Fingi ser um mendigo para testar o coração de uma mulher. A humilde faxineira me deu seu último centavo, mas quando descobriu minha verdadeira identidade como milionário, a lição que ela me ensinou quase me destruiu.
Minhas roupas desbotadas coçavam. Minha barba por fazer de três dias era um lembrete constante da farsa que eu estava vivendo. Ao meu lado, Gabriel, meu filho de oito anos, observava a cena com olhos que brilhavam, não de entusiasmo, mas com uma compreensão que ia além da sua idade.
“Mas Gabriel é muito magro”, insistiu Isabela, ajoelhando-se para ficar na altura do menino. “Uma criança não consegue ficar forte sem uma boa nutrição.”
Senti um aperto no peito, uma mistura de vergonha e admiração. Isabela vestia um uniforme azul simples de faxineira, tênis surrados e um cansaço no olhar que denunciava uma vida inteira de trabalho árduo por cada euro. Era evidente que aqueles cem euros significavam tudo para ela, e mesmo assim, ela tentou me dar.
—Tia Isabela—, disse Gabriel em voz baixa, com uma seriedade que me desarmou—, meu pai não gosta de aceitar ajuda, mas às vezes é preciso engolir o orgulho, não é?
Isabela ergueu os olhos e olhou diretamente nos meus.
—Especialmente quando há crianças envolvidas—, afirmou ele.

Há duas semanas, tomei a decisão mais drástica da minha vida. Cansado de mulheres superficiais que só se aproximavam de mim por causa da minha fortuna, decidi me desfazer de tudo que me definia. Ricardo Costa, o empresário, permaneceu trancado em sua mansão. Em seu lugar, nasceu um operário desempregado, um pai solteiro lutando para criar o filho. Aluguei um pequeno apartamento em um bairro operário, comprei roupas de segunda mão e mergulhei em uma realidade que eu só havia vislumbrado da janela do meu carro de luxo.
O plano era simples: encontrar uma mulher capaz de amar Gabriel por quem ele era, sem saber que ele era o herdeiro de um império. Jamais, nem nos meus sonhos mais loucos, imaginei que encontraria Isabela.
“Escute”, disse ela, colocando as notas na minha mão com uma delicadeza que contrastava com a firmeza do seu gesto. “Eu sei o que é passar por dificuldades. Minha mãe me criou sozinha, trabalhando como faxineira, assim como eu. Eu sei o que é olhar para o seu filho e não ter nada para lhe dar.”
Permaneci em silêncio, agarrando-me a um dinheiro que poderia multiplicar mil vezes sem que minha conta bancária percebesse. Mas para Isabela, aqueles cem euros provavelmente representavam dois ou três dias de trabalho árduo.
“Por que você está fazendo isso?”, perguntei, com a voz carregada de uma emoção genuína que surpreendeu até a mim mesma.
“Porque as crianças não têm culpa da situação dos pais”, ela fez uma pausa, olhando para Gabriel com uma ternura que tocou minha alma. “E porque essa criança me lembra meu irmãozinho quando éramos pequenos. Os mesmos olhos doces, a mesma timidez.”
Gabriel sorriu para ela, e naquela simples conexão vi algo que não testemunhava há anos: uma pureza altruísta.
—Tia Isabela— disse Gabriel—, você quer ser nossa amiga?
—Claro, meu amor.
Naquele exato momento, uma mulher elegante passou por nós. Vestido caro, sapatos de grife, cabelo impecável de salão. Ela nos olhou com um desdém tão evidente que eu quase pude senti-lo.
“Que absurdo”, murmurou ele ao celular. “Deixam qualquer vagabundo ficar em frente aos prédios. É uma vergonha para o bairro.”
Isabela ouviu-a e seu rosto endureceu. Vi raiva genuína em seus olhos.
“Escória?”, ela se levantou, olhando para a mulher com uma dignidade que a fazia parecer uma gigante. “Estamos aqui conversando, não incomodando ninguém. Não há motivo para desrespeito.”
“Não fui desrespeitada”, respondeu a mulher com desdém. “Acho simplesmente que você deveria encontrar o seu lugar.”
“Nosso lugar?” Eu também me levantei, sentindo uma raiva que não experimentava há muito tempo. “E o que é o nosso lugar, segundo você? Um desempregado, uma faxineira, uma criança malvestida… não nos encaixamos em um bairro ‘decente’, é isso?”
