97 motociclistas invadiram hospital para proteger uma garota de seu padrasto; o que eles fizeram chocou a todos.
Às 2h47 da madrugada, Tomás “Falcão” Dantas atendeu a um telefonema que quebraria dezesseis anos de silêncio. Uma menina que ele jurou proteger estava morrendo em uma cama de hospital, com costelas quebradas, o pulso fraturado e um padrasto com um distintivo que alegava ter sido tudo um acidente. Ao amanhecer, 97 motocicletas trovejariam pelo asfalto em direção a uma única promessa.
Mas o que eles encontraram naquele hospital deflagraria uma guerra entre justiça e poder que ninguém previu. Uma guerra que colocaria um clube de veteranos contra a força da lei, não para infringi-la, mas para cumpri-la quando o próprio sistema falhou.
O telefone tocou às 2h47 da manhã. Falcão o pegou no terceiro toque, a voz rouca de sono.
— Dantas.
— Senhor Dantas, aqui é Renata Chaves, do Conselho Tutelar de Minas Gerais. Estou ligando sobre Lilian Moraes.
Sua mão parou a meio caminho do abajur. O nome o atingiu como um soco no estômago, um fantasma de um passado que ele se forçava a esquecer todos os dias.
— O que aconteceu?
— Ela está no Hospital das Clínicas, em Belo Horizonte. Deu entrada há quatro horas. Três costelas quebradas, pulso fraturado, contusões por todas as costas. O padrasto dela diz que foi um acidente.
Falcão sentou-se na cama, o coração martelando contra as costelas. O ar em seu pequeno apartamento acima da oficina mecânica pareceu subitamente rarefeito.
— Foi um acidente? — ele perguntou, a voz já perdendo a sonolência e ganhando um tom gélido.
Silêncio do outro lado da linha. Um silêncio que dizia tudo.
— Doutora Chaves, foi um acidente?
— Os médicos não acham que foi — a voz dela era baixa, cuidadosa. — Mas o padrasto dela é um policial condecorado. A menos que encontremos base para uma remoção de emergência, ela volta para casa com ele em 24 horas.
Falcão já estava de pé, puxando a calça jeans do chão.
— Qual a distância? Vocês estão em BH. Eu estou em São Paulo.
— São quase 600 quilômetros.
— Estarei aí em oito horas. Não a deixe sair.
— Senhor Dantas, preciso explicar os procedimentos…

Ele desligou. Ficou parado no escuro, respirando com força, o suor frio escorrendo por suas costas. Na parede, pendurada ao lado de um calendário de fornecedor de peças, a foto de Jairo Moraes o encarava. Uniforme de combate do Exército, 24 anos, três meses antes de uma bomba na estrada o transformar em uma memória e uma medalha póstuma. As últimas palavras de Jairo, sussurradas enquanto o sangue encharcava a areia de uma terra esquecida por Deus.
“Promete, Falcão. Promete que vai cuidar da Sara e da bebê.”
“Eu prometo, irmão.”
Dezesseis anos. Dezesseis anos dizendo a si mesmo que a menina estava bem. Que o novo marido de Sara, Daniel, um policial aparentemente exemplar, tinha tudo sob controle. Que Falcão não era mais necessário. Que sua presença, um lembrete constante de um passado violento, só atrapalharia.
— Me desculpe, Jairo. Eu estou indo agora.
Ele discou o número de Diesel. Quatro toques.
— Quem quer que seja, se prepara pra ouvir um sermão…
— É o Falcão. Preciso do clube. Todos. Partimos ao amanhecer.
Houve uma pausa. O tom sonolento e irritado de Diesel desapareceu, substituído por uma alerta instantânea.
— Falcão, são três da manhã. O que foi?
— A filha do Jairo Moraes. Lilian. Catorze anos, no hospital. O padrasto é um policial e foi ele quem a colocou lá. Eles vão mandá-la de volta para ele amanhã, a menos que a gente impeça.
Outra pausa, mais longa. Falcão podia imaginar Diesel processando a informação, o peso dela.
— Onde?
— Belo Horizonte.
— Isso é a mais de 600 quilômetros.
— Eu sei.
— Quantos você quer?
— Todos que conseguirem subir numa moto. Me dê duas horas. Eu consigo a turma.
Falcão ligou para Marcos em seguida. Ex-Lobo de Aço, agora um advogado de defesa em Campinas, um dos melhores.
— Você tem alguma ideia de que horas são? — Marcos atendeu, a voz arrastada.
— Preciso de papéis de guarda de emergência protocolados esta noite. Menina sendo abusada por um policial.
O sono sumiu da voz de Marcos.
— Detalhes.
Falcão resumiu a situação em noventa segundos.
— Vou protocolar eletronicamente em uma hora. Mas, Falcão, se ele for influente, isso não vai ser fácil. Policiais protegem os seus.
— Não preciso que seja fácil. Preciso que ela esteja segura. Estou indo para BH. Me encontre lá.
— Valeu, irmão.
Em seguida, Mestre. 73 anos, o homem mais durão que Falcão já conheceu. O fundador dos Lobos de Aço.
— É melhor alguém estar morrendo.
— A filha de Jairo Moraes. Vamos buscá-la ao amanhecer. Preciso de você.
— Estou dentro. Quem mais?
— Todos que o Diesel conseguir reunir.
— Então se apronte, garoto. Te vejo em duas horas.
Falcão fez mais seis ligações. Cada uma delas foi respondida da mesma maneira: “Estou dentro.” Professores, mecânicos, uma enfermeira, pedreiros, um bombeiro aposentado. Era isso que os Lobos de Aço eram. Não foras da lei, apenas pessoas que entendiam que algumas promessas não podem ser quebradas.
Às 4h30, Falcão estava equipado. Colete de couro, o emblema dos Lobos de Aço costurado nas costas, botas gastas por dezenas de milhares de quilômetros. Ele entrou na garagem. Sua Harley Road King esperava nas sombras, um monstro de cromo preto construído a partir de sucata e teimosia depois que ele voltou do Exército. Ele a ligou. O motor rugiu, um som gutural que sacudiu as paredes da pequena garagem.
— Mais uma promessa, minha velha.
Às 5h da manhã, o estacionamento de um grande posto de gasolina na Rodovia Fernão Dias estava meio cheio de motocicletas. Diesel o viu primeiro. Um gigante de 1,95m, barbudo até o peito. Ele ergueu um punho.
— O presidente chegou!
Falcão desligou o motor, contou as motos. Cinquenta, sessenta, setenta. Mestre chegou em seu triciclo, o motor fazendo um som mais grave e constante.
— Te disse que você teria seu exército.
Rosa se aproximou, a única mulher piloto do clube, enfermeira de trauma no Hospital das Clínicas de São Paulo.
— Diesel nos contou. A filha do Jairo, certo?
— Sim.
— Então nós vamos.
Big Tommy, um professor de literatura do ensino médio, gritou de sua moto:
— Falcão, qual é o plano?
— Quando chegarmos lá, nós aparecemos. Nós testemunhamos. Garantimos que o hospital saiba que ela não está sozinha.
— E se a polícia tentar nos remover? — perguntou Juca, um dos membros mais novos, a preocupação vincando sua testa.
— Permanecemos pacíficos, mas não saímos.
Snake, o piloto mais quieto do clube, um homem que parecia se comunicar mais com os olhos do que com a boca, falou:
— E se eles a levarem mesmo assim?
— Então o mundo inteiro vai assistir eles fazerem isso.
Mais motos chegaram. O ronco ecoava pela rodovia vazia. Diesel se aproximou.
— 97 pilotos, irmão. Todos que puderam vir.
A garganta de Falcão apertou. 97.
— Três veículos de apoio também. A caminhonete do Rico, a van da Jenny e o trailer do Carlos.
Mestre mancou até ele, o quadril de titânio protestando contra o frio da manhã.
— Eu conheci o Jairo. Bom homem. Bom soldado. Ele faria isso por qualquer um de nossos filhos.
Falcão virou-se para encará-los todos, a luz fraca dos postes do estacionamento iluminando os rostos determinados.
— A maioria de vocês nunca conheceu Jairo Moraes. Ele morreu em 2009, salvando seis homens, incluindo eu. Antes de morrer, ele me fez prometer que cuidaria de sua filha. — Ele fez uma pausa, o peso da confissão era palpável. — Eu falhei. Deixei um desgraçado com um distintivo me convencer de que ele tinha tudo sob controle. Agora ela está quebrada porque eu não mantive minha palavra.
Silêncio. Um silêncio pesado, carregado de respeito e compreensão.
— Nós vamos rodar 600 quilômetros até Belo Horizonte. Não vamos chegar com violência. Vamos apenas testemunhar. Quando chegarmos, aquela garota precisa ver que alguém apareceu, que ela não está sozinha, que alguém se importa.
Rosa deu um passo à frente.
— E se a segurança nos parar?
— Então obedecemos, mas não saímos do estacionamento.
— E se o tal Moraes estiver lá com reforços?
— Então seremos 97 contra ele.
Um piloto no fundo, Jimbo, um mestre de obras, gritou:
— Falcão, e se isso se voltar contra nós? A polícia vê 97 motoqueiros chegando e vai pensar que é uma gangue.
— Deixe que pensem. Nós sabemos quem somos.
Mas Mestre balançou a cabeça.
— Jimbo tem razão. Precisamos ser inteligentes.
Uma tensão percorreu o grupo. Diesel cruzou os braços.
— Mestre, você está dizendo que não deveríamos ir?
— Estou dizendo que devemos ir com inteligência. Sem coletes dentro do hospital. Sem vozes altas. Vamos nos parecer com cidadãos preocupados, não com uma turba.
Falcão assentiu.
— Mestre está certo. Quando chegarmos, estacionamos de forma organizada. Duas filas retas. Motores desligados. Entramos com calma, mãos visíveis, respeitosos. Mas não pedimos desculpas por estarmos lá.
Rosa levantou a mão.
— E quanto a filmar? Se o Moraes tentar algo, precisamos de provas.
— Alguém documenta, mas discretamente. Sem celulares nos rostos. Não estamos lá para provocar.
Big Tommy deu um passo à frente.
— Mais uma coisa, Falcão. Qual o nome dela?
— Lilian Moraes. Catorze anos. Cabelos castanhos, olhos azuis.
Tommy assentiu.
— Então vamos buscar a Lilian.
Mestre ergueu sua garrafa de café.
— A promessas mantidas.
97 vozes responderam em uníssono.
— A promessas mantidas.
Eles montaram. Falcão ligou sua Harley. Rolou para a frente. Olhou para trás, para sua família.
— Lobos de Aço, vamos rodar pela Lilian!
O comboio entrou na rodovia. 97 motores, uma missão.
Eles rodaram com afinco. Duas colunas. Formação intercalada. Profissional.
Hora um. O celular de Falcão vibrou. Era Marcos.
“Petição de emergência protocolada. Audiência amanhã, 9h. Juíza Sandra Carrion. Ela é justa, mas dura. O Moraes já contratou um advogado. O representante do sindicato da polícia está fazendo ligações. Isso é uma guerra.”
Falcão mostrou para Diesel.
— Vai ser uma briga.
— Ótimo. Nós trouxemos um exército.
Hora dois. Parada para abastecer em Pouso Alegre. Rosa distribuiu água e barras de cereal.
— Mantenham-se hidratados. Vai ser um longo dia.
Falcão ficou de lado, checou o celular. Nenhuma nova mensagem de Renata Chaves. Diesel se aproximou.
— Você está bem?
— Não. O que acontece se chegarmos lá e eles já a tiverem liberado?
A mandíbula de Falcão se contraiu.
— Então vamos para a casa do Moraes.
— Essa é uma linha que não podemos cruzar, Falcão.
— Eu sei. Mas não vou deixá-la lá.
Mestre se juntou a eles.
— Você tem um plano B? Porque policiais não gostam de ser envergonhados, especialmente os corruptos.
— Marcos é nosso plano B. Pressão legal, pressão pública.
— E se isso não funcionar? — Mestre insistiu.
Falcão olhou para ele, os olhos sombrios.
— Então rezamos para que funcione. Porque a alternativa é algo que jurei nunca mais fazer.
Eles montaram novamente, voltaram para a rodovia.
Hora quatro. Divisa de estado, Minas Gerais. O celular de Falcão tocou. Renata Chaves.
— Senhor Dantas, onde você está?
— A duas horas de distância. Ela ainda está aí?
— Sim, mas o Moraes está aqui com dois advogados. Estão pressionando muito por uma alta imediata. Os médicos estão enrolando, mas…
— Estamos chegando. Mantenha-a aí.
— Senhor Dantas, quantas pessoas você está trazendo?
— O suficiente.
— Isso não é uma resposta.
— 97.
Silêncio mortal do outro lado.
— Doutora Chaves?
— Senhor Dantas, se você trouxer uma gangue de motoqueiros para este hospital…
— Não é uma gangue. É uma família. Estaremos aí em duas horas. Não deixe que a levem.
Ele desligou.
Hora seis. Periferia de Belo Horizonte. O sol estava começando a cair, uma luz dourada cortando a rodovia. Falcão parou em um posto de descanso. O comboio o seguiu. 97 motos. Silêncio. Todos desmontaram.
— Última verificação — disse Falcão. — Quando entrarmos, faremos isso com calma. Estacionamos ordenadamente. Duas filas. Sem acelerar. Sem gritar. Entramos como se pertencêssemos ao lugar. Porque nós pertencemos.
Snake levantou a mão.
— E se o Moraes estiver esperando com a polícia?
— Então permanecemos educados, mas não nos movemos.
Jimbo falou novamente, a voz tensa.
— Falcão, preciso ser sincero. Tenho dois filhos em casa. Se isso der errado, se formos presos…
— Então saia agora. Sem julgamentos. Esta é a minha promessa, não a sua.
Jimbo olhou ao redor para os outros pilotos, para Mestre, para Diesel. Ele respirou fundo.
— Não, estou dentro. Só queria dizer em voz alta.
Mestre deu um tapa em seu ombro.
— Estamos todos pensando nisso, Jimbo. Mas às vezes você tem que se levantar, mesmo quando está com medo.
Rosa checou o celular.
— Estou recebendo mensagens. Alguém vazou isso nas redes sociais. As pessoas sabem que estamos chegando.
Os olhos de Falcão se estreitaram.
— Quem vazou?
— Não sei, mas já tem uma hashtag. #PromessaMantida.
Diesel sorriu.
— Bom. Deixe o mundo assistir.
Falcão respirou fundo.
— Certo. Vamos lá.
