Ele me rejeitou por eu não ter uma loba e me espancou na frente do rei, sem saber que eu era a rainha destinada a ele.
PARTE 1: O BANQUETE DAS MÁSCARAS
O banquete do Alpha King deveria ser uma noite de poder, união e celebração no coração de Madri. Taças de cristal de La Granja repousavam sob candelabros que lembravam lágrimas de lua congeladas. Lá estava eu, Beatriz Torres, parada junto às imponentes janelas do salão, envolta em uma elegância singela que não conseguia disfarçar meu desconforto.
Poucos me reconheceram. Menos ainda se lembravam da garota que eu costumava ser.
Eu não pertencia àquele lugar. Ou pelo menos, era o que diziam os sussurros. Os lobos da alta sociedade espanhola que se dignavam a me olhar faziam-no com desdém, seus olhos percorrendo meu vestido prateado simples, meu pescoço sem adornos, minha expressão cuidadosamente neutra.
Eles não sabiam. Como poderiam saber?
Pressionei minha mão enluvada contra o pulso oposto, sentindo o calor sob a seda. O selo do vínculo pulsava ali, invisível para todos, exceto para mim e para ele. Sempre para ele.
Do outro lado da sala, sentado na cabeceira da mesa sob uma tapeçaria antiga que retratava os Picos da Europa, o Rei Alfa me observava. Montenegro Cáspio. Seus olhos escuros me encontraram mesmo em meio à multidão. Mesmo cercada pelos Alfas mais poderosos das cinco comunidades autônomas, mesmo enquanto a bela filha do Alfa do Norte ria alto demais de algo que ele não havia dito, nossos olhares se cruzaram.
Parei de respirar.
Três meses. Três meses se passaram desde a cerimônia de união no templo escondido nos Pirineus. Três meses desde que ele se ajoelhou diante de mim e sussurrou palavras que mudaram tudo: “Você sempre foi destinada a ser minha. Contaremos a ela quando for a hora certa. Quando você estiver pronta . ”

Mas eu não estava pronto. Talvez nunca esteja.
Porque os lobos, agora bebendo vinho Rioja e dançando para celebrar o primeiro tratado de paz em um século, se lembravam de mim. Não como a companheira de Caspian, não como sua Rainha. Eles se lembravam de mim como a garota sem lobo, a rejeitada, aquela que não era boa o suficiente para um Beta de baixa patente.
Aquela que Darío Cuervo jogou no lixo como se não valesse nada.
“Mais cava, senhorita?” Um garçom apareceu ao meu lado com uma bandeja de prata.
“Não, obrigada”, murmurei, embora minha garganta parecesse áspera como lixa.
O garçom se afastou, e foi nesse momento que a atmosfera no salão mudou. Tudo começou com uma mudança nas conversas. Uma onda de reconhecimento percorreu os grupos de lobos perto da entrada. Cabeças se viraram. Sussurros irromperam como um incêndio florestal de verão.
Meu estômago revirou. Eu reconheci aquele cheiro antes mesmo de vê-lo. Cedro e arrogância.
Darío Cuervo entrou no salão principal como se fosse o dono do lugar. Seus ombros largos eram emoldurados por um terno de grife que provavelmente custava mais do que eu ganhava em um ano trabalhando em turnos duplos na cafeteria da cidade. Seu cabelo loiro-escuro estava impecavelmente penteado. Seu sorriso era do tipo que inspirava confiança e fazia as pessoas quererem agradá-lo.
Antes, quando olhava para aquele sorriso, via meu futuro. Agora, só vejo o passado e as cicatrizes profundas que ele deixou em meu coração.
“É o Darío Cuervo?”, sussurrou alguém por perto. “O Beta de Pinar de Plata. Ouvi dizer que ele está prestes a ser promovido a Delta.” “Ele é tão bonito. Será que ele tem namorada?”
A pergunta me atingiu como farpas. Forcei-me a respirar, a permanecer imóvel, a me fundir com o papel de parede, como aperfeiçoei ao longo dos anos.
Mas Darío já tinha me visto.
Seus olhos, aqueles olhos cor de avelã que outrora me fitaram com algo próximo ao amor, me atravessaram através da imensidão de mármore, seda e poder. Por um instante, apenas um instante, algo cintilou em sua expressão. Surpresa? Reconhecimento?
Então, transformou-se em algo mais feio. Desprezo.
Minha mão tremia contra meu pulso. O selo de ligação brilhava intensamente, quase queimando, como se pressentisse minha angústia. Olhei para Caspian, mas ele estava agora absorto em uma conversa com três Alfas, sua expressão diplomática e controlada. Eu ainda não tinha visto Dario, e Dario estava vindo em minha direção.
Não, não, não, não.
—Beatriz Torres—meu antigo nome soava como veneno em sua língua.
Darío parou a um metro de distância, perto o suficiente para que outros lobos ouvissem, mas longe o suficiente para deixar claro que não queria ficar perto de mim.
“Não esperava te ver aqui. Será que começaram a deixar qualquer um entrar no banquete do Alfa, ou você entrou sorrateiramente pela entrada de serviço?”
O calor subiu às minhas bochechas. Ao nosso redor, as conversas silenciaram. Os lobos se viraram para observar, farejando o drama como predadores farejam a fraqueza.
—Dario—minha voz saiu mais firme do que eu me sentia—. Faz muito tempo.
—Não é suficiente.
Ele deu mais um passo à frente, e eu senti o cheiro de álcool por baixo do perfume. Ele tinha bebido. Não o suficiente para estar bêbado, mas o suficiente para ser imprudente.
—Diga-me, Bea, ainda sem um lobo? Ainda fingindo ser algo que você não é?
As palavras me atingiram como socos físicos. Três anos atrás, quando meu lobo ainda não havia emergido no meu vigésimo aniversário, Darío me chamou de quebrada, defeituosa. Ele rejeitou nosso vínculo como companheiros na frente de toda a sua matilha, declarando que se recusava a ficar acorrentado a uma humana que brincava de lobo. Eu implorei, chorei, supliquei para que ele esperasse, para que me desse tempo.
Ele riu e escolheu a filha do Alfa.
“Não estou fingindo nada”, eu disse baixinho. Baixinho demais. Era a minha antiga versão falando. A garota que aprendeu a se fazer pequena, invisível.
“Sério?” O sorriso de Dario se alargou. “Então o que você está fazendo aqui? Veio esperando encontrar outro colega estúpido o suficiente para aceitar mercadoria danificada?”