O silêncio que se seguiu foi tenso. Gabriel se escondeu atrás de mim, assustado com a hostilidade da mulher.
“Senhora”, disse Isabela com uma calma que me impressionou, “trabalho honestamente para sustentar minha família. Limpo, organizo e cuido das coisas. Não devo explicações a ninguém sobre meu caráter.”
“Caráter?”, riu a mulher cruelmente. “Que tipo de caráter é esse, se oferecendo a um homem no meio da rua?”
“Eu não estava me oferecendo!” Gabriel gritou de repente, saltando de trás das minhas pernas. “Eu estava sendo gentil, algo cujo significado você desconhece!”
A mulher ficou boquiaberta com o acesso de raiva do menino. Senti uma onda de orgulho, mas também de preocupação.
—Gabriel, se acalme!
“Não vou me acalmar!” continuou ela, com lágrimas de indignação brotando em seus olhos. “Isabela é boa, ela queria nos ajudar, e essa mulher má está sendo cruel!”
“Seu filho é malcriado”, disse a mulher rispidamente. “Você deveria ensiná-lo a ter respeito.”
“Respeito?”, perguntei, sentindo algo dentro de mim se quebrar. “Respeito é o que meu filho está demonstrando, defendendo alguém que foi gentil conosco.”
“Esquece, Ricardo”, disse Isabela, tocando meu braço. “Essas pessoas não valem a pena.”
A mulher se afastou balançando a cabeça, murmurando algo sobre “escória”. Pensei em quantas vezes compartilhei a mesa com pessoas exatamente como ela no meu mundo de empresário milionário.
“Tia Isabela”, disse Gabriel, ainda tremendo de raiva, “não dê ouvidos a ela. Você é muito melhor do que ela.”
Isabela ajoelhou-se e o abraçou com força.
—Obrigado por me defender, meu amor. Você é um menino muito corajoso.
Ao assistir à cena, meu coração disparou. Há quanto tempo alguém não abraçava Gabriel com tanto carinho? Há quanto tempo alguém não se importava tanto com os sentimentos dele?
“Isabela”, eu disse, “aceito sua ajuda, mas com uma condição.”
-Qual?
—Devolvo assim que encontrar um emprego.
Isabela sorriu.
—Fechado. Mas agora, que tal você subir? Vou preparar um café para você.
Hesitei. Aceitar significava mergulhar ainda mais na mentira. Mas Gabriel já estava puxando minha manga.
—Pai, vamos.
—Está bem, Isabela. Tudo bem, filho.
Subimos até o pequeno apartamento onde Isabela morava com sua mãe idosa. Dois cômodos simples, mas impecavelmente limpos e arrumados, com um carinho palpável. Móveis antigos, mas bem conservados. Plantas na janela, fotos de família na parede.
—Mamãe— ligou para Isabela—, tenho uma visita.
Uma mulher na casa dos sessenta anos saiu da cozinha. Magra, com cabelos grisalhos, mas com um sorriso acolhedor.
—Eles são nossos vizinhos, Ricardo e Gabriel. Estão passando por um momento difícil.
“Claro!” disse Dona Lourdes imediatamente. “Sentem-se, sentem-se. Fiquem à vontade. Vou esquentar o café e tem um bolo de milho que fiz ontem.”
Olhei em volta daquela casa humilde e senti algo que não sentia na minha própria mansão há muito tempo: uma acolhida genuína, sem interesses pessoais, sem cálculos, sem segundas intenções.
“Papai”, Gabriel sussurrou no meu ouvido. “É mais agradável aqui do que na nossa outra casa.”
O comentário inocente do meu filho me atingiu como um soco. Ele se referia à mansão de três milhões de euros que tínhamos deixado para trás, e ainda assim preferia esta casa humilde onde era recebido com um carinho que o dinheiro não podia comprar.
“Por quê, filho?”, sussurrei de volta.
—Porque eles gostam muito de nós aqui.
Isabela voltou da cozinha com uma bandeja. Café simples, bolo caseiro, mas acompanhado de uma iguaria que eu não via desde a morte de Carolina.
—Gabriel, você gosta de bolo de milho?
“Gosto de tudo o que você faz”, respondeu o menino com uma sinceridade desarmante.
