“Saiam da frente, ou eu os enterro com ela” — Então os Hells Angels chegaram.

O sangue manchou o chão antes que Sofia pudesse ver o rosto da mulher. Uma barriga de grávida, um lábio cortado, olhos que gritavam por socorro. Ele vai me matar. A porta se escancarou. Um homem, construído como um pesadelo, agarrou a garganta de sua esposa. Você é minha para sempre. Sofia se colocou entre eles. Ele riu. Saia da frente, garçonete, ou eu te enterro com ela. Ela não se moveu.

Ela pegou o celular e discou um número que jurou nunca usar. Noventa segundos depois, a janela começou a tremer. Setenta membros do motoclube Guerreiros da Estrada cercaram o prédio. O rosto do homem ficou branco. Ele não tinha ideia do que estava por vir.

Capítulo 1: A Chegada

A cafeteira de vidro estilhaçou-se no chão antes que Sofia percebesse que a tinha deixado cair. Cacos para todo lado. O líquido quente espalhando-se pelos azulejos. Ela não se importou. Uma mulher acabara de atravessar a porta da frente da lanchonete. Grávida, sangrando, aterrorizada.

— Me ajude… — A voz da mulher falhou. — Pelo amor de Deus, alguém me ajude.

Sofia agiu. Instinto, nenhum pensamento, apenas movimento. Ela amparou a mulher antes que desabasse, puxando-a para o assento mais afastado no fundo do salão. Os dedos da mulher cravaram-se no braço de Sofia com força suficiente para deixar uma marca roxa.

— Ele está vindo — a mulher ofegou. — Logo atrás de mim. Ele vai me matar desta vez. Eu sei. Eu vi nos olhos dele.

— Quem? Quem está vindo?

— Meu marido, Marcos.

Lá fora, pneus cantaram no asfalto. A cabeça de Sofia virou-se bruscamente para a janela. Uma caminhonete preta. Grande, veloz, já entrando no estacionamento. Um homem saltou antes mesmo que o motor parasse de funcionar. O estômago de Sofia despencou. Ela conhecia aquele andar, aquela arrogância, aquele olhar de um homem que pensa ser o dono do mundo e de todos nele.

— Fique atrás de mim — disse Sofia.

— Você não entende…

— Eu entendo o suficiente. Fique atrás de mim. Agora.

A porta da frente não se abriu. Ela explodiu para dentro. As dobradiças gritaram. O vidro da janela choveu como granizo. Marcos Reyes parou na entrada. Pescoço grande e tatuado, punhos como martelos, olhos que haviam esquecido como ser humanos há muito tempo. Ele sorriu quando viu sua esposa.

— Laura, meu bem. — Sua voz era falsamente gentil, a voz de um homem que praticara soar razoável enquanto fazia coisas irracionais. — Você me assustou, fugindo assim, no seu estado.

Laura se encolheu atrás de Sofia, tremendo tanto que seus dentes batiam.

— Eu não vou voltar — Laura sussurrou. — Eu não posso… eu não aguento mais.

— Não aguenta o quê? Ser minha esposa? Carregar meu filho? — Marcos deu um passo para dentro. — Você não decide isso, meu bem. Fizemos votos.

Sofia deu um passo à frente, colocando-se diretamente entre Marcos e Laura. Marcos parou, olhou para ela, realmente olhou.

— E quem diabos é você?

— Ninguém importante. Então, vá embora.

— Ninguém? Não. — A palavra ficou suspensa no ar. Marcos riu, um som curto e agudo, como o latido de um cachorro. — Moça, acho que você não entende o que está acontecendo aqui.

— Eu entendo. Perfeitamente. Você espanca sua esposa grávida. Ela fugiu. Agora você a quer de volta para poder espancá-la um pouco mais. — Sofia manteve a voz neutra, calma. — Isso não vai acontecer.

O sorriso de Marcos desapareceu.

— Você é bem linguaruda.

— Tenho mais do que isso.

Marcos moveu-se rápido. Mais rápido do que um homem do seu tamanho deveria se mover. Sua mão fechou-se na garganta de Sofia, levantando-a do chão. Seus pés balançaram, o ar foi cortado, pontos pretos dançaram nas bordas de sua visão.

— Deixe-me explicar uma coisa — disse Marcos, o rosto a centímetros do dela. — Essa mulher atrás de você me pertence. O bebê dentro dela me pertence. E se você não sair do meu caminho nos próximos cinco segundos, você também vai me pertencer. Dentro de um caixão de madeira.

Sofia não conseguia respirar. Não conseguia falar. Mal conseguia pensar, mas conseguia mover o joelho. Ela o ergueu com força entre as pernas dele. Marcos a largou, dobrando-se ao meio. Um som que não era bem humano saiu dele.

Sofia caiu no chão, ofegante, arrastando-se para trás. Sua garganta ardia, mas ela já estava buscando o bolso. Seu celular. Onde estava o celular? Ali, no chão. Devia ter caído quando ele a agarrou. Ela se lançou para pegá-lo. Marcos se lançou na direção dela. Sua mão agarrou seu tornozelo, puxando-a para trás. Seu queixo bateu no chão. Sangue na boca, estrelas nos olhos.

— Sua vadia… — Marcos a arrastou em sua direção. — Vou adorar isso.

Os dedos de Sofia encontraram o celular, agarraram-no. Ela rolou de costas. Marcos estava em cima dela agora, prendendo-a, a mão erguida. Ela discou às cegas. Um número que memorizara anos atrás. Um número que nunca usara, que nunca pensou que precisaria usar. O telefone tocou uma vez.

O punho de Marcos desceu. Sofia virou a cabeça. O soco atingiu sua têmpora em vez de esmagar seu nariz. A dor explodiu em seu crânio. O telefone tocou duas vezes.

Sombra falando.

— Lanchonete do Dusty, Rodovia Bandeirantes, quilômetro 147! — Sofia gritou no telefone. — Mulher grávida, Laura Reyes! Ele vai nos matar!

Silêncio. Então, uma voz fria o suficiente para congelar o inferno.

Não deixe ele levá-la. Dois minutos.

A ligação caiu.

Marcos havia congelado, encarando o telefone na mão dela.

— Para quem você acabou de ligar?

A cabeça de Sofia estava girando, sangue escorrendo de sua têmpora, mas ela sorriu mesmo assim.

— Para alguém que vai fazer você se arrepender de ter nascido.

Marcos agarrou o telefone, atirou-o contra a parede. Plástico e vidro se estilhaçaram.

— Não sei quem você pensa que está vindo — ele rosnou. — Mas não vão chegar a tempo. E quando eu terminar com você…

— Dois minutos — disse Sofia.

— O… o quê?

— Ele disse dois minutos. Isso foi há uns trinta segundos.

Os olhos de Marcos vacilaram, apenas por um segundo. Apenas o suficiente para Sofia ver. A dúvida.

— Você está blefando.

Marcos se levantou, agarrou Sofia pelos cabelos, puxando-a para cima. A dor gritou em seu couro cabeludo.

— Levantem-se, as duas. Estamos saindo agora.

Laura estava chorando.

— Marcos, por favor, me deixe ir. Eu não conto a ninguém. Eu desapareço. Você nunca mais vai…

— Cala a boca! — Marcos jogou Sofia em direção a Laura. As duas tropeçaram, ampararam-se, seguraram-se. — Vocês duas vêm comigo. E se alguém tentar nos impedir… — ele puxou uma arma da cintura.

Laura gritou. Sofia não. Ela estava ouvindo. Ouvindo algo à distância.

Lá estava. Um estrondo. Baixo, constante, crescendo.

Marcos também ouviu. Sua cabeça se virou para a janela.

— O que é isso?

Sofia agarrou a mão de Laura, apertou com força.

— São os seus dois minutos.

Capítulo 2: Os Guerreiros da Estrada

O estrondo tornou-se um rugido. O rugido tornou-se um trovão. O trovão tornou-se algo que sacudiu o chão, fez as janelas tremerem, fez as xícaras de café dançarem no balcão. Marcos correu para a janela, e a cor sumiu de seu rosto.

Eles surgiram no horizonte como uma onda de cromo e couro. Uma motocicleta, depois dez, depois vinte, depois cinquenta, depois muitas para contar. Eles tomaram a rodovia. Eles cercaram o estacionamento. Eles bloquearam todas as saídas. Setenta motocicletas, setenta pilotos, cada um deles usando as mesmas três palavras nas costas: Guerreiros da Estrada.

Marcos recuou da janela, a arma em sua mão tremia.

— Não… isso é impossível. Ela não os conhece. Não tem como ela…

— Ela não ligou para eles — disse Sofia. — Eu liguei.

Marcos virou-se para ela.

— Você? Como você sabe o número deles?

— Alguém me deu há muito tempo. Me disse para usar se eu precisasse de uma ajuda que não viria de nenhum outro lugar. — Sofia se endireitou, o sangue ainda escorrendo por sua têmpora, a garganta ainda queimando, mas de pé. — Eu diria que isso se qualifica.

Os motores do lado de fora foram desligados todos de uma vez, como se alguém tivesse virado um interruptor. No silêncio súbito, Sofia podia ouvir seu próprio coração. Então, botas no cascalho, dezenas delas, movendo-se juntas.

A porta da frente se abriu. O homem que entrou não era o que Sofia esperava. Ela esperava alguém jovem, raivoso, perigoso. Este homem era mais velho, talvez sessenta anos, com fios de prata na barba, rugas ao redor dos olhos, o tipo de rugas que se ganha ao semicerrar os olhos para o sol por décadas. Mas seus olhos, seus olhos eram as coisas mais perigosas que Sofia já vira.

