Presa em uma pousada na montanha durante uma tempestade mortal com um estranho perigoso que acabou sendo o Rei Alfa e meu companheiro predestinado, enquanto fugia dos assassinos da minha alcateia.
PARTE 1: A TEMPESTADE E O ESTRANHO
Elena não percebeu que o estranho que bloqueava o último quarto da estalagem era seu companheiro predestinado até que a tempestade atingiu com toda a sua força, e então já era tarde demais para fugir. A passagem da montanha nos Picos da Europa estava livre quando ela iniciou sua jornada naquela manhã, o sol brilhando sobre a geada. Agora, seis horas depois, o céu tinha adquirido a cor de uma contusão recente e arroxeada, e o vento trazia o gosto metálico da neve iminente.
Era o tipo de tempestade que soterrava os viajantes que não eram espertos o suficiente para procurar abrigo, aquelas nevascas traiçoeiras e implacáveis do norte da Espanha. A “Estalagem do Viajante” era o único refúgio num raio de cinquenta quilômetros, um prédio baixo de pedra cinza que parecia ter sido esculpido diretamente na encosta da montanha séculos atrás.
Elena empurrou a pesada porta de carvalho, com os dedos dormentes apesar das luvas de lã, e quase esbarrou em uma parede de pura musculatura. A “parede” era um homem de costas para ela, discutindo com a dona da pensão com uma voz que lhe lembrava um trovão distante: baixa, perigosa e mal contida. O cheiro de madeira queimada e ensopado de carne impregnava o ar, mas não conseguia mascarar a tensão.
“Paguei o dobro”, disse ele. “O quarto é meu.”
—Eu lhe daria de bom grado, senhor, mas a jovem fez uma reserva por carta há alguns dias, e eu lhe dei minha palavra.
“Não me importo com o que ele prometeu”, rosnou ele.

A dona da hospedaria, Dona Carmen, uma mulher curtida pelo vento e com cabelos grisalhos como aço, cruzou os braços com aquela teimosia típica das pessoas da montanha.
—Bem, eu cumpro. Eu cumpro minha palavra, ao contrário de algumas pessoas.
Foi então que ele se virou. Elena prendeu a respiração. Ele tinha o tipo de rosto que faz você esquecer de ser cautelosa, uma beleza dura e masculina. Maçãs do rosto proeminentes, barba por fazer e uma boca que parecia saber exatamente como arruinar sua vida. Seus olhos, da cor de fumaça e aço de Toledo, carregavam inteligência demais para serem confiáveis. Ele era o tipo de homem que, como diria sua mãe, deixa um rastro de corações partidos e promessas vazias.
Mas quando aqueles olhos encontraram os dele, algo mudou. Suas pupilas dilataram, devorando a íris cinzenta. Seu corpo inteiro ficou imóvel de uma forma que o fez lembrar de um lobo ibérico farejando algo no vento.
Foi então que ela sentiu.
Uma forte e insistente sensação de puxão na parte inferior do abdômen, como se algo profundo em seu DNA a reconhecesse antes mesmo que sua mente pudesse processá-la. Não, Elena. Agora não. Suas mãos se fecharam em punhos ao lado do corpo; seu maxilar se contraiu. Ele também sentiu. O laço entre eles se rompendo como um fio de ouro esticado até o fim.
“Quando você sentir, minha filha, não ignore”, sua avó a advertia em histórias sussurradas junto à lareira nas noites de inverno. “Mas também não confie completamente. O destino tem um senso de humor muito cruel.”
“Há um quarto vago”, disse Dona Carmen, alheia à tensão que se instalara entre elas. “Só um. A tempestade chegará em menos de uma hora, e quem ficar de fora não verá o amanhecer.”
Ele olhou para ambos com olhos astutos e avaliadores.
—Então, a menos que você queira jogar uma moeda para decidir por ela, sugiro que cheguem a um acordo.
O olhar do estranho não se desviou do rosto de Elena. Quando ele falou, sua voz estava mais rouca do que antes, vibrando em seu peito.
—Nós compartilharemos.
“Acho que não…” Elena começou, dando um passo para trás.
“Você prefere morrer congelado a passar uma noite no mesmo quarto que eu?” Uma sobrancelha escura se ergueu com arrogância. “Somos adultos. Tenho certeza de que podemos nos comportar civilizadamente.”
Civilizada? Como se a civilidade tivesse algo a ver com a forma como o corpo dela reagia à proximidade dele. Como se ela não pudesse sentir a conexão entre eles vibrando, incitando-a a se aproximar, a tocá-lo.
“Só tem uma cama”, avisou Dona Carmen, com um olhar perspicaz.
“Não será problema nenhum”, murmurou o estranho, sem desviar o olhar. “Dormirei no chão.”
Em qualquer outra noite, Elena teria enfrentado a tempestade, arriscado-se no frio. Ela havia sobrevivido a coisas piores nas três semanas desde o massacre de sua matilha. Mas a voz de seu pai ecoava em sua mente, uma lembrança dolorosa daquela noite terrível. “Uma garota morta não pode testemunhar, Elena. Permaneça viva. Conte a verdade. É assim que você honra os que caíram.”
Ela era a única que restava que sabia o que realmente havia acontecido, a única que vira o rosto do traidor. Se ela morresse nesta tempestade, a verdade morreria com ela, e o massacre de sua matilha ficaria impune.
Então ela dividiria o quarto com esse estranho, esse homem que fazia sua pele arder e seus instintos vibrarem na mesma medida. Ela manteria distância, sobreviveria à noite e partiria pela manhã. Simples.
“Está bem”, ouviu-se dizer, com a voz trêmula. “Vamos dividir.”
Algo brilhou em seus olhos. Não exatamente triunfo, mas um calor que lhe causou um frio na barriga. Ele se virou para o dono da hospedaria.
—Nós aceitamos.
Dona Carmen entregou-lhe uma chave de ferro antiga e fez uma pausa.
“Só um aviso: a porta do banheiro não tem tranca, e a lareira solta muita fumaça se você não abrir bem a portinhola, mas é quentinho e o teto não tem goteiras.” Ela olhou para Elena com um olhar quase maternal. “Se precisar de alguma coisa, senhorita, é só chamar. Moro duas portas adiante.”
“Ela estará segura”, disse o estranho em voz baixa.
Elena não confiava na promessa em sua voz. Não confiava na forma como seu corpo queria se inclinar em sua direção, apesar de todas as lições que aprendera sobre homens bonitos com olhos perigosos. Mas assentiu mesmo assim, porque a alternativa era congelar, e ela já havia feito um juramento de sobreviver.
PARTE 2: O FOGO E A CONFISSÃO
O quarto era menor do que eu esperava, com aquele charme rústico das antigas casas de pedra e madeira. Uma cama de solteiro dominava o espaço, mal cabendo uma pessoa, quanto mais duas, com uma colcha de retalhos gasta e travesseiros que já tinham visto dias melhores. Uma lareira ocupava quase toda uma parede, fria e apagada. Uma pia com a cuba rachada. Uma janela rangia na moldura enquanto o vento uivava lá fora, chicoteando a neve contra o vidro.
Elena largou a mochila e foi imediatamente até a lareira, precisando fazer algo com as mãos para disfarçar o tremor. O estranho — ela ainda não sabia o nome dele — fechou a porta atrás deles com um clique suave que soou alto demais no silêncio.
“Eu fico com o terreno”, disse ele.
Ela se virou para encará-lo. Ele havia tirado a capa, revelando um traje de couro surrado que em nada escondia os contornos musculosos de seu corpo. Uma espada pendia em seu quadril, com o cabo bastante gasto pelo uso. Um soldado, talvez? Ou um mercenário? Esse pensamento lhe causou um arrepio na espinha.
“O chão é de pedra”, ela observou. “Você vai congelar.”
—Não se preocupe. Já dormi em condições piores.
Ela se virou para a lareira e abriu a chaminé, conforme o dono da hospedaria havia instruído.
“Somos adultos. Podemos dividir a cama sem…” Ela parou, sem saber como terminar a frase.
“Sem nos tocarmos? Sem reconhecer a atração entre nós? Sem complicar as coisas?” Ele completou a frase por ela, mas havia algo em seu tom que sugeria que ele não acreditava nisso mais do que ela.
Elena friccionou a pederneira contra o aço, fazendo com que a isca pegasse fogo. O fogo era uma distração bem-vinda da consciência que a atormentava. Ela conseguia sentir exatamente onde ele estava no quarto sem precisar olhar. Podia ouvir o som suave de sua respiração, o farfalhar discreto enquanto ele se movia em direção à janela.
“A tempestade está piorando”, ele observou. “Chegamos bem a tempo.”
Ela alimentou as chamas com pedaços maiores de lenha de carvalho.
—Que sorte a nossa.
“Será?” Ele estava mais perto agora. Ela não o tinha ouvido se mexer, mas de repente ele estava bem atrás dela. Sem tocá-la, mas perto o suficiente para que ela sentisse o calor irradiando de seu corpo. “Sorte, quer dizer. Ou algo assim.”
Elena se levantou, criando distância entre eles.
—Não acredito em destino.
-Mentiroso.
A palavra foi dita suavemente, quase gentilmente, mas a atingiu como um tapa. Ela se virou para encará-lo, com o queixo erguido.
—Você não me conhece.
“Eu sei que você também sentiu.” Os olhos dela encontraram os dele sem piscar. “O laço. Não finja que não sentiu.”
—Sentir algo não significa que eu tenha que agir de acordo com esse sentimento.
“Não, não significa isso”, concordou ele. Aproximou-se da janela, dando-lhe espaço. “Mas mentir sobre isso não fará com que desapareça.”
Elena cerrou os punhos, lembrando a si mesma que não tinha o luxo de desejar alguém. Não tinha tempo para o calor que lhe subia ao estômago quando seus olhares se cruzavam. Esses eram luxos para mulheres que não eram caçadas, para mulheres que tinham lares para onde voltar.
“Qual é o seu nome?”, perguntou ela, porque disso ela tinha certeza.
