Une serveuse a protégé la petite fille d’un inconnu des coups de feu, ignorant qu’il s’agissait de la fille d’un chef mafieux.

A lanchonete de beira de estrada cheirava a café queimado e desespero às duas da manhã. Helena sentia a gordura da cozinha agarrada à sua pele, infiltrando-se em cada poro como se estivesse a reivindicá-la. Seus pés doíam dentro de tênis gastos. O esquerdo tinha um buraco perto do dedão. Um rasgo que ela remendara com fita adesiva três semanas antes. Acima dela, as luzes fluorescentes zumbiam com aquele zumbido elétrico familiar. De vez em quando, piscavam como se também estivessem exaustas pelo turno da noite.

— A mesa sete quer mais café, querida. — A voz de Dora cortou a névoa de Helena.

Helena assentiu e levantou a cafeteira com mãos que haviam parado de tremer há muito tempo. Agora, aquelas mãos só sabiam como se mover. Mecânicas, automáticas, um sorriso forçado, uma gorjeta que ainda não cobriria a passagem de ônibus para casa.

A « Parada do Vermelho » estava quase vazia esta noite. Apenas o velho Pedro estava em seu canto habitual, cuidando da mesma xícara de café desde a meia-noite. E alguns caminhoneiros entravam, cambaleantes, carregando o cheiro forte de diesel e cigarros. E então havia a mesa doze.

Helena os reconheceu no momento em que entraram, mesmo tentando fingir que não. Trabalhando em lugares como este, ela aprendera a se tornar invisível. Não encare o terno caro. Não se pergunte por que um homem com sapatos de mil reais está comendo um sanduíche de carne moída numa espelunca na beira da Rodovia Presidente Dutra, nos arredores de São Paulo. Apenas sirva o café. Anote o pedido. Cuide da sua vida.

Mas a garotinha tornava impossível para Helena desviar o olhar. A criança não devia ter mais de quatro anos. Cachos dourados como seda caíam pelas costas, o tipo de cabelo que nunca conhecera xampu barato. Ela usava um vestido branco impecável, tão deslocado em meio às cabines de vinil gastas e ao cromo cansado da lanchonete. Ela se sentava quieta, colorindo, enquanto três homens à mesa falavam em sussurros. Suas vozes eram baixas demais para serem ouvidas, mas a linguagem corporal deles gritava tensão. Um deles não parava de olhar para a porta. Outro mantinha a mão perto do casaco de um jeito que fez o estômago de Helena se contrair.

Helena se aproximou com a cafeteira, olhos baixos, seu sorriso profissional no lugar.

— Mais café?

O homem mais próximo, de ombros largos e com uma cicatriz cortando a sobrancelha esquerda, fez um aceno curto. Enquanto servia, Helena vislumbrou algo metálico sob o casaco dele. Sua mão tremeu ligeiramente, e uma gota de café respingou no pires.

— Desculpe — ela murmurou.

— Tudo bem. — A voz dele era fria. Indiferente. Para ele, Helena não existia. Apenas uma garçonete, um fantasma num avental manchado de gordura.

A garotinha levantou o olhar, olhos azuis claros, impossivelmente grandes, fixos no rosto de Helena. A criança sorriu, doce e inocente, e ergueu seu livro de colorir.

— Moça, olha. Eu pintei a borboleta de roxo.

O coração de Helena apertou.

— É linda, querida.

— Lili, não incomode a garçonete. — O homem do outro lado da mesa falou rispidamente, mas havia um carinho escondido sob a firmeza. Ele era diferente dos outros, mais jovem, com uma energia nervosa que irradiava dele como calor. Sua perna balançava sob a mesa. O suor pontilhava seu lábio superior, embora o ar-condicionado estivesse no máximo. Natan Cruz. Helena não sabia o nome dele então, mas nunca esqueceria aquele rosto.

— Ela não está me incomodando — disse Helena suavemente. E ela estava falando sério. Havia algo naquela criança, naquele vestido perfeito entre aqueles homens duros e frios, dentro daquela lanchonete miserável. Algo que fez o peito de Helena doer com uma preocupação sem nome.

Helena voltou para o balcão, limpando superfícies que não precisavam ser limpas, lançando olhares furtivos para a mesa doze. Dora a pegou olhando. Ela se inclinou e sussurrou, seu hálito espesso de cigarro:

— Esse não é o tipo de gente que você deveria notar, querida. Acredite em mim. Sirva o café. Pegue o dinheiro. Esqueça os rostos deles.

Helena assentiu, mas seus olhos continuavam a se desviar para a garotinha. Lili, esse era o nome dela. A borboleta roxa no livro de colorir. Aqueles olhos azuis claros que confiavam no mundo inteiro.

O sino da porta tocou. Mais três homens entraram. E tudo o que Helena pensava que sabia sobre sua vida, sua invisibilidade, sua segurança nas sombras, a pobreza que ela usava como a própria respiração, estava prestes a mudar. Só que ela ainda não sabia. Ela não sabia que em poucos minutos levaria três tiros no corpo. Ela não sabia que acordaria na mansão do chefe da máfia mais poderoso de São Paulo. Ela não sabia que se tornaria sua esposa sem ser perguntada. Mas tudo isso viria depois. Por enquanto, o sino da porta tinha acabado de tocar, e o inferno estava se preparando para abrir seus portões.

A temperatura dentro da lanchonete pareceu cair alguns graus no instante em que aqueles três homens cruzaram a soleira. Helena não precisou olhar diretamente para eles para saber que algo havia mudado. Ela podia sentir no ar, na maneira como os homens da mesa doze de repente ficaram rígidos como estátuas de pedra. Na maneira como suas mãos se moveram para os casacos mais rápido que a respiração.

O líder dos recém-chegados tinha quase um metro e noventa. Cabelos prateados penteados para trás, um rosto magro, maçãs do rosto altas, como se esculpidas em granito. Seus olhos eram frios, nada neles além de escuridão e cálculo. Ele usava um casaco de lã preto que chegava aos joelhos, e cada passo aterrissava com um baque firme e deliberado no piso gasto da lanchonete. Os dois homens atrás dele eram ainda maiores, de ombros largos, com as mãos enfiadas nos bolsos de uma forma que dizia a Helena que estavam segurando algo lá dentro.

O velho Pedro no canto de repente se levantou. Deixou algumas moedas na mesa e escapuliu pela porta dos fundos sem um único olhar por cima do ombro. Os caminhoneiros também desapareceram, como se nunca tivessem estado ali. Dora estava ao lado de Helena, sua respiração subitamente mais pesada, sua mão tremendo enquanto pousava o pano.

— Não olhe — sussurrou Dora, a voz grossa e rouca. — Apenas fique parada. Não olhe.

Mas Helena não conseguia não olhar. Ela viu Natan Cruz pular de pé, sua cadeira rangendo contra o chão. Seu rosto ficara pálido como o de um homem encarando o próprio fantasma. Lili ergueu a cabeça do livro de colorir, os olhos azuis claros arregalados, sem entender o que estava acontecendo.

— Papai… — Sua vozinha tremeu. Pequena, frágil.

— Natan. — O homem de cabelos prateados falou. Sua voz era baixa e suave como veludo, mas tão fria que Helena sentiu como se alguém tivesse derramado água gelada em sua espinha. — Há quanto tempo.

Natan engoliu em seco, sua garganta trabalhando como se o ato doesse.

— Romano, eu… eu preciso de mais tempo.

— Tempo. — Romano Costa repetiu a palavra como se fosse uma piada divertida. Ele se aproximou, cada passo lento, intencional, como um predador encurralando sua presa. — Eu te dei tempo, Natan. Seis meses. Você disse que teria o dinheiro. Disse que pagaria tudo de volta. Em vez disso, você pegou de mim e fugiu.

— Eu não fugi. — Natan levantou a mão como se para detê-lo, mas o gesto era fraco, sem esperança. — Eu só preciso de mais um mês. Um mês!

Romano riu. Mas não havia calor nisso. Era seco, afiado, como uma navalha raspando vidro.

— Você deve à família Costa um milhão de reais. Você apostou tudo. Perdeu tudo. E agora quer que eu acredite que mais um mês mudará tudo?

Os dois homens com Romano avançaram, posicionando-se de cada lado de Natan como muralhas de carne. Os seguranças de Natan também se moveram, mas Romano só precisou olhá-los. Um único olhar, e eles congelaram. Helena entendeu então. Mesmo que os homens da mesa doze estivessem armados, mesmo que parecessem perigosos, eles não eram o poder real nesta sala. Romano Costa era.

Lili começou a chorar. Seu choro era pequenino, sufocado, como o de um gatinho abandonado na chuva. Ela desceu da cabine e correu para o pai, bracinhos envolvendo firmemente a perna de Natan, o rosto pressionado contra seu joelho.

— Papai, papai, estou com medo.

Natan se abaixou, um braço envolvendo a filha, mas seus olhos nunca deixaram Romano.

— Não faça nada com ela. Por favor, ela é só uma criança.

Romano inclinou a cabeça, o olhar descendo para Lili como se só agora tivesse notado sua existência. Ele não disse nada por vários segundos, e aquele silêncio foi mais assustador do que qualquer ameaça.

— Eu não machuco crianças, Natan. — Quando ele finalmente falou, sua voz era estranhamente gentil. — Mas você é diferente. Você colocou sua própria filha nesta posição quando pegou meu dinheiro e fugiu. Você achou que eu não te encontraria? Achou que poderia se esconder numa lanchonete miserável no subúrbio e eu não saberia?

Helena estava atrás do balcão, o coração martelando no peito com tanta força que ela temia que todos na lanchonete pudessem ouvir. Ela sabia que deveria se virar. Sabia que deveria fazer o que Dora disse. Não olhe. Não note. Mas seus olhos permaneceram fixos em Lili, no rosto encharcado de lágrimas da criança. No jeito como aqueles dedinhos se agarravam ao pai como se ele fosse a única tábua de salvação num mar violento.

— Vou te dar uma chance, Natan — disse Romano, e sua voz suavizou, quase amigável. E foi essa amizade que fez Helena tremer. — Venha comigo agora mesmo. Vamos conversar. Se você conseguir me convencer de que vale mais do que o que deve, talvez eu considere.

— E a Lili? — perguntou Natan, a voz áspera.

— Ela fica aqui. — Romano olhou para um de seus guarda-costas. — Com o Sergey. Para garantir que você não tenha nenhuma ideia estúpida.

— Não. — Natan balançou a cabeça, o rosto contorcido de medo e desespero. — Não vou deixar minha filha com…

— Você não tem escolha. — Romano o interrompeu, e desta vez a falsa amizade se foi. Sua voz ficou afiada como uma lâmina. — Você ficou sem escolhas há muito tempo, Natan. No momento em que pôs a mão no meu dinheiro.

Helena viu Natan começar a tremer. Viu-o olhar para a filha, depois para Romano, depois para os guardas se aproximando, e ela viu algo mudar em seus olhos. Uma decisão. Uma decisão desesperada.

A mão de Natan moveu-se em direção ao casaco. Tudo aconteceu num instante, mas para Helena, o tempo desacelerou. Esticou cada segundo, longo e pegajoso, como caramelo puxado. Ela viu a mão de Natan deslizar para dentro do casaco. Viu os olhos de Romano Costa se estreitarem, reconhecendo algo. Viu seus guarda-costas se moverem também, as mãos saindo dos bolsos com algo preto, brilhante e letal. E Lili. Lili ainda estava lá, agarrada à perna do pai, o rosto erguido com olhos azuis encharcados de lágrimas, sem entender a tempestade que estava prestes a explodir.

— Tem uma criança aqui! — A voz de Helena ecoou antes mesmo que ela percebesse que estava falando. Cortou a sala como um sino. Todas as cabeças se viraram para ela. Romano Costa olhou para ela. Seus olhos frios pousaram no rosto de Helena por meio segundo, e nesse meio segundo, ela se sentiu nua, vista até os ossos. Ele não disse uma palavra. Não precisava. Aquele olhar dizia o suficiente. Ela era ninguém. Ela não importava. Era apenas um verme ousando se intrometer nos negócios das águias.

Mas aquele momento de distração foi suficiente para Natan agir. Ele sacou a arma. O metal preto brilhou sob a luz fluorescente doentia, e tudo explodiu.

