Perdi meu voo e vi uma linda mulher sem-teto com um bebê. Dei a ela minha chave, mas…

Correndo para pegar seu voo, a empresária notou uma bela mulher desabrigada com um bebê. Com pena deles, ela entregou as chaves de sua casa no lago. “Estou voando para negociações por 3 meses. More na minha casa por enquanto.” Devido a negociações difíceis, a mulher retornou apenas após 6 meses. Lembrando-se da mulher com o bebê, ela dirigiu até a casa do lago e empalideceu com o que viu.

Heloísa Viana administrava o negócio de família que herdara de seu pai. Com apenas 25 anos, o peso de toda a empresa recaíra sobre seus ombros. Ela dedicara sua vida ao trabalho e, como resultado, nunca construíra uma família própria. Tinha apenas sua mãe, que frequentemente a lembrava de quão importante era encontrar um parceiro amado, e isso a irritava profundamente.

Heloísa estacionou seu sedan preto na garagem. Exatamente às 23h40, ela recostou a cabeça no assento e fechou os olhos por um momento. O dia tinha sido exaustivo. As negociações com os fornecedores se arrastaram até a noite. Depois, ela teve que lidar com uma crise no armazém e, em seguida, mais duas horas foram dedicadas à revisão dos relatórios trimestrais. Aos 55 anos, o corpo já não perdoava tais maratonas.

Ela olhou seu reflexo no espelho retrovisor. Sua pele morena escura mostrava sinais de fadiga. Havia linhas tênues perto de suas têmporas, e seu penteado, usualmente impecável e profissional, estava ligeiramente desfeito nas pontas. Há 30 anos, quando seu pai lhe entregou as rédeas da empresa, ela parecia completamente diferente. Estava cheia de energia, ambição, pronta para mover montanhas. Agora, cada dia parecia uma batalha que ela tinha que vencer apenas para manter o negócio à tona.

Heloísa saiu do carro, pegou sua pasta no porta-malas e se dirigiu à porta da frente. A casa a recebeu com uma luz fraca no corredor e em silêncio. Não, não um silêncio completo. Da cozinha vinha o murmúrio baixo da televisão. Tirando os saltos e pendurando o casaco, Heloísa entrou na cozinha. Como esperado, sua mãe, Beatriz Viana, estava sentada à mesa. Uma xícara de chá pela metade estava à sua frente, e seu olhar estava fixo na tela da TV, que exibia algum programa de saúde.

“Quase meia-noite de novo, e você está apenas chegando do trabalho”, disse Beatriz sem sequer virar a cabeça. Sua voz soava cansada, mas a insatisfação nela era inconfundível. “Quando você vai parar de se torturar e finalmente respirar? Você não entende que na sua idade o descanso é importante?”

Heloísa sentiu algo se apertar dentro dela. Toda noite era a mesma coisa. Sempre, as mesmas palavras, o mesmo tom de reprovação. Ela caminhou até o bar, pegou uma garrafa de vinho tinto e serviu-se de uma taça.

“Já chega, mamãe.” A voz de Heloísa saiu mais alta do que ela planejara. “Eu ouço esses sermões todos os dias.”

Beatriz finalmente desviou os olhos da televisão e virou-se para a filha. Seu rosto expressava um espanto genuíno. “Que sermões? Eu só estou preocupada com você. Você trabalha como se estivesse amaldiçoada. Não se dá descanso.”

“E você já pensou por que as coisas acabaram assim?”, Heloísa a interrompeu, tomando um grande gole de vinho. O álcool queimou sua garganta, mas ela não parou.

“O que você quer dizer?” Beatriz se endireitou na cadeira, um olhar de cansaço aparecendo em seus olhos.

Heloísa pousou a taça na mesa e cruzou os braços sobre o peito. Era como se uma represa tivesse se rompido dentro dela. Todas as palavras que se acumularam por anos, todas as mágoas e acusações não ditas vieram à tona. “Não importa que foram você e o papai que me fizeram assim?” Sua voz tremia com a emoção acumulada. “Foram vocês dois que me separaram do Juliano, dizendo que ele não era bom o suficiente para mim.”

Ela pegou a taça e tomou mais alguns goles nervosos. O vinho já começava a fazer efeito, soltando sua língua e removendo seus filtros.

“Juliano?”, perguntou Beatriz, com surpresa refletida em seu rosto. “Meu Deus, Heloísa, isso foi há mais de 30 anos. Ele era um simples estudante sem um tostão no bolso.”

“Ele me amava!”, gritou Heloísa. “Ele me amava de verdade, mas você e o papai me convenceram de que eu merecia algo melhor, que ele não era bom o suficiente, que ele não tinha ambição.”

“Nós queríamos uma vida melhor para você”, começou Beatriz, mas sua filha não a deixou terminar.

“E o próximo pretendente foi o concorrente do papai”, continuou Heloísa, sua voz ficando cada vez mais embargada. “Ambicioso demais, você disse. ‘Ele vai nos tirar tudo. Tomar a empresa.’ E depois era a idade errada ou a necessidade de pensar na pós-graduação ou a carreira é mais importante.”

Ela se deixou cair na cadeira em frente à mãe, com lágrimas brilhando nos olhos. “E então eu tive que assumir a empresa.” A voz de Heloísa baixou para um sussurro. “Papai morreu e tudo desabou sobre mim. Quando eu deveria encontrar homens? Quando todo o meu tempo era para manter a empresa em um nível respeitável? Quando eu estava trabalhando 14 horas por dia apenas para não arruinar o que o pai construiu?”

Beatriz ficou em silêncio, pressionando os lábios em uma linha fina, seus dedos nervosamente mexendo na borda de um guardanapo. “Não nos culpe por tudo”, disse ela finalmente, com um tom de aço na voz. “Nós sempre fizemos tudo o que podíamos por você. Seu pai construiu esta empresa do zero. Queríamos que você tivesse um futuro.”

“E onde está esse futuro melhor?”, Heloísa riu amargamente. “Onde está, mamãe? Eu tenho 55 anos. Sem marido, sem filhos, sem os netos que você tanto quer cuidar. Apenas uma mãe que constantemente me enlouquece com sua moralização.”

“Não ouse falar assim comigo.” Beatriz levantou-se bruscamente da cadeira. Seu rosto empalideceu e seus olhos brilharam de raiva. “Não ouse. Eu sou sua mãe.”

“E daí?” Heloísa também se levantou. “Isso lhe dá o direito de controlar minha vida? Você a arruinou, mamãe. Você mesma a arruinou.”

“Você é a culpada!”, gritou Beatriz. “Você perdeu seu tempo. Ninguém te forçou a se matar de trabalhar por dias a fio. Outras mulheres conseguem trabalhar e formar uma família.”

“Outras mulheres não carregam um negócio de milhões de reais nas costas”, retrucou Heloísa. “Outras mulheres não vivem com pais que acham que ninguém é digno de sua preciosa filha.”

“Nós só queríamos que você não cometesse um erro.”

“Um erro?” Heloísa riu histericamente. “Eu cometi um erro de qualquer maneira, mamãe. Eu cometi um erro quando escutei você. Juliano agora é dono de uma rede de restaurantes em três cidades. E lembra do Marcos, o concorrente do papai? Ele tem dois filhos adultos, uma empresa de sucesso e uma vida feliz, e eu… eu estou sozinha.”

Um silêncio pesado pairou no ar. Beatriz recostou-se na cadeira como se suas forças a tivessem abandonado. “Você está sendo injusta”, disse ela em voz baixa. “Seu pai e eu trabalhamos a vida inteira para lhe dar a melhor educação, a empresa, esta casa.”

“Eu não queria a empresa!”, gritou Heloísa. “Eu queria amar e ser amada. Eu queria filhos. Eu queria acordar ao lado de uma pessoa que me abraça, não ao lado de uma pilha de documentos.”

“Então por que você concordou em liderar a empresa?” Beatriz olhou para a filha com um desafio. “Ninguém te forçou.”