Eles montaram uma última vez. Os motores rugiram. O comboio rolou em direção ao Hospital das Clínicas.
Eles desceram a Avenida Alfredo Balena como um trovão. O ronco chegou ao hospital primeiro. As janelas tremeram. As pessoas pararam. Falcão liderou a formação para o estacionamento, guiando seus pilotos em duas filas perfeitas. 97 motos, 97 pilotos. Motores cortados. Silêncio.
Eles desmontaram, ficaram ao lado de suas máquinas. Falcão caminhou em direção à entrada. Diesel, Mestre e Rosa logo atrás dele. As portas automáticas se abriram. O saguão ficou em silêncio absoluto. Enfermeiras congelaram. Visitantes olharam boquiabertos. Dois seguranças levaram as mãos aos rádios.
Renata Chaves apareceu de um corredor, viu Falcão, viu o mar de couro através das portas de vidro.
— Meu Deus…
Falcão se aproximou dela.
— Renata Chaves, sou Tomás Dantas. Onde está a Lilian?
As mãos de Renata tremiam.
— Terceiro andar, quarto 314. Mas o padrasto dela…
— Eu sei. Preciso de cinco minutos com ela. Só cinco.
— Você não é da família. Eu não posso…
— O pai daquela garota morreu nos meus braços. Cinco minutos. Deixe-a saber que não está sozinha.
Renata olhou para ele, para as linhas em seu rosto, para a dor em seus olhos. Ela olhou para além dele. 97 pilotos, silenciosos, esperando.
— Cinco minutos. Se a segurança vier…
— Eles não precisarão vir.
Ela assentiu.
— Siga-me.
Eles caminharam até o elevador, as portas se fecharam.
— Por que 97 pessoas? — Renata perguntou, a voz um sussurro.
— Porque ela precisa saber que alguém se importa. Não apenas eu. Uma família.
Terceiro andar, quarto 314. Renata parou do lado de fora.
— O Moraes está na sala de espera com os advogados. Ele ainda não sabe que você está aqui.
— Bom.
Falcão abriu a porta. O quarto estava escuro. Equipamentos médicos apitavam. Na cama, pequena e quebrada, estava Lilian. Ela se parecia exatamente com Jairo.
Seus olhos se abriram. Confusos. Então…
— Tio Falcão?
Ele atravessou o quarto, ajoelhou-se, pegou a mão dela.
— Ei, garota. Eu estou aqui. Desculpe por ter demorado tanto.
Lágrimas escorreram pelo rosto dela.
— Ele disse que ninguém viria. Ele disse que eu estava mentindo.
— Eu acredito em você. E eu trouxe algumas pessoas que também acreditam.
— Que pessoas?
— Olhe lá fora.
Renata a ajudou a se sentar. Lilian virou-se para a janela. Do terceiro andar, ela podia ver o estacionamento. 97 motocicletas, 97 pilotos. Sua respiração falhou.
— Quem são eles?
— A família do seu pai. A minha família. Eles rodaram 600 quilômetros para ficar com você.
Ela soluçou. Falcão segurou sua mão.
— Lili, preciso que me diga a verdade. Foi o Daniel Moraes que fez isso?
Ela assentiu.
— Ele já fez isso antes?
Outro aceno.
— Sua mãe… o que aconteceu com ela?
A voz de Lilian ficou fria. Monótona.
— Ele a matou.
O quarto congelou. Renata ofegou. Falcão se inclinou para mais perto.
— Você tem certeza?
— Eu vi. Eles estavam brigando, por causa de dinheiro, por causa de ir embora. Ele a empurrou da escada. Depois a colocou no carro e bateu na árvore, disse a todos que ela estava bêbada, mas não estava. Ela estava tentando me salvar.
A raiva inundou as veias de Falcão, fria, focada. Mas sua voz permaneceu calma.
— Ok. Você nunca mais vai voltar para lá. Você me ouve? Nunca.
— Mas ele é um policial.
— E há 97 testemunhas lá fora. Um advogado protocolando papéis agora mesmo. Todos estão prestes a conhecer sua história. Prometo.
Falcão apertou a mão dela.
— Pelo túmulo do seu pai.
A porta se abriu com um estrondo. Um homem de uniforme estava lá. Dois ternos o flanqueavam. Oficial Daniel Bastos, alto, bem-apessoado, olhos frios.
— Quem diabos é você?
Falcão se levantou, colocando-se entre Bastos e a cama.
— O homem que fez uma promessa ao pai dela.
O rosto de Bastos se contorceu.
— O amiguinho motoqueiro do Jairo. Você precisa sair agora.
— Não.
Um dos advogados deu um passo à frente.
— Senhor, você não tem base legal. Saia ou mandaremos removê-lo.
Falcão sorriu. Sem calor.
— Verifique a janela primeiro.
Bastos caminhou até o vidro, viu o estacionamento. Seu rosto ficou branco.
— Que porra é essa?
— Isso é família. Algo que você não conheceria.
A mão de Bastos se moveu em direção ao cinto, em direção à arma.
— Não faça isso — disse Falcão. — Se você sacar essa arma na frente dela, com 97 testemunhas assistindo, sua carreira acabou.
A mão de Bastos congelou. Renata deu um passo à frente.
— Oficial Bastos, eu registrei um relatório no Conselho Tutelar. Uma audiência de custódia de emergência está marcada para amanhã de manhã.
— Com a autoridade de quem?
— Minha.
Marcos entrou. Terno, maleta.
— Marcos Wellington, advogado de Tomás Dantas. Petição de emergência protocolada. A juíza Carrion julgará às 9h.
O rosto de Bastos ficou roxo.
— Isso é palhaçada! Ela é minha filha…
— Enteada — corrigiu Marcos. — E as evidências dizem o contrário.
Bastos apontou para Falcão.
— Você trouxe uma gangue para intimidar.
— Eu trouxe testemunhas. 97 pessoas dizendo que Lilian Moraes merece algo melhor do que você.
Bastos avançou. Diesel apareceu na porta, interpôs-se entre eles.
— Isso seria um erro, oficial.
O advogado de Bastos o agarrou pelo braço.
— Daniel, vamos embora. Resolveremos isso no tribunal.
Bastos apontou um dedo para Falcão.
— Isso não acabou.
A voz de Falcão era gelo.
— Você está certo. Está apenas começando.
Bastos saiu furioso. Os advogados o seguiram. A porta se fechou. Lilian estava chorando, mas de um jeito diferente agora. Alívio.
Falcão se ajoelhou novamente.
— Você está segura agora.
— Estou com medo.
— Eu sei. Mas você não está mais sozinha.
Lá fora, o sol estava se pondo. 97 pilotos permaneciam no estacionamento, silenciosos, esperando, guardando uma garota que nunca haviam conhecido. Porque promessas importam. Porque família não é sangue. É lealdade. E Tomás “Falcão” Dantas não quebraria outra promessa. Nunca mais.
Os passos de Bastos ecoaram pelo corredor, desaparecendo, mas a ameaça pairava no ar como fumaça. Falcão permaneceu ao lado da cama de Lili, ainda segurando sua mão.
— O que acontece agora? — ela sussurrou.
— Agora, garantimos que você fique protegida 24 horas por dia, 7 dias por semana, até a audiência de amanhã.
Renata se aproximou.
— Senhor Dantas, a política do hospital não permite…
— Então ficamos lá fora, no estacionamento, a noite toda se for preciso.
Marcos colocou sua maleta na cadeira de visitante.
— Falcão está certo. Bastos sabe que está perdendo o controle. Isso o torna perigoso. Precisamos de olhos neste quarto até que a juíza decida.
Renata parecia dividida.
— Posso solicitar uma equipe de segurança, mas…
— Mas Bastos é um policial — completou Marcos. — Ele tem amigos na corporação. Não podemos confiar nisso.
Falcão se levantou.
— Quanto tempo até eles darem alta para ela?
Renata verificou seu tablet.
— O Dr. Warren quer mantê-la durante a noite para observação. As costelas precisam de monitoramento. Mas se Bastos pressionar com seus advogados, eles podem anular a recomendação médica.
— Então vamos tornar impossível para ele pressionar.
Diesel apareceu na porta.
— Falcão, temos uma situação lá embaixo.
Falcão apertou a mão de Lili.
— Eu já volto, garota. A Rosa vai ficar com você. Ela é enfermeira. Você está segura.
Rosa moveu-se para o lado da cama imediatamente. Puxou uma cadeira.
— Oi, querida. Sou a Rosa. Vamos checar esses curativos, ok?
Lili assentiu, ainda com medo, mas menos sozinha. Falcão seguiu Diesel pelo corredor. Mestre também estava lá, e três seguranças do hospital. A placa de identificação do chefe da segurança dizia “Torres”. Ele ergueu a mão.
— Senhor, preciso que você e seu pessoal liberem o estacionamento. Tivemos reclamações.
— Reclamações de quem?
— Isso não é relevante. Vocês estão criando um tumulto.
Falcão manteve a voz calma.
— Estamos estacionados legalmente. Motores desligados. Sem barulho. Que tumulto?
Torres mudou o peso de um pé para o outro.
— Olha, não quero problemas. Mas se vocês não saírem, terei que chamar a polícia.
— Chame-os.
Torres piscou.
— Com licença?
— Chame a polícia. Não estamos infringindo nenhuma lei. Estamos aqui para garantir que aquela garota fique segura.
Um dos outros guardas, mais jovem, nervoso, falou:
— Segura de quê?
— Do policial que a colocou aqui.
A expressão de Torres mudou.
— Você está falando do Oficial Bastos.
— Estou falando de um homem que bate em crianças.
O guarda jovem olhou para Torres.
— Chefe, se isso for verdade…
— Não sabemos o que é verdade — disse Torres rapidamente, mas a dúvida cintilou em seus olhos. — Olha, estou apenas fazendo meu trabalho. O administrador do hospital quer vocês fora daqui.
Mestre deu um passo à frente.
— Filho, nós rodamos 600 quilômetros para ficar com aquela garota. Não vamos sair. Se você nos quer fora, terá que prender 97 pessoas. E eu te garanto, todas as câmeras lá fora vão registrar isso.
Torres olhou para além deles. Através da janela, o estacionamento era visível. 97 pilotos, alguns sentados em suas motos, outros em pequenos grupos, todos esperando. Seu rádio crepitou.
— Torres, qual o status?
Ele apertou o botão.
— Ainda avaliando.
— Senhor, eu os quero fora em 10 minutos.
Torres soltou o botão, olhou para Falcão.
— Não posso deixá-los ficar dentro do prédio. Mas o estacionamento é propriedade pública. Se ficarem em paz, não vou insistir.
Falcão assentiu.
— Ficaremos em paz.
— E se o Bastos voltar?
— Então ficaremos entre ele e aquele quarto.
Torres o estudou por um longo momento, depois assentiu.
— Certo. Mas se algo escalar…
— Não vai. Você tem minha palavra.
Os guardas saíram. Diesel exalou.
— Essa foi por pouco.
— Vai ficar ainda mais perto — disse Mestre. — Bastos não terminou. Caras como ele não recuam.
O celular de Falcão vibrou. Uma mensagem de um número desconhecido. “Você cometeu um grande erro. Aquela garota é minha. Recue ou isso vai ficar feio.”
Ele mostrou para Diesel.
— Isso é do Bastos.
— Tem que ser.
Mestre leu por cima do ombro de Diesel.
— Ele está te ameaçando.
— Deixe que ameace.
— Falcão, isso pode dar muito errado, muito rápido.
— Já está errado. Agora vamos consertar.
Marcos se juntou a eles, vindo do quarto.
— Acabei de falar com o escrivão da Juíza Carrion. A audiência está confirmada para as 9h. Mas o advogado de Bastos entrou com uma contra-petição. Eles estão alegando que você é uma influência perigosa, filiação a gangue, tentando pintar os Lobos de Aço como criminosos.
— Não somos criminosos.
— Eu sei, mas a aparência importa. Precisamos de testemunhas de caráter, pessoas que possam testemunhar sobre sua relação com Jairo e Lilian.
Falcão pensou rápido.
— Os pais da Sara. A mãe e o pai do Jairo. Eles me conheciam. Confiavam em mim com a Lili.
— Onde eles estão?
— Em Poços de Caldas. Não falo com eles desde que a Sara morreu.
— Ligue para eles esta noite. Precisamos deles naquela audiência.
Falcão assentiu, pegou o celular, percorreu contatos antigos. Encontrou “Carolina Moraes”. Seu dedo pairou sobre o botão de chamada. E se eles o culpassem? E se eles achassem que ele deveria ter protegido a Sara também?
— Falcão — disse Marcos gentilmente. — Faça a ligação.
Ele apertou o botão. Tocou quatro vezes. Então, “Alô?”. A voz de Carolina, mais velha, cansada.
— Carolina, é o Tomás Dantas. O Falcão.
Silêncio. Longo o suficiente para ele pensar que ela tinha desligado.
— Falcão. Meu Deus. Faz tantos anos.
— Eu sei. Me desculpe. Eu deveria ter ligado antes. Onde você está?
— Em Belo Horizonte. No Hospital das Clínicas. Com a Lilian.
Outra pausa.
— A Lili… está no hospital?
— Carolina, o Daniel Bastos a colocou lá. Costelas quebradas, pulso fraturado. E ela me disse… ela me disse que ele matou a Sara.
Ele a ouviu prender a respiração.
— O quê?
— Lili diz que não foi um acidente. Que o Bastos empurrou a Sara da escada e depois encenou o acidente de carro. Carolina, preciso que você me escute. Onde está o Daniel agora?
— Ele esteve aqui, mas nós o mandamos embora. Há uma audiência de custódia amanhã de manhã. Eu pedi a guarda de emergência.
— Você? Falcão, você não faz parte da vida dela há…
— Eu sei. E eu sinto muito. Eu falhei com o Jairo. Eu falhei com a Sara. Mas não vou falhar com a Lilian. Não mais. Preciso que você e o Beto venham para essa audiência. Preciso que digam à juíza que o Jairo confiava em mim. Que eu não sou quem os advogados do Bastos vão dizer que eu sou.
Carolina estava chorando agora. Um choro baixo, quebrado.
— Eu sabia… eu sabia que algo estava errado. Depois que a Sara morreu, a Lili parou de ligar, parou de visitar. O Bastos sempre tinha uma desculpa.
— Carolina, por favor. Vocês podem vir?
— Estaremos aí de manhã cedo. Falcão, obrigada. Obrigada por não desistir dela.
Sua garganta apertou.
— Eu desisti uma vez. Não de novo.
Ele desligou, olhou para Marcos.
— Eles virão.