Ele se virou para encará-la, e algo em sua expressão suavizou-se.
—Mateus.
—Eu sou Elena.
“Elena”, ele repetiu. E o jeito como ele disse isso, cuidadosamente, saboreando as vogais espanholas, fez com que ela estremecesse. “Aonde você vai?”
—Para o sul.
—Essa não é uma resposta, Elena.
—É o único que você vai conseguir, Mateo.
Mateo a estudou por um longo tempo.
“Você está fugindo de alguma coisa.” Não era uma pergunta, então ela não respondeu. “Ou fugindo de alguém “, ele continuou. Os olhos dela se estreitaram ligeiramente. “Você está em perigo?”
“Não estamos todos assim?” Ela se virou para a mochila, tirando de lá um pouco de queijo curado e pão amanhecido que vinha racionando. “O mundo não é exatamente um lugar seguro hoje em dia.”
Elena partiu um pedaço de pão, obrigando-se a comer, embora seu estômago estivesse embrulhado.
—E mesmo que eu fosse, por que você se importaria?
“Porque…” Ele se interrompeu, com o maxilar cerrado. “Você está sozinha em meio a uma tempestade, fugindo de algo sobre o qual não quer falar, e eu…” Outra pausa. Esta mais longa. “Eu não gosto disso.”
“Você não me conhece”, disse ela novamente, mas desta vez em voz mais baixa. “Ainda não.”
A promessa contida nessas duas palavras despertou algo quente em seu peito, perigoso e indesejado. Uma rachadura na parede que ele havia construído com tanto cuidado.
—Mas eu gostaria, Elena.
—Não—A palavra saiu mais áspera do que eu pretendia—. Não faça isso.
—Fazer o quê?
“Agindo como se isso significasse alguma coisa. O vínculo… Não é nada além de instinto. A biologia pregando peças em nós. Não significa que devemos…” Ele não conseguiu terminar.
Mateo atravessou a sala rapidamente. As costas de Elena bateram na parede de pedra fria antes que ela percebesse que estava recuando. Ele parou pouco antes de tocá-la, com uma das mãos pressionada contra a pedra ao lado de sua cabeça, prendendo-a sem fazer contato.
“Olhe para mim”, disse ele suavemente.
Contrariando seu bom senso, o olhar de Elena subiu lentamente, percorrendo seu peito largo até a espinha dorsal de sua garganta, passando pelo queixo, até que finalmente seus olhos encontraram os dele.
“Não vou fingir que isso não é nada”, disse Mateo, com a voz baixa e rouca. “Não vou agir como se não sentisse cada vez que você respira. Como se eu não quisesse…”
Ele parou e ela o viu lutando consigo mesmo.
“Mas eu também não vou pressioná-la. Você quer espaço? Eu lhe darei espaço. Quer ir embora amanhã de manhã e nunca mais me ver?” Algo brilhou em seus olhos, mas desapareceu rápido demais para ser decifrado. “Eu a deixarei ir.”
—Assim, sem mais nem menos?
“Não, não é tão simples assim.” O olhar dela desceu até a boca, depois subiu lentamente. “Vai ser difícil te deixar ir, mas eu vejo que você já está com medo de alguma coisa. Eu não serei mais uma coisa da qual você vai fugir.”
A sinceridade em sua voz derreteu algo em seu peito. Ela sentiu naquele instante, um amolecimento traiçoeiro de seu coração.
“Preciso sobreviver ao inverno”, ouviu-se dizer. “Preciso chegar aos assentamentos do sul antes que os portos fechem. É só nisso que consigo pensar agora. Não—” Ele gesticulou entre eles. “Não nisso.”
Mateo assentiu lentamente com a cabeça e, em seguida, afastou-se da parede, dando-lhe espaço para respirar.
—Então é nisso que vamos nos concentrar. Em sobreviver. Em levar você aonde precisa ir.
PARTE 3: PESADELOS E REVELAÇÕES
A ponte havia desabado. Eles ouviram Dona Carmen gritar isso do corredor. Ficaram presos lá por pelo menos dois dias, até que os serviços da cidade pudessem chegar.
Naquela noite, Elena estava deitada na cama, completamente vestida, com a faca escondida debaixo do travesseiro. Mateo cumpriu sua palavra e sentou-se no chão, usando sua capa como colchão em frente à lareira.
“Mateo”, disse ela na escuridão. “Obrigada. Por não me pressionar.”
—Vá dormir, Elena. Resolveremos o resto amanhã.
Ela fechou os olhos, ouvindo o ritmo constante da sua respiração. E, pela primeira vez em semanas, permitiu-se relaxar.
Mas o pesadelo aconteceu mesmo assim. Fogo. Gritos. O cheiro de sangue tão forte que ela podia senti-lo no paladar. Ela estava no porão cheio de raízes, a mão do pai sobre sua boca para que ela não gritasse. Lá em cima, passos, botas pesadas, risadas que lhe causavam arrepios.
“Revistem todos os prédios ”, ordenou uma voz. Culta, da Península Ibérica, absolutamente fria. “Não deixem testemunhas . ”
Através da grade de ventilação, ela o viu. Apenas um vislumbre. Cabelos escuros, um emblema de lobo prateado em sua armadura de couro, um rosto que ela jamais esqueceria. Seu pai sussurrou para ela: “Lembre-se dele, Elena. Lembre-se do rosto dele. Você é a única que pode . ”
O teto acima deles gemeu, rachou e começou a ceder.
Elena acordou com um grito abafado, sentando-se abruptamente na cama, com o coração batendo forte contra as costelas. O suor grudava em sua camisa, apesar do frio.
Mateo estava lá instantaneamente, ajoelhando-se ao lado da cama.
—Ei, você está seguro. Você está aqui comigo. Você está seguro.
Ela não conseguia falar. Não conseguia respirar, sufocada pelas lembranças que lhe apertavam a garganta.
“Elena.” A mão dele deslizou perto do ombro dela. “Posso…? Posso te tocar?”
Ela assentiu freneticamente e suas mãos repousaram quentes e firmes em suas costas, ancorando-a, trazendo-a de volta ao presente.
“Respire comigo”, disse ele. “Inspire em quatro, segure por quatro, expire em quatro.”
Aos poucos, o pânico foi diminuindo.
“Desculpe”, ela sussurrou. “Não queria te acordar.”
“Não peça desculpas.” O polegar dela deslizou em círculos lentos contra a coluna dela. “Você quer conversar sobre isso?”
Ela balançou a cabeça. Ela não conseguia. Talvez nunca conseguisse.
Mateo permaneceu em silêncio por um instante.
“Quando eu tinha doze anos, meus pais morreram em um ataque aéreo. Durante anos depois disso, tive pesadelos com isso. Com a impossibilidade de salvá-los.” Suas mãos ficaram imóveis. “Às vezes ainda os tenho.”
Elena olhou para ele à luz da fogueira. Seu rosto estava mais suave, vulnerável de uma forma que ela nunca tinha visto antes.
“Meu grupo foi atacado há três semanas”, disse alguém. “Os invasores… mataram todos.”
A mão de Mateo apertou a dele com mais força.
—Para todos?
—Todos, menos eu. Me escondi como um covarde.
—Você sobreviveu. Isso não é covardia. Isso é força.
“Não parece que foi forçado.” Ela olhou para as mãos entrelaçadas. “Eu vi o rosto dele, Mateo. Aquele que liderou o ataque. Ele tinha um emblema de lobo na armadura. Meu pai… ele me disse para me lembrar. Disse que eu era a única que podia testemunhar.”
Mateo permaneceu completamente imóvel.
—Um distintivo de lobo. De que tipo?
—Não sei. Estava escuro, mas era detalhado, profissional. Como uma transmissão militar de verdade.
Mateo levantou-se e caminhou em direção à janela, com as costas tensas.
—Houve outros ataques. Outros bandos nos Territórios do Norte. O mesmo padrão: aniquilação total, sem testemunhas.
—Você sabe algo sobre eles?
“Estou investigando.” Seu maxilar se contraiu. “Tentando descobrir quem é o responsável.”
—Você é soldado, Mateo?
“Algo assim.” Ele se virou para ela. “Elena, eu caço esses saqueadores. Eu os rastreio. Eu os levo à justiça. É isso que eu faço.”
A esperança irrompeu em seu peito, dolorosa e brilhante.
—Então você poderia me ajudar. Me ajudar a encontrar a pessoa certa…
“Elena.” Ele segurou o rosto dela entre as mãos, com um toque suave. “Se você viu o rosto dele, se você consegue identificá-lo, você corre perigo de vida. Essas pessoas não deixam testemunhas por um motivo.”
—Eu sei. Por que você acha que eu estava fugindo?
—Você precisa de proteção. Um lugar seguro.
“Preciso de justiça”, ela interrompeu. “Preciso garantir que o que aconteceu com a minha matilha não aconteça com mais ninguém. E só eu posso identificá-lo.”
Mateo examinou seu rosto. Ele podia vê-lo pensando, calculando.
—Este homem com o emblema do lobo. Você poderia descrevê-lo ou desenhá-lo?
—Acho que sim. Por quê?
“Porque se for quem eu acho que é…” Mateo parou, balançando a cabeça com raiva. “Isso é maior do que uma simples operação policial. Isso é organizado. Deliberado.”
Elena sentiu mais um pedaço de sua muralha desmoronar. Mateo era um saqueador. Alguém que havia perdido os pais para a violência, assim como ela. E seu parceiro. O vínculo entre eles pulsava, mais forte agora depois de compartilharem sua dor.
“Quando a tempestade passar”, disse ela, “viajaremos juntos. Você me ajuda a encontrar o homem que matou minha matilha, e eu o ajudarei com sua investigação.”
—É muito perigoso, Elena.
—Já estou em perigo. Pelo menos assim estou fazendo algo a respeito.
—Elena…
“Mateo.” Ela se levantou e caminhou em direção a ele. “Não preciso que você me proteja me mantendo longe. Sou uma sobrevivente. E vou até o fim, quer você me ajude ou não.”
Estavam a poucos centímetros de distância. A fita vibrava, convidando-a a beijá-la.