“Como não me forçou?” Heloísa sentiu as lágrimas finalmente romperem. “Papai estava no hospital me implorando para não deixar a empresa desmoronar. A vida dele estava neste negócio. E você? Você chorava todos os dias dizendo que se eu não tomasse o controle em minhas mãos, perderíamos tudo. Que a vida do papai viraria pó. Como eu poderia recusar?”

Beatriz se virou para a janela. Seus ombros tremiam. “Eu não sabia que você pensava assim”, sussurrou ela.

“Claro que não sabia”, respondeu Heloísa, cansada, enxugando as lágrimas. “Você nunca perguntou o que eu queria. Você sempre soube o que era melhor.”

Heloísa terminou o vinho e colocou a taça vazia na mesa. “Preciso dormir. Reunião importante amanhã.” Ela se dirigiu para a saída da cozinha, mas parou no limiar sem se virar. “Você está certa sobre uma coisa, mamãe. Eu perdi meu tempo, mas isso aconteceu não apenas porque eu decidi assim. Aconteceu porque você e o pai não me deixaram viver minha própria vida.”

Heloísa subiu para seu quarto, fechou a porta e encostou-se nela. Lá embaixo, na cozinha, a luz ainda estava acesa. Ela percebeu que não conseguiria mudar a opinião de sua mãe. Beatriz sempre acreditou que estava certa. Discutir ou explicar qualquer coisa era inútil. Essa briga, como dezenas antes dela, não mudaria nada. Amanhã de manhã, elas falariam fria e rigidamente novamente, fingindo que nada aconteceu.

Como sempre, Heloísa acordou com a cabeça pesada e um gosto amargo na boca. O vinho de ontem não fora a melhor ideia, especialmente antes de um dia de trabalho importante. Ela olhou para o relógio, 7 da manhã. Precisava se arrumar. Ao descer para a cozinha, Heloísa descobriu que sua mãe não estava lá. Normalmente, Beatriz se levantava cedo e a essa hora já estava sentada à mesa com uma xícara de café e o jornal. A cozinha estava vazia hoje. “Ela provavelmente está ofendida depois de ontem”, pensou Heloísa, servindo-se de café da máquina. A culpa a cutucou por dentro, mas ela rapidamente a suprimiu. Não havia tempo para lidar com dramas familiares agora. Negociações com novos investidores a aguardavam, e ela precisava se preparar.

Ela tomou um café da manhã apressado, deixou um bilhete curto para a mãe na mesa. “Volto tarde.” E dirigiu para o trabalho. O escritório a recebeu com a agitação de sempre. A recepcionista relatou as ligações. Elias Torres, seu chefe de gabinete, trouxe uma pasta de documentos para a próxima reunião. Heloísa mergulhou no trabalho, tentando não pensar na briga de ontem.

Era por volta das 14h quando uma ligação de Marta piscou em seu telefone. Heloísa franziu a testa. Marta, a governanta, geralmente não a incomodava por ninharias.

“Sim, estou ouvindo”, respondeu ela, continuando a examinar os documentos.

“Sra. Viana.” A voz de Marta soava alarmada, até assustada. “A Sra. Beatriz desapareceu.”

Heloísa congelou, não compreendendo imediatamente o que ouviu. “Como assim, desapareceu?” Seu coração deu um solavanco desagradável.

“Não consigo encontrá-la em lugar nenhum.” Marta falava rápido, de forma incoerente. “Ela não estava na cozinha de manhã. Pensei que ainda estivesse dormindo, mas quando ela ainda não tinha saído às 10h, fui verificar. A cama está feita. Ela não está no quarto. Procurei em todos os cômodos, a casa inteira, olhei no quintal. Corri para a rua e a chamei, mas a Sra. Beatriz não está em lugar nenhum.”

“Era só o que me faltava.” Heloísa levantou-se bruscamente da mesa, derrubando a pasta de documentos, papéis se espalharam pelo chão, mas ela não se importou. “Marta, você tem certeza de que verificou em todos os lugares?”

“Absolutamente. Até olhei no porão e na garagem. O celular dela está na mesinha de cabeceira do quarto.”

“Estou indo para aí.”

Heloísa desligou e apertou o botão do intercomunicador. “Elias, venha imediatamente.”

Seu assistente apareceu em segundos, aparentemente sentindo a ansiedade em sua voz. “Sim, Sra. Viana?”

“Elias, tive imprevistos.” Heloísa já estava juntando itens em sua bolsa. Suas mãos tremiam levemente. “Minha mãe desapareceu. Preciso cuidar da busca imediatamente. Reagende todas as reuniões.”

“Desapareceu? Como?”

“Eu não sei”, Heloísa o interrompeu bruscamente. “A governanta diz que ela não está em casa desde a manhã.”

Elias Torres estava com Heloísa há 10 anos. Nesse tempo, eles se tornaram não apenas chefe e subordinado, mas quase amigos. Ele viu seu rosto tenso e entendeu a gravidade da situação. “Sra. Viana, posso ajudar com alguma coisa? Talvez organizar um grupo de busca ou ir com você?”

Heloísa pensou por um segundo, mas balançou a cabeça. “Ainda não. Se eu precisar da sua ajuda, eu ligo.” Ela pegou sua bolsa e casaco e praticamente saiu correndo do escritório, deixando um Elias perplexo no meio da sala.

No caminho para casa, Heloísa repassou todos os cenários possíveis em sua cabeça. Onde sua mãe poderia estar? Será que ela realmente ficou tão ofendida com as palavras de ontem a ponto de decidir ir embora? Mas para onde? Freando bruscamente em um semáforo, Heloísa discou o número de Elizabeth Barnes, uma velha amiga de sua mãe.

“Alô?”, respondeu uma voz feminina alegre.

“Sra. Barnes, é a Heloísa. Minha mãe está com você?”

“Não, Heloísa, querida. Aconteceu alguma coisa?” Cansaço apareceu na voz da mulher.

“Não, está tudo bem”, mentiu Heloísa, não querendo criar pânico prematuramente. “Só queria saber para onde ela foi. Talvez ela tenha ligado para você hoje.”

“Não, querida. Beatriz e eu conversamos anteontem. Ela me convidou para um chá na próxima semana. Algo está errado?”

“Não, não, está tudo bem. Obrigada.” Heloísa desligou e discou o próximo número. Valentina, outra amiga, também não sabia de nada. Além disso, ela ficou surpresa com a ligação. “Heloísa, a Beatriz não está em casa? Estranho. Conversamos por telefone ontem. Ela planejava cuidar das flores na estufa hoje. Disse que não cuidava das rosas há muito tempo.”

“Obrigada, Sra. Valentina. Se ela por acaso ligar para você, por favor, me avise imediatamente.”

“Claro, criança, você está me assustando. Beatriz está bem?”

“Sim, nós apenas nos desencontramos.” Heloísa mentiu novamente e desligou. De repente, ela se lembrou: o cemitério. Sua mãe costumava ir lá com frequência, especialmente quando estava chateada ou queria ficar em silêncio. Talvez depois da briga de ontem, ela tenha ido ao túmulo do marido.

Heloísa deu meia-volta com o carro e se dirigiu ao cemitério. A viagem levou 20 minutos, que pareceram uma eternidade. Pensamentos ansiosos fervilhavam em sua cabeça. E se a mamãe se sentiu mal? E se algo aconteceu com ela? “Eu não deveria ter falado com ela daquele jeito ontem”, pensou Heloísa amargamente. “Eu não deveria ter explodido. Ela tem 79 anos. Ela tem problemas cardíacos.”

O cemitério a recebeu com silêncio e o farfalhar das folhas de outono. Heloísa praticamente correu pelas trilhas familiares até o túmulo de seu pai. Seus saltos estalavam no asfalto, sua respiração ofegante. O túmulo estava bem cuidado. Flores frescas jaziam no mármore preto. Aparentemente, sua mãe o visitara recentemente, mas não havia ninguém lá agora.