O primeiro tiro estalou como um trovão. Helena nunca tinha ouvido um tiro de verdade na vida. Nos filmes, soa limpo, arrumado, como um foguete. Na realidade, foi um rugido que rasgou o ar, seus tímpanos, rasgou tudo o que ela já acreditara sobre segurança. Dora gritou em algum lugar atrás do balcão. Vidros se estilhaçaram, mesas e cadeiras foram derrubadas. Um segundo tiro, um terceiro, um quarto. Eles dispararam em rápida sucessão, como fogos de artifício do inferno, e a pequena lanchonete se tornou um campo de batalha num piscar de olhos.

Helena não pensou. Não havia tempo para pensar. Seu corpo se moveu antes que sua mente pudesse alcançá-lo. Suas pernas a levaram em direção à mesa doze, em direção ao guincho de uma menina de quatro anos parada no meio do tiroteio. Lili, a garotinha, estava paralisada de terror, mãos tapando os ouvidos, boca aberta num grito silencioso. Natan havia caído, ou estava se abaixando, ou estava atirando de volta. Helena não sabia. Helena não se importava. Ela só via Lili. Só o vestido branco impecável na névoa de fumaça. Só aqueles olhos azuis claros inundados de horror.

Uma bala passou zunindo pelo ombro de Helena. Tão perto que ela sentiu o ar quente. Outra bateu na parede bem ao lado dela, explodindo poeira e tinta velha no ar. Mas Helena não parou. Ela não podia parar. Por vinte e sete anos, ela aprendera a ser invisível, a manter a cabeça baixa, a evitar problemas, a sobreviver um dia de cada vez. Mas naquele momento, algo enterrado fundo dentro dela, algo que ela não sabia que carregava, irrompeu e queimou todo o resto.

Ela se lançou em direção a Lili, braços estendidos. E naquele segundo, ela não era Helena Mercer, a garçonete falida com cento e vinte reais na conta. Ela era algo mais primal, mais feroz. Um puro instinto de proteção que não precisava de razão, de lógica.

Ela agarrou Lili, puxou a criança para seus braços e caiu no chão. Dois corpos bateram forte no piso frio, e Helena se torceu para que suas costas absorvessem tudo, para que sua estrutura magra se tornasse o único escudo entre a garotinha e o inferno que desabava ao redor delas. Lili soluçava contra o peito de Helena, dedinhos agarrando o avental manchado de gordura como se fosse a própria vida. Helena a segurou firme. Uma mão cobria a cabeça de Lili. A outra pressionava o rosto de Lili contra seu peito para bloquear o som, bloquear a visão, bloquear tudo. Helena podia sentir o coração de Lili batendo descontroladamente, como as asas de um pássaro preso. Podia sentir lágrimas e ranho encharcando o tecido fino, e ela segurou mais forte.

O tiroteio continuava. Em algum lugar, um homem gritou em russo. Uma janela explodiu em cacos brilhantes. Alguém gemeu, rouco de dor. O ar se encheu com o cheiro forte de pólvora misturado com café queimado e o cheiro de sangue.

Sangue. Helena podia sentir o cheiro de sangue. Quente, metálico e primitivo. E ela não sabia de quem era.

Ela ficou ali, enrolada em torno de Lili como um casulo, e rezou. Ela não era uma mulher religiosa. Não conseguia se lembrar da última vez que entrara numa igreja. Mas agora seus lábios se moviam com súplicas silenciosas, lançadas a quem quer que estivesse ouvindo. « Por favor, por favor, não deixe a criança se machucar. »

Uma forte explosão irrompeu tão perto que os ouvidos de Helena zumbiram. Ela sentiu algo escaldante passar zunindo, e um batimento cardíaco depois, a dor a atingiu. Veio de seu ombro, ardendo como se alguém tivesse pressionado um ferro em brasa em sua carne. Helena cerrou os dentes, engolindo o grito na garganta. Não, não grite. Se ela gritasse, Lili ficaria com mais medo. Se ela soltasse, Lili morreria. Ela não podia soltar. Não podia. Nem agora. Nunca.

Ela segurou Lili ainda mais forte. Mesmo com o ombro queimando, mesmo sentindo algo quente e úmido escorrendo por seu braço. Sangue. O sangue dela. Mas não importava. Nada importava, exceto a criança tremendo em seus braços.

— Eu te peguei, querida. Eu te peguei — sussurrou Helena no cabelo de Lili, sua voz trêmula, mas firme. — Prometo que vou te manter segura.

E então a segunda onda de dor atingiu. Desta vez no peito, mais forte, mais profunda, como se alguém tivesse enfiado uma lança em suas costelas. Helena não conseguiu engolir o grito desta vez. Ele saiu dela, rasgado e quebrado, mas seus braços ainda não se soltaram. Ainda não se soltaram. As bordas do mundo começaram a se desfocar.

A terceira bala veio como um veredicto final. Rasgou as costelas de Helena por trás, e desta vez, seu corpo não tinha mais força para resistir. Parecia que alguém havia enfiado uma espada em chamas através dela, torcido uma vez, e depois deixado o fogo se espalhar, queimando cada célula. Sua boca se abriu, mas nenhum som saiu. Apenas o gosto metálico de sangue subiu por sua garganta, quente e espesso. Mas seus braços ainda não soltaram Lili, mesmo com a dor. Mesmo enquanto seu corpo gritava por rendição, mesmo enquanto o mundo ao seu redor derretia em borrões de cor sem sentido, sua mão permaneceu travada em torno daquela forma pequena e trêmula, como se fosse a única coisa que ainda importava. Como se fosse a única razão pela qual seu coração continuava a bater.

— Eu te peguei — sussurrou Helena. Ou ela pensou que sussurrou. Ela não tinha mais certeza. Palavras e pensamentos estavam se misturando, a fronteira entre eles se desvanecendo como todo o resto. — Eu te peguei, querida. Eu prometo. Eu prometo.

Lili chorava no peito de Helena, seus soluços abafados pelo avental encharcado de sangue. Dedinhos se agarravam a Helena como se ela fosse o último salva-vidas num oceano tempestuoso. E Helena segurou mais forte, sempre mais forte, mesmo com o sangue escorrendo, mesmo com a força se esvaindo. Mesmo enquanto a escuridão se infiltrava das bordas de sua visão.

O tiroteio começou a diminuir. Ou talvez os ouvidos de Helena tivessem simplesmente parado de ouvir. Ela não sabia mais dizer. Cada som parecia vir de longe, como se ela estivesse afundando debaixo d’água e o mundo acima da superfície estivesse recuando. Passos, pesados, urgentes, pessoas correndo, gritando, fazendo coisas. Helena não estava mais lúcida o suficiente para entender.

Então os tiros pararam completamente. O silêncio caiu como um cobertor pesado, quebrado apenas por respirações ofegantes, gemidos dolorosos e o choro sufocado de Lili.

Alguém estava se aproximando. Helena sentiu a presença mais do que a viu. Uma grande forma escura bloqueou a luz fluorescente doentia acima. Um cheiro estranho, caro e masculino, se infiltrou no fedor de pólvora e sangue.

— Deixe-me ver a criança. — A voz era baixa e profunda, um comando que não podia ser recusado. Mas por baixo da frieza havia outra coisa. Preocupação, medo, algo humano, algo que Helena não esperava de uma voz que carregava aquele tipo de autoridade.

Ela tentou se enrolar mais apertado em torno de Lili, o instinto de proteção ainda mais forte que a dor e a exaustão, mas seu corpo não obedecia mais. Estava desmoronando, pedaço por pedaço, como um prédio cuja fundação foi arrancada.

Uma mão tocou seu ombro, não para puxar, não para forçar, apenas para tocar, gentil de uma forma que a assustou, vindo de um homem que ela nunca conhecera, no meio de uma cena encharcada de sangue como esta.

— Ela foi atingida. — Outra voz, mais urgente. — Dimitri, pegue o carro. Agora! Ela está sangrando muito.

Helena tentou abrir os olhos. Não sabia quando os fechara. Suas pálpebras estavam pesadas como chumbo, mas ela as forçou porque precisava saber que Lili estava segura. Precisava saber que o que ela fizera significava algo. A luz estava embaçada, rostos borrados e indistintos, mas um rosto estava perto, mais nítido que todo o resto, como se se recusasse a ser engolido pela escuridão que se espalhava. Um homem, feições angulosas, um queixo como se tivesse sido esculpido em pedra, cabelo preto, olhos cinzentos, frios como um céu de inverno. Mas naqueles olhos, no momento em que encontraram os de Helena, algo brilhou. Não frieza, não indiferença. Algo primal e violento, como um fogo aceso no meio da noite.

— Por quê? — Ele perguntou, a voz áspera. — Por que você fez isso?

Helena queria responder. Queria dizer que não sabia. Que não tinha pensado. Que só vira uma criança aterrorizada e seu corpo se movera por conta própria. Mas sua boca não funcionava mais. Apenas sangue. Apenas aquele gosto metálico.

— Lili… — Helena resmungou, e não tinha certeza se o som realmente saíra de seus lábios ou apenas ecoara dentro de sua cabeça. — Ela… ela se machucou?

— Ela está segura. — O homem disse, e sua voz suavizou. Apenas uma fração, o suficiente para Helena notar. — Por sua causa. Ela está segura por sua causa.

— Bom… — Helena sentiu seus lábios se curvarem. Ou pelo menos ela pensou que sim. — Bom…

— Quem é ela? — outra voz perguntou de algum lugar próximo.

— Apenas uma garçonete daqui. Ninguém.

— Ela é uma heroína — respondeu o homem de olhos cinzentos, e sua voz ficou afiada novamente, mas desta vez não era direcionada a Helena. — Traga o carro aqui. Vamos levar as duas.

— As duas? Ela precisa de um hospital.

— Eu sei do que ela precisa.

Houve movimento. Alguém levantou Helena, e a dor explodiu em seu corpo como fogos de artifício. Mas parecia distante, como se estivesse acontecendo com outra pessoa. Ela sentiu calor, um corpo duro a segurando, o cheiro de colônia cara misturado com pólvora.

— Você vai ficar bem. — Aquela voz novamente, baixa e firme, bem ao lado de seu ouvido. — Eu prometo que você vai ficar bem. Não vou deixar você morrer.

Helena queria perguntar por quê. Queria perguntar quem ele era. Queria perguntar por que um estranho faria promessas a uma garçonete moribunda numa lanchonete miserável. Mas a escuridão a estava puxando para baixo, mais fundo, mais longe. E a última coisa que Helena entendeu antes de mergulhar completamente no nada foram aqueles olhos cinzentos, observando-a como se ela fosse algo precioso, como se fosse algo que valesse a pena salvar.

Então, tudo se apagou.

A consciência retornou em pedaços estilhaçados. Primeiro veio a maciez. Uma maciez tão errada que era quase estranha, como se ela estivesse deitada numa nuvem. Depois veio o cheiro. Não o fedor familiar de gordura e café queimado, mas jasmim, tecido limpo, algo caro e desconhecido.

Helena tentou abrir os olhos, mas suas pálpebras estavam pesadas como pedra, recusando-se a obedecer. Ela tentou se mover, e a dor irrompeu instantaneamente de seu ombro, de seu peito, de suas costelas, lembrando-a de que o que aconteceu não foi um pesadelo.

Um gemido escapou de sua garganta seca.

— Não se mova. Vai arrebentar os pontos.

Aquela voz. Helena a reconheceu imediatamente, embora a tivesse ouvido apenas uma vez, meio afogada em sangue e caos. Baixa, profunda, cheia de autoridade.

Ela forçou os olhos a se abrirem, piscando contra a luz suave que entrava de algum lugar. O mundo lentamente se tornou nítido, e Helena pensou que devia estar sonhando, porque não havia como o que ela estava vendo ser real.

Um teto que se elevava muito acima dela, decorado com padrões entalhados intrincados que ela só vira em filmes sobre palácios europeus. Um lustre de cristal pendurado no alto, lançando uma luz dourada e quente. Cortinas de veludo azul-escuro puxadas para trás para revelar janelas enormes com vista para um jardim com uma fonte e estátuas de mármore.