Alguém deu um suspiro de espanto. Senti o selo do vínculo queimando agora, ardendo ativamente como se tentasse romper a antiga magia que o ocultava. Do outro lado da sala, senti, mais do que vi, Caspian se levantar de sua cadeira.
“Dario, por favor,” eu odiava como minha voz estava tremendo. “Só me deixe em paz.”
“Te deixar em paz?”, ele riu alto e cruelmente. O som atraiu mais atenção, mais testemunhas. “Você teve sua chance comigo, Bea. Você poderia ter sido alguém se valesse a pena. Mas você não era naquela época, e não é agora. Você não passa de uma…”
—Já chega.
Uma nova voz dissipou a tensão. Beta Tony, do Território Oeste, apareceu ao lado de Dario, com uma expressão cuidadosamente neutra.
—Crow, talvez você devesse sair para tomar um pouco de ar fresco.
“Estou bem”, respondeu Darío, dando de ombros, com o olhar ainda fixo em mim como um cão farejador de sangue. “Só estou cumprimentando um velho amigo.”
O jeito como ele disse “amigo” deixou claro o que ele realmente queria dizer. E então algo dentro dele se quebrou. Talvez tenha sido o álcool. Talvez tenha sido me ver ali, neste salão do poder, depois de ele ter me deixado destruída e sozinha num apartamento minúsculo, sem nada além da minha dignidade. Talvez tenha sido o jeito como eu me levantei agora, diferente de alguma forma, mais forte, e ele não conseguiu suportar.
“Você não pertence a este lugar”, ela sibilou, aproximando-se tanto que eu podia sentir sua respiração no meu rosto. “Você nunca pertencerá. Você é um lobo sem valor, um inútil, e todos nesta sala sabem disso.”
“Dario…” Tony tentou novamente.
Mas a mão de Darío já estava se levantando.
O RUGIDO DO SILÊNCIO
O estalo ecoou pelo grande salão como um trovão.
Virei a cabeça bruscamente para o lado, uma dor lancinante explodindo na minha bochecha. Por um instante, só havia o zumbido nos meus ouvidos, o gosto metálico do sangue onde meus dentes haviam cortado meu lábio. Então, o mundo voltou com um solavanco.
Silêncio. Silêncio completo e absoluto.
Todas as conversas cessaram. Todos os copos pararam. Todos os lobos no salão se voltaram para observar a cena junto às janelas: a mulher com a marca vermelha de uma mão desabrochando em sua face pálida. E o homem que acabara de cometer um ato de violência impensável na celebração do Rei Alfa.
Toquei meu rosto com dedos trêmulos. Senti o calor. A umidade do sangue no canto da minha boca.
E senti o selo do vínculo se romper.
Não quebrou aos poucos. Explodiu.
Uma energia emanou do meu pulso como uma represa que se rompe, inundando minhas veias numa onda de magia ancestral que eu vinha reprimindo há três meses. A marca, invisível até então, ganhou vida sobre minha pele, prateada e dourada, ofuscante em seu brilho.
A verdadeira marca de um companheiro. Aquela que não podia ser fingida. Aquela que não podia ser escondida depois de despertada. Aquela que me marcou como a companheira predestinada do Rei Alfa.
Gritos de espanto ecoaram pelo salão. Os lobos recuaram cambaleando, protegendo os olhos da luz. O selo fora criado por um motivo: para me proteger, para me dar tempo de aumentar meu poder antes que todo o reino descobrisse quem eu realmente era.
Mas agora ele se foi, destruído pela violência.
E do outro lado da sala, a aura do Rei Alfa explodiu para fora como uma supernova.
A temperatura despencou. Senti sua presença antes mesmo de vê-lo se mover. A mudança na pressão atmosférica, a forma como o oxigênio parecia fugir do cômodo. Os lobos mais próximos da mesa principal se dispersaram como folhas diante de um furacão, seus instintos gritando para que corressem, se curvassem, se submetessem.
Caspian Montenegro não caminhou em minha direção. Ele se movia como uma sombra que ganhava forma, como a morte envolta em um terno caro. Sua aura, normalmente controlada a um mero sussurro de poder, agora preenchia a sala com uma dominância sufocante.
Os copos de cristal estilhaçaram-se sobre as mesas. As velas apagaram-se. O lustre antigo balançou na quietude do vento.
Este era o Rei Alfa. Não o governante diplomático. Este era o predador supremo cuja linhagem governara o reino dos lobisomens por oitocentos anos. O lobo cujos inimigos não viveram o suficiente para cometer o mesmo erro duas vezes.
Minha marca brilhou mais intensamente, respondendo à sua presença, vibrando em reconhecimento mesmo enquanto minha bochecha latejava.
—Dario! —Oh, céus, Darío ficou branco como um lençol.
Ele cambaleou para trás, quase caindo, quando a ficha caiu como um balde de água fria. Seus olhos alternavam entre meu pulso brilhante e o Rei Alfa que se aproximava. E, pela primeira vez desde que o conheci, vi terror genuíno em seu rosto.
“Caspian…” Tentei falar, mas minha voz saiu quase como um sussurro.
Ele já estava lá.
Num instante ele estava do outro lado da sala. No seguinte, estava entre Darío e eu, de costas para mim, seu corpo uma muralha letal de proteção. Seu cheiro me envolveu: pinho, tempestades de inverno e algo exclusivamente dele que fazia minha loba…
Minha loba.
Prendi a respiração ao sentir algo se agitar dentro de mim pela primeira vez na vida. Não emergindo, ainda não, mas ali. Presente. Desperto.
O selo do vínculo não apenas escondeu minha ligação com Caspian. Ele reprimiu a loba que sempre esteve adormecida dentro de mim, esperando o momento certo para despertar. Esperando por ele.
—Você agrediu meu parceiro.
A voz de Caspian era suave, quase como uma conversa, o que a tornava infinitamente mais aterrorizante do que se ele tivesse gritado.
—No meu salão. No meu banquete. Diante de toda a minha corte.
“Eu não… eu não sabia…” As palavras de Darío se atropelavam, sua antiga coragem evaporando como a névoa da manhã. “Majestade, por favor. Eu não fazia ideia de que ela era… que ela…”
“Ela!” a palavra estalou como um chicote. “Você se dirigirá à sua Rainha com respeito, ou não se dirigirá a ela de forma alguma.”
Rainha .