Dona Lourdes riu, comovida.
—Que criança encantadora. Sua mãe deve estar muito orgulhosa.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Gabriel baixou o olhar. Senti um nó na garganta.
“Sua mãe não está mais entre nós”, eu disse suavemente.
“Ai meu Deus!” Dona Lourdes levou a mão ao peito. “Sinto muito, querido.”
—Dois anos se passaram—, disse Gabriel com uma maturidade que não condizia com seus oito anos.
Isabela sentou-se ao lado da criança e pegou em sua pequena mão.
—Ele certamente está no céu, olhando por você.
“Acho que ela mandou você cuidar de mim e do papai”, disse Gabriel, surpreendendo a todos nós.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas. Se eu soubesse que fingir ser pobre me afetaria tanto, talvez eu não tivesse começado.
—Gabriel —Isabela disse baixinho—, você gostaria de me ajudar a regar as plantas?
-Sim!
Enquanto os dois se entretinham junto à janela, conversei com a Sra. Lourdes.
—Você tem uma filha especial —comentei.
—Isabela… ela sempre foi assim. Desde pequena. Trazia para casa animais feridos, dividia seu sanduíche com o amigo que não tinha. Um coração que não cabe no peito. O pai dela nos abandonou quando ela tinha cinco anos. Eu a criei sozinha, limpando, assim como ela faz agora.
Observei Isabela ensinando Gabriel a regar as plantas. Ela explicava tudo com paciência, sorrindo para as perguntas do menino e o tratando como se fosse seu próprio filho.
“Sra. Lourdes”, eu disse, “posso lhe fazer uma pergunta pessoal?”
—Claro, filho.
—Isabela já foi casada? Ela tem namorado?
Dona Lourdes suspirou.
—Ela já foi noiva. De um bom homem, trabalhador, ou pelo menos era o que parecia. Mas quando ele descobriu que eu estava doente e que ela teria que cuidar de mim para sempre, ele desapareceu.
—Ele desapareceu?
—Ele disse que não queria assumir os problemas dos outros. Que cada um deveria lidar com os seus próprios.
Senti uma raiva imensa daquele homem que eu nem conhecia. Como alguém poderia abandonar uma mulher como Isabela?
—Desde então, ela não quer saber de nada sobre relacionamentos. Diz que os homens só trazem problemas, que é melhor cuidar da família e trabalhar.
“Papai!” gritou Gabriel da janela. “Venha ver! A tia Isabela disse que eu posso vir todos os dias regar as plantas!”
Aproximei-me. Isabela estava sorrindo, com terra nas mãos, mostrando a Gabriel como cuidar de uma violeta.
—Tia Isabela— perguntou Gabriel de repente—, você gostaria de ser minha mãe?
A pergunta surgiu de forma tão natural, tão inocente, que nos pegou a todos de surpresa. Isabela corou. Dona Lourdes sorriu. Senti meu coração acelerar.
“Gabriel…” Tentei intervir.
“O que houve, meu amor?”, perguntou Isabela docemente.
—A gente acabou de se conhecer, mas eu já gosto muito de você. E você é tão boa quanto a mamãe era.
Isabela olhou para mim, sem saber o que dizer. Eu também não sabia. A situação estava saindo do controle de uma forma completamente inesperada.
“Seu pai encontrará uma namorada algum dia”, disse Isabela diplomaticamente.
“Eu não quero qualquer namorada para o papai”, respondeu Gabriel com uma seriedade impressionante. “Eu quero alguém que realmente me ame, como você.”
Fiquei estupefato. Com apenas oito anos, Gabriel havia resumido exatamente o que eu vinha procurando há meses.
“Gabriel”, eu disse, “acho que devemos ir agora. Isabela precisa descansar.”
Ela nos acompanhou até a porta. Pouco antes de nos despedirmos, aconteceu algo que jamais esquecerei. Isabela me disse em voz baixa, para que Gabriel não a ouvisse:
—Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa mesmo, me ligue. Crianças são sagradas.
E ele colocou outra coisa na minha mão. Quando abri, vi que eram mais cinquenta euros.
—Isabela, não posso aceitar isso.
—Sim, você pode. E isso não é um empréstimo. É ajuda de verdade, de coração.