Ele olhou para Marcos primeiro, demorada e lentamente. O jeito que um homem olha para um inseto que está decidindo se vai pisar. Então ele olhou para Laura. Algo se suavizou em seu rosto, apenas por um momento. Então ele olhou para Sofia.

— Foi você quem ligou?

Sofia assentiu. Sua voz não estava funcionando direito.

— Sim.

— Qual o seu nome?

— Sofia. Sofia Mendes.

Ele a estudou por um longo momento, observando o sangue em seu rosto, os hematomas se formando em sua garganta, a maneira como ela ainda estava de pé entre um monstro e sua vítima.

— Você tem coragem, Sofia Mendes. — Então ele se virou para Marcos, e tudo mudou. — Olá, Marcos.

A voz de Marcos saiu como um coaxar.

— Sombra… escuta, isso não é o que parece.

— Não? — Sombra deu um passo à frente. Apenas um passo. Marcos tropeçou para trás. — Como parece para você, Marcos?

— Ela é minha esposa. Está carregando meu filho. Eu tenho todo o direito de…

— Você não tem direito a nada. — A voz de Sombra baixou, mais silenciosa, mais perigosa. — Você abriu mão dos seus direitos cinco anos atrás, quando te expulsamos. Lembra daquele dia, Marcos? Lembra do que te dissemos?

Marcos não disse nada.

— Nós te dissemos que se você machucasse outra mulher, haveria consequências. Nós te dissemos que nossa proteção tinha acabado, mas nossa atenção não. — Sombra deu outro passo. — Estivemos te observando, Marcos. Sabemos o que você tem feito com a Laura. Sabemos das visitas ao hospital, das costelas quebradas, dos olhos roxos.

Laura fez um pequeno som, meio soluço, meio alívio. Sombra manteve os olhos em Marcos.

— Estávamos vindo por ela, planejando uma extração, mas ela nos poupou o trabalho. — Ele olhou para Sofia. — Ou melhor, outra pessoa poupou.

A mão de Marcos apertou a arma.

— Eu vou atirar. Juro por Deus, eu atiro.

Sombra sorriu. Não foi um sorriso agradável.

— Vá em frente, Marcos. Atire. Me mate aqui mesmo, na frente de setenta dos meus irmãos. — Ele abriu os braços. — O que você acha que acontece depois?

A arma vacilou. A mão de Marcos tremia muito agora, o suor escorrendo por seu rosto.

— Eu mato ela! — ele disse, virando a arma para Laura. — Eu mato ela e o bebê! Se eu não posso tê-los, ninguém pode!

Sofia agiu sem pensar. Ela se atirou em Marcos, desviando o braço dele para o lado. A arma disparou. A bala se enterrou no teto. Gesso choveu.

Eles caíram no chão juntos. Rolando, lutando, Sofia arranhando para pegar a arma, Marcos tentando jogá-la para longe. Ele era maior, mais forte. Não deveria ter sido uma disputa, mas Sofia passara três anos aprendendo a sobreviver a homens maiores e mais fortes que ela. Sete anos, na verdade, desde que fugira do seu próprio inferno particular. Ela sabia onde bater, onde morder, onde cravar os dedos até que algo cedesse.

Marcos gritou. A arma caiu no chão, deslizando.

Então, mãos a agarraram, puxando-a para longe dele. Motociclistas, dois deles, segurando-a. Outras mãos agarravam Marcos. Não tão gentis. Nada gentis.

Sombra pegou a arma, olhou para ela, olhou para Marcos, que agora estava sendo segurado por quatro homens, braços torcidos para trás.

— Você ia matar uma mulher grávida — disse Sombra. — Sua própria esposa, seu próprio filho.

— Sombra, por favor…

— Eu ia deixar você ir. Te dar mais uma chance de desaparecer. — Sombra balançou a cabeça. — Mas você acabou de tentar atirar em alguém sob minha proteção. — Ele se virou para seus homens. — Levem-no para a van. Vamos lidar com ele mais tarde.

Marcos começou a gritar enquanto o arrastavam em direção à porta, gritando e implorando e fazendo promessas que Sofia sabia que ele nunca cumpriria. Então ele se foi, e a lanchonete ficou em silêncio.

As pernas de Sofia cederam. Ela teria caído no chão, mas alguém a segurou. Caio, o de olhos penetrantes que estivera de pé atrás de Sombra.

— Calma aí — ele disse. — Eu te seguro.

— Laura… — Sofia ofegou. — Ela está…?

— Ela está bem. O doutor está examinando-a agora.

Sofia olhou. Laura estava sentada em um dos assentos. Um homem mais velho com olhos gentis a examinava. Duas mulheres em coletes de couro branco estavam por perto, observando.

— Quem são elas?

— Irmãs de Escudo. Elas protegem as mulheres do clube. — Caio ajudou Sofia a se sentar em uma cadeira. — Como você acabou de fazer.

As mãos de Sofia tremiam. A adrenalina estava passando. Tudo doía.

— Eu não fiz nada.

— Você se colocou na frente de uma bala. — A voz de Caio era estranha. Suave. — Isso não é nada.

Sombra se aproximou, agachando-se para ficar no nível dos olhos de Sofia.

— Aquele número de telefone — ele disse. — Onde você o conseguiu?

Sofia contou a ele sobre a velha senhora, a tatuagem de cobra. A conversa em um ponto de ônibus sete anos atrás, quando Sofia estava fugindo de seu próprio monstro.

Sombra ficou em silêncio por um longo tempo.

— O nome dela era Rosa — ele finalmente disse. — Ela era minha mãe.

Sofia piscou.

— Sua mãe?

— Ela morreu há dois anos. Câncer. — A voz de Sombra era firme, mas seus olhos não. — Ela só dava aquele número para pessoas que acreditava merecerem. Pessoas com coragem.

— Eu não sou corajosa. Eu estava apavorada.

— Isso é o que é coragem. — Sombra se levantou. — Estar apavorado e fazer mesmo assim.

O médico terminou de examinar Laura.

— Costela fraturada, concussão leve, alguns hematomas internos. O bebê parece bem, mas ela precisa de exames de imagem adequados para ter certeza.

Sombra assentiu.

— Nós a levaremos para a sede. O Dr. Martinez pode fazer uma avaliação completa.

— A sede? — perguntou Sofia.

— Nossa base. Quarenta acres nos arredores de Campinas. Ela estará segura lá.

Laura estava olhando para Sofia. Aqueles olhos ainda assustados, ainda machucados, mas com algo mais neles agora. Esperança, talvez.

— Você vem? — Laura perguntou. — Por favor. Eu não… não consigo fazer isso sozinha.

Sofia pensou em seu apartamento, nos quartos vazios, no silêncio que a pressionava todas as noites como um peso. Ela pensou na lanchonete. Sete anos das mesmas mesas, mesmo café, mesmo nada. Ela pensou na vida que estava vivendo, na vida em que estava se escondendo.

— Tudo bem — ela disse. — Eu vou.

Capítulo 3: A Sede

Uma hora depois, Sofia estava na garupa de uma motocicleta pela primeira vez na vida. Caio estava pilotando. O motor vibrava sob ela, através dela, ao redor dela.

— Segure firme! — Caio gritou por cima do rugido. — É uma hora até a sede!

Sofia passou os braços ao redor da cintura dele, sentiu o couro de seu colete contra sua bochecha. À frente deles, Sombra liderava a formação. Atrás deles, Laura viajava com Cass, uma das Irmãs de Escudo. Setenta motocicletas movendo-se como uma só. Um rio de cromo fluindo pela rodovia.

Carros encostavam para deixá-los passar. Pessoas paravam nas calçadas para olhar. Sofia olhou para trás, para a lanchonete, a Lanchonete do Dusty, sua prisão por sete anos. Ficando menor, menor, desaparecendo.

Ela se virou para frente, deixou o vento açoitar seus cabelos, deixou o sol aquecer seu rosto. Sua garganta ainda doía, sua cabeça ainda latejava, suas mãos ainda tremiam. Mas, pela primeira vez em tanto tempo quanto conseguia se lembrar, ela não se sentia sozinha.

A sede era maior do que Sofia esperava. Um prédio principal, garagens enormes, cabanas menores espalhadas pela propriedade. Tudo cercado por uma cerca que parecia mais uma declaração do que uma barreira. Isto é nosso. Entre por sua conta e risco.

Eles entraram pelos portões em formação. As motos se dispersaram uma a uma, estacionando em fileiras organizadas. Caio ajudou Sofia a descer da motocicleta. Suas pernas estavam bambas, desacostumadas à imobilidade após uma hora de vibração.

— Como você está se sentindo?

— Eu não sei — admitiu Sofia. — Não sei o que sou agora.

— Isso é normal. — Caio quase sorriu. — Dê tempo ao tempo.

Laura estava sendo ajudada em direção à cabana médica. Duas Irmãs de Escudo de cada lado dela, protetoras, cuidadosas. Ela olhou para trás, para Sofia, e levantou uma mão. Obrigada, seus olhos diziam. Por tudo.

Sofia assentiu. Não encontrou palavras. Não precisava delas.

Naquela noite, Sofia não conseguiu dormir. A cabana que lhe deram era pequena, mas limpa. Cama, cômoda, uma janela com vista para o campo. Ela deitou ali, encarando o teto, ouvindo os sons da sede: vozes distantes, o ronco de um motor em algum lugar, um cachorro latindo. Sua mente não parava de repassar tudo. A arma disparando. A sensação do peso de Marcos sobre ela. O som que Laura fez quando pensou que ia morrer.