E a cama em que ela estava. Parecia grande o suficiente para abrigar uma família inteira. Lençóis de seda branca estavam frios contra sua pele, e os travesseiros eram macios como nuvens. Helena nunca tocara em nada tão suave em todos os seus vinte e sete anos de vida.

— Onde eu estou? — Sua voz saiu áspera, arranhando sua garganta como lixa.

— Na minha casa.

Helena virou a cabeça e o viu. O homem da lanchonete. O homem com os olhos cinzentos e frios que a olhara no último momento antes que a escuridão a engolisse por completo. Ele estava sentado numa poltrona de couro perto da janela, como se estivesse ali há muito tempo. A luz da tarde traçava os planos nítidos de seu rosto, enfatizando a linha dura de sua mandíbula e as maçãs do rosto altas. Ele usava uma camisa preta, com as mangas enroladas até os cotovelos, revelando antebraços fortes cobertos de tatuagens que Helena não conseguia distinguir daquela distância.

Ele era tão assustador quanto ela se lembrava, talvez mais assustador à luz do dia, mas seus olhos, quando pousaram nela, não estavam completamente frios. Havia outra coisa ali, algo que Helena não conseguia nomear.

— Você ficou inconsciente por dez dias — ele disse sem emoção, como se estivesse dando um boletim meteorológico. — O médico disse que você quase morreu três vezes na mesa de cirurgia. Seu coração parou duas vezes.

Dez dias. As palavras afundaram na mente de Helena como pedras jogadas na água. Dez dias. Ela havia perdido dez dias.

— Lili… — O nome saiu antes que ela pudesse pensar. Ela tentou se sentar, e a dor rasgou seu corpo, jogando-a de volta nos travesseiros com um som estrangulado. — A menina. A garotinha. Ela está segura?

Ele se levantou, movendo-se em direção à cama com passos longos e silenciosos como um gato.

— Lili está segura. Nem um arranhão. Por sua causa.

Helena fechou os olhos e sentiu lágrimas quentes escorrerem por suas têmporas, encharcando a seda. Ela não tinha certeza se estava chorando de alívio ou de dor. Talvez ambos.

— Natan… — Ela fez a pergunta, embora já soubesse a resposta, embora tivesse visto como tudo terminou.

— Morto. — Nenhuma emoção em sua voz. Nenhuma tristeza, nenhum arrependimento, apenas a verdade. Nua e cruel. — Ele fez escolhas com consequências. Pagou por elas.

Helena abriu os olhos e olhou para o homem parado ao lado de sua cama.

— Quem é você?

A pergunta importava. Ela sabia. Porque ela estava deitada em sua casa, em sua cama, usando roupas que outra pessoa havia colocado nela. Porque ele falava da morte como as pessoas falam do tempo. Porque havia algo nele que fazia cada instinto de sobrevivência dela gritar.

— Domênico Lobo. — Ele disse como se o nome devesse significar algo para ela. Quando ela apenas o encarou com olhos vazios, algo cintilou em seu rosto. Surpresa, talvez até diversão. — Você realmente não sabe quem eu sou.

— Deveria?

— A maioria das pessoas nesta cidade sabe. — Ele inclinou a cabeça, olhos cinzentos varrendo seu rosto como se procurasse por algo. — Eu comando tudo. A família, o território, tudo.

Máfia. A palavra se formou na mente de Helena como um relâmpago. Ele era um chefe da máfia. Ela estava deitada na casa de um chefe da máfia. Na cama de um chefe da máfia, salva por um chefe da máfia.

— Eu preciso ir embora. — Ela tentou se sentar novamente, apesar da dor que a rasgava por dentro. — Preciso ir para casa. Meu trabalho, meu apartamento…

— Você não pode ir embora. A lanchonete está fechada permanentemente. É uma cena de crime. — Domênico disse com uma calma que era aterrorizante. — Seu apartamento foi esvaziado. Suas coisas estão aqui.

Helena congelou.

— Você… você entrou na minha casa?

— Mandei alguém fazer isso. — Ele puxou a cadeira para mais perto da cama e sentou-se, cotovelos apoiados nos joelhos, como se estivessem tendo uma conversa normal em vez de viver dentro de um pesadelo. — Você não pode voltar para lá. Nunca mais.

— Por quê? — A voz de Helena tremeu. — Eu sou ninguém. Sou apenas uma garçonete.

— Porque os homens que atacaram naquela noite — disse Domênico, e pela primeira vez, algo sombrio deslizou por aqueles olhos cinzentos. — Eles te viram. Sabem o seu rosto. Sabem que você salvou a Lili. E isso te torna um alvo.

Helena sentiu o sangue sumir de seu rosto.

— A menos que eu te proteja. — Domênico se inclinou para a frente, e de repente o espaço entre eles pareceu sufocantemente pequeno. — E é exatamente isso que eu vou fazer. Quer você queira ou não.

Proteção. A palavra soou dentro da cabeça de Helena como um alarme. Ela não precisava da proteção de ninguém. Sobrevivera por vinte e sete anos por conta própria. Sem pai, sem mãe, sem ninguém. Ela não precisava de um chefe da máfia decidindo sua vida por ela.

— Eu não preciso que você me proteja — disse Helena, tentando tornar sua voz forte, mesmo enquanto seu corpo parecia se desfazer de dor. — Vou sair daqui assim que puder andar. Vou encontrar um novo emprego, um novo lugar para morar. Eu vou…

Ela parou. Porque quando levantou a mão para enfatizar suas palavras, a luz da janela captou algo em seu dedo. Algo que brilhou. Algo que não deveria estar lá.

Helena olhou para sua mão esquerda, e o mundo parou. Um anel, não do tipo barato vendido em loja de descontos. Um diamante maciço, provavelmente do tamanho da unha de seu polegar, cercado por esmeraldas menores dispostas num círculo perfeito. O anel pesava em seu dedo anelar, como se a estivesse reivindicando, como se estivesse marcando território.

— O que… — sussurrou Helena, sua voz mal sendo um sopro. — O que é isso?

Domênico não respondeu imediatamente. Ele ficou ali, olhos cinzentos observando-a com uma calma aterrorizante, como se estivesse esperando por uma reação que ele antecipara há muito tempo.

Helena tentou tirar o anel. Ele não se moveu. Seu dedo estava inchado, talvez por causa dos medicamentos, talvez pelo trauma, e o anel agarrava com força, como se tivesse sido projetado para ficar preso ali. Ela puxou com mais força, ignorando a dor que rasgava seu ombro, ignorando o fato de que estava se machucando. Tinha que sair. Tinha que sair agora.

— Eu não faria isso se fosse você. — A voz de Domênico cortou seu pânico. Helena ergueu o olhar e viu algo em seus olhos que não conseguia decifrar. — Você só vai se machucar mais.

— O que é isso? — ela perguntou novamente, desta vez sua voz tremeu, não de fraqueza, mas de um medo que subia por sua espinha. — Por que tem um anel na minha mão?

— É uma aliança de casamento — disse Domênico, da mesma forma que um homem diria que estava chovendo lá fora. — Sua e minha. Estamos casados.

— Não. — A palavra explodiu de Helena como um tiro. — Não, isso é impossível. Eu não… eu nunca… — Ela encarou Domênico, encarou aqueles olhos frios e cinzentos, procurando por qualquer sinal de uma piada, um erro, qualquer coisa exceto a verdade brutal que ele acabara de proferir. Ela não encontrou nada.

— A cerimônia aconteceu enquanto você estava em recuperação — continuou Domênico, sua voz ainda perfeitamente calma. — Uma cerimônia pequena, apenas a família e as testemunhas necessárias. Os papéis foram assinados. O casamento é reconhecido.

— Eu estava inconsciente! — disse Helena, e sua voz começou a tremer, escapando de seu controle. — Eu estava em coma! Como você pôde? Como alguém pôde permitir? Isso é sequestro! É coação! É…

— Era a única maneira de te manter viva. — Domênico a interrompeu, e pela primeira vez, algo mudou em sua voz. Não raiva, não defensiva. Uma paciência cansada, como se estivesse explicando algo óbvio para uma criança. — Você sabe o que acontecerá se a equipe do Costa te encontrar? Eles não vão te matar rapidamente. Vão te torturar dia após dia, hora após hora. Para obter informações sobre mim, sobre minha organização. E quando você não tiver nada para dar, quando eles perceberem que você realmente é apenas uma garçonete que não sabe de nada, eles vão te matar lentamente, dolorosamente, e enviarão pedaços de você para mim como uma mensagem.

Helena sentiu-se enjoada.

— Então me deixe ir. — Sua voz saiu fina. — Deixe-me desaparecer. Sairei da cidade, sairei do país se for preciso.

— Eles não vão. Eles vão te encontrar — interrompeu Domênico. — Não importa para onde você corra, não importa onde se esconda, eles têm gente em todos os lugares. E quando te encontrarem, ninguém poderá te proteger. A menos que você pertença a mim.

Ele se levantou e se aproximou da cama, e sua sombra caiu sobre Helena como um cobertor preto.

— A esposa do Pakhan é intocável. Essa é a lei. É a regra que até os inimigos têm que seguir. Se eles te tocarem agora, é uma declaração de guerra. Não comigo, com toda a Bratva. Ninguém é tolo o suficiente para fazer isso.

Helena olhou para ele e sentiu algo se quebrar dentro dela. Não seu coração. Seu coração endurecera há muito tempo. Outra coisa. Esperança. A ilusão de liberdade. A crença de que um dia ela poderia escapar do destino escrito para pessoas como ela.

— Eu não concordei — disse ela, e sua voz caíra para um sussurro. — Eu não concordei com nada disso.

— Eu sei — respondeu Domênico, e estranhamente, algo como arrependimento cintilou em seus olhos. — Mas você está viva. É a única coisa que importa.

— Para quem? — perguntou Helena, lágrimas começando a escorrer por suas bochechas, embora ela não quisesse. — Para quem importa? Para mim ou para você?

Domênico não respondeu. Apenas ficou ali, observando-a chorar, seu rosto ainda a máscara perfeita de controle sem emoção. Então ele se virou e caminhou em direção à porta.

— Você deveria descansar — disse ele sem olhar para trás. — Conversaremos mais quando você estiver mais forte. Há muito que você precisa aprender. Muito que você precisa saber sobre sua nova vida.

— Eu não quero uma nova vida! — Helena gritou atrás dele, sua voz quebrando. — Eu só quero minha vida antiga.

Domênico parou na porta. Ele olhou para trás, e pela primeira vez, Helena viu algo quase gentil naqueles olhos cinzentos.

— Aquela vida se foi, Helena. — Ele disse o nome dela como se fosse a primeira palavra que já pronunciara. — Mas eu posso te dar uma melhor. Se você me deixar.

Ele saiu, e a porta se fechou suavemente atrás dele. E Helena ficou ali, num quarto luxuoso que não era dela, em lençóis de seda que não eram dela, com um anel de diamante na mão que não era dela. Ela ficou ali e chorou, não de dor, não de medo, mas porque percebeu que, pela primeira vez na vida, alguém a havia visto de verdade, e esse alguém era um monstro.

Helena não sabia por quanto tempo estivera chorando. Talvez alguns minutos, talvez algumas horas. O tempo se tornara sem sentido neste quarto luxuoso, onde não havia relógios na parede, nenhum barulho de fora, nada para marcar a passagem de cada momento. Ela só sabia que, quando a porta se abriu novamente, seus olhos estavam secos e inchados, e sua garganta ardia como se tivesse engolido areia.

A pessoa que entrou não era Domênico. Era uma jovem, provavelmente da idade de Helena ou um pouco mais velha, com longos cabelos pretos presos num coque arrumado na nuca e olhos afiados que carregavam o olhar de alguém que vira demais na vida. Ela usava jeans pretos e um suéter de caxemira cinza, casual o suficiente para não ser uma empregada, mas séria o suficiente para não ser uma convidada. Ela carregava uma bandeja com uma tigela fumegante de mingau e um copo d’água.

— Eu sou Natália — ela colocou a bandeja na mesa ao lado da cama, sua voz clara e prática. — Mas pode me chamar de Tasha. Fui designada para ajudá-la a se adaptar.