Olhei para aquela mulher simples em seu uniforme azul, que acabara de me dar 150 euros — provavelmente tudo o que havia economizado — a um homem que conhecia havia apenas algumas horas. E naquele momento, pela primeira vez desde a morte de Carolina, eu, Ricardo Costa, me apaixonei.
Acordei no dia seguinte com um peso na consciência que nunca havia sentido antes. Olhei ao redor do pequeno e simples apartamento que havia alugado e, pela primeira vez, me perguntei se não estava cometendo um erro terrível. Gabriel estava dormindo no sofá-cama ao meu lado, abraçado a um ursinho de pelúcia. Ele parecia mais calmo do que estivera em meses, e eu sabia exatamente por quê. Isabela.
Meu telefone tocou. Era Sergio, meu motorista e braço direito.
—Sr. Costa, onde o senhor está? O senhor tem uma reunião com os investidores japoneses às nove horas.
Olhei para o relógio. 8h40.
—Sergio, cancele a reunião. Diga a eles que tive uma emergência familiar.
—Senhor, esta reunião vale quinze milhões.
—Cancele isso, Sergio. E não me ligue mais neste celular, a menos que seja uma questão de vida ou morte.
Desliguei o telefone. Quinze milhões. Uma quantia que, há alguns meses, teria me feito fugir de onde quer que eu estivesse, mas que agora parecia insignificante.
“Papai…” Gabriel acordou, esfregando os olhos. “Já é dia?”
—Bom dia, campeão. Dormiu bem?
—Sonhei com a tia Isabela. Sonhei que ela seria nossa vizinha para sempre.
Senti uma pontada no peito.
—Foi um bom sonho, filho.
—O melhor sonho da minha vida.
Por volta das dez horas, bateram à porta. Era Isabela. Ela não estava usando o uniforme; vestia roupas casuais e parecia aflita.
—Ricardo, desculpe incomodá-lo.
—Entre, o que aconteceu?
—Perdi meu emprego.
Senti o chão se abrindo sob meus pés.
—Como assim você perdeu o emprego?
Ela sentou-se no pequeno sofá, com os olhos vermelhos.
—O gerente do prédio onde eu trabalhava disse que recebeu reclamações. Disseram que… eu tinha relacionamentos impróprios com as vizinhas. Que eu usava meu emprego para pegar mulheres.
Fui tomado por uma fúria cega.
—Isso é um absurdo.
—Sim, mas não adianta. Ele me demitiu na hora.
—Tia Isabela, você está triste? —Gabriel se aproximou.
—Sim, meu amor. Agora não sei como vou pagar o aluguel ou os remédios da minha mãe.
Vi um desespero genuíno em seus olhos.
—Isabela, quanto você precisa para cobrir as despesas deste mês?
Ela hesitou, visivelmente constrangida.
—Cerca de quinhentos euros. Mas, Ricardo, eu não estou te pedindo dinheiro.
—Eu sei. Só quero entender a situação.
Quinhentos euros. Era o que eu costumava gastar num único jantar. E eis que surge esta mulher, desesperada porque não conseguia juntar essa quantia.
“Vou procurar outro emprego hoje”, disse ele, levantando-se. “Talvez na padaria da Dona Maria, ou na farmácia.”
—Isabela, espere. Deixe-me ajudar você a procurar. Conheço pessoas, posso fazer algumas ligações.
“Você conhece alguém?” Ela parou e me olhou com curiosidade. “Pensei que você fosse novo na cidade.”
Percebi que tinha falado demais.
—Hum… Conheço pessoas de empregos anteriores. Na construção civil, sabe, a gente conhece todo tipo de gente.
Ela assentiu com a cabeça, mas notei um brilho diferente em seus olhos. Um brilho suspeito.
—Ricardo, posso te fazer uma pergunta?
-Claro.
—Você disse que trabalha na construção civil. Você tem mãos muito macias para alguém que trabalha nesse ramo. Não tem um único calo.
Senti um suor frio escorrer pelas minhas costas.
—Estou desempregado há meses. Os calos estão desaparecendo.
“É verdade”, disse ela, mas seu tom indicava que não estava totalmente convencida.
Naquele instante, meu celular pessoal tocou novamente. Olhei para a tela e empalideci. Era Patricia Morais, uma das interesseiras que vinha tentando se aproximar de mim antes do experimento.
“Você não vai responder?” perguntou Isabela.
