O mistério da antiga livraria de Lady Bantry

O Mistério do Sebo da Fazenda Boa Esperança

Capítulo 1. O Dia da Inauguração

O sol da manhã projetava longas sombras pelo pátio de paralelepípedos da Fazenda Boa Esperança enquanto Dona Beatriz Medeiros, ou Bia para os íntimos, inspecionava seu mais novo empreendimento com o ar satisfeito de um general revistando tropas vitoriosas. A antiga cocheira, que permanecera vazia por quase duas décadas, agora brilhava com uma nova caiação e ostentava uma placa elegante, pintada à mão, que dizia: “Sebo Boa Esperança”, em letras douradas e sinuosas.

— Bem, Artur — anunciou ela ao retrato a óleo de seu falecido marido, que a observava da parede da casa principal com a expressão resignada de um homem há muito acostumado aos entusiasmos de sua esposa —, acredito que nos saímos muito bem. O fundo para a restauração do telhado da capela vai se beneficiar enormemente, e ainda estamos prestando um serviço à comunidade de Santa Brígida.

O Coronel Artur Medeiros, um cavalheiro robusto de porte militar suavizado por anos de uma confortável aposentadoria, teria certamente concordado, especialmente com as robustas prateleiras de jacarandá que ele mesmo mandara fazer a um carpinteiro local antes de sua partida. “Trabalho sólido, essas prateleiras durarão mais um século, pelo menos”, ele diria.

A transformação era, de fato, notável. O que antes abrigara carruagens e arreios agora continha fileiras e mais fileiras de livros, suas lombadas de couro e percalina criando uma tapeçaria quente de marrons, verdes e vermelhos profundos. O cheiro de papel antigo e cola de encadernação misturava-se agradavelmente com o aroma persistente de cera de carnaúba.

Senhorita Júlia Marques, chegando pontualmente às nove horas para a cerimônia de corte da fita, parou na porta para admirar a cena. Seus aguçados olhos azuis captaram cada detalhe com a minúcia de quem aprendera, por longa experiência na observação da natureza humana, que os encontros mais inocentes poderiam abrigar os segredos mais extraordinários.

— Que encanto absoluto, Bia — murmurou ela, usando o nome familiar de Dona Beatriz. — Livros, assim como as pessoas, muitas vezes escondem seu verdadeiro valor sob capas simples.

— Júlia, minha querida! — Dona Beatriz avançou, o rosto corado de excitação. — Você precisa conhecer nossa pequena equipe de voluntários. Eles têm sido absolutamente inestimáveis.

A primeira apresentação foi a Heitor Dantas, um cavalheiro de talvez quarenta e cinco anos, cujo terno de linho cortado em São Paulo e modos confiantes o marcavam imediatamente como um homem do mundo. Seus cabelos escuros eram salpicados de prata nas têmporas e suas mãos, notou a Senhorita Júlia, eram as de alguém acostumado a manusear objetos valiosos com cuidado.

— O Senhor Heitor tem sido muito generoso com sua expertise — explicou Dona Beatriz. — Ele veio de São Paulo especialmente para nos ajudar a avaliar o acervo. Algumas dessas doações são bastante notáveis.

O sorriso de Heitor era praticado e charmoso. — Encontramos os tesouros mais extraordinários nos lugares mais inesperados, Senhorita Marques. Casarões de fazendas como a Boa Esperança muitas vezes contêm joias literárias que foram esquecidas por gerações.

— Que fascinante — respondeu a Senhorita Júlia, embora algo nos modos do homem lhe parecesse ligeiramente teatral. — E que sorte para a caridade que o senhor seja tão generoso com seu tempo.

A próxima voluntária era Clara Osório, a bibliotecária do pequeno município de Santa Brígida, cujo comportamento tímido e dedos manchados de tinta falavam de uma vida dedicada aos livros. Era uma mulher magra e angulosa, de meia-idade, com óculos de aro de aço e um ar de eficiência nervosa.

— A Clara tem catalogado nossa coleção — continuou Dona Beatriz. — Um trabalho tão meticuloso, cada volume devidamente registrado e classificado.

— Foi um prazer — murmurou Clara, sua voz pouco acima de um sussurro. — Alguns desses livros não são catalogados há décadas. A história que eles contêm é notável.

O Professor Basílio Telles, o historiador local, mantinha-se um pouco afastado dos outros, sua figura austera curvada sobre um pequeno volume encadernado em couro. Era um homem de aparência erudita, com cabelos prematuramente brancos e o olhar intenso de quem está acostumado a longas horas de pesquisa. Suas roupas, embora respeitáveis, mostravam sinais da tradicional indiferença do acadêmico à moda.

— O Professor Basílio está particularmente interessado em nossa coleção histórica — explicou Dona Beatriz, trazendo-o para a conversa. — Ele tem procurado por alguns panfletos bastante obscuros sobre a história da região.

Basílio ergueu os olhos do exame do livro, seus olhos claros brilhando com entusiasmo acadêmico. — O material do século XVIII é particularmente intrigante, Dona Beatriz. Há referências a certos documentos que seriam inestimáveis para minha pesquisa sobre a Inconfidência Mineira.

O membro final de seu pequeno grupo era Adelaide Pires, uma senhora solteira de idade incerta, cuja paixão por primeiras edições era imediatamente aparente em seu manuseio reverente de um volume encadernado em marroquim. Era uma mulher pequena, parecida com um pássaro, com traços aguçados e um ar de excitação contida.

— A Adelaide tem sido muito útil na identificação dos itens mais valiosos — disse Dona Beatriz. — Seu conhecimento de primeiras edições é enciclopédico.

— A gente desenvolve um olho para essas coisas — respondeu Adelaide, sua voz carregando uma nota de orgulho. — A diferença entre uma primeira edição genuína e uma impressão posterior pode ser substancial, tanto em termos de importância histórica quanto de valor monetário.

Enquanto a pequena cerimônia começava, Senhorita Júlia se viu estudando o grupo reunido com a mesma atenção gentil que daria a uma peça de bordado particularmente interessante. O cenário era encantador, a causa nobre e os participantes, todos aparentemente dedicados ao propósito comum de arrecadar fundos para o telhado da capela. No entanto, algo na atmosfera a atingiu como ligeiramente dissonante, como uma única nota falsa em uma melodia harmoniosa.

Heitor Dantas, em particular, parecia prestar muito mais atenção ao estoque do que seria esperado de um voluntário que simplesmente oferecia sua expertise. Seus olhos se moviam constantemente pelas prateleiras, e ela notou seus dedos tamborilarem nervosamente contra a coxa sempre que ele não estava ativamente engajado em uma conversa.

Dona Beatriz, resplandecente em seu melhor conjunto de tweed, avançou com a tesoura cerimonial. — Declaro o Sebo Boa Esperança oficialmente aberto! — anunciou ela, cortando a fita de cetim esticada na entrada. — Que possamos arrecadar o suficiente para manter a chuva fora da Capela de Santa Brígida por mais um século!

A pequena multidão aplaudiu educadamente, e os visitantes começaram a circular pela coleção. Senhorita Júlia demorou-se, observando as interações entre os voluntários e notando os volumes específicos que pareciam atrair mais atenção. Ela ficou particularmente impressionada com a reação de Heitor Dantas a um volume de aparência modesta na seção de poesia. Seu exame casual do livro tornou-se subitamente intenso, e ela observou seu rosto empalidecer ligeiramente quando o abriu. O que quer que ele tenha visto ali pareceu perturbá-lo consideravelmente, pois ele olhou rapidamente ao redor da sala antes de deslizar o volume para o bolso interno de seu paletó.

“Para um exame mais atento”, ela o ouviu murmurar para si mesmo, embora tivesse certeza de que ele não sabia de sua proximidade.

A manhã transcorreu agradavelmente, com um fluxo constante de visitantes e várias vendas promissoras. No entanto, Senhorita Júlia encontrava-se cada vez mais ciente das correntes de tensão entre o pequeno grupo de voluntários, algo que, refletiu ela, não estava exatamente como deveria estar nesta cena encantadora de filantropia literária. Ao se preparar para partir, fez uma anotação mental para retornar em breve. A experiência lhe ensinara que, quando o tecido da paz de uma comunidade mostrava até o menor rasgo, era sábio prestar atenção antes que esse rasgo se tornasse algo muito maior e mais perigoso.

O sol da tarde agora projetava sombras diferentes e, nessas sombras, Senhorita Júlia suspeitava que segredos já estavam começando a se agitar.

Capítulo 2. Um Colecionador com Dúvidas

O sol da tarde entrava pelas janelas de guilhotina da cocheira convertida, lançando padrões geométricos sobre as prateleiras bem ordenadas do Sebo Boa Esperança. A cerimônia de abertura da manhã fora declarada um sucesso retumbante, com vários volumes já vendidos e uma lista promissora de potenciais doadores compilada. Dona Beatriz, ainda radiante com a satisfação de um empreendimento bem-sucedido, discutia os arranjos da tarde com Clara Osório quando a voz de Heitor Dantas cortou o agradável murmúrio da conversa.

— Com licença, Dona Beatriz, posso ter uma palavra com a senhora?

Havia algo em seu tom que fez com que a Senhorita Júlia, que havia retornado após o almoço para navegar pela coleção com mais calma, erguesse os olhos do exame de um charmoso pequeno volume de poesia vitoriana. A confiança suave que caracterizara o comportamento de Heitor durante a manhã dera lugar a algo que se aproximava da agitação.

— Claro, Senhor Heitor — respondeu Dona Beatriz, embora suas sobrancelhas se erguessem ligeiramente com sua mudança de comportamento. — Aconteceu alguma coisa?

As mãos geralmente firmes de Heitor revelavam um leve tremor enquanto ele retirava um volume encadernado em couro do bolso do paletó. Senhorita Júlia o reconheceu imediatamente como o livro que ela o observara examinar com tanta intensidade mais cedo.

— Este volume — começou ele, sua voz carregando uma estranha nota de incerteza —, a primeira edição da Lira dos Inconfidentes, de Aurélio Seixas. Estive a examiná-lo com mais detalhe e receio que haja algo não muito certo com ele.

Dona Beatriz se aproximou, sua expressão mudando de leve curiosidade para preocupação. — Não muito certo? De que maneira?

— A encadernação, para começar — continuou Heitor, sua postura profissional se reafirmando um pouco. — O couro marroquino parece genuíno, mas as ferramentas na lombada mostram sinais de trabalho recente, e a douração… — Ele fez uma pausa, passando o dedo pela lombada do livro. — A douração tem uma qualidade quase fresca, como se tivesse sido aplicada nos últimos meses, e não há mais de um século.

Clara Osório, que ouvira com crescente alarme, deu um passo à frente. — Mas certamente isso poderia indicar apenas que o livro foi reencadernado recentemente. Muitos colecionadores mandam restaurar seus tesouros.

— De fato — concordou Heitor, embora seu tom sugerisse que ele achava essa explicação insatisfatória. — No entanto, existem outros indicadores. O papel, embora de boa qualidade, não possui as características particulares que se esperaria de uma impressão de 1880. A tipografia também me pareceu um pouco estranha, as fontes não batem com as da oficina tipográfica que imprimiu a obra.

O rosto de Dona Beatriz ficara bastante sério. — O senhor está sugerindo, Senhor Heitor, que este livro não é o que pretende ser?

— Estou sugerindo — respondeu Heitor, cuidadosamente — que ele requer um exame muito mais detalhado do que posso fornecer aqui. Com sua permissão, gostaria de levá-lo para São Paulo, onde tenho acesso ao equipamento e aos materiais de referência adequados.

Foi nesse ponto que a expressão de Dona Beatriz mudou de preocupação para algo que se aproximava da indignação. — Levá-lo para São Paulo? Mas, Senhor Heitor, este volume está programado para o leilão de caridade na próxima semana. É um de nossos lotes mais valiosos, esperando-se que arrecade pelo menos trinta mil reais para o fundo do telhado!

