Ninguém conseguia domar os pitbulls do chefe da máfia — até que a garçonete fez aquele gesto.

Eles o chamavam de Il Fantasma. Matteo Rinaldi não era apenas um chefão da máfia. Ele era uma sentença de morte envolta em alfaiataria sob medida. E ele nunca tratava de negócios sozinho. Ao seu lado, rondavam os Cérberos: três híbridos de pitbull e mastim de 55 quilos cada, chamados Dante, Nero e Virgílio. No submundo, sussurravam que os cães não eram treinados. Eram armas biológicas. Tenentes se borravam de medo quando aquelas correntes chacoalhavam. Rivais imploravam por balas em vez de dentes. Ninguém chegava a três metros de Matteo sem assinar a própria certidão de óbito.

Até que uma noite, uma garçonete falida e desesperada chamada Kiara Mancini fez o impensável. Ela não correu. Não gritou. Ela caiu de joelhos no meio de um banho de sangue e fez um único gesto que congelou três máquinas de matar em pleno ataque e mudou a hierarquia da família Rinaldi para sempre. Esta é a história de como uma garçonete domou as feras e o monstro que segurava suas correntes.

O Restaurante Império não era apenas um restaurante. Era uma sala do trono disfarçada de salão de jantar cinco estrelas nos Jardins, em São Paulo. Os lustres gotejavam cristais. A carta de vinhos exigia um sommelier e uma verificação de antecedentes, e o ar sempre cheirava a azeite trufado, dinheiro antigo e violência suprimida.

Kiara Mancini ajeitou seu avental, as mãos tremendo levemente enquanto equilibrava uma bandeja de taças de champanhe. Era seu segundo mês ali. Ela precisava desesperadamente daquele emprego. O passaporte falso guardado sob o colchão em seu pequeno apartamento na periferia havia custado tudo o que ela possuía, e as gorjetas na trattoria do Bixiga não a manteriam invisível por muito mais tempo. Ali, no Império, as gorjetas de uma única noite poderiam comprar mais uma semana fora do radar do delegado Bianchi.

— Mesa sete — sibilou Marco, o gerente do salão, um homem magro que cheirava a cigarro e medo. — E, pelo amor de Deus, não faça contato visual.

Ele não precisava dizer quem estava na mesa sete. A temperatura no salão de jantar caía dez graus sempre que Matteo Rinaldi passava pela porta. Ele era o capo di tutti capi da família Rinaldi, o chefão supremo de uma organização cujos tentáculos se estendiam por toda a cidade. Um homem com um rosto esculpido em mármore de Carrara e olhos como gelo negro. Ele usava um terno de um cinza-chumbo que custava mais do que a existência inteira de Kiara antes de ela ter queimado tudo e desaparecido.

Mas não era Matteo que fazia o salão prender a respiração. Eram as sombras a seus pés. Dante, Nero e Virgílio, o monstro de três cabeças de São Paulo. Cada cão era um pesadelo em forma de carne e osso. Pelagem negra e lustrosa, orelhas cortadas, músculos que se moviam como aço líquido sob a pele marcada por cicatrizes. Usavam coleiras cravejadas de platina, mas não havia guias. Matteo não precisava de guias. A lealdade deles era absoluta. Sua violência era uma arte.

Corria o boato de que os cães haviam estripado um membro de uma facção rival num estacionamento no outono passado. A polícia nunca encontrou pedaços suficientes dele para confirmar a história.

Kiara equilibrou a bandeja com o prosecco e um prato de crudo di mare que custava mais do que seu aluguel mensal. Ela respirou fundo, firmando-se. Apenas faça o seu trabalho. Sorria. Sirva. Vá embora.

Ela se aproximou do reservado no canto. Matteo estava em uma conversa profunda com um homem que Kiara reconheceu dos jornais. O vereador Ricardo, um político inchado que fora acusado de peculato três vezes e absolvido em todas elas. O vereador parecia pálido, o suor encharcando seu colarinho apesar do ar-condicionado.

— As licenças de zoneamento — gaguejou o vereador. — Eu não consigo aprová-las ainda. O comitê de fiscalização está…

Matteo não falou. Ele simplesmente bateu seu anel de sinete contra o tampo de mármore da mesa. Clink, clink, clink. Ao som, todos os três cães, que estavam deitados como gárgulas sob a mesa, ergueram suas cabeças maciças em uníssono. Dante, o alfa, soltou um rosnado baixo e gutural que vibrou pelo assoalho e subiu pela espinha de Kiara. Era um som de pura ameaça orquestrada.

— Seu prosecco, Senhor Rinaldi. — A voz de Kiara estava firme, mas seu pulso martelava contra suas costelas.

Ela se inclinou para frente para colocar as taças na mesa. Foi quando o ajudante de garçom deixou a bandeja cair.

Desastre.

O estrondo foi ensurdecedor. Porcelana explodindo contra o piso de madeira como um tiro. Uma travessa de prata deslizou pelo salão, girando descontroladamente antes de bater na perna da mesa sete.

O restaurante inteiro congelou. Mas os cães não congelaram. Eles detonaram.

Todos os três pitbulls se lançaram de debaixo da mesa com uma velocidade sincronizada e aterrorizante. Dante liderou o ataque, suas mandíbulas estalando como uma armadilha de urso. Nero flanqueou pela esquerda. Virgílio cortou pela direita.

O vereador gritou, um som agudo e quebrado, e se arrastou para trás, derrubando sua cadeira, agarrando a cabeça em puro terror animal. Os cães não iam atrás dele. Eles iam atrás do ajudante de garçom, um garoto magro chamado Luca, que tropeçara no lugar errado, na hora errada.

Fermo! — latiu Matteo.

Mas o comando veio uma fração de segundo tarde demais. A matilha já estava em movimento, um borrão de fúria negra.

Kiara não pensou. Ela agiu por instinto, um reflexo gravado em sua alma por anos de dor e observação. Ela caiu. Não para trás, não para longe. Para baixo. Ela caiu de joelhos no centro do caos, diretamente no caminho de 165 quilos de assassinos treinados.

Ela curvou a cabeça, expondo a nuca, o ato supremo de submissão no mundo canino. Mas ela não apenas se submeteu. Enquanto Dante avançava em sua direção, ela ergueu uma mão, não defensivamente, mas com a palma espalmada, dedos abertos, polegar dobrado. Um sinal de “pare” de um adestrador.

Então ela emitiu um som. Não um grito, não uma palavra. Um “tst” baixo e agudo, uma expiração gutural, seguida por um zumbido descendente que caía em frequência, igualando-se ao rosnado e depois caindo abaixo dele, como uma canção de ninar cantada na língua dos lobos.

Dante derrapou até parar a meio metro de seu rosto, as garras rasgando a madeira. Nero e Virgílio congelaram no meio do passo. O restaurante inteiro prendeu a respiração.

Kiara não olhou nos olhos deles. Isso seria um desafio. Ela olhou para o peito de Dante, seu corpo completamente imóvel, totalmente neutro. Manteve a mão erguida, palma para fora, dedos firmes.

Seduto — ela sussurrou. Senta.

As orelhas de Dante se moveram para trás. A espiral rígida de violência em seu corpo se dissolveu como açúcar na água. Ele sentou. Então, como se puxados por cordas invisíveis, Nero sentou. Virgílio sentou. Três monstros perfeitamente imóveis, observando-a.

O vereador estava soluçando. Matteo estava de pé, a mão congelada a meio caminho dentro do paletó, onde uma arma estava escondida. Marco parecia que ia desmaiar.

Kiara, lenta, agonizantemente lenta, estendeu a mão e a pousou no peito de Dante, bem sobre seu coração martelante.

— Bravo — ela murmurou. — Bravíssimo.

Dante se inclinou contra o toque dela, seu rabo, grosso como um taco de beisebol, bateu uma vez no chão.

Matteo Rinaldi olhava para a cena diante dele como se estivesse testemunhando um milagre ou um truque de mágica que não conseguia decifrar. Ele havia gasto um milhão de reais em treinadores militares. Vira aqueles cães rasgarem coletes de Kevlar. Ninguém tocava em seus Cérberos. Ninguém.

— Quem diabos é você? — perguntou Matteo, a voz baixa, perigosa, entrelaçada com fascinação.

Kiara ergueu o olhar, seus olhos cinza-azulados arregalados de adrenalina e terror. Agora que o momento passara, ela percebeu que estava ajoelhada no chão de um restaurante com os executores de um chefe da máfia e que acabara de impedir um massacre.

— E-eu sinto muito pelo barulho, senhor — ela gaguejou. — Vou ajudar a limpar. Por favor, não me demita.

Matteo olhou para a porcelana estilhaçada, depois para os três cães que agora observavam Kiara como se ela fosse o centro do universo deles. Um sorriso lento e predatório curvou seus lábios.

— Levante-se — disse ele.

Kiara tentou. Dante rosnou. Não para ela. Para Matteo.

O sorriso de Matteo desapareceu. Seu próprio cão acabara de o advertir.

— Dante, piede! — comandou Matteo. Junto!

O cão o ignorou.

Kiara pousou a mão no ombro de Dante.

Via — disse ela suavemente. Vai.

Todos os três cães imediatamente voltaram para suas posições sob a mesa, sentando-se como soldados aguardando ordens. As ordens dela.