Helena olhou para ela com olhos vazios. Adaptar? A palavra soava como uma piada cruel. Como alguém poderia se adaptar a ser mantida em cativeiro, casada sem ser perguntada, trancada numa gaiola dourada com um monstro?

— Eu sei o que você está pensando. — Natália puxou a cadeira que Domênico usara para mais perto e sentou-se, cotovelos nos joelhos, confortável como se fossem velhas amigas. — Você está pensando que isso é uma loucura, que foi sequestrada, que Domênico é um tirano que controla tudo. E você está certa sobre tudo isso.

Helena piscou, surpresa com a franqueza.

— Então por que você o está ajudando?

— Porque eu já fui como você — respondeu Natália sem emoção. — Circunstâncias diferentes, mesmo mundo. Eu sei como funciona. E sei que às vezes o que parece o inferno é o único caminho para sair de um inferno pior. — Ela se inclinou para a frente, olhos fixos em Helena. — Deixe-me explicar onde você está. Domênico Lobo é o Pakhan da Bratva, a máfia russa que controla a maior parte de São Paulo e do Sudeste. Ele não é apenas um chefe. Ele é um rei. Tudo, desde os portos até os cassinos, do transporte de cargas ao mercado imobiliário, passa por suas mãos.

— E a equipe do Costa? — perguntou Helena, o nome evocando a imagem do homem de cabelos prateados com olhos de serpente.

— Romano Costa costumava ser um aliado — replicou Natália, sua voz escurecendo. — Mas ele queria mais do que lhe foi dado. Ele queria o trono de Domênico. Nos últimos meses, ele tem atacado nossas operações, matado nossos homens, tentando iniciar uma guerra. Natan Cruz era primo de Domênico. — Natália continuou. — Ele era um de nós. Mas tinha um problema com jogos de azar. Quando não pôde pagar suas dívidas, tentou fugir com Lili, sua filha. Mas Natan devia a Costa uma quantia enorme de dinheiro e não tinha como pagar. Então, Costa o transformou num fantoche.

Helena lembrou-se do rosto de Natan na lanchonete. A ansiedade, o suor, a maneira como ele não parava de olhar para a porta. Ele sabia que estavam vindo. Ele sabia. E ainda assim levou Lili para lá.

— Costa queria usar Lili para forçar Domênico a se render — disse Natália, e pela primeira vez, algo como raiva deslizou em sua voz. — Uma criança de quatro anos, uma ferramenta num jogo de poder. Mas então você apareceu. Uma garçonete que ninguém conhecia, sem conexão com nosso mundo, que correu para o meio do tiroteio para salvar uma criança estranha. Você levou três tiros. Três. E ainda assim não a soltou.

Helena não disse nada. Ela se lembrava daquele momento. A sensação das balas rasgando seu corpo e o jeito como seus braços permaneceram travados em torno de Lili como se fosse a única coisa que importava.

— No nosso mundo, isso cria uma dívida — disse Natália. — Uma dívida de sangue. Você salvou o que Domênico mais valoriza. Isso não é algo que dinheiro pode pagar.

— Então ele paga me fazendo prisioneira? — perguntou Helena, amargura em sua voz.

— Ele paga garantindo que você viva — respondeu Natália sem rodeios. — Você sabe quantas vezes quase morreu naquela mesa de cirurgia? Sabe quantos médicos Domênico trouxe de todo o mundo para te salvar? Sabe por quanto tempo ele ficou sentado ao lado da sua cama?

Helena ficou em silêncio. Ela não sabia de nada disso. Não sabia nada, exceto que acordara com um anel na mão e uma vida que fora roubada.

— O casamento não é uma prisão, Helena — disse Natália, sua voz suavizando um pouco. — É um escudo. No nosso mundo, a esposa do Pakhan é intocável. Tocar em você é uma declaração de warra contra toda a organização. Ninguém, nem mesmo Costa, se atreve a arriscar isso.

— Mas eu não quero viver no seu mundo — sussurrou Helena. — Eu só quero minha vida normal.

— Normal? — Natália inclinou a cabeça. — Você mora sozinha. Sem família, sem amigos próximos. Trabalha no turno da noite numa lanchonete miserável por um salário com o qual não consegue viver. Seu apartamento não tem aquecimento funcionando e a fechadura da porta está quebrada. Você tem cento e vinte reais na sua conta bancária. É para essa vida que você quer voltar?

Helena sentiu como se tivesse levado um tapa. Como ela sabia de tudo isso? Claro que a haviam investigado. Claro que sabiam tudo. Ela era um livro aberto com páginas em branco. Nada que valesse a pena esconder.

— Não estou dizendo que sua vida antiga era boa. — Natália se levantou e caminhou em direção à porta. — Estou dizendo que sua nova vida não precisa ser terrível. Você pode escolher ver esta gaiola como uma prisão. Ou pode vê-la como uma oportunidade. — Ela parou na porta e olhou para trás. — O jantar com a família é às sete. Você deveria estar lá. Eles querem conhecer a mulher que salvou a Lili. E, Helena — acrescentou ela, a voz mais gentil. — Não tente fugir. Não porque eles vão te pegar, mas porque fora destes muros, não há nada que te proteja dos lobos que esperam lá fora.

A porta se fechou, e Helena ficou sozinha novamente, com o anel pesado na mão e verdades que pareciam ainda mais pesadas.

As sete horas chegaram mais rápido do que Helena queria. Natália voltou com um vestido verde-esmeralda, do tipo de tecido macio e caro que Helena nunca tocara na vida. Ela foi ajudada a tomar banho. Seus curativos foram trocados. Roupas foram colocadas nela como se fosse uma boneca. Seu corpo ainda fraco demais para lutar, mesmo com a mente gritando.

Quando se olhou no espelho, não reconheceu a mulher que a encarava. Seu cabelo castanho fora alisado e escovado, caindo sobre os ombros. Uma maquiagem leve escondia os hematomas e a palidez. O vestido se ajustava ao seu corpo de uma forma que uniformes de garçonete engordurados nunca fizeram. Ela parecia outra pessoa, como se Helena Mercer, a garçonete com cento e vinte reais na conta, tivesse morrido naquela lanchonete, e alguém a tivesse substituído por uma estranha usando seu rosto.

Domênico esperava no pé da escada. E quando seu olhar a varreu, Helena viu algo mudar naqueles olhos cinzentos. Não frieza, não indiferença. Algo quase como admiração, embora tenha desaparecido tão rapidamente que ela não tinha certeza se não imaginara.

Ele estendeu a mão, e Helena entendeu. Aquilo não era uma escolha. Era uma performance. Então, ela colocou a mão na dele, sentindo o calor e a aspereza de uma mão que já matara, e deixou que ele a conduzisse para a cova dos lobos.

A sala de jantar era maior que o quitinete onde ela morava. Uma longa mesa de carvalho preto que poderia acomodar vinte pessoas se estendia pela sala, coberta de velas e flores, com talheres de prata tão polidos que Helena podia ver seu próprio reflexo distorcido. E em volta dela, sentavam-se cerca de quinze pessoas, todas se virando para olhá-la quando ela entrou. A conversa morreu. O silêncio se instalou tão pesado que Helena podia ouvir as velas queimando. Cada olhar se fixou nela, medindo, inspecionando, julgando. Ela se sentiu como um animal jogado numa arena, cercado por espectadores esperando para ver sangue.

Domênico a levou até a cadeira diretamente ao lado de seu lugar na cabeceira da mesa. E quando ela se sentou, ele apresentou cada pessoa.

— Esta é minha mãe, Marina Lobo. — A mulher em frente a Helena usava os cabelos prateados num coque apertado, o rosto ainda nitidamente belo mesmo aos sessenta anos. Ela olhou para Helena com olhos cinzentos idênticos aos do filho, frios e indecifráveis. Nenhum aceno, nenhum sorriso, apenas observação, como um gato estudando um rato.

— Meu tio, Vítor Lobo. — O homem ao lado de Marina tinha cabelos grisalhos e uma cicatriz que ia da têmpora ao queixo. Seu olhar não se preocupava em esconder sua hostilidade. Era tão claro quanto a luz das velas brilhando nas facas de prata.

E do outro lado, uma mulher loira platinada, bela da maneira fria como as estátuas de mármore são belas, sentava-se a algumas cadeiras de distância. Silvana. Viúva do primo de Domênico, mãe de Lili. Seus lábios se curvaram num sorriso que não alcançou seus olhos, e Helena soube instantaneamente que aquela mulher a odiava.

— Então esta é a garçonete. — Vítor falou primeiro, a voz pesada de desprezo. — Aquela com quem Domênico decidiu se casar sem perguntar à família.

— Tio Vítor. — A voz de Domênico carregava um aviso.

— Estou apenas falando a verdade. — Vítor não vacilou. — Quem é ela? Sem família. Sem status, sem conexão com nosso mundo. Uma servente numa lanchonete imunda. E agora ela é a esposa do Pakhan.

Helena sentiu o calor inundar seu rosto. Mas não de vergonha, de raiva. Ela não queria estar ali. Não queria aquele anel. Não queria nada daquilo. Mas não ia deixar ninguém menosprezá-la por sua origem.

— E ela também não sabe nada sobre o nosso mundo — interrompeu Silvana, a voz doce com a suavidade falsa de açúcar químico. — Como ela pode ficar ao lado de Domênico se nem sabe falar russo? Se não sabe a diferença entre um vor e um brigadir? Ela será apenas um fardo. Ou pior, uma fraqueza.

— Eu estou sentada bem aqui — falou Helena, e sua voz saiu mais clara do que ela esperava, cortando o silêncio como uma lâmina. — Vocês podem falar diretamente comigo em vez de falar sobre mim como se eu não existisse.

Silvana piscou, claramente não esperando a reação. Vítor ergueu uma sobrancelha. Até Marina inclinou a cabeça levemente, um pequeno movimento que carregava peso.

— Você tem algo a dizer? — perguntou Vítor, o tom beirando o desafio. — Então diga. Diga-nos como é estar trancada nesta gaiola dourada.

Helena olhou diretamente nos olhos dele e não recuou.

— É como trocar uma gaiola de ferro por uma de ouro. A primeira era feita de pobreza. Esta é feita de diamantes. Mas ambas ainda são gaiolas.

O silêncio ficou mais pesado do que antes. As pessoas congelaram, encarando-a como se ela tivesse criado outra cabeça. Então Marina riu. Foi um som seco e agudo, como vidro quebrando. Mas foi uma risada real.

— Pelo menos ela é honesta — disse Marina, e pela primeira vez, algo além de frieza entrou em sua voz. — O que é mais do que posso dizer da maioria das pessoas sentadas nesta mesa. — Ela ergueu sua taça de vinho. — À honestidade. Uma virtude rara.

Alguns outros ergueram suas taças também, embora com relutância. Vítor ainda observava Helena com um olhar inalterado, mas algo como uma reavaliação surgiu por trás dele agora. Silvana se virou, lábios pressionados, e Domênico, quando Helena olhou para ele, estava olhando para ela com uma expressão que ela não conseguia definir. Não admiração, não posse. Algo quase como curiosidade, como se ela fosse um quebra-cabeça que ele não esperava encontrar. Sua mão deslizou por baixo da mesa, encontrou a dela e apertou suavemente. Helena não sabia se era um aviso ou apoio. Talvez fosse ambos.

Uma semana se passou desde aquele primeiro jantar com a família Lobo. Helena estava lentamente se acostumando ao ritmo da vida na mansão, embora ainda se sentisse uma intrusa na própria casa que deveria ser dela. Naquela manhã, quando Natália veio trocar seus curativos, Helena fez a pergunta que queria fazer há muito tempo.

— Posso ver a Lili?

Natália parou, as mãos imóveis, olhando para Helena com leve surpresa.

— Ela pergunta por você todos os dias. Domênico não quer que ela te veja até você estar mais forte. Mas acho que você já está forte o suficiente.

Meia hora depois, Helena foi levada a um quarto no terceiro andar que ela não sabia que existia. Era uma brinquedoteca, inundada pela luz do sol de grandes janelas, carpete macio cobrindo o chão, brinquedos arrumados em prateleiras. E no meio da sala, sentada no chão com um livro de colorir e uma caixa de lápis de cor, estava Lili.