— Que é precisamente por isso que é essencial que sua autenticidade seja estabelecida sem sombra de dúvida — contrapôs Heitor, sua voz assumindo um tom ligeiramente paternalista que a Senhorita Júlia notou fazer o queixo de Dona Beatriz se erguer perigosamente. — Se houver qualquer dúvida sobre sua proveniência, o escândalo poderia prejudicar não apenas esta venda em particular, mas a reputação de todo o empreendimento.

— A reputação do empreendimento? — A voz de Dona Beatriz adquirira a qualidade glacial que aqueles que a conheciam bem reconheciam como um sinal de alerta. — Senhor Heitor, estou começando a me perguntar se o senhor não está sendo um tanto prematuro em suas preocupações. O livro foi doado pela viúva do Desembargador Matos, cujo falecido marido era um notável colecionador. Sua proveniência é impecável.

A mandíbula de Heitor se contraiu. — Com todo o respeito, Dona Beatriz, proveniência e autenticidade nem sempre são a mesma coisa. As coleções mais respeitáveis podem conter falsificações, especialmente quando os itens em questão são valiosos o suficiente para tornar o engano lucrativo.

A troca poderia ter escalado, mas a Senhorita Júlia escolheu aquele momento para se aproximar do pequeno grupo, sua expressão de interesse gentil. — Espero não estar me intrometendo — disse ela com sua voz suave —, mas não pude deixar de ouvir a discussão de vocês. Um assunto tão fascinante, a autenticação de livros antigos. Quase como um trabalho de detetive, eu imagino.

Heitor virou-se para ela com evidente alívio pela interrupção. — Senhorita Marques, sua comparação é mais apta do que a senhora imagina. As técnicas usadas para detectar falsificações tornaram-se bastante sofisticadas, envolvendo tudo, desde análise de papel até datação de tinta.

— Que notável — murmurou a Senhorita Júlia, seus olhos fixos nas mãos de Heitor enquanto ele gesticulava. — E suponho que tal trabalho exija materiais especiais, adesivos e coisas do tipo.

— De fato — respondeu Heitor, aparentemente inconsciente da direção de sua pergunta. — As técnicas modernas de encadernação podem ser bastante convincentes, mas muitas vezes deixam vestígios que o olho treinado pode detectar.

Senhorita Júlia assentiu pensativamente, notando o fino pó branco que parecia aderir aos dedos de Heitor. Não era o pó de livros velhos, que tendia a ser cinza e ligeiramente oleoso, mas algo totalmente mais fresco e pulverulento, bastante semelhante à pasta de encadernação que ela observara o encadernador local usar quando levara seu próprio missal para reparo.

— Senhor Heitor — disse Dona Beatriz, sua voz carregando uma nota de finalidade. — Embora eu aprecie sua expertise, devo insistir que o volume de Aurélio Seixas permaneça aqui. O catálogo do leilão já foi impresso e temos compromissos com nossos licitantes. Se o senhor tem preocupações genuínas sobre sua autenticidade, sugiro que as documente adequadamente. Mas o livro permanece em exibição.

Por um momento, a fachada composta de Heitor deslizou inteiramente, revelando algo que se aproximava do desespero. — Dona Beatriz, temo que a senhora não entenda as implicações. Se este livro for de fato uma falsificação, e isso for descoberto após a venda, as ramificações legais podem ser severas. O comprador teria base para um processo, e a reputação da caridade seria irremediavelmente danificada.

— Então talvez — respondeu Dona Beatriz com compostura gélida — o senhor devesse ter sido mais minucioso em sua avaliação inicial. O livro permanece aqui, Senhor Heitor, e isso é final.

O rosto de Heitor corou, e por um momento a Senhorita Júlia pensou que ele poderia insistir em seu argumento. Em vez disso, ele cuidadosamente devolveu o volume ao seu lugar designado na prateleira, seu movimento brusco com raiva contida. — Muito bem — disse ele, a voz cuidadosamente controlada —, mas quero que fique registrado que desaconselhei prosseguir com a venda sem a devida autenticação.

— Sua objeção está registrada — respondeu Dona Beatriz, rispidamente. — Agora, se me der licença, tenho outros assuntos a tratar.

Enquanto o grupo se dispersava, a Senhorita Júlia permaneceu perto da seção de poesia, ostensivamente examinando uma coleção de Castro Alves, mas na verdade observando o comportamento de Heitor. A agitação do homem parecia desproporcional à situação, e ela se perguntava o que teria motivado sua súbita preocupação com a autenticidade do livro.

Suas reflexões foram interrompidas pela chegada do Professor Basílio Telles, que se aproximou das prateleiras de poesia com o passo decidido de um homem em uma missão. — Senhorita Marques — disse ele, acenando educadamente —, confio que esteja encontrando alguns tesouros na coleção.

— De fato — respondeu ela, notando que a atenção dele parecia fixada na mesma seção que atraíra o interesse de Heitor. — A seleção de poesia é particularmente boa. Aquela primeira edição de Aurélio Seixas, por exemplo, parece ser notável.

Os olhos claros de Basílio se aguçaram com interesse. — A Lira dos Inconfidentes, sim, notei mais cedo. Uma peça bastante valiosa, embora eu confesse que meus próprios interesses se situam mais no histórico do que no poético.

— Claro — disse a Senhorita Júlia, gentilmente. — Sua pesquisa sobre as revoltas locais, creio eu. Dona Beatriz mencionou a Inconfidência Mineira.

— A Inconfidência Mineira — confirmou Basílio, seu entusiasmo acadêmico evidente. — Existem certos relatos contemporâneos que se perderam na história, mas tenho motivos para acreditar que cópias ainda possam existir em coleções particulares. Às vezes, os documentos históricos mais valiosos são encontrados nos lugares mais inesperados.

Enquanto ele falava, a Senhorita Júlia notou que seu olhar continuava voltando para o volume de Aurélio Seixas, e ela se perguntou se seu interesse na seção de poesia era tão casual quanto ele pretendia. O dia se arrastou com um fluxo constante de visitantes e o agradável burburinho de um empreendimento de sucesso, mas a Senhorita Júlia se viu cada vez mais ciente das correntes de tensão que pareciam fluir sob a superfície da cena encantadora. O comportamento de Heitor Dantas fora distintamente estranho, e ela não perdera o jeito como seus dedos estavam empoeirados com o que parecia ser pasta de encadernação fresca.

À medida que a hora de fechar se aproximava, ela decidiu retornar na manhã seguinte. Algo sobre os eventos do dia havia despertado seu bem desenvolvido senso de inquietação. A experiência lhe ensinara que, quando aquele instinto particular era despertado, era sábio prestar atenção. As sombras se alongavam enquanto ela voltava para sua pequena casa. Mas ela se pegou pensando não na agradável tarde de navegação literária, mas na estranha intensidade nos modos de Heitor Dantas e na curiosa coincidência da pasta de encadernação em seus dedos em uma loja onde nenhum material desse tipo fora usado naquele dia.

Capítulo 3. Prateleiras Que Não Deveriam Ter Caído

O ar da noite carregava o primeiro indício do frio do outono enquanto Dona Beatriz girava a chave na fechadura da antiga cocheira. O primeiro dia do Sebo Boa Esperança superara suas expectativas mais otimistas, com várias vendas valiosas já registradas e uma lista crescente de colecionadores interessados que prometeram retornar para o leilão que se aproximava.

“Um empreendimento de bastante sucesso, eu diria”, murmurou para si mesma, ajustando a bolsa e se preparando para voltar para a casa principal. O conforto familiar da sala de estar da Fazenda Boa Esperança, com suas poltronas bem gastas e a promessa de um xerez antes do jantar, acenava convidativamente.

Ela dera talvez meia dúzia de passos pelo pátio de paralelepípedos quando o som chegou aos seus ouvidos. Foi um estrondo tremendo, seguido pelo que soou distintamente como um grito humano, abafado, mas inconfundivelmente angustiado. Dona Beatriz congelou, a mão instintivamente agarrando a bolsa com mais força. O som viera claramente da direção do sebo, mas ela mesma acabara de trancar a porta e, até onde sabia, todos haviam partido há algum tempo.

— Artur! — chamou ela em direção à casa principal, mas sua voz pareceu ser absorvida pelo crepúsculo crescente, e ela percebeu que seu caseiro, o velho Artur, provavelmente estava em sua casinha com a porta fechada, absorto em sua novela.

Por um momento, ela hesitou. O curso sensato seria chamar Artur, ou talvez telefonar diretamente para o Delegado Siqueira. Mas Dona Beatriz não vivera duas guerras mundiais e inúmeras crises domésticas sendo facilmente intimidada, e o pensamento de que alguém poderia estar em perigo superou sua cautela natural.

Ela correu de volta para a cocheira, as chaves tilintando em sua pressa. Enquanto se atrapalhava com a fechadura, pôde ouvir movimento lá dentro e o que parecia ser alguém pedindo ajuda com uma voz que ela pensou reconhecer.

— Olá? — chamou ela ao empurrar a porta. — Há alguém aí? Você está bem?

O interior da loja estava escuro, iluminado apenas pela luz do dia que se esvaía, filtrando-se pelas janelas. À primeira vista, tudo parecia normal, mas à medida que seus olhos se ajustavam à luz reduzida, ela percebeu uma figura se movendo perto do nicho de poesia.

— Dona Beatriz, graças a Deus! — A voz pertencia a Clara Osório, a bibliotecária da cidade, que emergiu das sombras, parecendo distintamente desgrenhada. Seu cabelo, usualmente arrumado, escapara dos grampos, e sua saia ostentava o que parecia ser poeira e detritos.

— Clara! O que diabos você está fazendo aqui? Pensei que todos tivessem ido embora horas atrás!

— E-eu voltei para buscar algo que esqueci — respondeu Clara, a voz tremendo ligeiramente. — Meus óculos de leitura, na verdade. Deixei-os perto da mesa do catálogo e sabia que precisaria deles para o trabalho desta noite.

— Mas certamente você teria pedido a chave.

O rosto de Clara corou na penumbra. — Receio ter ficado bastante envergonhada com meu descuido. Notei que uma das janelas dos fundos havia sido deixada ligeiramente entreaberta e eu… bem, tomei a liberdade de entrar. Espero que me perdoe a presunção.

Dona Beatriz estava prestes a responder quando percebeu algo que fez seu sangue gelar. Além de Clara, no nicho de poesia, ela podia ver o que parecia ser uma perturbação considerável. Uma das altas estantes de livros havia tombado, seu conteúdo espalhado pelo chão em um caos de couro e papel.

— Meu Deus! — exclamou ela, passando por Clara para examinar a cena mais de perto. — O que diabos aconteceu aqui?

Foi então que ela o viu. Heitor Dantas jazia preso sob a pesada estante de jacarandá, o rosto pálido e os olhos fechados. Sua aparência usualmente impecável estava desgrenhada, e havia algo em sua imobilidade que encheu Dona Beatriz de um pavor imediato.

— Senhor Heitor! — chamou ela, caindo de joelhos ao lado da estante caída. — Clara, ajude-me a levantar isto imediatamente!

Mas, mesmo enquanto falava, percebeu que a força combinada delas seria insuficiente para mover a peça maciça de mobília. A estante era uma das mais robustas que o Coronel Artur encomendara, construída para durar gerações e cheia de volumes pesados.

— Vou telefonar para pedir ajuda — disse Clara, a voz esganiçada de pânico. — Para o Dr. Arruda e talvez para o Delegado Siqueira.

— Sim, rápido — concordou Dona Beatriz, embora já começasse a temer que a ajuda pudesse chegar tarde demais. O rosto de Heitor tinha uma palidez alarmante, e ela não conseguia detectar nenhum sinal de respiração.

Enquanto Clara corria para o telefone, Dona Beatriz ajoelhou-se ao lado do homem preso, sua mente acelerada. O que poderia ter feito uma peça de mobília tão substancial tombar? A estante fora posicionada com segurança contra a parede, e ela supervisionara pessoalmente sua instalação para garantir a estabilidade.