Sofia se levantou, calçou os sapatos, saiu. A sede estava silenciosa agora. A maioria das luzes estava apagada, mas um fogo queimava em uma fogueira perto do prédio principal, e uma figura estava sentada ao lado dele. Caio.

Ela caminhou até lá, não disse nada, apenas se sentou no tronco do outro lado. Por um tempo, nenhum dos dois falou. Então Caio disse:

— Não consegue dormir.

— Não. Nem eu.

Mais silêncio. O fogo crepitava. Faíscas subiam em direção às estrelas.

— Posso te perguntar uma coisa? — disse Sofia.

— Talvez.

— Marcos… Sombra disse que vocês o expulsaram há cinco anos. O que ele fez?

A mandíbula de Caio se contraiu.

— Ele era nosso vice-presidente. Bom no que fazia. Bom em muitas coisas. — Pausa. — Também era bom em machucar mulheres.

— E vocês o expulsaram por isso?

— Fizemos mais do que expulsá-lo. Nós o despojamos. Tiramos seu colete. Tiramos sua moto. Tiramos tudo o que ele construiu conosco. — Caio encarou o fogo. — Em nosso mundo, isso é pior do que morrer.

— Mas a Laura ainda se casou com ele.

— Ele escondeu o que era. Mudou de nome, de estado, começou de novo. — Amargura na voz de Caio agora. — Quando descobrimos, ela já estava grávida, já estava presa.

— Como vocês descobriram?

— O cunhado dela, Daniel, é membro do nosso capítulo do Rio. Laura finalmente contou a ele o que estava acontecendo. — Caio balançou a cabeça. — Estávamos planejando tirá-la de lá há meses, mas Marcos a mudava constantemente. Nunca ficava em um lugar. Tornou difícil localizá-lo.

— Até hoje.

— Até hoje. — Caio olhou para ela. — Quando ela correu direto para a sua lanchonete. De todas as lanchonetes no estado de São Paulo.

— Coincidência de sorte.

— Mamãe Rosa costumava dizer: “Não existe coincidência”. — Sua voz suavizou. — Apenas Deus agindo anonimamente.

Sofia encarou o fogo, pensando na velha senhora no ponto de ônibus, no número de telefone que guardara por sete anos.

— Por que ela me deu o número? — Sofia perguntou. — Ela não me conhecia. Eu era apenas uma garota assustada fugindo de uma situação ruim.

— É exatamente por isso que ela te deu. — Caio se inclinou para frente. — Ela o dava a pessoas que haviam sido quebradas. Pessoas que entendiam o que significava precisar de ajuda e não ter ninguém. — Ele fez uma pausa. — Ela acreditava que pessoas assim, pessoas que sobreviveram, eram as que ajudariam outras a sobreviver também.

Sofia sentiu algo se quebrar dentro de seu peito. Não quebrando, abrindo.

— Ela estava certa — disse Caio, baixinho. — Você provou que ela estava certa hoje.

Capítulo 4: Guerra

Na manhã seguinte, Sofia acordou com gritos. Ela vestiu as roupas, correu para fora. Motociclistas se reuniam perto do prédio principal, vozes alteradas. Ela encontrou Caio no meio da multidão.

— O que está acontecendo?

Seu rosto estava sombrio.

— Sombra recebeu uma ligação esta manhã de um de nossos informantes.

— Que tipo de ligação?

— Marcos falou. — As mãos de Caio eram punhos cerrados. — Ele fez um acordo com gente muito ruim. Gente a quem ele deve dinheiro.

— Que tipo de acordo?

— Ele prometeu a eles Laura e o bebê. — Os olhos de Caio encontraram os dela. — Em troca de trezentos mil reais.

O estômago de Sofia despencou.

— Para quem ele a prometeu?

— O Sindicato.

As palavras pairaram no ar como veneno. Uma facção criminosa. Violentos. Conectados. Eles não se importam com leis ou fronteiras ou qualquer coisa, exceto receber o que lhes é devido. A mandíbula de Caio estava tensa.

— E agora, o que lhes é devido é uma mulher grávida e seu filho.

— Mas Laura está aqui. Ela está segura.

— Por enquanto. — Caio olhou em direção ao portão. — Eles estão vindo, Sofia. Talvez não hoje. Talvez não amanhã, mas em breve.

— O que vamos fazer?

Caio não respondeu por um longo momento. Então:

— Nós vamos lutar.

Sombra convocou uma “reunião de igreja”, um encontro de todos os membros plenos. Sofia não foi autorizada a entrar. Ela esperou na varanda com as outras mulheres, observando o sol subir sobre o campo. Cass sentou-se ao lado dela.

— Se aguentando?

— Tentando.

— É tudo o que qualquer um de nós pode fazer. — Cass acendeu um cigarro, deu uma longa tragada. — Você sabe o que está vindo, certo?

— Caio me contou. O Sindicato.

— O Sindicato é problema sério. Já nos desentendemos com eles antes. Nunca acabou bem para ninguém. — Cass exalou a fumaça. — Sombra está tentando descobrir nossas opções, mas não há muitas.

— E a polícia?

Cass riu, curto e seco.

— A polícia não pode ajudar com isso. Quando chegassem, estaríamos todos mortos.

— Então, o quê? Apenas esperamos que eles ataquem?

— Não. — Cass olhou para ela. — Nós nos preparamos.

A porta se abriu. Sombra emergiu. Seu rosto esculpido em pedra.

— Escutem! — ele chamou. Todos se reuniram. — O Sindicato deu a Marcos setenta e duas horas para entregar Laura. Isso foi há doze horas. Então, temos sessenta horas para nos prepararmos.

— Preparar para o quê? — alguém perguntou.

— Guerra. — A voz de Sombra era fria. Final. — Eles estão vindo com pelo menos trinta homens, talvez mais. Armados. Perigosos. Eles não vão negociar. Eles não vão recuar.

Murmúrios percorreram a multidão.

— Temos duas escolhas — Sombra continuou. — Corremos, nos espalhamos, nos escondemos, torcemos para que não nos encontrem. Ou ficamos. Protegemos o que é nosso. Mostramos a eles que os Guerreiros da Estrada não se curvam para ninguém.

Silêncio. Então, uma voz do fundo.

— Nós ficamos.

Outra voz.

— Nós ficamos.

Mais vozes. Dezenas delas, erguendo-se como uma onda.

— NÓS FICAMOS! NÓS FICAMOS! NÓS FICAMOS!

Sombra assentiu.

— Então, vamos ao trabalho.

A sede se transformou. Barricadas foram erguidas em todas as entradas. Armas foram limpas, verificadas, distribuídas. Batedores foram enviados para vigiar as estradas. Sofia se viu no meio de tudo, sentindo-se inútil.

Caio a encontrou.

— Venha comigo.

— Onde?

— Você precisa aprender a se proteger.

Ele a levou para uma clareira atrás do prédio principal, entregou-lhe um bastão de metal.

— Isso não é uma arma — ele disse. — Mas vai doer pra caramba se você balançar direito.

— Eu não sei lutar.

— Você derrubou um homem com o dobro do seu tamanho ontem. — Caio quase sorriu. — Você sabe mais do que pensa.

Pelas duas horas seguintes, ele a ensinou a segurar o bastão, como balançá-lo, onde mirar — joelhos, cotovelos, garganta. Como criar distância, como correr.

— Lutar não é sobre vencer — disse Caio. — É sobre sobreviver tempo suficiente para escapar.

Os braços de Sofia doíam. Suas mãos estavam com bolhas. Mas algo dentro dela estava mudando. Ela não era a mesma mulher que estava servindo café na manhã anterior. Ela não tinha certeza de quem estava se tornando, mas estava pronta para descobrir.

Quarenta e oito horas depois, os batedores retornaram. Quatro SUVs na rodovia, vindo nesta direção. Talvez a vinte minutos de distância.

Sombra pegou o rádio.

— Todas as posições. É agora.

Sofia estava na sala segura com Laura e outras três mulheres. A sala era reforçada. Escondida. Se o Sindicato rompesse, esta era a última linha de defesa.

Laura agarrou a mão de Sofia.

— Estou com medo.

— Eu também.

— E se eles entrarem? E se…

— Eles não vão. — Sofia apertou sua mão. — Sombra tem setenta homens lá fora. Os melhores lutadores de São Paulo. Eles não vão deixar ninguém passar. Mas se deixarem, então eu estarei entre eles e você. Assim como antes.

Os olhos de Laura se encheram de lágrimas.

— Por quê? Por que você está fazendo isso? Você nem me conhece.

Sofia pensou na pergunta. Na resposta real.

— Porque há sete anos, alguém me ajudou quando ninguém mais o faria. Uma estranha. Ela não me conhecia. Não me devia nada. Mas ela parou mesmo assim. — A voz de Sofia falhou. — Tenho tentado pagar essa dívida desde então. Eu só não sabia como. Até agora.

Lá fora, motores rugiram. Não de motocicletas. SUVs, chegando mais perto.

Sofia apertou o bastão. A sede ficou em silêncio. Sofia podia ouvir seu próprio coração, a respiração de Laura ao seu lado, as outras mulheres rezando em voz baixa.

Então, tiros. Não o estalo agudo de pistolas, mas o trovão rápido de armas automáticas. Gritos, berros. Mais tiros. As paredes tremeram. Poeira caiu do teto.