A palavra reverberou entre os lobos reunidos como um terremoto. Murmúrios irromperam e se extinguiram tão rapidamente quanto a aura de Caspian pulsou mais uma vez, lembrando a todos quem estava no comando naquela sala.
Apertei os punhos dentro do vestido. Eu deveria dizer alguma coisa. Fazer alguma coisa. Mas anos ouvindo que eu era inútil, quebrada, insuficiente… me ensinaram a ficar em silêncio.
Mas Caspian sabia. Ele vinha me protegendo desde antes de eu sequer saber que precisava de proteção.
“Por favor…” Darío caiu de joelhos, e eu senti uma mistura nauseante de satisfação e vergonha. “Majestade, peço perdão. Eu estava bêbado. Não estava pensando.”
“Você não estava pensando”, concordou Caspian. “Você viu uma mulher que antes considerava inútil e escolheu humilhá-la diante dos lobos mais poderosos do reino. Você levantou a mão contra ela. Você derramou o sangue dela.”
Cada frase era um prego no caixão de Darío.
“Diga-me, Raven”—Caspian inclinou a cabeça ligeiramente—”se ela ainda estivesse ‘sem lobo’, se ela ainda estivesse sozinha… isso tornaria aceitável atacá-la?”
A pergunta pairava no ar como uma guilhotina.
—Não, não, claro que não, Vossa Majestade.
-Mentiroso.
A palavra era quase suave.
“Você veio aqui esta noite procurando por ela, não foi? Consigo sentir a sua intenção. Você não suportaria a ideia de vê-la seguir em frente, encontrar a felicidade, existir sem a sua permissão.”
Caspian virou-se ligeiramente para mim, estendendo a mão. Eu a peguei instintivamente, nossos dedos se entrelaçando. No instante em que o toquei, uma eletricidade crepitou entre nós, visível. A conexão vibrava com poder.
“Obrigado, Raven”, disse Caspian, voltando seu olhar dourado para o homem ajoelhado.
Darío piscou, confuso.
—O-obrigado?
—Sim. Obrigada por ser exatamente tão superficial e cruel quanto eu sabia que você era. Obrigada por bater nela hoje à noite e forçar a revelação que eu tanto temia, porque isso significa que não preciso mais esconder o que ela é para mim.
A aura de Caspian pulsou mais uma vez, emanando poder.
—Beatriz Torres é minha companheira predestinada. Minha rainha. E a partir desta noite, todos os lobos deste reino saberão disso.
A sala explodiu em alvoroço. Alguns lobos imediatamente caíram de joelhos. Outros congelaram. Mas eu mal percebi nada disso, porque algo estava acontecendo dentro de mim.
A loba que se agitara quando o selo se rompeu agora emergia à superfície. Ele podia senti-la, selvagem e poderosa.
“Caspian”, sussurrei, agarrando-me à sua jaqueta. “Algo… que eu consigo sentir…”
Seus olhos se abriram com compreensão e uma alegria intensa.
—Sua loba. Pelos deuses, Bea, sua loba está aqui.
“Agora não”, o pânico começou a surgir na minha voz. “Esperei 23 anos por isso. E agora, diante de centenas de testemunhas…”
“Respire”, murmurou ele, virando-me para encará-lo e bloqueando minha visão da multidão com o corpo. “Eu estou aqui com você. Sempre estarei.”
A loba emergiu. Gritei quando o poder inundou meu corpo. E então, uma luz prateada irrompeu da minha pele, diferente do dourado da marca do vínculo. Era puro poder lunar.
E sob essa luz, algo mais se tornou visível. Uma segunda marca na minha omoplata, queimando o tecido do meu vestido.
A sala mergulhou num silêncio sepulcral.
Porque aquela marca, intrincada, bela e impossível, era a Coroa Lunar. O símbolo que não era visto há trezentos anos. A marca que designava não apenas uma rainha por casamento, mas uma rainha por direito divino.
Uma rainha nascida de um lobo.
“Impossível”, sussurrou alguém. “A profecia…”
Caspian olhou para a marca e, pela primeira vez, vi um choque genuíno em seu rosto.
“Você nunca me contou”, disse ela suavemente.
“Eu não sabia”, jurei, tremendo. “Caspian, eu juro para você. Nunca vi essa marca antes.”
Antes que ele pudesse responder, o som de vidro quebrando estilhaçou o momento. As enormes janelas na parede leste explodiram para dentro. Por elas irromperam lobos, dezenas deles, movendo-se com precisão militar, seus olhos brilhando em vermelho com uma loucura selvagem.
Lobos renegados. Lobos banidos. Mas não quaisquer lobos. Estes eram organizados. E estavam vindo direto para cima de mim.
“Protejam a Rainha!” O rugido de Caspian fez tremer os alicerces enquanto ele se transformava parcialmente, estendendo suas garras.
E no meio do caos, vi uma figura nas sombras, observando com olhos cheios de malícia. Lucian. O irmão exilado de Caspian. Aquele que todos pensavam estar morto.
O pesadelo tinha apenas começado.
PARTE 2: O ABRIGO E A SOMBRA DA COROA
As próximas setenta e duas horas se arrastaram como um pesadelo viscoso do qual eu não conseguia despertar. O ataque dos Renegados — aqueles lobos selvagens banidos — no banquete fora repelido, mas a um custo terrível. Cinco guardas reais estavam mortos, doze ficaram gravemente feridos, e o Grande Salão do Palácio de Cristal, que fora o orgulho da arquitetura espanhola de lobisomens por séculos, agora se assemelhava a uma zona de guerra. Janelas quebradas, mármore manchado de sangue e marcas de queimadura onde lobos amantes do fogo haviam lutado para repelir os intrusos.
Mas os Renegados haviam alcançado seu objetivo. Não era matar Caspian, nem mesmo derrubar o governo naquela noite. O objetivo deles era obter informações. Eles me viram. Viram a Coroa Lunar queimando em minha omoplata, viram a companheira do Rei Alfa revelada ao reino e levaram essa informação ao seu mestre: Lucian Montenegro.
Agora, eu estava sentada na beirada de um sofá de veludo gasto, no escritório particular de uma fortaleza escondida na Serra de Guadarrama. Vestia uma das camisas brancas de Caspian, que chegava até minhas coxas, pois meu vestido prateado havia sido rasgado em pedaços durante o caos da evacuação. O aroma de pinheiros do tecido era a única coisa que mantinha minha sanidade ancorada na realidade.