O silêncio no Restaurante Império era absoluto.

Marco correu, branco como um fantasma.

— Senhor Rinaldi, eu sinto muito. Ela é nova. Ela está… Ela está demitida. Fora, Kiara!

— Ela não está demitida — disse Matteo, sua voz cortando Marco como uma lâmina. Ele passou por cima dos destroços e parou a centímetros de Kiara. Ele cheirava a pólvora, café expresso e algo mais sombrio. Algo que fazia os instintos dela gritarem: Corra!

Ele enfiou a mão no paletó, tirou uma carteira de couro elegante e deixou cair uma pilha dobrada de notas de duzentos reais na bandeja dela.

— Termine seu turno — disse Matteo, seus olhos negros nunca deixando os dela. — Amanhã à noite, você trabalha na mesa sete. Ninguém mais se aproxima da minha mesa. Entendido, Kiara?

Kiara assentiu, aterrorizada demais para falar. Enquanto corria para a cozinha, o coração batendo forte contra as costelas, ela podia sentir o olhar dele queimando em suas costas.

Ela pensou que havia sobrevivido ao encontro. Estava errada. Ela acabara de fazer um teste para um papel que nunca quisera e assinado um contrato escrito com sangue e dentes.

Kiara terminou seu turno em transe. Toda vez que passava pela mesa sete, os três cães erguiam a cabeça em uníssono, os rabos batendo no chão como um tambor de guerra. Matteo não falou mais com ela, mas observou. Observou como ela se movia pelo salão, como acalmou uma criança birrenta na mesa três, como ela se encolheu quando um de seus tenentes ergueu a voz para um garçom.

Às duas da manhã, o restaurante estava vazio. Kiara pendurou o avental, pegou o casaco e saiu pela saída dos fundos para a noite fria de São Paulo.

Uma Mercedes preta estava parada no beco. A porta de trás se abriu. Matteo Rinaldi estava lá dentro. A cabeça maciça de Dante repousava em seu joelho.

— Entre — disse Matteo. Não era um pedido.

O sangue de Kiara virou gelo.

— Eu tenho que ir para casa — disse ela, a voz mal um sussurro.

— Não — respondeu Matteo, seu tom calmo, absoluto. — Você não tem.

Ele se inclinou para a luz, e pela primeira vez, ela viu algo além de frieza em seus olhos. Curiosidade. Fome. Posse.

— Você tem um dom, Kiara Mancini — disse ele, usando o nome verdadeiro dela, o nome que ela não falava há seis meses. — E eu tenho três problemas muito caros que só você pode resolver.

Seu coração parou. Como você…?

— Eu sei de tudo — disse Matteo simplesmente. — Sei sobre o delegado Bianchi. Sei sobre o mandado. Sei que você está fugindo. — Ele sorriu. Um sorriso de lobo. — Entre no carro, e eu farei tudo isso desaparecer. Recuse, e eu ligo para ele agora mesmo.

Kiara olhou para a porta aberta, para a fera repousando a cabeça no joelho do diabo, para a escolha que nunca fora realmente uma escolha.

Ela entrou. A porta se fechou atrás dela com um clique suave e final. E enquanto a Mercedes se afastava na noite paulistana, Dante moveu sua grande cabeça do colo de Matteo para o de Kiara.

O chefão observou, e pela primeira vez em dez anos, Matteo Rinaldi sentiu algo que pensava estar morto há muito tempo.

Inveja.

A fera havia escolhido uma nova mestre.

A Mercedes serpenteava pelas ruas do Morumbi, subindo em direção às colinas onde o dinheiro antigo vivia atrás de portões de ferro e séculos de silêncio. Kiara sentou-se rígida no assento de couro, o peso quente de Dante pressionando sua coxa. O cão não se movera desde que deixaram o restaurante, como se a tivesse reivindicado como seu território.

Matteo também não falara. Ele simplesmente a observava com aqueles olhos negros e indecifráveis, uma mão repousando na cabeça de Nero no assento ao lado dele. Virgílio estava deitado no chão entre eles, uma barreira viva.

— Para onde estamos indo? — Kiara finalmente perguntou, a voz mal audível sobre o ronco do motor.

— Para casa — disse Matteo simplesmente.

— Casa de quem?

— Sua, agora.

O carro passou por portões que pareciam capazes de resistir a um cerco. A propriedade além era uma fortaleza disfarçada de mansão. Três andares de pedra cor de mel, cercados por jardins bem cuidados e muros coroados com câmeras de vigilância que acompanhavam sua aproximação como olhos predadores.

O motorista abriu a porta de Kiara. Ela não se moveu.

— Eu não posso simplesmente desaparecer — disse ela. — Eu tenho um apartamento, um senhorio que vai…

— Seu senhorio já foi pago até o final do ano — interrompeu Matteo. — Seus pertences estão sendo recolhidos enquanto falamos. Você os terá pela manhã.

Gelo inundou suas veias.

— Você não tinha o direito.

— Eu tinha todo o direito. — A voz de Matteo era seda envolvendo aço. — No momento em que você tocou meus cães, você se tornou valiosa. Coisas valiosas não vivem na periferia com um policial corrupto as caçando.

Ele saiu do carro e os três cães o seguiram como sombras. Ele se virou, oferecendo a mão.

— Você tem duas escolhas, Kiara. Pode lutar comigo, fugir de mim, me odiar, e eu ainda a manterei aqui porque preciso do que você pode fazer. Ou pode aceitar que, pela primeira vez em seis meses, você está segura.

Ela olhou para a mão estendida dele, forte, com cicatrizes nos nós dos dedos. Uma mão que já quebrara ossos e assinara sentenças de morte. Uma mão que também acabara de lhe oferecer algo que ela esquecera que existia. Segurança.

Ela a pegou.

O interior da mansão era exatamente o que ela esperava. Pisos de mármore, pinturas a óleo que valiam mais do que vidas, móveis que pareciam pertencer a um museu. Mas Matteo não a levou para um quarto de hóspedes ou uma jaula. Ele a levou para os canis.

Ficavam atrás da casa principal, conectados por uma passarela coberta. Não eram jaulas, mas suítes de luxo, quartos climatizados com camas elevadas, alimentadores automáticos e espaço suficiente para os cães se moverem livremente. As paredes eram de concreto armado. As portas eram de aço.

— Eles dormem aqui quando tenho negócios — explicou Matteo, soltando os cães de suas coleiras. — Mas, ultimamente, eles têm estado… — Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. — Imprevisíveis.

Kiara observou enquanto os três pitbulls imediatamente foram para seus cantos separados, andando de um lado para o outro, choramingando suavemente. Dante continuava voltando para a porta, procurando por ela.

— Eles estão ansiosos — disse ela em voz baixa. — Não são perversos. Alguém os treinou para reagir à ameaça com violência, mas nunca lhes ensinaram como desescalar. Eles estão vivendo em constante modo de luta ou fuga.

A mandíbula de Matteo se contraiu.

— Eu paguei os melhores treinadores da Europa.

— Você pagou pessoas que treinam cães de ataque — corrigiu Kiara, entrando no canil —, não pessoas que entendem de trauma.

Dante imediatamente se aproximou dela, pressionando sua cabeça maciça contra o quadril dela. Ela passou a mão por sua espinha, sentindo a tensão enrolada em cada músculo.

— O que aconteceu com você? — ela sussurrou.

— O adestrador anterior dele o espancava — disse Matteo da porta —, antes de eu o adquirir. O homem achava que medo era o mesmo que respeito.

— O que aconteceu com o adestrador?

O sorriso de Matteo era frio.

— Dante aconteceu.

Kiara olhou para ele, a compreensão se cristalizando.

— Você não comprou esses cães como armas. Você os resgatou.

— Eu lhes dei um propósito — disse Matteo. — Há uma diferença.

— Não — disse Kiara suavemente, coçando atrás da orelha de Dante enquanto o cão maciço se inclinava em seu toque. — Você lhes deu um tipo diferente de prisão.

Por um longo momento, Matteo não disse nada. Então ele entrou no canil, diminuindo a distância entre eles. Ele estava tão perto que ela podia sentir o calor irradiando de seu corpo.

— Então, conserte-os — disse ele. — Conserte-os, e eu consertarei o seu problema.

— O delegado Bianchi não é um problema que você pode consertar com dinheiro.

— Eu não estava planejando usar dinheiro.

A promessa em sua voz era mais sombria do que qualquer ameaça. Kiara deveria estar apavorada. Em vez disso, sentiu algo quase como esperança.

— Três meses — disse ela. — Dê-me três meses com eles.

Matteo estendeu a mão.

— Você tem dois.

Ela apertou a mão dele, selando um acordo com o diabo. Dante sentou-se entre eles e sorriu.

Kiara acordou com um silêncio tão completo que parecia sufocante. Por seis meses, ela vivera com a sinfonia constante da periferia: sirenes, gritos, o barulho dos caminhões de entrega ao amanhecer. Ali, na propriedade Rinaldi, não havia nada além do sussurro do ar-condicionado caro e do som distante do tráfego na marginal.

Ela se sentou no quarto de hóspedes que Matteo lhe designara. Era maior que todo o seu antigo apartamento, decorado em tons de creme e dourado com uma janela que dava para a ponte estaiada. O nascer do sol pintava o céu em tons de laranja-sangue e violeta.