“Você vai ser a minha morte”, sussurrou Mateo. Mas havia admiração em sua voz.
—Ou eu serei a sua vida.
Era uma brincadeira, mas seus olhos diziam o contrário. Elena ficou na ponta dos pés e o beijou. Foi um gesto desesperado, um choque entre necessidade e alívio. Mateo respondeu com uma fome que lhe fez as pernas fraquejarem.
E então aconteceu.
O vínculo entre eles se rompeu, dourado e cintilante. Elena sentiu algo estranho, como uma pulsação sob a pele. Uma sensação que sentira quando criança, quando sua mãe estava por perto. O poder de Mateo a inundou — sua dominância Alfa — e, em vez de se submeter, algo dentro dela reagiu. Amplificando-a.
Ele sentiu um nó na garganta. O poder de Mateo aumentou, dez vezes mais forte que o normal, preenchendo a sala e fazendo os cristais vibrarem.
Mateo afastou-se abruptamente, respirando com dificuldade, olhando para as próprias mãos e depois para ela com espanto e horror.
-O que é que foi isso?
Elena tocou os lábios, que ainda estavam formigando.
—Não sei. Eu senti… o seu poder. Ele foi ficando mais forte.
“Chega.” Mateo olhou para ela. ” Amplificado . Elena, você tem ideia do que acabou de fazer?”
—Eu não tenho poderes. Meu pai teria me dito isso.
“Existem histórias antigas…” disse Mateo, pálido. “Sobre lobos que podiam amplificar o poder de outros. Eles eram chamados de ‘Ressonantes’. Se é isso que você é… se é por isso que eles atacaram sua matilha…”
-O que isso significa?
“Significa que eles não queriam apenas te matar para te silenciar.” Ele a segurou pelos ombros. “Eles queriam te capturar. Alguém está tentando construir um exército, Elena. E você é a arma definitiva.”
PARTE 4: SOB A SOMBRA DA COROA
A tempestade amainou dois dias depois, deixando para trás um mundo transformado em cristal e silêncio. Os Picos da Europa cintilavam sob um sol de inverno ofuscante, transformando a neve virgem num manto de diamantes triturados. Durante aqueles dois dias de confinamento forçado na Estalagem do Andarilho, o tempo pareceu distorcer-se para Elena e Mateo.
Passaram horas traçando mapas no verso de pergaminhos antigos que Dona Carmen lhes emprestara, os dedos sujos de carvão, roçando-se “acidentalmente” um no outro na mesa de madeira gasta. Compartilharam ensopados quentes e vinho tinto barato, aprendendo os ritmos um do outro: como Mateo cantarolava antigas canções de guerra do norte quando pensava que ela não estava ouvindo, ou como Elena esfregava uma velha cicatriz no pulso quando a ansiedade ameaçava consumi-la. A intimidade forçada corroera as barreiras que ambos haviam erguido com tanto cuidado. O vínculo entre eles, aquela entidade viva e elétrica, transformara-se num zumbido constante, uma música de fundo que fazia com que a separação, mesmo para ir ao banheiro, parecesse fisicamente dolorosa.
Mas a chegada do filho do estalajadeiro com a notícia de que a ponte havia sido consertada quebrou o encanto. A realidade fria e brutal retornou pela porta.
Elena arrumou seus poucos pertences — o desenho do traidor, sua faca, um pouco de pão que sobrou — com movimentos mecânicos, hiperconsciente de que Mateo fazia o mesmo do outro lado do pequeno quarto.
“Pronto?”, perguntou ele, ajustando as alças de seus alforjes.
Ela assentiu com a cabeça, jogando a capa sobre os ombros.
—Para onde exatamente vamos?
“Há uma guarnição militar a dois dias de viagem para o sul, perto de Potes. Meu segundo em comando está estacionado lá. Podemos reabastecer e planejar nosso próximo passo.”
Eles saíram para o ar gélido da manhã. Sua respiração escapava em nuvens brancas. Os cavalos que os homens de Mateo haviam trazido antes da tempestade estavam descansados e inquietos, batendo as patas na neve endurecida. A jornada começou em silêncio, quebrado apenas pelo ranger dos cascos no gelo e pelo assobio do vento entre os pinheiros negros.
Cavalgavam há horas, descendo lentamente por trilhas traiçoeiras onde um passo em falso significava uma queda de trezentos metros nos desfiladeiros de calcário abaixo. Elena observava as costas de Mateo, a rigidez de sua postura, a maneira como ele constantemente examinava o horizonte como um predador à espreita. Apesar da beleza da paisagem, a tensão emanava dele em ondas que ela podia sentir através da ligação entre eles.
Ao meio-dia, pararam numa clareira protegida por um afloramento rochoso para deixar os cavalos descansarem. Mateo desmontou com uma graça letal e ajudou Elena a descer. Suas mãos permaneceram em sua cintura um segundo a mais do que o necessário, e o calor de seu toque penetrou as camadas de lã e couro como se não existissem.
“Precisamos conversar”, disse ele de repente, quebrando o silêncio que durava horas. Ele se encostou em uma rocha, cruzando os braços sobre o peito, mas não olhou para ela. Seu olhar se voltava para o vale, para o sul.
Algo em seu tom de voz fez o estômago de Elena revirar. Era o tom de alguém prestes a confessar um crime.
—O que está acontecendo? Os invasores?
“Não. É sobre mim.” Mateo respirou fundo, o ar fresco enchendo seus pulmões, e finalmente se virou para encará-la. Seus olhos cinzentos estavam escuros, repletos de uma mistura de arrependimento e determinação. “Eu não fui completamente honesto com você sobre quem eu sou, Elena.”
Elena franziu a testa e deu um passo em direção a ele.
—Eu sei que você é um soldado. Um caçador. Você disse que estava investigando os ataques.
“Tudo isso é verdade.” Ele fez uma pausa, como se as palavras lhe pesassem na língua. “Mas omiti uma parte. Meu nome completo é Mateo de Valdecaballeros.”
O nome pairou no ar frio e pareceu congelar o tempo. Elena piscou, sua mente lutando para conectar os pontos, para reconciliar o homem que dormira no chão de uma estalagem e compartilhara seu pão com ela, com o nome que toda criança nos Territórios do Norte conhecia.
“Valdecaballeros…” ela sussurrou, dando um passo instintivo para trás. Suas botas rangeram na neve. “Essa é a casa real. Vocês são…”
—Eu sou o Rei Alfa dos Territórios do Norte.
O mundo parecia ter girado em torno do próprio eixo. Elena teve que se sentar em um tronco caído porque, de repente, suas pernas pareciam feitas de água.
“O Rei?” Sua voz estava estrangulada e aguda. “Você tem dividido o quarto comigo, me beijado, deixado que eu lhe desse ordens sobre como acender a lareira, e você é o maldito Rei?”
“Costumo viajar incógnito”, explicou ele rapidamente, dando um passo em direção a ela, mas parando ao ver sua expressão. “É mais fácil investigar quando as pessoas não sabem quem eu sou. Quando não estão se curvando ou tentando esconder seus erros. Eu deveria ter lhe contado antes, na estalagem, mas…”
“Mas o quê?” Elena se levantou novamente, a surpresa dando lugar à fúria. “Você não confiava em mim? Achou que a pequena refugiada de uma matilha massacrada não conseguiria lidar com a verdade?”
“Não se tratava de confiança, Elena. Tratava-se de…” Ele passou a mão pelos cabelos escuros, frustrado. “Tratava-se de ser apenas Mateo por um instante. Não ‘Vossa Majestade’, não o Alfa dos Alfas. Apenas um homem em meio à tempestade com uma mulher que o fazia sentir-se… vivo.”
“Você é o Rei”, ela repetiu, balançando a cabeça, tentando processar a magnitude da mentira por omissão. “Isso significa que você tem um conselho, um exército, obrigações políticas. Significa que, se somos almas gêmeas destinadas…”
Ela parou, o horror da implicação atingindo-a com a força de uma avalanche.
—Isso significa que eu seria rainha.
A palavra tinha gosto de cinzas em sua boca. Ela, Elena, uma garota que crescera esfolando coelhos e curando feridas com musgo em uma mochila esquecida nas montanhas, transformada em uma figura da corte, envolta em seda e política.
“Isso não muda nada entre nós”, disse Mateo veementemente, aproximando-se e segurando-a pelos ombros. “Ainda sou a mesma pessoa que segurou sua mão durante seus pesadelos. Ainda sou o homem que jurou ajudá-la a encontrar justiça.”
“Tudo muda, Mateo!” Ela se desvencilhou do seu aperto, dando um passo para trás. “Você é a lei. Você é o poder. Se somos parceiros, isso me torna um alvo ainda maior. E se eles descobrirem o que eu sou… se eu sou uma Ressonante…”
—Então eu te protegerei com todo o poder da minha coroa.
“Não quero sua proteção real”, ela disparou. “Quero um parceiro. Um igual. Como podemos ser iguais se você pode ordenar minha execução com um estalar de dedos?”
Mateo olhou para ela, magoado, mas seu maxilar se contraiu com aquela teimosia que ela já começava a reconhecer.
“Eu jamais usaria meu poder contra você. Jamais. E quanto a sermos iguais…” Ele se aproximou novamente, invadindo seu espaço pessoal, forçando-a a olhar para ele. “Você pode me fazer ajoelhar com um único olhar, Elena. Você tem um poder dentro de si que poderia nivelar montanhas. Se alguém aqui deveria temer um desequilíbrio de poder, esse alguém sou eu.”
Elena olhou para ele, procurando mentiras em seus olhos, mas encontrou apenas uma honestidade brutal e crua. O vento agitou seus cabelos e, por um instante, eles eram apenas um homem e uma mulher na imensidão da montanha.
“Você disse que éramos parceiros”, disse ela finalmente, com a voz mais suave.
“E somos. A coroa não muda isso.” Ele estendeu a mão, um gesto de paz. “Me dê uma chance, Elena. Deixe-me mostrar que o título é a coisa menos importante em mim.”