Laura gemeu.

— Oh, meu Deus, oh, meu Deus.

Sofia colocou o braço ao redor dela.

— Está tudo bem. Estamos bem. A sala está escondida. Eles não vão…

Um estrondo em algum lugar acima deles. Passos pesados no chão. Não botas de motociclista. Coturnos militares, movendo-se rápido, procurando.

Sofia se levantou, empurrou Laura para trás. A maçaneta da porta girou.

— Tem alguém aqui dentro! — uma voz gritou, com sotaque. — Pega o maçarico!

Fumaça começou a infiltrar-se por baixo da porta. Eles iam queimá-las para fora.

Sofia olhou para Laura, para as outras mulheres, para o bastão em sua mão. Sem saída. Sem como lutar. Sem como vencer. Mas ela podia ganhar tempo. Podia dar aos motociclistas uma chance de alcançá-las. Ela podia resistir.

— Fiquem atrás dos colchões — disse Sofia. — Cubram os rostos. Não façam barulho.

— O que você vai fazer?

Sofia caminhou em direção à porta.

— O que eu deveria ter feito há muito tempo.

Ela ergueu o bastão.

A porta explodiu para dentro, e Sofia Mendes finalmente parou de fugir.

Capítulo 5: A Resistência

O primeiro homem a entrar pela porta era grande, mascarado, com um fuzil automático nas mãos. Sofia balançou o bastão antes que pudesse pensar. Metal conectou-se com osso. O fuzil do homem caiu no chão. Ele cambaleou para o lado, as mãos indo para a mandíbula quebrada. Sofia balançou de novo, com mais força. Ele caiu.

Um segundo homem apareceu na porta, viu seu parceiro no chão, ergueu a arma. Sofia se jogou para o lado. Balas rasgaram o ar onde ela estivera. Gesso explodiu da parede atrás dela. Laura gritou.

Sofia rolou, agarrou o fuzil caído. Ela nunca tinha segurado um antes. Não sabia como funcionava. Não importava. Ela o apontou para a porta e puxou o gatilho. O coice quase quebrou seu ombro. O barulho quase quebrou seus ouvidos. Mas o segundo homem caiu para trás, desaparecendo na fumaça.

— Fiquem abaixadas! — Sofia gritou para as mulheres atrás dela. — Não se mexam!

Mais passos no corredor, mais vozes, em espanhol, irritadas. As mãos de Sofia tremiam tanto que mal conseguia segurar o fuzil. O homem que ela havia baleado gemia no chão. O que ela acertara com o bastão não se movia. Ela havia machucado pessoas, talvez as matado. Não teve tempo de sentir nada sobre isso.

Uma granada rolou pela porta. O cérebro de Sofia parou de funcionar. Seu corpo não. Ela chutou a granada de volta para o corredor e se jogou em cima de Laura.

A explosão foi ensurdecedora. O chão tremeu sob elas. Poeira e detritos choveram. Os ouvidos de Sofia zumbiam. Sua visão estava turva. Mas ela estava viva. Laura estava viva.

Ela se levantou, olhou para a porta. Tinha desaparecido. Desmoronado, enterrado sob escombros. Elas estavam presas, mas os homens do Sindicato também. Por enquanto.

Sofia virou-se para Laura.

— Você está ferida?

O rosto de Laura estava branco. Suas mãos estavam em volta da barriga.

— Eu não sei. Eu não consigo… não consigo sentir.

— Olhe para mim. — Sofia agarrou seus ombros. — Olhe para mim, Laura. Você está sangrando?

Laura olhou para baixo, balançou a cabeça.

— Não, não, acho que não.

— O bebê está se mexendo?

Uma pausa. Então, o rosto de Laura se desfez em alívio.

— Sim. Sim, ele está se mexendo.

— Então estamos bem. Vamos ficar bem.

Tiros irromperam em algum lugar acima delas. Mais perto agora. A batalha estava se movendo. Sofia olhou para os escombros que bloqueavam a porta. Pesado demais para mover. Nenhuma outra saída. Elas estavam presas ali até que alguém as desenterrasse. Ela rezou para que fosse a pessoa certa.

Os vinte minutos seguintes foram os mais longos da vida de Sofia. Ela sentou-se com as costas contra a parede, o fuzil no colo, observando os escombros em busca de qualquer sinal de movimento. Laura estava ao seu lado, respirando em golfadas curtas e rasas, uma mão nunca deixando sua barriga. As outras mulheres se amontoavam no canto. Uma delas chorava baixinho. Outra rezava. A terceira apenas olhava para o nada, os olhos vazios.

Os sons da batalha filtravam-se pelas paredes. Tiros, explosões, gritos. Às vezes perto, às vezes longe. Sofia não conseguia dizer quem estava ganhando.

— Sofia. — A voz de Laura era quase um sussurro.

— Sim?

— Se eles passarem… se eles me levarem…

— Eles não vão.

— Mas se eles o fizerem… — A mão de Laura encontrou a de Sofia, apertou com força. — Não deixe que levem o bebê. Por favor. O que quer que você tenha que fazer, não deixe que peguem meu filho.

Sofia olhou para ela, para esta mulher que conhecia há menos de três dias. Esta mulher que entrara em sua lanchonete sangrando, aterrorizada e grávida. Esta mulher que se tornara a razão pela qual Sofia ainda estava respirando.

— Eu não vou — disse Sofia. — Eu prometo.

Os escombros se moveram. Sofia ficou de pé em um instante, o fuzil erguido.

— Sofia! — uma voz do outro lado, abafada, mas familiar. — Sofia, você está aí?

— Caio! Estamos aqui! Estamos vivas!

— Afaste-se! Estamos cavando para tirar vocês!

Sofia puxou Laura para longe da porta. As outras mulheres correram para a parede oposta. Pedaços de concreto e gesso começaram a cair. A luz entrou, depois mãos, depois rostos. Caio foi o primeiro a passar, coberto de poeira e sangue. Seus olhos encontraram os de Sofia imediatamente.

— Você está bem. — Não era uma pergunta. Era uma declaração de alívio tão profundo que quase a quebrou.

— Estamos bem. Laura está bem. O bebê está bem.

Mais dois motociclistas passaram pela abertura. Eles ajudaram as mulheres a sair, uma por uma, cuidadosos com Laura, gentis apesar do caos que ainda reinava ao redor deles.

Caio agarrou o braço de Sofia.

— Consegue se mover?

— Sim.

— Então precisamos ir. Agora.

A sede era uma zona de guerra. Incêndios por toda parte. Corpos no chão. Sofia não olhou muito de perto para ver de quem eram. Tiros ainda estalavam à distância. Caio as conduziu pela fumaça, movendo-se rápido, mantendo-se abaixado. Dois outros motociclistas os flanqueavam, armas prontas.

— O que aconteceu? — ofegou Sofia.

— Eles nos atingiram com força. Trinta homens, talvez mais. Não esperávamos tantos.

— Estamos perdendo?

Caio não respondeu. Aquilo foi resposta suficiente.

Eles chegaram a uma garagem do outro lado da sede. Dentro, uma van esperava, motor ligado.

— Entrem — disse Caio. — Todas vocês. Cass está dirigindo. Ela as levará para o local secundário.

Sofia parou.

— E você?

— Eu fico. Sombra precisa de todos os homens.

— Caio…

— Entre na van, Sofia. — Sua voz era dura. Então, suavizou. — Por favor. Não consigo lutar se estiver preocupado com você.

Sofia queria discutir, queria ficar, queria lutar ao lado daquelas pessoas que se tornaram algo como uma família no espaço de três dias. Mas Laura estava atrás dela, o bebê estava atrás dela, as outras mulheres estavam atrás dela. Elas precisavam mais dela.

Ela entrou na van. Caio fechou a porta, bateu na lateral duas vezes. Cass pisou no acelerador. A última coisa que Sofia viu pela janela traseira foi Caio correndo de volta para a batalha, fuzil na mão, desaparecendo na fumaça.

Ela não sabia se o veria novamente.

Capítulo 6: Fuga e Retorno

A van rasgava uma estrada de terra que Sofia não reconhecia. Cass dirigia como se o próprio diabo os estivesse perseguindo, o que talvez fosse verdade.

— Para onde estamos indo? — perguntou Sofia.

— Casa segura. Trinta quilômetros ao norte. Sombra a preparou anos atrás para emergências.

— Os outros ficarão bem?

Cass não respondeu. Sua mandíbula estava tensa. Seus nós dos dedos, brancos no volante.

Sofia olhou para Laura, que estava encolhida no assento ao lado dela, braços em volta da barriga, balançando levemente.

— Ei. — Sofia colocou a mão em seu ombro. — Nós vamos ficar bem.

— Você continua dizendo isso.

— Porque eu continuo acreditando nisso.

Laura olhou para cima. Seus olhos estavam vermelhos, inchados.

— Pessoas continuam morrendo por minha causa.

— Pessoas estão morrendo por causa do Marcos. Por causa do Sindicato. Não por sua causa.

— Se eu nunca tivesse me casado com ele…

— Então ele teria encontrado outra pessoa para machucar. Homens como ele não param. Eles apenas encontram novas vítimas. — Sofia apertou seu ombro. — Você não causou isso. Você sobreviveu a isso. Há uma diferença.

Laura ficou em silêncio por um longo momento.

— E aquela mulher… a que te deu o número de telefone. A mãe do Sombra.

— O que tem ela?

— Você acha que ela sabia que um dia você o usaria para salvar alguém?