Heloísa afundou no banco ao lado do túmulo. Lágrimas rolaram por suas bochechas por conta própria. “Papai, como ela pôde fazer isso?”, sussurrou ela, olhando para a foto do pai no monumento. “Para onde a mamãe poderia ter ido? Eu não queria machucá-la. Estou apenas cansada. Cansada de fingir que está tudo bem.”

Lourenço Viana olhava da foto, austero e calmo. Heloísa lembrou-se de como ele sempre sabia como acalmá-la com um olhar, como encontrava as palavras certas em um momento difícil. “O que eu faço?”, perguntou ela em voz baixa. Mas nenhuma resposta veio, é claro.

Ela ficou sentada por mais alguns minutos, enxugou as lágrimas e se levantou. Precisava agir, não sentar e chorar. No caminho para casa, Heloísa começou a ligar para os hospitais. Ela tremia só de pensar que sua mãe poderia ter sofrido um acidente ou um ataque cardíaco.

“Boa tarde. Alguma mulher deu entrada hoje com aproximadamente 79 anos? Beatriz Viana.”

“Um minuto. Deixe-me verificar… Não, não temos essa paciente.”

Ela ligou para quatro hospitais. Nenhum resultado. Então Heloísa dirigiu até a delegacia de polícia. O sargento de plantão a recebeu sem entusiasmo, claramente ocupado com seus próprios afazeres.

“Quero registrar o desaparecimento de uma pessoa”, disse Heloísa com firmeza.

“Sente-se. Quando a pessoa desapareceu?”

“Esta manhã ou possivelmente durante a noite.”

“Você não sabe ao certo.” O policial ergueu os olhos para ela. “Esta manhã. Eu entendo que legalmente vocês podem esperar, mas ela tem 79 anos.” A voz de Heloísa tremeu. “Ela tem problemas cardíacos.”

“Certo, vamos registrar um boletim de ocorrência.” O policial pegou um formulário. “Nome, idade da pessoa desaparecida.”

“Beatriz Viana, 79 anos.”

“Descrição.”

“Mulher negra, bem cuidada.” Heloísa tentou se lembrar de todos os detalhes. “Altura média, cerca de 1,65m. Cabelos grisalhos. Geralmente usa em um coque. Olhos castanhos. Usa óculos de leitura.”

“O que ela estava vestindo?”

“Eu… eu não sei. Saí cedo de manhã. Não a vi.”

“Ela tem problemas de memória? Tendência a perambular?”

“Não.” Heloísa balançou a cabeça. “Não. Nenhum problema de memória. Ela sempre esteve com a mente sã.”

“Talvez tenha havido um conflito, um motivo pelo qual ela possa ter saído.”

Heloísa ficou em silêncio. A briga de ontem surgiu na memória em cores vivas. “Tivemos um desentendimento ontem à noite, mas isso não é motivo para desaparecer.”

“Entendo.” O policial anotou algo. “Deixe seus contatos. Nós investigaremos. Mas geralmente, em casos como este, as pessoas retornam por conta própria. Talvez sua mãe só queira lhe dar uma lição.”

“Me dar uma lição?” Heloísa sentiu a raiva ferver por dentro. “Ela tem 79 anos, não 17.”

“No entanto, acontece”, respondeu o policial calmamente. “Vá para casa. Espere. Se ela não aparecer em 24 horas, ativaremos uma busca mais ampla.”

Heloísa saiu da delegacia sentindo-se devastada e impotente. Ela voltou para casa, onde uma Marta preocupada já havia acendido todas as luzes, como se a luz brilhante pudesse ajudar a trazer a dona desaparecida de volta.

“Nada?”, perguntou a governanta com esperança.

“Nada.” Heloísa entrou na sala de estar e afundou no sofá. “Talvez ela tenha ido para a casa de um dos parentes.”

“Ela não tem parentes próximos além de mim”, respondeu Heloísa, cansada. “Marta, você notou algo estranho no comportamento dela ultimamente?”

“Não, Sra. Viana. A Sra. Beatriz estava como sempre. É verdade que nos últimos dias ela parecia um pouco pensativa, mas não dei importância a isso.”

Heloísa pegou o telefone e começou a ligar para hospitais, necrotérios e centros de atendimento de urgência novamente. A cada resposta negativa, o pânico crescia. À noite, Elias ligou.

“Sra. Viana, como estão as coisas? Sua mãe foi encontrada?”

“Não.” A voz de Heloísa soava oca. “Elias, cancele todas as minhas reuniões para amanhã também. Não consigo pensar em trabalho quando não sei onde minha mãe está.”

“Claro. Talvez… talvez organizar um anúncio ou contratar detetives particulares.”

“Detetives? Sim, é uma boa ideia. Vou cuidar disso amanhã de manhã.”

Heloísa não dormiu a noite toda. Ela ficou sentada na poltrona da sala de estar, envolta em um cobertor, olhando para o telefone, esperando que ele tocasse, que sua mãe ligasse e dissesse que estava tudo bem, que ela só queria ficar sozinha. Mas o telefone permaneceu em silêncio. O mesmo pensamento girava em sua cabeça. E se eu nunca mais a vir? E se as últimas palavras que dissemos uma à outra foram cheias de raiva e ressentimento?

Heloísa fechou os olhos e as lágrimas escorreram por suas bochechas novamente. Pela primeira vez em muitos anos, ela se sentiu tão impotente. Ela podia controlar a empresa, fechar negócios, resolver problemas, mas como encontrar uma pessoa que simplesmente desapareceu?

Três dias se passaram desde o desaparecimento de Beatriz, e Heloísa sentia que estava lentamente enlouquecendo. A polícia estava trabalhando, mas sem muito entusiasmo. Muitas pessoas desaparecidas, poucos recursos. Todos os dias ela ligava para a delegacia, e todos os dias recebia a mesma resposta. “As medidas de busca operacional estão em andamento. Por favor, aguarde.”

Heloísa sentou-se em seu escritório, olhando pela janela para o céu cinzento de outono. Documentos intocados estavam sobre a mesa à sua frente. O computador estava ligado, mas ela não conseguia se forçar a trabalhar. Toda vez que tentava se concentrar em números e relatórios, o rosto de sua mãe flutuava diante de seus olhos.

A porta do escritório se abriu silenciosamente, e Elias entrou com outra pasta de papéis. “Sra. Viana, você precisa assinar…”

“Elias”, Heloísa o interrompeu sem tirar os olhos da janela. “Você conhece algum bom investigador particular?”

Seu assistente congelou na porta. “Investigadores particulares? Você quer contratar um detetive particular?”

“A polícia trabalha muito devagar. Preciso de um profissional que se concentre apenas neste caso.” Ela finalmente se virou para ele. Elias notou as olheiras escuras sob seus olhos, a palidez de seu rosto. “Você tem contatos?”

“Há um homem”, Elias assentiu. “Silas Granjeiro. Trabalhava na divisão de homicídios, depois foi para a prática privada. Muito meticuloso e confiável. Meu irmão o procurou há alguns anos para rastrear um devedor. Encontrou-o em uma semana.”

“Preciso dele com urgência.” Heloísa pegou o telefone. “Me dê o número dele.”

Meia hora depois, o detetive Silas Granjeiro estava sentado em seu escritório. Um homem de cerca de 50 anos, com olhos cinzentos penetrantes e maneiras calmas. Ele inspirava confiança. Ele pegou um bloco de notas e uma caneta.

“Sr. Granjeiro, preciso da sua ajuda”, começou Heloísa, tentando falar com confiança, embora sua voz traísse um tremor. “Minha mãe desapareceu há três dias.”

“Conte-me em detalhes. Quando você a viu pela última vez?”

“À noite, no dia anterior ao desaparecimento, nós discutimos.” Era difícil para Heloísa admitir isso em voz alta. “Na manhã seguinte, saí para o trabalho cedo, não a vi, e à tarde, a governanta ligou e disse que a mamãe não estava em casa.”

“Qual foi a causa da discussão?”