— Bom. Isso ajuda. Agora precisamos sobreviver à noite.
Eles voltaram para o quarto de Lili. Rosa estava sentada com ela, conversando baixinho. Os olhos de Lili estavam vermelhos, mas mais calmos.
— Como ela está? — Falcão perguntou.
— Sinais vitais estáveis. Mas ela precisa descansar. E precisa se sentir segura.
Falcão ajoelhou-se ao lado da cama novamente.
— Lili, vou ficar bem aqui fora deste quarto a noite toda. A Rosa também. E mais 97 outras pessoas. O Bastos não consegue chegar até você. Nem hoje à noite. Nem nunca mais.
— E se a juíza disser que eu tenho que voltar?
— Isso não vai acontecer.
— Mas e se…?
— Então nós lutamos. E continuamos lutando até você estar segura. Eu prometo.
Ela olhou para ele, procurando em seu rosto.
— Por quê? Você não precisava vir.
— Sim, eu precisava. Fiz uma promessa ao seu pai. E o Jairo era meu irmão. Isso faz de você família.
— Eu nem me lembro dele.
— Eu sei. Mas ele te amava mais do que tudo. E ele iria querer que você estivesse protegida. Então é isso que estamos fazendo.
A mão de Lili apertou a dele.
— Não me deixe.
— Não vou.
Rosa se levantou.
— Vou buscar alguns cobertores. Parece que vamos acampar.
Diesel colocou a cabeça para dentro.
— Falcão, estamos montando turnos lá fora. Oito pilotos de plantão por vez, rodando a cada 3 horas. O Torres nos deu permissão para usar os bancos perto da entrada.
— Bom. Certifique-se de que alguém esteja de olho em todas as entradas. Se o Bastos tentar voltar, quero saber imediatamente.
— Entendido.
Mestre apareceu em seguida.
— Falcão, a imprensa está aparecendo. TV local. Alguém os avisou.
— Deixe que filmem. Quero que todos vejam isso.
— Tem certeza? Pode se voltar contra nós.
— Ou pode pressionar o Bastos. Deixe o mundo assistir.
Marcos pegou o celular.
— Vou preparar uma declaração. Manter simples. “Cidadãos preocupados garantindo a segurança de uma criança.” Nada inflamatório.
Falcão assentiu. Virou-se de volta para Lili.
— Você está bem?
— Estou cansada.
— Então durma. Estaremos bem aqui.
Mas ela não soltou sua mão.
— Você pode me contar sobre o meu pai?
O peito de Falcão doeu.
— Sim… sim, eu posso.
Ele puxou uma cadeira para mais perto, acomodou-se.
— Seu pai era o cara mais forte que eu já conheci. Não porque ele era grande ou mau, mas porque ele nunca desistia. Nunca deixava ninguém para trás.
— Como ele era?
— Como você. Os mesmos olhos, o mesmo queixo teimoso. — Ele sorriu. — Ele costumava dizer: ‘Você tem a bondade da sua mãe e a cabeça dura dele’.
Lili quase sorriu. Quase.
— Nós estávamos no exército juntos. Unidades diferentes, mas nos cruzamos na Província de Helmand. Ficamos presos sob fogo inimigo um dia. Seu pai não precisava nos ajudar. Mas ele ajudou. Correu direto para o tiroteio para tirar dois soldados feridos. Era isso que ele era.
— Como ele morreu?
Falcão fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado.
— Ele salvou seis homens, incluindo eu. Uma bomba explodiu. Ele me empurrou para fora do caminho. Levou a explosão sozinho.
— Doeu?
— Não, querida. Foi rápido. Mas antes de ir, ele me fez prometer cuidar de você e da sua mãe. E eu mantive essa promessa por um tempo. Mas então eu te decepcionei. Eu fui embora quando deveria ter ficado.
— Por quê?
— Porque eu fui estúpido. Achei que o Bastos cuidaria de você. Achei que você não precisava mais de mim.
Os olhos de Lili estavam pesados agora, lutando contra o sono.
— Você acha que meu pai ficaria bravo com você?
— Sim. Acho que ele ficaria furioso. Mas também acho que ele me perdoaria se eu consertasse as coisas.
— É isso que você está fazendo? Consertando as coisas?
— É o que estou tentando fazer.
Ela fechou os olhos.
— Ok.
Em poucos minutos, ela estava dormindo. Falcão ficou na cadeira, a mão ainda na dela. Rosa voltou com cobertores, colocou um sobre Lili, entregou um a Falcão.
— Você deveria descansar também — ela disse baixinho.
— Não posso. Não até ela estar segura.
— Falcão, você não serve para ela se estiver exausto.
— Vou descansar quando tudo acabar.
Rosa suspirou, puxou outra cadeira.
— Então ficarei acordada com você.
— Você não precisa.
— Sim, eu preciso. É o que a família faz.
Eles ficaram em silêncio por um tempo. O hospital zumbia ao redor deles. Máquinas apitando, passos no corredor, vozes distantes. Por volta da meia-noite, Diesel mandou uma mensagem. “Van de reportagem acabou de chegar. Canal 7. Querem uma declaração.”
Falcão mostrou para Marcos.
— Eu cuido disso — disse Marcos. — Fique com a Lili.
Ele saiu. Voltou 20 minutos depois.
— Como foi? — Falcão perguntou.
— Bem. Mantive a coisa limpa. Disse que estamos aqui para garantir a segurança de uma criança durante uma disputa de custódia. Não mencionei o Bastos pelo nome, mas o repórter ligou os pontos. Vai passar no jornal da manhã.
— O Bastos vai enlouquecer.
— Bom. Deixe que ele enlouqueça. Quanto mais ele reage, pior ele parece.
Por volta de 1h da manhã, Lili se mexeu, acordou chorando.
— Ei, ei — disse Falcão suavemente. — Você está bem. Você está segura.
— Tive um sonho com minha mãe. Ela estava tentando me dizer algo, mas eu não conseguia ouvi-la.
Rosa se aproximou.
— Isso é normal, querida. Sua mente está processando muita coisa agora.
— Sinto falta dela.
— Eu sei.
— O Bastos disse que ela foi embora porque não me amava mais. Mas isso não é verdade, é?
A voz de Falcão ficou dura.
— Não. Isso é uma mentira. Sua mãe te amava mais do que tudo.
— Então por que ela não me levou com ela?
— Porque ela não foi embora, Lili. O Bastos a matou. E nós vamos provar isso.
— Como?
— Ainda não sei. Mas nós vamos. Eu prometo.
Ela enxugou os olhos.
— Estou com medo de ir ao tribunal amanhã.
— Estarei bem ali com você. Assim como a Carolina e o Beto. Seus avós.
— Eles estão vindo?
Os olhos de Lili se arregalaram.
— Meus avós? Não os vejo há dois anos. O Bastos disse que eles não queriam me ver.
— Outra mentira. Eles estão vindo de manhã cedo.
Lágrimas frescas, mas diferentes. Alívio misturado com dor.
— Posso conhecer as pessoas lá fora? As que vieram por mim.
Falcão olhou para Rosa. Ela assentiu.
— Sim — ele disse. — Quando você estiver se sentindo mais forte. Eles adorariam te conhecer.
— Quais são os nomes deles?
— Tem o Diesel, um cara grande, coração grande. O Mestre, ele é o mais velho. 73 anos e mais duro que prego. O Snake, que mal fala, mas atravessaria o fogo por você. O Big Tommy, que ensina literatura. A Rosa aqui… e mais 90 como eles.
— Por que eles vieram?
— Porque quando alguém precisa de ajuda, você aparece. É o que a família faz.
Lili deitou-se novamente.
— Eu queria que meu pai estivesse aqui.
— Eu também, garota. Eu também.
Ela adormeceu novamente. O celular de Falcão vibrou. Outra mensagem do número desconhecido. “Último aviso. Desista disso ou pessoas vão se machucar.”
Ele mostrou para Diesel, que tinha acabado de entrar com café.
— Ele está desesperado — disse Diesel. — Isso é bom. Significa que ele está perdendo.
— Ou significa que ele está prestes a fazer algo estúpido.
Mestre se juntou a eles.
— Recebi uma mensagem do Torres. O Bastos tentou voltar há uma hora. Exigiu acesso. O Torres disse que o horário de visita tinha acabado. O Bastos ameaçou demiti-lo.
— O Torres se manteve firme?
— Sim. Disse que a política do hospital é a política do hospital, mesmo para policiais. O Bastos foi embora, mas estava furioso.
— Ele vai voltar, provavelmente com um mandado ou algo assim.
Marcos ouviu.
— Ele não consegue um mandado sem causa. E um juiz não emitirá um no meio da noite por uma disputa de custódia.
— Tem certeza disso? — perguntou Mestre.
— Não. Mas é improvável. Só precisamos chegar às 9h. Então estaremos na frente da Carrion.
A noite se arrastou. Falcão cochilou na cadeira, acordava toda vez que Lili se mexia. Rosa ficou por perto, verificando os sinais vitais, ajustando os cobertores. Por volta das 4h da manhã, Big Tommy entrou.
— Troca de turno. Estou de plantão agora. Vá tomar um ar, Falcão.
— Estou bem.
— Falcão, cinco minutos. Você não serve para ela se desmaiar.
Relutantemente, Falcão se levantou, se espreguiçou, foi para o corredor. O hospital estava mais silencioso agora. Apenas o turno da noite, algumas enfermeiras, a segurança fazendo rondas. Ele foi até o elevador, desceu para o saguão, saiu.
O estacionamento estava iluminado por postes de luz. As 97 motos ainda lá. Os pilotos sentados em bancos, bebendo café de garrafas térmicas, alguns dormindo em suas caminhonetes, outros de vigia. Snake o viu, aproximou-se.
— Como está a garota?
— Assustada, mas aguentando. Ela é forte, como o pai dela.
— Sim.
Eles ficaram em silêncio por um momento.
— Falcão — disse Snake baixinho. — O que acontece se a juíza decidir contra você?
— Apelamos. Lutamos.
— E se o Bastos a levar antes disso?
A mandíbula de Falcão se firmou.
— Então nós o impedimos.
— Legalmente, de preferência.
Snake assentiu lentamente.
— Você sabe que estamos com você. O que for preciso.
— Eu sei. É isso que me assusta. Não quero que ninguém se machuque por causa da minha promessa.
— Não é mais só a sua promessa. É nossa agora também. Todos nós vimos aquela garota. Todos nós ouvimos a história dela. Isso é maior do que você.
Falcão olhou para os pilotos reunidos, sua família, seus irmãos e irmãs, todos eles aqui porque ele pediu.
— Espero que estejamos fazendo a coisa certa.
— Estamos. Às vezes, a coisa certa parece o caos. Mas isso não a torna errada.
Diesel se aproximou, entregou a Falcão um café fresco.
— O sol vai nascer em duas horas. O tribunal em cinco. Você está pronto?
— Não. Mas vamos mesmo assim.
Mestre se juntou a eles.
— Acabei de receber uma mensagem do Marcos. O advogado do Bastos entrou com outra moção tentando adiar a audiência.
— Vai funcionar?
— O Marcos diz que não. A Carrion odeia atrasos. Ela vai julgar às 9h.
— Bom.
Torres apareceu da entrada, aproximou-se.
— Senhor Dantas, um minuto?
Falcão assentiu. Eles se afastaram. Torres parecia desconfortável.
— Olha, eu não sei a história toda. Mas estive vendo as notícias, vi a cobertura. E liguei para um amigo meu que trabalha na delegacia do Bastos e… e ele disse que o Bastos tem uma reputação. Pavio curto, reclamações que nunca dão em nada. Meu amigo disse que não está surpreso com isso.
— Por que está me dizendo isso?
— Porque aquela garotinha merece coisa melhor. E porque tenho duas filhas. Se alguém estivesse as machucando, eu esperaria que alguém como você aparecesse. — Ele fez uma pausa. — Não deveria dizer isso, mas se o Bastos tentar levá-la antes da audiência, vou enrolá-lo. Dar-lhe tempo para conseguir um juiz no telefone.
Falcão estendeu a mão.
— Obrigado.
Torres apertou-a.
— Não me faça me arrepender disso.
— Você não vai.
Torres voltou para dentro. O céu estava começando a clarear, cinza, tornando-se azul pálido. Diesel verificou o relógio.
— 4h30. Quatro horas e meia para ir. Vamos garantir que todos estejam prontos. Turnos novos, olhos em todas as portas. E alguém precisa providenciar o café da manhã. Vamos precisar de nossa força.
Mestre ficou para trás.
— Falcão, o que acontece depois da audiência, se você ganhar a custódia?
— Então eu descubro como criar uma garota de 14 anos.
— Você está pronto para isso?
— Não. Mas vou aprender.
— Ela vai precisar de mais do que você. Terapia, apoio, estabilidade.
— Eu sei. Vou dar um jeito.
Mestre colocou a mão em seu ombro.
— Você não vai fazer isso sozinho. Você tem 97 pessoas que acabaram de provar que largarão tudo por esta garota. Não vamos embora depois de hoje.
A voz de Falcão falhou.
— Eu não mereço vocês.
— Provavelmente não. Mas você está preso a nós de qualquer maneira.
Eles ficaram ali enquanto o sol começava a nascer. 97 pilotos, uma garota, uma promessa. E cinco horas até tudo mudar.
Às 6h da manhã, o estacionamento do hospital parecia um acampamento militar. Os pilotos sentavam em suas motos, bebendo café. Outros esticavam as pernas doloridas. Rosa fazia rondas com o kit de primeiros socorros, verificando qualquer um que parecesse pior após a vigília noturna. Falcão subiu novamente. Seu corpo doía, seus olhos ardiam, mas a adrenalina o mantinha alerta. Ele abriu a porta do quarto 314.
Lili estava acordada, sentada na cama. Big Tommy sentava no canto, lendo um livro em voz alta. Algo sobre dragões.
— Tio Falcão — disse Lili. Sua voz estava mais forte agora.
— Ei, garota. Como você está se sentindo?
— Dolorida, mas melhor. O Tommy estava lendo para mim.
Big Tommy fechou o livro.
— Ela tem bom gosto. Romances de fantasia. O pai dela teria aprovado.
Falcão sorriu.
— O Jairo adorava essas coisas. Costumava ler “O Senhor dos Anéis” em missão.
— Sério? — perguntou Lili.
— Sim. Dizia que o lembrava que ainda havia magia no mundo, mesmo quando tudo estava escuro.
Tommy se levantou.
— Vou dar a vocês um pouco de privacidade. Precisam de algo?
— Estamos bem. Obrigado, Tommy.