Sofia pensou em Rosa. Nos olhos gentis, na tatuagem de cobra, na maneira como ela olhou para Sofia como se estivesse vendo algo que Sofia não podia ver em si mesma.

— Sim — disse Sofia, baixinho. — Acho que ela sabia exatamente.

A van bateu em um buraco. Todas sacudiram. Cass praguejou.

— A estrada está ficando ruim. Segurem-se.

Sofia se apoiou, olhou pela janela traseira. Faróis se aproximando rápido.

— Cass! Estou vendo eles!

— Quantos?

— Dois veículos. Talvez três.

O estômago de Sofia despencou.

— Eles nos seguiram.

— Devem ter tido batedores observando as saídas. — Cass pisou mais fundo no acelerador. — Todas, segurem-se. Isso vai ficar feio.

A primeira bala atingiu a janela traseira. O vidro explodiu para dentro. Sofia se jogou sobre Laura, cobrindo-a com seu corpo. Cacos choveram em suas costas.

— Fiquem abaixadas! — gritou Cass. — Todas fiquem abaixadas!

Mais balas rasgando as laterais da van. Metal gritando. Uma das mulheres na parte de trás gritou. Sofia olhou para cima. Sangue. A mulher segurava o braço.

— Ela foi atingida!

— Quão grave?

Sofia se arrastou em sua direção. Olhou para o ferimento. Atravessou. Sangue por toda parte, mas o braço estava intacto. Não era fatal. Ela sobreviveria se conseguissem estancar o sangramento.

— Use sua blusa! — ordenou Cass. — Amarre bem forte!

Sofia rasgou a manga de sua blusa, envolveu-a no braço da mulher, puxou o mais forte que pôde. A mulher gritou.

— Desculpe. Sei que dói. Desculpe.

A van desviou violentamente. Sofia bateu na parede lateral. Estrelas explodiram em sua visão.

— Eles estão tentando nos tirar da estrada! — gritou Cass.

Sofia olhou pela janela traseira estilhaçada. Um SUV estava logo atrás deles, talvez a três metros de distância, perto o suficiente para ver os rostos lá dentro. Mascarados, armados, determinados. Então ela viu outra coisa. Um deles estava saindo pela janela, segurando algo.

— Cass, eles têm um…

O RPG disparou.

Cass girou o volante com força para a esquerda. O foguete passou por eles, perto o suficiente para sentir o calor, e explodiu no campo a cinquenta metros de distância.

— Meu Deus! — uma das mulheres gritou.

— Segurem-se! — gritou Cass de volta.

Ela pisou no freio. O SUV atrás deles não conseguiu reagir a tempo. Bateu na traseira da van. Metal se contorcendo, vidro se quebrando. Mas Cass esperava por isso. Ela já estava girando o volante, usando o impacto para virar a van. O impulso do SUV o levou para além deles, pneus cantando, o motorista lutando pelo controle. Cass acelerou novamente, voltando pelo caminho que vieram.

— O que você está fazendo? — gritou Sofia.

— Não consigo despistá-los. São muitos. Estamos voltando.

— Voltando?

— De volta à sede. De volta às únicas pessoas que podem nos proteger. — A voz de Cass era sombria. — Reze para que eles ainda estejam de pé.

O trajeto de volta pareceu durar horas. Provavelmente foram minutos. Sofia abraçou Laura o tempo todo. Sentiu cada solavanco, cada desvio, cada bala que atingia as laterais reforçadas da van. A mulher com o braço ferido havia desmaiado. Choque, provavelmente. Sofia continuava verificando seu pulso. Ainda estava lá, fraco, mas estava.

Os SUVs ainda estavam atrás deles. Dois deles agora. O terceiro devia ter batido ou desistido.

— Quão longe? — perguntou Sofia.

— Três quilômetros.

— Vamos conseguir?

Cass não respondeu.

A sede surgiu à vista através da fumaça. Ainda de pé, por pouco. Sofia podia ver figuras se movendo. Motociclistas ainda lutando, ainda mantendo a linha, mas havia menos deles agora. Poucos demais.

Cass entrou direto pelo portão da frente, quase derrubando uma barreira no processo. Freou bruscamente em frente ao prédio principal.

— Fora! Todas para fora!

Sofia ajudou Laura a sair da van. Dois motociclistas apareceram e levaram a mulher ferida, carregando-a em direção à cabana médica.

— Onde está o Sombra? — exigiu Cass.

— Lado norte. Eles romperam a cerca. Ele os está segurando.

Cass pegou um fuzil de um rack próximo. Verificou-o. Carregou-o.

— Cass, espere…

— Fique aqui. Proteja a Laura. Não deixe ninguém levá-la. — Os olhos de Cass encontraram os de Sofia. — Ninguém.

Então ela se foi, correndo em direção ao som dos tiros.

Sofia ficou no pátio, Laura agarrada ao seu braço, cercada por fumaça, caos e morte. Ela queria ter resistido. Ela queria ter lutado. Agora, ela estava no meio de uma guerra. E não tinha ideia de como terminaria.

Capítulo 7: A Batalha Final

O próximo ataque veio vinte minutos depois. Sofia havia levado Laura para o prédio principal, junto com as outras mulheres e os poucos motociclistas feridos que não podiam lutar. Eles barricaram as portas, bloquearam as janelas. Não aguentaria muito. Todos sabiam disso. Mas era alguma coisa.

— Quantos restam? — perguntou um dos motociclistas feridos. Seu nome era Tanque, e metade de seu rosto estava coberto de sangue de um corte na testa.

— Não sei — disse Sofia. — Sombra e Caio ainda estavam lutando da última vez que ouvi.

Tanque assentiu, apertando a pistola em sua mão um pouco mais.

— Ele vai segurar. Ele sempre segura.

Sofia gostaria de ter a fé dele.

Um estrondo do lado de fora. Gritos, tiros. Perto. Perto demais.

— Eles estão dentro da cerca — disse Tanque. — Esse é o perímetro interno.

— O que isso significa?

— Significa que estão quase aqui.

Sofia olhou para Laura, para as outras mulheres, para o punhado de motociclistas feridos que mal conseguiam ficar de pé. Era isso. Era aqui que eles resistiriam, ou onde morreriam.

A porta tremeu. Alguém estava tentando arrombar.

Sofia ergueu o fuzil. Suas mãos não tremiam mais. Estranho como o medo funcionava. Em algum momento, você o ultrapassava, entrava em outra coisa. Algo frio e claro.

— Quando eles entrarem — ela disse a Tanque — eu dou o primeiro tiro. Você cobre as janelas.

— Já matou alguém antes de hoje à noite?

Sofia pensou no homem na sala segura. Aquele que não se movia.

— Não sei.

— Você saberá depois disso.

A porta se estilhaçou, quebrou. Corpos entraram. Sofia atirou.

Tudo depois disso foi barulho, sangue e caos. Ela não pensou, não conseguiu pensar. Apenas mirou e puxou o gatilho e mirou de novo. Homens caíram. Homens continuaram vindo. O fuzil ficou sem munição. Ela pegou uma pistola da mão de um homem morto. Continuou atirando.

Ao seu lado, Tanque também lutava. Assim como os outros motociclistas feridos. Assim como algumas das mulheres. Uma delas pegara uma espingarda e gritava enquanto puxava o gatilho. Mas eram muitos.

Um deles agarrou Sofia por trás, arrancou a pistola de sua mão, jogou-a contra a parede. Ela bateu com força, a visão turva, os ouvidos zumbindo. O homem ergueu a arma, apontou para o rosto dela.

— Onde está a grávida?

Sofia cuspiu sangue nele.

— Vá para o inferno.

Ele a atingiu com a coronha do fuzil. A dor explodiu em seu crânio.

— Vou perguntar mais uma vez. Onde ela está?

Sofia olhou para além dele, viu Laura encolhida atrás de uma mesa virada, viu o terror em seus olhos. Ela olhou de volta para o homem, sorriu.

— Logo atrás de você.

Ele se virou. Laura não estava atrás dele. Caio estava.

A faca atravessou a garganta do homem antes que ele pudesse reagir. Sangue jorrou. Ele caiu. Caio passou por cima do corpo, estendeu a mão, puxou Sofia para cima.

— Você está bem?

— Já estive melhor.

Caio quase sorriu.

— É, eu também.

Mais motociclistas entravam pela porta agora. Não os do Sindicato. Guerreiros da Estrada, cobertos de sangue, sujeira e vitória.

— Acabou — disse Caio. — Nós os quebramos. Os que não estão mortos estão fugindo.

As pernas de Sofia cederam. Caio a segurou antes que ela atingisse o chão.

— Calma. Eu te seguro. Laura…

— Ela está bem. O bebê está bem. Todos estão bem. — Caio a ajudou a sentar em uma cadeira. — Exceto você. Você está um caco.

— Me sinto assim também.

Caio sentou-se ao lado dela. Por um longo momento, nenhum dos dois falou. Os sons da batalha haviam desaparecido. Agora havia apenas gemidos e choros e o crepitar dos incêndios sendo apagados.

— Quantos perdemos? — perguntou Sofia.

O rosto de Caio se contraiu.

— Sete. Mais três talvez não passem da noite.

— Deus…

— Poderia ter sido pior. Teria sido pior se você não os tivesse segurado aqui. — Caio olhou para ela. — Tanque me contou o que você fez. Como você lutou.

— Eu não tive escolha.

— Todos têm uma escolha. Você escolheu resistir. — Ele fez uma pausa. — Poucas pessoas teriam feito isso.