Heloísa cerrou os punhos. “Eu a acusei de arruinar minha vida. Disse que por causa dela, eu não tenho família. Foi estúpido. Eu não deveria ter…”

“Sra. Viana”, o detetive interrompeu gentilmente. “Não estou julgando você. Preciso de fatos para entender o que pode ter acontecido. Sua mãe poderia ter saído sob a influência de emoções?”

“Eu não sei.” Heloísa passou a mão no rosto. “Ela ficou ofendida, isso é certo. Mas simplesmente pegar e ir embora… Ela tem 79 anos. Ela tem problemas cardíacos.”

“Ela tem parentes? Amigos a quem ela poderia recorrer?”

“Liguei para todos. Ninguém a viu. Os amigos dizem que ela não ligou.”

Silas Granjeiro anotou cada palavra. “Dinheiro, documentos. O que ela levou com ela?”

“Nada.” Heloísa sentiu um nó subir em sua garganta. “O passaporte está no lugar. O telefone está em casa. Dinheiro também. A governanta diz que ela nem pegou sua bolsa favorita.”

“Isso é estranho.” O detetive franziu a testa. “Normalmente, as pessoas que planejam sair levam documentos e dinheiro. Descreva-me sua mãe com mais detalhes. Hábitos, lugares que ela gostava de visitar.”

Heloísa passou a hora seguinte respondendo às perguntas do detetive. Ela falou sobre como sua mãe adorava visitar o cemitério, como às vezes encontrava amigos em um café, como às terças-feiras ela sempre ia à igreja.

“Vou verificar todos esses lugares”, prometeu Silas. “Também vou solicitar imagens de vigilância do seu bairro. Sra. Viana, eu entendo como isso é difícil para você, mas tente se lembrar. Havia algo incomum no comportamento de sua mãe recentemente?”

Heloísa pensou. “Marta, nossa governanta, disse que a mamãe estava pensativa nos últimos dias, mas não dei importância a isso. Mal nos falamos. Estou constantemente no trabalho.”

“Certo, vou começar a trabalhar imediatamente. Manterei você informada.” O detetive se levantou. “E mais uma coisa, não perca a esperança. Na minha prática, houve casos em que pessoas foram encontradas um mês depois, ou até dois.”

Quando Silas Granjeiro saiu, Heloísa afundou em sua cadeira. Ela havia contratado o melhor detetive. A polícia estava trabalhando. Cartazes de desaparecimento foram colados por toda a cidade. O que mais ela poderia fazer?

Os dias seguintes se transformaram em uma espera agonizante. Silas ligava todas as noites com relatórios, mas não havia resultados. Ele verificou todos os cafés e igrejas, entrevistou os amigos de sua mãe, revisou imagens. Beatriz Viana parecia ter se dissolvido no ar.

“Verifiquei hospitais em um raio de 150 quilômetros”, disse o detetive. “Também contatei colegas em cidades vizinhas. Nada.”

“Como uma pessoa pode simplesmente desaparecer?”, Heloísa quase gritou no telefone. “Vivemos no século 21. Há câmeras em todos os lugares.”

“Infelizmente, não em todos os lugares. Não há muitas câmeras em sua área residencial. A última coisa que consegui estabelecer: sua mãe saiu de casa cedo pela manhã, por volta das 6h. Depois, o rastro esfria.”

Heloísa continuou indo ao trabalho porque não sabia como mais se ocupar. Ficar em casa esperando era insuportável. Mas o trabalho também não trazia alívio. Ela conduzia negociações, assinava papéis, encontrava-se com parceiros, mas tudo isso acontecia como se estivesse debaixo d’água, em alguma névoa irreal.

“Sra. Viana, você está me ouvindo?” A voz de um parceiro na videochamada a trouxe de volta à realidade.

“Sim, desculpe. O que você estava dizendo sobre os prazos de entrega?”

“Você concorda com as datas propostas?”

Heloísa olhou para a tela, mas os números e gráficos se embaralharam diante de seus olhos. “Sim, eu concordo. Elias preparará os documentos.”

Quando a conexão foi cortada, ela deixou a cabeça cair nas mãos. Seus pensamentos constantemente retornavam à sua mãe. E se Beatriz saiu precisamente por causa da briga delas? E se as últimas palavras que Heloísa disse a ela foram tão cruéis que sua mãe decidiu… não. Ela não conseguia nem pensar nisso.

“Sra. Viana.” Elias entrou no escritório com café. “Beba. Você quase não comeu nada a semana toda.”

“Obrigada.” Ela pegou a xícara, mas nem tocou na bebida. “Como estão as buscas? Algum avanço?”

“Nenhum resultado.” A voz de Heloísa era sem vida. “Granjeiro está trabalhando dia e noite, mas nada. Não sei mais o que fazer.”

Elias sentou-se na beirada da mesa. “Talvez devêssemos cancelar a reunião com os investidores ou adiá-la por algumas semanas. Você não está em estado de conduzir negociações tão sérias.”

Heloísa levantou a cabeça bruscamente. “Reunião com os investidores?” Ela havia se esquecido completamente. Era o negócio mais importante do ano. O futuro da empresa dependia dele. “Certo. O voo é hoje. Elias, que horas são?”

“14h30.”

“E o voo é às 18h”, lembrou o assistente.

“Então o voo é em 3 horas.” Heloísa agarrou a cabeça. “Deus, eu nem fiz as malas.”

“Sra. Viana”, disse Elias gentilmente. “Eu posso ir sozinho ou podemos reagendar. Você não precisa…”

“Não.” Ela se levantou abruptamente. “Sou inútil aqui de qualquer maneira. O detetive está trabalhando. A polícia está trabalhando. Estou apenas atrapalhando, ligando a cada 2 horas. O negócio vai acontecer. É muito importante para a empresa. Mas se algo acontecer, Marta estará em casa. Ela me avisará se a mamãe aparecer.” Heloísa já estava juntando documentos em sua bolsa. “Vou deixar todos os contatos com ela e o de Silas Granjeiro também.”

“Você tem certeza?” Elias olhou para ela com dúvida. “As negociações durarão mais de uma semana, talvez duas.”

“Tenho certeza”, disse Heloísa com decisão, embora por dentro tudo se contraísse de medo. Sair agora, quando sua mãe estava desaparecida, parecia uma traição. Mas a empresa… 200 pessoas trabalhavam lá. 200 famílias dependiam de suas decisões. “Elias, peça um carro para o aeroporto. Preciso passar em casa, pegar minhas coisas.”

“Ok, então te vejo no aeroporto.”

“Sim”, ela assentiu, e eles trocaram olhares tensos.

Em casa, Heloísa fez uma mala às pressas. Marta se apressava por perto, ajudando a dobrar as roupas. “Sra. Viana, e a Sra. Beatriz?”, perguntou a governanta com ansiedade.

“Marta, tenho um pedido muito importante para você.” Heloísa parou e pegou as mãos da mulher. “Se a mamãe aparecer, se houver alguma notícia, me ligue imediatamente, a qualquer hora do dia ou da noite. Entendido?”

“Claro. Claro. Não se preocupe. Eu avisarei imediatamente.”

“Aqui está o número do detetive. Aqui está o número da delegacia.” Heloísa escreveu em um pedaço de papel. “Se algo acontecer e eu não estiver acessível, ligue para eles.”

“Você vai voltar, certo?” Um apelo soou na voz de Marta.

“Claro, voltarei em no máximo 3 meses.” Mas mesmo dizendo essas palavras, Heloísa sentiu o coração se contrair de dor.

Ela ligou para Silas Granjeiro direto do carro, a caminho do aeroporto. “Detetive, sou forçada a sair em uma viagem de negócios por 3 meses, mas estarei acessível 24 horas por dia se você descobrir qualquer coisa.”

“Eu entendo, Sra. Viana. Não se preocupe, continuarei a busca. Tenho mais algumas pistas para verificar.”

“Que pistas?” Ela agarrou o telefone.

“Muito cedo para dizer. Não quero dar falsas esperanças, mas estou trabalhando. Fique tranquila.”