Elena olhou para a própria mão. Grande, calejada, marcada pela espada. A mão de uma guerreira, não de uma burocrata. Ela suspirou, sentindo a raiva se dissipar, substituída por uma resignação cautelosa e por aquela maldita afeição que não parava de crescer.
“Se você tentar me dar uma ordem real”, ela avisou, aceitando a mão dele, “eu te empurro do próximo penhasco que encontrarmos.”
Mateo caiu na gargalhada, um som genuíno que ecoou pelo vale.
-Negócio.
Eles continuaram a jornada, mas a atmosfera entre eles havia mudado. Não era mais apenas tensão sexual e mistério; agora havia um peso, uma gravidade. Elena se viu observando-o com outros olhos. Percebeu como ele avaliava o terreno não apenas como um viajante, mas como um estrategista defendendo seu território. Notou o fardo invisível que lhe encolhia levemente os ombros quando ele pensava que ninguém estava olhando.
Ao cair da noite, o tema do seu poder, a “Ressonância”, ressurgiu.
“Se o que suspeitamos for verdade”, disse Mateo enquanto cavalgavam lado a lado, “e o Coletivo de Ferro estiver caçando Ressonantes, então sua mochila não foi um acidente.”
“Minha mãe…” Elena engoliu em seco, olhando para a crina do seu cavalo. “Meu pai dizia que ela tinha um dom. Que quando ela estava por perto, os curandeiros se curavam mais rápido e os guerreiros não se cansavam. Mas ela morreu quando eu era muito jovem. Nunca me explicaram o que era.”
“A ressonância é um mito antigo em nossa cultura”, explicou Mateo em tom acadêmico. “Diz-se que, na época dos primeiros reis, existiam lobos que atuavam como amplificadores vivos. Eles não tinham grande poder ofensivo por si só, mas podiam absorver a energia de um Alfa e multiplicá-la por dez. Eram venerados… e temidos.”
—E então eles desapareceram.
“Ou foram caçados.” A expressão de Mateo escureceu. “O poder absoluto aterroriza os medíocres. Se o Coletivo de Ferro quiser derrubar as famílias Alfa tradicionais, ter um exército de Ressonantes sob seu controle os tornaria invencíveis. Eles poderiam pegar um soldado comum e transformá-lo em um deus da guerra.”
Elena sentiu um arrepio que nada tinha a ver com o vento da montanha.
“Sou uma bateria”, murmurou ela amargamente. “É só isso que sou para eles. Uma fonte de energia.”
“Para mim não”, disse Mateo com firmeza. Ele estendeu a mão por cima do espaço entre seus cavalos e agarrou o braço dela. “Para mim, você é a mulher que sobreviveu ao inferno e saiu ilesa. Você é minha companheira. E qualquer um que quiser usá-la terá que passar por cima do meu cadáver.”
A intensidade da promessa dele a deixou sem fôlego. Elena assentiu, incapaz de falar, e eles continuaram cavalgando para o sul, em direção à fortaleza e a uma traição que doeria mais do que qualquer ferimento de espada.
PARTE 5: SOMBRAS NO QUARTEL E O ROSTO DO TRAIDOR
A guarnição de Potes surgiu ao anoitecer do segundo dia, uma imponente estrutura de granito e ferro estrategicamente posicionada na base do vale. Muralhas de seis metros de altura, torres de vigia guarnecidas por arqueiros e bandeiras azuis e prateadas tremulando com o emblema do lobo coroado da Casa de Valdecaballeros.
Ao se aproximarem, a reação foi imediata. Os guardas no portão reconheceram Mateo, apesar de suas roupas de viagem desgastadas. Gritos de “O Rei! Abra os portões!” ecoaram, e Elena sentiu o peso de centenas de olhares sobre eles ao entrarem no pátio de desfiles. Soldados endurecidos pararam abruptamente, batendo os punhos contra o peito em saudação, murmurando “Vossa Majestade” com reverência.
Elena manteve a cabeça erguida, embora por dentro desejasse se encolher. Sentia-se exposta, uma intrusa naquele mundo de hierarquia e aço. Mateo, porém, transformou-se. Sua postura tornou-se mais régia, seu rosto uma máscara de calma autoridade. Ele não era mais o companheiro de viagem; era o Rei retornando à sua fortaleza.
Um homem saiu apressadamente do prédio principal. Alto, com um corte de cabelo militar e uma cicatriz na sobrancelha, ele exalava competência e lealdade.
“Senhor”, disse o homem, cumprimentando-o. “Não esperávamos seu retorno tão cedo.”
“Capitão Vargas.” Mateo desmontou e apertou o antebraço do homem de forma familiar. “Preciso falar com o senhor em particular. Imediatamente.”
O olhar de Vargas se voltou para Elena, avaliando-a com a perspicácia de um falcão.
—E a senhora?
—Ela vem comigo. Tudo o que você tiver para me dizer, poderá dizer na frente dela.
As sobrancelhas de Vargas se ergueram, uma demonstração monumental de surpresa para um homem tão estoico, mas ele assentiu com a cabeça.
-Aqui.
Eles foram conduzidos a uma sala de estratégia, um cômodo dominado por uma enorme mesa coberta de mapas detalhados dos Territórios do Norte. O ar estava impregnado com o cheiro de cera, pergaminho e tensão. Matthew fechou a porta firmemente atrás deles.
“Onde está Darío?” perguntou Mateo sem rodeios.
—Patrulha Oriental, senhor. Ela saiu há três dias. Disse ter recebido relatos de atividade de invasores perto da fronteira com a Cantábria.
Mateo ficou tenso, seus ombros endurecendo como pedra.
“Por que pergunta, senhor?” Vargas olhou alternadamente para o seu rei e para a mulher desconhecida.
—Porque eu não acho que ele esteja investigando os invasores. Acho que ele está liderando-os.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Vargas permaneceu imóvel, o rosto empalidecendo ligeiramente sob o bronzeado.
—Essa é uma acusação muito séria, meu senhor. Darío é seu segundo em comando. Ele é como um irmão para o senhor. Vocês sangraram juntos.
“Eu sei”, disse Mateo, com a voz embargada, revelando a dor profunda por trás da raiva. “É por isso que preciso de provas.”
Ele fez um gesto em direção a Elena.
—Esta é Elena, da Alcateia Clearwater. Ela é a única sobrevivente do massacre de três semanas atrás. Ela viu o rosto do homem que liderou o ataque.
Elena, com as mãos trêmulas, tirou o desenho que fizera na estalagem. O papel estava amassado da viagem, mas os traços de carvão ainda eram nítidos e incriminadores. Ela o colocou sobre a mesa, alisando-o com a palma da mão.
Vargas inclinou-se para a frente, estudando o desenho. Elena observou sua expressão mudar da dúvida para uma compreensão horrorizada.
“Ele se parece com ele”, admitiu Vargas lentamente, como se as palavras o machucassem fisicamente. “O queixo, os olhos… Mas poderia ser alguém com características semelhantes.”
“Eu também pensava assim, até começar a juntar as peças”, disse Mateo, caminhando em direção ao grande mapa na parede. Ele pegou um marcador vermelho. “Veja o padrão. Todas as matilhas que foram atacadas. Clearwater, Oakwood, Snowpeak.”
Ele marcou os locais com cruzes violentas.
—Todos eles estão em territórios que Darío era responsável por patrulhar. Ele conhecia suas defesas, seus horários, suas fraquezas. Ele sabia exatamente quando atacar para evitar resistência.
“E ele saberia quando iríamos investigar”, acrescentou Vargas, seguindo a lógica macabra. “Ele poderia apagar seus rastros antes de chegarmos.”
“Exatamente.” O dedo de Mateo traçou uma linha no mapa. “E cada ataque ocorreu dentro de uma semana após Darío ‘visitar’ aquela área para inspeções de rotina. É muito consistente para ser coincidência.”
Elena observava os dois homens trabalhando, analisando a traição do amigo. Ela conseguia sentir a dor de Mateo através do vínculo entre eles: uma ferida aberta e sangrenta. Darío não era apenas um soldado para ele; tinha sido seu confidente, seu apoio desde a morte dos pais de Mateo. A traição tinha um gosto amargo e pessoal.
—“O Coletivo de Ferro” — disse Elena de repente.
Os dois homens se viraram para ela.
“Antes de atacarem meu bando, corriam rumores na aldeia. Sussurros sobre um grupo que queria derrubar as famílias Alfa. Pensávamos que fossem apenas histórias de bêbados contadas na taverna. Mas o homem que eu vi… ele falava com frieza, com uma ideologia. Eles não eram bandidos comuns em busca de ouro. Estavam procurando algo específico.”
“Eles estavam procurando por você”, disse Mateo, completando a frase. “Eles estavam procurando por Resonantes.”
“Se o Coletivo for real e Darío for seu executor”, disse Vargas gravemente, “então temos um problema muito maior do que apenas alguns intrusos. Significa que eles têm acesso a informações confidenciais, rotas de suprimentos, códigos reais.”
“Isso significa que temos uma guerra civil se formando bem debaixo dos nossos narizes, e eu não percebi”, disse Mateo amargamente. Ele bateu com o punho na mesa. “Precisamos encontrar Darío. Agora. Antes que ele ataque outra alcateia.”
“A patrulha do leste…” Vargas apontou para um ponto no mapa. “Se eles partiram há três dias, provavelmente estão indo em direção a Pinoalto. É uma vila pequena e isolada.”
“Pinoalto tem uma grande população de famílias antigas”, murmurou Mateo. “Se você procura linhagens com potencial de Ressonância…”
—Então Pinoalto é o próximo alvo.
“Prepare os homens, Vargas.” A voz de Mateo mudou, tornando-se pura firmeza. O Rei havia assumido o comando. “Quero um esquadrão de elite. Os mais rápidos, os mais leais. Partiremos em uma hora.”
“E a jovem?” perguntou Vargas.
—Ela fica aqui, onde está segura.
—Não —disse Elena.
Mateo se virou para ela, com os olhos brilhando em tom de advertência.