Caspian caminhava de um lado para o outro em frente à lareira apagada, movendo-se como um predador enjaulado. Cada passo que dava emanava uma tensão tão palpável que ele quase podia senti-la no ar: pura estática, ozônio e uma fúria contida que ameaçava derrubar as paredes de pedra.
Seu beta, Matías, um lobo de porte robusto e cicatrizes que contavam histórias de mil batalhas, fazia guarda junto à sólida porta de carvalho. Sua expressão era estoica, mas seus olhos me fitavam com uma mistura de curiosidade e uma deferência recém-descoberta que me deixava desconfortável.
“Temos que transferi-la para a Fortaleza do Norte, nos Pirenéus”, disse Matías, quebrando o silêncio denso. Sua voz era grave e pragmática. “É a posição mais defensável que temos. A neve cobrirá nossos rastros, e as passagens de montanha são traiçoeiras para quem não conhece o terreno.”
“Não”, disse Caspian com voz monótona. Definitiva. Não admitia contestação.
Ela parou abruptamente e se virou, com chamas douradas tremeluzindo em suas íris escuras.
“Não vou escondê-la como se fosse algo frágil que precisa ser trancado numa torre de marfim. Não vou repetir os erros do meu pai.”
“Com todo o respeito, Vossa Majestade”, insistiu Matías, dando um passo à frente, “ela é um alvo visível há menos de três dias, e já tivemos uma tentativa de assassinato em grande escala. Lucian sabe o que ela é agora. Ele sabe sobre a marca. Ele virá atrás dela. Ele não vai parar até tê-la.”
“Que ele tente”, rosnou Caspian. O som era baixo, gutural, uma vibração que ressoou em meu peito. “Pintarei as muralhas deste reino com o sangue dele se ele ousar chegar a menos de um quilômetro daqui.”
Eu os observava discutir, sentindo-me estranhamente distante do meu próprio corpo. Era como assistir a uma peça onde eu era a protagonista, mas ninguém me havia dado o roteiro. Minha loba, aquela presença bela e poderosa que finalmente se revelara no banquete, caminhava inquieta dentro da minha mente. A transformação física completa ainda não havia ocorrido — o estresse a atrasara —, mas ela estava lá. Eu podia sentir sua impaciência, seu desejo de correr, de caçar, de reivindicar nosso lugar ao lado do nosso companheiro.
“Companheiro preocupado “, observou minha loba, sua voz interior soando como o vento entre as folhas. “Proteja-o. Nós também precisamos protegê-lo.”
“Eu consigo ouvir vocês dois, sabiam?”, eu disse em voz baixa.
Os dois homens se calaram instantaneamente, voltando-se para mim como se tivessem esquecido que a causa da discussão tinha voz e direito a voto.
—E eu não vou me esconder.
Levantei-me do sofá. Apesar de estar descalço e vestindo apenas uma camisa emprestada, senti uma onda de poder percorrer minha espinha. A marca da Coroa Lunar pulsou quente contra minha pele, como se aprovasse meu desafio.
—Beatrice… —Caspian começou, com a voz suavizando, aquela ternura devastadora que ele reservava apenas para mim.
“Não, Caspian”, caminhei em sua direção, ignorando o chão de pedra frio. “Passei três anos me escondendo. Três anos me fazendo pequena, invisível, curvando a cabeça para pessoas como Dario porque achava que era o que eu merecia. Achava que estava quebrada.”
Alcancei-o e coloquei as mãos em seu peito. Seu coração batia forte sob a palma da minha mão, num ritmo constante e poderoso.
—Chega disso. Se eu sou uma rainha, se eu sou a sua rainha, então vou agir como tal.
Caspian olhou para mim, seus olhos percorrendo meu rosto como se quisesse memorizar cada sardinha, cada cílio. Suas mãos subiram para acariciar meu rosto, e o toque enviou faíscas por toda a minha pele. O laço de companheirismo cantava entre nós, uma melodia de posse e amor.
“Você é corajoso, meu pequeno companheiro”, sussurrou ele, roçando o nariz no meu. “Mais corajoso do que qualquer lobo que conheci em meus quinhentos anos de vida. Mas há uma tênue linha entre coragem e imprudência.”
“Então me ensine”, implorei, mantendo o olhar fixo em seus olhos dourados. “Me ensine a lutar. Me ensine a usar todo o poder que esta Coroa da Lua supostamente me concede. Eu não serei um fardo, Caspian. Recuso-me a ser a fraqueza que eles usarão para derrubá-lo.”
Algo intenso e orgulhoso transparecia em seu rosto, uma mistura de admiração e medo.
—Você jamais poderia ser uma fraqueza. Você é a minha maior força.
“Lucian parece pensar diferente”, respondi. Eu vinha pesquisando, lendo os arquivos históricos que Matías discretamente me forneceu durante nosso tempo livre. “Ele tentou derrubá-lo uma vez, há quinze anos. Falhou. Mas se ele conseguir chegar a mim… se ele conseguir me usar contra você…”
—Ele não vai.
O dourado nos olhos de Caspian tornou-se permanente, seu lobo estava muito perto da superfície.
—Prefiro reduzir o reino a cinzas a deixar que você toque em um único fio de cabelo meu.
“É exatamente isso que ele quer”, interrompeu Matías, cautelosamente. “Caos. Guerra. Ele quer que Vossa Majestade seja instável. Ele quer que tome decisões baseadas em emoções brutas, em vez de estratégia militar. Se reagir com fogo, ele vencerá.”
Caspian cerrou os dentes, os músculos do pescoço se tensionaram, mas não discutiu. Porque sabia que Matías tinha razão. Lucian estava jogando xadrez enquanto nós jogávamos damas.
Uma batida forte na porta fez com que nós três ficássemos tensos.
Matías abriu a porta e revelou uma loba que ele vislumbrara brevemente no banquete antes de tudo desandar. Ela era alta, elegante, com uma postura régia que exalava aristocracia. Seus cabelos negros tinham mechas prateadas e seus olhos eram como fragmentos de gelo ancestral.
“Senhora Zara”, disse Matías, inclinando a cabeça em profundo respeito. “O Rei não está recebendo visitas.”
“O Rei vai querer ouvir isso”, disse Zara, com a voz suave, mas com um núcleo de aço. Seu olhar passou por cima do ombro de Matías e fixou-se diretamente em mim. Era um olhar avaliador e penetrante, que parecia despir minha alma. “Posso entrar?”
Caspian acenou com a cabeça uma vez, secamente.