Heloísa caminhava apressadamente pelo estacionamento do aeroporto, arrastando sua mala atrás de si. Elias já havia entrado, mas ela demorou para atender a uma ligação urgente de Silas. A conversa foi curta e infrutífera. Nenhuma nova pista, nenhuma testemunha, nada. Desligando, ela apressou o passo. Faltava menos de meia hora para o check-in, e ela não podia se atrasar. Os investidores não esperariam se ela perdesse o voo.

Perto da entrada do terminal, ela notou uma mulher, jovem, talvez com 30 anos, com uma criança nos braços. Eles estavam sentados em uma barreira de concreto. Algo naquela imagem fez Heloísa parar. A mulher estava vestida com um casaco surrado, claramente não do seu tamanho. Seus cabelos estavam desgrenhados, mas seu rosto… seu rosto era surpreendentemente bonito, com traços regulares e grandes olhos escuros. E o bebê em seus braços, bem pequeno, estava envolto em um cobertor fino, claramente insuficiente para o clima de outono.

Heloísa ia passar direto. Ela não tinha tempo. Precisava se apressar. Mas algo a forçou a demorar. Talvez fossem os olhos da mulher, cansados, mas cheios de uma dignidade silenciosa, ou a maneira como ela pressionava ternamente a criança contra si, tentando aquecê-la com seu corpo.

“Com licença?”, Heloísa se aproximou. “Está tudo bem?”

A mulher se assustou e ergueu um olhar cansado para ela. “Sim, está tudo bem”, respondeu ela em voz baixa, instintivamente, pressionando o bebê com mais força contra o peito.

“Perdoe a intromissão, mas você tem onde ficar?”

A mulher ficou em silêncio por um momento, como se debatesse se deveria contar a verdade a uma estranha. Então ela baixou o olhar. “Não agora, mas vamos nos virar.”

Heloísa olhou para a criança, um menino, a julgar pelo chapéu azul, dormindo com o rosto enterrado no ombro da mãe. Ele não tinha mais de um ano, e de repente um pensamento brilhou na mente de Heloísa. E se minha mãe estiver sentada em algum lugar assim também, solitária e desamparada? E se alguém estiver passando por ela com a mesma indiferença com que a maioria das pessoas está passando por esta mulher agora?

“Ouça.” Heloísa vasculhou sua bolsa e tirou um molho de chaves. “Eu tenho uma casa de campo em Campos do Jordão, a uns 150 km daqui. Estou voando para longe por um longo tempo, vários meses. A casa está vazia. Você quer morar lá?”

A mulher olhou para ela com tanta incredulidade como se Heloísa lhe tivesse oferecido um milhão de reais. “O quê? Mas por quê? Você não me conhece.”

“E isso importa?” Heloísa estendeu as chaves. “Você tem uma criança pequena. Ele precisa de um teto sobre a cabeça. Eu tenho esse teto e agora ninguém precisa dele.”

“Eu… eu não posso simplesmente aceitar.” A mulher estava claramente perplexa. “Isso é demais.”

O bebê nos braços da mulher se mexeu e começou a chorar baixinho. A mãe começou a embalá-lo e Heloísa viu suas mãos tremendo de frio ou de cansaço.

“Estou voando para negociações por 3 meses. More na minha casa de campo por enquanto”, repetiu Heloísa, oferecendo as chaves novamente.

“Três meses?” A mulher ainda hesitava em pegar as chaves. “Mas por que você está fazendo isso?”

Heloísa pensou sobre isso. De fato, por quê? Ela não estava acostumada a decisões espontâneas, especialmente como esta. Deixar uma estranha entrar em sua casa era imprudente, mas algo dentro dela dizia que era o certo a fazer. “Porque”, ela tropeçou nas palavras. “Porque minha mãe está desaparecida agora e eu não sei onde ela está ou se está bem. E eu quero acreditar que se ela estiver em algum lugar precisando de ajuda, alguém estará por perto e a ajudará como eu estou ajudando você agora.”

A mulher estendeu a mão lentamente e pegou as chaves, seus olhos cheios de lágrimas. “Obrigada”, sussurrou ela. “Eu nem sei o que dizer. Meu nome é Clara e este é Léo.”

“Heloísa”, ela se apresentou. “Ouça, preciso correr. Estou atrasada para o meu voo, mas vou ligar para o meu motorista agora mesmo. Ele vai levar vocês.”

Ela discou o número de Dante, seu motorista regular. “Dante, você ainda está no estacionamento?”

“Sim, Sra. Viana. Aconteceu alguma coisa?”

“Uma mulher com uma criança pequena está chegando na entrada do terminal agora mesmo. O nome dela é Clara. Leve-os para a casa de campo, por favor.”

“Para a casa de campo?”, surpresa soou na voz de Dante.

“Sim.” Heloísa ditou rapidamente as instruções. “E compre tudo o que eles precisarem. Comida para o começo, roupas para a criança. Está claro que eles precisam de tudo. Comida de bebê, fraldas, o que quer que os bebês precisem.”

“Entendido. Tudo será feito, Sra. Viana. Estou chegando agora.”

Heloísa virou-se para Clara. “Vocês serão levados. Há tudo o que é necessário na casa de campo. Roupas de cama no armário do quarto. Pratos na cozinha. O aquecimento é elétrico. Vocês vão se virar.”

“Eu não sei como te agradecer.” Clara olhou para ela como se visse um anjo. “Você salvou nossas vidas.”

“Não exagere.” Heloísa sorriu, embora sua alma estivesse pesada. “Apenas ajudei.” Ela já tinha se virado para ir quando Clara a chamou. “Heloísa, espero que encontrem sua mãe.”

“Eles definitivamente vão encontrar.” Heloísa assentiu, incapaz de dizer outra palavra, e correu para o terminal.

No balcão de check-in, Elias já a esperava nervosamente. “Sra. Viana, onde você estava? Faltam 3 minutos para o fechamento do check-in.”

“Desculpe. Fiquei presa.” Ela entregou seus documentos ao agente. Enquanto processavam a bagagem, Elias não tirou seu olhar inquisidor dela.

“Aconteceu alguma coisa?”

“Não, quer dizer, sim. Acabei de dar as chaves da casa de campo para uma mulher desabrigada com uma criança.”

Elias parou no meio do caminho. “Você fez o quê?”

“Dei as chaves da casa de campo”, repetiu Heloísa calmamente, pegando seu cartão de embarque. “Eles vão morar lá enquanto eu estiver fora.”

“Mas…” Elias estava claramente tentando encontrar palavras. “Você não tem medo de deixar estranhos na casa de campo? Você não a conhece. E se ela… bem, eu não sei, roubar algo ou transformar o lugar em uma boca de fumo?”

Heloísa parou e olhou para ele. “Não, não tenho medo. A mulher não tem culpa de o destino dela ter sido assim. Tenho certeza de que ela é boa.”

“De onde vem essa confiança?” Elias balançou a cabeça. “Sra. Viana, você sempre foi cautelosa nos negócios, investigou cada parceiro, e aqui…”

“Aqui, eu apenas senti que precisava ajudar”, Heloísa o interrompeu. “Não havia mentiras nos olhos dela, Elias. Apenas exaustão e medo. E aquele bebê, ele estava com frio. Como eu poderia passar direto?”

Elias suspirou. “Tudo bem. Espero que você esteja certa. Se não por outro motivo, porque não quero lidar com as consequências se você cometeu um erro.”

Eles passaram pela segurança e se dirigiram ao portão de embarque. A área de espera estava lotada e barulhenta. Heloísa afundou em uma cadeira, sentindo a fadiga tomar conta dela. A última semana havia esgotado todas as suas forças.

“Você está preocupada com sua mãe. É por isso que ajudou aquela mulher”, perguntou Elias em voz baixa, sentando-se ao lado dela.

“Eu não sei”, respondeu Heloísa honestamente. “Talvez eu só quisesse fazer algo bom. Talvez seja alguma forma de penitência.”

“Penitência por quê?”