—Elena, não vou discutir sobre isso. Darío é perigoso. Se ele souber quem você é, se ele souber do que você é capaz…
“Sou a única que pode identificá-lo com absoluta certeza”, retrucou ela, cruzando os braços. “Se isso for a julgamento, vocês precisarão de uma testemunha ocular. Caso contrário, será a palavra de vocês contra a de um herói de guerra. Vai parecer uma perseguição política.”
Vargas olhou para Elena com um respeito recém-descoberto.
“O senhor tem razão. Sem o seu testemunho, acusar Dario poderia provocar uma rebelião entre suas tropas leais.”
Mateo cerrou os dentes, alternando o olhar entre seu capitão e sua companheira. Ele detestava colocá-la em perigo; cada fibra de seu instinto Alfa gritava para trancá-la na torre mais alta até que o mundo estivesse seguro. Mas ele também sabia que ela estava certa. E, mais importante, ele havia prometido tratá-la como igual.
“Tudo bem”, rosnou ele. “Mas fique atrás de mim. Se eu disser para correr, você corre. Se eu disser para se esconder, você se esconde. Entendeu?”
—Entendido, Vossa Majestade—, disse ela com um toque de sarcasmo que, surpreendentemente, aliviou um pouco a tensão em seus ombros.
Eles saíram da guarnição sob a proteção da noite, um grupo de doze cavaleiros galopando para o leste, em direção ao fogo e ao sangue. O destino dos Territórios do Norte cavalgava com eles, e no centro de tudo, uma mulher que estava apenas começando a compreender o poder que jazia adormecido em suas veias.
PARTE 6: FOGO, SANGUE E O DESPERTAR DA RESSONÂNCIA
A viagem até Pinoalto foi uma corrida brutal contra o tempo. Os cavalos espumavam pela boca, galopando por trilhas na floresta iluminadas apenas pela lua minguante. O frio da noite penetrava em seus ossos, mas a adrenalina mantinha Elena alerta, seus sentidos aguçados ao máximo.
No segundo dia, eles viram a fumaça.
Não era a névoa suave de uma lareira. Era uma coluna espessa, oleosa e negra que tingia o céu da aurora. O cheiro chegou logo depois: madeira queimada, palha e aquele odor adocicado e inconfundível de carne queimada que Elena conhecia tão bem.
“Mais rápido!” gritou Mateo, esporeando seu cavalo preto.
Eles chegaram ao cume com vista para o vale, e o horror se desdobrou diante deles. Pinoalto estava em chamas. As casas de madeira eram tochas gigantescas. Corpos jaziam nas ruas de terra. E no centro da praça, um grupo de homens armados com armaduras de couro escuro conduzia os sobreviventes em direção a grandes carroças, como se fossem gado.
—Intrusos— Elena sibilou.
“Vargas, assuma o flanco esquerdo. Corte a rota de fuga deles para a floresta”, ordenou Mateo, desembainhando a espada. O aço reluziu à luz da fogueira. “O resto de vocês, comigo. Para o Norte!”
Eles desceram a colina como uma avalanche. O estrondo de seus cascos alertou os invasores, mas era tarde demais. Matthew golpeou sua linha como um martelo de guerra.
Elena permaneceu perto dele, faca em punho, embora soubesse que era pouco mais que um adorno em uma batalha de tamanha magnitude. Ela observou Mateo lutar e compreendeu por que ele era o Rei. Não era apenas força bruta; era uma dança da morte. Ele se movia com uma economia aterradora, desviando golpes, contra-atacando com precisão cirúrgica.
Um agressor correu em direção a Matthew pelas costas.
“Mateo!” gritou Elena.
O instinto falou mais alto. Ela não pensou, apenas agiu .
Ele sentiu aquela estranha válvula em seu peito se abrir de repente. Seu poder, invisível e selvagem, disparou em direção a Mateo, buscando sua aura Alfa.
O efeito foi instantâneo e devastador. Matthew rugiu, um som que parecia desumano, e sua espada atingiu o escudo do atacante. O escudo de madeira e ferro não apenas se estilhaçou; explodiu . O intruso foi arremessado cinco metros para trás como se tivesse sido atingido por um gigante.
Mateo se virou, seus olhos brilhando com um dourado intenso e sobrenatural. Ele olhou para Elena por uma fração de segundo, espanto e compreensão cruzando seu rosto ensanguentado.
“Continue fazendo isso”, ele ofegou. “Não pare.”
A batalha mudou de rumo. Com Elena amplificando sua presença, Mateo tornou-se imparável. Sua “Voz Alfa”, normalmente uma ferramenta para impor ordem, transformou-se em uma arma física. Quando ele gritou “Recuem!”, os invasores caíram de joelhos, seus lobos interiores choramingando em submissão forçada. A resistência desmoronou.
Mas então, uma explosão sacudiu o chão.
“O celeiro!” gritou Vargas. “Eles incendiaram o celeiro, tem gente lá dentro!”
Elena olhou para o grande edifício no extremo oposto da praça. As chamas lambiam o telhado, e ela podia ouvir os gritos agudos das crianças presas lá dentro. Os saqueadores, em sua covarde retirada, decidiram queimar o que não conseguiram levar.
“Mateo!” Elena apontou para o celeiro.
Ele já estava se movendo. Elena correu atrás dele, ignorando o calor que queimava sua pele. Chegaram às portas duplas, que estavam bloqueadas do lado de fora com uma barra de ferro. Mateo a arrancou com tanta força que dobrou o metal como se fosse lata.
Eles entraram no inferno.
A fumaça era densa e cegante. Elena tossiu, curvando-se para a frente.
“Aqui!” gritou ele, encontrando um grupo de mulheres e crianças encolhidas num canto, protegidas por sacos de grãos que começavam a pegar fogo.
“Tirem-nos daqui!” ordenou Mateo, erguendo duas crianças nos braços.
Elena ajudou uma senhora idosa a se levantar, conduzindo-as em direção à saída. Vargas e seus homens apareceram, formando uma corrente humana para guiar os civis para fora.
O teto gemeu, um som terrível de madeira tensionada ao limite.
“Vai desabar!” avisou Vargas da porta. “Senhor, saia agora!”
Elena estava perto da porta, mas viu movimento à distância. Um menino pequeno, paralisado de medo, estava escondido atrás de um arado velho.
“Só sobrou um!” ela gritou, virando-se.
—Elena, não!
Ela correu até a criança, agarrou-a e se virou para fugir. Mas então, a viga principal do telhado estalou com um estrondo ensurdecedor.
Tudo aconteceu em câmera lenta. A viga, uma tonelada de carvalho em chamas, estava caindo diretamente sobre eles. Não havia tempo para se esquivar.
Mateo se lançou.
Não para afastá-los, mas para conquistá-la .
Ele se posicionou sob a viga que caía, grunhindo, e a segurou com os ombros e braços erguidos. O impacto deveria tê-lo esmagado instantaneamente. Seus joelhos cederam, suas botas escorregaram no chão coberto de cinzas, mas ele resistiu.
“Corram!” ele rugiu, o rosto contorcido por um esforço supremo, as veias do pescoço saltando. “Tirem a criança daqui!”
O fogo lambia suas mangas. A madeira rangia, afundando centímetro por centímetro. Mateo sustentava o peso de um prédio em chamas apenas com sua força física e pura força de vontade.
Elena empurrou a criança na direção de Vargas, que estava na porta.
—Tire isso daqui!
“Elena, vamos!” gritou Vargas.
—Não vou deixar!
Ela se virou para Mateo. Ele estava falhando. Ela podia ver em seus olhos. Seus braços tremiam violentamente. Ele ia morrer. Ele seria esmagado e queimado para salvá-la.
Não. De novo não. Não vou perder mais ninguém.
O terror no peito de Elena se transformou em algo mais intenso que o fogo que os cercava. Não era medo. Era rejeição. Um “NÃO” absoluto, cósmico.
Ela não sabia como fazer. Não tinha treinamento. Ela apenas sentia necessidade.
Ela correu em direção a Mateo e colocou as duas mãos em seu peito, bem sobre o coração que batia como um tambor de guerra.
“AGORA!” ela gritou, não para ele, mas para o poder dentro dela.
Abriu-se completamente. Não um fio d’água, mas uma represa rompida. Derramou tudo o que era, toda a sua dor, toda a sua esperança, todo o seu amor nascente, diretamente no coração de Matthew.
A reação foi nuclear.
Uma onda de choque de energia dourada irrompeu deles. Não era apenas força física; era pura dominância Alfa materializada. A viga de carvalho não foi apenas erguida; foi desintegrada , arremessada para cima e para fora como uma lasca em um furacão. Todo o telhado do celeiro explodiu no céu noturno, as chamas repelidas por uma bolha de força invisível.
Mateo caiu de joelhos, ofegante, e Elena desabou contra ele, enquanto o mundo deles escurecia nas bordas.
Por um instante, houve silêncio. Apenas o crepitar de chamas distantes e sua respiração irregular.
Então, uma risada lenta e sarcástica quebrou o silêncio.
—Bravo. Simplesmente bravo.
Elena ergueu a cabeça, tonta. Da fumaça e das sombras da praça, uma figura aproximou-se calmamente, ladeada por seis saqueadores de elite que haviam sobrevivido ao ataque inicial.
Ele vestia uma armadura imaculada e uma capa com o mesmo emblema de Mateo, mas manchada de fuligem. Seu rosto era atraente, com aquela familiaridade cruel que Elena havia desenhado tantas vezes.
Era Darío.
“Eu sabia que você era especial, garota”, disse Dario, parando a uma distância segura, com a mão no punho da espada. “Mas isso… isso foi magnífico. O Coletivo ficará muito satisfeito quando eu a entregar.”
Mateo se levantou, cambaleando. Estava queimado, exausto e mal conseguia segurar a espada, mas imediatamente se colocou entre Elena e Darius.
“Você vai ter que me matar primeiro, irmão”, rosnou Mateo, a palavra “irmão” soando como uma maldição.
“Ah, Mateo,” sorriu Darío, desembainhando a arma com um floreio. “Esse é exatamente o plano.”