Uma batida na porta a fez se encolher.

Avanti — ela chamou, puxando o cobertor até o queixo.

Uma mulher na casa dos 50 anos entrou, carregando uma bandeja com café expresso e pão de queijo. Ela tinha olhos aguçados e a postura de quem já viu demais e julgou tudo.

— Senhora Mancini — disse a mulher, colocando a bandeja na mesa de cabeceira. — Eu sou Lúcia. Eu administro a casa. O Senhor Rinaldi pediu que a senhora se junte a ele para o café da manhã às oito. Os cães já foram alimentados, mas se recusaram a comer.

Kiara olhou para o relógio. 7:15.

— Eles estão esperando pela senhora — acrescentou Lúcia, algo quase como divertimento brilhando em seu rosto severo. — Os três estão sentados do lado de fora da sua porta como estátuas. Está deixando os funcionários nervosos.

Quando Kiara abriu a porta de seu quarto vinte minutos depois, vestida com as roupas que haviam aparecido misteriosamente no armário — calças pretas simples e um suéter cinza macio que lhe caíam perfeitamente —, ela quase tropeçou em Dante. O cão maciço estava deitado no limiar como uma esfinge guardiã. Nero e Virgílio o flanqueavam de cada lado, as três cabeças erguidas em uníssono.

Buongiorno — ela murmurou, agachando-se para cumprimentá-los apropriadamente. O rabo de Dante começou a bater lenta e pesadamente contra o piso de mármore. — Vocês deveriam estar tomando café da manhã, não fazendo uma vigília.

— Eles não saíram daquele lugar desde as seis da manhã — veio a voz de Matteo do corredor. Ele emergiu de uma porta, vestido com calças pretas de alfaiataria e uma camisa branca com as mangas enroladas até os cotovelos. Sem a armadura de seu paletó, ele parecia quase humano. Quase. — Tentei movê-los — continuou ele, caminhando em direção a ela. — Dante quase arrancou minha mão.

Kiara se levantou e os três cães imediatamente se pressionaram contra suas pernas, formando um triângulo protetor ao seu redor.

— Ele não teria te mordido. Ele estava te avisando.

— A distinção não me conforta — disse Matteo secamente. — Caminhe comigo.

Não era um pedido. Eles se moveram pela mansão — Kiara, Matteo e sua sombra de três cabeças — até chegarem a um terraço ensolarado com vista para os jardins. Uma mesa havia sido posta com mais comida do que duas pessoas poderiam comer. Frutas frescas, presunto de Parma, queijos, doces e uma cafeteira de prata com um espresso que cheirava a paraíso.

Matteo puxou uma cadeira para ela. O gesto foi tão inesperadamente cortês que ela hesitou antes de se sentar.

— Você está se perguntando por que está aqui? — disse Matteo, servindo-lhe um café com facilidade praticada. — Além do óbvio.

— O óbvio sendo que você me sequestrou.

— Prefiro “realocada estrategicamente”. — Seus lábios se curvaram em algo que poderia ter sido um sorriso em um homem menos perigoso. — Você não é uma prisioneira, Kiara. É uma funcionária.

— Funcionários geralmente podem negociar seus contratos.

— Negocie, então. — Ela envolveu as mãos na pequena xícara de café, deixando seu calor acalmá-la. — O que exatamente você quer de mim?

Matteo recostou-se na cadeira, e Dante imediatamente se moveu para o seu lado, mas os olhos do cão nunca deixaram Kiara.

— Quero que você faça o que fez ontem à noite. O que quer que tenha sido aquilo. Quero que meus cães sejam controláveis sem serem quebrados.

— Por quê? — A pergunta saiu mais ríspida do que ela pretendia. — Você mesmo disse. São armas. Por que se importa se estão traumatizados?

Algo brilhou no rosto de Matteo. Raiva, talvez. Ou algo mais complicado.

— Porque armas que não podem ser controladas são um passivo — disse ele uniformemente. — E porque Dante salvou minha vida há três anos, quando um assassino passou pela minha segurança. Ele levou dois tiros que eram para mim. O mínimo que posso fazer é dar-lhe paz.

Kiara o estudou. Este homem que ordenava assassinatos durante o jantar e falava de seu cão com algo quase como amor.

— Dois meses não é suficiente — disse ela, finalmente. — Eles precisam de pelo menos quatro, talvez seis.

— Você tem três — contrapôs Matteo. — E, em troca, o delegado Stefano Bianchi nunca a encontrará. Eu me certificarei disso.

— Como?

O sorriso de Matteo era frio e final.

— Isso não é da sua conta.

Kiara olhou para Dante, que voltara para o seu lado, sua cabeça enorme repousando em seu joelho. Ela pensou nas mãos de Bianchi em sua garganta, seu hálito quente com uísque e raiva, sua promessa de que ela lhe pertencia. Pensou nas provas que ele plantara, nos colegas que acreditaram em suas mentiras. Na porta da cela se fechando atrás dela. Pensou em não ter mais para onde correr.

— Quatro meses — disse ela em voz baixa. — E quero por escrito que posso ir embora quando o trabalho estiver feito.

Matteo estendeu a mão sobre a mesa.

— Quatro meses. E, Kiara? — Ele esperou até que ela encontrasse seus olhos. — Você pode ir embora quando quiser. Mas algo me diz que não vai.

Ela apertou a mão dele, e o rabo de Dante bateu aprovadoramente contra o mármore. Nos jardins abaixo, Rocco Santos observava através de binóculos e comunicava-se com sua equipe pelo rádio.

— A garçonete vai ficar — disse ele. — Aumentem a segurança do perímetro e façam uma verificação de antecedentes mais profunda. Quero saber tudo sobre ela, incluindo por que Bianchi a quer tanto.

A caçada a seguira até em casa.

Rocco Santos não confiava nela. Kiara podia sentir sua desconfiança como um peso físico enquanto ele a conduzia pela ala sul da propriedade em direção aos canis. Ele era uma montanha de homem, 1,93m com ombros que forçavam seu colete tático e olhos que não perdiam nada.

— Você entende do que esses cães são capazes? — disse Rocco, sem se dar ao trabalho de formular como uma pergunta. Sua voz tinha a aspereza de um fumante de longa data. — No ano passado, Nero rasgou uma manga de Kevlar e quebrou o braço do treinador em três lugares. O treinador era ex-militar. Ele sabia o que estava fazendo.

— Então ele estava fazendo errado — respondeu Kiara, mantendo o ritmo apesar de seu passo propositadamente rápido.

Rocco parou tão abruptamente que ela quase colidiu com suas costas. Ele se virou, olhando para ela com algo entre irritação e curiosidade.

— Você está aqui há uma noite e acha que sabe mais do que profissionais que treinam cães de proteção há vinte anos?

— Eu acho — disse Kiara com cuidado — que há uma diferença entre treinar um cão para atacar e ensinar um cão a confiar. Seus profissionais ensinaram a eles a primeira parte. Estou aqui para a segunda.

— Confiança — repetiu Rocco, como se a palavra tivesse um gosto ruim em sua boca. — Estes não são animais de estimação, senhorita. São instrumentos, ferramentas. O Don não precisa que eles confiem. Ele precisa que eles obedeçam.

— Se isso é verdade, então por que estou aqui?

A mandíbula de Rocco se moveu, mastigando uma resposta que ele não queria dar. Finalmente, ele sacudiu a cabeça em direção à entrada do canil.

— Porque nos últimos seis meses eles se tornaram imprevisíveis. Agressivos com os funcionários, agressivos entre si. Na semana passada, Virgílio quase matou um dos jardineiros por andar perto demais da janela do escritório do Don.

— O que aconteceu com o jardineiro?

— Dezoito pontos, pagamento de risco, um acordo de confidencialidade. — Rocco tirou um molho de chaves do cinto. — O Don é apegado a esses animais. Contra minha recomendação profissional, ele se recusa a sacrificá-los. Então aqui está você, a milagreira do restaurante. — O ceticismo em sua voz poderia cortar vidro.

— Eu não sou uma milagreira — disse Kiara em voz baixa. — Mas eu reconheço trauma quando o vejo.

Rocco destrancou a porta de aço reforçada e imediatamente o som a atingiu. Não latidos, mas algo pior. Uma cacofonia de gemidos, passos, o raspar de garras no concreto, a assinatura de áudio de animais presos em seus próprios sistemas nervosos.

O canil era impecável, de última geração. Cada suíte tinha camas ortopédicas, controle de temperatura, bebedouros automáticos. Parecia um hotel de luxo para cães, mas parecia uma prisão.

Dante abria uma vala em sua seção, andando de um lado para o outro, de um lado para o outro, sua respiração curta e ansiosa. Nero estava pressionado no canto mais distante de sua suíte, tremendo, os olhos muito abertos. Virgílio estava atacando sua própria cama, sacudindo-a violentamente, rosnando para ameaças fantasmas.

— Meu Deus — sussurrou Kiara.

— Eles estão assim desde o amanhecer — disse Rocco. — Tentamos alimentá-los, exercitá-los. Nada funciona. O veterinário diz que eles estão fisicamente saudáveis, mas…

— …mas eles não estão — completou Kiara. — Estão apavorados.