“Por ser uma filha ruim? Pelo fato de que as últimas palavras que eu disse à mamãe foram cruéis. Pelo fato de que estou voando agora em vez de ficar e procurá-la.”

“Você não é uma filha ruim.” Elias balançou a cabeça. “Você está fazendo o que deve.”

“O que devo.” Heloísa riu amargamente. “Eu fiz o que devia a vida inteira. E aqui está o resultado. A mamãe está desaparecida. Eu não tenho família. Apenas trabalho sem fim.”

O embarque foi anunciado. Eles se levantaram e se dirigiram ao portão. Na fila, Heloísa verificou o telefone novamente. Nenhuma mensagem de Marta ou do detetive.

No avião, ela se acomodou perto da janela. Elias sentou-se ao lado dela e pegou seu laptop. “Vamos repassar a apresentação mais uma vez”, sugeriu ele.

“Vamos”, Heloísa assentiu, embora não quisesse absolutamente pensar em trabalho. Na hora seguinte, eles discutiram o projeto que deveria levar a empresa a um novo patamar. Elias mostrou gráficos e cálculos, explicou a estratégia, e Heloísa assentia e fazia anotações, mas seus pensamentos estavam longe.

O avião decolou, e Heloísa pressionou a testa contra a janela fria. Lá embaixo ficava a cidade onde sua mãe estava, ou não estava. A cada dia, a esperança se desvanecia.

“Sra. Viana”, Elias a chamou. “Você está ouvindo?”

“Desculpe, me perdi em pensamentos.”

“Eu perguntei, quando contatamos o Dante? Quero ter certeza de que ele levou aquela mulher até lá.”

“Boa ideia.” Heloísa discou o número do motorista. “Dante, como foi tudo?”

“Tudo ótimo, Sra. Viana. Levei a Clara e o bebê para a casa de campo, ajudei-os a se instalarem, depois fui ao supermercado, comprei comida, roupas para o garoto. A mulher estava chorando de gratidão.”

“Obrigada, Dante. Vou transferir o dinheiro das compras.”

“Não se preocupe. A propósito, ela é uma boa mulher, inteligente, me contou um pouco sobre si mesma. Ela tem diploma universitário, trabalhava como contadora, mas o marido acabou sendo um tirano. Teve que fugir.”

“Entendo.” Heloísa sentiu que não havia se enganado em seu impulso. “Dante, fique de olho neles, por favor. Se precisarem de algo, ajude.”

“Claro.”

Desligando, Heloísa recostou-se no assento. Elias olhou para ela com curiosidade. “Bem, satisfeita?”

“Sim”, Heloísa sorriu. “Sabe, mesmo em um período tão difícil, é bom perceber que você pôde ajudar alguém.”

“Isso é nobre”, concordou Elias, “embora ainda seja imprudente.”

Todas as noites, no hotel, Heloísa ligava para casa. Marta sempre atendia no primeiro toque, como se não largasse o telefone.

“Marta, alguma notícia?”

“Não, Sra. Viana, nenhuma.”

“O detetive ligou?”

“Sim, esta manhã. Diz que está verificando uma nova teoria, mas nada concreto ainda. A polícia também não encontrou nada. Desculpe, Sra. Viana.”

“Você não tem culpa de nada”, disse Heloísa, cansada. “Obrigada por me manter informada.”

As negociações foram difíceis. Os investidores criticaram cada número, exigiram garantias adicionais, estabeleceram condições. Heloísa conduzia as negociações no piloto automático, respondendo mecanicamente a perguntas e apresentando contra-argumentos. Elias a apoiava como podia, mas até ele via que sua chefe estava se segurando com as últimas forças.

“Sra. Viana, você foi ótima hoje”, disse ele após outra rodada de negociações. “Conseguiu convencê-los a baixar a porcentagem.”

“Sim”, respondeu ela indiferentemente, verificando o telefone. Nenhuma mensagem. As chances de que tudo estivesse bem com Beatriz diminuíam a cada dia. Heloísa conhecia as estatísticas. Quanto mais tempo passa desde o momento do desaparecimento, menor a probabilidade de encontrar a pessoa viva e bem. Isso a deixava doente. Mas ela tinha que se recompor, sorrir para os investidores, discutir os termos do contrato, fingir que tudo estava sob controle. E à noite, ela deitava no quarto do hotel e olhava para o teto, repassando a última conversa com sua mãe em sua cabeça, cada palavra, cada entonação, e a cada dia, o peso da culpa se tornava mais pesado.

Seis meses. Heloísa passou meio ano em negociações que deveriam ser as mais importantes da história de sua empresa. Os investidores se revelaram tão exigentes e cautelosos que cada ponto do contrato foi discutido por semanas. Inicialmente, estava planejado que tudo levaria três meses, mas as negociações se arrastaram. Novas condições surgiram. Reuniões adicionais com parceiros em outras cidades foram necessárias.

Agora, finalmente, o avião pousou em sua cidade natal, e Heloísa e Elias caminhavam pelo terminal do aeroporto com malas. O negócio estava fechado, os contratos assinados. A empresa recebeu investimentos que permitiriam sua expansão e entrada no mercado internacional. Foi uma vitória, mas Heloísa não sentia alegria.

“Sra. Viana, você é incrível.” Elias caminhava ao lado dela, sem esconder seu entusiasmo. “Você lidou com isso honestamente. Houve momentos em que pensei que eles recusariam. Mas você os convenceu.”

“Isso também é mérito seu, Elias.” Heloísa sorriu cansada e deu um tapinha no ombro de seu assistente. “Você me ajudou a persuadir os investidores, especialmente quando se tratava dos prazos de retorno do investimento. Sem seus cálculos, não teríamos conseguido convencê-los.”

“Equipe”, respondeu Elias modestamente. “Somos uma equipe. A propósito, você vai para casa agora ou para a casa de campo?”

Heloísa parou no meio do caminho. “A casa de campo?” Ela havia se esquecido completamente dela durante esses meses. “Certo, eu esqueci que tenho hóspedes morando lá.” Ela sorriu, encolhendo os ombros. “Me pergunto como eles estão. Dante mencionou algumas vezes que estava tudo bem.”

“Talvez para casa primeiro para descansar”, sugeriu Elias.

“Não.” Heloísa balançou a cabeça com decisão. “Vou para o lago. Quero ter certeza de que está tudo bem e conhecer melhor a Clara. Afinal, ela está morando na minha casa há meio ano e eu realmente não falei com ela.”

Eles se despediram na saída. Elias pegou um táxi e Heloísa ligou para Dante. O motorista chegou em 20 minutos, sorrindo alegremente. “Sra. Viana, estou tão feliz em vê-la. Como foram as negociações?”

“Com sucesso, Dante. Cansada, é claro, mas o resultado valeu a pena. Vamos para a casa de campo.”

“A casa de campo, não para casa?”

“Não, quero verificar como estão as coisas. A propósito, como está a Clara? E o bebê?”

“Oh, tudo excelente.” Dante se animou. “Clara é uma mulher maravilhosa, trabalhadora, arrumada. A casa está sempre em ordem, e ela encontrou um emprego na loja local. O Léo está crescendo a passos largos. Já começou a andar.”

“Já está andando?” Heloísa ficou surpresa. “Quantos anos ele tinha quando eu saí?”

“10, 11 meses. Agora ele tem um ano e cinco meses. Um garotinho tão esperto.”

Eles entraram na rodovia. Paisagens familiares passavam pela janela. A cidade gradualmente deu lugar aos subúrbios, depois campos e floresta. Heloísa olhou pela janela e pensou em sua mãe. Nesses seis meses, o rastro esfriou completamente. Silas Granjeiro continuou trabalhando nos primeiros três meses, mas depois admitiu que havia chegado a um beco sem saída. A polícia também não encontrou nada. O caso do desaparecimento de Beatriz Viana estava gradualmente se movendo para os arquivos.