PARTE 7: A DANÇA DOS LOBOS QUEBRADOS
A Praça Pinoalto, iluminada pelo brilho infernal dos prédios em chamas, transformou-se em um cenário de pesadelo. O ar estava denso de cinzas e da tensão elétrica que precede uma tempestade, mas desta vez, a tempestade eram dois homens que outrora se chamavam de irmãos.
Dario deu um passo à frente, sua espada descrevendo um arco preguiçoso no ar cheio de fumaça.
“Olha só para você, Mateo”, zombou ele, com um sorriso que não alcançou seus olhos frios. “Você mal consegue ficar de pé. Gastou toda a sua energia bancando o herói, salvando alguns camponeses enquanto o reino desmorona. Essa sempre foi a sua fraqueza. O sentimentalismo.”
Matthew cuspiu sangue na neve enegrecida. Endireitou-se, ignorando o tremor nos braços queimados e a dor lancinante que irradiava do peito, onde havia segurado a viga.
“Minha fraqueza foi ter confiado em você”, respondeu Mateo, com a voz baixa e perigosa como o rosnado de um animal ferido. “Eu te protegi em mil batalhas, Darío. Você comeu à minha mesa. Minha mãe te tratou como um filho.”
A menção da mãe de Mateo fez o sorriso de Darío vacilar por um segundo, sendo substituído por uma careta de pura raiva.
“Sua mãe era cega, assim como você. Ela se apegava a tradições mortas. O Coletivo oferece evolução. Oferece um mundo onde o poder não é herdado por sangue, mas conquistado pela força.” Darío apontou para Elena com a ponta da espada. “E ela é a chave. A Ressonante. Com ela, não só governaremos o Norte; conquistaremos tudo até o Mediterrâneo.”
“Ela não é uma chave”, rosnou Mateo, dando um passo à frente e se colocando com mais firmeza entre o traidor e Elena. “E ela não é algo que você possa possuir.”
“Veremos. Matem o Rei!” ordenou Dario. “Mas eu quero a garota viva!”
Os seis atacantes de elite lançaram seu ataque. Eram profissionais, movendo-se em perfeita sincronia, procurando os pontos cegos de Matthew.
“Elena, se afasta!” gritou Mateo.
O choque do aço contra o aço ecoou como sinos fúnebres. Mateo aparou o primeiro golpe, um corte descendente direcionado ao seu pescoço, e respondeu com uma estocada rápida que perfurou o ombro do atacante. Mas eram muitos, e ele estava exausto.
Elena, ainda tonta pelo esforço no celeiro, estendeu a mão para pegar sua faca. Suas mãos tremiam. Ela tentou alcançar aquela fonte de poder dentro de si, aquela válvula que havia aberto antes, mas estava seca. Ela sentia apenas um vazio doloroso e um zumbido estático nos ouvidos.
“Não consigo!” ela gritou, desesperada. “Mateo, não me resta nada!”
“Você não precisa fazer nada!” ele ofegou, bloqueando duas espadas ao mesmo tempo. “Apenas sobreviva!”
Mas Darío não entrou na briga imediatamente. Ele observou, como um maestro sádico, procurando uma brecha. E a encontrou.
Enquanto Mateo eliminava um segundo intruso com um golpe brutal de escudo, deixando seu flanco direito exposto por uma fração de segundo, Darío se moveu. Ele era rápido, letalmente rápido. Não atacou Mateo. Investiu contra Elena.
“Não!” O grito de Mateo rasgou sua garganta.
Ele ignorou a espada que vinha em sua direção pela esquerda, girando o corpo para interceptar Darius. A lâmina do agressor roçou suas costelas, cortando couro e pele, mas Matthew nem sequer hesitou. Ele se lançou na frente de Elena no exato momento em que a espada de Darius descia.
Clang.
O impacto fez Mateo cambalear e cair de joelhos. Ele havia bloqueado o golpe, mas a força bruta de Darío, descansado e revigorado, era avassaladora diante do cansaço de Mateo. As espadas se chocaram, rangendo, os rostos dos dois homens a centímetros de distância.
“Você é lento, irmão”, sussurrou Darío.
—E você está morto — respondeu Mateo.
Com um rugido, Mateo lançou-se para cima, desequilibrando Darío. Levantou-se e desferiu uma série de ataques furiosos. Direita, esquerda, finta, estocada. Era uma dança que haviam praticado mil vezes no pátio do castelo, só que agora as lâminas estavam afiadas e a intenção era matar.
Elena observava, com o coração na garganta. Viu o sangue manchando o lado de Mateo. Viu sua respiração ficar cada vez mais ofegante. Vargas e os outros lealistas estavam ocupados lutando contra o restante dos saqueadores ao redor do perímetro da praça; eles não chegariam a tempo.
Eu precisava fazer alguma coisa.
Ele olhou em volta, procurando uma arma, uma vantagem, qualquer coisa. Seus olhos pousaram nos restos do celeiro. O fogo ainda rugia, alimentando-se da madeira seca.
A ressonância amplifica a energia de Alpha , Matthew havia dito. Mas e se Alpha fosse muito fraco para projetar energia?
Elena fechou os olhos e concentrou-se não no poder, mas no vínculo . Naquele fio de ouro que a ligava a Mateo. Ela podia sentir a dor dele, o cansaço, o medo desesperado, não pela própria vida, mas pela dela.
Aceite , pensou ela, enviando não poder, mas vontade. Aceite minha força, Matthew. Tudo o que me resta.
Não foi uma explosão como antes. Foi uma transfusão sutil. Elena sentiu os joelhos fraquejarem enquanto sua própria força vital fluía através da ligação.
Mateo, pressionado pelo ataque implacável de Darío, de repente deu um suspiro. Seus olhos cinzentos brilharam com uma luz renovada. Não era o poder dourado e ofuscante de antes; era algo mais sombrio, mais primitivo. A vontade de sobreviver.
Darío avançou, mirando no coração de Mateo. Mateo não se defendeu. Em vez disso, desembainhou a espada com uma das mãos, agarrou o pulso de Darío no ar e o puxou para a frente, encurtando a distância.
“Eu te ensinei tudo o que você sabe, Darío”, rosnou Mateo no ouvido do traidor. “Mas eu não te ensinei tudo o que eu sei.”
Com um movimento fluido, Mateo desferiu uma cabeçada brutal no nariz de Darío. O estalo do osso foi audível mesmo acima do rugido do fogo. Darío gritou e cambaleou para trás, deixando cair sua espada.
Mateo não lhe deu trégua. Passou por cima das pernas de Darío, fazendo-o cair de costas, e num instante, a ponta da espada de Mateo estava pressionada contra a garganta do traidor.
Um silêncio profundo tomou conta da praça. Os poucos saqueadores restantes, vendo seu líder derrotado, jogaram suas armas no chão ou fugiram para a escuridão da floresta, perseguidos pelos homens de Vargas.
Mateo estava de pé sobre Darío, com o peito arfando, sangue escorrendo do nariz e do ferimento na lateral do corpo. Sua expressão era uma máscara de dor, não física, mas da alma.
“Faça isso”, cuspiu Darío, com o rosto ensanguentado e os olhos cheios de ódio. “Me mate. Acabe com isso. Faça de mim um mártir do Coletivo.”
A mão de Mateo tremia. Seus nós dos dedos estavam brancos no cabo de couro. Elena sabia que ele queria fazer aquilo. Ela podia sentir a fúria assassina percorrendo o vínculo entre eles, o desejo de apagar aquele homem que havia traído tudo o que amavam.
“Não”, disse Mateo finalmente, com a voz rouca. Recuou alguns centímetros da espada, mas a manteve pronta. “A morte é fácil demais para você, Darío. Você vai viver. Você vem conosco. E vai me contar todos os nomes, todos os esconderijos e todos os segredos sujos dos seus novos mestres.”
“Não vou te contar nada”, riu Darío, embora parecesse nervoso.
“Você vai”, disse Mateo, olhando para Elena, que se aproximou mancando. Seus olhares se encontraram e, naquele silêncio, uma promessa foi feita. “Porque se você não me contar, vai contar para ela. E ela tem muitos motivos para estar brava.”
Vargas chegou correndo, acompanhado por dois soldados.
“Acorrentem-no!” ordenou Mateo. “Com correntes de ferro pesadas. Uma mordaça. Se ele tentar falar ou usar qualquer truque, cortem-lhe a língua. Quero-o vivo, mas não preciso que esteja inteiro.”
Enquanto os soldados arrastavam Dario, que se debatia, Matthew se virou para Helena. A adrenalina que o mantivera de pé evaporou-se instantaneamente. Sua espada caiu de seus dedos dormentes e seus joelhos cederam.
—Mateus!
Elena correu e o amparou antes que ele atingisse o chão, caindo com ele na neve manchada de cinzas.
“Eu te protejo”, sussurrou ela, pressionando as mãos contra o ferimento na lateral dele. O sangue jorrou quente e rápido entre seus dedos. “Vargas! Precisamos de um curandeiro!”
Mateo piscou, lutando para manter os olhos abertos. Ele ergueu uma mão trêmula para tocar a bochecha de Elena, manchando sua pele de vermelho.
“Você não fugiu”, sussurrou ele, com uma mistura de espanto e reprovação. “Eu mandei você correr.”
“E eu te disse que éramos parceiros”, disse ela, com lágrimas traçando caminhos limpos pela fuligem em seu rosto. “Parceiros não se abandonam. Agora cale a boca e não morra, ou eu juro que eu mesma te mato.”
Um leve sorriso curvou os lábios de Mateo antes que seus olhos se fechassem e a escuridão o envolvesse.
PARTE 8: O CAMINHO DA VERDADE
A viagem de volta não foi a corrida frenética da ida, mas uma marcha lenta e dolorosa. Eles improvisaram uma liteira puxada por cavalos para Mateo, que oscilava entre a consciência e a inconsciência devido à perda de sangue e ao esgotamento de sua reserva Alfa.