Seu exame da cena foi interrompido pela chegada do Dr. Arruda, que respondera à chamada frenética de Clara com uma rapidez louvável. O médico idoso deu uma olhada na situação e imediatamente começou a dirigir os esforços para libertar Heitor de debaixo da estante. — Vamos precisar de mais mãos — disse ele, sombriamente. — Clara, pode chamar o Artur e talvez alguns dos homens da vila?

Em poucos minutos, a cocheira estava cheia de ajudantes voluntários. O caseiro Artur chegou com dois de seus jardineiros, e vários vizinhos que foram alertados pela comoção se juntaram ao esforço. Juntos, conseguiram levantar a pesada estante e cuidadosamente retirar a forma imóvel de Heitor.

O exame do Dr. Arruda foi rápido, mas completo. Após alguns momentos tensos, ele ergueu os olhos, a expressão grave. — Receio que não haja nada a ser feito — disse ele, baixinho. — O Senhor Heitor está morto.

Um silêncio chocado caiu sobre o grupo reunido. Dona Beatriz sentiu o sangue sumir de seu rosto, enquanto Clara deu um pequeno grito de angústia.

— Mas certamente — disse Dona Beatriz, fracamente —, foi um acidente. A estante deve ter estado instável.

O Dr. Arruda estava examinando a cabeça de Heitor com a atenção cuidadosa de um homem que já vira sua cota de mortes inesperadas. — Receio que não seja tão simples assim, Dona Beatriz. Embora a estante certamente tenha contribuído para seus ferimentos, há evidências de um trauma na têmpora que parece ter ocorrido antes da queda.

— Antes da queda? — O caseiro Artur deu um passo à frente, seu jeito prático se afirmando diante da crise. — O que exatamente o senhor está sugerindo, doutor?

— Estou sugerindo — respondeu o Dr. Arruda, cuidadosamente — que o Senhor Heitor pode ter sido atingido por algo antes que a estante caísse sobre ele. Há um trauma agudo e localizado que é inconsistente com o esmagamento por móveis em queda.

O olhar de Dona Beatriz varreu a cena, captando os livros espalhados e os sinais óbvios de luta. Perto da base da estante caída, ela notou uma escada de mão que parecia ter sido derrubada no caos. — A escada — disse ela, apontando para o equipamento. — Usamos para alcançar as prateleiras mais altas, mas o que estaria fazendo no nicho de poesia?

O Dr. Arruda moveu-se para examinar a escada mais de perto. — Interessante — murmurou ele, passando o dedo por um dos degraus. — Há algum tipo de substância pegajosa aqui, parecida com pasta ou adesivo.

As implicações dessa descoberta se instalaram sobre o grupo como uma nuvem escura. Se Heitor fora atingido antes da queda da estante, e se havia sinais de pasta na escada, então o que inicialmente parecia ser um trágico acidente estava começando a parecer algo muito mais sinistro.

— Acho — disse Artur, no tom de um homem acostumado a assumir o comando em situações difíceis — que é melhor telefonarmos para o Delegado Siqueira imediatamente. Esta cena deve ser preservada exatamente como está.

Como se convocado por suas palavras, o Delegado Siqueira chegou em minutos, sua habitual maneira enérgica temperada pela gravidade da situação. Ele deu uma olhada na cena e imediatamente começou a emitir ordens. — Ninguém mais entra nesta sala — declarou ele. — Isto é agora uma cena de crime, e permanecerá selada até que possamos conduzir uma investigação adequada.

Clara Osório, que estivera de pé silenciosamente no fundo, de repente falou. — Delegado, há algo que eu deveria mencionar. Quando cheguei esta noite, ouvi vozes de dentro do sebo. Assumi que era Dona Beatriz e um dos outros voluntários, mas agora me pergunto…

— Vozes? — A atenção do Delegado Siqueira se aguçou. — Consegue identificá-las?

— Pensei ter reconhecido a voz do Senhor Heitor — respondeu Clara, hesitante. — Ele parecia estar discutindo com alguém, embora eu não pudesse entender as palavras ou identificar a outra pessoa.

O Delegado Siqueira assentiu sombriamente. — Precisaremos de depoimentos de todos que estiveram no sebo hoje, e quero saber os movimentos exatos de todos os voluntários e visitantes.

Enquanto o delegado iniciava seu exame preliminar da cena, Dona Beatriz se pegou pensando na observação gentil da Senhorita Júlia naquela manhã sobre os livros que escondem seu verdadeiro valor sob capas simples. Ela tinha uma suspeita crescente de que os eventos desta noite trágica haviam revelado segredos que alguém estava muito determinado a manter escondidos. O mundo pacífico do Sebo Boa Esperança fora estilhaçado, e ela temia que, antes que a investigação do Delegado Siqueira estivesse concluída, a fachada cuidadosamente construída de mais de uma pessoa seria arrancada para revelar a verdade por baixo.

Capítulo 4. Senhorita Júlia Lê a Poeira

O sol da manhã entrava pelas janelas da pequena casa da Senhorita Júlia enquanto ela se sentava à sua modesta mesa de café da manhã, passando metodicamente manteiga em sua torrada enquanto absorvia a notícia chocante que lhe chegara por meio da Dona Elvira, a esposa do carteiro, que chegara sem fôlego à sua porta precisamente às oito horas.

— Morto, Senhorita Júlia! O pobre Senhor Heitor, esmagado debaixo de uma daquelas pesadas estantes de livros. Embora, cá entre nós — acrescentara Dona Elvira, com o ar conspiratório de quem prosperava com revelações dramáticas —, ouvi dizer que o Dr. Arruda disse que não foi tão simples assim.

Senhorita Júlia ouvira com a atenção cuidadosa que dedicava a toda a inteligência da vila, suas agulhas de tricô clicando firmemente enquanto absorvia os detalhes. A notícia a perturbara consideravelmente, não apenas porque seus instintos haviam sido despertados pelos eventos do dia anterior no sebo. A pasta de encadernação nos dedos de Heitor Dantas, sua agitação sobre o volume de Aurélio Seixas e a atmosfera geral de tensão reprimida, tudo sugeria que algo não estava exatamente como deveria estar.

Às nove horas, ela tomou sua decisão. Um breve telefonema para Dona Beatriz confirmou que, embora o sebo permanecesse selado por ordem do Delegado Siqueira, não havia objeção a que ela fizesse uma visita de condolências à Fazenda Boa Esperança. O que o Delegado Siqueira não sabia, refletiu a Senhorita Júlia enquanto pegava sua bolsa e bengala, era que seu caminho para a casa principal a levaria necessariamente a passar pela cena da tragédia.

A cocheira permanecia silenciosa sob a luz da manhã, sua placa alegre da inauguração do dia anterior agora parecendo quase zombeteiramente brilhante contra a gravidade dos eventos recentes. Fita amarela da polícia fora esticada na entrada, e um policial estava de guarda, embora parecesse mais interessado em seu jornal matinal do que em manter uma vigilância estrita.

— Bom dia, Cabo Neves — disse a Senhorita Júlia, agradavelmente, reconhecendo o jovem como sobrinho de sua faxineira. — Um negócio tão terrível.

— Bom dia, Senhorita Marques — respondeu o cabo, erguendo os olhos do jornal. — Ordens do Delegado Siqueira são para ninguém entrar. Mas suponho que não há mal em a senhora dar uma olhada pela janela. Coisa chocante, realmente. Nunca esperaria tal coisa acontecendo num sebo.

Senhorita Júlia posicionou-se na janela que oferecia a visão mais clara do nicho de poesia. Seus olhos aguçados captaram cada detalhe da cena lá dentro. A estante fora reerguida e movida para o lado, revelando a área onde o corpo de Heitor fora descoberto. Os livros permaneciam espalhados pelo chão, aguardando o exame mais detalhado do delegado.

O que a impressionou imediatamente foi a natureza seletiva da destruição. Apenas aquela estante havia caído, enquanto as outras permaneciam imperturbáveis em suas fileiras arrumadas. Ainda mais revelador era a completa ausência de poeira nas outras prateleiras, suas superfícies mostrando a limpeza imaculada que falava do cuidado meticuloso de Clara Osório.

— Cabo Neves — disse ela, pensativa —, não suponho que tenha notado algo em particular sobre os padrões de poeira?

O jovem pareceu confuso. — Padrões de poeira, Senhorita Marques?

— Bem, veja bem, quando móveis caem ou cômodos são perturbados, a poeira tende a se deslocar de forma bastante dramática. No entanto, olhe para aquelas outras prateleiras. Parecem intocadas, como se a perturbação tivesse sido bastante localizada.

Enquanto falava, sua atenção foi capturada por algo brilhando no chão, perto de onde o corpo de Heitor estivera. Mesmo à distância, ela pôde distinguir o que pareciam ser pequenos flocos de ouro espalhados pela madeira escura. “Folha de ouro?”, murmurou para si mesma, lembrando-se das letras douradas nas lombadas dos livros. Mas esses flocos pareciam frescos, quase imaculados, bem diferentes da douração envelhecida que se esperaria de volumes antigos.

Seu exame foi interrompido pela chegada de Dona Beatriz, que se aproximou com a aparência ligeiramente abatida de alguém que passara uma noite sem dormir. — Júlia, minha querida — disse Dona Beatriz, a voz carregando uma nota de alívio. — Que bom que você veio. Todo este negócio tem sido um choque tão grande.

— Bem posso imaginar — respondeu a Senhorita Júlia, gentilmente. — Uma tragédia, e no que deveria ter sido um empreendimento tão feliz.

— O delegado tem feito as perguntas mais extraordinárias — continuou Dona Beatriz, baixando a voz —, sobre quem tinha acesso à loja e se alguém poderia ter tido motivos para desejar mal ao Senhor Heitor. Como se alguém em nossa pequena comunidade fosse capaz de tal coisa!

Senhorita Júlia assentiu com simpatia, embora sua mente estivesse trabalhando rapidamente. — Suponho que ele deva explorar todas as possibilidades. Diga-me, Bia, algo foi levado do sebo? Faltou algum livro?

Dona Beatriz pareceu surpresa com a pergunta. — Ora, não pensei em verificar. O delegado selou a cena tão rapidamente, e com toda a confusão… Mas certamente foi um acidente. O Dr. Arruda mencionou algo sobre um golpe na cabeça, mas isso não poderia ter ocorrido quando a estante caiu?

— Talvez — disse a Senhorita Júlia, cuidadosamente —, embora eu tenha notado que o cabo mencionou que uma escada foi encontrada na cena. Bastante estranho, não acha, que alguém estivesse usando uma escada no nicho de poesia depois do horário de fechamento?

Enquanto conversavam, a atenção da Senhorita Júlia foi atraída para um pequeno pedaço de papel que aparentemente escapara da atenção imediata das autoridades. Ele jazia parcialmente escondido sob um dos livros espalhados, e ela mal podia distinguir o que parecia ser uma caligrafia em tinta violeta.

— Bia — disse ela, casualmente —, será que você poderia perguntar ao cabo sobre aquele pedaço de papel ali? Parece que pode ser importante.

Dona Beatriz seguiu seu olhar e imediatamente chamou o Cabo Neves. — Olhe, cabo, há um papel ali que pode ser significativo.

O jovem se aproximou da janela e espiou para dentro. — Parece um pedaço rasgado de uma ficha de catálogo — disse ele. — Suponho que eu deva mencionar ao delegado quando ele retornar.

Mas a Senhorita Júlia já vira o que precisava ver. Mesmo daquela distância, ela pôde distinguir um texto parcial que parecia dizer: “Lote 27, A. Seixas 1ª ed., R$ 30.000 reser…”. A importância disso não passou despercebida por ela, especialmente dada a agitação de Heitor sobre o volume no dia anterior.

— Que curioso — murmurou ela. — Trinta mil reais parece uma reserva um tanto alta para um único volume, não é?

— Bem, primeiras edições podem ser bastante valiosas — respondeu Dona Beatriz, embora parecesse incerta. — Embora eu deva confessar que entendia que a reserva era consideravelmente mais baixa. Três mil reais, creio que Clara mencionou quando estava preparando o catálogo.