Ela se aproximou do recinto de Dante lentamente, lendo sua linguagem corporal. As orelhas dele estavam para trás, a cauda rígida. Cada músculo estava enrolado para violência ou fuga. Mas seus olhos, seus olhos continuavam a se lançar para a porta, procurando.

Ele está procurando por Matteo, ela percebeu.

— O Don saiu há duas horas para uma reunião no centro. Ele não voltará até esta noite.

E os cães sabiam disso. Kiara se agachou na frente do recinto, tornando-se pequena, não ameaçadora.

— Com que frequência Matteo os deixa aqui?

— Sempre que ele tem negócios que exigem discrição.

— Por quanto tempo?

— Às vezes, dias.

Kiara fechou os olhos, a compreensão se cristalizando com dolorosa clareza.

— Eles não são armas. São casos de apego. Matteo é a única estabilidade que eles têm. E toda vez que ele sai, seus sistemas nervosos pensam que ele os está abandonando. Eles não sabem se ele vai voltar.

— Cães não pensam assim — disse Rocco com desdém.

— Sim — disse Kiara, olhando para ele. — Eles pensam. Especialmente cães que já foram abandonados antes.

Dante parara de andar de um lado para o outro. Ele estava no portão agora, encarando-a com uma intensidade que lhe cortou a respiração. Seu corpo inteiro vibrava com tensão, mas ele não estava rosnando. Estava esperando.

— Abra — disse Kiara.

— De jeito nenhum.

— Ele não vai me machucar.

— Você não sabe disso.

— Sim, eu sei. — Ela se levantou, nunca quebrando o contato visual com Dante. — Abra o portão, Rocco, ou eu saio daqui agora mesmo, e você pode explicar ao seu Don por que a milagreira dele desistiu depois de dez minutos.

A mão de Rocco se moveu para a arma em seu quadril, depois para as chaves em seu cinto.

— Se ele te atacar…

— Ele não vai.

A fechadura clicou. O portão se abriu.

Dante explodiu para fora do canil, não em direção a Kiara, mas passando por ela, correndo em um círculo frenético pela sala, procurando por Matteo. Quando não o encontrou, o cão soltou um som que partiu seu coração. Um gemido agudo e desesperado.

Kiara sentou-se no chão de concreto, de pernas cruzadas, e esperou. Levou trinta segundos, uma eternidade, antes de Dante se aproximar. Ele veio lentamente, desconfiado, seu nariz trabalhando, processando o cheiro dela. Então ele fez algo que fez Rocco xingar baixinho.

Dante desabou ao lado dela, rolou de costas e expôs sua barriga. Submissão completa. Rendição total.

Kiara pousou a mão em seu peito, sentindo seu coração de coelho começar a desacelerar.

— Bravo — ela sussurrou. — Sei sicuro. Adesso sei al sicuro. Você está seguro. Ele sempre volta.

A respiração de Dante se acalmou. Seus olhos começaram a se fechar. Atrás dela, Rocco guardou sua arma.

— Puta merda — ele murmurou.

— Não — disse Kiara, coçando atrás da orelha de Dante enquanto o cão maciço derretia em sono. — Eles foram amaldiçoados. Nós vamos consertar isso.

Três semanas após o início da reabilitação, Matteo estava na varanda do segundo andar da mansão com seu café da manhã e observava Kiara operar uma mágica que ele não entendia. Ela estava no pátio de treinamento, um meio acre de grama bem cuidada cercada por muros de pedra, com todos os três cães sem guia. Isso por si só teria sido suicídio um mês antes. Agora, Dante, Nero e Virgílio se moviam ao redor dela como satélites orbitando um sol, sintonizados com seu menor gesto.

— Dante, junto! — ela chamou, a voz calma, mas absoluta.

O pitbull maciço, que estava investigando algo no canto mais distante, imediatamente trotou para o seu lado esquerdo e sentou-se, os olhos para cima, esperando. Ela não o recompensou com petiscos. Ela o recompensou com uma mão em sua cabeça e um “bravo” silencioso.

Matteo gastara uma fortuna com treinadores que usavam coleiras de choque, coleiras de pinos, rolagens de dominância; homens que acreditavam que controlar um cão significava quebrar seu espírito primeiro. Kiara jogara tudo isso fora em seu segundo dia.

“Eles não precisam de dor”, ela lhe dissera, em pé em seu escritório com sujeira nos joelhos e pelos de Dante em seu suéter. “Eles precisam de consistência, limites e alguém que não confunda medo com respeito.”

Agora, observando-a trabalhar, Matteo entendia a diferença. Ela nunca levantava a voz, nunca os golpeava, nunca usava a força. Em vez disso, ela se tornara a alfa através de algo muito mais poderoso: certeza absoluta e inabalável. Quando ela dizia “senta”, não havia dúvida em seu tom. Quando ela os chamava, não havia dúvida de que eles viriam. Ela havia reescrito a hierarquia da matilha sem violência, e os cães aceitaram sua liderança com algo próximo à adoração.

— Nero, Virgílio, deita! — comandou Kiara, sua mão caindo em um gesto brusco para baixo.

Ambos os cães imediatamente se deitaram, mesmo estando a seis metros de distância no meio de uma brincadeira. Eles ficaram deitados, observando-a, esperando pela liberação.

O peito de Matteo se apertou com algo que ele se recusou a nomear.

— Ela é boa — disse Rocco, materializando-se ao seu lado com seu silêncio fantasmagórico de sempre. — Melhor do que boa. Em três semanas, ela conseguiu o que seis meses de treinamento profissional não conseguiram.

— Estou ciente — respondeu Matteo, sem tirar os olhos de Kiara.

Ela estava rindo agora, liberando os cães de seu comando de permanência e correndo pelo pátio com eles, que a perseguiam em um jogo que parecia caótico, mas na verdade era perfeitamente controlado. Ela podia pará-los com uma palavra, iniciá-los com um gesto.

Eles morreriam por ela. Matteo conhecia o sentimento.

— Terminamos a verificação de antecedentes aprofundada que você pediu — continuou Rocco, seu tom mudando para negócios. — Você não vai gostar.

— Diga-me.

— Delegado Stefano Bianchi, do DENARC, quinze anos de serviço, condecorado, com contatos. E corrupto até a medula. Encontramos pagamentos de três facções diferentes, incluindo o clã Vulpi. Mas ele é cuidadoso. Nada que se sustente em tribunal.

A mandíbula de Matteo se contraiu.

— E Kiara?

— Ela era sua informante. Dizem que ela testemunhou Bianchi executando um suspeito durante uma batida há dois anos. Garoto desarmado. Lugar errado, hora errada. Bianchi fez parecer limpo, mas ela viu. Quando ela ameaçou denunciá-lo, ele virou o jogo.

— O que significa?

— Significa que ele plantou provas no apartamento dela. Cocaína suficiente para fazê-la parecer uma traficante em vez de uma informante. A palavra dela contra a de um policial condecorado. — Rocco fez uma pausa. — Ela fugiu na noite anterior à sua prisão. Está fugindo desde então.

A mão de Matteo se apertou em volta da xícara de café até a porcelana rachar.

— Onde está Bianchi agora?

— Esse é o problema. Ele tem feito perguntas. Ele sabe que ela trabalhava no Império. Três dias atrás, ele visitou o restaurante, interrogou os funcionários. Marco não lhe deu nada, mas…

— …mas ele está caçando — completou Matteo.

Abaixo, Kiara tinha todos os três cães sentados em uma linha perfeita, a atenção deles travada nela. Ela os estava ensinando a esperar, não pela força, mas pela confiança. Ensinando-lhes que coisas boas vinham para aqueles que se controlavam.

Matteo tomou uma decisão.

— Dobre a segurança do perímetro — disse ele em voz baixa. — Coloque uma equipe no delegado Bianchi. Quero saber todos os lugares que ele vai, todas as pessoas com quem ele fala.

— E, Rocco?

— Chefe?

— Se ele chegar a um quilômetro desta propriedade, você me liga primeiro. Não para a polícia, não para mais ninguém. Para mim.

Rocco assentiu e desapareceu tão silenciosamente quanto chegara. Matteo esvaziou a xícara de café rachada e desceu os degraus de pedra para o pátio de treinamento. Kiara o viu se aproximando e sorriu. Um sorriso real, desprotegido, e algo em seu peito se partiu mais do que a porcelana.

— Eles estão prontos para o trabalho avançado — ela gritou, afastando o cabelo do rosto. — Veja isto. Dante, Nero, Virgílio, defesa!

Todos os três cães imediatamente se moveram para formar um triângulo ao redor dela, virados para fora, um escudo vivo. Eles não latiam, não rosnaram. Apenas se posicionaram como uma barreira entre ela e qualquer ameaça potencial, incluindo Matteo.

Libero — disse ela, liberando-os. Eles relaxaram, mas permaneceram perto.

— Você os ensinou a te proteger — disse Matteo, parando na borda de sua formação.

— Eu os ensinei a proteger o que amam — corrigiu Kiara. — Há uma diferença.

— Há?

Ela inclinou a cabeça, estudando-o com aqueles olhos claros e conhecedores.

— Diga-me você, Matteo. Seus homens te seguem porque te temem ou porque acreditam em você?

— Ambos — respondeu ele honestamente.

