver.”

Ana não respondeu. Estava deitada de costas, chorando silenciosamente, abraçando a si mesma como se tentasse juntar os pedaços.

Marcos saiu para o corredor.

Ao descer as escadas, ele passou pela Sra. Chun, a vizinha idosa, que subia lentamente com o pão. Ela sorriu para ele.

—Bom dia, rapaz. É ótimo te ver aqui.

Marcos não conseguiu retribuir o sorriso dela. Passou por ela como um fantasma, sentindo o peso de seus pecados esmagando seus ombros.

Ele entrou no carro. Vicente ligou para ele.

—Os homens estão posicionados. Dois na escola, dois na Rua Alondra. Discretos.

-Bom.

—Tony ligou de novo. Ele antecipou a reunião. Quer nos ver hoje à noite às dez. No porto.

-Eu estarei lá.

—Marcos… vá armado.

Marcos olhou para a janela do terceiro andar. A cortina se moveu levemente. Ana estava observando.

“Não vou precisar de armas esta noite, Vicente”, disse Marcos, ligando o motor. “Não vou lutar esta noite. Vou me render.”

Era a única carta que lhe restava. Para salvar a rainha e a princesa, o rei teve que cair.

PARTE 4: O SACRIFÍCIO DO REI

O porto de Madrid à noite é uma paisagem de outro planeta. Contêineres empilhados como arranha-céus de Lego, guindastes gigantes que parecem dinossauros de aço adormecidos sob o brilho alaranjado dos postes de luz de sódio, e um silêncio denso e industrial, quebrado apenas pelo latido distante de um cão de guarda.

Marcos chegou ao ponto de encontro às 21h55.

Ele estava sozinho. Vicente implorara que ele trouxesse a equipe de assalto, os “carniceiros” de Vallecas, mas Marcos recusara. Uma demonstração de força só agravaria a violência. E em uma guerra aberta, Ana e Sofia seriam danos colaterais. Ele não podia permitir isso.

Tony Castellano o esperava em um armazém vazio, sentado em uma cadeira dobrável no meio do nada, cercado por seis de seus homens. Todos estavam armados. Era possível ver os volumes sob seus casacos.

—Pontual como sempre, Marcos— disse Tony, sorrindo. Ele tinha aquele sorriso de tubarão, mostrando todos os dentes e gengivas. —Você fica bem apaixonado.

Marcos parou a cinco metros dele. Ele não se sentou.

—Pare de brincar, Tony. Você tem as fotos. Você tem a minha atenção. O que você quer?

—Gosto quando você vai direto ao ponto. Sempre tão eficiente. Não é o meu caso, gosto de saborear o momento.

Tony tirou um cigarro do bolso e o acendeu lentamente. Soltou a fumaça em direção ao teto alto do armazém.

“Veja bem, Marcos… Há anos que dividimos a cidade. Você fica com o norte e os portos secos. Eu fico com o sul e a distribuição noturna. Tem sido uma… paz lucrativa. Mas meu pai sempre dizia que a estagnação é a morte. E eu quero crescer.”

—Vá direto ao ponto.

—Quero saber suas rotas.

Marcos piscou.

—Meus trajetos?

—Tudo. O ponto de entrada de Valência, o controle alfandegário, os armazéns em Coslada. Toda a operação logística. Você fica com seus negócios imobiliários e seus investimentos jurídicos, dos quais sei que tem desfrutado bastante ultimamente. Mas a “mercadoria”, o tabaco e tudo o que chega de caminhão… isso passa a ser meu.

Foi uma loucura. Ele estava pedindo 70% da empresa. Era como pedir para ele cortar as duas pernas.

“Você está louco”, disse Marcos. “Se eu lhe der isso, minha organização entrará em colapso. Meus homens ou irão com você ou se rebelarão.”

—Esse é o seu problema, não o meu.

—Não vou fazer isso.