Sofia olhou para suas mãos, cobertas de sangue. O sangue de outra pessoa. Talvez de várias outras.

— Eu matei pessoas esta noite.

— Sim.

— Não sei como me sentir sobre isso.

— Você não vai saber. Não por um tempo. Talvez nunca. — A voz de Caio era baixa. — Mas as pessoas que você matou estavam tentando matar mulheres inocentes, tentando roubar um bebê, tentando destruir tudo o que construímos aqui.

— Isso torna tudo bem?

— Não. — Caio encontrou seus olhos. — Mas torna necessário. E às vezes, necessário é tudo o que temos.

Sombra apareceu na porta. Sangue em seu rosto, sangue em suas mãos. Mas de pé. Ele olhou ao redor da sala, contou as cabeças, soltou um suspiro.

— Nós resistimos.

— Por pouco — disse Tanque.

— Por pouco é o suficiente. — Os olhos de Sombra encontraram os de Sofia. — Ouvi o que você fez na sala segura. E aqui.

— Eu não fiz nada.

Sombra atravessou a sala, parou na frente dela. Por um longo momento, ele apenas olhou para ela, para o sangue em seu rosto, os hematomas se formando, a exaustão em seus olhos. Então ele estendeu a mão.

— Você é uma de nós agora. Quer queira, quer não.

Sofia olhou para a mão dele, para os calos, as cicatrizes, o peso de tudo o que aquela mão havia feito. Ela a pegou.

— Eu quero ser.

Sombra a puxou para cima, assentiu uma vez, depois se virou e saiu. Já latindo ordens para seus homens.

Caio ficou ao seu lado.

— O que acontece agora? — perguntou Sofia.

— Agora enterramos nossos mortos. Reconstruímos o que está quebrado. Nos preparamos para o que vier a seguir.

— Você acha que o Sindicato vai voltar?

— Talvez. Talvez não. Nós os machucamos feio esta noite. Matamos muitos de seus homens. Isso pode fazê-los pensar duas vezes. — Caio fez uma pausa. — Ou pode fazê-los querer vingança ainda mais.

— Então, não acabou.

— Não. — Caio olhou para ela. — Mas esta noite acabou. E esta noite, nós sobrevivemos.

Laura apareceu de trás da mesa virada, ajudada por duas Irmãs de Escudo. Ela foi direto para Sofia e a abraçou.

— Obrigada — Laura sussurrou. — Obrigada, obrigada, obrigada.

Sofia a abraçou, sentiu o bebê chutar contra sua barriga.

— De nada — disse ela.

O sol nasceu três horas depois. Sofia estava na varanda do prédio principal, observando a luz se espalhar pelo campo. Atrás dela, a sede voltava lentamente à vida. Pessoas se movendo, conversando, trabalhando. Sobrevivendo.

Caio a encontrou lá, entregou-lhe uma xícara de café.

— Você deveria dormir.

— Não consigo.

— É, conheço a sensação.

Eles ficaram em silêncio por um tempo, bebendo café, observando o nascer do sol.

— Minha mãe estava certa sobre você — disse Caio, finalmente.

Sofia olhou para ele.

— O que você quer dizer?

— Ela te deu aquele número porque viu algo em você. Algo que a maioria das pessoas não tem. — Caio se virou para encará-la. — Eu também vejo.

— O que é?

— Fogo. — Os olhos de Caio encontraram os dela. — O tipo que não se apaga. O tipo que te faz resistir quando todos os outros correm.

Sofia pensou sobre isso. Sobre a mulher que ela era três dias atrás, servindo café, contando os passos, se escondendo da vida. Aquela mulher se fora. Ela ainda não sabia quem havia tomado seu lugar, mas estava pronta para descobrir.

— Sofia. — A voz de Caio era diferente agora, mais suave. — O que quer que aconteça a seguir, o que quer que venha por nós, quero que saiba de uma coisa.

— O quê?

— Fico feliz que você atendeu àquela ligação. Fico feliz que você esteja aqui. — Ele fez uma pausa. — Fico feliz por ter te conhecido.

Sofia não sabia o que dizer, então não disse nada. Apenas ficou ali, observando o sol nascer sobre o campo, sentindo algo que não sentia há anos.

Esperança.

Capítulo 8: Caçada e Julgamento

Três dias se passaram. Três dias enterrando os mortos. Três dias reconstruindo muros. Três dias de silêncio e luto e tentando lembrar como era o normal. Sofia não dormiu muito. Toda vez que fechava os olhos, via os rostos dos homens que matara. Ouvia o som de seus corpos caindo. Ela dizia a si mesma que era necessário. Que eles mereciam. Ela se dizia muitas coisas. Nenhuma delas ajudou.

Na quarta manhã, Laura a encontrou sentada sozinha atrás da cabana médica, olhando para o nada.

— Você não comeu — disse Laura.

— Não estou com fome.

— Você precisa comer para ter forças.

Sofia quase riu.

— Minhas forças, Laura. Mal estou me aguentando.

Laura sentou-se ao lado dela. Sua barriga estava maior agora. O bebê deveria nascer em seis semanas.

— Caio está preocupado com você.

— Caio se preocupa com todo mundo.

— Não. Ele se preocupa especificamente com você. — Laura fez uma pausa. — Ele me pediu para ver como você estava três vezes esta manhã.

Sofia não disse nada.

— Fale comigo — disse Laura. — Por favor. Você salvou minha vida. O mínimo que posso fazer é ouvir.

Sofia olhou para suas mãos. As mesmas mãos que seguraram um fuzil. As mesmas mãos que terminaram vidas.

— Continuo pensando nos homens que matei — disse ela baixinho. — Me pergunto se eles tinham famílias, filhos, pessoas que os amavam.

— Eles estavam tentando nos assassinar.

— Eu sei.

— Eles iam me levar, levar meu bebê e nos vender para monstros.

— Eu sei.

— Então por que você se sente culpada?

Sofia pensou sobre essa pergunta, sobre a resposta que não queria admitir.

— Porque uma parte de mim não odiou — ela finalmente disse. — Uma parte de mim se sentiu poderosa pela primeira vez na vida. — Ela olhou para Laura. — Que tipo de pessoa isso me torna?

Laura ficou em silêncio por um longo momento.

— Isso te torna humana — ela disse finalmente. — E te torna honesta. A maioria das pessoas nunca admitiria isso.

— A maioria das pessoas não matou ninguém.

— A maioria das pessoas também não sobreviveu ao que você sobreviveu. — Laura pegou a mão de Sofia. — Você não é um monstro, Sofia. Você é uma guerreira. Há uma diferença.

Sofia queria acreditar naquilo. Mas não tinha certeza se conseguia.

Sombra convocou uma reunião naquela tarde. Todos se reuniram no salão principal. O que restava de todos, de qualquer maneira. Quarenta e três pilotos onde antes havia setenta. As lacunas na sala eram visíveis. Dolorosas.

Sombra ficou na frente, o rosto esculpido em pedra.

— Temos um problema — ele disse.

Murmúrios percorreram a multidão.

— Marcos ainda está vivo.

O estômago de Sofia despencou. Ela havia presumido, esperado, que ele tivesse morrido na batalha, que tivesse desaparecido para sempre.

— Ele escapou durante a luta — continuou Sombra. — Um de nossos batedores o viu ontem, indo para o sul, em direção à fronteira.

— México? — perguntou Caio.

— É o que pensamos. Ele provavelmente está indo para a base principal do Sindicato, tentando salvar a própria pele oferecendo-lhes algo valioso.

— O que ele poderia oferecer a eles? — perguntou Cass. — Nós destruímos a equipe de assalto deles. Eles perderam trinta homens.

A mandíbula de Sombra se contraiu.

— Informações sobre nós. Nossas defesas, nossas fraquezas. — Ele fez uma pausa. — Nossas localizações.

A sala ficou fria.

— Ele sabe onde ficam as casas seguras — disse alguém.

— Ele conhece as rotas que usamos — acrescentou outro.

— Ele sabe tudo — confirmou Sombra. — Cada segredo que construímos ao longo de vinte anos. E ele vai vender tudo para se salvar.

Sofia sentiu-se mal. Marcos era como uma barata, impossível de matar, sempre sobrevivendo, sempre encontrando novas maneiras de causar danos.

— Então, o que fazemos? — perguntou Tanque.

Os olhos de Sombra varreram a sala.

— Temos duas escolhas. Nos espalhamos, abandonamos tudo, começamos de novo em outro lugar. — Ele fez uma pausa. — Ou acabamos com isso permanentemente.

— Como? — perguntou Caio.

— Encontramos Marcos antes que ele chegue ao Sindicato. Nós o paramos e garantimos que ele nunca mais ameace ninguém.

Silêncio. Então, Sofia se levantou. Todos os olhos na sala se voltaram para ela.

— Eu quero ir.

Sombra ergueu uma sobrancelha.

— Você…?

— Isso começou por minha causa. Porque eu fiz aquela ligação. Porque eu me envolvi. — A voz de Sofia era firme. — Eu quero estar lá quando terminar.

— Isso não é um jogo — disse Sombra. — Marcos é perigoso, desesperado. Ele não tem mais nada a perder.

— Nem eu.

As palavras pairaram no ar, verdadeiras de maneiras que Sofia estava apenas começando a entender. Sombra a estudou por um longo momento. Então ele assentiu lentamente.

— Caio, escolha uma equipe. Vocês partem ao amanhecer.