Zara deslizou para dentro da sala com a graça de alguém que passou séculos navegando pelas águas traiçoeiras da política da corte. E de fato, ela havia passado. Lady Zara tinha mais de quatrocentos anos, era uma das poucas lobas ancestrais ainda existentes e fora mentora de Caspian quando ele ainda era apenas um filhote destinado ao trono.
“A Coroa Lunar”, disse Zara sem rodeios, apontando para o meu ombro. “Você sabe o que isso significa, criança?”
—Aparentemente, estou ligado a uma profecia que todos conhecem, menos eu—Tentei não parecer amargo, mas falhei.
Os lábios de Zara se curvaram num meio sorriso.
—Preciso, embora incompleto.
Ele caminhou lentamente ao meu redor, estudando-me como se eu fosse uma peça rara em um museu.
—A profecia fala de uma Rainha que surgirá quando o reino estiver fragmentado. Uma Rainha que carrega a bênção direta da Deusa da Lua, uma loba nascida em corpo humano até despertar. Alguém que pode unir o lobo e o humano, o selvagem e o civilizado.
Ele parou na minha frente, seus olhos gélidos suavizando-se ligeiramente.
—A última Rainha Nascida do Lobo uniu os cinco territórios e pôs fim às Guerras das Presas há trezentos anos. Ela podia falar com todos os lobos, independentemente de sua lealdade à matilha. Ela podia curar feridas com uma palavra, inspirar lealdade com um olhar e, o mais importante… ela podia sentir a corrupção nas almas dos lobos.
Parei de respirar.
—Sentindo a corrupção?
“Os Renegados de olhos vermelhos que você viu no banquete”—a expressão de Zara escureceu, tornando-se sombria—”não nasceram loucos. Eles não enlouqueceram por solidão. Eles foram transformados. Corrompidos por uma magia antiga e sombria que distorce a alma do lobo, transformando-a em algo monstruoso. Ela os despoja de sua vontade, de sua honra, e os transforma em escravos sedentos de sangue.”
Olhei para Caspian. Ele estava pálido.
—Lucian vem construindo um exército deles há anos — continuou Zara —, esperando o momento certo para atacar.
“Há quanto tempo você sabe disso?”, perguntou Caspian, com uma voz ameaçadora.
“Eu suspeitava. Agora tenho certeza. O ataque no banquete não foi aleatório, Caspian. Foi um teste. Lucian queria ver se os rumores eram verdadeiros. Se a Coroa Lunar realmente havia despertado em sua companheira. Agora ele sabe que sim. Ele agirá rapidamente.”
“Para fazer o quê?”, perguntei, sentindo um arrepio que nada tinha a ver com a temperatura do quarto.
—Para te corromper.
As palavras de Zara caíram como pedras pesadas em um lago tranquilo.
“A mesma magia negra que cria Renegados de olhos vermelhos pode ser usada em uma Rainha Nascida do Lobo. Mas o efeito seria… catastrófico. Se Lucian conseguir fazer você se voltar contra a sua própria natureza, se ele conseguir distorcer essa bênção divina em algo sombrio, ele não terá apenas um exército. Ele terá uma arma capaz de destruir o reino por dentro. A Coroa da Lua exige obediência instintiva dos lobos. Se você cair, o reino cairá com você.”
Senti-me mal. Parecia que o quarto estava girando.
“Só por cima do meu cadáver”, rosnou Caspian, colocando-se entre Zara e eu, como se pudesse me proteger da verdade com o próprio corpo.
“Esse é exatamente o plano dela”, disse Zara calmamente. “Matar você, corrompê-la e governar através de uma rainha fantoche com a marca da Deusa. As matilhas não teriam escolha a não ser segui-la. Seria o fim da era dos lobisomens como a conhecemos.”
“Tem que haver um jeito de combater isso”, eu disse, com a voz trêmula. “A última rainha… como ela resistiu à corrupção?”
—Ele não a confrontou. Magia negra desse calibre não existia em sua época, ou estava adormecida.
Zara suspirou, parecendo subitamente muito velha.
—Mas você tem algo que ela não tinha.
-O fato de que?
—Um verdadeiro laço de almas gêmeas predestinadas com o Rei Alfa. Sua conexão com Caspian não é apenas romântica, criança. É uma âncora. É metafísica. Enquanto esse laço permanecer forte, enquanto suas almas estiverem entrelaçadas, a corrupção não poderá se apoderar completamente. Você lutaria contra ela, e ele a traria de volta. Sua luz equilibraria sua escuridão.
Caspian me puxou para perto, seus braços me envolvendo em um abraço protetor que quase comprimiu minhas costelas. Eu me apoiei em sua força, inalando seu perfume, deixando-o acalmar meu coração acelerado.
“Então fortalecemos o vínculo”, disse Matías, prático como sempre. “Completamos o ritual de acasalamento. A mordida, a união completa. Façamos isso esta noite.”
“Não podemos”, disse Caspian com a voz tensa e carregada de dor.
Dei um passo para o lado para olhá-lo.
“Por que não?” perguntei, confuso. “Caspian, se isso me proteger…”
Sua expressão era de profunda angústia. Ele acariciou minha bochecha com o polegar, os olhos repletos de uma tristeza infinita.
“Porque completar o vínculo significa que você sentirá tudo o que eu sinto. Cada morte que causei, cada ato de violência, cada decisão sombria e moralmente ambígua necessária para governar um reino de predadores. Você sentirá o peso da coroa, Beatriz. E você ainda é tão nova neste mundo… ainda está aprendendo o que significa ser uma loba. Não vou afogá-la na minha escuridão antes que você tenha a chance de encontrar a sua própria luz.”
Meus olhos se encheram de lágrimas ao ouvir a ternura em sua voz, mesmo quando a frustração começou a surgir.
“Essa não é uma decisão que você deva tomar sozinha”, respondi bruscamente. “Sou sua parceira. Devemos compartilhar o fardo.”
“Ela tem razão, Caspian”, disse Zara suavemente. “O vínculo precisa ser concluído em breve. Tanto para sua proteção quanto para a do reino. Se Lucian atacar antes que vocês estejam unidos…”
Uma comoção do lado de fora do estúdio nos deixou todos tensos. Vozes alteradas, o som de uma briga, um baque surdo contra a parede. Então, a porta se abriu de repente.
Darío Cuervo entrou cambaleando, detido entre dois guardas reais. Seu rosto estava machucado, seu lábio cortado novamente, e seus olhos estavam arregalados de pânico.