— Esse é o problema de governar pelo medo — disse ela suavemente. — No segundo em que alguém mais forte aparece, você perde tudo. Mas a lealdade, a lealdade real, isso é permanente.

Ela passou por ele em direção à mansão, e os três cães a seguiram sem olhar para trás. Matteo ficou sozinho no pátio de treinamento, mestre de um império do crime, e percebeu com clareza absoluta que havia perdido o controle de algo muito mais perigoso do que seus cães.

Ele estava se apaixonando pela mulher que os domara. E, em seu mundo, essa era a vulnerabilidade mais letal de todas.

O delegado Stefano Bianchi sentou-se em seu Toyota Corolla descaracterizado em frente ao Restaurante Império e observou o turno da noite chegar. Ele estava observando há três dias, fumando dois maços de Marlboro e bebendo um café expresso que tinha gosto de ácido de bateria. Sua mandíbula doía de tanto ranger os dentes. Seus nós dos dedos ainda estavam machucados da última vez que perdera a paciência.

Kiara estava perto. Ele podia sentir isso da mesma forma que um tubarão sente o cheiro de sangue na água.

Ela fora cuidadosa. Seis meses de cuidado. Mas todo mundo cometia erros eventualmente. O passaporte falso, o apartamento pago em dinheiro, o cabelo descolorido e as lentes de contato coloridas. Tudo isso lhe comprara tempo, mas o tempo sempre acabava.

Ele a encontrara por acidente, na verdade. Uma varredura de rotina, verificando sua rede de informantes, quando um deles mencionou uma nova garçonete no Império que mantinha a cabeça baixa e nunca fazia perguntas. “Garota bonita, quieta. Assustada com alguma coisa”, dissera o informante.

Stefano conhecia aquele medo. Ele o colocara lá.

A lembrança do apartamento de Kiara, o jeito que ela o olhara quando encontrou a cocaína plantada, a traição em seus olhos se transformando em terror, ainda o aquecia mais do que o café expresso. Ela fora dele. Sua informante, seu projeto. Sua. E então ela ameaçara destruí-lo por um erro estúpido. O garoto estava procurando por algo. Stefano reagira. Teria sido considerado legítima defesa se ela tivesse mantido a boca fechada.

Mas não. Kiara tinha que ter uma consciência. Tinha que ameaçar ir à corregedoria. Então ele a transformara na criminosa.

Agora ela pensava que podia se esconder dele. Recomeçar. Desaparecer.

Ele jogou o cigarro pela janela e verificou o relógio. 20:15. A hora do jantar estaria começando. Hora de fazer algumas perguntas mais diretas.

Ele já tentara a abordagem sutil, mostrando seu distintivo, perguntando ao gerente se uma mulher com a descrição de Kiara trabalhava lá. Marco o enrolara com a lealdade de olhos mortos de quem já viu a corrupção policial de perto e decidiu de que lado estava.

A sutileza acabara.

Stefano esperou até que o ajudante de garçom — o garoto magro que derrubou a bandeja, segundo a história de Marco — saísse para uma pausa para fumar. O garoto não podia ter mais de vinte anos, todo energia nervosa e cicatrizes de acne. Perfeito.

Stefano atravessou a rua, cronometrando para interceptar o garoto no beco ao lado do restaurante, longe das câmeras, longe de testemunhas.

— Luca, certo? — disse Stefano agradavelmente, mostrando seu distintivo.

Os olhos do garoto se arregalaram.

— E-eu não fiz nada, delegado. Juro.

— Relaxe. — Stefano sorriu. — Não estou aqui por você. Estou procurando por alguém. Uma garçonete que trabalhava aqui. Loira, vinte e poucos anos, mais ou menos desta altura. — Ele mostrou o celular, com uma foto de Kiara de dois anos antes, antes de ela fugir.

O rosto de Luca fez algo complicado. Reconhecimento. Medo. O cálculo mental de se mentir para um policial valia o que viria a seguir.

— Eu não…

A mão de Stefano disparou, agarrando o colarinho do garoto e batendo-o contra a parede de tijolos com força suficiente para tirar seu fôlego.

— Deixe-me reformular — disse Stefano, a voz ainda agradável, o sorriso ainda fixo. — Eu sei que ela trabalhou aqui. Sei que algo aconteceu há um mês envolvendo ela e alguns cães. Sei que ela saiu com alguém em um carro muito caro. O que eu não sei é para onde ela foi. E você vai me dizer.

— Eu não posso. O homem… ele vai me matar.

O punho de Stefano atingiu Luca no plexo solar. O garoto dobrou-se, ofegante, e Stefano o puxou de volta pelos cabelos.

— O homem no carro — pressionou Stefano. — Quem era ele?

— Eu não sei o nome dele — ofegou Luca. — Ninguém sabe o nome dele. Nós só… nós o chamamos…

— Chamam de quê?

— Il Fantasma — soluçou Luca. — O Fantasma. Ele é dono de metade de São Paulo. Você não pode tocá-lo. Ninguém pode.

Stefano sentiu gelo deslizar por sua espinha. Ele conhecia aquele nome. Todos na polícia conheciam aquele nome, mesmo que fingissem que não. Matteo Rinaldi, o intocável, o fantasma que passava por cenas de crime e não deixava impressões digitais, nem testemunhas, nem provas.

— Descreva o carro — exigiu Stefano.

— Mercedes preta, vidros escuros. Três… três cães dentro, enormes. Ela entrou no carro com eles e nunca mais voltou.

Stefano soltou o garoto, deixando-o desabar contra a caçamba de lixo. Sua mente estava a mil, recalculando. Se Kiara de alguma forma se envolvera com a família Rinaldi, isso mudava tudo. Ele não podia simplesmente bater na porta de Rinaldi e exigir sua propriedade de volta. Precisaria de vantagem, um plano, tempo. Mas não muito tempo.

Ele pegou o celular e discou um número que jurara nunca ligar. Um número que o conectava a pessoas que o faziam parecer um santo.

— É o Bianchi — disse ele quando a linha atendeu. — Preciso de informações sobre a localização atual de Matteo Rinaldi, propriedades, detalhes de segurança. Tudo.

A voz do outro lado riu. Um som úmido e feio.

— Esse tipo de informação custa, delegado.

— Diga o seu preço. Você tem alguém dentro da operação dele?

Stefano sorriu, pensando no rosto de Kiara, no jeito que ela olhava para aqueles cães como se fossem sagrados.

— Melhor. Eu tenho a fraqueza dele.

Ele desligou e acendeu outro cigarro, olhando para as janelas brilhantes do Restaurante Império. Kiara pensava que encontrara um santuário com um monstro. Ela ainda não entendia que monstros não protegiam, eles possuíam. E Stefano a possuíra primeiro.

Ele a encontraria. Ele queimaria qualquer fortaleza em que ela estivesse se escondendo. E quando a arrastasse para fora, ela se lembraria a quem realmente pertencia.

A rede estava se fechando, e Kiara Mancini estava ficando sem lugares para correr.

A tempestade rolou da Baía de Guanabara pouco depois da meia-noite, tornando o céu negro e violento. Relâmpagos rasgavam o horizonte como ossos se quebrando, e o trovão sacudia as fundações antigas da mansão. Kiara acordou com o som do uivo de Dante, um som primal e aterrorizado que cortou seu peito.

Ela saltou da cama e correu antes de estar totalmente consciente, descalça, ainda na camiseta grande com que dormia. Os canis. Ela tinha que chegar aos canis.

Mas quando irrompeu pelo corredor dos fundos da mansão, encontrou as portas do canil já abertas e Matteo parado na entrada, silhueta recortada por um relâmpago, o rosto contorcido de frustração.

Basta! — ele gritava sobre o trovão. — Dante, fermo, para!

O comando não fez efeito. Todos os três cães estavam em pânico total. Dante andando freneticamente de um lado para o outro, Nero pressionado no canto, tremendo tanto que sua coleira de corrente chacoalhava, Virgílio latindo para sombras, para a tempestade, para ameaças invisíveis que só ele via.

Matteo agarrou Dante pela coleira, tentando forçar fisicamente o cão a se deitar. Dante estalou os dentes, não uma mordida, mas um aviso, os dentes brilhando a centímetros da mão de Matteo.

— Não! — disse Kiara bruscamente.

Matteo se virou, o rosto perigoso. Estava sem camisa, vestindo apenas calças de pijama pretas, o cabelo desgrenhado. Parecia mais humano do que ela jamais o vira, e mais assustador.

— Eles precisam ser controlados.

— Eles precisam ser confortados — corrigiu Kiara, passando por ele e entrando no canil. — Afaste-se. Você está piorando as coisas.

— Eu estou…

A mandíbula de Matteo se moveu.

— Estes são meus cães.

— E neste momento, você está os assustando. — Ela se virou para encará-lo completamente, e algo em sua expressão o fez congelar. — Você está usando a mesma energia da tempestade. Alto, agressivo, imprevisível. Eles não conseguem diferenciar você da ameaça.

Outro relâmpago. Virgílio ganius e correu para o canto mais distante, colidindo com Nero. Ambos os cães rosnaram um para o outro, a confusão se transformando em agressão mal direcionada.

Kiara caiu de joelhos no chão de concreto.

— Dante — disse ela, a voz baixa e firme. — Vieni. Vem.