Elena não saiu do lado dele. Ela foi no banco de trás do carro, enxugando sua testa febril com panos de neve derretida, sussurrando palavras que ela não tinha certeza se ele conseguia ouvir.
“Você tem que suportar isso, entendeu?” ela murmurou enquanto a carroça sacudia pelos caminhos pedregosos. “Você não pode me deixar sozinha com tudo isso. Você não pode me fazer rainha e depois morrer. Isso seria muita falta de educação.”
Vargas seguia ao lado da carroça, com uma expressão sombria. Ele havia interrogado Darío durante as paradas, mas o traidor permaneceu obstinadamente em silêncio, sorrindo com uma arrogância que sugeria que ele sabia algo que eles desconheciam.
No terceiro dia, Mateo acordou completamente. Elena estava cochilando, sentada encostada na lateral do carro, com a mão dele na dela. Ela sentiu os dedos dele apertarem levemente e acordou sobressaltada.
“Ei”, ele sussurrou. Sua voz parecia ter engolido vidro.
“Ei,” Elena sorriu, um alívio tão forte que quase doía. “Bem-vinda de volta ao mundo dos vivos. Você nos deixou preocupados.”
Mateo tentou se levantar, mas fez uma careta de dor e caiu novamente.
—Dario… você é…?
“Ele está acorrentado na parte de trás do carro, cercado por seis dos seus maiores seguranças. Ele não vai a lugar nenhum.”
Mateo soltou um longo suspiro trêmulo. Ele encarou o teto de lona do carro, seus olhos cinzentos nublados de dor e traição.
“Ele sabia que estávamos chegando”, disse Matthew. “Ele sabia exatamente quando atacaríamos. Alguém no Conselho está lhe fornecendo informações em tempo real.”
—Darío mencionou “seus mestres” —Elena lembrou—. Ele disse que o Coletivo tinha líderes acima dele.
“Lorde Aris”, disse Mateo de repente.
Elena franziu a testa.
-Quem?
—Aris da Casa Storm. Ele é o membro mais antigo do Conselho. Foi conselheiro do meu pai. Ele sempre… sempre se opôs às minhas reformas. Dizia que eu estava enfraquecendo o sangue ao permitir que os clãs se misturassem livremente, ao tentar fazer tratados de paz com os clãs do sul.
Mateo fechou os olhos, com a memória a mil.
—Aris possui uma propriedade nas montanhas do leste. Uma antiga fortaleza. Se eles estão reunindo Ressonantes… se estão construindo um exército… esse é o único lugar isolado e fortificado o suficiente para fazer isso sem que minhas patrulhas percebam.
“Então é para lá que vamos”, disse Elena com determinação.
“Não.” Mateo abriu os olhos e olhou para ela atentamente. “Eu vou para lá. Você volta para a capital, onde estará segura.”
“Pensei que já tivéssemos superado essa conversa”, suspirou Elena, umedecendo um pano para limpar o sangue seco do pescoço. “Não vou a lugar nenhum, Mateo. Sou a única Ressonante que você tem. Se Aris tiver outros Ressonantes sob seu controle, você precisará de algo para neutralizá-los.”
“Você está exausta, Elena. O que você fez no celeiro… o que você fez na praça da cidade… quase te matou. Se você se esforçar mais, pode acabar com seu dom para sempre. Ou pior, se esgotar completamente.”
“Então me ensine”, disse ela. “Me ensine a controlar isso. Você é o Rei Alfa. Você entende de controle, de canalizar poder. Em vez de tentar me proteger, me treine.”
Mateo a observou por um longo momento. Viu a teimosia em seu queixo, o fogo em seus olhos escuros. Viu a rainha que ela se recusava a admitir que era.
“Certo”, disse ele finalmente. “Vamos começar agora.”
Nos dois dias seguintes, enquanto o comboio se deslocava lentamente para leste, evitando as estradas principais para não alertar os espiões de Aris, a carroça foi transformada em sala de aula.
Mateo, ainda muito fraco para se mover muito, ensinou a Elena os princípios básicos da maestria. Não era mágica; era força de vontade. Era a capacidade de visualizar o poder não como uma explosão, mas como um rio.
“Não force”, corrigiu-a ele quando ela tentou intensificar a pequena chama de uma vela que ele segurava. “Você está tentando forçar. A ressonância não força; ela convida. Você precisa abrir um espaço dentro de si para que meu poder entre, se expanda e então saia. Você é um prisma, Elena, não um martelo.”
Foi frustrante. Exaustivo. Houve momentos em que Elena quis gritar e atirar a vela pela janela. Mas então, na tarde do quinto dia, tudo fez sentido.
Ela sentiu o pulso de poder de Mateo, enfraquecido por seus ferimentos, e em vez de agarrá-lo e jogá-lo para longe, simplesmente o acolheu. Ela o embalou em sua mente, deixando-o vibrar em sua própria frequência, e então o soltou gentilmente.
A chama da vela não explodiu. Simplesmente cresceu, tornando-se alta, constante e de um azul puro e quente, sem consumir a cera mais rapidamente. Era uma força constante e sustentada.
Mateo olhou para ela através da chama azul, com os olhos cheios de orgulho.
—Você tem isso.
“É uma sensação… diferente”, admitiu ela, olhando para as próprias mãos. “Menos como se eu estivesse sendo dilacerada por dentro.”
“Isso é controle, minha rainha.” Mateo sorriu, e desta vez a palavra “rainha” não soou como uma ameaça, mas como uma promessa.
Naquela noite, acamparam perto da fronteira das terras de Lorde Aris. Vargas trouxe notícias preocupantes.
“Os exploradores retornaram”, relatou Vargas, agachando-se junto à fogueira onde Mateo, agora capaz de se sentar, e Elena compartilhavam um jantar frugal. “A fortaleza de Aris está selada. Mas há movimento. Carruagens entrando e saindo sob a proteção da escuridão. E algo mais…”
“O quê?” perguntou Mateo.
—Os batedores dizem que sentem… uma pressão. No ar. Como se uma tempestade estivesse prestes a começar, mas o céu está limpo. Meus homens dizem que seus lobos estão inquietos, uivando, querendo fugir.
Mateo e Elena trocaram um olhar sombrio.
“Ressonância”, disse Elena. “Eles mantiveram os outros acordados. E estão usando-os para criar um campo de medo.”
“Eles estão fortificando o perímetro psiquicamente”, concordou Mateo. “Se nos aproximarmos, nossos soldados ficarão apavorados antes mesmo de desembainharem a espada.”
“Quantos homens temos?”, perguntou Matthew.
—Quarenta lealistas. Contra uma guarnição fortificada e… seja lá o que eles tenham lá dentro.
“Não podemos vencer um ataque frontal”, disse Mateo, olhando para o mapa. “Eles vão nos massacrar.”
“Não precisamos de um ataque frontal”, disse Elena, traçando uma linha no mapa com o dedo. “Precisamos de uma distração. E precisamos de alguém que consiga entrar e romper essa barreira do medo por dentro.”
“O que você está sugerindo?” Mateo olhou para ela com desconfiança.
“Dario”, disse ela. “Ele é o seu comandante de campo. Se você acha que ele retornou… se você acha que ele capturou a Ressonante…”
“De jeito nenhum”, Matthew balançou a cabeça. “É uma armadilha suicida. Vocês querem que a gente entre fingindo ser prisioneiros de Darius.”
“É a única maneira de passar pelos portões sem sermos detectados”, insistiu ela. “Usamos Darío como escudo. Vargas e os outros atacam a porta dos fundos para criar o caos. Enquanto eles estão vigiando lá fora, nós estamos lá dentro, procurando pelos outros Ressonantes.”
“E o que te faz pensar que Darío vai cooperar?”, perguntou Vargas, com ceticismo.
Elena olhou na direção do carro onde o traidor estava acorrentado.
—Porque Darío é um sobrevivente. E vamos fazer-lhe uma proposta que o seu ego não poderá recusar: a oportunidade de ver quem é realmente mais forte.
PARTE 9: NA BOCA DO LOBO
O plano era insano. Mateo sabia disso. Vargas sabia disso. Até os cavalos pareciam saber disso, batendo as patas nervosamente enquanto se aproximavam dos portões de ferro negro da fortaleza de Lorde Aris.
Darío cavalgava à frente, aparentemente livre, embora suas mãos estivessem sutilmente amarradas ao pomo da sela, e Mateo, disfarçado de um de seus guardas com uma capa de capuz baixo, tinha uma adaga pressionada contra o rim. Elena cavalgava outro cavalo, com as mãos amarradas atrás das costas (cordas frouxas que ela poderia desatar em um segundo) e a cabeça baixa, representando o papel da prisioneira derrotada.
“Se você der um passo em falso, se disser a palavra errada”, sussurrou Mateo atrás de Darío, “minha adaga vai encontrar seu fígado antes mesmo que você pisque. E acredite, será uma morte lenta e cruel.”
Darío riu baixinho, embora houvesse uma tensão em seus ombros que não existia antes.
—Não se preocupe, irmãozinho. Estou curioso para ver como essa tragédia termina.
Eles chegaram ao portão principal. Guardas ostentando o emblema do Coletivo (um punho de ferro fechando um lobo) observavam do alto das ameias.
“Abram as portas!” gritou Darío, com a voz carregada da arrogância que lhe era característica. “Eu trouxe o prêmio!”
“Comandante Darius”, respondeu um guarda. “Lorde Aris não esperava seu retorno tão cedo. E o Rei?”
“O Rei está morto”, mentiu Darío sem pestanejar. “Seu corpo está apodrecendo em Pinoalto. E aqui está a garota.”
Elena ergueu a cabeça o suficiente para que a luz da tocha iluminasse seu rosto. Os guardas murmuraram. A lenda do Ressonante já havia se espalhado.
As portas começaram a se abrir com um rangido de metal enferrujado. O “campo de medo” de que os exploradores falaram atingiu Elena no instante em que cruzaram a soleira. Era uma sensação física, uma náusea no estômago, um sussurro na nuca que dizia: corra, morra, renda-se .