Heloísa aprendeu a viver com essa dor. Ela não chorava mais todas as noites, não se assustava a cada toque do telefone. Ela simplesmente aceitou como um fato. Sua mãe desapareceu, e muito provavelmente ela nunca mais a veria. Esse pensamento era insuportável, mas ela tinha que viver com ele.

A casa de campo ficava em um local pitoresco, cercada por pinheiros. Uma casa de dois andares com uma grande varanda e um jardim bem cuidado. Seu pai comprou este lugar há muito tempo, quando Heloísa ainda era uma adolescente. Aqui eles passavam os verões. Aqui eles celebravam feriados em família. Após a morte de seu pai, Heloísa quase nunca vinha aqui. Muitas memórias.

O carro virou na estrada de terra familiar. Alguns minutos depois, a casa apareceu, e Heloísa imediatamente notou que algo havia mudado. Flores desabrochavam nos canteiros. O portão estava recém-pintado. Novas cortinas pendiam nas janelas. O lugar parecia habitado, aconchegante.

“Viu?”, disse Dante com satisfação. “Clara realmente cuida bem da casa.”

Eles saíram do carro. Heloísa olhou ao redor. Até os caminhos estavam varridos, a grama aparada. Ela se dirigiu para a casa quando, de repente, ouviu uma risada de criança vinda do jardim. Dando a volta na casa, Heloísa saiu para o gazebo que ficava na beira da propriedade, perto de um pequeno lago, e o que ela viu a fez congelar no lugar.

No gazebo, em uma cadeira de vime, estava sentada uma mulher idosa em um vestido claro. Em seu colo, sentava-se uma criança com cachos escuros, e a mulher estava lhe contando algo, apontando para os patos que nadavam no lago. A criança ria, batendo palmas.

Heloísa sentiu o chão sumir debaixo de seus pés. Ela conhecia aquela mulher. Ela a conheceria entre milhares de outras.

“Mãe.” A voz soou rouca, mal audível.

A mulher levantou a cabeça e olhou para Heloísa. O rosto era dolorosamente familiar. Os mesmos olhos castanhos, o mesmo nariz elegante, os mesmos lábios finos, mas não havia reconhecimento nos olhos, apenas uma leve curiosidade.

“O quê?”, perguntou Beatriz, inclinando a cabeça. “Nós nos conhecemos?”

“Você disse ‘mãe’?” Heloísa deu um passo à frente, depois outro, suas pernas estavam cedendo, seu coração batia descontroladamente. “Mãe, sou eu, Heloísa, sua filha.”

Beatriz olhou para ela atentamente, como se tentasse se lembrar, depois balançou a cabeça lentamente. “Perdoe-me, mas eu não a conheço. Você deve estar enganada, senhora.”

Heloísa suspirou pesadamente, sem entender o que estava acontecendo. Seis meses de buscas, seis meses de desespero e esperança, e sua mãe estivera aqui o tempo todo na casa do lago, a 150 km de casa.

Nesse momento, Clara saiu da casa com uma panela grande nas mãos. Vendo Heloísa, ela sorriu. “Oh, você voltou. Bem-vinda a casa.” Ela colocou a panela na mesa do gazebo. “Você vai almoçar conosco? Acabei de fazer sopa.”

“Clara.” Heloísa apontou para sua mãe com uma mão trêmula. “Esta mulher, como ela está aqui?”

“Ah, a Sra. Bia.” Clara olhou para a mulher idosa com ternura. “Ela está morando conosco há muitos meses.”

“Por quê?” O bebê no colo de Beatriz acenou com a mão para Heloísa.

“Clara.” Heloísa se aproximou. Sua voz tremia. “Esta é minha mãe. Beatriz Viana. Esta é minha mãe.”

Clara congelou, a panela quase caindo de suas mãos. “Então, esta é sua mãe.” Clara ficou surpresa, mudando o olhar de Heloísa para Beatriz. “Meu Deus, eu não sabia.”

“Ela saiu de casa e desapareceu há 6 meses.” Heloísa falava de forma incoerente, as lágrimas já rolando por suas bochechas. “A polícia procurou, detetive particular. Ninguém conseguiu encontrá-la, e eu estava tão preocupada. Pensei que a tinha perdido para sempre.”

Clara afundou no banco como se suas pernas não a sustentassem.

“Clara, por favor.” Heloí-sa agarrou suas mãos. “Diga-me como ela acabou aqui.”

“Ok. Ok.” Clara assentiu. “Sente-se. Vou te contar tudo. Bia, querida, você pode brincar com o Léo mais um pouco?”

“Claro.” Beatriz sorriu para o bebê. “Vamos alimentar os patos. Sim, meu raio de sol.”

Heloísa sentou-se em frente a Clara. Suas mãos tremiam, e ela as cerrou em punhos para parar os tremores. “Conte-me tudo desde o início.”

“Foi alguns dias depois que você nos deu as chaves”, começou Clara. “Lembro-me exatamente, 4 dias se passaram. Léo e eu fomos passear até o rio. Há um lugar muito bonito não muito longe daqui, onde você pode sentar na margem, e de repente eu vi essa mulher.”

“Onde exatamente?”, interrompeu Heloísa.

“Perto da ponte. Ela estava parada no meio da estrada e parecia perdida. Eu inicialmente queria passar direto, mas ela estava tão assustada. Fui até ela e perguntei se precisava de ajuda. Ela olhou para mim com olhos tão perdidos e perguntou: ‘Onde fica a casa?’ ‘Estou procurando a casa.'”

Heloísa ouvia, sem respirar.

“Eu perguntei: ‘Qual casa?’ Ela nomeou a rua, um número.”

“Esta rua? Esta casa?”

“Sim.” Clara apontou para a casa do lago. “Fiquei chocada. Eu disse: ‘Bem, eu moro nesta casa. Venha, eu a acompanho.’ Nós a trouxemos aqui e ela… ela começou a chorar. Ela entrou na casa, olhou ao redor e desabou em lágrimas, disse: ‘Eu conheço este lugar. Eu estive aqui. Estivemos aqui com o Lourenço.’ Ela repetia constantemente esse nome.”

“Lourenço. Lourenço é meu pai”, disse Heloísa em voz baixa. “Ele morreu quando eu tinha 25 anos, 30 anos atrás.”

“Viu”, Clara assentiu. “Ela vive no passado, lembra-se do marido, lembra-se da juventude, mas tudo o que aconteceu depois da morte dele… ela não se lembra.”

Heloísa olhou para a mãe, que conversava alegremente com a criança. “De jeito nenhum?”

“De jeito nenhum. Tentei perguntar sobre a família, sobre a casa. Ela descreveu o apartamento onde morava com o marido. Descreveu seu trabalho. Ela era professora, certo? Mas sobre você? Sobre o fato de que ela tem uma filha? Nada. Como se não tivesse acontecido.”

“Preciso levá-la a um médico.” Heloísa enxugou as lágrimas com urgência. “Isso é perda de memória. Talvez um trauma. Talvez ela tenha caído, batido a cabeça.”

“Eu a levei a um médico”, disse Clara. “Uma semana depois que a encontrei, ao clínico geral local. Ele disse que eram necessários exames e tomografias, mas Beatriz recusou. Tinha medo de hospitais. Eu não podia forçá-la.”

“Tudo bem. Vou encontrar um bom médico.” Heloísa já estava fazendo planos. “Faremos todos os exames, tomografias, descobrir o que aconteceu com ela.”

Elas ficaram em silêncio por alguns minutos. Heloísa não conseguia desviar o olhar da mãe. Beatriz segurava Léo nos braços e mostrava a ele como jogar migalhas de pão para os patos. O bebê ria e sua mãe sorria com um sorriso tão suave e feliz.

“Então, todo esse tempo ela tem morado aqui com você”, perguntou Heloísa finalmente.

“Sim.” Clara assentiu. “Eu não podia deixá-la sozinha. Você entende? Ela estava tão perdida, tão desamparada. Decidi que ficaria com ela até… até que alguém de sua família fosse encontrado. Eu não sabia que era sua mãe.”

“E como vocês viveram? Com o quê?” Heloísa lembrou-se de Dante falando sobre um emprego.