As sobrancelhas da Senhorita Júlia se ergueram ligeiramente. Uma discrepância entre três mil e trinta mil reais era substancial, e o tipo de alteração que bem poderia fornecer um motivo para uma ação desesperada.

Ao se prepararem para deixar a cena, a Senhorita Júlia deu uma última olhada pela janela. Seus olhos aguçados haviam captado algo que ela suspeitava que o delegado pudesse ter negligenciado em seu exame preliminar. No punho do paletó de Heitor, claramente visíveis mesmo à distância, havia o que pareciam ser pequenos flocos de ouro, semelhantes aos que ela notara no chão.

As implicações eram intrigantes. Se Heitor estivesse manuseando materiais recentemente dourados, isso explicaria tanto os flocos de ouro quanto a pasta de encadernação que estivera em seus dedos no dia anterior. Mas que materiais recentemente dourados um negociante de livros raros de São Paulo estaria manuseando em um sebo de caridade de uma cidade do interior?

Enquanto caminhavam de volta para a casa principal, a Senhorita Júlia se viu construindo uma imagem mental dos eventos da noite anterior. Heitor ficara para trás após o fechamento, seja por acordo ou furtivamente. Ele estava engajado em alguma atividade que envolvia livros recentemente encadernados ou restaurados, e essa atividade de alguma forma levara à sua morte. A ficha de catálogo rasgada sugeria que o volume de Aurélio Seixas estava no centro do que quer que tivesse acontecido. Mas se Heitor fora o perpetrador ou a vítima de algum engano, isso ainda estava por ser determinado.

— Júlia — disse Dona Beatriz ao chegarem à porta da frente da Fazenda Boa Esperança —, espero que isso não reflita mal na caridade. Trabalhamos tanto para estabelecer o sebo, e o fundo do telhado é tão desesperadamente necessário.

— Tenho certeza de que tudo será resolvido satisfatoriamente — respondeu a Senhorita Júlia, embora em particular suspeitasse que a resolução se provaria mais complexa do que qualquer um ainda imaginava. As evidências sugeriam um engano cuidadosamente planejado e, em sua experiência, tais enganos raramente envolviam apenas uma pessoa.

Enquanto se acomodava na confortável sala de estar de Dona Beatriz para o que ela antecipava ser uma conversa das mais esclarecedoras, a Senhorita Júlia refletiu que os padrões de poeira no sebo haviam, de fato, contado uma história. A questão agora era se ela conseguiria ler essa história corretamente antes que a investigação do Delegado Siqueira tomasse um rumo infeliz.

Capítulo 5. A Falsificação na Primeira Edição

O inquérito sobre a morte de Hugo Dantas fora agendado para a terça-feira seguinte, e o Delegado Siqueira deixara bem claro que, até que os procedimentos fossem concluídos, não haveria questão de reabrir o sebo ou prosseguir com o leilão de caridade planejado. Os livros permaneciam selados dentro da cocheira, como peças de exposição em um museu da tragédia, enquanto a vila fervilhava com especulações sobre o que realmente acontecera naquela noite fatídica.

Senhorita Júlia passara os dias intermediários em tranquila contemplação, suas agulhas de tricô clicando firmemente enquanto ela trabalhava os vários fios de informação que chegaram à sua atenção. Os flocos de ouro no punho de Heitor, a pasta de encadernação em seus dedos e a ficha de catálogo alterada, tudo apontava para alguma forma de engano envolvendo o comércio de livros, mas a natureza precisa desse engano permanecia tantalizantemente incerta.

Foi na tarde de sexta-feira, enquanto estava sentada em seu jardim, aproveitando o último calor do veranico, que Clara Osório apareceu em seu portão. A bibliotecária da vila parecia consideravelmente mais composta do que na noite da tragédia, embora seus modos nervosos sugerissem que ela ainda estava profundamente afetada pelos eventos recentes.

— Senhorita Marques — disse ela, hesitante —, será que eu poderia tomar um pouco do seu tempo por alguns minutos? Há algo que tem me incomodado, e eu mal sei a quem mais recorrer.

— Claro, minha querida — respondeu a Senhorita Júlia, deixando de lado seu tricô. — Por favor, entre. Vou colocar a chaleira no fogo.

Clara acomodou-se na poltrona coberta de chita que a Senhorita Júlia indicou, as mãos mexendo no fecho da bolsa. — É sobre o sebo — começou ela. — E algo que descobri antes… antes da tragédia ocorrer.

Senhorita Júlia ocupou-se com os preparativos do chá, permitindo que o silêncio encorajasse sua visitante a continuar. A experiência a ensinara que as pessoas muitas vezes revelavam mais quando não eram pressionadas por informações.

— Veja bem — continuou Clara, a voz ganhando força —, eu estava trabalhando nas últimas entradas do catálogo no dia anterior à inauguração e me deparei com algo muito peculiar. Duas cópias do mesmo livro.

— Duas cópias? — incentivou a Senhorita Júlia, gentilmente, colocando o bule em seu suporte.

— Da primeira edição de Aurélio Seixas — esclareceu Clara. — Aquela com a qual o Senhor Heitor estava tão preocupado. Quando estava fazendo minha verificação final de inventário, encontrei o que pareciam ser entradas duplicadas em minhas anotações. A princípio, pensei que fosse simplesmente um erro da minha parte, mas quando fui verificar os livros físicos… — ela fez uma pausa, claramente lutando com as implicações do que descobrira. — Encontrei duas cópias idênticas da Lira dos Inconfidentes, ambas parecendo ser primeiras edições de 1880, ambas encadernadas no mesmo estilo de couro marroquino com letras douradas. A um olhar casual, eram indistinguíveis.

Senhorita Júlia serviu o chá com mãos firmes, embora sua mente estivesse acelerada. — Muito curioso. E o que você concluiu dessa descoberta?

— A princípio, fiquei simplesmente intrigada. Parecia improvável que a viúva do Desembargador Matos tivesse doado duas cópias do mesmo livro valioso, mas quando os examinei mais de perto… — Clara aceitou sua xícara de chá com as mãos trêmulas. — Um era claramente genuíno. O papel tinha aquela sensação particular de idade. A encadernação mostrava o desgaste apropriado, e a tipografia era exatamente como deveria ser para uma impressão de 1880.

— E o outro?

— O outro era perfeito — disse Clara, a voz pouco acima de um sussurro. — Perfeito demais. A encadernação estava imaculada. As letras douradas eram frescas e brilhantes. E quando examinei o papel com minha lupa, pude ver que faltavam as imperfeições sutis que se esperaria de uma impressão genuína do século XIX.

Senhorita Júlia pousou a xícara de chá com muito cuidado. — Você está dizendo, Clara, que um dos livros era uma falsificação?

— Estou dizendo que um deles era certamente uma reprodução moderna, criada com considerável habilidade, mas, no entanto, um trabalho claramente recente. A cola na encadernação mal secara, e havia vestígios microscópicos de adesivo moderno que nunca teriam sido usados em 1880.

As implicações desta revelação se instalaram sobre a mesa de chá como uma sombra. Senhorita Júlia se lembrou da agitação de Heitor sobre o volume de Seixas, sua insistência em que precisava de um exame mais aprofundado e sua tentativa desesperada de removê-lo da loja.

— Clara — disse ela, cuidadosamente —, o que aconteceu com esses dois livros? Você relatou sua descoberta a Dona Beatriz?

O rosto de Clara corou de vergonha. — Receio não saber o que fazer. Se eu relatasse, haveria perguntas sobre como tal situação surgiu, e temi que pudesse refletir mal em minhas habilidades de catalogação. Decidi examinar o assunto mais a fundo antes de levantar qualquer preocupação.

— E você teve a oportunidade de fazê-lo?

— Essa é a questão — respondeu Clara, a voz subindo ligeiramente. — Quando voltei ao sebo na noite da tragédia, pretendia realizar uma comparação mais detalhada dos dois volumes. Mas quando os procurei, só consegui encontrar uma cópia do Seixas.

As sobrancelhas da Senhorita Júlia se ergueram. — Apenas uma? Qual delas?

— A genuína — disse Clara, com firmeza. — O livro que permaneceu era definitivamente o original. A reprodução havia desaparecido.

Essa informação lançou uma luz inteiramente nova sobre os eventos da noite. Se Heitor de alguma forma obtivera a cópia falsificada, isso explicaria sua agitação e suas tentativas desesperadas de removê-la da loja. Mas também sugeriria que alguém estivera engajado em um engano deliberado, substituindo uma reprodução sem valor por um original valioso.

— Clara — disse a Senhorita Júlia, gentilmente —, será que você poderia me dizer exatamente o que observou quando chegou ao sebo naquela noite? Você mencionou ao Delegado Siqueira que ouviu vozes.

Clara assentiu, sua compostura começando a ruir. — Eu tinha subido as escadas externas da loja, com a intenção de recuperar meus óculos de leitura e examinar a situação do Seixas mais de perto. Ao me aproximar da porta, pude ouvir vozes lá de dentro, e uma delas era definitivamente a do Senhor Heitor.

— Você conseguiu entender o que estava sendo dito?

— Não claramente, mas parecia uma discussão. O Senhor Heitor parecia bastante agitado, e ouvi ele dizer algo sobre “o original” e “trezentos mil”. A outra voz era mais baixa, mas tive a impressão de alguém tentando acalmá-lo.

— Você reconheceu a outra voz?

Clara hesitou. — Pensei que sim, mas não tenho certeza. A acústica no prédio antigo é bastante peculiar e as vozes podem soar diferentes quando se ouve do lado de fora.

Senhorita Júlia assentiu compreensivamente. — E então o que aconteceu?

— Ouvi um som como algo caindo. E depois houve aquele estrondo terrível. Esperei um momento, pensando que talvez alguém tivesse simplesmente derrubado uma pilha de livros. Mas então ouvi o que pareceu um grito de socorro.

— E foi aí que você entrou na loja.

— Sim. Pela janela que fora deixada entreaberta. Encontrei a cena muito como Dona Beatriz a descobriu, com a estante caída e o pobre Senhor Heitor preso debaixo dela.

Senhorita Júlia absorveu essa informação pensativamente. A imagem que estava surgindo sugeria um engano complexo envolvendo a substituição de um livro forjado por um genuíno. Mas se Heitor fora o perpetrador ou a vítima desse engano, permanecia incerto.

— Clara — disse a Senhorita Júlia, finalmente —, acho que seria sensato você compartilhar essa informação com o Delegado Siqueira. A existência de duas cópias do Seixas e o desaparecimento de uma delas podem ser cruciais para entender o que aconteceu naquela noite.

Clara parecia ansiosa. — Mas não parecerá suspeito que eu não tenha relatado o assunto imediatamente? O Delegado Siqueira já parece me ver com alguma suspeita, dado que fui eu quem descobriu o corpo.

— Acho — disse a Senhorita Júlia com firmeza gentil — que o delegado estará mais interessado na informação em si do que no momento de sua revelação. A verdade tem um jeito de emergir eventualmente, e geralmente é melhor ajudar nesse processo do que impedi-lo.

Enquanto Clara se preparava para sair, Senhorita Júlia se viu pensando na curiosa questão dos dois volumes de Aurélio Seixas. A existência de uma falsificação habilidosa sugeria planejamento cuidadoso e considerável expertise. Mas a substituição apressada e a discussão desesperada que precederam a morte de Heitor sugeriam que algo dera errado com qualquer que fosse o esquema em andamento.

A questão agora era se Heitor fora o falsificador tentando enganar a caridade, ou se ele descobrira o engano de outra pessoa e pagara o preço final por esse conhecimento. Os flocos de ouro em seu punho e a pasta de encadernação em seus dedos sugeriam envolvimento prático com o livro forjado, mas poderiam igualmente indicar que ele o estava examinando, em vez de criá-lo.

À medida que as sombras da tarde se alongavam, a Senhorita Júlia refletiu que o caso era como uma peça complexa de bordado, com fios de verdade e engano tecidos juntos em um padrão que estava apenas começando a emergir. Mas ela tinha confiança de que, com paciência e observação cuidadosa, o desenho completo seria finalmente revelado.