Ele saiu. Falcão puxou a cadeira para mais perto da cama.
— Lili, precisamos falar sobre hoje. A audiência.
O rosto dela se tencionou.
— Eu tenho que vê-lo? O Bastos.
— Sim, ele estará lá. Mas eu também estarei. O Marcos, seus avós e uma sala cheia de pessoas que acreditam em você.
— E se a juíza não acreditar em mim?
— Então apelamos. Continuamos lutando. Mas, Lili, preciso que seja honesta com a juíza. Conte a ela tudo sobre o Bastos. Sobre o que ele fez com você, sobre sua mãe.
— E se eu não conseguir? E se eu travar?
— Então o Marcos vai ajudar. Ele vai te fazer perguntas. Você só precisa respondê-las. Leve o seu tempo. Não há problema em chorar. Não há problema em ter medo. Apenas diga a verdade.
Ela torceu o cobertor nas mãos.
— O que acontece se eu tiver que voltar com ele?
A voz de Falcão ficou dura.
— Isso não vai acontecer.
— Mas e se…?
Lili, ele pegou as mãos dela.
— Olhe para mim. Você nunca mais vai voltar para aquela casa. Não me importa o que qualquer juiz diga. Você acabou com o Bastos para sempre.
— Como você pode prometer isso?
— Porque tenho 97 pessoas lá fora que não vão deixar isso acontecer. Porque seus avós estão vindo para cá agora, porque um advogado está lutando por você, e porque não vou embora de novo. Nunca.
Lágrimas rolaram por suas bochechas.
— Estou tão cansada de ter medo.
— Eu sei, querida. Mas depois de hoje, as coisas mudam. Ganhamos esta audiência. Você vem para casa comigo. Descobrimos o resto à medida que avançamos.
— Para casa com você? Onde é isso?
— São Paulo. Tenho um apartamento em cima da minha oficina. Não é muito, mas é seguro. E você teria seu próprio quarto. Daríamos um jeito.
— E a escola?
— Vamos te matricular. Colocar você em dia. O que você precisar.
Ela enxugou os olhos.
— Você sabe como cuidar de uma criança?
Ele riu. Foi bom.
— Não, na verdade não. Mas vou aprender. E terei ajuda. A Rosa é enfermeira. O Mestre criou três filhos. O Big Tommy é professor. Você terá uma família inteira ajudando.
— Por que eles fariam isso? Eles nem me conhecem.
— Porque você é filha do Jairo. E porque pessoas boas aparecem quando alguém precisa de ajuda. É assim que é.
Uma batida na porta. Marcos entrou com uma mulher na casa dos 60 anos. Cabelos grisalhos, olhos gentis. Ela viu Lili e levou a mão à boca.
— Oh, meu Deus. Lilian…
Os olhos de Lili se arregalaram.
— Vovó?
Carolina Moraes correu para a cama, envolveu os braços em volta de Lili o mais gentilmente que pôde, ambas soluçando.
— Sinto muito, meu bem. Sinto muito por não sabermos. Sinto muito.
— Ele me disse que vocês não queriam me ver.
— Isso é mentira. Ligávamos toda semana. Ele dizia que você estava ocupada. Que não queria falar conosco. Deveríamos ter sabido. Deveríamos ter…
— Não é culpa de vocês — sussurrou Lili.
Beto Moraes apareceu na porta. Mais velho, rosto marcado pelo tempo, ex-militar como seu filho. Ele viu Lili e sua mandíbula se contraiu. Lágrimas escorreram por seu rosto, mas ele não emitiu som. Ele caminhou até a cama, colocou a mão na cabeça de Lili.
— Seu pai estaria tão orgulhoso de você, querida.
— Sinto falta dele, vovô.
— Eu também. Todos os dias.
Falcão recuou, deu-lhes espaço. Marcos o puxou para o lado.
— Eles dirigiram a noite toda — disse Marcos em voz baixa. — A Carolina está preparada para testemunhar sobre as táticas de isolamento do Bastos. O Beto tem documentação de todas as vezes que tentaram contatar a Lili e foram bloqueados.
— Isso é bom. Isso ajuda.
— Tem mais. Eu investiguei um pouco. O Bastos tem três queixas de força excessiva do início de sua carreira. Todas arquivadas, nunca deram em nada. Mas estão registradas.
— Podemos usar isso?
— Não diretamente, mas estabelece um padrão. Ele tem um temperamento explosivo, um histórico de violência. A juíza Carrion vai ver isso.
— E a acusação de assassinato? A morte da Sara.
O rosto de Marcos escureceu.
— Isso é mais difícil. O relatório oficial diz morte acidental, colisão de um único carro, teor alcoólico era de 0,12. A declaração do Bastos diz que ela estava bebendo a noite toda.
— Mas a Lili diz…
— Eu sei. Mas sem evidências físicas, é a palavra dela contra a autópsia de uma mulher morta. Podemos levantar questões, mas não podemos provar. Ainda não.
— O que precisamos?
— O carro. Se pudéssemos examinar os destroços, talvez encontrar sinais de adulteração. Ou testemunhas. Alguém que os viu brigando naquela noite.
Falcão pegou o celular, rolou até o número de Diesel.
— Tive uma ideia. Me dê um minuto.
Ele saiu para o corredor. Ligou para Diesel.
— Sim.
— Preciso que alguém rastreie um carro batido. A Sara Moraes morreu em um acidente de um único veículo há dois anos. Descubra onde o carro foi parar. Ferro-velho, pátio, onde quer que seja.
— O que estamos procurando?
— Qualquer coisa que sugira que não foi um acidente. Você tem alguém bom com carros?
— O Rico era mecânico. Se houver algo para encontrar, ele encontrará.
— Coloque-o nisso agora. Precisamos de respostas antes daquela audiência.
— Entendido.
Falcão desligou, voltou para o quarto. Carolina ainda segurava Lili, sussurrando para ela. Beto estava por perto, braços cruzados, mandíbula cerrada.
— Beto — disse Falcão. — Posso falar com você?
Eles foram para o corredor.
— Você realmente acha que o Bastos matou a Sara? — perguntou Beto.
— A Lili diz que viu. Isso é o suficiente para mim.
Os punhos de Beto se cerraram.
— Se ele fez, se ele tocou na minha filha…
— Então o colocamos na cadeia legalmente. Fazemos isso direito.
— Direito — Beto cuspiu a palavra. — O Jairo fez as coisas direito. Foi morto. A Sara tentou fazer as coisas direito. Acabou morta. Talvez o “direito” não seja mais suficiente.
— Beto, eu entendo. Mas se formos atrás do Bastos nós mesmos, perdemos. Ele é um policial. Somos motoqueiros e veteranos. Eles nos pintarão como criminosos, e ele sai livre. Temos que vencê-lo no tribunal.
— E se não conseguirmos?
Falcão encontrou seus olhos.
— Então garantimos que a Lili nunca mais volte. O que for preciso.
Beto o estudou.
— Você realmente quer dizer isso?
— Pelo túmulo do Jairo.
Beto assentiu lentamente.
— Certo. Jogamos do seu jeito, por enquanto.
Eles voltaram para o quarto. Marcos estava verificando o relógio.
— Precisamos sair em 90 minutos. O tribunal fica a 20 minutos daqui. Devemos chegar cedo. Estabelecer presença.
— E a Lili? — perguntou Rosa. — Ela tecnicamente ainda não recebeu alta.
— O Dr. Warren assinou esta manhã — disse Marcos. — Contra a orientação médica. Alta a pedido. Tenho a papelada.
Lili olhou para Falcão.
— Eu tenho que ir assim? Com uma roupa de hospital?
Carolina abriu uma bolsa.
— Eu trouxe roupas, querida. Algo simples, confortável.
— Como você…?
— Ainda tenho algumas coisas da sua mãe de quando ela tinha sua idade. Pensei que você talvez quisesse usar algo dela hoje.
O rosto de Lili se desfez.
— Sério?
— Sério.
Carolina a ajudou a se trocar. Um vestido azul simples, nada extravagante, mas serviu. E quando Lili se olhou no espelho, viu sua mãe olhando de volta.
— Ela está com você hoje — sussurrou Carolina. — Ela está com você todos os dias.
Às 7h30, eles estavam prontos para partir. Falcão desceu primeiro. O saguão estava lotado agora. Não apenas Lobos de Aço. Outras pessoas também. Funcionários do hospital em seus intervalos. Visitantes que ouviram a história. Até alguns policiais à paisana que apareceram para apoiar. Torres se aproximou.
— Senhor Dantas, estamos abrindo caminho para seus veículos. A mídia está lá fora. É um circo.
— Deixe que assistam.
— O advogado do Bastos pediu uma ordem de silêncio esta manhã. A juíza negou. Disse que o público tem o direito de saber.
Falcão sorriu.
— Bom.
Diesel o encontrou na entrada.
— Estamos prontos. 40 pilotos escoltarão até o tribunal. O resto nos encontrará lá. O Rico já está no ferro-velho. Ele está de olho no carro da Sara.
— O que ele encontrou?
— Muito cedo para dizer. Mas ele está documentando tudo. Fotos, medições. Se houver evidências, ele encontrará.
Mestre se aproximou.
— Falcão, temos um problema. O Bastos está lá fora com cerca de 20 policiais, uniformizados. Eles estão formando uma linha entre nós e o tribunal.
— Isso é intimidação.
— Foi o que eu disse. Mas o Torres diz que eles estão dentro de seus direitos. Espaço público.
Marcos ouviu.
— É um jogo de poder. O Bastos está tentando nos abalar antes da audiência. Não se envolvam. Passamos calmamente. Olhos para frente. Sem palavras.
— E se eles tentarem nos parar?
— Não vão. Muitas câmeras. Mas eles tentarão provocar. Não lhes dê nada.
Às 8h, eles se moveram. Falcão carregava Lili nos braços. Ela era leve, leve demais. Carolina e Beto caminhavam ao lado deles. Marcos liderava. Rosa seguia de perto. Os Lobos de Aço formaram um círculo protetor ao redor deles. Diesel na frente. Mestre e Snake nos flancos. Big Tommy fechando a retaguarda.
Eles saíram. Flashes de câmeras. Repórteres gritavam perguntas. Microfones eram empurrados para a frente. E lá, do outro lado do estacionamento, estava o oficial Daniel Bastos. 20 policiais uniformizados atrás dele, braços cruzados, rostos duros. Os olhos de Bastos se fixaram em Falcão, em Lili, seu rosto contorcido de raiva.
— Continuem andando — disse Falcão baixinho.
Eles avançaram, passo a passo. Os Lobos de Aço acompanharam seu ritmo, silenciosos, disciplinados. Bastos deu um passo à frente.
— Essa é minha filha.
— Continuem andando — disse Marcos.
— Eu disse que essa é minha filha!
Falcão parou, olhou Bastos nos olhos.
— Ela não é sua. Nunca foi.
— Você a está sequestrando.
— Estou a protegendo. Há uma diferença.
Um dos policiais de Bastos deu um passo à frente. Jovem, nervoso.
— Senhor, você precisa devolver a criança.
Marcos tirou um documento.
— Ordem de custódia de emergência assinada pelo escrivão da Juíza Carrion à meia-noite. Temos base legal. Vocês não.
O jovem policial olhou para Bastos.
— Isso é verdade?
O rosto de Bastos ficou roxo.
— É palhaçada…
Marcos ergueu o papel.
— Leia você mesmo. Estamos dentro de nossos direitos.
O policial pegou o documento, leu, devolveu.
— Senhor, eles estão liberados. Não podemos pará-los.
— O inferno que não podemos!
Mas os outros policiais estavam hesitando agora, olhando uns para os outros, para as câmeras, para a multidão. Um policial mais velho, sargento, listras na manga, falou:
— Daniel, este não é o lugar. Deixe a juíza cuidar disso.
— Você está comigo ou contra mim, Carver?
O rosto de Carver endureceu.
— Estou com a lei. E agora a lei diz que eles podem movê-la. Recue.
Bastos parecia que ia explodir. Sua mão se moveu em direção à arma. Diesel se interpôs entre eles.
— Não.
A tensão crepitou. Por três segundos, ninguém se moveu. Então Bastos abaixou a mão.
— Você está acabado, Dantas. Você e sua gangue. Acabado.
— Veremos.
Falcão continuou andando. Os Lobos de Aço fecharam as fileiras. Os policiais de Bastos se afastaram lentamente, relutantemente. Eles chegaram ao estacionamento, colocaram Lili no carro de Marcos. Carolina e Beto entraram no banco de trás com ela.
— Seguiremos no comboio — disse Diesel. — 40 motos, formação cerrada. Vejo vocês lá.
A viagem até o tribunal levou 12 minutos. O trânsito abriu para o comboio. As pessoas nas calçadas paravam e olhavam. Alguns erguiam os punhos em solidariedade. Outros filmavam em seus celulares.
Quando chegaram, as escadarias do tribunal estavam lotadas. Repórteres, apoiadores, curiosos. E mais policiais. Tantos policiais.
Marcos estacionou na frente. Falcão abriu a porta, ajudou Lili a sair. Ela estava tremendo.
— Não consigo fazer isso.
— Sim, você consegue.
— Tem muita gente.
— Eles estão aqui por você. Para te apoiar. Você não está sozinha, Lili.
Carolina pegou sua mão.
— Sua mãe era corajosa. Você é filha dela. Você pode ser corajosa também.
Lili respirou fundo, assentiu.
Eles subiram as escadas do tribunal. Os Lobos de Aço formaram duas linhas. Uma guarda de honra. 40 pilotos em posição de sentido enquanto Lili passava entre eles. Mestre saudou, depois Diesel, depois Snake. Um por um, cada piloto saudou.
Lili olhou para Falcão.
— Por que eles estão fazendo isso?
— Porque você é da família. E a família honra a família.
Eles entraram no tribunal. A segurança os verificou. Subiram o elevador até o terceiro andar. Vara da Infância e Juventude, Sétimo Departamento. Juíza Sandra Carrion presidindo.
A sala de audiências já estava enchendo. Marcos os guiou para a frente. Mesa do autor. Falcão sentou-se ao lado de Lili. Carolina e Beto atrás deles. Rosa entrou na galeria. Do outro lado do corredor, Bastos sentou-se com seus advogados. Dois deles. Ternos caros, maletas, sorrisos confiantes. O advogado principal, de meia-idade, cabelos prateados, inclinou-se.
— Senhor Dantas, sou Roberto Kessler. Represento o Oficial Bastos. Quero que saiba que isso não é nada pessoal. Apenas fazendo meu trabalho.