Tony suspirou dramaticamente e estalou os dedos. Um de seus capangas lhe entregou um tablet. Tony passou o dedo pela tela e a entregou a Marcos.

Era um vídeo ao vivo.

A Rua Alondra estava visível. A porta do quarto de Ana estava visível. E um ponto vermelho, um pequeno feixe de laser trêmulo, dançava acima da janela do terceiro andar, onde a luz da cozinha estava acesa.

“Tenho um atirador de elite no telhado do outro lado da rua”, disse Tony em tom entediado. “Um ex-atirador sérvio. Muito bom. Ele diz que o vento está a seu favor esta noite. Ele poderia acertar uma bala por aquela janela e atingir a garotinha enquanto ela estiver comendo cereal antes mesmo de você conseguir sacar sua arma.”

O sangue de Marcos gelou. O mundo se resumiu àquele minúsculo ponto vermelho na tela.

—Se você tocar nela… eu te mato. Você e toda a sua família. Vou arrancar sua pele em tiras.

“Eu sei”, disse Tony, imperturbável. “Sei que você é capaz. É por isso que estou me certificando. Se eu morrer, a ordem será executada automaticamente. Se eu não sair deste armazém em uma hora com um contrato assinado, a ordem será executada. Se você tentar qualquer manobra astuta, a ordem será executada.”

Marcos olhou para a tela. Imaginou Sofia lá dentro, talvez desenhando, talvez perguntando à mãe por que ela estava chorando. Imaginou aquele ponto vermelho se formando em sua testa.

A derrota foi absoluta. Amarga como fel.

“Tudo bem”, disse Marcos. Sua voz soava embargada. “Tudo bem, droga. Você venceu.”

Tony deu um largo sorriso.

“Eu sabia que você era um homem sensato. O amor nos deixa todos um pouco… sensíveis, não é?”

—Quero garantias.

-Claro.

“Quero que o bairro daquela mulher seja uma zona neutra. Território sagrado. Ninguém do seu povo entra lá. Ninguém olha para ela. Ninguém respira o mesmo ar que ela. Se eu vir um dos seus homens a menos de um quilômetro da casa dela, o acordo está desfeito e eu corto sua garganta.”

—Feito. Não me interesso por mães solteiras ou garotas pobres. Só quero os caminhões.

—E eu preciso de tempo. Um mês para transferir as operações e dispensar minha equipe.

—Vou te dar duas semanas.

-Três.

—Duas e meia. E nem mais um dia.

-Negócio.

Tony se levantou e estendeu a mão. Marcos olhou para aquela mão como se fosse uma cobra venenosa. Finalmente, apertou-a. Estava fria e úmida.

“Ah, e Marcos…” disse Tony, guardando o tablet. “Um conselho amigável. Deixe-a. Fique longe dela. Enquanto você estiver na vida dela, ela continuará sendo um alvo. Hoje sou eu, amanhã será outra pessoa. Se você realmente a ama… você tem que desaparecer.”

Marcos se virou e saiu do armazém sem responder.

Ele caminhou até seu carro sob o brilho amarelo dos postes de luz. Sentia-se leve, mas não era uma leveza boa. Era a leveza de alguém que havia perdido tudo. Ele havia abandonado seu império, o trabalho de uma vida inteira, por uma garotinha que lhe oferecera uma batata frita e uma mulher que o olhara com gentileza.

Vicente o esperava no carro, roendo as unhas.

—E então? Houve algum disparo?

—Não. Eu já lhe dei tudo.

Vicente abriu a boca, atônito.

—Tudo? Os portos? Marcos, você tem noção do que fez? Você nos arruinou.

“Tenho dinheiro suficiente nas minhas contas legais para viver dez vidas, e você também. Chega, Vicente. Acabou.”

—Vamos desistir? Assim, sem mais nem menos?

—Assim mesmo. Preparem a documentação. Começaremos a transferência amanhã.

—E a garota?

Marcos olhou para a escuridão da noite.

—A garota está segura. E para que continue assim, eu tenho que morrer.