Deixei tocar, mas o telefone não parava. Patricia não ia desistir.
—Sim? —Respondi, tentando disfarçar a voz.
—Ricardo, querido! Finalmente! Onde você esteve? Estou te ligando há dias.
Vi Isabela franzir a testa. A voz de Patricia era firme, e ela sabia que Isabela estava ouvindo.
“Acho que você discou o número errado”, eu disse.
—Como assim disquei o número errado? Ricardo, sou eu, Patricia. Estava pensando… que tal jantarmos hoje à noite? Posso te buscar na mansão.
Desliguei o telefone rapidamente, com o coração acelerado. Isabela me olhava com uma expressão indecifrável.
“Foi mesmo um engano?”, perguntou ele. “Que coincidência. A mulher te chamou de Ricardo e mencionou uma mansão.”
Eu me senti encurralado.
—Deve ser outro Ricardo.
“Ela deve”, disse Isabela, mas parecia não acreditar nisso.
“Papai”, disse Gabriel de repente. “Posso contar uma coisa para a tia Isabela? Sobre a nossa antiga casa, aquela grande.”
Entrei em pânico.
—Não, Gabriel.
—Mas pai, você disse que eu podia falar sobre a mamãe.
—A mãe é diferente, filho.
Isabela observava a conversa com crescente atenção.
“A casa grande, Gabriel…” ela disse.
—Sim, tia Isabela, nós morávamos em um lugar muito…
Eu pisei no pé do meu filho sem querer. Ele olhou para mim, confuso.
—O que houve, pai?
—Nada, filho. Vá brincar no seu quarto.
Quando Gabriel saiu, Isabela ficou me encarando.
—Ricardo, tem alguma coisa que você não está me contando?
-O que você está falando?
—O telefone, as mãos macias, o jeito que você fala… e agora Gabriel, falando sobre uma casa grande.
Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu de repente. Era Dona Lourdes, ofegante e tomada pelo pânico.
—Isabela, minha filha! Ainda bem que você está aqui!
—Mãe, o que houve?
—Recebi uma ligação da farmácia. Meu remédio para pressão alta acabou e eles só vendem se o pagamento for em dinheiro.
“Quanto custa, senhora Lourdes?”, perguntei.
—280 euros — ela respondeu apressadamente.
Tentei pegar minha carteira, mas desisti. Se eu tirasse quase 300 euros de uma vez, levantaria ainda mais suspeitas.
“Mãe, nós não temos esse dinheiro todo”, disse Isabela, com a voz embargada. “E menos ainda agora que perdi meu emprego.”
“E se seus remédios acabarem?”, perguntei.
“Eu poderia ter um ataque cardíaco”, respondeu a Sra. Lourdes com uma simplicidade aterradora.
O silêncio que se seguiu foi denso. Eu tinha milhões no banco, mas não podia gastar um único centavo sem me comprometer. Isabela estava desempregada. Dona Lourdes precisava do remédio para viver.
“Vou dar um jeito”, disse Isabela finalmente.
-Como?
—Vou pedir a alguém que me empreste algum dinheiro.
—Para quem? Você não conhece ninguém que tenha dinheiro.
Vi Isabela olhando para mim. Entendi o que ela estava pensando. Ela ia pedir dinheiro emprestado a um trabalhador desempregado, alguém que ela achava que também estava em apuros.
“Ricardo”, disse ela suavemente. “Por acaso você teria cinquenta euros para me emprestar? Eu sei que você também está passando por dificuldades, mas…”
Foi a situação mais cruel que já enfrentei. Uma mulher me pedindo cinquenta euros para salvar a mãe dela, e eu sem poder dar o dinheiro.
“Isabela, esquece”, disse ela rapidamente ao perceber minha hesitação. “Não seria justo te pedir isso. Você tem que apoiar o Gabriel.”
Dona Lourdes voltou para casa devastada. Isabela ficou lá, tentando pensar.
“Vou ligar para minha irmã em São Paulo”, disse ela finalmente. “Talvez ela possa mandar alguma coisa.”
Sua irmã pode ajudar?
—Não, mas é minha última opção.
Eu vi Isabela ligar, implorar, se humilhar pedindo ajuda que sabia que nunca viria. E tudo porque eu não consegui quebrar minha farsa idiota.