“Encontrei um emprego em uma loja aqui na vila, não muito longe. O dono, um homem maravilhoso, permitiu que eu levasse o Léo comigo. O pagamento não é grande, mas foi o suficiente para nós. Beatriz ajudava em casa, cozinhava, limpava. Ela cozinha lindamente, a propósito.” Clara sorriu. “E ela cuidava do Léo quando eu estava no trabalho. Ele se apegou tanto a ela, a chama de vovó.”

“Vovó”, repetiu Heloísa, e uma nova onda de lágrimas subiu à sua garganta. Ela não se lembra da própria filha, mas cuida do filho de uma estranha.

“Heloísa.” Clara se inclinou para frente. “Eu não sei o que dizer. Sinto muito. Se eu soubesse que era sua mãe, teria entrado em contato com você imediatamente.”

“Você não tem culpa.” Heloísa balançou a cabeça. “Você a salvou. Você lhe deu abrigo, cuidou dela. Clara, muito obrigada por não ter abandonado minha mãe, por ter cuidado dela todos esses meses. Obrigada.”

Lágrimas apareceram nos olhos de Clara. “Você abrigou a mim e ao Léo quando ficamos sem absolutamente nada. Você nem nos conhecia, mas ajudou. E eu… eu simplesmente não podia abandonar uma mulher idosa que precisava de ajuda.”

Elas se abraçaram, ambas chorando de alívio, de felicidade, por tudo o que passaram nesses meses.

“Clara.” Heloísa se afastou. “Isso não é da minha conta, e você não precisa responder se não quiser. Mas como você acabou na rua com uma criança? O que aconteceu?”

Clara enxugou as lágrimas e respirou fundo. “Eu era casada com um homem rico, Ricardo. Nos conhecemos quando eu trabalhava na empresa dele. Ele era charmoso, generoso, cortejava lindamente. Eu me apaixonei.” Ela ficou em silêncio. Seu olhar ficou distante. “O casamento foi luxuoso. Ele me comprou um apartamento, um carro, roupas. Eu pensei que era amor. Mas depois que o Léo nasceu, tudo mudou. Ele começou a ter ciúmes do bebê. Dizia que eu estava dando muita atenção a ele. E então ele começou a bater.”

“Deus”, sussurrou Heloísa.

“No início raramente, depois cada vez mais. Ele controlava cada passo meu. Eu não podia sair de casa sem a permissão dele. Não podia ligar para amigos. Meus pais morreram e meu irmão mora no exterior. Eu estava completamente sozinha e tinha medo de que ele me matasse ou, pior ainda, fizesse algo com o Léo.” Clara passou a mão no rosto, afastando novas lágrimas. “Eu economizei dinheiro aos poucos. Escondi. Economizei por 6 meses. E quando economizei o suficiente para uma passagem de ônibus, eu fugi. Apenas peguei o Léo e saí enquanto ele estava no trabalho. Fui para a rodoviária e peguei o primeiro ônibus que estava saindo. Nem sabia para onde estava indo. Apenas fui para onde meus olhos me levaram. E então te encontrei.”

“Ele está te procurando?”, perguntou Heloísa.

“Eu não sei. Provavelmente. O dono da loja me contratou sem carteira assinada, então Ricardo não poderia me encontrar através de bancos de dados.”

Heloísa pensou. “Sabe, Clara, vamos nos tratar por você. Acho que depois de tudo o que passamos, é apropriado.”

“Ok”, sorriu Clara.

“Eu tenho uma proposta.” Heloísa olhou em seus olhos. “Quero te oferecer um emprego na minha empresa em termos normais, com registro oficial e um bom salário. Você disse que trabalhava como contadora.”

“Sim, mas…”

“Sem mas. Você salvou minha mãe, cuidou dela quando eu nem sabia onde ela estava. Sou eu quem deveria ser grata a você. E também quero levar todos vocês para casa. Mamãe, você, Léo. Eu tenho uma casa grande. Há espaço suficiente para todos. Léo ficará melhor na cidade. Mais oportunidades, bons médicos, creche.”

“Heloísa.” Clara olhou para ela com espanto. “Isso é demais. Você já fez tanto por nós.”

“Não é demais. É o certo”, disse Heloísa. “Mamãe ficará comigo. Você vai trabalhar. Contrataremos uma babá para o Léo para o tempo em que você estiver no trabalho. E quando ele ficar mais velho, pré-escola. Todos estarão ocupados, juntos, como uma família.”

“Como uma família”, repetiu Clara, e as lágrimas escorreram por suas bochechas novamente. “Eu sonhei com uma família de verdade por tanto tempo.”

Eles almoçaram todos juntos na grande mesa do gazebo. Beatriz contou histórias sobre sua juventude, sobre como conheceu Lourenço, como eles foram para o sul em sua lua de mel. Ela falava vividamente, com um sorriso, e parecia que ela realmente havia retornado àquele tempo feliz. Heloísa ouvia e chorava, tentando fazer isso discretamente. Sua mãe estava viva, estava por perto, mas ao mesmo tempo, não estava. A mulher sentada à sua frente não se lembrava dela, não a reconhecia. Era felicidade e tragédia simultaneamente.

No dia seguinte, Heloísa convocou o melhor neurologista da cidade para a casa de campo. O médico realizou um exame, fez muitas perguntas, solicitou exames e tomografias. “A julgar pelos sintomas, sua mãe sofreu um AIT, um acidente isquêmico transitório”, disse ele a Heloísa em particular. “Aconteceu muito provavelmente no momento do desaparecimento ou pouco antes. Um mini-AVC pode ocorrer quase assintomaticamente. A pessoa nem sempre entende o que aconteceu com ela, mas as consequências podem ser sérias. No caso de sua mãe, as áreas do cérebro responsáveis pela memória de longo prazo foram afetadas.”

“Então, ela nunca vai se lembrar de mim?” A voz de Heloísa tremeu.

“Não posso dizer com certeza. O cérebro é um sistema complexo. Às vezes, a memória é restaurada parcial ou completamente. Às vezes não. Leva tempo, reabilitação, apoio dos entes queridos. Vou prescrever tratamento, vitaminas, nootrópicos e, o mais importante, cercá-la de coisas familiares, fotografias, histórias. Isso pode ajudar.”

Uma semana depois, eles se mudaram para a casa da cidade. Heloísa deu a Clara e Léo uma suíte separada no segundo andar. Ela contratou uma babá para Léo e processou a admissão de Clara na empresa como contadora. Clara se revelou uma excelente funcionária, atenta, responsável e de rápido aprendizado. Elias, que inicialmente a tratou com desconfiança, admitiu um mês depois que foi uma decisão acertada.

Léo, enquanto sua mãe estava no trabalho, ficava em casa com a babá e Beatriz. A mulher idosa apegou-se ao menino e cuidava dele com tanta ternura que a babá costumava brincar: “Não tenho nada para fazer aqui. A Sra. Beatriz faz tudo sozinha.”

Gradualmente, muito lentamente, a memória começou a retornar. Primeiro, Beatriz se lembrou de sua amiga Elizabeth, depois do endereço da casa onde morava com a filha. Então, de Heloísa. Aconteceu três meses após a mudança. Heloísa chegou em casa do trabalho e sua mãe a encontrou na soleira com um sorriso.

“Heloísa, minha filha”, disse ela simplesmente. “Como senti sua falta.”

E elas se abraçaram, ambas chorando de felicidade. Beatriz não se lembrava dos detalhes dos últimos 30 anos, mas se lembrava do principal: que ela tinha uma filha que amava.

Agora todos moravam juntos na casa grande. Clara trabalhava e gradualmente ganhava confiança em si mesma. Léo cresceu e se tornou um menino saudável e feliz. Beatriz estava se recuperando e se lembrava de algo novo a cada dia. Pela primeira vez em muitos anos, Heloísa sentiu que tinha uma família de verdade. Não aquela ditada por obrigações e deveres, mas uma criada por amor e apoio mútuo.