-Que?

—Metaforicamente, seu idiota. Para ela, Marcos de la Vega tem que deixar de existir.

Os dias seguintes foram um turbilhão de advogados, assinaturas e reuniões tensas. Marcos desmantelou sua organização pouco a pouco. Pagou generosas indenizações aos seus homens leais para mantê-los longe de problemas. Transferiu os ativos tóxicos. Limpou seu nome dos registros.

Mas havia uma última coisa que ele precisava fazer. A mais difícil.

No dia 10 de janeiro, ele esperou em seu carro em frente à escola de Sofia.

O sinal das cinco horas tocou. As crianças saíram em massa, um mar de casacos e mochilas coloridas.

Ele viu Ana esperando na porta. Ela parecia cansada, com olheiras profundas. Olhou nervosamente ao redor, apertando a bolsa contra o peito. O medo que ele havia semeado criara raízes.

Sofia saiu correndo e abraçou a mãe. Ana rapidamente pegou em sua mão e elas começaram a caminhar para casa, quase correndo.

Marcos saiu do carro.

-Ann!

Ela parou abruptamente. Ao vê-lo, sua primeira reação foi puxar Sofia para trás de si, protegendo-a com o próprio corpo. Esse gesto feriu Marcos mais do que qualquer bala.

“Eu te disse para não voltar”, disse ela, com a voz trêmula, mas firme.

“Só vim para lhe dizer uma coisa.” Marcos estava a uma certa distância, com as mãos visíveis e abertas. “Acabou. O perigo passou.”

-Como você sabe?

—Porque eu paguei o preço. Acertei as contas com aquelas pessoas. Elas não vão mais atrás de você. Nunca mais.

Ana olhou para ele, procurando a mentira em seu rosto, mas só encontrou um cansaço infinito.

-O que é que você fez?

“O que for necessário.” Marcos olhou para Sofia, que espreitava por trás do casaco da mãe. A menina o encarava, confusa. Não havia mais sorrisos nem desenhos. Havia medo. Ele era o vilão agora. “Sofia, quero que você saiba que… que eu gostei muito do seu desenho.”

Sofia não respondeu. Ela se aproximou ainda mais da perna de Ana.

“Marcos”, disse Ana, “obrigada por consertar. Mas isso não muda nada. Não podemos ter você em nossas vidas. É muito arriscado. É muito… tudo.”

—Eu sei. É por isso que vim me despedir. Estou deixando Madri.

Era uma meia-verdade. Ele estava deixando sua Madri, a Madri da noite e do crime.

“É para o melhor”, disse Ana.

“O prédio é seu”, disse Marcos rapidamente. “Transferi a propriedade para um fundo fiduciário em nome de Sofia. Ninguém pode despejá-la. Nunca. Nem aumentar o aluguel. É sua casa para sempre.”

Os olhos de Ana se arregalaram em choque.

—Não posso aceitar isso. É… é dinheiro demais.

“Não é um presente. É uma compensação. Pelo susto. Pelo perigo. Por favor, aceite. É a única coisa boa que fiz em anos. Não me tire isso.”

Ana hesitou e depois assentiu lentamente com a cabeça.

-Obrigado.

Marcos deu um passo para trás. Queria abraçá-los. Queria dizer que os amava, que em duas semanas eles lhe tinham ensinado mais sobre a vida do que quarenta anos nas ruas. Mas não tinha esse direito.

—Adeus, Ana. Cuide da magia.

—Adeus, Marcos.

Ele se virou e caminhou em direção ao carro sem olhar para trás. Sabia que, se se virasse, se visse os rostos deles mais uma vez, não teria forças para ir embora.

Ele entrou no Audi e ligou o motor.

Ao se afastar do bairro, ele pegou o telefone. Discou o número do chefe da equipe de segurança privada que havia contratado, uma empresa legítima de ex-membros da GEO, completamente limpa.

-Diga-me?