O cão grande parou de andar, suas orelhas girando em direção à voz dela como antenas de radar. Ela não chamou novamente. Simplesmente sentou-se, centrada, irradiando calma no meio do caos.

Lentamente, hesitantemente, Dante se aproximou. Quando estava perto o suficiente, ela colocou ambas as mãos em cada lado de sua cabeça maciça e pressionou a testa contra a dele.

Lo so — ela sussurrou. Eu sei. — Fa paura, ma sei al sicuro. Dá medo, mas você está seguro.

Ela começou a cantarolar, baixo, rítmico, a mesma frequência que usara no restaurante. O som pareceu cortar a violência da tempestade, criando um bolsão de paz. A respiração de Dante começou a desacelerar, seu tremor diminuiu.

Matteo observava, hipnotizado.

— Sente-se comigo — disse Kiara em voz baixa, sem olhar para ele. — Devagar. Sem movimentos bruscos.

— Kiara…

— Sente-se comigo, Matteo.

Ele obedeceu, baixando-se para o chão ao lado dela. Tão perto, ela podia sentir o calor irradiando de sua pele. Sentir o cheiro da combinação de sabonete caro e algo mais sombrio, mais elementar.

— Coloque sua mão no peito dele — instruiu ela. — Acompanhe a respiração dele. Inspira e expira. Devagar.

Matteo colocou a mão ao lado da dela na caixa torácica de Dante. O cão se enrijeceu, mas a outra mão de Kiara acariciou seu flanco, mantendo-o firme.

— Sente isso? — ela murmurou. — O batimento cardíaco dele. Está diminuindo porque estamos mostrando a ele que não há nada a temer. Predadores não ficam parados durante o perigo. Ao sentarmos, estamos dizendo a ele que a tempestade não pode machucá-lo.

Outro trovão. Mas desta vez, Dante apenas se encolheu. Matteo manteve a mão firme, sua respiração sincronizada com a do cão. Nero se aproximou, a curiosidade superando o medo. Depois, Virgílio. Em minutos, todos os três cães desabaram ao redor deles, uma pilha de músculos e pelos e batimentos cardíacos que se acalmavam lentamente.

A tempestade rugia lá fora, mas dentro do canil havia apenas respiração, calor e silêncio.

— Como você aprendeu isso? — perguntou Matteo, a voz quase inaudível.

Kiara ficou em silêncio por um longo momento.

— Meu pai tinha TEPT. Veterano de combate. Ele tinha crises durante as tempestades, achava que estava de volta à guerra. Aprendi que, às vezes, a coisa mais forte que você pode fazer é apenas estar presente. Ficar calmo. Mostrar a alguém que está seguro, acreditando nisso você mesmo.

— Seu pai… — disse Matteo com cuidado. — As contas médicas que você estava tentando pagar no Império. Diálise, insuficiência renal. O sistema público não cobria nem a metade.

Ela acariciou a orelha de Dante.

— Ele morreu três meses antes de eu fugir de Bianchi.

A mão de Matteo se moveu do peito de Dante para cobrir a dela. O gesto foi tão inesperado, tão gentil, que ela congelou.

— Sinto muito — disse ele.

— Não sinta. Ele estava sofrendo. Pelo menos agora não está.

— Não pelo seu pai — interrompeu Matteo. — Por Bianchi. Pelo que ele fez com você. Pelo fato de você ter carregado isso sozinha.

Kiara se virou para olhá-lo, e a expressão no rosto dele lhe roubou o fôlego. Não era pena. Era reconhecimento. Um sobrevivente vendo outro.

— Matteo…

Ele se inclinou para frente lentamente, dando-lhe todas as oportunidades para se afastar. Quando seus lábios encontraram os dela, foi suave, questionador, nada como a violência que ela esperava de um homem como ele.

Ela o beijou de volta. O rabo de Dante bateu uma vez no chão, um som de aprovação.

Quando se separaram, a tempestade já estava diminuindo, recuando para o mar. Os cães dormiam em uma pilha entre eles, pacíficos, protegidos.

— Esta é uma péssima ideia — sussurrou Kiara.

— Eu sei — concordou Matteo.

— Não vou ficar depois de quatro meses.

— Eu sei — disse ele novamente, mas sua mão se apertou em volta da dela.

Eles ficaram no canil até o amanhecer, cercados por cães adormecidos, agarrando-se um ao outro como sobreviventes de um naufrágio se agarram a destroços. Nenhum deles mencionou que a tempestade lá fora havia terminado. A tempestade dentro deles estava apenas começando.

Kiara estava no pátio de treinamento com Virgílio, trabalhando em exercícios de agressão controlada, quando a voz de Rocco soou pelo sistema de intercomunicação da propriedade com uma única palavra que fez seu sangue gelar:

Polizia.

Ela largou a manga de treinamento e correu em direção à casa principal, Virgílio acompanhando seu passo. Quando chegou ao pátio da frente, Matteo já estava lá, flanqueado por quatro de seus homens, todos armados. Além dos portões de ferro, três viaturas policiais estavam estacionadas em uma demonstração deliberada de força. Dois carros de patrulha e um sedan descaracterizado.

O delegado Stefano Bianchi estava no portão com um pedaço de papel na mão e um sorriso que fez Kiara querer vomitar.

— Matteo Rinaldi! — gritou Stefano, sua voz carregando a falsa autoridade de um homem com um distintivo e uma vingança. — Tenho um mandado para revistar estas instalações em busca de uma fugitiva. Kiara Mancini, procurada por tráfico de drogas e fuga da custódia.

Rocco já estava no portão, sua estrutura maciça bloqueando a entrada.

— Mostre-me o mandado.

Stefano passou o papel pelas grades. Rocco o examinou com a atenção cuidadosa de quem já viu documentos falsificados antes. Sua expressão escureceu.

— Este mandado foi emitido pelo Juiz Causo. Ele se aposentou há oito meses.

— Então foi recentemente reemitido — respondeu Stefano suavemente. — Agora abra o portão. Ou eu chamo reforços e um aríete.

— Você não vai chamar nada — disse Matteo, dando um passo à frente. Sua voz era seda sobre navalhas. — Você está a quarenta quilômetros fora de sua jurisdição, delegado. O DENARC não tem autoridade aqui em Alphaville, e esse mandado — ele gesticulou com desdém — não vale o papel em que está impresso.

O sorriso de Stefano se alargou.

— Tenho autorização do comando regional, e a menos que você queira que eu adicione obstrução de justiça à sua longa lista de crimes alegados, você vai abrir este portão e apresentar Kiara Mancini.

Kiara sentiu o mundo inclinar. Ela reconheceu a jogada. Stefano não precisava de um mandado legítimo. Ele só precisava entrar, causar o caos e usar a confusão para agarrá-la. Quando alguém resolvesse a questão da jurisdição e da papelada, ela estaria sob sua custódia, e as mãos de Matteo estariam atadas por sua necessidade de permanecer invisível para a polícia.

— Enrole ele — disse Matteo baixinho para Rocco, depois se virou e agarrou o braço de Kiara. — Para dentro, agora.

— Não.

Os olhos de Matteo brilharam perigosamente.

— Isto não é uma negociação.

— Você está certo. Não é. — Kiara puxou o braço. — Se eu me esconder, ele vai destruir este lugar. Ele vai usar isso como uma desculpa para invadir a propriedade, apreender bens, prender seus funcionários. Ele não se importa com a legalidade. Ele se importa com a punição.

— Então eu vou resolver isso.

— Fazendo o quê? Matando um policial? É isso que ele quer, Matteo. Ele quer que você cruze uma linha que o force a se expor. — Ela se aproximou, baixando a voz. — Ele não está aqui por justiça. Ele está aqui por mim. Então me deixe lidar com ele.

— De jeito nenhum.

— Escute-me — insistiu Kiara, a mão em seu peito. — Você me deu santuário. Você me protegeu. Mas não vou deixar você queimar tudo o que construiu por minha causa.

Atrás deles, Stefano estava ficando impaciente.

— Estou contando até dez, Rinaldi. Depois eu entro, de um jeito ou de outro.

A mandíbula de Matteo era granito. Cada instinto que ele tinha, cada impulso territorial violento, gritava para ele eliminar a ameaça. Sua mão se moveu em direção à arma em suas costas.

— Por favor — sussurrou Kiara. — Confie em mim.

Foi o “por favor” que o atingiu. Matteo já ouvira súplicas antes, por misericórdia, por vida, por mortes rápidas. Mas Kiara não estava implorando por si mesma. Estava implorando por ele.

Ele deu um passo para trás, a mão se afastando de sua arma.

— Rocco — disse ele, a voz tensa de raiva suprimida. — Abra o portão.

Os portões de ferro se abriram com um gemido mecânico. Stefano entrou com três policiais uniformizados atrás dele, sua expressão triunfante. Ele varreu o grupo reunido com o olhar até seus olhos pousarem em Kiara. A posse nua em seu olhar fez a pele dela arrepiar.

— Aí está você — disse Stefano suavemente. — Estive te procurando por toda parte, tesoro.

Kiara se forçou a ficar parada, a não recuar para trás da presença protetora de Matteo.

— Eu não vou com você, Stefano.