Capítulo 6. Sussurros Atrás da Prensa de Encadernação

A conversa da Senhorita Júlia com Clara Osório fornecera uma peça crucial do quebra-cabeça, mas também levantara tantas perguntas quanto respondera. A existência de dois volumes de Aurélio Seixas, um genuíno e um forjado, sugeria um engano cuidadosamente planejado, mas a identidade do falsificador permanecia tantalizantemente incerta.

Enquanto estava sentada em seu jardim na manhã seguinte, observando o carteiro fazer suas rondas, ela se viu considerando os aspectos práticos da criação de uma reprodução tão convincente. A falsificação de livros, refletiu ela, não era uma habilidade que pudesse ser adquirida da noite para o dia. Exigia não apenas habilidade artística, mas também acesso a materiais e equipamentos apropriados. A pasta de encadernação que estivera nos dedos de Heitor, as letras douradas frescas que Clara observara e a alta qualidade da reprodução, tudo apontava para o trabalho de um artesão habilidoso.

Essa linha de raciocínio levou seus pensamentos naturalmente aos vários estabelecimentos de encadernação da região. A própria Santa Brígida ostentava apenas uma pequena papelaria, mas a cidade vizinha de Porto Novo, maior e mais comercial, continha vários negócios mais substanciais, incluindo o que ela se lembrava como uma oficina de encadernação bastante interessante, escondida atrás da rua principal.

A ideia de uma agradável caminhada matinal até Porto Novo, combinada com a possibilidade de aprender algo útil sobre atividades recentes de encadernação, provou ser irresistível. Senhorita Júlia pegou sua bolsa e bengala e partiu pelo caminho familiar que conectava as duas localidades.

A “Encadernadora Rocha” ocupava um prédio estreito, espremido entre uma padaria e uma loja de tecidos. A placa pintada acima da porta exibia a legenda “Eduardo Rocha – Encadernador e Restaurador”, e as pequenas janelas revelavam vislumbres do espaço de trabalho do artesão. Senhorita Júlia parou para examinar a exibição de volumes restaurados na vitrine, notando a alta qualidade do trabalho e o evidente orgulho que o proprietário tinha em seu ofício.

Um sino tilintou quando ela empurrou a porta, e foi imediatamente envolvida pela atmosfera distinta da oficina. O ar estava impregnado com os cheiros de couro, cola e papel velho, enquanto as paredes estavam forradas com prateleiras de livros em vários estágios de reparo. Em uma bancada de trabalho perto da janela, um homem de uns cinquenta anos ergueu os olhos de seu trabalho com uma expressão amigável.

— Bom dia, senhora — disse ele, deixando de lado o volume que estava examinando. — Sou Eduardo Rocha. Em que posso ajudar?

Senhorita Júlia aproximou-se do balcão com seu ar característico de curiosidade gentil. — Bom dia, Seu Eduardo. Que estabelecimento fascinante o senhor tem aqui. Sou Júlia Marques, de Santa Brígida, e estava admirando seu trabalho na vitrine.

O rosto de Seu Eduardo se iluminou com orgulho profissional. — Obrigado, Senhorita Marques. Eu tento manter os padrões antigos. Tantos trabalhos de encadernação modernos carecem da atenção aos detalhes que o ofício merece.

— De fato — concordou a Senhorita Júlia, notando as várias ferramentas e materiais dispostos na bancada. — Imagino que o senhor deva ver todo tipo de livros interessantes em sua linha de trabalho. Primeiras edições, volumes raros, esse tipo de coisa.

— Oh, sim, com certeza. Na semana passada mesmo, um cavalheiro trouxe uma coleção de poesia bastante valiosa. Do período do Império, e precisava de um tratamento bastante especializado.

O interesse da Senhorita Júlia se aguçou, embora ela mantivesse sua expressão de curiosidade casual. — Que fascinante. Espero que a restauração tenha sido bem-sucedida.

— Bem, essa é a coisa curiosa — disse Seu Eduardo, apoiando-se em sua bancada. — O cavalheiro foi muito específico sobre o trabalho ser concluído rapidamente. Pagou extra para que eu trabalhasse durante a noite. Disse que era necessário para algum tipo de leilão ou exposição.

— Que dedicação da sua parte em atender a tal pedido — observou a Senhorita Júlia. — Imagino que trabalhar com livros valiosos exija considerável expertise.

— De fato, exige — concordou Seu Eduardo, aquecendo-se com o assunto. — Este volume em particular era uma primeira edição da Lira dos Inconfidentes, de Aurélio Seixas. Encadernação original linda, embora precisasse de alguma atenção nas dobradiças e na lombada. O cavalheiro foi muito específico sobre combinar exatamente o trabalho de douração original.

Senhorita Júlia assentiu pensativamente. — E esse cavalheiro era um cliente regular seu?

— Oh, não. Primeira vez que o vi. Um sujeito bem vestido. Falava com um sotaque paulistano. Disse que era um negociante de livros raros, vindo da cidade a negócios. Parecia entender de volumes valiosos, isso eu garanto.

A descrição se encaixava perfeitamente em Heitor Dantas, e a Senhorita Júlia sentiu um pequeno arrepio de confirmação. — Não suponho que se lembre do nome dele? Pergunto apenas porque sou uma colecionadora de livros, e sempre me interesso em saber sobre negociantes de boa reputação.

Seu Eduardo coçou a cabeça, pensativo. — Dantas? Acredito que fosse Heitor Dantas. Deixou seu cartão, na verdade, embora eu não espere vê-lo novamente. Pagamento em dinheiro, e bem generoso, por sinal.

— E o trabalho foi concluído a contento dele?

— Oh, sim, ficou lindo, se me permite dizer. A encadernação ficou como nova, e a douração ficou indistinguível da original. Claro, trabalhando a noite toda assim, posso ter usado um pouco mais de adesivo do que o estritamente necessário, mas o cavalheiro não pareceu se importar.

O pulso da Senhorita Júlia acelerou. A pasta de encadernação fresca, a douração imaculada e o trabalho noturno, tudo se encaixava perfeitamente com as evidências que ela observara. Mas uma questão crucial permanecia.

— Seu Eduardo — disse ela, cuidadosamente —, estou curiosa sobre os materiais que o senhor usa para tal trabalho de restauração. Imagino que reproduzir técnicas do século XIX exija acesso a suprimentos apropriados da época.

— Ah, bem, é aí que a experiência entra — respondeu Seu Eduardo, movendo-se para um armário cheio de vários papéis e materiais. — Para o trabalho do dia a dia, materiais modernos são perfeitamente adequados. Mas para peças valiosas, é preciso usar papéis e adesivos que correspondam ao original o mais próximo possível.

Ele puxou uma gaveta cheia de folhas de papel marmorizado em vários padrões e cores. — Por exemplo, este papel marmorizado é essencial para recriar as folhas de guarda da época. Mantenho um estoque de padrões que correspondem aos designs mais comuns do século XIX.

Senhorita Júlia examinou os papéis com interesse, notando sua óbvia qualidade e autenticidade. — Que notável. E suponho que o senhor deva gerar bastante material de descarte no curso de seu trabalho.

— Oh, sim, com certeza. Retalhos, aparas e coisas do tipo. Tento guardar os pedaços maiores para projetos futuros, mas sempre há uma boa quantidade que só serve para a lata de lixo.

Como que atraída por um fio invisível, o olhar da Senhorita Júlia foi atraído para a lata de lixo ao lado da bancada de Seu Eduardo. Mesmo de sua posição no balcão, ela podia ver restos de papel marmorizado entre os outros detritos do encadernador.

— Seu Eduardo — disse ela —, será que o senhor satisfaria a curiosidade de uma velha senhora? Estou particularmente interessada naquele padrão de papel marmorizado ali, na sua lata de lixo. É muito bonito.

Seu Eduardo seguiu seu olhar e enfiou a mão na lata, retirando vários retalhos de papel marmorizado. — Ah, sim. Estes são do projeto do Seixas. Padrão adorável, não é? Embora eu tema ter sido um pouco desperdiçador com ele. O cavalheiro foi bastante insistente sobre a qualidade do trabalho, e eu queria ter certeza de alcançar o efeito certo.

Senhorita Júlia examinou os restos de papel com grande interesse. A marmorização era de fato bela, com padrões rodopiantes de azul e dourado que teriam sido perfeitamente apropriados para uma encadernação do século XIX. Mas o que a impressionou mais fortemente foi a evidente frescura do papel.

— Que inteligente — murmurou ela, passando os dedos sobre a superfície do papel. — A técnica de envelhecimento é bastante convincente.

Seu Eduardo pareceu satisfeito com sua apreciação. — Obrigado, Senhorita Marques. É uma técnica que desenvolvi ao longo dos anos, uma combinação de tingimento com chá e exposição cuidadosa a calor controlado. O resultado é virtualmente indistinguível do papel de época genuíno.

As implicações desta descoberta eram profundas. Se Heitor encomendara a criação de materiais de época convincentes, isso sugeria que ele estava envolvido na criação do volume forjado de Aurélio Seixas. Mas se ele estava agindo como o falsificador ou meramente como um intermediário, permanecia incerto.

— Seu Eduardo — disse a Senhorita Júlia, finalmente —, será que o senhor estaria disposto a falar com o Delegado Siqueira, da polícia de Santa Brígida? Receio que tenha havido algum problema envolvendo livros raros, e sua expertise pode ser valiosa para ajudar a resolver o assunto.

A expressão de Seu Eduardo ficou séria. — Claro, Senhorita Marques. Espero que não haja nada de impróprio no trabalho que fiz. O cavalheiro parecia bastante legítimo e pagou prontamente.

— Tenho certeza de que o senhor não fez nada de errado — assegurou-lhe a Senhorita Júlia. — Mas sua informação sobre o trabalho de restauração pode ser muito útil para entender o que aconteceu.

Ao se preparar para deixar a oficina, a Senhorita Júlia refletiu sobre a imagem que estava surgindo. Heitor Dantas estivera claramente envolvido na criação ou encomenda de um volume forjado de Aurélio Seixas, usando materiais e técnicas que seriam convincentes para todos, exceto para o exame mais especializado. A questão agora era se ele estava agindo sozinho ou como parte de uma conspiração maior.

Os restos de papel artificialmente envelhecido na lata de lixo de Seu Eduardo eram testemunhas silenciosas de um engano que, em última análise, levara ao assassinato. Mas eles também forneciam evidências cruciais que poderiam ajudar o Delegado Siqueira a desvendar a verdade por trás da tragédia no Sebo Boa Esperança. Mas a pergunta mais importante permanecia sem resposta. Quem fora o cúmplice de Heitor, e o que levara essa pessoa a cometer um assassinato quando seus planos cuidadosamente traçados começaram a desmoronar?

Capítulo 7. Pegadas na Escada da Biblioteca

A chuva que começara como uma garoa suave durante a viagem de volta da Senhorita Júlia de Porto Novo se transformara em um temporal de verdade à noite, tamborilando contra as janelas de sua casa com a persistência do outono afirmando seu domínio sobre os últimos resquícios do verão. Ela passara a tarde em tranquila contemplação, suas agulhas de tricô clicando ritmicamente enquanto trabalhava as implicações de sua descoberta na Encadernadora Rocha.

As evidências começavam a formar um padrão coerente, como o desenho intrincado do xale que ela estava criando. Heitor Dantas estivera claramente envolvido na criação de um volume forjado de Aurélio Seixas, mas se ele fora o cérebro do engano ou meramente uma ferramenta no esquema de outra pessoa, permanecia frustrantemente incerto. O fato de ele ter parecido genuinamente agitado sobre a autenticidade do livro sugeria que ele poderia ter sido tanto vítima quanto perpetrador.

Foi pouco depois das nove horas que seu telefone tocou, seu tom estridente cortando a percussão constante da chuva no vidro. A voz de Dona Beatriz, quando ela atendeu, carregava uma nota de excitação mal contida. — Júlia, minha querida, espero não estar incomodando a esta hora, mas algo bastante extraordinário aconteceu. O Delegado Siqueira esteve examinando o exterior do sebo e descobriu algo que pode ser significativo!