—Sou De la Vega. O contrato está em vigor. Quero vigilância 24 horas por dia, 7 dias por semana, da família Chun. Por tempo indeterminado.

—Entendido, senhor. Relatórios diários?

—Não. Só me ligue se houver algum problema. Se não houver notícias, presumirei que está tudo bem.

-Recebido.

Marcos desligou. Jogou o telefone pela janela de uma ponte sobre a M-30.

Agora ele era um fantasma. Um fantasma rico, solitário e livre.

Mas grátis para quê?

PARTE 5: O LONGO INVERNO E A PRIMAVERA TARDIA

O inverno em Madri se arrastou. Fevereiro trouxe chuvas congelantes que lavaram a poluição, mas deixaram as ruas tristes e vazias. Março chegou com ventos que uivavam pelas esquinas.

Para Marcos, o tempo se tornou uma massa gelatinosa e uniforme.

Ela havia vendido sua cobertura. Grande demais, muitas lembranças de uma vida que ela não queria mais. Comprou uma casa modesta (para os seus padrões) nos subúrbios, em Aravaca, com um jardim que não sabia como cuidar e uma biblioteca cheia de livros que finalmente tinha tempo para ler.

Suas manhãs consistiam em ler o jornal, fazer exercícios e administrar seus investimentos jurídicos. Era uma vida tranquila. A vida que ele sempre dissera que queria quando se aposentasse.

Mas ele se sentia morto por dentro.

Faltava-lhe adrenalina. Faltava-lhe força. Mas, acima de tudo, faltava-lhe a si mesma.

Às vezes, à noite, ele dirigia até o centro da cidade. Estacionava longe da Rua Alondra e caminhava, com o boné abaixado, só para ver a luz na janela dela. Nunca se aproximava. Respeitava o acordo entre eles. Mas precisava saber se a luz ainda estava acesa.

Ela viu os “fantasmas”, seus seguranças. Um carro estacionado discretamente na esquina. Um homem lendo o jornal no banco do parque. Eles eram bons. Ana nunca percebeu.

Ana, por sua vez, vivia um estranho paradoxo.

A vida dela tinha melhorado drasticamente. Sem a pressão do aluguel exorbitante, seu salário rendia mais. Ela matriculou Sofia em aulas de pintura. Comprou roupas novas. Encheu a geladeira. Até começou a estudar inglês à noite.

Mas havia um vazio.

No início, Sofia perguntava muito sobre Marcos. “Onde está o gigante?”, perguntava. Ana respondia que ele tinha viajado. Com o tempo, Sofia parou de perguntar, mas Ana percebeu que a filha guardava o desenho dos três gravetos debaixo do travesseiro.

E Ana… Ana se pegava procurando um rosto familiar na multidão toda vez que saía do metrô. Ela se pegava encarando o celular, esperando por uma mensagem que sabia que não chegaria.

Ela se sentia culpada por sentir falta dele. Ele era um criminoso. Um homem perigoso. Mas ele também era o homem que carregara suas malas, comera seu espaguete e lhe dera uma casa para que sua filha ficasse segura.

Será possível amar um monstro? Ou será que o monstro, ao remover sua máscara, revelou-se mais humano do que os príncipes?

Passaram-se meses. Chegou a primavera. As amendoeiras floresceram na Quinta de los Molinos.

Tony Castellano cumpriu sua palavra, em parte porque estava muito ocupado contando o dinheiro que ganhava com as antigas rotas de Marcos. A paz reinava no submundo, uma paz comprada com o sacrifício de Marcos.

Numa terça-feira de abril, o telefone de Marcos tocou. Era o chefe de segurança.

Marcos atendeu ao primeiro toque, com o coração acelerado.

-O que está acontecendo?

—Nada grave, senhor. É só que… acho que devo saber de algo.

-Diga-me.

—A menina, Sofia. Ela tem uma apresentação na escola amanhã à tarde. “O Mágico de Oz”. Ela interpreta o Leão Covarde.