“Por favor!” ele gritou, debatendo-se contra o aperto dos guardas. “Vossa Majestade! Por favor, o senhor precisa me ouvir!”
A aura de Caspian explodiu para fora, uma força física que nos empurrou a todos para longe.
“Você tem dez segundos para explicar por que eu não deveria executá-lo aqui mesmo por invadir meus aposentos privados!” rugiu Caspian.
—Eles levaram minha irmã!
A voz de Darío falhou, aguda e desesperada.
—Os lobos de Lucian. Eles levaram Lydia há três horas. Deixaram uma mensagem… disseram… disseram que se eu a quiser viva de volta, tenho que entregar a Rainha.
PARTE 3: O SACRIFÍCIO DO PEÃO
Um silêncio sepulcral tomou conta da sala.
Darío caiu de joelhos, soluçando abertamente. O homem arrogante e cruel que me humilhara no banquete havia desaparecido. Em seu lugar, estava um irmão mais velho aterrorizado, uma criança perdida.
“Eles sabiam que eu viria até você”, continuou Darío, as palavras saindo atropeladas. “Eles sabiam que eu faria qualquer coisa para salvá-la. Eu deveria trair seu esconderijo. Eu deveria ajudá-lo a levá-la até eles.”
Ela ergueu a cabeça, olhando diretamente nos meus olhos. Havia tanta vergonha em seu olhar que tive que reprimir a vontade de desviar o olhar.
“Eu sei que não mereço misericórdia, Beatriz. Sei que o que fiz com você foi imperdoável. Tratei você como lixo porque eu era um covarde obcecado por status. Mas minha irmã… Lydia é inocente. Ela tem apenas dezessete anos. Ela nem sequer passou pela sua primeira transformação completa. Por favor. Eu farei qualquer coisa. Darei a minha vida. Só me ajude a salvá-la.”
Olhei para o lobo despedaçado que um dia me despedaçou.
Lembrei-me de Lydia. Ela era uma menina doce, com os mesmos olhos cor de avelã do irmão, mas sem a maldade dele. Ela costumava vir à cafeteria onde eu trabalhava e me deixava gorjetas generosas quando Dario não estava olhando. Ela não tinha culpa dos pecados do irmão.
Minha loba despertou dentro de mim. Proteger a matilha. Mesmo os quebrados. Segundas chances.
Olhei para Caspian. Vi o cálculo frio em seus olhos, a mente estratégica ponderando as opções. Para ele, Dario era um traidor e Lídia, uma vítima colateral lamentável. Ele era um rei que pensava na segurança de milhões, não na vida de uma garota.
Mas eu não era rei.
“Vamos salvá-la”, eu disse. Minha voz soava estranha aos meus próprios ouvidos, carregada de uma autoridade que eu não sabia que possuía.
Todos se viraram para me olhar. Caspian pareceu prestes a protestar, mas eu levantei a mão.
—Mas não da maneira que Lucian espera.
“Beatrice, não”, advertiu Caspian, aproximando-se. “Eu sei o que você está pensando. E a resposta é não. Absolutamente não.”
“Esta é a nossa única chance de pegar Lucian”, argumentei, com a mente a mil. “Ele quer que eu vá. Se eu não for, ele vai matar Lydia só para mandar um recado. E depois vai vir atrás de mim de qualquer jeito.”
“É uma armadilha!” ele rugiu. “É obviamente uma armadilha! Ele quer corromper vocês.”
—Eu sei. E vamos usar isso contra ele.
Virei-me para Zara, ignorando o olhar furioso do meu parceiro.
—Você disse que a Coroa Lunar consegue sentir a corrupção. Ela consegue fingir?
Zara piscou, surpresa com a pergunta.
—Fingir?
—Se eu beber o que Lucian usa para corromper lobos… consigo resistir tempo suficiente para parecer que funcionou, mas manter minha mente intacta?
“Você está louco!” exclamou Matías.
“É arriscado”, disse Zara lentamente, um lampejo de interesse surgindo em seus olhos ancestrais. “Incrivelmente arriscado. A corrupção ataca a mente e a alma. Mas… com o vínculo que a ancora a Caspian… e com a proteção inata da Coroa… é teoricamente possível. Você poderia enganá-lo. Fazê-lo acreditar que você é dele, chegar perto o suficiente para atacar quando ele baixar a guarda.”
“Não vou permitir isso.” Caspian agarrou meus ombros, sacudindo-me levemente. Seu rosto estava pálido de terror. “Está me ouvindo? Não vou deixar você se entregar a ele. Não vou deixar você beber veneno escuro na esperança de que ‘teoricamente’ sobreviva.”
“Caspian, olhe para mim.” Coloquei minhas mãos sobre as dele, forçando-o a parar. “Se não fizermos isso, Lydia morre. E Lucian continuará enviando Renegados até que um deles tenha sorte. Temos que acabar com isso agora. Temos que cortar a cabeça da serpente.”
“Vou te perder”, ela sussurrou, e a vulnerabilidade em sua voz partiu meu coração. “Se a corrupção te consumir… se eu te esquecer…”
—Você nunca vai me esquecer. E eu nunca vou te esquecer.
Fiquei na ponta dos pés e encostei minha testa na dele.
—Confie em mim. Confie em nós . Você é minha âncora, Caspian. Enquanto você segurar a corda, posso saltar no abismo sabendo que você me puxará de volta.
Houve um longo silêncio. Eu podia sentir seu conflito, seu terror, seu instinto primitivo de me trancar e jogar a chave fora. Mas também senti seu respeito. Seu reconhecimento de que eu não era uma donzela em apuros, mas uma rainha tomando sua primeira decisão de guerra.
Por fim, ele suspirou, um som que era ao mesmo tempo derrotado e orgulhoso.
—Se alguma coisa der errado… se eu vir o menor sinal de que você está se desviando do caminho… eu vou incendiar aquele lugar com todo mundo dentro. Inclusive a garota.
-Negócio.
Virei-me para Darío, que nos encarava com os olhos arregalados, como se não pudesse acreditar no que estava presenciando.
“Levante-se, Dario”, ordenei.
Ele se levantou, com as pernas tremendo.
“Você vai me levar até Lucian. Vai fingir que me traiu, que me entregou em troca da sua irmã. Você precisa ser convincente. Precisa fazer até eu acreditar que você me odeia. Consegue fazer isso?”