“Não, não… tudo bem. Obrigada mesmo assim.” Ela desligou, com os olhos marejados. “Ela também está desempregada.”
Eu não aguentava mais.
-Isabella…
—Não se preocupe, Ricardo. Eu darei um jeito.
—De que maneira?
Ele respirou fundo.
—Vou ao centro da cidade. Lá tem algumas agências de empréstimo rápido.
—Isabela, isso é loucura.
Vi aquela mulher disposta a se endividar com agiotas para salvar a mãe. E lá estava eu, capaz de resolver tudo com um telefonema, mas presa na minha própria mentira.
—Tia Isabela—Gabriel apareceu na porta—. Você vai sair?
—Sim, meu amor, mas já volto.
—Posso ir com você?
—Não, você não. Fique aqui com seu pai.
Gabriel correu e a abraçou.
—Tia Isabela, você está chorando?
—Não, meu amor, eu não estou chorando — mentiu ela, enxugando as lágrimas.
—Sim, você chora. É por causa da vovó Lourdes.
—Só um pouquinho. Vai ficar tudo bem. Minha mãe sempre dizia que Deus cuida das pessoas boas.
Quando Isabela foi embora, fiquei sozinho com meu filho, me sentindo o pior homem do mundo.
—Pai, por que você não emprestou dinheiro para a tia Isabela?
—Porque nós também estamos indo mal, filho.
“É mesmo?” Gabriel pareceu pensativo. “Pai, posso te fazer uma pergunta?”
-Sim.
—Se temos dinheiro guardado, por que você não ajuda a tia Isabela?
Fiquei paralisado.
—Quanto dinheiro você já economizou, filho?
—Aquele que você contou para o tio Sérgio por telefone. Quinze milhões.
Senti como se o mundo estivesse desabando ao meu redor. Gabriel tinha ouvido a conversa.
-Filho…
—Pai, somos ricos ou pobres?
A pergunta mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil que eu já tinha ouvido. Olhei para o menino de oito anos, tentando entender por que seu pai não estava ajudando uma pessoa boa que precisava de ajuda.
—Gabriel, sente-se aqui. Papai tem algo muito importante para lhe explicar.
Olhei para ele, sentindo o peso de todas as mentiras desabar sobre mim. Como explicar a uma criança de oito anos a confusão que você fez?
“Pai, somos ricos ou pobres?”, repetiu ele, olhando-me diretamente nos olhos.
—Nós temos dinheiro, filho. Muito dinheiro.
—Então por que moramos aqui? Por que não ajudamos a tia Isabela?
—Porque o papai está fazendo uma prova.
—Que tipo de teste?
Eu me ajoelhei para ficar na altura dele.
—Você se lembra de todas aquelas mulheres que vieram à casa depois que a mamãe faleceu? Aquelas que só estavam interessadas no meu dinheiro.
-Sim.
“Eu queria encontrar alguém que nos amasse de verdade, sem saber que tínhamos dinheiro. Por isso menti para a tia Isabela.”
—Mas pai—ela disse com uma lógica implacável—, se você mentiu para ela desde o começo, como vai saber se ela realmente gosta de nós?
Fiquei sem palavras. Gabriel tinha acertado em cheio.
—E mais uma coisa— continuou ele—. A tia Isabela gostava de nós. Ela nos dava dinheiro pensando que éramos pobres.
—É verdade, filho.
—Por que você não lhe conta a verdade?
—Porque tenho medo. Medo de que ela fique zangada. Medo de que ela não queira nos ver de novo.
Gabriel pegou na minha mão.
“Papai e mamãe sempre diziam que mentiras só trazem coisas ruins. E que quando fazemos algo errado, temos que pedir desculpas e consertar.”
—Ele estava certo.
—Então, você vai contar a verdade para a tia Isabela?
Olhei para o menino de oito anos que havia se tornado mais sábio que o pai.
—Sim, filho. Mas primeiro, preciso ajudá-la com o remédio de Dona Lourdes.
-Como?
—Vou dar um jeito de conseguir o dinheiro sem que ela suspeite de nada.
Naquele instante, ouvimos passos na escada. Era Isabela. Olhei pela janela e a vi saindo de um táxi, com uma expressão desolada.
—Pai, ele parece muito triste.
Ela bateu na porta. Quando abri, vi-a com os olhos inchados e o rosto manchado de lágrimas secas.