Senhorita Júlia deixou de lado seu tricô com precisão cuidadosa. — Que tipo de descoberta, Bia?

— Pegadas! — respondeu Dona Beatriz, a voz baixando para um sussurro conspiratório. — A chuva revelou um conjunto de marcas de lama nas escadas externas que levam à loja. O delegado diz que são bem distintas e que conseguiu determinar o tamanho e o padrão dos sapatos que as fizeram.

— Que interessante — murmurou a Senhorita Júlia, embora já estivesse pegando seu casaco. — Não suponho que o Delegado Siqueira se oponha a que eu dê uma olhada nessas pegadas.

— Na verdade, ele perguntou especificamente se eu poderia convencê-la a se juntar a ele. Ele parece valorizar suas observações, embora nunca admita diretamente.

Senhorita Júlia sorriu para si mesma. O respeito relutante do Delegado Siqueira por suas habilidades era um dos pequenos prazeres que ela derivava de suas colaborações ocasionais. — Estarei aí diretamente, Bia. A chuva deve ajudar a preservar as marcas até que eu possa examiná-las.

A caminhada até a Fazenda Boa Esperança, através da noite molhada, foi realizada com a ajuda de seu guarda-chuva robusto e um bom par de galochas. A chuva, de fato, transformara o pátio usualmente limpo em uma extensão lamacenta que registrava cada passo com precisão fiel.

O Delegado Siqueira estava sob o beiral do telhado da cocheira, seu bloco de notas na mão e sua expressão de satisfação profissional. — Ah, Senhorita Marques — disse ele, acenando bruscamente. — Bom que veio neste tempo. Pensei que acharia essas pegadas interessantes.

Senhorita Júlia aproximou-se da escada externa que levava à entrada da loja, seu olho treinado captando imediatamente o significado do que a chuva revelara. Um único conjunto de pegadas subia os degraus de madeira, as impressões claras e distintas na lama que se acumulara nos cantos e frestas das tábuas desgastadas.

— Sapatos tamanho trinta e seis — anunciou o Delegado Siqueira, consultando suas anotações. — Femininos, eu diria, com um padrão de desgaste distinto na sola esquerda. Quem quer que tenha feito essas marcas subiu estas escadas na noite do assassinato.

Senhorita Júlia estudou as impressões cuidadosamente, notando não apenas seu tamanho e padrão, mas também sua profundidade e espaçamento. — O passo sugere alguém familiarizado com estas escadas — observou ela. — O espaçamento é confiante, não hesitante, como seria se alguém as estivesse subindo pela primeira vez no escuro.

— Meus pensamentos exatamente — concordou o Delegado Siqueira. — E há mais uma coisa. As pegadas sobem, mas não há evidência clara de que desceram. A chuva pode ter lavado as marcas da descida, é claro, mas é curioso, no entanto.

Enquanto examinavam a cena, a Senhorita Júlia percebeu uma figura se aproximando através da chuva. Clara Osório correu em direção a eles, seu guarda-chuva escorrendo água e seu rosto mostrando sinais de considerável angústia.

— Delegado Siqueira! — chamou ela ao se aproximar. — Acabei de ouvir sobre as pegadas. Receio que preciso falar com o senhor.

O delegado voltou sua atenção para a bibliotecária da cidade, sua expressão se aguçando com interesse profissional. — Senhora Osório, a senhora tem informações relevantes a estas marcas?

A compostura de Clara, que vinha se recuperando gradualmente desde a noite da tragédia, pareceu desmoronar completamente. — Receio que sejam minhas — disse ela, com a voz pouco acima de um sussurro. — As pegadas na escada. Eu as subi na noite em que o Senhor Heitor foi morto.

As sobrancelhas do Delegado Siqueira se ergueram, e a Senhorita Júlia notou o jeito como sua mão se moveu instintivamente em direção ao seu bloco de notas. — É mesmo? E por que não mencionou isso antes, Senhora Osório?

— Porque eu estava com medo! — respondeu Clara, a voz ganhando força enquanto continuava. — Eu disse ao senhor que entrei na loja pela janela, o que era verdade, mas não mencionei que primeiro tentei usar as escadas para a entrada principal.

— E por que não usou a entrada principal?

As mãos de Clara se torceram em óbvia angústia. — Porque quando cheguei ao topo da escada, pude ouvir vozes de dentro da loja. O Senhor Heitor estava lá, e ele estava envolvido no que parecia uma discussão acalorada com outra pessoa.

Senhorita Júlia inclinou-se ligeiramente para a frente. — Você conseguiu identificar a outra parte nesta discussão?

— Essa é a questão — disse Clara, miseravelmente. — Pensei que sim, mas não tinha certeza suficiente para dizer algo. As vozes estavam abafadas pela porta, e tive medo de fazer uma acusação falsa.

A paciência do Delegado Siqueira estava claramente se esgotando. — Senhora Osório, devo insistir que nos diga exatamente o que ouviu e observou. Esta é uma investigação de assassinato, não uma reunião social onde nos preocupamos em magoar sentimentos.

Clara respirou fundo, claramente lutando com sua consciência. — O Senhor Heitor estava muito agitado. Ouvi ele dizer algo sobre “o original” e “você não vai se safar com isso”. A outra voz estava tentando acalmá-lo, mas o Senhor Heitor parecia estar ameaçando expor algum tipo de engano.

— E então o que aconteceu?

— Houve um som como algo pesado caindo… e então as luzes da loja se apagaram. Esperei um momento, sem saber o que fazer, e então ouvi o que pareceu um grito de socorro.

Senhorita Júlia estava estudando o rosto de Clara cuidadosamente. — E foi aí que você decidiu entrar pela janela.

— Sim, mas na minha pressa para descer da escada, deixei cair minha lanterna. Eu a estava usando para encontrar meu caminho no escuro, e ela caiu no chão, perto da base da escada.

O Delegado Siqueira fez uma anotação. — E o que aconteceu com essa lanterna?

— Eu a encontrei na manhã seguinte, depois que o cabo chegou. Estava caída na lama perto da escada, mas tinha sido limpa. Alguém obviamente a manuseou depois que eu a deixei cair.

Essa revelação lançou os eventos da noite sob uma luz inteiramente nova. Se Clara deixara cair sua lanterna durante sua retirada apressada da escada, e se alguém subsequentemente a pegara e a limpara, isso sugeria que o assassino estava ciente de sua presença e tomara medidas para eliminar evidências.

— Clara — disse a Senhorita Júlia, gentilmente —, você mencionou que pensou ter reconhecido a outra voz na loja. Mesmo que não tenha certeza, pode ser útil compartilhar sua impressão.

Clara olhou ao redor nervosamente, como se com medo de ser ouvida. — Pensei que poderia ter sido o Professor Basílio. A voz tinha aquela mesma cadência erudita, e sei que ele passara um tempo considerável na loja, examinando a coleção histórica.

A expressão do Delegado Siqueira tornou-se pensativa. — Basílio Telles? Sim, ele tem sido muito cooperativo com nossas investigações. Talvez um pouco cooperativo demais, agora que penso nisso.

Ao concluírem o exame das pegadas, a Senhorita Júlia se viu considerando as implicações das revelações de Clara. O relato da bibliotecária fornecia uma imagem mais clara dos eventos da noite, mas também levantava questões preocupantes sobre a identidade do assassino de Heitor.

Se Basílio Telles de fato estivera na loja naquela noite, discutindo com Heitor sobre algum tipo de engano, isso sugeria que o historiador poderia estar envolvido no esquema de falsificação. Mas o que poderia ter levado um estudioso respeitável ao assassinato?

A chuva continuou a cair enquanto eles voltavam para o abrigo da Fazenda Boa Esperança, lavando os últimos vestígios de evidência da noite da tragédia. Mas as pegadas na escada contaram sua história, e a Senhorita Júlia estava começando a ver a forma de uma conspiração que terminara em violência quando seus planos cuidadosamente traçados começaram a desmoronar.

Capítulo 8. A Ficha de Catálogo Que Sumiu

A manhã seguinte à descoberta das pegadas amanheceu clara e brilhante, como se a chuva da noite anterior tivesse lavado não apenas os vestígios físicos de lama e detritos, mas também a atmosfera opressiva que pairava sobre a investigação. Senhorita Júlia passara a noite em reflexão pensativa, sua mente trabalhando os vários fios de evidência que agora começavam a se tecer em um padrão reconhecível.

O telefonema do Delegado Siqueira veio precisamente às nove horas, sua voz carregando uma nota de excitação contida que sugeria que ele fizera uma descoberta significativa. — Senhorita Marques, será que a senhora poderia se juntar a mim na delegacia esta manhã? Estive examinando o livro de registro do leilão do sebo e encontrei algo que pode lhe interessar.

Senhorita Júlia já estava pegando seu chapéu. — Claro, delegado. Estarei aí diretamente.

A delegacia ocupava um modesto prédio nos arredores de Santa Brígida, sua fachada de tijolos vitorianos conferindo-lhe um ar de sólida respeitabilidade que desmentia o drama dos casos que ocasionalmente passavam por suas portas. O Delegado Siqueira a encontrou na entrada, sua maneira usualmente rude temperada pelo que parecia ser um respeito genuíno por suas habilidades investigativas.

— Estive examinando os registros do sebo — começou ele sem preâmbulos, levando-a a um pequeno escritório onde vários documentos estavam espalhados sobre uma mesa. — O catálogo do leilão, as listas de inventário, o livro de reservas. A maior parte é perfeitamente direta, mas há um item que me chamou a atenção.

Ele indicou um livro-caixa encadernado em couro que estava aberto sobre a mesa. Suas páginas estavam preenchidas com anotações limpas em várias caligrafias. — Este é o livro de registro do leilão, onde os preços de reserva para lotes individuais foram registrados. Dê uma olhada no lote 27.

Senhorita Júlia inclinou-se para examinar a entrada em questão. A primeira edição de Aurélio Seixas recebera o número 27, e ela pôde ver que o preço de reserva fora inserido como “R$ 30.000”. Mas, ao estudar a entrada mais de perto, percebeu algo que fez suas sobrancelhas se erguerem ligeiramente.

— A tinta — murmurou ela —, é de uma cor diferente do resto da entrada.

— Exatamente — confirmou o Delegado Siqueira. — O título do livro e o número do lote estão escritos em tinta preta, mas o preço de reserva está em violeta. E se olhar de perto, pode ver que a entrada original foi alterada.

Senhorita Júlia examinou a página sob a lupa que o Delegado Siqueira forneceu. O exame minucioso revelou que a entrada original fora “R$ 3.000”, mas o zero fora transformado em um três e um zero adicional adicionado com tinta violeta, transformando a modesta reserva em uma substancial.

— Alguém — disse ela, pensativa — estava muito ansioso para aumentar o valor esperado deste lote em particular.

— Meus pensamentos exatamente. E a alteração foi feita com tinta violeta, o que restringe consideravelmente nossa lista de suspeitos.

Senhorita Júlia assentiu, lembrando-se de suas observações sobre os hábitos de escrita dos vários voluntários. — Clara Osório usa tinta verde para seu trabalho de catalogação, e Adelaide Pires prefere preto. Mas o Professor Basílio…

— O Professor Basílio assina toda a sua correspondência com tinta violeta — concluiu o Delegado Siqueira. — Confirmei isso examinando as cartas que ele enviou a Dona Beatriz sobre sua pesquisa histórica.

Essa revelação lançou o envolvimento de Basílio Telles no caso sob uma luz inteiramente nova. Se ele alterara a entrada do catálogo para aumentar o preço de reserva, isso sugeria não apenas que ele planejava se beneficiar financeiramente do leilão, mas também que estivera envolvido no engano desde o início.

— Delegado — disse a Senhorita Júlia, cuidadosamente —, o senhor teve a oportunidade de examinar os papéis pessoais do Professor Basílio?

A expressão do Delegado Siqueira tornou-se mais sombria. — Na verdade, sim. Visitei a casa dele esta manhã com um mandado de busca. O que encontrei lá foi muito esclarecedor.