Darío engoliu em seco, olhando para a marca no meu ombro e depois para os meus olhos.
—Depois de tudo que eu te fiz… você vai arriscar sua alma pela minha irmã?
“Não estou fazendo isso por você”, eu disse friamente. “Estou fazendo isso porque uma rainha protege seu povo. Mesmo aqueles que não merecem.”
Zara aproximou-se com uma caixa de madeira entalhada. De dentro, retirou uma delicada pulseira de prata e um pingente com uma pedra da lua opaca.
“Você vai usar isto”, disse ele, prendendo a pulseira no meu pulso. “É um feitiço de rastreamento ligado ao sangue de Caspian. No momento em que os lobos de Lucian atacarem, saberemos exatamente onde você está.”
Então ele me entregou o pingente.
—E isto… isto é um último recurso. Contém uma carga concentrada de luz lunar purificada. Se você sentir que a corrupção está se alastrando, se sentir que está realmente se perdendo… quebre a pedra. Ela liberará um pulso de energia que incapacitará qualquer lobo corrompido em um raio de vinte metros. Mas isso o deixará inconsciente e vulnerável. Use-a somente se não houver outra opção.
Assenti com a cabeça, pendurei a pedra no pescoço e a escondi sob a camisa.
Caspian não disse mais nada. Permaneceu junto à janela, de costas para o quarto, sua aura vibrando com uma violência contida. Ele sabia que ela estava reunindo suas forças, contatando telepaticamente seus generais, preparando-se para desencadear o inferno.
Aproximei-me dele e deslizei minha mão na dele. Ele entrelaçou nossos dedos com uma força dolorosa.
“Voltarei para você”, prometi a ela.
“É melhor que volte”, disse ele com a voz rouca. “Porque se você não voltar, eu vou até o inferno e arrastarei o diabo pelo pescoço até que ele te devolva.”
O plano estava em andamento. Loucura. Suicídio. E nossa única esperança.
PARTE 4: A BOCA DO LOBO
A propriedade abandonada de Arroyo de Plata erguia-se contra o céu que escurecia como um dente cariado numa gengiva doente. Outrora uma grandiosa vinícola, pertencente a uma família nobre decadente, era agora um esqueleto de sua antiga glória. Janelas quebradas como olhos vazios, pedras desmoronando, jardins sufocados por sarças e espinhos negros.
O lugar perfeito para lobos que não queriam ser encontrados.
Darío me guiou pelas portas enferrujadas, sua mão agarrando meu braço num aperto que parecia brutal, mas que na verdade era trêmulo. Ele estava apavorado. Eu podia sentir o cheiro nele: ácido, pungente, misturado com suor frio.
“Estamos quase lá”, sussurrou ela, sem mover os lábios. “O salão principal. Foi para lá que disseram para te levar.”
Meu lobo interior rosnou baixinho dentro da minha cabeça. Perigo. Muitos lobos. Cheiro errado.
O “cheiro errado” era a corrupção sobre a qual Zara havia me alertado. Mesmo do lado de fora, eu conseguia senti-la. Não era apenas um cheiro físico de carne podre e enxofre; era uma sensação psíquica, uma “incorreção” no ar que me causava arrepios e dor de dente. Era como ouvir uma nota dissonante em uma bela canção, mas amplificada até meus ouvidos sangrarem.
Entramos pela entrada de serviço, exatamente como havíamos planejado para parecermos discretos. O interior era pior que o exterior. Móveis mofados, pisos pegajosos e um cheiro de decomposição impregnavam tudo.
E lobos. Tantos lobos.
Eles emergiram das sombras como espectros, seus olhos brilhando em vermelho na penumbra. Renegados corrompidos . Eles não atacaram. Simplesmente observaram, babando, aguardando uma ordem. Eram dezenas deles. Se o plano falhasse, morreríamos em segundos.
“Relaxa”, sussurrei, mais para mim mesma do que para Darío. “Só siga o roteiro.”
O salão principal abriu-se diante de nós, um espaço imenso com um teto abobadado semi-desabado, por onde entravam os raios do luar poente.
E lá, no centro, amarrada a uma cadeira com correntes de prata que queimavam sua pele, estava Lydia.
Ela não devia ter mais de dezessete anos. Havia cortes em seus braços, onde a prata havia tocado sua pele, e lágrimas manchavam a sujeira em seu rosto. Ela estava amordaçada, com os olhos arregalados de puro pânico.
“Lídia!” Darío tentou avançar, mas parou quando uma figura surgiu por trás de uma coluna.
Luciano Montenegro.
Ele era alto, tinha cabelos escuros e traços tão semelhantes aos de Caspian que era como ver um reflexo distorcido em um espelho quebrado. Mas enquanto os olhos de Caspian representavam honra e poder controlado, os de Lucian continham loucura e uma ambição voraz. Seus olhos não eram dourados, nem vermelhos. Eram negros. Abismos de escuridão sem fundo.
“Ora, ora”, a voz de Lucian era culta, suave, quase agradável. Um contraste aterrador com o ambiente ao redor. “A própria Rainha Nascida do Lobo. E ela veio tão docilmente.”
“Deixe a garota ir”, eu disse, orgulhosa por minha voz não estar tremendo. Endireitei-me, canalizando toda a realeza que conseguia reunir. “Ela não tem nada a ver com isso.”
“Pelo contrário”, disse Lucian, circulando-nos lentamente. Os Renegados de olhos vermelhos aproximaram-se, formando um círculo sufocante. “Ela está envolvida em tudo isso. Veja bem, eu precisava saber se os rumores eram verdadeiros. Se a preciosa rainha que meu irmão vem escondendo realmente possui a tola compaixão da Coroa Lunar.”
Ela sorriu, e foi horrível. Mostrou dentes demais.
—Acontece que sim. Tão previsível. Tão belo e fatalmente heroico. Você veio salvar a irmã do homem que a desprezou. Poético.
Lucian fez um gesto preguiçoso com a mão.
De repente, os Renegados atacaram. Não em mim, mas em Dario.
Arrancaram-no de mim, atirando-o contra o chão de pedra. Dario debateu-se, gritando, mas eram muitos. Correntes de prata surgiram do nada, envolvendo seus pulsos e garganta, imobilizando-o ao lado da irmã.
“Pare!” gritei, dando um passo à frente. “O combinado era que você os deixaria ir se eu viesse!”
“Ah, aí está”, os olhos de Lucian brilharam maliciosamente. “Essa bela desesperança. Diga-me, Vossa Majestade, até onde iria para salvá-los?”