— Seu trabalho é defender um abusador de crianças.
O sorriso de Kessler não vacilou.
— Abuso alegado. Vamos deixar a juíza decidir, certo?
O oficial de justiça se levantou.
— Todos de pé. A honorável juíza Sandra Carrion presidindo.
Todos se levantaram. A juíza entrou. 60 anos, olhos afiados, expressão séria. Ela se sentou, abriu uma pasta.
— Podem se sentar. Caso número JV22-54471. Petição de emergência para guarda. Tomás Dantas versus Daniel Bastos. Doutor Wellington, o senhor representa o peticionário.
Marcos se levantou.
— Sim, Meritíssima.
— E o Doutor Kessler pelo respondente.
— Correto, Meritíssima.
A juíza Carrion olhou para Lili. Sua expressão se suavizou ligeiramente.
— Jovem, qual o seu nome?
A voz de Lili era quase inaudível.
— Lilian Moraes.
— Quantos anos você tem, Lilian?
— Catorze.
— Você entende por que está aqui hoje?
— Sim, senhora.
— Bom. Vamos conversar um pouco. Fazer algumas perguntas. Quero que seja honesta comigo. Você pode fazer isso?
— Vou tentar.
— É tudo o que peço.
Carrion virou-se para os advogados.
— Senhores, revisei a petição de emergência e a resposta. Doutor Wellington, o senhor está alegando abuso, negligência e perigo. São acusações sérias.
— São, Meritíssima. E temos evidências para apoiá-las.
— Espero que sim. Doutor Kessler, seu cliente mantém a inocência e alega que esta é uma tentativa de tomada de custódia por um terceiro não envolvido com afiliações a gangues.
Kessler se levantou.
— Correto, Meritíssima. O senhor Dantas não tem base legal. Ele não faz parte da vida de Lilian há anos. Ele aparece com uma gangue de motoqueiros, intimida a equipe do hospital e agora reivindica a guarda. Isso é exibicionismo, não preocupação genuína.
Marcos rebateu.
— O senhor Dantas é o padrinho designado pelo pai biológico de Lilian antes de sua morte em serviço militar. Ele manteve contato até o Oficial Bastos isolar sistematicamente Lilian de todo apoio externo. E o Clube de Motociclismo Lobos de Aço é uma organização de veteranos, não uma gangue. Eles rodaram 600 quilômetros para garantir a segurança de Lilian porque ninguém mais o faria.
Carrion ergueu a mão.
— Chega. Ouvirei o testemunho e farei minha própria determinação. Doutor Wellington, chame sua primeira testemunha.
— O autor chama Tomás Dantas.
Falcão se levantou, caminhou até o banco das testemunhas. O oficial de justiça o juramentou. Marcos se aproximou.
— Diga seu nome para o registro.
— Tomás Miguel Dantas.
— Qual sua relação com Lilian Moraes?
— Servi com o pai dela, Jairo Moraes, no exército. Antes de morrer, ele me fez prometer cuidar de sua filha. Sou o padrinho dela.
— E você manteve contato com Lilian após a morte de Jairo?
— Sim, por anos. Mandei dinheiro, liguei todo mês, visitei nos aniversários, até que o padrasto dela deixou claro que eu não era mais bem-vindo.
— Quando isso aconteceu?
— Cerca de dois anos atrás, depois que a Sara, mãe de Lilian, morreu.
— E o que aconteceu então?
— O Bastos cortou todo o contato. Não retornava as ligações, não me deixava visitar. Tentei por meses. Eventualmente, parei de tentar. Esse é meu maior arrependimento.
— O que o fez entrar em contato novamente?
— Recebi uma ligação de uma conselheira tutelar às 2h47 da manhã, dois dias atrás. Ela me disse que a Lili estava no hospital com múltiplos ferimentos. Foi quando soube que tinha falhado com ela e que tinha que consertar as coisas.
Kessler se levantou.
— Objeção. A testemunha está testemunhando conclusões, não fatos.
— Acolhida. Senhor Dantas, atenha-se ao que observou e fez.
Marcos continuou.
— O que você observou quando chegou ao hospital?
— Uma garota de 14 anos com três costelas quebradas, um pulso fraturado e hematomas cobrindo suas costas. Ela estava aterrorizada. Ela me disse que seu padrasto fez isso. E ela me disse que ele matou a mãe dela.
A sala de audiências explodiu. Sussurros, suspiros. Carrion bateu o martelo.
— Ordem! Senhor Dantas, essa é uma alegação muito séria. Você tem evidências?
— Tenho o testemunho de Lilian. E tenho investigadores examinando o acidente que matou Sara Moraes.
Kessler se pôs de pé.
— Meritíssima, isso é ultrajante! Houve uma investigação policial completa. A morte de Sara Moraes foi considerada acidental. O senhor Dantas está caluniando meu cliente com…
— Doutor Kessler, sente-se. Eu decidirei o que é infundado. — Carrion olhou para Marcos. — Doutor Wellington, você tem evidências concretas de crime na morte de Sara Moraes?
— Ainda não, Meritíssima. Mas estamos investigando ativamente. Solicitamos uma suspensão para…
— Negado. Estamos aqui para determinar a segurança imediata de Lilian, não para rejulgar um caso encerrado. Prossiga.
Marcos assentiu.
— Senhor Dantas, por que você trouxe 97 pessoas com você para o hospital?
— Porque eu queria que a Lili soubesse que não estava sozinha, que tinha uma família que se importava. E porque eu tinha medo que o Bastos tentasse levá-la antes que pudéssemos ter uma audiência.
— O Bastos tentou fazer isso?
— Sim. Ele apareceu com advogados exigindo sua alta imediata. Se não estivéssemos lá, ela estaria de volta na casa dele agora.
— Sem mais perguntas.
Kessler se levantou, aproximou-se do banco das testemunhas, sorriu.
— Senhor Dantas, você disse que é o padrinho de Lilian. Isso é uma designação legal ou apenas um título pessoal?
— Pessoal. O Jairo me pediu para cuidar dela.
— Mas não há papelada, nenhuma ordem judicial, nenhum arranjo formal.
— Não.
— Então, legalmente, você é apenas um amigo da família.
— Sou o homem em quem o pai dela confiava.
— O pai dela, que morreu há dezesseis anos.
A mandíbula de Falcão se contraiu.
— Sim.
— E nesses dezesseis anos, quantas vezes você realmente viu a Lilian?
— Não sei. Vinte, talvez trinta vezes.
— Vinte ou trinta vezes em dezesseis anos. Isso é menos de duas vezes por ano.
— O Bastos me cortou.
— Ou talvez você simplesmente tenha parado de tentar. Talvez tenha seguido com sua vida e esquecido da garotinha que prometeu proteger.
— Objeção — disse Marcos. — Argumentativo.
— Acolhida. — Mas Kessler não havia terminado.
— Senhor Dantas, você é membro de um clube de motociclismo chamado Lobos de Aço. Correto?
— Sim.
— E como você descreveria essa organização?
— É um grupo de veteranos. Pessoas que serviram, pessoas que entendem de lealdade.
— Algum membro tem antecedentes criminais?
Falcão hesitou.
— Algumas coisas menores. Multas de trânsito, algumas brigas de bar.
— Algumas brigas de bar — Kessler sorriu. — E você achou apropriado trazer 97 pessoas com antecedentes criminais para um hospital?
— Eles são boas pessoas.
— São? Ou são uma gangue que você usou para intimidar a equipe do hospital e a polícia?
— Não intimidamos ninguém.
— Sério? Porque tenho declarações de enfermeiras que se sentiram ameaçadas, seguranças que tiveram que pedir reforços, policiais que foram impedidos de entrar no hospital.
— Isso não é verdade. Permanecemos pacíficos. Seguimos todas as regras.
— Senhor Dantas, não é verdade que você não tem um emprego estável há três anos?
Marcos se levantou.
— Objeção. Relevância.
— Meritíssima, isso se refere à aptidão do peticionário como guardião.
— Vou permitir. Responda à pergunta, Senhor Dantas.
O rosto de Falcão ardeu.
— Eu tenho minha própria oficina. Reconstruo carros. É estável o suficiente.
— Estável o suficiente? Você tem plano de saúde?
— Não.
— Poupança?
— Alguma.
— Quanto?
— Não sei. Talvez R$ 15.000.
— Quinze mil reais. E você acha que pode sustentar uma garota de 14 anos com a renda de um mecânico, sem plano de saúde e quinze mil na poupança?
— Vou dar um jeito.
— Vai dar um jeito? Ou a Lili vai acabar em um apartamento de um quarto em cima de uma oficina com um homem que mal a conhece e não pode arcar com seus cuidados?
— Eu a conheço melhor do que o Bastos jamais conheceu.
— Conhece? Quando é o aniversário dela?
Falcão congelou.
— Agosto.
— Que dia?
Ele não sabia.
— Senhor Dantas.
— Não me lembro da data exata.
— 15 de agosto. A cor favorita dela?
— Roxo.
— A comida favorita dela?
Silêncio.
— Frango com catupiry. Senhor Dantas, você não conhece essa garota. Você conhecia o pai dela. Não é a mesma coisa.
A voz de Falcão era baixa.
— Eu sei que ela não está segura com o Bastos.
— Baseado em quê? Na palavra dela? Ela é uma criança traumatizada que acabou de perder a mãe há dois anos. Crianças se rebelam. Culpam os pais. Inventam histórias.
— Ela não inventou isso.
— Como você sabe? Você não estava lá. Você não esteve lá por anos.
— Eu sei porque vi seus hematomas. Ouvi seu medo. E confio nela.
Kessler sorriu.
— Confiança. É um sentimento bonito. Mas este tribunal lida com fatos, não com sentimentos. Sem mais perguntas.
Falcão desceu, sentou-se ao lado de Lili. Suas mãos tremiam. Ela olhou para ele.
— Tudo bem. Às vezes, eu também não me lembro do meu aniversário.
Ele quase riu, quase chorou. Marcos se levantou.
— O autor chama Lilian Moraes.
O rosto de Lili ficou branco. Ela se levantou lentamente, as pernas tremiam. Carolina apertou sua mão antes de soltar.
— Você consegue, querida — sussurrou ela.
Lili caminhou até o banco das testemunhas como se estivesse caminhando para sua própria execução. O oficial de justiça estendeu uma Bíblia. Sua mão tremia ao colocá-la em cima.
— Você jura dizer a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade?
— Juro.
Sua voz mal atravessou a sala. A juíza Carrion se inclinou para a frente.
— Lilian, sei que isso é assustador. Mas preciso ouvir de você. Leve o seu tempo. Se precisar de uma pausa, é só dizer. Ok?
— Ok.
Marcos se aproximou gentilmente.
— Lili, você pode dizer ao tribunal seu nome completo?
— Lilian Anne Moraes.
— Quantos anos você tem?
— Catorze. Vou fazer quinze em agosto.
— Você sabe por que está aqui hoje?
— Porque eu contei a eles o que ele fez comigo.
— Quem é “ele”?
— Daniel Bastos, meu padrasto.
— Você pode contar à juíza o que aconteceu duas noites atrás?
As mãos de Lili se torciam em seu colo.
— Ele chegou tarde em casa. Estava com raiva. Tinha bebido.
— Como você sabia que ele estava bebendo?
— Eu podia sentir o cheiro. E ele fica mau quando bebe.
— O que aconteceu em seguida?
— Ele perguntou onde estava o jantar. Eu disse que tinha feito macarrão, mas estava frio porque ele estava três horas atrasado. Ele disse que eu era desrespeitosa, que respondia demais.
— Ele disse mais alguma coisa?
— Ele disse que eu era igual à minha mãe. Que ela também era ingrata. Foi quando eu disse para ele parar de falar dela.
— E o que ele fez?
A voz de Lili baixou.
— Ele agarrou meu braço, torceu-o atrás das minhas costas. Disse que eu precisava aprender a ter respeito. Eu tentei me afastar e ele me empurrou. Caí na mesa. Foi quando ouvi o estalo.
— O estalo?
— Minhas costelas. Três delas quebraram quando bati na mesa.
Marcos fez uma pausa. Deixou aquilo ecoar.
— O que aconteceu depois que você caiu?
— Eu não conseguia respirar. Doía muito. Eu estava chorando. Ele ficou de pé sobre mim e disse que se eu contasse a alguém, ele diria que eu caí da escada. Que ninguém acreditaria em mim.
— Ele te ajudou?
— Não. Ele foi para o quarto dele. Fiquei lá por duas horas antes de conseguir me mover. Então liguei para o 190.
— Você mesma ligou?
— Sim.
— Por que o Daniel não ligou?
— Porque ele não se importava se eu morresse.
A sala estava em silêncio. Absolutamente silenciosa. Marcos continuou.
— Lili, o Daniel Bastos já te machucou antes?
— Sim.
— Quantas vezes?
— Não sei. Muitas. Desde que minha mãe morreu.
— Você pode descrever algumas dessas vezes?
Lili respirou fundo, trêmula.
— Ele me deu um tapa uma vez por tirar um B em uma prova. Ele me trancou no meu quarto por um dia inteiro porque pedi para ver meus avós. Ele quebrou meu celular quando descobriu que eu tinha tentado ligar para o tio Falcão. Ele… — sua voz falhou. — Ele me dizia todo dia que eu era inútil, que minha mãe foi embora por minha causa, que eu arruinei a vida dele.
— Lili, você disse ao senhor Dantas algo sobre sua mãe. Pode contar à juíza o que disse a ele?
Kessler se pôs de pé.
— Objeção! Isso está além do escopo desta audiência. A morte de Sara Moraes foi investigada e encerrada.
A juíza Carrion ergueu a mão.
— Vou permitir. Mas, Lilian, preciso que entenda que o que você diz aqui é sob juramento. Você entende o que isso significa?
— Sim, senhora. Significa que não posso mentir.
— Isso mesmo. Então, preciso que me diga exatamente o que você viu. Não o que você acha que aconteceu, não o que alguém te contou. O que você realmente viu com seus próprios olhos.
Lili assentiu, respirou fundo.
— Na noite em que minha mãe morreu, eles estavam brigando. Gritando. Eu estava no andar de cima, no meu quarto, mas conseguia ouvir tudo.
— Sobre o que eles estavam brigando?
— Dinheiro. Mamãe encontrou extratos bancários, contas que ela não conhecia. Ela disse que ele estava escondendo dinheiro dela. Ele disse que não era da conta dela. Ela disse que ia me levar e ir embora.
— O que aconteceu então?
— Ele disse que ela não ia a lugar nenhum. Ela tentou se afastar. Ele agarrou o braço dela. Ela se soltou. E ele… ele a empurrou da escada.