Ela usava um vestido floral rosa, seus cachos dourados presos em duas pequenas tranças. Quando a porta se abriu e ela olhou para cima, aqueles olhos azuis claros se arregalaram tanto que Helena pensou que tomariam conta de seu rostinho.

— Moça Borboleta! — A voz de Lili soou como um sino, brilhante e cheia de alegria. — A Moça Borboleta acordou!

Ela se levantou de um pulo, como uma mola, e correu em direção a Helena tão rápido que Helena não teve tempo de se preparar. Lili se chocou contra as pernas de Helena, bracinhos envolvendo-a com força, como se temesse que Helena desaparecesse se ela a soltasse. Helena se ajoelhou, apesar da dor surda que pulsava de suas feridas, e envolveu a criança em seus braços. O cheiro de xampu infantil e doce de morango, a sensação de um corpinho tremendo contra o dela. Helena não percebeu que estava chorando até sentir as lágrimas caírem no cabelo de Lili.

— Senti sua falta — disse Lili contra o peito de Helena, a voz embargada de emoção. — Senti tanto a sua falta. A Moça Borboleta dormiu demais. Fiquei com medo que a Moça Borboleta nunca mais acordasse.

— Eu estou aqui, querida — sussurrou Helena, os lábios tremendo. — Estou acordada. Não vou a lugar nenhum.

Elas ficaram assim por um longo tempo, abraçadas, até que Lili finalmente levantou a cabeça, olhos vermelhos, mas secos. Ela pegou a mão de Helena e a puxou em direção à pilha de lápis de cor.

— Pinta comigo. Estou desenhando borboletas. Borboletas roxas, como a que eu desenhei para você na lanchonete.

Helena deixou Lili puxá-la para o chão, com cuidado, pois suas feridas ainda doíam. Elas se sentaram lado a lado, joelhos se tocando, e coloriram em silêncio. Lili pintou a borboleta de roxo. Helena pintou as flores ao redor. De vez em quando, Lili olhava para ela como se para ter certeza de que Helena ainda estava ali, ainda real.

— Moça Borboleta — falou Lili depois de um tempo, sua vozinha caindo para um sussurro. — O tio Dômi ama muito a Moça Borboleta.

As mãos de Helena pararam, seu coração se apertando por um motivo que ela não conseguia explicar.

— Por que você diz isso, Lili?

— Porque ele ficou sentado ao lado da sua cama o tempo todo — disse Lili, concentrada em seu desenho, como se fosse a coisa mais comum do mundo. — Eu visitei a Moça Borboleta uma vez, quando você estava dormindo. O tio Dômi estava sentado lá, segurando a mão da Moça Borboleta. E ele chorou.

Helena não conseguia respirar. O tio Domênico chorou. Lili assentiu, os cabelos loiros balançando.

— Ele não sabia que eu vi. Ele conversou com a Moça Borboleta enquanto você dormia. Ele disse que você era a pessoa mais corajosa que ele já conheceu. Disse que nunca mais deixaria ninguém te machucar. Nunca. — Lili olhou para cima, olhos azuis encontrando os de Helena com a sinceridade simples que só as crianças têm. — O tio Dômi é assustador para as outras pessoas, mas nunca para mim. E eu acho que ele também não é assustador para a Moça Borboleta.

Helena olhou para a criança, depois para a borboleta roxa na página. Pensou no homem de olhos cinzentos e frios, na maneira como ele falava da morte como outras pessoas falam do tempo, na maneira como ele se casou com ela sem perguntar. E então ela pensou na imagem que Lili acabara de lhe dar. Um homem sentado ao lado de sua cama no escuro, segurando sua mão, chorando.

As duas imagens não se encaixavam. E, de alguma forma, ambas eram verdadeiras.

— Moça Borboleta — chamou Lili, tirando Helena de seus pensamentos. — Você pode ficar comigo para sempre?

Helena olhou naqueles olhos confiantes e não conseguiu mentir.

— Eu não sei, querida. Mas agora eu estou aqui. E isso é o suficiente.

Lili sorriu, brilhante como o sol, e voltou para seu desenho. E Helena ficou ali, um lápis de cor ainda na mão, enquanto sua mente vagava para um lugar distante, um lugar onde um monstro podia chorar e onde uma gaiola podia começar a parecer outra coisa.

Naquela noite, Helena não conseguiu dormir. Deitada na cama de seda, ela encarava o teto intrincadamente esculpido, e as palavras de Lili ecoavam em sua mente como uma melodia que ela não conseguia desligar. Ele chorou. O tio Dômi chorou.

Aquela imagem não se encaixava no homem que ela conhecia. O homem com olhos cinzentos frios como aço. O homem cuja voz não continha emoção quando falava sobre a morte. O homem que controlava tudo ao seu redor como um rei em seu trono. Monstros não choravam. Mas se Lili estava dizendo a verdade, se aquela criança de quatro anos com aqueles olhos claros não tinha motivo para mentir, então Domênico Lobo não era apenas um monstro. Ele era algo mais também. Algo que Helena não conseguia definir.

Depois de horas se virando nos lençóis, ela decidiu se levantar. Seu corpo estava muito mais forte agora. Suas feridas estavam cicatrizando, embora ainda doessem quando ela se movia com muita força. Ela vestiu o roupão de seda que alguém deixara no armário e saiu de seu quarto, os pés descalços gelados contra o piso de mármore.

A mansão à noite tinha uma beleza fantasmagórica. A luz da lua derramava-se pelas altas janelas, pintando faixas de prata nas paredes e no chão. A escuridão se escondia nos cantos, mas não era tão assustadora quanto Helena esperava. Havia algo pacífico naquela quietude, uma paz que ela nunca encontrara em seu apartamento úmido, com o barulho da rua subindo de baixo.

Ela vagou sem direção, passando por corredores intermináveis até ver uma luz fraca vazando de uma porta entreaberta. A curiosidade venceu a cautela. Helena se aproximou e empurrou a porta.

A sala lá dentro roubou seu fôlego. Uma biblioteca, não do tipo com algumas prateleiras como as que ela vira nos filmes. Uma biblioteca de verdade, com prateleiras imponentes que alcançavam o teto, repletas de milhares de livros de todas as cores e tamanhos. Poltronas de couro estavam perto de uma lareira acesa, lançando uma luz dourada e quente. O cheiro de papel velho e carvalho enchia o espaço, familiar e reconfortante de uma forma que a surpreendeu.

E em uma das poltronas, com um livro aberto no colo e um copo de licor âmbar na mão, estava Domênico.

Ele ergueu o olhar quando ela entrou, e por um breve momento, Helena viu algo em seu rosto antes que a máscara familiar voltasse ao lugar. Cansaço, solidão, algo muito humano que ela não esperava ver em um chefe da máfia.

— Não consegue dormir? — ele perguntou, a voz baixa e rouca na quietude da noite.

Helena balançou a cabeça, parada e congelada na porta, como se não tivesse certeza se tinha permissão para estar ali.

— Nem eu — disse Domênico suavemente. Ele gesticulou em direção à poltrona em frente a ele. — Sente-se, se quiser.

Não era uma ordem. Era um convite. E essa diferença foi suficiente para fazer Helena entrar na sala e se sentar onde ele apontou. Ela podia sentir o calor da lareira se espalhando por sua pele. Podia sentir o cheiro de uísque e colônia cara nele.

— O que você está lendo? — ela perguntou, apenas para quebrar o silêncio.

Domênico olhou para o livro em sua mão.

Crime e Castigo. Dostoiévski. Pela décima segunda vez.

— Você simpatiza com o assassino? — perguntou Helena, e ela não sabia por que perguntou. Talvez porque a madrugada faz as pessoas dizerem coisas que não dizem à luz do dia.

Domênico ficou em silêncio por um longo tempo, olhos cinzentos fixos no fogo.

— Eu simpatizo com a culpa dele — ele finalmente respondeu. — Com a maneira como ela o consome por dentro. A maneira como ele não consegue fugir do que fez, não importa o quanto tente.

Helena observou seu rosto à luz do fogo. Os ângulos agudos suavizados pela escuridão e pela fadiga. Ela se lembrou do que Lili havia dito. Lembrou-se da pergunta que queria fazer desde que acordara.

— Por que você me salvou? — ela perguntou sem rodeios. — Por que ficou ao meu lado por trinta e seis horas? Por que chorou?

Domênico ficou imóvel, o copo parando a meio caminho dos lábios. Ele olhou para ela, e pela primeira vez, Helena viu uma rachadura naquela máscara perfeita.

— A Lili te contou. — Não uma pergunta, uma afirmação.

Helena assentiu.

Domênico pousou o copo. Entrelaçou os dedos, cotovelos nos joelhos. Ele encarou o fogo. E quando falou, sua voz era diferente. Mais profunda, mais distante.

— Eu tinha uma irmã — disse ele. — Ana. Ela tinha vinte e um anos quando a levaram.

— Eles? — sussurrou Helena.

— Meus inimigos — respondeu Domênico, a voz plana como água parada. Mas Helena podia ver a tempestade se formando por baixo. — Rivais que queriam que eu entregasse território. Eles acharam que se tivessem a Ana, eu me ajoelharia. Estavam errados. Eu não me ajoelho. E eles pagaram por esse erro. Mas a Ana… — ele parou, a mandíbula se contraindo. — Eles a mandaram de volta para mim. Em pedaços. Ao longo de três dias.

Helena sentiu como se alguém a tivesse socado no peito, expulsando o ar de seus pulmões. Ela não conseguia imaginar. Não queria imaginar.

— A Lili se parece com ela — continuou Domênico, a voz mal sendo um sussurro. — O mesmo cabelo loiro, os mesmos olhos azuis. Quando eu vi você correndo para o meio do tiroteio para salvar a Lili, quando vi você a segurando enquanto seu sangue se espalhava pelo chão, eu só conseguia pensar na Ana. Pensar em como eu não consegui salvá-la.

Ele ergueu a cabeça, olhos cinzentos fixando-se nos de Helena.

— Eu não posso deixar isso acontecer de novo. Não posso perder mais ninguém porque não fui forte o suficiente, rápido o suficiente, decisivo o suficiente. Você salvou o que é mais precioso para mim, e eu vou te proteger a qualquer custo. Mesmo que você me odeie por isso.

Helena ficou ali, na biblioteca cheia de luz de fogo e cheiro de livros velhos, olhando para o homem que ela pensava ser um monstro. E ela percebeu que monstros também têm cicatrizes. Monstros conhecem a dor. E às vezes, monstros protegem os outros porque não suportam ver outra pessoa ser ferida da maneira como eles já foram.

Ela não sabia o que isso mudava. Mas sabia que algo havia mudado.

Os dias que se seguiram moveram-se com um ritmo estranho. Não era mais o cativeiro cru e doloroso que fora no início. Era outra coisa, algo que Helena não ousava nomear.

Todas as manhãs, ela acordava para a fisioterapia com Olga, uma mulher russa de meia-idade com mãos fortes e um rosto que nunca sorria. Olga forçava Helena a passar por cada exercício, recusando-se a aceitar uma única queixa. E mesmo que Helena odiasse cada segundo daquela dor, ela podia sentir seu corpo ficando mais forte a cada dia.

As tardes eram para aulas de russo com Natália. Elas se sentavam numa pequena sala de estar, e Natália pacientemente lhe ensinava, palavra por palavra, frase por frase, como moldar sílabas estranhas que sua língua não estava acostumada. Privet, olá. Spasibo, obrigado. Da, sim. Nyet, não. Helena aprendia devagar, mas com firmeza. E cada nova palavra que dominava parecia um pequeno tijolo colocado em algo, embora ela não soubesse se era uma ponte ou um muro.

Mas o que mais fazia Helena pensar não eram as aulas ou os exercícios. Eram os livros.

Na primeira manhã após aquela noite na biblioteca, quando Helena acordou, encontrou um livro em sua mesa de cabeceira. Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Uma cópia antiga, páginas amareladas, como se tivesse sido lido muitas vezes. Ela não sabia quem o deixara ali, mas o terminou em um dia.

Na manhã seguinte, outro apareceu. Jane Eyre. Depois O Morro dos Ventos Uivantes. Depois Os Miseráveis. Todas as manhãs, um novo livro. Como se alguém estivesse secretamente rastreando seu ritmo de leitura e substituindo o livro no momento em que ela precisava.