Ele pegou um canhoto de talão de cheques de uma pasta. O papel, ligeiramente amarelado com o tempo. — Este é da conta pessoal do Professor Basílio. O canhoto mostra um pagamento de trinta mil reais, datado do dia do assassinato, nominal a “H. Dantas – Livros”.

Senhorita Júlia estudou o canhoto com crescente interesse. O valor correspondia exatamente ao preço de reserva alterado no livro de registro do leilão, e o momento sugeria que algum tipo de transação fora planejada entre Telles e Dantas para a noite do assassinato.

— Um pagamento por livros — ponderou ela. — Mas quais livros, e com que propósito?

— É o que pretendo descobrir — respondeu o Delegado Siqueira, sombriamente. — Pedi ao Professor Basílio que compareça à delegacia esta tarde para mais interrogatórios. Suas explicações até agora têm sido um tanto evasivas.

Senhorita Júlia ficou em silêncio por um momento, sua mente trabalhando as implicações dessas descobertas. A entrada do catálogo alterada, o canhoto do cheque e a identificação da voz de Telles por Clara Osório, tudo apontava para o envolvimento do historiador nos eventos daquela noite fatal. Mas a natureza precisa de seu papel permanecia incerta.

— Delegado — disse ela, finalmente —, será que o senhor me permitiria examinar o resto dos registros do sebo? Pode haver outras alterações ou irregularidades que poderiam lançar luz sobre o assunto.

O Delegado Siqueira gesticulou em direção à pilha de documentos na mesa. — Por favor, fique à vontade. Seu olho para detalhes provou ser inestimável no passado.

Senhorita Júlia passou a hora seguinte examinando cuidadosamente os vários registros, sua atenção focada em quaisquer anomalias ou inconsistências que pudessem revelar o verdadeiro escopo do engano. A maioria das entradas parecia direta, mas ela notou várias outras instâncias em que a cor da tinta sugeria que mudanças haviam sido feitas após as entradas originais serem escritas.

— Delegado — disse ela, eventualmente —, acredito que as alterações foram mais extensas do que apenas o volume de Seixas. Vários outros itens valiosos mostram sinais de terem suas descrições ou preços de reserva modificados.

O Delegado Siqueira inclinou-se sobre o ombro dela para examinar as entradas que ela identificara. — Todos em tinta violeta — notou ele —, e todos aumentando o valor aparente dos itens em questão.

— Sugere uma tentativa sistemática de inflar os lucros potenciais do leilão — observou a Senhorita Júlia. — Mas se isso foi feito para beneficiar a caridade ou para facilitar algum outro esquema, ainda não está claro.

A discussão deles foi interrompida pela chegada do Cabo Neves, que apareceu na porta com uma expressão de excitação mal contida. — Delegado — disse ele —, acabei de ir à casa do Professor Basílio como o senhor pediu, e encontrei algo que o senhor deveria ver.

Ele ergueu um pequeno panfleto encadernado em couro de bezerro desgastado, suas páginas amareladas com o tempo. — Estava escondido em um compartimento secreto na escrivaninha do Professor Basílio. Ele alega que faz parte de seus materiais de pesquisa, mas me parece bastante valioso.

Senhorita Júlia examinou o panfleto com interesse, notando a qualidade da encadernação e a cuidadosa preservação das páginas. A página de rosto dizia: “Uma Verdadeira Relação da Conjura de Vila Rica, 1789”, e ela se lembrou da menção de Telles sobre sua busca por relatos contemporâneos da Inconfidência Mineira.

— Este parece ser exatamente o tipo de documento que o Professor Basílio mencionou que estava procurando — observou ela. — Um relato contemporâneo da Inconfidência, e em condição notável.

A expressão do Delegado Siqueira tornou-se pensativa. — A questão é: onde ele o adquiriu? E que conexão pode ter com os eventos no sebo?

Enquanto a Senhorita Júlia examinava o panfleto mais de perto, notou algo que a fez parar. A encadernação, embora antiga, mostrava sinais de perturbação recente. O couro estava ligeiramente solto nas bordas, e havia vestígios do que parecia ser adesivo fresco ao longo da lombada.

— Delegado — disse ela, baixinho —, acredito que este panfleto possa ter sido ocultado dentro de outro livro, e apenas recentemente extraído.

As implicações desta descoberta eram profundas. Se o panfleto fora escondido dentro de um dos livros doados à loja de caridade, isso explicaria tanto o intenso interesse de Telles na coleção quanto sua disposição para alterar os registros do leilão para garantir que volumes específicos permanecessem disponíveis para seu exame.

— Mas qual livro? — ponderou o Delegado Siqueira. — E como Dantas se envolveu no esquema?

Senhorita Júlia começava a ver o contorno de um engano complexo que envolvera não apenas a falsificação do volume de Seixas, mas também a ocultação e o roubo de um documento histórico genuinamente valioso. O canhoto do cheque sugeria que Telles estivera disposto a pagar a Dantas trinta mil reais por sua cooperação, mas algo dera errado com o acordo deles.

— Acho — disse ela, pensativa — que precisamos entender exatamente o que o Professor Basílio planejava fazer tanto com o panfleto quanto com o Seixas forjado. A resposta a essa pergunta pode muito bem fornecer o motivo para o assassinato.

Capítulo 9. Meia-noite Entre os Fólios

A decisão de montar uma vigília noturna no sebo fora sugestão da Senhorita Júlia, baseada em sua crescente convicção de que o caso estava longe de ser encerrado, apesar das evidências crescentes contra Basílio Telles. Havia algo no comportamento do historiador durante seu interrogatório à tarde que a impressionara como genuína perplexidade, em vez do engano calculado de um homem culpado. Suas explicações, embora certamente incompletas, tinham o tom da verdade quando ele falava de suas buscas acadêmicas e de seu desejo desesperado de localizar o panfleto desaparecido.

O Delegado Siqueira fora inicialmente cético em relação à sua proposta, mas o raciocínio dela acabou por convencê-lo. Se Telles fosse de fato culpado de assassinato, dificilmente arriscaria retornar à cena de seu crime. Mas se ele fosse inocente da morte de Heitor, embora ainda envolvido no roubo do panfleto, ele bem poderia tentar recuperar seu prêmio antes que a investigação pudesse descobrir seu esconderijo.

— O homem é obcecado por sua pesquisa — explicara a Senhorita Júlia enquanto se acomodavam em suas posições, na sombra da cocheira. — Se aquele panfleto representa anos de trabalho acadêmico, ele não o abandonará simplesmente por causa dos eventos recentes. A paixão acadêmica pode levar as pessoas a extremos notáveis.

O Delegado Siqueira, agachado desconfortavelmente atrás de uma pilha de ferramentas de jardim, murmurou algo pouco elogioso sobre até onde os detetives amadores iriam em busca de suas teorias. Mas a Senhorita Júlia notou que sua atenção permanecia fixa na entrada do sebo, e sua mão repousava ao fácil alcance de seu apito.

O relógio da igreja da vila acabara de bater meia-noite quando ouviram os primeiros sons de movimento de dentro do prédio trancado. Alguém estava se movendo com evidente familiaridade, navegando pelos corredores estreitos entre as estantes com a confiança da longa prática.

— Ele está lá dentro — sussurrou o Delegado Siqueira, a voz quase inaudível. — Mas como ele entrou? As portas estão trancadas, e o Neves verificou todas as janelas mais cedo.

Os olhos aguçados da Senhorita Júlia estudavam o exterior do prédio, e ela notara algo que aparentemente escapara à atenção do delegado. — O porão de carvão — murmurou ela. — Há uma antiga calha de carvão que se conecta ao porão. Alguém familiarizado com a história do prédio bem poderia saber de sua existência.

Os sons de dentro tornaram-se mais decididos, e eles podiam ouvir o arrastar distinto de móveis pesados. Através das janelas, podiam ver a luz vacilante de uma lanterna movendo-se pelo interior da loja.

— Ele está indo para a seção de atlas — observou o Delegado Siqueira, notando a direção da luz. — Canto mais distante, perto de onde a coleção histórica está alojada.

Senhorita Júlia assentiu, sua mente trabalhando rapidamente. Se o panfleto estivesse escondido dentro de um dos volumes maiores, um atlas forneceria o esconderijo perfeito. A encadernação seria substancial o suficiente para conter tal item sem distorção óbvia.

Eles observaram, fascinados, enquanto a luz se movia com urgência crescente pela loja. O intruso parecia saber exatamente o que estava procurando, e seu movimento sugeria a eficiência desesperada de alguém trabalhando contra o tempo.

— Ali! — disse o Delegado Siqueira de repente. — Ele encontrou algo.

Através da janela, eles podiam ver uma figura curvada sobre o que parecia ser um armário ou baú, as mãos trabalhando rapidamente em algum tipo de mecanismo oculto. A luz de sua lanterna revelou o suficiente de seu perfil para confirmar sua identidade sem sombra de dúvida.

— Basílio Telles — disse a Senhorita Júlia com satisfação. — Exatamente como eu suspeitava.

Os movimentos do historiador assumiram uma nota de triunfo, e eles puderam vê-lo extraindo cuidadosamente algo do que parecia ser um compartimento oculto dentro do armário de atlas. Mesmo à distância, o objeto em suas mãos era claramente o panfleto encadernado em couro que eles haviam examinado mais cedo na delegacia.

— Mas espere — disse o Delegado Siqueira, a voz afiada de confusão. — Se encontramos o panfleto na casa dele, como ele pode estar recuperando-o agora?

A expressão da Senhorita Júlia tornou-se pensativa. — Talvez o que encontramos não fosse a única cópia. Ou talvez houvesse outros documentos escondidos com ele. A pesquisa do Professor Basílio foi extensa, e pode haver mais nesta descoberta do que inicialmente percebemos.

Enquanto observavam, o comportamento de Telles tornou-se cada vez mais agitado. Ele parecia estar procurando por outra coisa, seus movimentos tornando-se mais frenéticos enquanto examinava o compartimento oculto com crescente desespero.

— Ele está procurando por algo que não está lá — observou a Senhorita Júlia. — Algo que ele esperava encontrar, mas não consegue localizar.

O Delegado Siqueira já estava se movendo em direção à entrada do prédio. — Acho que já vimos o suficiente. Hora de prender nosso visitante da meia-noite.

Mas a Senhorita Júlia segurou seu braço. — Espere, delegado. Deixe-o terminar sua busca. Podemos aprender mais observando suas ações completas do que interrompendo-as prematuramente.

A busca de Telles de fato se tornara mais desesperada, e eles podiam ouvir o som de livros sendo movidos e papéis sendo remexidos enquanto ele examinava o conteúdo do compartimento oculto com urgência crescente. O feixe de sua lanterna varria de um lado para o outro o interior do armário, revelando vislumbres do que parecia ser um esconderijo cuidadosamente construído.

— Engenhoso — murmurou a Senhorita Júlia. — Um fundo falso no armário de atlas, acessível apenas a alguém que conhecesse o segredo de seu mecanismo. Mas o Professor Basílio claramente não está encontrando o que esperava.

Os movimentos do historiador tornaram-se cada vez mais frenéticos, e eles podiam ouvi-lo resmungando para si mesmo enquanto vasculhava o espaço oculto. Sua voz chegava claramente através do ar parado da noite, e eles podiam distinguir fragmentos de seu monólogo cada vez mais desesperado.

— Tem que estar aqui — dizia ele. — Dantas prometeu que estaria seguro. O manuscrito original… a prova da conspiração… é a chave de tudo.

O Delegado Siqueira olhou para a Senhorita Júlia com as sobrancelhas erguidas. — Manuscrito original? Pensei que o panfleto fosse o prêmio que ele procurava.

— Talvez — disse a Senhorita Júlia, cuidadosamente —, o panfleto fosse apenas uma pista para algo ainda mais valioso. Um mapa, por assim dizer, levando a um tesouro maior.

A busca de Telles estava atingindo um crescendo de frustração, e eles podiam ouvi-lo praguejando em voz baixa enquanto examinava cada canto do compartimento oculto.