Marcos sorriu. O Leão que Buscava Coragem. Que apropriado.

-E?

—A mãe… a Sra. Ana. Nós a ouvimos falando ao telefone com a irmã. Ela está muito triste porque ninguém da família virá vê-la. Ela ficará sozinha no auditório.

Marcos fechou os olhos. A solidão de Ana era a sua própria solidão refletida num espelho.

—Obrigado pela informação. Continue acompanhando.

Ele desligou.

Ele passou a noite acordado, andando de um lado para o outro no jardim, fumando cigarros que havia abandonado anos atrás.

Vicente, que agora trabalhava como seu gestor de patrimônio legítimo, veio vê-lo pela manhã.

—Você parece indisposto, chefe.

—Tenho uma decisão a tomar.

—Se for para voltar aos negócios, a resposta é não. Estamos ganhando dinheiro limpo, Marcos. Dormimos tranquilos.

—Não se trata do negócio. Trata-se da função de uma escola.

Vicente olhou para ele, suspirou e balançou a cabeça.

—Você é um caso perdido. Vai mesmo?

—Não posso. Se eu for, vou quebrar o protocolo. Se eu for, vou colocá-la em perigo.

—Tony Castellano está em Ibiza, gastando seu dinheiro em iates e cocaína. Ele não se lembra de você nem da garota. Você é passado, Marcos. E isso é bom. Ninguém cuida de fantasmas.

Marcos olhou para Vicente.

—Você está dizendo que eu devo ir?

“Estou dizendo que você gastou milhões de euros e abdicou de ser o Rei de Madrid por causa dessa mulher. Se você não vai ver a garota vestida de leão, você é o maior idiota que eu conheço. Mas seja discreto. Não pegue o Audi. Pegue meu Seat Leon.”

Marcos sorriu. Um sorriso genuíno.

—Obrigado, Vicente.

O auditório da escola estava lotado de pais com seus celulares em mãos, avós orgulhosos e irmãos pequenos chorando. O ar cheirava a humanidade, suor e perfume barato.

Marcos estava sentado na última fila, na penumbra, usando um boné de beisebol e uma jaqueta jeans velha. Ninguém olhava para ele. Para eles, ele era apenas mais um tio ou pai sem graça.

Quando a cortina se abriu, ele procurou por Sofia.

Lá estava ele. Vestia uma fantasia de leão feita à mão (provavelmente pela Ana) que era um pouco grande demais para ele. Seu rosto estava pintado com bigodes.

Marcos sentiu um orgulho absurdo e estranho que lhe invadiu o peito.

Ele olhou de relance para as primeiras filas. Viu a nuca de Ana. Ela estava sentada sozinha num canto. Estava com o celular na mão, gravando.

Sofia pronunciou suas falas com uma voz forte e clara.

“Estou com medo, mas vou fazer mesmo assim!” gritou o pequeno leão.

Marcos enxugou uma lágrima solitária que escapou por baixo de seus óculos de sol. ” Estou com medo, mas vou fazer mesmo assim.” Aquela garota foi mais corajosa do que ele.

Quando o espetáculo terminou e os aplausos irromperam, Marcos se levantou para sair antes que as luzes se acendessem.

Mas então aconteceu.

Sofia, do palco, acenava. Seus olhos percorriam a plateia, procurando pela mãe. Mas então, seu olhar se ergueu. Ela olhou para o fundo, para a escuridão da última fileira.

E parou.

Marcos ficou paralisado. Não conseguia vê-lo. Era impossível. Estava escuro e ele usava um boné.

Mas Sofia sorriu. E ergueu a mão, acenando diretamente para ele. Não um cumprimento genérico, mas um específico. Um movimento dos dedos que ele reconheceu: o cumprimento secreto que haviam inventado naquela noite enquanto jantavam espaguete.

Marcos levantou timidamente a mão e retribuiu o cumprimento.

Sofia mandou um beijo e saiu correndo do palco.