Helena não perguntou. Não precisava. Ela sabia quem estava fazendo isso. O que ela não entendia era como. Como Domênico Lobo, um chefe da máfia com um império subterrâneo e uma lista interminável de inimigos, sabia exatamente quais livros ela amava?

A resposta veio numa tarde, enquanto ela estava sentada na biblioteca, virando as páginas de O Apanhador no Campo de Centeio que alguém acabara de deixar para ela. Domênico entrou, como costumava fazer, sem bater, sem avisar. Ele parou quando a viu, e seu olhar pousou no livro em suas mãos.

— Você gosta de Salinger? — Não era uma pergunta.

Helena ergueu o olhar, e a pergunta que ela vinha segurando finalmente saiu.

— Como você sabe? Como sabe que eu gosto desses livros?

Domênico ficou em silêncio por um momento. Então, ele se aproximou das prateleiras, virando-lhe as costas.

— Quando meus homens esvaziaram seu antigo apartamento, eles trouxeram um Kindle. Tela rachada, bateria quase morta, mas ainda funcionava.

Helena ficou imóvel. O velho Kindle, a única coisa em que ela gastara dinheiro além de comida e aluguel. Ela o comprara de segunda mão num brechó, e fora seu único companheiro em noites longas e solitárias.

— Eu li seu histórico de busca — continuou Domênico, e sua voz era estranha, quase sem jeito, embora Helena não conseguisse imaginar essa palavra se aplicando a ele. — Os livros que você leu, os que você marcou para ler, mas nunca teve dinheiro para comprar. Você gosta de literatura clássica. Gosta de histórias sobre mulheres fortes. Gosta de encontrar esperança na escuridão, mesmo quando a vida real raramente a dá.

Ele se virou, olhos cinzentos sobre ela com algo que Helena não conseguia ler.

— Então, eu encontrei os livros que você queria. E os trouxe para você.

Helena não sabia o que dizer. Olhou para o livro em suas mãos, depois de volta para o homem parado à sua frente, e sentiu algo em seu peito mudar, como gelo começando a derreter. Ele lera seu Kindle. Aprendera o que ela amava. E silenciosamente trouxera livros para ela todas as manhãs, sem dizer uma palavra.

Isso não era o ato de um sequestrador. Não era o ato de um monstro. Era o ato de alguém tentando, da maneira mais desajeitada possível, mostrar a ela que a via. Não como um objeto, não como uma prisioneira, mas como um ser humano com seus próprios sonhos e anseios.

Helena não disse obrigado. Não disse nada. Mas quando Domênico saiu, ela abraçou o livro contra o peito. E pela primeira vez desde que acordara nesta mansão, ela sorriu.

A biblioteca se tornou o lugar onde eles se encontravam todas as noites. Embora nenhum dos dois jamais dissesse isso em voz alta. Helena não sabia quando o hábito começou, mas percebeu que sempre que não conseguia dormir, sempre que a escuridão em seu quarto ficava muito pesada, ela ia para a biblioteca, e ele estaria lá. Sempre lá, como se também estivesse esperando.

Naquela noite, duas semanas após a conversa sobre os livros, Helena entrou na biblioteca com os olhos vermelhos nas bordas. Ela chorara em seu quarto, sozinha, no escuro, e pensou que havia limpado todos os vestígios. Mas Domênico viu imediatamente. Ele sempre via.

— O que aconteceu? — ele perguntou, pondo seu livro de lado, olhos cinzentos focando completamente nela.

Helena pretendia dizer nada. Pretendia fingir que tudo estava bem.

— Hoje é o dia em que minha mãe morreu — ela disse, e sua voz quebrou no momento em que as palavras deixaram sua boca. — Dezesseis anos atrás. Eu tinha onze anos.

Domênico não falou. Apenas a observou, esperando. E aquele silêncio, de alguma forma, deu a Helena permissão para continuar.

— Ela tinha câncer — sussurrou Helena, sentando-se na cadeira em frente a ele, mãos entrelaçadas no colo. — Descobriram tarde demais. Ela lutou por oito meses. Eu a vi definhar todos os dias, todas as horas. Eu a vi sentir dor. Eu a vi tentar sorrir para mim mesmo enquanto estava morrendo.

Lágrimas começaram a deslizar pelas bochechas de Helena, mas ela não se preocupou em limpá-las. Ela escondera essa dor por muito tempo, carregara-a sozinha por muito tempo, e agora estava transbordando como uma barragem rompida.

— Ela foi a única que já me amou — continuou Helena, a voz embargada. — Meu pai foi embora antes que eu tivesse idade para lembrar de seu rosto. Sem parentes, sem ninguém. Apenas minha mãe e eu. E então ela também se foi.

Helena olhou para suas mãos, trêmulas e pequenas.

— Eles me colocaram no sistema de adoção logo após o funeral. Passei por sete famílias em sete anos. Ninguém queria me manter por muito tempo. Eu era velha demais para ser fofa, jovem demais para ser útil. Danificada demais para ser amada. Então, aprendi a não precisar de ninguém. Aprendi a ser invisível. Aprendi a sobreviver sozinha.

Ela ergueu a cabeça. E pela primeira vez, ela deixou Domênico ver tudo. Sem máscara, sem muro. Apenas Helena, a menina órfã que carregara dezesseis anos de dor sem ninguém para compartilhá-la.

— É por isso que eu corri para salvar a Lili — disse ela, a voz caindo para um sussurro. — Porque eu me vi nela. Uma criança prestes a perder tudo. Uma criança prestes a ser deixada sozinha neste mundo. Eu não podia deixar isso acontecer. Eu não podia.

Domênico se levantou, e Helena pensou que ele ia embora, que sairia como sempre fazia quando as coisas se tornavam reais demais, próximas demais. Mas ele não foi embora. Ele veio até a cadeira dela, abaixou-se e se ajoelhou à sua frente. E pela primeira vez, Helena viu aqueles olhos cinzentos sem a frieza. Eles estavam quentes. Estavam doloridos. Eles entendiam.

Ele não disse nada. Nenhum consolo vazio. Nenhum « vai ficar tudo bem ». As palavras que Helena ouvira vezes demais em sua vida. Ele apenas ergueu a mão e enxugou as lágrimas de sua bochecha com o polegar. Tão gentil que Helena quase não sentiu. E então ele ficou. Apenas ficou, testemunhando sua dor. Não tentando consertá-la. Não tentando afugentá-la. Apenas ao seu lado na escuridão, como um farol numa tempestade.

Helena não sabe quem se moveu primeiro. Talvez tenha sido ela. Talvez tenha sido ele. Talvez ambos ao mesmo tempo. Mas de repente, o espaço entre eles desapareceu, e sua boca estava na dele.

Um beijo que foi suave, hesitante, trêmulo, como asas de borboleta batendo ao vento. Domênico ficou imóvel por um batimento cardíaco, e Helena pensou que cometera um erro. Pensou que ele a empurraria. Mas então ele a beijou de volta. Uma mão deslizando em seu cabelo, puxando-a para mais perto. O beijo se aprofundou, mais quente, carregando tudo o que eles não podiam colocar em palavras.

Quando finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes. A testa de Domênico repousava contra a dela, olhos cinzentos segurando os dela de tão perto que Helena podia contar seus cílios.

— Você não me deve isso, Helena — disse ele, a voz áspera. — Você não me deve nada.

— Eu sei — sussurrou Helena, a mão pressionada em seu peito, onde podia sentir seu coração batendo tão forte quanto o dela. — É por isso que eu fiz.

Porque ela queria. Não porque devia. Não porque estava com medo. Mas porque, numa biblioteca cheia de livros e escuridão e a dor compartilhada de duas almas solitárias, ela encontrara algo que nunca esperava encontrar. Conexão. Compreensão. E talvez, apenas talvez, algo que parecia um começo.

Os dias após o beijo na biblioteca ganharam uma cor diferente. Nada mudou de forma óbvia, e ainda assim, tudo estava diferente em pequenas maneiras que apenas Helena parecia notar. A maneira como Domênico a olhava do outro lado da mesa de café da manhã, seu olhar cinzento demorando mais do que o necessário. A maneira como sua mão roçava a parte inferior de suas costas quando passavam no corredor, gentil e fugaz como asas de borboleta. A maneira como ele aparecia na biblioteca todas as noites, sem dizer nada, simplesmente sentado ali lendo enquanto ela lia seu próprio livro, os dois compartilhando o silêncio como se fosse uma linguagem destinada apenas a eles.

Eles não falaram sobre o beijo. Não o nomearam. Não definiram o que era ou onde poderia levar. Mas estava lá, pairando entre eles como uma promessa não dita.

Três semanas depois daquela noite, Domênico encontrou Helena na biblioteca à tarde, em vez de tarde da noite. Só isso foi suficiente para dizer a ela que algo estava errado.

— Preciso falar com você — ele disse da porta, o rosto tenso com uma preocupação que ela raramente via.

Helena pousou o livro, o coração apertando de preocupação. Domênico entrou, fechou a porta atrás de si e, em vez de pegar sua cadeira habitual, ficou parado na frente dela, as mãos enfiadas nos bolsos como se não soubesse o que fazer com elas.

— Tenho que ir para Moscou — ele disse sem rodeios. — Há um problema com o grupo Costa. Eles estão pressionando nossas operações lá. Preciso lidar com isso pessoalmente.

Algo frio percorreu a espinha de Helena. Moscou. Um lugar onde Costa poderia ter mais poder. Um lugar onde o perigo estaria esperando.

— Por quanto tempo? — ela perguntou, tentando manter a voz firme.

— Alguns dias, talvez uma semana. Depende de como as coisas correrem. — Ele olhou para ela, e havia algo em seus olhos cinzentos que ela não conseguia ler. — Mas antes de ir, tenho algo para você.

Domênico tirou a mão do bolso, e em sua palma havia uma pequena caixa de veludo preto. Helena olhou para a caixa, depois para ele, sem saber o que deveria dizer ou fazer. Ele a abriu, e o fôlego de Helena ficou preso na garganta.

Descansando no veludo preto estava um delicado colar de platina com um pingente de borboleta. Mas não uma borboleta comum. Suas asas eram feitas de pequenos diamantes que brilhavam como o orvalho da manhã à luz do sol, e espalhadas entre eles havia esmeraldas do mesmo tom de verde dos olhos de Lili.

— A Lili me contou sobre a borboleta roxa — disse Domênico, a voz baixa e quieta. — A borboleta que ela coloriu naquela noite. A borboleta que você disse a ela que era linda, minutos antes de o mundo desabar. Achei que você deveria ter uma borboleta só sua.

Helena não conseguia falar. Ela encarou o colar, perfeito e brilhante, e pensou em todos os presentes que já recebera na vida. Nenhum. Nada. Ninguém nunca lhe dera nada simplesmente porque queria dar, porque pensara nela, porque se importara o suficiente para notar as pequenas coisas. Até agora.

— Posso? — perguntou Domênico. E essa polidez, esse pedir em vez de tomar, fez o coração de Helena amolecer um pouco mais.

Ela assentiu, sem confiar em sua voz. Domênico passou por trás dela, afastou gentilmente seu cabelo e prendeu o colar em seu pescoço. Seus dedos demoraram em sua pele por um instante, quentes e instáveis, antes que ele se afastasse. Helena tocou a borboleta que repousava em sua clavícula, sentindo o metal frio e o peso do que significava.

— Obrigada — ela sussurrou, virando-se para encará-lo.

Domênico olhou para ela com uma expressão que ela estava aprendendo a ler. Não mais completamente fria, não mais completamente distante. Algo mais quente vivia sob a superfície, como brasas sob cinzas.

— Tenha cuidado enquanto eu estiver fora — disse ele. — Alex estará aqui. Natália também. Eles vão te proteger.

— E quem vai proteger você? — perguntou Helena, e a pergunta escapou antes que ela pudesse impedi-la.

Domênico piscou, claramente não esperando essa preocupação.

— Eu sei me cuidar.

Ele ainda não respondeu à pergunta. E Helena percebeu que não podia aceitar isso. Não podia aceitar ficar sentada nesta mansão segura enquanto ele entrava na cova do leão sozinho. Não podia aceitar não saber se ele estava vivo ou morto, lutando ou sangrando.