Sons de espanto percorreram a sala.
— Você viu isso acontecer?
— Eu abri minha porta. Vi ela cair. Vi ele parado no topo da escada.
— O que você fez?
— Eu desci correndo. Ela não estava se movendo. Saía sangue da cabeça dela. Gritei para ele ligar para o 190. Ele desceu, verificou o pulso dela. Então olhou para mim e disse: “Ela está bêbada. Caiu da escada. Foi isso que aconteceu. Entendeu?”
— O que você disse?
— Eu disse que precisávamos chamar uma ambulância. Ele disse que não. Ele a pegou no colo, a levou para a garagem, a colocou no carro, ligou o motor. Tentei impedi-lo, mas ele me trancou em casa.
— Quanto tempo ele ficou fora?
— Não sei. Talvez uma hora. Quando voltou, estava chorando. Ele me disse que tinha havido um acidente, que a mamãe tinha batido em uma árvore, que ela tinha morrido.
— Você contou a alguém o que viu?
— Eu tentei. Contei aos policiais que vieram à casa. Mas o Daniel estava lá. Ele ficava dizendo que eu estava confusa, que estava traumatizada, que não sabia o que estava dizendo. Eles acreditaram nele.
— Por que você não contou aos seus avós?
— Ele não me deixava falar com eles. Ele disse que se eu contasse a alguém o que realmente aconteceu, ele se certificaria de que eu acabaria em um orfanato. Que ninguém acreditaria em mim porque ele era policial. Que eu perderia todo mundo.
— Você acreditou nele?
— Sim.
Lágrimas escorriam por seu rosto.
— Eu tinha 12 anos. Eu estava com medo. Não sabia o que fazer.
Marcos deixou o silêncio pairar. Então…
— Lili, você se sente segura com o Daniel Bastos?
— Não.
— Você quer voltar para a casa dele?
— Não! Por favor, não me faça voltar.
— Se a juíza permitir, você gostaria de morar com o senhor Dantas?
— Sim. Eu confio nele. E confio nas pessoas que vieram por mim.
— Sem mais perguntas, Meritíssima.
Kessler se levantou. Sua expressão estava mais dura agora. A máscara amigável havia desaparecido.
— Lilian, sinto muito pelo que você passou. De verdade. Mas preciso te fazer algumas perguntas difíceis. Você aguenta?
Ela assentiu.
— Você disse que sua mãe e o Daniel estavam brigando por dinheiro, contas bancárias escondidas. Como você sabia o que estava naqueles extratos bancários?
— Eu os ouvi brigando.
— Mas você estava no andar de cima, atrás de uma porta fechada.
— Eu ainda podia ouvi-los.
— Podia? Ou você juntou as peças do que acha que ouviu?
— Eu sei o que ouvi.
— Lilian, você tinha 12 anos quando sua mãe morreu. Você tinha acabado de perder seu pai biológico alguns anos antes. Você estava de luto, confusa. Não é possível que suas memórias não sejam confiáveis?
— Não.
— Não é possível que você tenha visto sua mãe cair acidentalmente e sua mente jovem tenha criado uma narrativa diferente?
— Ele a empurrou. Eu vi.
— Através de uma fresta na porta, do topo da escada, no escuro.
— Havia luz do corredor.
— Mas você admite que sua visão era limitada.
— Eu vi o suficiente.
Kessler andava de um lado para o outro.
— Vamos falar sobre a noite em que você se machucou. Você disse que o Daniel chegou em casa bêbado e com raiva. Quão bêbado?
— Não sei. Ele cheirava a álcool.
— Uma bebida, cinco, dez?
— Eu não sei.
— Então você não pode dizer com certeza o quão alterado ele estava.
— Ele estava mau. É tudo o que sei.
— Mau ou impondo regras da casa? Você admitiu que respondeu a ele.
— Eu não respondi.
— Você disse que disse a ele que o jantar estava frio porque ele estava atrasado. Isso não é responder?
— Eu só estava explicando.
— E quando ele pediu para você mostrar respeito, você se recusou. Você discutiu.
— Porque ele estava sendo injusto.
— Justo ou não, ele é o pai. Você é a filha. Não é o trabalho dele te disciplinar?
Marcos se levantou.
— Objeção. O advogado está culpando a vítima.
— Meritíssima, estou estabelecendo o contexto.
— Rejeitada. Mas tenha cuidado, Doutor Kessler.
Kessler continuou.
— Lili, você disse que caiu em uma mesa e quebrou três costelas. Mas o laudo médico mostra que as fraturas são consistentes com trauma de impacto. Poderiam ter vindo de uma queda.
— Ele me empurrou.
— Ou você perdeu o equilíbrio durante uma discussão e caiu. Acidentes acontecem, especialmente quando as emoções estão à flor da pele.
— Não foi um acidente.
— Como pode ter certeza? Você estava focada em seu equilíbrio ou em discutir?
— Eu sei a diferença entre cair e ser empurrada.
— Sabe? Porque uma garota de 14 anos traumatizada que já perdeu ambos os pais pode ver violência onde há apenas tragédia.
O rosto de Lili corou.
— Não estou inventando isso.
— Não estou dizendo que está. Estou dizendo que sua percepção pode estar turva pela dor e pela raiva.
— Minha percepção está ótima. Ele me machucou. Ele tem me machucado. E ele matou minha mãe.
A voz de Kessler se aguçou.
— Essa é uma acusação muito séria. Se é verdade, por que você não contou a ninguém por dois anos?
— Eu contei. Ninguém ouviu.
— A quem você contou?
— À polícia. Na noite em que ela morreu.
— Mas o boletim de ocorrência diz que você estava histérica. Incoerente. Os policiais que atenderam notaram que você estava em choque.
— Porque eu vi minha mãe morrer!
— Exatamente. Você estava em choque, traumatizada. Não é uma testemunha confiável.
— Eu sei o que vi.
— Sabe? Ou você passou dois anos se convencendo de algo que não é verdade?
— Objeção! — Marcos estava de pé. — Meritíssima, isso é assédio!
A juíza Carrion assentiu.
— Doutor Kessler, encerre.
— Lilian, última pergunta. Se o Daniel Bastos é um monstro tão grande, por que você ficou? Você tem 14 anos. Poderia ter fugido, ligado para seus avós, contado a um professor. Por que não o fez?
A voz de Lili quebrou.
— Porque eu estava com medo. Porque ele me disse que ninguém acreditaria em mim. Porque eu não queria perder o único lar que me restava. Porque sou apenas uma criança e não sabia mais o que fazer.
Kessler assentiu lentamente.
— Sem mais perguntas.
Lili desceu. Estava tremendo tanto que mal conseguia andar. Carolina a encontrou no meio do caminho, envolveu-a em seus braços, guiou-a de volta para seu assento. Falcão queria despedaçar Kessler, queria arrastar Bastos para fora e fazê-lo pagar por cada lágrima no rosto de Lili. Mas ele ficou parado, punhos cerrados, mandíbula cerrada.
Marcos se levantou.
— Meritíssima, o autor chama Carolina Moraes.
Carolina foi ao banco das testemunhas, recompôs-se, fez o juramento.
— Senhora Moraes, qual sua relação com Lilian?
— Sou a avó dela. Jairo Moraes era meu filho.
— Quando foi a última vez que viu a Lilian antes de ontem?
— Há dois anos. No funeral da Sara.
— Por que tanto tempo?
— O Daniel não nos deixava vê-la. Ligávamos toda semana. Ele sempre tinha uma desculpa. Ela estava ocupada. Estava estudando. Não queria falar. Fomos a Belo Horizonte três vezes. Ele não nos deixou entrar na casa.
— A Lilian já tentou entrar em contato com você?
— Uma vez. Cerca de seis meses depois que a Sara morreu. Ela ligou do telefone de uma amiga. Disse que sentia nossa falta, que queria visitar. Estávamos combinando quando o Daniel ligou de volta. Furioso. Disse que estávamos interferindo, que precisávamos respeitar seus limites. Depois disso, as ligações pararam completamente.
— Você alguma vez suspeitou de abuso?
A voz de Carolina vacilou.
— Suspeitei que algo estava errado. Mas o Daniel era um policial. Todos falavam bem dele. Pensei que talvez fosse apenas o luto… que a Lili estava se afastando por causa da morte da mãe. Eu deveria ter insistido mais. Eu deveria… — Ela desabou. — Eu deveria tê-la protegido.
— Senhora Moraes, você acredita no relato de Lilian sobre o que aconteceu com a mãe dela?
— Sim. Absolutamente. A Sara me ligou na noite em que morreu. Ela disse que tinha encontrado provas de que o Daniel estava escondendo dinheiro, que estava planejando ir embora. Ela perguntou se a Lili poderia ficar conosco por um tempo. Eu disse que sim. Duas horas depois, ela estava morta.
Kessler se levantou.
— Objeção. Testemunho de ouvir dizer.
— Meritíssima — disse Marcos —, esta é uma declaração feita pela vítima pouco antes de sua morte. É admissível sob a exceção da declaração excitada.
A juíza Carrion considerou.
— Vou permitir. Mas, Senhora Moraes, o que exatamente a Sara disse?
— Ela disse: ‘Mãe, eu encontrei contas bancárias que eu não conhecia. Centenas de milhares de reais. Quando confrontei o Daniel, ele ficou com raiva. Muita raiva. Estou com medo. A Lili pode ficar com vocês?’. Eu disse a ela para ligar para a polícia. Ela disse: ‘Ele é a polícia’. Foram as últimas palavras que ela me disse.
A sala de audiências explodiu. Bastos estava de pé.
— Isso é mentira! Ela nunca disse isso!
A juíza Carrion bateu o martelo.
— Oficial Bastos, sente-se!
— Ela está inventando! Isso é difamação!
— Sente-se agora!
Os advogados de Bastos o puxaram de volta para seu assento. Seu rosto estava vermelho, as veias saltando em seu pescoço. Carrion olhou para Carolina.
— Senhora Moraes, você tem registros telefônicos para verificar esta chamada?
— Sim, Meritíssima. Eu trouxe.
Beto se levantou, entregou uma pasta ao oficial de justiça. Carrion examinou os documentos.
— Isso mostra uma chamada de 7 minutos do celular de Sara Moraes para o celular de Carolina Moraes às 20h43 na noite de sua morte. — Ela olhou para Kessler. — Seu cliente afirmou que a Sara estava bêbada naquela noite. Pessoas intoxicadas não costumam fazer chamadas telefônicas coerentes de 7 minutos.
Kessler se recuperou rapidamente.
— Meritíssima, não sabemos o conteúdo dessa chamada. O testemunho da Senhora Moraes é a interpretação dela.
— A interpretação dela é tudo o que temos, já que Sara Moraes está morta. Continue, Doutor Wellington.
Marcos voltou-se para Carolina.
— Senhora Moraes, se Lilian fosse colocada sob a custódia do senhor Dantas, você apoiaria esse arranjo?
— Sim. O Falcão é um bom homem. O Jairo confiava nele com sua vida. Nós confiamos nele com a da Lili.
— Sem mais perguntas.
Kessler se recusou a contra-interrogar. Provavelmente sabia que não conseguiria abalar Carolina sem parecer um valentão. A juíza Carrion verificou suas anotações.
— Doutor Wellington, alguma outra testemunha?
— Meritíssima, estamos esperando um testemunho sobre o acidente de Sara Moraes, mas nossa testemunha ainda está reunindo evidências. Solicitamos um breve recesso.
Carrion verificou o relógio.
— São 11h15. Faremos uma pausa para o almoço. De volta à 1 da tarde. Doutor Wellington, tenha sua testemunha pronta.
— Sim, Meritíssima.
— A sessão está suspensa.
Todos se levantaram. Bastos saiu furioso com seus advogados. Falcão pegou o celular, mandou uma mensagem para Diesel. “Onde está o Rico? Precisamos dele agora.”
A resposta veio imediatamente. “A 5 minutos. Ele encontrou algo grande.”
Falcão mostrou para Marcos.
— O Rico está vindo. Diz que encontrou algo.
— O quê?
— Ainda não sei. Mas se for suficiente para provar que a morte da Sara não foi um acidente, então tudo isso vira.
Eles saíram da sala de audiências. O corredor estava lotado. Os Lobos de Aço alinhavam as paredes. Repórteres gritavam perguntas. Falcão ignorou todos eles. Encontrou Lili com seus avós.
— Você foi ótima lá dentro, garota.
— Senti que ia vomitar.
— Mas não vomitou. Você disse a verdade. É tudo o que importa.
— O que acontece agora?
— Agora esperamos pelo Rico. Ele esteve examinando o carro da sua mãe.
Os olhos de Lili se arregalaram.
— Vocês encontraram o carro dela?
— Sim. Está em um pátio da polícia há dois anos. O Rico é mecânico. Se houver evidência de adulteração, ele encontrará.
Carolina tocou seu braço.
— Falcão, e se não houver nada? E se foi realmente apenas um acidente?
— Então nos concentramos no que sabemos com certeza. Que o Bastos machucou a Lili. Que ela não está segura com ele. Lutamos com base nisso.
Beto falou.
— Aquele advogado a despedaçou lá dentro. Fez parecer que ela está imaginando coisas.
— Porque esse é o trabalho dele. Mas a Carrion é inteligente. Ela viu através disso.
— Tem certeza?
— Não. Mas tenho que acreditar que a justiça importa.
Mestre apareceu da multidão.
— Falcão, o Rico está aqui. Lá embaixo.
Eles se moveram rápido, desceram o elevador, saíram para o estacionamento. Rico estava ao lado de sua caminhonete, coberto de graxa, segurando um laptop.
— Diga que você tem algo — disse Falcão.
Rico sorriu.
— Ah, eu tenho algo. Encontrei o carro no pátio da polícia. Demorou um pouco para conseguir acesso, mas eu disse que estava fazendo uma inspeção de segurança independente. E… o carro da Sara Moraes não bateu porque ela estava bêbada. Bateu porque alguém cortou a linha de freio.
— O quê?
— Parcialmente. Não completamente. Apenas o suficiente para que, após alguns quilômetros, o fluido hidráulico vazasse. No momento em que ela tentasse parar, não haveria mais nada.
Marcos se inclinou.
— Você pode provar isso?
— Tirei fotos, documentei tudo. O corte é limpo. Limpo demais. Não é um rasgo ou uma quebra. Alguém usou uma lâmina. E olhe isso. — Ele abriu uma foto em seu laptop, ampliou. — Vê estas marcas? Isso é corrosão ao redor do corte. O que significa que foi feito horas antes do acidente. Não dias, não semanas. Horas.