A equipe de Caio era pequena. Seis pilotos mais Sofia. Rápida, móvel, mortal. Eles se reuniram na garagem naquela noite, verificando armas, preparando as motos. Sofia não sabia pilotar uma motocicleta. Ela iria na garupa de Caio.

— Tem certeza disso? — perguntou Caio.

— Não.

— Pelo menos você é honesta.

— Estou aprendendo a ser. — Sofia pegou uma pistola, verificou a câmara da maneira que Caio lhe ensinara. — Quanto tempo até o encontrarmos?

— Podem ser dias, podem ser horas. Depende do quão rápido ele está se movendo e do quão assustado ele está.

— Ele deveria estar assustado.

Caio quase sorriu.

— Sim, deveria.

Eles pegaram a estrada ao amanhecer. Seis motocicletas rugindo pelo deserto, seguindo uma trilha que Marcos deixara em seu desespero para escapar. Sofia se agarrou à cintura de Caio, sentindo a vibração do motor por todo o seu corpo.

A primeira pista veio em um posto de gasolina a cinquenta quilômetros de Campinas. Um velho atrás do balcão se lembrava de Marcos. “Cara grande, tatuado, parecia que tinha brigado. Comprou água e cigarros, perguntou sobre estradas secundárias para a fronteira.”

— Há quanto tempo? — perguntou Caio.

— Talvez seis, sete horas.

Eles estavam ganhando terreno.

A segunda pista veio em um motel barato. O gerente foi menos cooperativo. Caio se apoiou no balcão, a voz calma, mas aterrorizante.

— Cara grande, pescoço tatuado. Provavelmente pagou em dinheiro. Provavelmente parecia nervoso.

O gerente engoliu em seco.

— Quarto 14. Ele esteve aqui ontem à noite. Saiu por volta da meia-noite.

— Em que direção?

— Sul.

Eles estavam na estrada novamente em cinco minutos. O corpo de Sofia doía de horas na motocicleta, mas ela não reclamou. Não podia reclamar. Não quando estavam tão perto.

Eles alcançaram Marcos na fronteira. Não em uma travessia oficial. Em um trecho de cerca no deserto que as pessoas usavam quando não queriam ser vistas. Sua caminhonete estava mal escondida. Ele estava a pé agora, passando por um buraco na cerca.

— Ali! — gritou um dos pilotos.

Marcos se virou. Viu-os. Seu rosto ficou branco. Então ele correu.

Sofia desceu da moto antes que Caio parasse completamente. Ela não pensou, apenas se moveu, correndo pelo chão do deserto. Atrás dela, Caio gritava algo. Ela não ouviu. Tudo o que conseguia ver era Marcos. Tudo o que sentia era raiva. Ele havia feito isso. Tudo. Os hematomas no rosto de Laura, o terror em seus olhos, a batalha na sede, os sete homens que morreram. E agora ele estava correndo como um covarde.

Sofia o alcançou a cinquenta metros da cerca. Ela o derrubou por trás. Eles caíram com força. Sofia aterrissou por cima dele, as mãos indo para sua garganta. Marcos se debateu, jogou-a para longe, levantou-se.

— Você… — Seus olhos estavam selvagens. — A garçonete. A que arruinou tudo.

— Eu não arruinei nada. — Sofia se levantou, limpou o sangue do lábio. — Você se arruinou há muito tempo.

Marcos riu, um riso alto e louco.

— Você acha que venceu. Acha que acabou. — Ele puxou uma faca do cinto. — Não tenho mais nada a perder, queridinha. Nada.

— Bom. — Sofia ergueu o punho. — Nem eu.

Marcos avançou. Sofia se esquivou, exatamente como Caio a ensinara. Ela agarrou o braço dele, torceu, usou o impulso dele contra ele. A faca voou. Marcos tropeçou, caiu. Sofia o chutou nas costelas antes que ele pudesse se levantar. Uma, duas, três vezes.

— Isso é pela Laura! — ela rosnou. — Isso é pela sede! Isso é por todos que você já machucou!

Marcos se encolheu em uma bola, gemendo.

— Por favor, pare. Eu faço qualquer coisa. Eu sumo. Você nunca mais vai me ver.

— Você está certo. — Sofia pegou a faca do chão. — Não vou mesmo.

Ela a ergueu sobre o peito dele e parou. A voz de Caio. Calma. Perto.

— Sofia. Não.

— Ele merece.

— Eu sei. Ele machucou a Laura. Tentou vendê-la. Matou sete dos seus irmãos.

— Eu sei. — Caio se aproximou. Sua mão tocou o ombro dela. Gentil. — Mas não é isso que você é.

— Você não sabe quem eu sou.

— Sim, eu sei. — A voz de Caio era suave. — Você é a mulher que se colocou na frente de uma estranha para protegê-la. Você é a mulher que tomou uma bala por pessoas que conhecia há três dias. Se você o matar assim, desarmado, indefeso, implorando… você se torna outra coisa. — A mão de Caio apertou seu ombro. — Você se torna ele.

Sofia olhou para Marcos, para o homem que causara tanta dor. Ele estava chorando agora, patético, quebrado. Não valia a pena se tornar uma assassina por ele.

Ela largou a faca.

Caio a afastou, abraçou-a enquanto ela tremia.

— Acabou — ele disse. — Finalmente acabou.

Eles trouxeram Marcos de volta vivo. O julgamento, se é que se pode chamar assim, aconteceu naquela noite. Marcos foi trazido, mãos amarradas.

Sombra ficou na frente.

— Marcos Reyes. Você quebrou seus juramentos. Você machucou mulheres. Você traiu segredos. Você trouxe guerra à nossa porta e nos custou sete irmãos. Tem algo a dizer?

Lentamente, Marcos ergueu a cabeça. Seus olhos encontraram os de Sofia.

— Você deveria ter me matado quando teve a chance.

Sofia não hesitou.

— Eu sei.

— Eu teria feito.

— Eu sei disso também — Sofia se adiantou. — Mas eu não sou você. E nunca serei.

Marcos riu, amargo.

— Você acha que é melhor do que eu. Não é. Você é igual a mim. Só não descobriu ainda.

— Não. — Sofia balançou a cabeça. — Eu fui quebrada uma vez, assim como você. Mas eu escolhi me curar. Você escolheu machucar. Essa é a diferença entre nós.

O sorriso de Marcos desapareceu. Sombra se adiantou.

— A votação foi feita. A decisão é unânime. Você será entregue às autoridades. Estaduais e federais. Eles têm perguntas sobre seu envolvimento com o Sindicato. Perguntas que levarão anos para serem respondidas.

— Prisão? — Marcos riu, mas havia medo em sua voz. — Acha que a prisão me assusta?

— Não. — Sombra se inclinou. — Mas eu fiz umas ligações. Para amigos em certas instalações. Eles sabem quem você é, o que você fez. — Ele se endireitou. — Você estará vivo, Marcos. Mas passará todos os dias desejando não estar.

A cor sumiu do rosto de Marcos.

— Não… não, você não pode… Sombra, por favor… me mate. Apenas me mate…

Dois motociclistas o agarraram e o arrastaram para fora do salão. Seus gritos ecoaram muito depois que a porta se fechou.

A mão de Caio encontrou a de Sofia.

— Acabou — ele disse.

— Sim. — Sofia apertou a mão dele. — Acabou.

Capítulo 9: Intocável

A celebração começou uma hora depois. Música, comida, bebida, o tipo de alívio que vem depois de sobreviver a algo terrível. Sofia ficou à margem de tudo, observando, ainda sem ter certeza se pertencia ali.

Sombra a chamou para seu escritório.

— Tenho algo para você.

Ele lhe entregou um colete de couro branco. Costura vermelha. Bonito e estranho.

— O que é isso?

— Chama-se ser intocável. — A voz de Sombra era solene. — É a maior honra que podemos dar a alguém de fora do clube. Significa que você está sob nossa proteção para sempre. Em cada capítulo, por cada irmão, em cada estado.

Sofia encarou o colete. Suas mãos tremiam.

— Eu não mereci isso.

— Você mereceu no momento em que se colocou entre Marcos e Laura. Você mereceu a cada momento desde então. — Sombra se levantou. — Vista-o.

Os dedos de Sofia tremeram ao pegar o colete. O couro era quente, macio, mais pesado do que parecia. Ela o vestiu. Serviu perfeitamente.

— Bem-vinda à família — disse Sombra. — De verdade desta vez.

Sofia não conseguia falar. Seus olhos ardiam. Algo molhado escorria por suas bochechas. Ela não chorava desde a noite em que escapara de seu próprio agressor, sete anos atrás. Ela estava chorando agora.

— Obrigada — ela conseguiu dizer.

Sombra assentiu.

— Não me agradeça. Agradeça à minha mãe. Ela te viu muito antes de mim.

Caio esperava do lado de fora do escritório. Seus olhos foram para o colete imediatamente, depois para o rosto dela.

— Intocável — ele disse, baixinho.

— Sim.

— Como se sente?

Sofia pensou na pergunta. Em tudo pelo que passara para chegar ali. Em tudo que perdera, encontrara e se tornara.

— Parece que estou voltando para casa — disse ela.

Caio sorriu. Um sorriso de verdade, pela primeira vez desde que ela o conhecera.

— Bom — ele disse. — Porque agora você está presa a nós.

— Posso viver com isso.

Eles ficaram ali por um momento, olhando um para o outro, algo não dito passando entre eles. Então Caio estendeu a mão e pegou a dela.

— Venha — ele disse. — Tem alguém que quer te ver.