— Essa não é uma decisão sua. — Ele tirou algemas do cinto. — Kiara Mancini, você está presa por…

Um rosnado baixo e retumbante cortou suas palavras.

Dante emergiu da entrada da mansão, flanqueado por Nero e Virgílio. Todos os três cães se moveram como uma unidade, posicionando-se entre Kiara e Stefano em uma formação defensiva perfeita. Eles não latiam, não avançavam. Simplesmente ficaram ali, duzentos quilos de violência controlada, e encararam o delegado com olhos que prometiam a morte.

Os três policiais uniformizados imediatamente deram um passo para trás, as mãos se movendo para suas armas.

— Mande seus cães recuarem, Rinaldi! — disse Stefano, mas havia um tremor em sua voz agora.

— Eles não são cães dele — disse Kiara em voz baixa. — Não mais.

Ela deu um passo à frente, e os três cães se moveram com ela, mantendo seu triângulo protetor. Stefano ergueu as algemas, e os lábios de Dante se contraíram, mostrando os dentes em um sorriso silencioso.

— Você vai atirar neles? — perguntou Kiara. — Três animais protegidos em propriedade privada na frente de testemunhas. Como você vai explicar isso no seu relatório, delegado?

A mão de Stefano tremeu. Ela podia ver o cálculo acontecendo por trás de seus olhos. A análise de custo-benefício da violência versus vitória.

— Isso não acabou — disse ele finalmente, baixando as algemas. — Seu mandado é válido. Da próxima vez que eu voltar, será com autorização legítima. E quando eu te levar, Mancini, não haverá cães para se esconder atrás.

— Então estarei esperando — disse Matteo suavemente. — E, delegado, da próxima vez que você aparecer no meu portão com papelada fraudulenta, você não sairá.

Não era uma ameaça. Era uma promessa.

Stefano sustentou o olhar de Matteo por três segundos, depois se virou e voltou pelos portões. As viaturas policiais se afastaram em uma nuvem de cascalho.

No momento em que desapareceram, as pernas de Kiara cederam. Matteo a segurou antes que ela atingisse o chão, puxando-a contra seu peito. Os cães imediatamente os cercaram, choramingando, pressionando-se perto.

— Não acabou — sussurrou Kiara.

— Não — concordou Matteo, seus braços se apertando ao redor dela. — Não acabou. Mas agora eu sei com o que estou lidando.

Ele olhou para Rocco por cima da cabeça de Kiara.

— Descubra tudo sobre o delegado Stefano Bianchi — disse Matteo, a voz fria e final. — Onde ele mora, onde ele bebe, quem ele ama. E então descubra como fazê-lo desaparecer.

Stefano voltou seis dias depois. Mas desta vez ele não se preocupou com portões ou mandados ou a pretensão da lei. Ele veio às três da manhã com dois homens que não eram policiais. Executores emprestados da família Vulpi, homens que lhe deviam favores e não faziam perguntas.

Eles cortaram a energia da propriedade primeiro, mergulhando a mansão na escuridão. Em seguida, romperam o muro sul, onde a cobertura das câmeras de Rocco tinha uma falha de trinta segundos em seu padrão de varredura. Alguém lhes dera informações. Alguém de dentro os vendera.

Matteo acordou com a sensação de aço frio pressionado contra sua têmpora e o hálito de uísque de Stefano em seu rosto.

— Mova-se e eu pinto seus lençóis caros com seus miolos — sussurrou Stefano.

Matteo ficou perfeitamente imóvel, sua mente correndo por cálculos. Sua arma estava na mesa de cabeceira, a meio metro de distância. Os homens de Rocco estavam posicionados por toda a mansão, mas no escuro, sem energia, a coordenação seria um caos. O botão de pânico sob seu travesseiro era inútil sem eletricidade.

— Onde ela está? — exigiu Stefano.

— Quem?

O cano da arma bateu na bochecha de Matteo com força suficiente para cortar a pele. O sangue escorreu quente por seu rosto.

— Não brinque comigo. Kiara. Onde ela está?

— Ala de hóspedes, terceiro andar. — A voz de Matteo estava firme, apesar do gosto de cobre do sangue em sua boca. — Mas você não vai chegar lá.

— Sério? — Stefano riu. Um som frágil. — Sua segurança está dispersa. Seus alarmes estão mortos. E eu tenho dois amigos muito motivados comigo que estão sendo muito bem pagos para garantir que eu saia daqui com minha propriedade.

Ele agarrou Matteo pelos cabelos e o arrastou para fora da cama, pressionando a arma em sua espinha.

— Você vai me levar até ela. E vai mandar aqueles cães recuarem. Ou eu atiro em você, depois neles, e a levo de qualquer maneira.

Eles se moveram pela mansão escura, os dois executores de Stefano flanqueando-os com precisão militar. Um deles tinha abraçadeiras e fita adesiva. O outro, uma espingarda. Ambos tinham os olhos mortos de homens que já fizeram coisas piores por menos dinheiro.

— Você cometeu um erro, Rinaldi — disse Stefano enquanto subiam as escadas —, pensando que podia mantê-la. Ela é minha. Sempre foi minha. Eu a fiz. Eu posso desfazê-la.

— Você é um homem morto — respondeu Matteo calmamente.

— Palavras ousadas de alguém com uma arma nas costas.

O rosnado começou baixo, quase subsônico, vibrando pela escuridão como o tremor de alerta de um terremoto. Stefano congelou no patamar. Seis olhos refletiam o luar que entrava pelas altas janelas. Três pares brilhando como brasas nas sombras.

Dante, Nero e Virgílio estavam no topo da escada em formação perfeita, bloqueando o caminho para o terceiro andar. Para Kiara.

— Mande-os recuar! — sibilou Stefano, enfiando a arma com mais força na espinha de Matteo.

— Não posso — disse Matteo. E pela primeira vez naquela noite, ele sorriu. — Eles não me ouvem mais.

— Dante, fermo! — gritou Stefano, o comando que ouvira Matteo usar. — Deita!

Os cães não se moveram. Simplesmente ficaram ali, três sombras esculpidas em violência, esperando.

— Atire neles! — ordenou Stefano a seus executores.

O homem com a espingarda a ergueu, mirando em Dante, o dedo apertando o gatilho.

Attacco! — veio a voz de Kiara da escuridão atrás dos cães. Ataque.

O que aconteceu em seguida foi rápido demais para o olho humano acompanhar. Dante se lançou escada abaixo como um míssil. Cinquenta e cinco quilos de músculo e fúria atingindo o executor com a espingarda no peito. A arma disparou no teto, o gesso caindo enquanto o homem ia para trás, gritando. As mandíbulas de Dante se fecharam em seu antebraço, e o som de ossos quebrando foi audível mesmo sobre o caos.

Nero e Virgílio se dividiram para a esquerda e para a direita em uma manobra de flanqueamento de pura precisão tática. Nero atingiu o segundo executor por baixo, indo para as pernas, rompendo tendões com precisão cirúrgica. Virgílio foi por cima, suas mandíbulas se fechando na mão armada do homem, forçando-o a largar a pistola antes de arrastá-lo para o chão.

Era uma caça em matilha coordenada e praticada em sua forma mais eficiente.

A arma de Stefano se afastou de Matteo, rastreando desesperadamente entre os três pontos de ataque, tentando encontrar um alvo que não atingisse seus próprios homens.

Matteo se moveu.

Ele girou para dentro da guarda de Stefano, agarrou o pulso do delegado e o bateu contra o corrimão. A arma caiu escada abaixo. Stefano tentou dar um soco, mas Matteo foi mais rápido, mais furioso e tinha quatro semanas de ver Kiara sofrer pela obsessão deste homem alimentando cada movimento.

Ele enfiou o punho no plexo solar de Stefano, dobrando-o, depois ergueu o joelho no rosto do delegado. O sangue explodiu do nariz de Stefano. Ele tropeçou para trás, bateu na parede, deslizou para o chão.

Os dois executores não estavam mais gritando. Os cães os haviam imobilizado. Não matando, mas segurando. Suas mandíbulas travadas em membros e gargantas com pressão suficiente para impedir o movimento sem rasgar a carne.

Kiara apareceu no topo da escada, silhueta recortada pelo luar, vestindo uma das camisas de Matteo e nada mais. Em sua mão estava o rádio de backup da propriedade.

Fermo — disse ela em voz baixa. Para.

Todos os três cães imediatamente soltaram seus alvos e voltaram para o seu lado, sentando-se em formação perfeita, nem mesmo ofegantes. Sangue manchava seus focinhos, mas seus olhos estavam claros, focados, esperando por seu próximo comando.

Stefano olhou para eles do chão, o rosto uma máscara de sangue e terror.

— Você… você é louca. Isso é agressão. Isso é…

— Isso é legítima defesa — corrigiu Matteo, pegando a arma caída de Stefano. — Você invadiu minha casa, ameaçou minha vida. Meus cães me protegeram. — Ele sorriu. Frio e final. — Trágico, na verdade. Vocês três morrendo em uma invasão domiciliar que deu errado.

Os olhos de Stefano se arregalaram.

— Você não pode. Haverá uma investigação.

— Não haverá investigação — disse uma nova voz do andar de baixo.