— Você pode testemunhar sobre isso?
— Absolutamente. Sou mecânico certificado há 20 anos. Sei reconhecer sabotagem quando vejo.
Falcão sentiu a esperança surgir dentro dele.
— Precisamos levar isso à juíza agora.
Marcos já estava ao telefone.
— Estou ligando para o escrivão. Precisamos apresentar novas evidências.
Enquanto Marcos falava, Falcão puxou Diesel para o lado.
— Se isso colar, o Bastos vai ser preso por assassinato. Ele vai entrar em pânico.
— Acha que ele vai fugir?
— Acho que ele vai fazer algo estúpido. Precisamos ficar de olho nele. Onde ele está agora?
Snake falou de perto.
— Ele saiu do tribunal há 10 minutos. Pegou seu carro particular, não a viatura.
— Siga-o. Mas fique para trás. Apenas rastreie-o. Preciso saber para onde ele vai.
Snake assentiu, desapareceu na multidão. Marcos voltou.
— A juíza Carrion ouvirá as novas evidências à 1 da tarde. Mas, Falcão, você precisa entender. Mesmo que o testemunho do Rico prove que a Sara foi assassinada, isso não significa automaticamente que o Bastos fez isso.
— Quem mais teria motivo?
— Isso é para a polícia determinar. Mas fortalece nosso caso pela custódia da Lili. Se houver sequer a possibilidade de que o Bastos tenha matado a Sara, a Carrion não pode mandar a Lili de volta para ele.
— Então é nisso que nos concentramos.
Eles voltaram para dentro, encontraram Lili e seus avós em uma sala de conferências. Rosa estava com eles, garantindo que Lili comesse algo.
— Não estou com fome — disse Lili.
— Você precisa comer — insistiu Rosa. — O tribunal ainda não acabou.
Falcão sentou-se ao lado dela.
— Lili, encontramos algo. O carro da sua mãe. Os freios foram adulterados.
O garfo de Lili caiu na mesa.
— O quê?
— Alguém cortou a linha de freio. Foi isso que causou o acidente. Não foi um acidente.
— Ele fez isso. O Daniel fez isso.
— Ainda não podemos provar isso. Mas vamos tentar.
— Vocês acreditam em mim agora? Todos vão acreditar em mim.
— Eles deveriam ter acreditado em você desde o início.
Carolina estava chorando de novo. Beto tinha a cabeça entre as mãos.
— Eu sabia… eu sabia que algo não estava certo sobre aquele acidente.
— Mas o boletim de ocorrência foi escrito pelos colegas do Bastos — disse Marcos. — Eles acreditaram na palavra dele. Não investigaram mais a fundo. Mas agora estamos investigando.
Às 13h, eles retornaram à sala de audiências. Desta vez, a galeria estava ainda mais lotada. A notícia havia se espalhado. Não era mais apenas uma audiência de custódia. Era uma investigação de assassinato.
A juíza Carrion sentou-se, olhou diretamente para Marcos.
— Doutor Wellington, entendo que o senhor tem novas evidências.
— Sim, Meritíssima. O autor chama Enrico Vasquez.
Rico foi ao banco das testemunhas, fez o juramento, apresentou suas credenciais. Marcos se aproximou.
— Senhor Vasquez, qual sua profissão?
— Sou mecânico automotivo certificado. 22 anos de experiência, especializado em reconstrução de acidentes e inspeções de segurança de veículos.
— O senhor foi solicitado a examinar um veículo relacionado a este caso?
— Sim. O Honda Accord 2013 de Sara Moraes, pátio número 743.
— O que o senhor encontrou?
— A linha de freio havia sido deliberadamente cortada. Parcialmente seccionada com uma lâmina afiada. O corte era limpo. Não um rasgo, não corrosão. Um ato deliberado de sabotagem.
A sala explodiu. Carrion bateu o martelo repetidamente. Bastos estava de pé novamente.
— Isso é palhaçada! Eu não toquei naquele carro!
— Oficial Bastos, mais um surto e eu o considerarei em desacato.
Os advogados de Bastos o puxaram para baixo, sussurraram urgentemente em seu ouvido. Marcos continuou.
— Senhor Vasquez, em sua opinião profissional, o que aconteceria com um veículo com uma linha de freio cortada?
— Após vários quilômetros de condução, o fluido hidráulico vazaria completamente. O motorista não teria freios. Em alta velocidade, isso é fatal.
— Isso poderia ter sido desgaste acidental?
— Não. O corte é preciso demais, limpo demais. Isso foi deliberado.
— Quanto tempo antes do acidente este corte teria sido feito?
— Com base nos padrões de corrosão, eu estimaria de 4 a 6 horas.
— Então, quem quer que tenha cortado aquela linha sabia que a Sara estaria dirigindo naquela noite.
— Objeção! — gritou Kessler. — Especulação.
— Acolhida. Doutor Wellington, atenha-se aos fatos.
— Sem mais perguntas.
Kessler se aproximou.
— Senhor Vasquez, você disse que o corte foi feito de 4 a 6 horas antes do acidente. Pode determinar quem fez esse corte?
— Não.
— Pode dizer com certeza que meu cliente estava perto daquele veículo?
— Não.
— Então, pelo que sabemos, a Sara Moraes poderia ter inimigos, poderia dever dinheiro, poderia…
— Objeção! — disse Marcos. — Agora, o advogado está especulando.
— Retirada. Senhor Vasquez, é possível que outra pessoa tenha cortado aquela linha de freio?
— É possível.
— Sem mais perguntas.
Mas o estrago estava feito. A semente estava plantada. A juíza Carrion recostou-se.
— Isso é muito para processar. Doutor Wellington, o senhor contatou a polícia sobre esta nova evidência?
— Estamos preparados para fazê-lo imediatamente, Meritíssima.
— Faça isso. Porque se o que o senhor Vasquez diz é verdade, estamos falando de homicídio. Mas agora, preciso tomar uma decisão sobre a segurança imediata de Lilian. — Ela olhou para Bastos. — Oficial Bastos, de pé.
Ele se levantou. Seu rosto estava pálido.
— Oficial Bastos, não sei se o senhor matou sua esposa. Isso cabe ao sistema de justiça criminal determinar. Mas sei disto: há evidências suficientes para sugerir que Lilian não está segura sob seus cuidados. Os ferimentos, o testemunho, as circunstâncias. Não posso, em sã consciência, enviá-la para casa com o senhor enquanto se aguarda uma investigação mais aprofundada.
— Meritíssima, eu não…
— Não terminei. Com efeito imediato, estou concedendo a custódia temporária de emergência a Tomás Dantas. O senhor está proibido de contatar Lilian, exceto através de visitas supervisionadas aprovadas. Uma audiência de custódia completa será agendada em 30 dias. Até lá, ela fica com o senhor Dantas.
O martelo bateu.
Lili desabou em lágrimas, mas desta vez eram lágrimas de alívio. O rosto de Bastos se contorceu.
— A senhora está cometendo um erro.
— Se estou, corrigiremos em 30 dias. A sessão está encerrada.
Todos se levantaram. Bastos caminhou furiosamente em direção à saída, parou na mesa de Falcão, inclinou-se perto.
— Isso não acabou — ele sibilou.
Falcão encontrou seus olhos.
— Sim, acabou.
Bastos saiu, seus advogados correndo atrás dele. Falcão virou-se para Lili. Ela se jogou em seu pescoço, soluçando.
— Eu não tenho que voltar. Eu não tenho que voltar!
— Não, garota. Você está segura agora. Você vem para casa comigo.
Carolina e Beto se juntaram ao abraço. Os Lobos de Aço na galeria aplaudiram. Até o oficial de justiça estava sorrindo. Marcos apertou a mão de Falcão.
— Nós conseguimos.
— Não. Ganhamos tempo. Agora provamos que ele matou a Sara.
— Isso é com a polícia agora.
— A mesma polícia que o acobertou antes? Não. Nós terminamos isso sozinhos.
Fora do tribunal, os Lobos de Aço estavam esperando. Quando Lili apareceu, eles explodiram em vivas, aplaudindo. Mestre se aproximou, estendeu um pequeno pacote.
— Isto é para você, Lili.
Ela abriu. Dentro havia uma jaqueta de couro, tamanho infantil, com um emblema nas costas. “Lobos de Aço – Família”.
— Você é uma de nós agora — disse Mestre. — A família cuida da família.
Lili vestiu. Serviu perfeitamente. Diesel se aproximou.
— Falcão. O Snake acabou de ligar. O Bastos não foi para casa. Ele foi ao banco. Sacou uma grande quantia em dinheiro.
O estômago de Falcão gelou.
— Quanto?
— R$ 200.000.
— Ele está fugindo.
— Foi o que pensei.
Marcos ouviu.
— Se ele fugir, é uma admissão de culpa.
— E se ele escapar, a Lili nunca estará segura.
Falcão pegou o celular. Ligou para Snake.
— Onde ele está agora?
— Sentido leste na Fernão Dias. Dirigindo rápido.
— Fique com ele. Estou indo. — Ele desligou. Olhou para Marcos. — Leve a Lili para um lugar seguro. Rosa, fique com ela. Diesel, Mestre, vocês vêm comigo.
— Falcão — avisou Marcos —, se você for atrás dele…
— Não vou deixá-lo fugir. Ele matou a Sara. Ele machucou a Lili. E ele não vai escapar.
Ele beijou a testa de Lili.
— Fique com seus avós. Volto logo.
— Onde você vai?
— Garantir que você nunca mais precise ter medo.
Então ele montou em sua Harley. Diesel e Mestre ao seu lado. Três motos rugiram para fora do estacionamento, perseguindo um homem que não tinha mais nada a perder.
A rodovia se estendia à frente como uma fita de calor e asfalto. A Harley de Falcão rugia a 150 km/h. Diesel e Mestre o flanqueavam. Seu celular estava preso no guidão, a voz de Snake crepitando pelo alto-falante.
— Ele ainda está na Fernão Dias, sentido leste, passando pelo marco 178. Um Dodge Charger preto, a uns 140 por hora.
— A que distância? — gritou Falcão por cima do barulho do motor.
— Talvez 15 quilômetros. Mas, Falcão, ele está dirigindo de forma errática, ziguezagueando. Pode estar bêbado ou apenas em pânico.
— Fique com ele. Não o perca de vista.
— Entendido.
Diesel se aproximou.
— Falcão, qual é o plano aqui? Não podemos forçá-lo a sair da estrada. Isso é agressão. Justiça com as próprias mãos.
— Não pretendo machucá-lo. Só preciso impedi-lo de desaparecer.
— E se ele não quiser ser encontrado?
— Então fazemos barulho suficiente para que a polícia tenha que responder.
A voz de Mestre veio pelo fone de ouvido de Falcão.
— Liguei para o Torres no hospital, expliquei a situação. Ele está contatando a Polícia Rodoviária Federal. Estão enviando unidades agora.
— Bom. Quanto tempo?
— Vinte minutos, talvez trinta. O Bastos pode estar no Rio de Janeiro até lá.
— Então ganhamos tempo.
Eles aceleraram mais. As motos gritavam pela rodovia. Outros motoristas desviavam. Alguns buzinavam. Outros pegavam os celulares para gravar. A mente de Falcão corria. Se Bastos cruzasse a divisa do estado, isso se tornaria federal. Mais complicações. Mais atrasos. Mais chances de ele desaparecer.
Seu celular vibrou. Mensagem de Marcos. “Não faça nada estúpido. Deixe a polícia cuidar disso.”
Ele não respondeu. Outra vibração. Desta vez de Carolina. “Lili está perguntando por você. Ela está com medo.”
Ele digitou de volta com uma mão. “Diga a ela que estou garantindo que ela fique segura. Volto logo.”
À frente, o trânsito diminuiu. Obras na pista. Cones laranja estreitando três pistas para uma.
— Droga — resmungou Diesel pelos comunicadores. — Vamos perder tempo aqui.
Mas Falcão viu uma abertura. O acostamento era largo o suficiente. Quase.
— Sigam-me. Fiquem juntos.
Ele desviou para a direita, acelerou pelo acostamento passando pelos carros parados. Buzinas soaram, alguém gritou, mas eles continuaram se movendo. Mestre seguiu. Depois Diesel. Três motos costurando o caos. Uma viatura da PRF estava na entrada da obra. O policial os avistou, ligou as luzes.
— Temos companhia — disse Mestre.
— Continuem. Explicamos depois.
A viatura tentou segui-los pelo acostamento, mas o equipamento da obra a bloqueou. Eles ganharam distância. A voz de Snake.
— Estou vendo vocês. Estão a uns 10 quilômetros atrás agora. O Bastos acabou de pegar a saída 184, sentido sul na MG-050.
— Para onde isso vai?
— Meio do nada. Estradas de terra, cidadezinhas. Pode estar tentando nos despistar.
Falcão pegou a saída com força, inclinou-se na curva. A moto protestou, mas aguentou. A MG-050 era de duas pistas, vazia, o tipo de estrada onde se pode desaparecer se souber para onde está indo.
— Tenho contato visual — disse Snake. — Meio quilômetro à frente. Ele está diminuindo.
— Por que ele diminuiria?
— Não sei. Espere, ele está virando. Estrada de terra para o leste, sem sinalização.
— Fique para trás. Não deixe que ele te veja.
Falcão diminuiu a velocidade. Diesel e Mestre o acompanharam. Eles se aproximaram da entrada de terra com cuidado. A estrada levava a um matagal. Sem casas, sem estruturas, apenas deserto e vegetação seca sem fim.
— Isso é uma armadilha — disse Diesel. — Ele sabe que estamos seguindo. Ou está desesperado e sem opções. De qualquer forma, estamos expostos aqui.
Falcão parou, desligou o motor. Os outros fizeram o mesmo. Snake chegou 30 segundos depois em sua moto.
— Ele está a cerca de um quilômetro para dentro. Parado. Apenas parado.
— Fazendo o quê?
— Não sei. Mas o carro está ligado. Luzes acesas.
Mestre desmontou. Tirou binóculos de sua alforje. Escaneou a área.
— Vejo o carro. O Bastos está dentro. Parece que está ao telefone.
— Ligando para quem?
— Não dá para dizer. Mas ele está agitado. Com raiva.
O telefone de Falcão tocou. Número desconhecido. Ele atendeu.
— Sim.
— Dantas — a voz de Bastos, tensa, raiva controlada. — Você me custou tudo.
— Você custou a si mesmo tudo quando colocou as mãos naquela garota.
— Ela mentiu. Eu nunca a toquei.