Ele a levou pela sede até a cabana médica. Lá dentro, Laura estava deitada na cama, conectada a monitores que bipavam suavemente.

— O bebê está vindo mais cedo — explicou Caio. — O médico acha que talvez esta noite.

O coração de Sofia disparou.

— Ela está bem?

— Ela está bem. O bebê está bem. Só está ansioso para conhecer o mundo.

Laura olhou para cima quando Sofia entrou. Seu rosto estava pálido, mas radiante.

— Você está usando o colete — ela disse.

— Sim.

— Fica bem em você. — Laura estendeu a mão. — Você fica enquanto o bebê nasce?

— Não vou a lugar nenhum.

Laura apertou sua mão.

— Estou com medo.

— Eu sei. Mas estou aqui. Caio está aqui. A família inteira está aqui.

— Família? — Laura sorriu por entre as lágrimas. — Gosto do som disso.

As contrações vieram mais rápido. Sofia segurou a mão de Laura em cada uma delas, conversou com ela, a encorajou. Horas se passaram. A noite escureceu e, então, assim que o sol começou a nascer, um novo som encheu a sala. O choro de um bebê. Forte, alto, vivo.

O médico o ergueu.

— É um menino. Saudável, perfeito.

Laura estava soluçando, rindo, estendendo os braços para seu filho. Eles o colocaram em seus braços. Pequeno, enrugado, lindo. Sofia os observou juntos. Mãe e filho. Sobreviventes.

— Qual vai ser o nome dele? — perguntou Sofia.

Laura olhou para ela, sorriu por entre as lágrimas.

— Eu estava pensando nisso — disse ela. — Sobre tudo o que aconteceu, sobre quem nos salvou. — Ela olhou para seu filho. — O nome dele é Rui — ela disse. — Em homenagem à mulher que me deu uma segunda chance.

A respiração de Sofia ficou presa.

— Laura…

— Você nos salvou, Sofia. Você nos deu um futuro. O mínimo que posso fazer é dar a ele parte do seu nome.

Sofia não conseguia falar. As lágrimas vinham rápido demais agora. O braço de Caio envolveu seus ombros. Sólido, quente.

— Bem-vindo ao mundo, Rui — ele disse, baixinho.

O bebê fez um pequeno som. Contente, seguro. Lá fora, o sol subia sobre o campo. Um novo dia, uma nova vida, um novo começo.

Epílogo: O Legado de Rosa

Um ano depois, Sofia estava atrás do balcão da Lanchonete do Dusty, agora rebatizada de “Cantinho da Sofia”, servindo café para o movimento da manhã. O lugar mudara desde que ela o assumira. Tinta nova, assentos novos, vida nova. Mas algumas coisas permaneciam as mesmas. O café ainda era forte. O bacon ainda estalava na chapa. E agora, além dos caminhoneiros, vinham os motociclistas.

A sineta sobre a porta tocou. Sofia ergueu os olhos. Uma mulher jovem estava na entrada. Olhos que procuravam por ameaças. Hematomas nos braços.

O coração de Sofia parou. Ela conhecia aquele olhar. Ela já usara aquele olhar.

Ela atravessou o salão antes que soubesse que estava se movendo.

— Oi — disse ela, gentilmente. — Eu sou a Sofia. Posso te ajudar?

A mulher se encolheu.

— Eu só… eu estava procurando um lugar para sentar.

— Você pode sentar onde quiser. O café é por conta da casa.

Os olhos da mulher se encheram de lágrimas.

— Obrigada. Eu não tenho dinheiro.

— Tudo bem. Você não precisa de dinheiro aqui. — Sofia a guiou para um assento no canto. Seguro. — Qual o seu nome?

— Amanda.

— Amanda, que bonito. — Sofia sentou-se à sua frente. — Você está em apuros, Amanda?

O rosto da mulher se desfez.

— Como você sabia?

— Porque eu já estive onde você está. Há muito tempo. — Sofia estendeu a mão, pegou a de Amanda. — O que quer que esteja acontecendo, você não está sozinha. Eu prometo.

Amanda desabou em soluços, toda a história se derramando. Um namorado abusivo, ameaças, medo, fuga. Sofia ouviu. Apenas ouviu. Do jeito que alguém uma vez a ouvira.

Quando Amanda terminou, Sofia pegou um cartão no bolso.

— Este é o meu número — disse ela. — Pessoal, direto. Se precisar de ajuda, dia ou noite, você liga.

Amanda encarou o cartão.

— Por que você me ajudaria? Você nem me conhece.

— Porque alguém me ajudou uma vez. Uma estranha. Ela também não me conhecia. — Sofia apertou sua mão. — Ela me deu um número de telefone e me disse para usar se eu precisasse de uma ajuda que não viria de nenhum outro lugar. Aquele número salvou minha vida.

— O que aconteceu com ela?

— Ela morreu há alguns anos. — A voz de Sofia era suave. — Mas antes disso, ela me ensinou algo importante. Que não ajudamos as pessoas porque as conhecemos. Nós as ajudamos porque elas precisam. Porque é isso que pessoas boas fazem.

Amanda agarrou o cartão como uma tábua de salvação.

— Obrigada — ela sussurrou.

— Não me agradeça ainda. Agradeça quando estiver segura. — Sofia se levantou. — Agora, deixe-me pegar algo para você comer.

Sofia caminhou até o balcão, serviu uma xícara de café, deu ao cozinheiro um pedido para o maior café da manhã do menu. Então, ela olhou pela janela. A motocicleta de Caio estava entrando no estacionamento, pontual como sempre.

Ele entrou pela porta, viu Sofia, sorriu.

— Bom dia, linda.

— Bom dia para você.

Ele olhou para a mulher no canto, para os hematomas em seus braços, para o medo em seus olhos.

— Outra? — ele perguntou, baixinho.

— Outra.

Caio assentiu. Não questionou. Não hesitou.

— O que você precisa?

— Apenas fique aqui. Por precaução.

— Sempre.

Ele se sentou no balcão, pediu um café, observou a porta sem observar a porta. Pronto, como sempre.

Naquela noite, Sofia estava na varanda da casa que dividia com Caio, olhando para o campo. O sol se punha, dourado, vermelho e roxo. Caio se aproximou por trás, envolveu-a com os braços.

— Dia bom.

— Dia difícil, mas bom.

— Você salvou mais uma.

Nós salvamos mais uma. O clube, a família. É preciso de todos nós.

— Mas é você quem as vê. Quem sabe. — Caio beijou seu pescoço. — Esse é o dom que Rosa te deu. A capacidade de ver.

Sofia se inclinou para ele.

— Às vezes me pergunto o que teria acontecido se eu não tivesse atendido o telefone no dia em que Laura entrou na lanchonete.

— Você teria atendido. Porque é isso que você é.

— Você não sabe disso.

— Sim, eu sei. — Caio a virou para encará-lo. — Eu te conheço, Sofia Mendes. Conheço seu coração. Conheço sua coragem. Sei que você nunca poderia virar as costas para alguém que precisasse de ajuda.

— Eu costumava pensar que era uma covarde.

— Você nunca foi uma covarde. Você estava apenas esperando o momento certo para ser corajosa.

Eles ficaram ali, sob as estrelas que começavam a aparecer.

— Acho que ela está assistindo — disse Sofia. — Rosa. Acho que ela pode ver o que construímos.

— Também acho.

— Você acha que ela está orgulhosa?

— Eu sei que está. — A voz de Caio era certa. — Você se tornou tudo o que ela esperava que você fosse. E mais.

Sofia pensou sobre isso, sobre a mulher que costumava ser, a mulher que se tornara. Uma garçonete, uma guerreira, uma esposa, uma protetora. Intocável.

Ela passara a vida inteira se sentindo invisível, sem valor, com medo. Agora, ela estava no centro de uma família que se estendia por todo o país. Uma família que lutaria e morreria e mataria para protegê-la. Uma família pela qual ela lutaria e morreria e mataria para proteger.

Ela encontrara seu lugar, seu propósito, seu lar.

E tudo começara com uma ligação. Um momento de coragem. Uma decisão de resistir.

Ela olhou para Caio. Pensou em Amanda, segura na sede, começando sua própria jornada. Pensou em Laura e no pequeno Rui, rindo juntos no pátio. Pensou em Sombra e Cass e Tanque e todos os outros que se tornaram sua família. Pensou em Rosa, observando de algum lugar além.

E ela fez uma promessa a si mesma, à mulher que acreditara nela, a todos que viriam depois. Ela continuaria resistindo, continuaria lutando, continuaria vendo os quebrados e ajudando-os a se curar. Ela honraria o legado de Rosa criando o seu próprio.

Ela seria a mulher no ponto de ônibus para outra pessoa. A estranha que parou. A mão que se estendeu. A voz que disse: “Você não está sozinha”.

— No que está pensando? — Caio apertou sua mão.

— No futuro — disse Sofia. — Em todas as pessoas que ainda não ajudamos. Em todas as mulheres que não sabem que valem a pena ser salvas.

— Nós as encontraremos.

— Eu sei. — Sofia se virou para ele, sorriu. — É o que fazemos.

As estrelas brilhavam intensamente. O campo se estendia para sempre. E Sofia Mendes estava no meio de tudo, finalmente sabendo exatamente quem era. Não a mulher assustada que servia café. Não a vítima que escondia seus hematomas. Não a estranha que teve sorte.

Ela era intocável. Ela era amada. Ela estava em casa. E nada, nem o medo, nem a violência, nem a escuridão de seu passado, jamais tiraria isso dela.