— Leve-me com você — disse ela, e sua voz estava mais firme do que ela pensava que seria.

— Não. — A resposta veio instantaneamente. Final, sem hesitação. — É muito perigoso. Não vou deixar você chegar perto do Costa.

— Eu não quero ficar aqui sem saber se você está vivo ou morto! — Helena se aproximou, a mão pressionada em seu peito, onde podia sentir seu coração batendo forte. — Não quero esperar no vazio. Não quero ouvir que você não voltou. Não quero perder mais uma pessoa sem ter a chance de dizer adeus.

Domênico olhou para ela, e ela viu a luta em seus olhos. Entre seu instinto protetor e outra coisa, algo mais suave, algo quase como rendição.

— Por que você quer ir? — ele perguntou, a voz áspera. — Por que se importa com o que acontece comigo?

Helena olhou naqueles olhos cinzentos. Os olhos que a viram quando o mundo inteiro desviou o olhar. E ela disse a verdade.

— Porque você é a única pessoa que já me viu de verdade. E eu não quero te perder.

O silêncio se estendeu. Então Domênico expirou. Um som cansado e rendido.

— Tudo bem — disse ele, e algo como um breve sorriso cintilou em sua boca. — Você venceu. Você vem comigo.

O jato particular de Domênico não era nada como Helena jamais imaginara. Ela vira aviões em filmes, os assentos de couro macio e comissárias de bordo bonitas, mas a realidade ia muito além de qualquer coisa que ela imaginara. A cabine era tão larga quanto uma sala de estar, com assentos de couro creme que podiam reclinar e virar camas, um bar totalmente abastecido e grandes janelas que deixavam a luz entrar.

Helena sentou-se perto da janela, observando a América encolher sob eles, tentando acreditar que esta era sua vida agora. Domênico trabalhou durante todo o voo, laptop aberto, telefone tocando constantemente, sua voz rápida e urgente em russo enquanto falava com pessoas do outro lado. Mas às vezes, entre as chamadas, ele olhava para cima e encontrava seu olhar, e o canto de sua boca se erguia ligeiramente antes de ele voltar ao trabalho.

Moscou os recebeu com um céu cinzento e um ar que cortava como uma lâmina. Helena nunca saíra do Brasil, nunca vira a neve cair tão espessa. E quando desceu do avião, sua respiração se transformou em fumaça branca no ar. Domênico colocou a mão em suas costas, guiando-a em direção ao carro que os esperava, e ela pôde sentir o calor de sua palma através de seu casaco.

A cidade se estendia diante dela como um sonho feito de gelo e ouro. Prédios antigos com arquitetura suntuosa, cúpulas em forma de cebola brilhando sob as luzes da noite, ruas largas cobertas por neve branca e limpa. E em algum lugar na escuridão, Helena podia ver as torres do Kremlin, imponentes e antigas, lembrando-a de que este era o país de Domênico, o mundo ao qual ele pertencia.

A cobertura ficava no último andar de um prédio de luxo, com janelas do chão ao teto que davam vista para a Praça Vermelha. Helena ficou ali, a mão contra o vidro frio, encarando a cidade brilhando sob ela, e se sentiu estranhamente pequena. Pequena, mas não sozinha.

— A segurança aqui é o triplo da de São Paulo — explicou Domênico por trás dela. — Homens com armas em todas as entradas, câmeras por toda parte. Você estará segura.

— E você? — Helena se virou para ele. — Quão perigosa é a reunião de amanhã?

Domênico não respondeu. Aquele silêncio era a resposta.

Naquela noite, pela primeira vez, eles dormiram na mesma cama. Nada aconteceu. Nenhum beijo acalorado, nenhuma mão procurando com fome. Apenas dois corpos deitados um ao lado do outro no escuro, compartilhando calor e respiração. E, de alguma forma, isso pareceu mais íntimo do que qualquer outra coisa. Helena deitou-se de lado, de costas para Domênico, e podia senti-lo atrás dela, sua respiração constante roçando levemente seu cabelo. Então, seu braço deslizou em volta de sua cintura, puxando-a para mais perto, e ela sentiu seu peito quente se acomodar contra suas costas. Ela deveria ter sentido medo, deveria ter se sentido presa. Mas, em vez disso, pela primeira vez em muito tempo, ela se sentiu segura.

Helena não conseguia dormir. Não de medo, mas porque sua mente estava muito desperta, muito consciente do homem que a segurava. Ela se virou para encará-lo na escuridão e percebeu que ele também não estava dormindo. Olhos cinzentos abertos, observando-a no brilho fraco que entrava da cidade lá fora.

Sua mão se moveu como se tivesse vontade própria, pousando em seu peito, onde sua camisa fora removida para revelar a pele quente. E então seus dedos a encontraram. Uma tatuagem. Uma sequência de números gravada sobre seu coração, preta e nítida contra sua pele. Uma data. Helena não precisou perguntar para saber o que era. O dia em que Ana morreu.

Domênico prendeu a respiração quando ela tocou a tatuagem. Seu corpo ficou tenso como um fio esticado. Mas ele não afastou a mão dela. Deixou-a tocar sua cicatriz mais profunda. A cicatriz que ele gravara em sua pele para nunca esquecer.

— Ela gostaria de você — sussurrou Domênico na escuridão, a voz rouca de emoção. — A Ana. Ela gostaria de você.

Helena não falou. Apenas manteve a mão sobre o coração dele, sentindo a batida forte sob sua palma, e ficou com ele na dor que ele carregara por tantos anos. Eles ficaram assim até o sono finalmente chegar. Dois corpos enrolados um no outro, como se com medo de que, se se soltassem, o outro desapareceria. E do lado de fora da janela, Moscou brilhava na noite, sem saber que em poucas horas tudo mudaria.

Na manhã seguinte, Domênico saiu antes do nascer do sol. Helena acordou com um vazio frio ao seu lado e um pequeno bilhete no travesseiro. A reunião começa cedo. Fique com o Alex. Não saia da cobertura. Eu voltarei. D.

Ela apertou o papel na mão como se fosse o único fio que ainda a ligava a ele.

Alex, o homem alto de cabelos loiros e olhos azuis frios, montava guarda na porta principal. Ele era o chefe da segurança de Domênico, aquele em quem Domênico mais confiava. E sua presença deveria ter feito Helena se sentir segura. Mas ela não conseguia se livrar do mal-estar que se arrastava em seu peito.

O dia se arrastou como melaço. Helena tentou ler, mas não conseguia se concentrar. Andou de um lado para o outro na cobertura, olhou pelas janelas, verificou o relógio, contou os minutos que se esvaíam. O sol subiu alto e depois começou a se pôr. E ainda não havia notícias de Domênico.

Alex recebeu uma ligação ao pôr do sol. Helena viu seu rosto mudar, a calma se transformando em tensão num único batimento cardíaco. Ele disse algo em russo, urgente e tenso de preocupação, depois se virou para ela com os olhos escuros.

— O que foi? — perguntou Helena, o coração começando a acelerar.

— Foi uma armadilha — disse Alex, uma mão puxando uma arma do coldre. — Costa trouxe mais homens do que o combinado. Domênico está lutando para sair. Precisamos…

Ele não conseguiu terminar. A enorme janela de vidro com vista para a cidade explodiu, um milhão de cacos voando como uma chuva de facas. Helena gritou, jogando os braços sobre a cabeça, e Alex estava ao seu lado num instante, empurrando-a para o chão e cobrindo-a com seu corpo.

Tiros ecoaram pela cobertura. Balas rasgaram o ar, atingindo paredes, móveis, tudo ao redor deles. O cheiro forte de pólvora inundou a sala, misturando-se com sangue e caos. Helena estava no chão, vidro cortando suas mãos e joelhos, mas ela não sentia. Tudo o que sentia era puro, primitivo medo, esmagando-a por dentro.

— Fique abaixada! — gritou Alex em seu ouvido, sua arma disparando repetidamente em direção à janela quebrada. — Não se mova!

Mas Helena não conseguia ficar abaixada. Não quando Domênico estava lá fora em algum lugar, talvez sangrando, talvez morrendo. Ela ergueu a cabeça, tentou ver o que estava acontecendo, e viu formas escuras se movendo além da janela quebrada. Os atacantes estavam tentando forçar a entrada na cobertura. O tiroteio ficou mais pesado. Alex derrubou um homem, depois outro, mas eles continuavam vindo, como formigas negras saindo de uma fenda.

Helena pensou na noite na lanchonete. Os tiros, o sangue, Lili em seus braços. A história estava se repetindo, e desta vez talvez não houvesse ninguém vindo para salvá-los.

Então a porta da frente explodiu. Helena gritou, certa de que mais inimigos estavam entrando. Mas o homem que passou não era um inimigo.

Era Domênico.

Ele parecia ter saído do inferno. Sangue escorria de um corte em sua testa, manchando metade de seu rosto de vermelho. Sua camisa estava rasgada, revelando mais sangue em seu ombro e braço. Mas seus olhos cinzentos ardiam com algo primal e violento. E em cada mão, ele segurava uma arma fumegante.

Ele atirou sem parar, movendo-se pela sala como uma tempestade, como um anjo vingador forjado em sangue e fogo. Os atacantes caíram um após o outro, e no meio do caos, os olhos de Domênico encontraram os de Helena. Ela viu alívio cintilar em seu rosto por um batimento cardíaco, depois endurecer em controle frio.

— Tire-a daqui! — ele rugiu para Alex por cima do tiroteio. — Elevador de serviço! Agora!

Alex agarrou a mão de Helena e a puxou para cima, e ela sentiu como se estivesse sendo rasgada em duas. Metade dela queria correr, queria sobreviver. A outra metade queria ficar, queria estar com Domênico, queria ter certeza de que ele não morreria naquela sala encharcada de sangue.

— Eu não vou! — ela gritou, puxando a mão e correndo em direção a Domênico. — Não vou te deixar!

Domênico se virou, e o que ela viu em seus olhos a paralisou. Não raiva, não gelo. Medo. Puro medo por ela.

— Você prometeu — disse ele, a voz rompendo o caos. — Você prometeu que correria quando eu mandasse você correr.

Helena queria discutir, queria dizer que não podia ir embora, não podia perdê-lo. Mas Alex a agarrou por trás, levantou-a do chão e a arrastou em direção à porta que levava ao elevador de serviço. Ela se debateu, gritando o nome de Domênico. Mas Alex era mais forte, e ele não parou. A última coisa que Helena viu antes de a porta se fechar foi Domênico parado nos escombros, sangue escorrendo pelo rosto, armas nas mãos. Um homem solitário contra um esquadrão inteiro.

Então a porta se fecheu, e ele se foi. Segundos depois, uma explosão maciça sacudiu o prédio, e o coração de Helena se estilhaçou com ela.

O carro rasgava as ruas de Moscou como uma bala, pneus cantando sobre a neve, o motor rugindo na noite. Helena sentava-se no banco de trás, o corpo tremendo descontroladamente. E ela não sabia se tremia de frio ou do medo que a rasgava por dentro.

— Dê a volta! — ela gritou, a voz rouca de tanto chorar. — Dê a volta agora! Ele ainda está lá! Ele precisa de mim! Não posso deixá-lo! Não posso!

Alex não olhou para ela. Manteve as duas mãos travadas no volante, os olhos grudados na estrada à frente, a mandíbula tão cerrada que Helena podia ver o músculo se contraindo sob sua pele.

— Foi uma ordem — disse ele, a voz plana, mas algo tremia por baixo dela. — Ele me ordenou que a tirasse daqui em segurança. Tenho que obedecer.

Uma ordem. Helena queria gritar na cara dele. Queria dizer-lhe que ordens não significavam nada quando Domênico estava sangrando naquela sala em ruínas. Quando a explosão acabara de sacudir o prédio inteiro. Quando ela não sabia se ele estava vivo ou morto. Mas ela não tinha mais forças para gritar. Só podia chorar. Soluços quebrados rasgando sua garganta, lágrimas escorrendo por suas bochechas como pequenos rios que nunca secariam.