— Os laudos médicos dizem o contrário.
— Laudos médicos podem ser interpretados de uma dúzia de maneiras. Mas você envenenou a juíza contra mim. Trouxe sua gangue para intimidar o tribunal. Você me fez parecer culpado.
— Você é culpado. Você matou a Sara.
Bastos riu. Frio. Amargo.
— Você não tem prova disso.
— Temos a linha de freio. Temos o testemunho do Rico. Temos a ligação da Sara para a mãe dela. Acabou, Bastos.
— Não acaba até que eu diga que acabou. Para onde você está indo? Qual é o plano? Fugir para o Paraguai? Começar de novo?
— Não estou fugindo. Estou pensando.
— Pensando em quê?
— Em como minha vida seria mais fácil se a Lilian simplesmente desaparecesse.
O sangue de Falcão gelou.
— O que você disse?
— Você me ouviu. Todos os meus problemas desaparecem se ela não estiver por perto para testemunhar. Sem testemunha, sem caso. Apenas um trágico acidente.
— Se você tocar nela, você é um homem morto.
— Palavras ousadas. Mas você não pode protegê-la para sempre. Você tem seus motoqueiros, eu tenho meus irmãos de farda. Policiais por todo o estado. Você acha que eles vão deixar você ficar com ela? Acha que vão escolher um motoqueiro em vez de um dos seus?
— A juíza já escolheu.
— Custódia temporária. Isso não é final. Vou apelar. Vou lutar. E, eventualmente, vou tê-la de volta.
— Você nunca mais vai tê-la de volta.
— Veremos. — A voz de Bastos baixou. — Eis o que vai acontecer. Você vai largar essa cruzada. Vai dizer à juíza que cometeu um erro, que a Lili está confusa, que sou um bom pai que cometeu alguns erros de julgamento, mas merece outra chance.
— Isso nunca vai acontecer.
— Então vou garantir que a Lilian não viva o suficiente para fazer 15 anos.
— Você está ameaçando uma criança?
— Estou te dizendo como isso termina se você não recuar.
A mão de Falcão apertou o telefone.
— Onde você está agora, Bastos?
— Perto o suficiente.
— Perto o suficiente de quê?
— Perto o suficiente para terminar o que comecei.
A linha ficou muda.
O coração de Falcão martelou.
— Ele acabou de ameaçar a Lili. Precisamos voltar. Agora!
Diesel já estava montando em sua moto.
— Ligue para a Rosa. Certifique-se de que ela esteja trancada.
Falcão discou. Tocou quatro vezes. Cinco. Seis. “Vamos. Atende.” Finalmente.
— Falcão?
— Rosa, onde está a Lili?
— Ela está comigo e com os avós. Estamos no hotel. Quarto 412. Por quê? O que há de errado?
— O Bastos acabou de ameaçá-la. Tranque a porta. Não abra para ninguém. Estou enviando o Big Tommy e outros três para te protegerem. Estamos voltando.
— Falcão, você está me assustando.
— Bom. Continue assustada. Fique alerta. Vou ligar para a polícia, mas até lá, presuma que ele está indo atrás dela.
Ele desligou. Discou para Torres.
— Torres, é o Falcão. O Bastos ameaçou a Lili diretamente em uma ligação gravada. Preciso de unidades no Hotel Desert Star, quarto 412. Agora!
— Calma. O que ele disse?
— Ele disse: ‘Se eu não recuar, ela não viverá para ver os 15’. Isso é uma ameaça de morte contra um menor. Você precisa agir agora!
Torres praguejou.
— Estou acionando. Fique onde está.
— Estou a 20 minutos daí! Mande alguém mais rápido!
Falcão desligou, olhou para Mestre e Diesel.
— Vamos voltar rápido.
Snake falou.
— E o Bastos? Ele ainda está aqui.
— Deixe a PRF encontrá-lo. A Lili é mais importante.
Eles montaram. Os motores rugiram. Mas antes que pudessem se mover, Snake ergueu a mão.
— Espere. Ele está se movendo de novo.
Falcão desligou o motor.
— Qual direção?
Mestre ergueu os binóculos.
— De volta para a rodovia. Ele está vindo nesta direção.
— Saiam da estrada, agora!
Eles empurraram as motos para o mato, agacharam-se, esperaram. Trinta segundos depois, o Charger de Bastos passou rugindo. Ele não diminuiu a velocidade. Nem mesmo olhou na direção deles.
— Ele está voltando para BH — disse Diesel. — Ele está indo atrás da Lili.
Falcão não esperou. Ligou a moto, disparou de volta para a estrada. A perseguição recomeçou, mas desta vez as apostas eram mais altas. Bastos tinha uma vantagem, talvez 5 quilômetros. Mas ele não sabia que Falcão estava logo atrás dele.
Eles pegaram a Fernão Dias, sentido oeste, a todo vapor. O velocímetro de Falcão passou de 150, 160.
— Falcão, isso é loucura! — gritou Diesel pelos comunicadores. — Vamos bater!
— Então batemos. Não vou deixá-lo chegar até ela.
A voz de Mestre.
— A PRF acabou de informar. Estão montando um bloqueio no marco 165. Se o Bastos estiver indo para o oeste, eles o pegarão.
— E se ele pegar uma estrada secundária?
— Então ficamos com ele.
Marco 175… depois 172… depois 169. Falcão viu o bloqueio à frente. Quatro viaturas, luzes piscando, policiais prontos. E lá, tentando frear bruscamente, estava o Charger de Bastos. Ele derrapou. Fumaça saía de seus pneus. Ele desviou para a direita, tentou contornar, mas uma viatura o cortou. O carro de Bastos bateu na barreira de proteção do acostamento. Metal se contorceu. O airbag disparou.
Falcão diminuiu a velocidade, parou 50 metros atrás, desligou o motor. Policiais cercaram o Charger, armas em punho, gritando ordens. Bastos cambaleou para fora, mãos para o alto, sangue escorrendo do nariz. Mas ele estava consciente, alerta. Um policial o algemou, outro leu seus direitos.
Falcão desmontou, aproximou-se. Um policial rodoviário federal se interpôs.
— Senhor, fique para trás.
— Aquele é o homem que ameaçou uma garota de 14 anos. Fui eu quem ligou.
O policial o estudou.
— Você é o Dantas?
— Sim.
— O Torres confirmou sua história. Disse que você tem mantido a garota segura.
— Isso mesmo.
— Bem, ele não vai a lugar nenhum agora. Temos ele por direção perigosa, fuga e ameaça terrorista. O juiz adicionará as acusações de assassinato assim que processarmos as evidências da linha de freio.
Falcão olhou para Bastos. Seus olhos se encontraram. Bastos cuspiu sangue.
— Isso não acabou, Dantas.
— Sim, acabou.
— Você acha que venceu? Acha que o sistema vai deixar um motoqueiro criar a filha de um policial?
— Ela não é sua filha. Nunca foi.
Bastos avançou, mas os policiais o seguraram.
— Eu vou sair! — ele gritou. — E quando eu sair, ela está morta! Você me ouve? Morta!
Os policiais o arrastaram para uma viatura, o empurraram para dentro. Ele continuou gritando até que bateram a porta.
Falcão ficou ali, respirando com força, as mãos tremendo. Diesel se aproximou, deu um tapa em seu ombro.
— Acabou, irmão.
— Acabou?
— Ele vai ficar preso por muito tempo. O assassinato da Sara, o abuso da Lili, as ameaças. Ele está acabado.
Mestre se juntou a eles.
— A PRF está coordenando com a Polícia Civil de BH. Investigação completa. Eles estão reabrindo o caso da Sara. O Bastos não vai escapar desta.
Falcão pegou o celular. Ligou para Rosa.
— Falcão, o que está acontecendo?
— Acabou. O Bastos está sob custódia.
— A Lili está bem?
— Ela está aqui. Está segura. O Big Tommy e os outros estão do lado de fora do quarto. Estamos bem.
— Diga a ela que estou indo. Diga a ela que nunca mais precisará ter medo.
— Direi, Falcão. Você conseguiu. Você manteve sua promessa.
Ele desligou. Olhou para seus irmãos.
— Vamos para casa.
A viagem de volta para Belo Horizonte pareceu diferente, mais leve. O peso de dezesseis anos se erguendo dos ombros de Falcão. Eles chegaram ao Hotel Desert Star assim que o sol começou a descer. Os Lobos de Aço estavam esperando no estacionamento. Quando viram Falcão, Diesel e Mestre, eles explodiram em vivas.
Falcão desmontou, caminhou pela multidão, subiu as escadas até o quarto andar. Quarto 412. Ele bateu.
— Sou eu, Falcão.
A porta se abriu. Rosa estava lá, sorriu. Atrás dela, Lili sentava na cama. Carolina e Beto ao seu lado. Quando ela viu Falcão, pulou, correu para ele, jogou os braços em volta de sua cintura.
— Você voltou!
— Eu prometi que voltaria.
— Ele realmente se foi?
— Ele está na cadeia. Não vai sair. Não por muito, muito tempo.
Ela soluçou em seu peito. O alívio escorrendo dela. Carolina se aproximou, abraçou os dois.
— Obrigada, Falcão. Obrigada por não desistir.
Beto estendeu a mão.
— O Jairo estaria orgulhoso. Você manteve sua palavra.
Falcão apertou-a.
— Eu deveria tê-la mantido mais cedo.
— Você está aqui agora. É o que importa.
Marcos apareceu na porta.
— Acabei de receber notícias do Ministério Público. Estão apresentando acusações. Homicídio qualificado pela morte da Sara. Abuso de incapaz agravado pela Lili. Ameaça terrorista… e estão investigando fraude financeira. Aquelas contas bancárias que a Sara encontrou… acontece que o Bastos estava desviando do depósito de provas, vendendo drogas confiscadas. Ele está enfrentando prisão perpétua.
Falcão fechou os olhos. Finalmente, justiça.
— O que acontece agora? — perguntou Lili.
— Agora vamos para São Paulo. Vamos te matricular na escola. Encontrar um terapeuta. Descobrir como ser uma família.
— Só nós?
Ele sorriu.
— Não, não só nós. Você tem a Carolina e o Beto. Você tem a Rosa e o Marcos, o Diesel e o Mestre e outras 97 pessoas que largarão tudo se você precisar. Você tem os Lobos de Aço. Você tem família, garota. Família de verdade.
— E você? Você vai ser meu pai?
Falcão se ajoelhou, olhou-a nos olhos.
— Não sou seu pai. Nunca poderia substituir o Jairo. Mas vou estar aqui todos os dias. Para cada evento escolar, cada momento difícil e cada vez que você precisar de alguém. Não vou a lugar nenhum. Prometo.
— Pelo túmulo do seu pai.
— Eu prometo.
Ela o abraçou de novo. Mais forte desta vez.
Mais tarde naquela noite, eles se reuniram no estacionamento do hotel. Todos os 97 Lobos de Aço. Carolina e Beto, Marcos, Rosa, Torres, que veio prestar suas homenagens, até alguns funcionários do hospital que acompanharam a história.
Mestre deu um passo à frente, ergueu a pequena jaqueta de couro, aquela com o emblema dos Lobos de Aço.
— Lilian Moraes — disse ele, sua voz ecoando pelo pátio. — Seu pai foi um guerreiro. Sua mãe foi uma lutadora. E você, você é uma sobrevivente. Hoje, nós rodamos por você. E amanhã, e todos os dias depois, continuaremos rodando. Porque você é uma de nós agora. Sua família, os Lobos de Aço.
Ele colocou a jaqueta sobre os ombros dela. Lili olhou para o emblema, para os pilotos, para Falcão.
— Obrigada — ela sussurrou. — A todos vocês. Obrigada por aparecerem.
Diesel sorriu.
— É o que fazemos, garota. Alguém precisa de ajuda, nós vamos.
— Falando em ir — disse Mestre —, temos uma longa viagem de volta para São Paulo. Lili, você já andou de moto?
Ela balançou a cabeça. Falcão sorriu.
— Quer mudar isso?
Seus olhos se arregalaram.
— Sério?
— Se seus avós permitirem.
Carolina hesitou, depois assentiu.
— Apenas tenha cuidado.
Falcão ajudou Lili a subir em sua Harley. Entregou-lhe um capacete.
— Segure firme. Não solte.
— Não vou.
Ele ligou o motor. O ronco ecoou pelo estacionamento. Um por um, as outras motos ligaram. 97 motores rugindo em uníssono. E então eles se moveram. Um comboio seguindo para o oeste, em direção a casa. Em direção à cura. Em direção a um futuro que finalmente parecia brilhante.
Lili envolveu os braços na cintura de Falcão, segurou-se como se sua vida dependesse disso. Em seu espelho, Falcão a viu sorrir. Pela primeira vez em dois anos, ela parecia uma criança de novo. Assustada, sim, de luto, absolutamente, mas também esperançosa.
Eles rodaram pela luz que se esvaía, passando pelo asfalto, pelas montanhas, pela dor. Diesel se aproximou, fez um sinal de positivo. Mestre, do outro lado, saudou. Atrás deles, mais 94 pilotos, um exército de estranhos que se tornaram família.
Falcão pensou em Jairo, na promessa que fizera na poeira e no sangue de uma terra distante, nos dezesseis anos que desperdiçara duvidando de si mesmo. Mas ele estava aqui agora, e Lili também, e isso era o suficiente. A rodovia se estendia à frente, aberta, infinita, cheia de possibilidades.
— Tio Falcão? — a voz de Lili era pequena contra o vento.
— Sim, garota.
— Você acha que meu pai pode nos ver?
A garganta de Falcão apertou.
— Sim. Acho que ele pode.
— Você acha que ele está orgulhoso?
— Tenho certeza que sim.
Ela apoiou a cabeça em suas costas.
— Bom. Porque eu também estou.
Eles seguiram noite adentro, para o que quer que viesse a seguir. Porque promessas não eram apenas palavras. Eram ações. Eram aparecer quando importava. Eram 97 pessoas que não conheciam uma garota, mas rodaram 600 quilômetros de qualquer maneira. Eles eram família. E família, família de verdade, nunca desiste. Nunca. De ninguém.
O comboio desapareceu no horizonte. Motores rugindo, luzes brilhando, levando uma garota em direção à segurança, ao pertencimento… ao lar. E naquele momento, sob o vasto céu estrelado, com os Lobos de Aço cavalgando ao seu lado, e um homem que finalmente cumpriu sua promessa segurando o guidão, Lilian Moraes não estava mais sozinha.
Ela estava protegida. Ela era amada. Ela era família.
E esse era o único final que realmente importava.