Rocco emergiu da escuridão com seis de seus homens, todos armados, todos parecendo extremamente descontentes por terem sido superados. Ele examinou a cena — os executores quebrados, o delegado sangrando, os cães de guarda — e balançou a cabeça.

— Alguém cortou nosso perímetro sul. Já identificamos o guarda que aceitou o suborno. Ele não será mais um problema. — O tom de Rocco deixou claro o que “não será mais um problema” significava. — Quanto a esta bagunça… — ele olhou para Matteo, aguardando ordens.

Matteo olhou para Kiara, no topo da escada como um anjo vingador flanqueado por cães do inferno.

— O que você quer? — ele perguntou a ela simplesmente.

Kiara desceu as escadas lentamente, os três cães movendo-se com ela em sincronia perfeita. Ela parou na frente de Stefano, olhando para o homem que a aterrorizou, a controlou, tentou possuí-la.

— Quero que ele saiba como é — disse ela suavemente. — Ser impotente.

Ela se agachou ao nível de Stefano. Dante se moveu com ela, posicionando sua cabeça maciça a centímetros do rosto do delegado.

Ringhia — ela sussurrou para o cão. Rosna.

O rosnado de Dante foi o som de pesadelos. Profundo, retumbante, prometendo a morte. Stefano choramingou. Literalmente choramingou, pressionando-se contra a parede como se pudesse atravessá-la.

— Por favor — implorou Stefano. — Por favor, Kiara, não…

— Agora você implora — disse ela. — Agora você diz por favor.

Ela se levantou, olhando para Matteo.

— Faça-o desaparecer — disse ela. — Não me importo como. Apenas certifique-se de que ele nunca mais volte.

Matteo assentiu uma vez. Estava feito.

O corpo do delegado Stefano Bianchi foi encontrado três dias depois em um carro queimado nos arredores de Caserta, a 200 km de São Paulo. O relatório oficial dizia que ele estava investigando uma pista sobre uma rede de tráfico de drogas quando seu veículo foi emboscado. A balística correspondia às balas de uma arma registrada em nome da família Vulpi, um dos executores que invadira a propriedade Rinaldi e subsequentemente desaparecera. A narrativa se escreveu sozinha: policial sujo, negócios sujos, fim sujo e inevitável.

A Corregedoria lançou uma investigação superficial que concluiu em uma semana. Encontraram as contas no exterior, os subornos, o rastro de corrupção que Stefano fora arrogante demais para esconder adequadamente. Seu legado foi enterrado junto com seu corpo, e o caso foi encerrado com o tipo de finalidade eficiente que só acontece quando pessoas poderosas querem que algo seja esquecido.

Kiara assistiu à cobertura da notícia da biblioteca da mansão, a cabeça de Dante repousando em seu colo, e não sentiu nada além de um alívio frio e distante. Não satisfação, não culpa, apenas o suspiro silencioso de um animal caçado finalmente autorizado a descansar.

— Acabou — disse Matteo da porta.

Ela olhou para ele. Este homem que matara por ela, que desmantelara a existência inteira de um policial corrupto com a mesma eficiência casual com que cancelaria uma reserva de jantar. Ele segurava duas taças de vinho e usava uma expressão que ela aprendera a reconhecer como preocupação disfarçada de neutralidade.

— Acabou? — ela perguntou.

— O mandado foi anulado. A investigação está encerrada. O parceiro de Bianchi foi transferido para um posto de trânsito em Sorocaba. — Matteo atravessou a sala e entregou-lhe uma taça. — Você está livre, Kiara. A mulher que não existia pode continuar morta. Ou você pode reivindicar seu nome. A escolha é sua.

— Livre — ela repetiu, testando a palavra. Parecia estranha em sua língua depois de tanto tempo.

— Seus quatro meses terminam em duas semanas — continuou Matteo, a voz cuidadosamente neutra. — Eu cumpro minhas promessas. Você pode ir embora quando quiser.

Kiara olhou para Dante, cujo rabo batia um ritmo lento e esperançoso contra o tapete persa. Ela pensou no pátio de treinamento, nas caminhadas pelo jardim, na tempestade no canil quando Matteo a beijara como se ela fosse algo precioso em vez de danificado. Pensou em acordar em um lugar onde ninguém a estava caçando, onde os únicos olhos que a observavam eram caninos e adoradores.

— E se eu não quiser ir embora? — ela perguntou em voz baixa.

A neutralidade cuidadosamente mantida de Matteo se quebrou. Ele pousou sua taça de vinho e se ajoelhou na frente da cadeira dela, as mãos cobrindo as dela.

— Então fique — disse ele simplesmente. — Não como funcionária, não como alguém se escondendo. Fique como…

— …como o quê?

— Como minha — ele terminou. — Como deles — ele gesticulou para Dante. — Como a mulher que domou os monstros e os transformou em algo melhor.

Kiara sorriu. Um sorriso real, o primeiro em meses que não carregava o peso do medo.

— Eu não te domei, Matteo.

— Não? — Seu polegar traçou círculos na palma da mão dela. — Seis meses atrás, eu teria matado Bianchi eu mesmo. Lentamente, publicamente, para dar o exemplo. Mas você me pediu para confiar em você, e eu confiei. Você mudou tudo, tesoro. Os cães, a propriedade. Eu.

Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma pequena caixa de veludo. Dentro havia um anel. Não ostentoso, não uma reivindicação de propriedade, apenas uma simples aliança de ouro branco com três pequenos diamantes enfileirados.

— Um para cada um deles — explicou Matteo. — E todos eles para você.

Kiara pegou o anel, ergueu-o à luz, observou-o pegar fogo sob o sol do final da tarde que entrava pelas janelas.

— Não estou te pedindo em casamento — esclareceu Matteo rapidamente. — Ainda não. Estou te pedindo para ficar, para construir algo comigo, para…

Ela o beijou, cortando sua divagação atípica. Quando se afastou, ela deslizou o anel em seu próprio dedo.

— Sim — disse ela simplesmente.

O rabo de Dante bateu com mais força, e de algum lugar na mansão, Nero e Virgílio começaram a latir no que só poderia ser descrito como celebração.

Duas semanas depois, Kiara caminhava pelos jardins da propriedade sob a luz dourada do início da noite. Todos os três cães se moviam ao seu redor em uma formação protetora frouxa. Eles tinham acabado de terminar uma sessão de treinamento avançado: chamada à distância, posicionamento defensivo de múltiplos alvos, o tipo de obediência de alto nível que exigia confiança absoluta entre o manipulador e o animal. Eles eram perfeitos. Não porque foram quebrados pela submissão, mas porque lhes fora dado algo que valia a pena proteger.

Matteo seguia dez passos atrás, as mãos nos bolsos, observando a mulher que de alguma forma se infiltrara em sua fortaleza e a conquistara por dentro. Rocco caminhava ao seu lado, balançando a cabeça em descrença divertida.

— Ela os tem mais bem treinados do que qualquer unidade militar que eu já vi — observou Rocco. — E, de alguma forma, chefe, ela tem você tão bem treinado quanto.

Matteo não negou.

— Existem destinos piores.

— Os homens a estão chamando de La Regina — continuou Rocco. — A Rainha. Eles a respeitam. Temem-na um pouco, honestamente. A notícia está se espalhando entre as famílias de que a mulher de Matteo Rinaldi pode controlar seus Cérberos com um sussurro.

— Bom — disse Matteo. — Deixe que falem. Deixe que saibam que qualquer um que a ameace responderá a mais do que apenas a mim.

À frente, Kiara se virou, o cabelo pegando a luz, e chamou por ele:

— Você vem ou vai ficar à espreita aí a noite toda?

— Estou apreciando a vista — respondeu Matteo.

Ela revirou os olhos, mas sorriu, e os três cães se sentaram em uníssono perfeito, esperando que ele os alcançasse. Quando ele a alcançou, ela pegou sua mão, entrelaçando seus dedos nos dele.

— Sabe o que é engraçado? — disse ela enquanto continuavam a caminhar juntos, os cães liderando o caminho pelo jardim.

— O quê?

— Seis meses atrás, eu estava fugindo de um monstro e acidentalmente encontrei mais três. E, de alguma forma, todos eles acabaram sendo exatamente o que eu precisava.

— Três? — Matteo ergueu uma sobrancelha.

Kiara olhou para ele, a expressão brincalhona. Dante, Nero e Virgílio.

— E eu?

— Você — disse ela, apertando sua mão — é o guardião de monstros que precisava de alguém para guardá-lo também.

Matteo a puxou para perto, beijando o topo de sua cabeça enquanto caminhavam. Atrás deles, o sol se punha sobre a cidade de São Paulo, pintando o céu em tons de âmbar e rosa. A mansão se erguia como uma fortaleza às suas costas, impenetrável, segura.

Dentro daquelas paredes, uma garçonete se tornara uma rainha. Três assassinos se tornaram protetores, e um homem que governara pelo medo aprendera que as correntes mais fortes eram aquelas forjadas na confiança. Os Cérberos de São Paulo haviam encontrado sua senhora, e o Fantasma da cidade finalmente encontrara seu lar.

No jardim, Dante olhou para os dois humanos caminhando juntos, depois para seus irmãos flanqueando-os. Seu rabo abanou uma vez, satisfeito. A matilha estava completa. O território estava seguro. E, pela primeira vez em sua vida violenta, a fera estava em paz.