Marcos saiu do auditório com o coração acelerado.

No saguão, ele esbarrou em alguém.

—Desculpe, eu…

Era Ana.

Eu tinha saído antes de todo mundo para comprar flores na banca perto da entrada.

Eles ficaram paralisados, frente a frente, em meio à agitação dos pais que saíam.

Marcos queria correr. Queria desaparecer. Mas seus pés estavam firmemente plantados no chão.

Ana olhou para ele. Desta vez, não havia medo em seus olhos. Havia surpresa, sim. Mas também havia… alívio.

“Você veio”, disse ela, quase num sussurro.

—Eu só estava passando por aqui—, disse Marcos, a desculpa mais estúpida do mundo.

—Claro. Você estava passando pelo auditório de uma escola primária em um bairro que não é o seu.

—Vicente me emprestou o carro.

—Marcos.

Ela deu um passo em direção a ele. Ele não recuou.

—Ele sente sua falta — disse Ana—. Ele pergunta por você.

—Eu também sinto falta dela. E de você.

Ana olhou em volta.

—É seguro?

—Tony está em Ibiza. Meu negócio acabou. Sou um aposentado de quarenta e dois anos que cultiva tomates em Aravaca e lê romances históricos.

Ana soltou uma risadinha nervosa.

—Tomates? Não consigo imaginar.

—Sou péssimo nisso. Todos morrem.

—Talvez você precise de ajuda.

O convite estava lá, flutuando no ar. Tímido, frágil, mas real.

Marcos olhou para a mulher que havia virado seu mundo de cabeça para baixo. Ele poderia dizer não. Poderia continuar a protegê-la à distância, sendo o cavaleiro das trevas invisível. Isso seria o mais nobre a fazer. Isso seria o mais seguro.

Mas ele estava cansado de ser nobre e confiante. Estava cansado de estar sozinho.

“Ana”, disse ele, tirando o boné. “Gostaria de jantar? Conheço um lugar… um barzinho. Eles fazem hambúrgueres terrivelmente gordurosos, mas a companhia é imbatível.”

Os olhos de Ana brilhavam com lágrimas não derramadas.

—Eu adoraria. Mas você vai pagar. Eu paguei da última vez, e você me deve uma.

-Negócio.

Nesse instante, Sofia saiu correndo do camarim, ainda vestindo a fantasia de leão e com o rosto pintado.

“Mamãe! Mamãe!” ele gritou. “Você viu como eu rugi?”

Então ele viu Marcos.

O grito que ela soltou ecoou por toda a escola.

—MARCOS!!

Ela se lançou sobre ele como um projétil de pelúcia. Marcos a pegou no ar, erguendo-a, e ela se agarrou ao seu pescoço, manchando sua jaqueta jeans com maquiagem laranja.

—Você veio! Eu sabia que você estava aí! Eu te vi!

“Ei, leãozinho”, disse Marcos, escondendo o rosto na fantasia sintética. “Você foi incrível.”

Ana olhou para eles, sorrindo, com as flores na mão.

Marcos olhou para Ana por cima do ombro da garota.

“Vamos?”, perguntou ele.

“Vamos lá”, disse ela.

Os três saíram juntos da escola, sob o sol quente de uma tarde de primavera.

Marcos sabia que o passado nunca desaparece de verdade. Sabia que sempre teria que olhar pelo retrovisor. Sabia que monstros como ele raramente têm finais felizes.

Mas enquanto caminhava em direção ao Seat Leon de Vicente, com uma menininha vestida de leão de mãos dadas e uma mulher corajosa do outro lado, Marcos de la Vega pensou que, talvez, só talvez, ele pudesse ser a exceção.

Porque ela havia aprendido a lição mais importante de todas: o verdadeiro poder não está em controlar os medos dos outros. O verdadeiro poder está em ter alguém com quem compartilhar as uvas quando o relógio bater meia-noite.

E pela primeira vez na vida, Marcos não teve medo.

FIM