—Isabela, você conseguiu resolver?
“Não consegui”, disse ela, com a voz embargada. “As financeiras querem contracheques, comprovante de renda… e eu acabei de perder meu emprego. Não sei o que fazer.”
Ele se deixou cair no sofá.
“Somos nós”, eu disse.
—Ricardo, você também não está bem.
—Mas nós nos ajudamos uns aos outros, certo? Pessoas boas se ajudam.
—Tia Isabela —Gabriel se aproximou—, meu pai encontrará um jeito.
—Gabriel, meu amor, seu pai não é mágico.
“Ele não é mágico, mas é muito inteligente”, disse Gabriel, olhando para mim de forma significativa.
Eu entendi a mensagem. Era hora de agir.
—Isabela, fique aqui com Gabriel. Vou dar uma volta. Talvez eu encontre uma solução.
Saí do apartamento e liguei para o Sérgio.
“Sergio, preciso que você faça algo para mim, com total discrição. Compre o remédio para hipertensão da Sra. Lourdes na farmácia Santa Clara aqui no bairro. Custa 280 euros. Quero que você invente uma história. Diga que é uma iniciativa social da empresa, que escolhemos ajudar uma família necessitada.”
—Entendido, senhor.
—E Sérgio… vá vestido com roupas simples. Sem terno.
Uma hora depois, bateram à porta do apartamento de Dona Lourdes. Era Sergio, vestido com calça jeans e camiseta.
—Sra. Lourdes? Sou da Costa Construction. Temos um programa social e nos disseram que a senhora precisa de alguns medicamentos.
Isabela, Gabriel e eu observávamos da porta do nosso apartamento.
“Não entendo…” disse Lourdes, confusa.
“Uma vez por mês, nossa empresa escolhe uma família para ajudar. Este mês, eles escolheram você. Aqui está um suprimento de medicamentos para três meses. É um presente.”
Lourdes caiu em prantos. Isabela, ao meu lado, também chorava de emoção. Ela desceu as escadas e abraçou a mãe.
—É uma dádiva de Deus, minha filha.
Quando Sergio saiu, desci para parabenizar Lourdes e continuei com a minha apresentação.
—Que lindo—eu disse—. Ainda existem pessoas boas no mundo.
—Ricardo—Isabela me chamou de lado—. Você não tem nada a ver com isso, tem?
Meu coração disparou.
—Por que você pergunta?
—Não sei… é muita coincidência. Logo depois de você sair para uma “caminhada”, essa ajuda aparece.
—Isabela, estou desempregada, assim como você.
Ele ficou me encarando por alguns segundos.
—É verdade. Perdoe minha desconfiança.
Mas reparei que ela me olhava de um jeito estranho. As suspeitas dela estavam aumentando. Naquela noite, ela subiu para conversar comigo.
—Ricardo, obrigado.
—Por quê? Eu não fiz nada.
—Sim, você esteve lá por mim quando eu mais precisei.
Senti uma pontada de culpa.
—Isabela, posso te fazer uma pergunta? Se você descobrisse que alguém mentiu para você, mas o fez por um motivo que considerava justo, você o perdoaria?
“Depende da mentira”, respondeu ela pensativa. “Se ele mentiu para me proteger ou proteger alguém de quem gosta, talvez. Mas se ele mentiu para me testar… aí seria diferente. Ninguém tem o direito de testar ninguém mentindo. Isso é manipulação.”
Senti meu sangue gelar.
—Ricardo— ela se aproximou—. Você está escondendo algo de mim? Tenho a impressão de que você não é quem diz ser.
Antes que eu pudesse responder, Gabriel apareceu.
—Pai, não consigo dormir.
Ele sentou-se entre nós.
—Tia Isabela, você ficou satisfeita com o remédio da vovó, não ficou?
—Muito, meu amor.
“Eu sabia que tudo ficaria bem. Meu pai sempre dá um jeito quando alguém bom precisa de ajuda.”
Isabela sorriu.
—Seu pai é uma pessoa especial.
—Sim. Ele é o melhor pai do mundo. Mesmo quando comete um erro, sempre tenta corrigi-lo.
Fiquei tenso.
“E é importante perdoar, não é, tia Isabela?”, continuou o menino.
—Claro, meu amor.