— Dantas, seu tolo! — disse ele em voz alta, a voz chegando claramente através do ar da noite. — Você jurou que o colocaria de volta onde pertencia. Onde está a carta de Gonzaga?

A inspiração da Senhorita Júlia foi audível até para o Delegado Siqueira. — Uma carta de Tomás Antônio Gonzaga? — sussurrou ela. — Isso seria de fato um tesouro de valor inestimável para um historiador especializado no período colonial.

As implicações eram surpreendentes. Se um dos principais Inconfidentes escrevera uma carta detalhando os planos da conspiração, isso representaria não apenas um imenso valor histórico, mas também um considerável valor monetário. Tal documento valeria muito mais do que os trinta mil reais que Telles pagara a Dantas.

— Mas onde está? — perguntou o Delegado Siqueira. — Se não está no esconderijo e Dantas está morto, então para onde foi?

Senhorita Júlia estava estudando o comportamento cada vez mais frenético de Telles com crescente compreensão. — Acho — disse ela, lentamente — que podemos ter entendido mal a natureza do acordo entre o Professor Basílio e o Senhor Heitor. Talvez Heitor não fosse o cúmplice de Basílio no roubo, mas sim sua vítima.

A busca de Telles chegara a um ponto de completo desespero, e eles podiam ouvi-lo soluçando de frustração, ao perceber que seu prêmio não seria encontrado. O feixe de sua lanterna varreu uma última vez o compartimento vazio antes que ele desabasse contra o armário, derrotado.

— Sumiu — disse ele para a escuridão. — Dantas escondeu em outro lugar, e agora eu nunca vou encontrar. Anos de pesquisa, e tudo foi por nada.

O Delegado Siqueira já estava se movendo em direção à entrada do prédio, sua paciência finalmente esgotada. — Hora de ter nossa conversa com o Professor Basílio — disse ele, sombriamente. — E desta vez, eu quero a verdade completa.

Enquanto se aproximavam do sebo, a Senhorita Júlia refletiu sobre a complexa teia de engano e obsessão acadêmica que levara a este momento. O caso estava longe de ser resolvido, mas ela estava começando a entender a verdadeira natureza do crime que ocorrera no ambiente pacífico do empreendimento de caridade de Dona Beatriz.

Capítulo 10. Revelação Sobre o Chocolate Quente da Manhã

A sala de café da manhã da Fazenda Boa Esperança nunca testemunhara tal reunião como a que se formou ali na manhã seguinte. Dona Beatriz, ainda em seu roupão de seda e parecendo um tanto desgrenhada pelos eventos dramáticos da noite anterior, presidia o serviço de chá com o ar de uma anfitriã que se vira entretendo em uma hora muito incomum. O caseiro Artur, despertado de sua cama pela comoção, sentara-se à cabeceira da mesa com a expressão resignada de um homem que aprendera a não questionar as circunstâncias extraordinárias que periodicamente perturbavam sua aposentadoria pacífica.

Senhorita Júlia ocupava seu lugar habitual junto à janela, sua bolsa de tricô ao lado, e seus olhos aguçados movendo-se entre a companhia reunida, com a atenção cuidadosa de um maestro se preparando para dirigir uma complexa performance musical. O Delegado Siqueira, parecendo um tanto amarrotado de sua vigília noturna, aceitara o convite de Dona Beatriz para se juntar a eles para o que ela diplomaticamente chamara de “uma discussão sobre os eventos recentes”.

Basílio Telles sentava-se um pouco afastado dos outros, sua compostura acadêmica finalmente começando a ruir sob o peso das revelações da noite. A aparência usualmente impecável do historiador mostrava sinais de sua aventura no porão de carvão, e suas mãos tremiam ligeiramente enquanto ele aceitava uma xícara de chocolate quente de Dona Beatriz.

— Pois bem — disse a Senhorita Júlia com uma voz gentil, ajeitando seu tricô no colo —, acho que é hora de termos um relato completo do que aconteceu. Professor Basílio, talvez o senhor fosse tão gentil a ponto de nos contar sobre sua descoberta dos documentos históricos.

Os olhos claros de Telles encontraram os dela brevemente antes de caírem para sua xícara. — Começou de forma bastante inocente — disse ele, a voz pouco acima de um sussurro. — Eu estava pesquisando a Inconfidência Mineira para meu livro e encontrei referências a certos documentos que se acreditava terem sido perdidos.

— Que tipo de documentos? — perguntou o Delegado Siqueira, seu bloco de notas a postos.

— Relatos contemporâneos da conjura, correspondência entre os participantes e, o mais importante, uma carta de Tomás Antônio Gonzaga detalhando os planos para o novo governo. — A voz de Telles ganhou força enquanto ele falava de sua paixão acadêmica. — Tal carta representaria a descoberta mais significativa nos estudos do período colonial em décadas.

Senhorita Júlia assentiu encorajadoramente. — E o senhor acreditava que esses documentos poderiam ser encontrados em coleções particulares?

— O falecido marido da doadora, o Desembargador Matos, fora um notável colecionador de material sobre a Inconfidência — continuou Telles. — Quando a viúva doou sua biblioteca para o sebo, ofereci-me para ajudar na catalogação na esperança de encontrar algum vestígio dos documentos que eu procurava.

— E os encontrou?

A compostura de Telles ruiu completamente. — Encontrei o panfleto primeiro, escondido entre as guardas do volume de Aurélio Seixas. Era exatamente o que eu procurava, um relato contemporâneo que mencionava a existência da carta de Gonzaga.

Dona Beatriz pousou sua xícara com um clique seco. — O senhor está dizendo, Professor Basílio, que removeu documentos históricos de livros que foram doados para a caridade?

— Eu ia devolvê-los! — disse Telles, desesperadamente. — Eu simplesmente queria estudá-los, verificar sua autenticidade. Não tinha intenção de mantê-los permanentemente.

As agulhas de tricô da Senhorita Júlia começaram a clicar suavemente. — Mas algo deu errado com seus planos, não é, Professor?

— Heitor Dantas descobriu o que eu tinha feito — admitiu Telles, a voz cheia de vergonha. — Ele estava examinando o volume de Seixas e notou que a encadernação fora perturbada. Quando me confrontou, fui forçado a confessar.

O Delegado Siqueira inclinou-se para a frente. — E o que o Senhor Heitor propôs fazer com essa informação?

— Ele se ofereceu para me ajudar — disse Telles, a voz assumindo uma nota de amarga ironia. — Disse que poderia criar uma reprodução perfeita do volume de Seixas, uma que ocultaria o fato de o original ter sido adulterado. Em troca, ele queria pagamento por seus serviços e o direito de vender a reprodução como uma primeira edição genuína.

As sobrancelhas da Senhorita Júlia se ergueram ligeiramente. — Então, o Senhor Heitor estava planejando fraudar a caridade, substituindo uma falsificação pelo genuíno Seixas.

— Sim, mas eu estava desesperado para evitar o escândalo. Minha reputação, minha pesquisa… tudo pelo que trabalhei seria destruído se se tornasse conhecido que eu andava removendo documentos de livros doados.

A imagem estava se tornando mais clara, e a Senhorita Júlia podia ver a falha fatal no esquema que levara ao assassinato. — Mas o plano começou a desmoronar, não é?

Telles assentiu, miseravelmente. — Heitor tornou-se ganancioso. Ele descobrira que a carta de Gonzaga estava escondida com o panfleto e percebeu seu enorme valor. Ele exigiu não apenas os trinta mil reais que havíamos acordado, mas também o direito de vender a carta privadamente para colecionadores estrangeiros.

— E o senhor recusou?

— Eu não podia permitir — disse Telles com paixão súbita. — Aquela carta pertence à história do Brasil, à academia, à nação! Heitor queria vendê-la ao maior lance, independentemente de onde pudesse acabar.

A expressão do Delegado Siqueira tornou-se mais sombria. — Então, o senhor marcou de encontrá-lo no sebo naquela noite?

— Tentei argumentar com ele — continuou Telles, a voz tornando-se mais agitada. — Ofereci-lhe mais dinheiro, prometi-lhe reconhecimento por seu papel na descoberta, mas ele foi inflexível. Ele tinha a carta e pretendia lucrar com ela.

Senhorita Júlia pousou seu tricô e olhou diretamente para Telles. — E foi aí que o senhor o atingiu com o volume forjado de Seixas.

A acusação pairou no ar como uma presença física, e o rosto de Telles ficou completamente branco. — Foi um acidente — sussurrou ele. — Estávamos discutindo, e ele estava ameaçando expor tudo. Ele tinha a carta na mão, zombando de mim com ela. E eu… perdi a cabeça.

— O senhor o atingiu com o pesado livro de reprodução que Heitor havia encomendado — continuou a Senhorita Júlia, implacavelmente. — A pasta de encadernação fresca da falsificação ainda estava no volume, o que explica por que foi encontrada nos dedos de Heitor.

— Eu não queria matá-lo — disse Telles, a voz embargada. — Eu só queria impedi-lo de destruir anos de pesquisa. Quando percebi o que tinha feito, entrei em pânico.

O Delegado Siqueira estivera tomando notas durante toda a confissão, e agora ergueu os olhos com interesse profissional. — E então o senhor encenou o acidente com a estante de livros.

— Pensei que se parecesse que ele tinha sido morto acidentalmente, não haveria investigação sobre os documentos desaparecidos — admitiu Telles. — Apoiei o corpo dele sob a estante, empurrei-a e espalhei a pasta de encadernação na escada para sugerir que ele estava trabalhando nas prateleiras superiores.

Senhorita Júlia assentiu pensativamente. — A poeira intacta nas outras prateleiras provou que apenas uma estante havia caído, o que sugeria que o acidente foi encenado. E os flocos de ouro no punho de Heitor vieram da lombada lavrada do panfleto, indicando que ele estava manuseando os documentos históricos.

— Mas onde está a carta de Gonzaga agora? — perguntou Dona Beatriz. — Se não estava no esconderijo onde o senhor esperava encontrá-la?

A expressão de Telles tornou-se ainda mais desesperadora. — Heitor deve tê-la escondido em outro lugar antes de nosso encontro. Ele era muito esperto para trazer um documento tão valioso para um confronto. Pode estar em qualquer lugar.

As agulhas de tricô da Senhorita Júlia retomaram seu clique suave. — Na verdade — disse ela com sua voz branda —, acredito que sei exatamente onde está. A ficha de catálogo rasgada que foi encontrada na cena não era simplesmente evidência do preço de reserva alterado. Era a apólice de seguro de Heitor.

Ela enfiou a mão em sua bolsa e retirou um pequeno pedaço de papel. — Esta é a outra metade daquela ficha de catálogo, que encontrei ontem ao examinar os registros da loja. Ela contém a anotação de Heitor sobre o verdadeiro esconderijo da carta de Gonzaga.

O Delegado Siqueira olhou para o papel, espantado. — Onde?

— Atrás da frente falsa do armário de atlas — respondeu a Senhorita Júlia. — Não no compartimento que o Professor Basílio conhecia, mas em um segundo esconderijo que Heitor descobrira e usara para seus próprios fins.

A revelação trouxe uma sensação de conclusão ao trágico caso. Enquanto o Delegado Siqueira se preparava para levar Telles sob custódia, a Senhorita Júlia refletiu sobre a obsessão acadêmica que levara ao assassinato e a complexa teia de engano que cercara o que deveria ter sido um simples empreendimento de caridade.

— Que pena — murmurou ela enquanto o historiador era levado. — Se ao menos o Professor Basílio tivesse sido honesto desde o início, tanto ele quanto o Senhor Heitor ainda poderiam estar vivos, e os documentos poderiam ter sido devidamente preservados para a posteridade.

O sol da manhã entrava pelas janelas da sala de café da manhã, iluminando a cena pacífica que desmentia o drama que acabara de ser concluído. O sebo de caridade de Dona Beatriz eventualmente reabriria, mas seria para sempre lembrado como o lugar onde a paixão acadêmica e a ganância criminosa colidiram com consequências fatais.