Ele viu Mateo ficar tenso, com os nós dos dedos ficando brancos. Aquilo estava afetando seu lobo interior, desafiando sua dominância.
“Bloqueie isso”, sussurrou Elena, mal movendo os lábios. “Use-me.”
Ela abriu a mente, não para projetar, mas para filtrar . Criou uma bolha de calma ao redor deles, usando sua ressonância para cancelar a frequência do medo que emanava da fortaleza. Mateo expirou, relaxando imperceptivelmente.
Eles entraram no pátio interno. Estava repleto de soldados, mais de uma centena. E no centro, esperando por eles no topo de uma escadaria de pedra, estava Lorde Aris.
Era um velho de cabelos brancos e um manto de veludo que escondia uma armadura leve. Parecia um avô benevolente, não fosse pelos olhos penetrantes que percorriam o pátio.
“Darío”, disse Aris, com voz suave e refinada. “Você me traz presentes. Excelente. Aquele desgraçado do Valdecaballeros está mesmo morto?”
“Eu mesmo o vi cair”, disse Darío, desmontando da bicicleta.
Mateo e os outros quatro “guardas” (soldados de elite de Vargas disfarçados) também desmontaram, cercando Elena e Darío.
“Tragam-na aqui”, ordenou Aris. “Quero ver minha nova aquisição.”
Subiram as escadas. Cada degrau era de uma tensão agonizante. Elena contava as batidas do coração. Um, dois, três… Precisavam esperar o sinal. Vargas certamente atacaria a porta dos fundos a qualquer momento.
Quando chegaram em frente a Aris, o velho sorriu e estendeu uma mão ossuda para tocar o queixo de Elena.
—Tão jovem. Tão poderosa. Você será a mãe de uma nova era, minha querida. Cruzaremos você com os garanhões mais fortes, e sua descendência…
Elena sentiu uma repulsa tão violenta que quase rasgou seu disfarce.
“Meus filhos”, disse ela, erguendo o olhar e fixando seus olhos escuros nos dele, “vão arrancar sua garganta.”
O sorriso de Aris vacilou.
“Que temperamento! Precisamos domá-lo. Levem-na para a cela com os outros. E Darío, venha ao meu escritório, precisamos…”
BOOM!
Uma explosão sacudiu a parte de trás da fortaleza. O grito de “Ataquem! Estamos sendo atacados pela muralha norte!” ecoou das fortificações.
O caos se instaurou.
—Agora! — gritou Mateo.
Ele retirou o capuz, revelando seu rosto furioso. A adaga que empunhava contra Dario moveu-se, não para matá-lo, mas para romper seus laços reais e empurrá-lo escada abaixo em direção aos seus homens.
“O Rei!” gritou alguém. “Ele está vivo!”
Mateo desembainhou sua espada (que estava escondida sob sua capa) e atacou Aris. O velho, surpreendentemente ágil, recuou, protegido por quatro guardas pessoais.
“Matem-nos!” gritou Aris. “Todos eles!”
Elena se libertou das amarras. Ela não precisava mais se esconder. Sentiu o campo de medo se intensificar; Aris estava enviando comandos mentais aos Ressonantes cativos em algum lugar abaixo.
“Mateo, preciso encontrar os outros”, ela gritou por cima do clangor do aço.
“Vai!” Mateo decapitou um guarda que estava em seu caminho. “Eu cuido de Aris!”
Elena correu para a fortaleza, guiada pelo instinto. Ela podia sentir os outros Ressonantes. Eles eram como faróis de angústia na escuridão. Ela desceu corredores de pedra, eliminando um guarda surpreso com sua faca e uma explosão de poder telecinético amplificada por sua própria adrenalina.
Ele chegou a um portão de ferro maciço guardado por dois homens.
“Vocês não querem fazer isso”, disse Elena, caminhando em direção a eles. Sua voz tinha uma autoridade que lembrava a de Mateo. “Abram a porta.”
Os guardas hesitaram. Seus olhos estavam vidrados. Estavam sob a influência dos Ressonantes cativos, mas a presença de Elena era diferente. Ela estava lúcida. Livre.
“Abra”, ela repetiu, e empurrou com a mente.
Os guardas caíram de joelhos, largando as armas, subjugados pela ordem. Elena pegou as chaves de um deles e abriu a porta.
A sala era grande, circular e cheirava a ozônio e desespero. Havia doze pessoas lá dentro. Homens, mulheres e até um adolescente. Estavam acorrentados à parede, com estranhos capacetes de metal na cabeça que emitiam um zumbido suave. Seus olhos estavam vazios, perdidos em um transe induzido.
“Acorda!” gritou Elena, correndo em direção à mulher mais próxima e arrancando-lhe o capacete.
A mulher deu um suspiro, respirando fundo como se estivesse se afogando. Seus olhos se fixaram em Elena.
-Quem…?
“Sou Elena. E vim para te tirar daqui. Mas preciso da sua ajuda. Aris está te usando para projetar medo. Preciso que você mude a frequência.”
“É… é muito barulhento”, soluçou o adolescente do outro lado da parede. “A máquina…”
“Esqueça a máquina.” Elena estava no centro da sala. Fechou os olhos e procurou a conexão com Mateo. Ele estava lá em cima, lutando pela vida. Estava cansado, ferido, mas sua vontade era de ferro.
Ela pegou aquela vontade e a projetou para fora, preenchendo a sala.
Escutem-me, todos vocês. Vocês não são baterias. Vocês não são escravos. Vocês são Ressonantes. Sintam o Rei!
Um a um, os cativos ergueram a cabeça. Eles podiam sentir. A presença de um verdadeiro Alfa, não o controle distorcido de Aris e suas máquinas.
“Conecte-se comigo”, ordenou Elena. “Vamos fazer barulho.”
Lá em cima, no pátio, Mateo estava cercado. Aris havia fugido para uma varanda superior, enviando onda após onda de soldados para a frente. Vargas e seus homens haviam arrombado a porta dos fundos, mas estavam atolados no pátio inferior.
Mateo bloqueou um soco, revidou outro, mas eram muitos. Ele sentiu suas forças diminuírem.
—É o fim, Valdecaballeros —chamou o rio Aris lá de cima—. Um fim poético.
De repente, o chão tremeu.
Não foi um terremoto. Foi um tremor aéreo .
Um zumbido começou, grave e profundo, aumentando de tom até se tornar um cântico. O campo de medo que envolvia a fortaleza se estilhaçou como vidro atingido por um martelo. E em seu lugar, algo mais surgiu.
Esperança. Coragem. Poder puro e genuíno.
Doze colunas de luz azul irromperam das janelas do andar inferior. E no centro do pátio, Elena saiu correndo pela porta, ladeada pelos doze Ressonantes libertados. Pareciam anjos vingadores, seus olhos brilhando com luz própria.
—Agora! — gritou Elena.
Os doze Seres Ressonantes ergueram as mãos em direção a Matthew.
Não foi uma inundação; foi um oceano. A potência de doze amplificadores atingiu Matthew de uma só vez.
Eu deveria tê-lo matado. Deveria tê-lo reduzido a cinzas. Mas Elena estava lá, no centro da rede, agindo como o prisma, controlando o fluxo, garantindo que Mateo recebesse exatamente o que precisava e nem uma gota a mais.
Mateo se sentia… infinito.
Ele ergueu a espada em direção à sacada onde Aris estava.
“JÁ CHEGA!” ordenou ele.
A palavra atingiu a fortaleza como um soco. As armas de uma centena de soldados se estilhaçaram em suas mãos. As pedras das muralhas racharam. Aris caiu de joelhos, esmagado pela mera presença de Matthew.
Todos no pátio, amigos e inimigos, caíram ao chão, incapazes de resistir à manifestação absoluta do Rei Alfa.
Havia um silêncio absoluto.
Mateo baixou a espada lentamente. O brilho dourado em seus olhos se desvaneceu, dando lugar a um cinza metálico. Ele olhou para Elena, que estava entre os Ressonantes libertados, pálida, mas sorrindo.
“Acho que ganhamos”, disse ela, e então desmaiou.
Mateo a amparou antes que ela caísse no chão.
A limpeza da fortaleza levou três dias. Vargas e seus homens asseguraram os prisioneiros. Aris foi trancado nas mesmas celas onde havia mantido os Resonantes, uma justiça poética que ninguém se preocupou em esconder. Darío, surpreendentemente, não havia fugido durante a batalha. Foi encontrado sentado nos degraus, com o olhar vago, finalmente percebendo que sua ideologia de “força acima de tudo” havia sido derrotada por uma força muito maior: a unidade.
Mateo encontrou Elena na varanda do quarto principal, observando o nascer do sol sobre as montanhas a leste.
“Como vai você?”, perguntou ela sem se virar.
—Os Ressonantes estão bem. Assustados, mas livres. Ofereci-lhes um lugar na corte. Não como armas, mas como conselheiros. Como pessoas livres.
-Isso é bom.
Mateo ficou atrás dela, envolvendo-a em seus braços. Ele apoiou o queixo em seu ombro.
-E você, como está?
“Cansada”, admitiu ela. “E um pouco assustada com o que está por vir. Política, a corte… ser rainha.”
“Você não precisa ser rainha hoje”, sussurrou Mateo, beijando a curva do pescoço dela. “Nem amanhã. Podemos tirar um tempo. Reconstruir Pinoalto. Ir ver o mar. O que você quiser.”
Elena se virou em seus braços, olhando em seus olhos.
“Eu não quero mais fugir, Mateo. Eu fugi da minha matilha. Eu fugi do meu destino. Mas aqui… com você…” Ela colocou a mão sobre o coração. “É aqui que eu pertenço.”
—Então, você vai ficar?
—Eu ficarei. E ajudarei você a construir esse novo mundo de que você falou. Um mundo onde ninguém precise temer o próprio poder.
Mateo sorriu, aquele sorriso raro e genuíno que transformava seu rosto.
—Parece um bom plano, parceiro.
Eles se beijaram enquanto o sol terminava de nascer, banhando a fortaleza, a montanha e os dois amantes em uma luz dourada que prometia, enfim, um novo dia.
FIM