—Mesmo quando a pessoa mentiu?
Isabela olhou para ele, surpresa.
—Por que você está perguntando sobre mentir, Gabriel?
—Por curiosidade.
Gabriel se despediu de Isabela e, enquanto a abraçava, sussurrou algo em seu ouvido que eu não consegui ouvir.
“O que ele te disse?”, perguntei quando ele saiu.
“Ele disse que você é um bom homem, mas que tem medo de dizer a verdade. Ricardo, de que verdade Gabriel estava falando?”
Olhei para ela. Ali estava a mulher por quem eu me apaixonara, prestes a destruir tudo.
—Isabela, se eu te contar algo muito importante, você promete que me dará a oportunidade de explicar tudo antes de me julgar?
—Você está me assustando, Ricardo.
—Você promete?
-Eu prometo.
Respirei fundo.
—Isabela… meu nome verdadeiro é Ricardo Costa. E eu não sou operário. Sou empresário. Dono da Costa Construtora.
Isabela permaneceu em silêncio por alguns segundos e, em seguida, caiu na gargalhada.
—Ricardo, você é um piadista.
“Não estou brincando, Isabela. Sou milionário. Vim morar aqui disfarçado…”
Seu riso foi se dissipando.
—Por que você está disfarçado, Ricardo?
—Para te testar. Para ver se você gostava de mim e do Gabriel sem saber que eu tinha dinheiro.
Isabela levantou-se lentamente.
—Você mentiu para mim.
—Mentir é uma palavra forte…
“MENTIRA É A ÚNICA PALAVRA!” ele explodiu. “Você fingiu ser pobre! Você me deixou gastar meu dinheiro para te ajudar! Você me deixou passar vergonha fazendo empréstimos!”
—Isabela, deixe-me explicar…
“Não!” ele deu um passo para trás. “Não chegue perto de mim. Você é um monstro. Você me enganou. Eu te dei meu dinheiro, eu te dei minha confiança… Você se humilhou por minha causa!”
Nunca tinha visto tanta dor nos olhos de ninguém.
—Isabela, eu me apaixonei por você.
“Apaixonada?”, ele riu amargamente. “Você nem me conhece. Você só conhece a versão de mim que criou nesse seu jogo cruel.”
Ele dirigiu-se para a porta.
“Aonde você vai?”, perguntei, desesperada.
—Longe de você.
—E Gabriel? Ele gosta de você.
Ele parou, tremendo de raiva.
“Gabriel é uma criança inocente que foi usada pelo próprio pai numa farsa repugnante. Nunca mais fale comigo, Ricardo. Nunca.”
Ela bateu a porta com tanta força que o prédio inteiro deve ter ouvido. Fiquei parado no meio do quarto vazio, percebendo que havia perdido a única coisa que realmente importava para mim. E desta vez, todo o dinheiro do mundo não poderia desfazer o estrago que eu havia causado.
Fiquei imóvel por quase uma hora. O silêncio era ensurdecedor. Pela primeira vez em dois anos, me senti mais sozinha do que no dia em que Carolina morreu.
“Papai?” A vozinha de Gabriel me tirou do meu torpor. “A tia Isabela já foi embora?”
Me virei. Meu filho estava parado na porta do quarto, de pijama, com os olhos cheios de lágrimas.
—Ele se foi, filho. E não vai voltar.
Eu me ajoelhei e abri os braços. Ela correu em minha direção, soluçando.
“Por que você contou a verdade para ele, pai? Agora ele se foi para sempre.”
—Eu não podia continuar mentindo para ele, filho.
—Mas agora ele nos odeia.
“Ela não te odeia, Gabriel. Ela te ama muito. Ela está zangada comigo.”
—Então por que ela não pode simplesmente ficar com raiva de você? Por que ela me deixou também?
A pergunta inocente do meu filho partiu meu coração. Eu estava pagando pelo meu erro.
—Às vezes, os adultos fazem coisas que magoam a todos, filho. Mesmo sem intenção.
—Mas você não tinha a intenção de magoar a tia Isabela.
—Não era minha intenção, mas eu fiz.
—Pai, você pode consertar?
—Não sei, filho. Acho que não tem conserto dessa vez.
—As coisas sempre podem ser consertadas quando pedimos desculpas de verdade.
—Às vezes, pedir perdão.