Eles chegaram ao aeródromo particular em vinte minutos, embora para Helena parecesse uma vida inteira. O jato particular já estava esperando, motores aquecidos, pronto para decolar a qualquer momento. Mas eles não embarcaram. Alex a levou para uma pequena sala de espera dentro do hangar, uma sala com um sofá, um aquecedor e luzes amarelas e quentes, e ainda assim nada ali conseguia derreter o frio alojado em seus ossos.

— Esperamos aqui — disse Alex, parado perto da janela, os olhos nunca deixando a pista lá fora. — Até recebermos notícias.

Helena sentou-se no sofá, braços em volta dos joelhos, encolhida como uma criança assustada. O colar de borboleta pesava contra seu peito, e ela o agarrou como uma tábua de salvação, como se segurá-lo com força suficiente pudesse manter Domênico seguro por pura força de vontade.

O tempo passou como um xarope espesso e esfriando. Cada minuto parecia uma hora. Cada tique-taque do relógio na parede era uma faca deslizando em seu coração. Helena encarou o telefone de Alex na mesa entre eles e rezou para que tocasse. Ela não era religiosa. Deixara de acreditar em Deus no dia em que sua mãe morreu com dor, mesmo depois de rezar todas as noites. Mas agora ela rezava para quem quer que estivesse ouvindo. Por favor, por favor, deixe-o viver. Por favor, não leve mais uma pessoa de mim. Eu não posso… eu não posso perder mais ninguém.

Uma hora passou, depois duas. Helena não tinha mais lágrimas. Apenas ficou ali, vazia e entorpecida, encarando o nada com olhos secos e ardentes.

— Ele vai ficar bem, não vai? — ela perguntou a Alex, a voz mal sendo um sussurro. — Diga-me que ele vai ficar bem.

Alex ficou em silêncio por um longo tempo. Então se virou, e pela primeira vez, Helena viu algo além da frieza profissional em seus olhos. Preocupação, medo.

— Ele é Domênico Lobo — disse Alex finalmente. — Ele sobreviveu a coisas piores que isso. Ele sempre volta.

Mas sua voz não acreditava totalmente nisso. E Helena também não acreditava totalmente. Tudo o que podia fazer era esperar naquela pequena sala num aeroporto de Moscou, com um coração morrendo um pouco mais a cada minuto que passava.

Então o telefone vibrou. Alex se lançou sobre ele, os olhos percorrendo a tela, e seu rosto mudou de tensão para alívio. De preocupação para algo quase como um sorriso.

— O quê? — Helena se levantou de um salto, o coração martelando. — O quê? Me diga!

Alex se virou para ela, e pela primeira vez desde que se conheceram, ele sorriu de verdade.

— « Pacote seguro » — ele leu a mensagem em voz alta. — « Alvo eliminado. Voltando para casa. »

Helena não sabe como se moveu, mas de repente estava abraçando Alex, soluçando em seu ombro, e ele ficou ali, rígido, sem saber o que fazer com os braços.

— Ele está vivo — ela ofegou. — Ele está vivo! Ele está voltando!

E naquele momento, num aeroporto estranho num país estranho, Helena percebeu uma verdade que não podia mais negar. Ela o amava. Amava Domênico Lobo, o monstro que se casara com ela sem perguntar, o homem que a vira quando o mundo inteiro desviou o olhar. E ela ia dizer a ele. No momento em que ele voltasse.

Eles voaram de volta para São Paulo naquela mesma noite. Helena não conseguiu dormir no avião. Mesmo que Alex lhe dissesse que deveria descansar, ela ficou sentada perto da janela, encarando o céu noturno infinito, contando cada minuto até poder vê-lo novamente. Domênico não voou com eles. Ele tinha coisas para terminar em Moscou. As consequências do ataque, inimigos que precisavam ser tratados, mensagens que precisavam ser enviadas. « Ele estará de volta em um dia », disse Alex. Mas para Helena, um dia parecia uma vida inteira.

A mansão dos Lobo a recebeu com seu silêncio familiar. Tudo estava igual. Os longos corredores forrados com pinturas a óleo, os quartos luxuosos, a biblioteca com seu cheiro de livros velhos. Mas tudo parecia oco sem ele. Helena se recusou a comer, recusou-se a dormir. Sentou-se na biblioteca, segurando a cópia de Crime e Castigo que Domênico deixara inacabada, e esperou. Natália veio verificar como ela estava, trazendo chá e doces, mas Helena apenas balançou a cabeça. Lili entrou correndo e a abraçou, perguntando por que a Moça Borboleta estava triste, e Helena teve que forçar um sorriso e dizer que tudo ficaria bem, mesmo sem saber se era verdade.

Vinte e sete horas depois de deixar Moscou, Helena ouviu carros na entrada. Ela pulou da cadeira na biblioteca, o coração batendo descontroladamente no peito, e correu. Correu pelo corredor, desceu as escadas, direto para as portas da frente enquanto elas se abriam.

E ele estava lá.

Domênico Lobo estava na porta, vestido com um terno preto novo, curativos brancos aparecendo sob o colarinho de sua camisa. Seu rosto parecia exausto. Havia pontos em sua testa, um hematoma escuro em sua bochecha. Mas ele estava vivo. Estava ali, respirando, vivendo, e isso era tudo o que Helena precisava.

Ela não pensou. Não calculou. Apenas se lançou contra ele como uma bala, atingindo seu peito com força suficiente para fazê-lo cambalear um passo para trás. Seus braços se fecharam em volta de seu pescoço, o rosto enterrado contra ele. E ela chorou. Chorou de alívio. Chorou de medo. Chorou por cada sentimento que segurara por dentro durante vinte e sete horas de inferno.

— Nunca mais faça isso comigo — ela soluçou, a voz se partindo em pedaços. — Nunca mais me faça te deixar para trás. Nunca mais desapareça assim. Eu não posso… eu não aguento.

Os braços de Domênico a envolveram, puxando-a com força, e ela pôde ouvir seu coração batendo forte sob seu ouvido. Vivo. Ele estava vivo.

— Eu prometi que voltaria — ele sussurrou em seu cabelo, a voz rouca. — Eu voltei. Eu sempre voltarei para você.

Helena ergueu a cabeça e olhou nos olhos cinzentos que ela temera nunca mais ver. Então ela o beijou. Não o beijo suave e explorador da biblioteca. Este foi o beijo de alguém se afogando que finalmente encontrara uma tábua de salvação. Feroz, desesperado, dizendo tudo o que as palavras não podiam conter.

Domênico a beijou de volta com a mesma fome. Uma mão deslizando em seu cabelo, a outra agarrando sua cintura. E eles ficaram ali, no meio do salão, beijando-se como se o mundo estivesse queimando ao redor deles e eles não se importassem.

Quando finalmente se separaram, ambos estavam ofegantes, testas pressionadas, suas respirações se misturando. Ele a ergueu sem uma palavra e a carregou escada acima, para o quarto dele.

Aquela foi a primeira noite de verdade deles. Não apenas deitados um ao lado do outro no escuro. Não apenas compartilhando calor e respiração. Mas tudo. Pele contra pele, respiração quente, sussurros no escuro. Domênico foi gentil com ela de uma forma que ela nunca esperaria de um homem tão violento quanto ele. Ele beijou cada cicatriz em seu corpo, as marcas deixadas pela noite que os unira. Ele a tocou como se ela fosse a coisa mais preciosa que já segurara, como se tivesse medo de que ela se quebrasse se ele não fosse cuidadoso o suficiente. E Helena, pela primeira vez na vida, deixou alguém ver tudo dela. Sem máscara, sem muros. Apenas ela, com cada cicatriz e aresta afiada e peça imperfeita. E ele amou cada parte dela.

Depois, eles deitaram na escuridão, corpos entrelaçados, e Helena ouviu o batimento cardíaco de Domênico sob seu ouvido. Lento, constante, vivo.

— Eu te amo — ela disse, e as palavras saíram mais fáceis do que ela pensava que sairiam, como se estivessem esperando a vida inteira para serem ditas. — Não sei quando aconteceu. Não sei como um sequestrador se tornou o homem sem o qual não posso viver. Mas eu te amo, Domênico Lobo. Por tudo o que você é. Por tudo o que você fez. Eu te amo.

Domênico ficou em silêncio por um longo momento. E Helena começou a se preocupar que dissera cedo demais, demais, rápido demais. Então ele ergueu seu queixo, olhou em seus olhos na luz fraca, e ela viu lágrimas brilhando em seu olhar cinzento.

— Eu te amo desde o momento em que você disse « tem uma criança aqui » no meio de homens com armas — disse ele, e sua voz quebrou em lugares que Helena não esperava. — Eu te amo desde que você correu para o meio do tiroteio por uma criança que nem conhecia. Eu te amo, Helena Lobo. E vou passar o resto da minha vida merecendo o seu amor.

Eles se beijaram novamente, lento e doce, e do lado de fora da janela, o amanhecer começava a pintar o céu de São Paulo de rosa.

Seis meses depois, a biblioteca ainda era o lugar favorito de Helena. A luz do sol da tarde entrava pelas altas janelas, espalhando um dourado quente pelo piso de carvalho, e o cheiro de livros velhos era tão familiar quanto no primeiro dia em que ela entrara ali. Mas tudo estava diferente agora.

Lili sentava-se aos pés de Helena, lápis de cor espalhados ao redor, um livro de colorir aberto em borboletas de todos os tons. Ela estava muito maior do que seis meses antes. Seu cabelo loiro estava mais longo, seu sorriso mais brilhante, e sua risada enchia a mansão todos os dias como as notas mais claras de música.

— Moça Borboleta, estou desenhando mais uma borboleta para o bebê. — Lili olhou para cima, olhos azuis brilhando. — De que cor o bebê gosta?

Helena sorriu, a mão pousada na barriga que começara a arredondar sob o tecido macio de seu vestido. O segredo deles fora compartilhado com a família algumas semanas antes, e Lili fora a mais feliz de todos, pulando pela sala e declarando que seria a melhor irmã mais velha do mundo.

— Eu acho que o bebê vai gostar de roxo. Assim como a primeira borboleta que você desenhou para mim.

Lili assentiu solenemente e se debruçou sobre seu trabalho novamente, a língua para fora um pouco com a concentração. Helena a observou, depois deixou seu olhar vagar pela biblioteca, e percebeu que aquilo não era mais a gaiola dourada que ela uma vez ressentira. Aquilo era um lar.

Passos familiares soaram da porta, e Helena não precisou se virar para saber quem era.

— Minhas duas meninas. — A voz de Domênico era baixa e quente. E um momento depois, ele estava ao seu lado, curvando-se para beijar o topo da cabeça de Lili antes de se virar para beijar a boca de Helena.

— Tio Dômi, olha! — Lili mostrou seu desenho. — Fiz para o bebê.

— É lindo, princesa. — Domênico sentou-se ao lado de Helena, um braço circulando seus ombros, a outra mão pousada em sua barriga com uma ternura que ela nunca poderia ter imaginado daquele homem seis meses antes. — O bebê vai adorar.

Helena encostou a cabeça em seu ombro, inalando o cheiro familiar de colônia cara e algo que pertencia apenas a Domênico. Seis meses. Seis meses desde aquela noite fatídica na lanchonete imunda. Seis meses desde que ela levara três tiros por uma criança que nem conhecia. Seis meses desde que acordara com um anel de diamante na mão e uma nova vida que não escolhera. Mas agora, observando Lili colorir a seus pés, sentindo o calor de Domênico ao seu lado e a vida crescendo dentro dela, Helena entendeu que às vezes as melhores coisas vêm dos lugares que menos esperamos.

O anel em seu dedo não era mais um grilhão. Era uma promessa. Os braços que a seguravam não eram mais cativeiro. Eram abrigo. E a borboleta em seu peito, brilhando ao sol da tarde, era um símbolo da transformação pela qual ela passara. De uma garçonete invisível a uma mulher amada. De uma alma solitária a parte de uma família. De uma lagarta enrolada em um casulo a uma borboleta abrindo suas asas.

— Você se arrepende? — perguntou Domênico suavemente, como se pudesse ler seus pensamentos. — De tudo o que aconteceu?

Helena se virou para ele, olhando nos olhos cinzentos que uma vez foram frios como aço e agora estavam sempre quentes quando a olhavam.

— Não — ela disse, e era verdade. — Nem por um único segundo.