“Os dois”, eu disse, com a mente a mil. Caspian e suas forças de elite estavam posicionados na mata ao redor, aguardando meu sinal pelo bracelete. Mas se atacassem agora, no meio deste salão repleto de inimigos, os Renegados matariam Darius e Lydia antes mesmo que Caspian conseguisse passar pela porta.
“O que você quer?”, perguntei.
-Simples.
Lucian estendeu a mão. Na palma da mão repousava um pequeno frasco de vidro lapidado. O líquido dentro era negro, viscoso e parecia absorver a luz ao redor. Ondulava como se estivesse vivo.
Corrupção concentrada.
“Beba isto”, disse Lucian suavemente. “E eu os libertarei. Recuse, e meus lobos os despedaçarão lentamente diante de seus olhos. Começando pela garota.”
O horror me atingiu como uma onda física. Eu sabia o que era aquele líquido. O veneno que transformaria minha loba, minha alma, minha própria essência em algo monstruoso.
“Não faça isso!” gritou Darío, levando um chute violento nas costelas de um dos guardas. “Beatriz, não! Ela está mentindo! Ela vai nos matar de qualquer jeito!”
“Talvez”, concordou Lucian, dando de ombros. “Mas talvez não. Você está disposto a arriscar a vida deles para descobrir?”
Minha mão se fechou em torno do pingente sob minha camisa. Um aperto, e Caspian saberia. Ele viria. Ele me salvaria.
Mas Dario e Lídia morreriam.
Olhei para a garota. Dezessete anos. Uma vida inteira pela frente. Olhei para Darío, destruído e aterrorizado, mas implorando com os olhos para que eu não me sacrificasse.
E eu pensei no que Zara tinha dito. Enquanto o laço permanecer forte… você lutaria contra ele.
Foi uma aposta. A maior aposta da minha vida.
“Deixe-os ir primeiro”, eu disse. Minha voz soava como aço. “Solte-os. Deixe-os sair por aquela porta e entrar na floresta. Depois eu bebo.”
Lucian ergueu as sobrancelhas.
—Você não confia em mim?
“Nem um pouco. Mas você quer que eu seja corrompido, não morto. O que significa que você precisa que eu tome esse veneno de livre e espontânea vontade, para que minha vontade se quebre mais rápido. Então deixe-os ir, ou eu quebrarei este pingente e todo o seu plano irá por água abaixo quando o Rei Alfa chegar com seu exército e reduzir este lugar a escombros.”
Lucian me estudou por um longo momento. O silêncio se estendeu, tenso como uma corda de violino prestes a se romper.
Então ele riu. Um som seco.
—Meu querido irmão encontrou uma rainha de verdade. Muito bom.
Ele fez um gesto brusco. Os Renegados soltaram Dario e desamarraram Lydia. A garota caiu nos braços do irmão, soluçando.
“Vão”, ordenou Lucian. “Corram. Digam ao Rei Alfa que sua companheira escolheu salvá-los.”
Darío cambaleou, segurando a irmã, mas seus olhos encontraram os meus uma última vez.
“Me desculpe”, ele sussurrou, com a voz embargada. “Por tudo. Me desculpe mesmo, Beatriz.”
“Eu sei”, eu disse suavemente. “Agora vá.”
Eles fugiram em direção à entrada de serviço, seus passos ecoando no corredor vazio. Esperei até que o som se dissipasse. Esperei até ter certeza de que estavam fora do alcance imediato dos Renegados .
Agora ela estava sozinha com os monstros.
Lucian ofereceu-me o frasco novamente, invadindo meu espaço pessoal. Ele exalava um cheiro de magia morta e ambição podre.
—Sua vez, Majestade.
Peguei o frasco com mãos firmes, embora por dentro eu estivesse gritando. O líquido se agitava, sentindo minha presença. Faminto por mim.
“Por Caspian”, pensei, enviando o pensamento pelo link como uma oração.
Levei o frasco aos meus lábios. E bebi.
Tinha gosto de cinzas, gelo e puro ódio.
O frasco escorregou dos meus dedos e se estilhaçou no chão.
O primeiro espasmo me fez dobrar de dor. Não era dor física. Era algo infinitamente pior. Era como se alguém tivesse derramado tinta preta diretamente no meu cérebro. Senti a corrupção infiltrar-se nas minhas veias, atacando minha conexão com meu lobo, tentando sufocar a luz dentro de mim.
Caí de joelhos, ofegante.
“NÃO!” rugiu minha loba dentro da minha mente, lutando e mordendo as sombras invasoras.
“Magnífico”, sussurrou Lucian, agachando-se à minha frente para observar o espetáculo. “Vejo que está funcionando. Seus olhos… aquele lindo tom prateado está ficando vermelho nas bordas. Renda-se, Beatrice. Deixe entrar.”
“Vá… para… o… inferno…” Eu ofeguei, cravando as unhas no chão de pedra.
Eu me apeguei ao laço. Me apeguei à imagem dos olhos dourados de Caspian, à sua voz, à sua promessa. Você é minha âncora.
Mas a escuridão era pesada. Sufocante. Comecei a esquecer as coisas. Esqueci a cor das paredes do meu quarto. Esqueci o nome da minha mãe. Esqueci pelo que eu estava lutando.
Só restava uma coisa. Uma luz dourada à distância. Mar Cáspio.
E então, a parede leste do salão explodiu.
PARTE 5: O ABISMO DA CORRUPÇÃO
O ar no salão em ruínas da propriedade Arroyo de Plata tornou-se pesado, quase irrespirável. Darío e Lydia haviam desaparecido na escuridão da mata, seus passos se perdendo na distância. Agora, restavam apenas Lucian, seu exército de olhos vermelhos e eu.
Lucian estendeu o frasco novamente. O líquido negro em seu interior parecia absorver a pouca luz que filtrava pelo teto desabado.
“Sua vez, Beatriz”, disse ele com um sorriso que não alcançou seus olhos sem vida. “Cumpra sua parte do acordo.”
Peguei o frasco. O vidro estava frio, como se tivesse sido esculpido em um bloco de gelo das profundezas do inferno. Minhas mãos não tremiam. Estranhamente, naquele momento de puro terror, senti uma calma gélida. Era a calma de quem sabe que não tem outra saída.
Caspian , pensei, enviando minha voz pelo link uma última vez. Perdoe-me.
Levei o frasco aos meus lábios.
O gosto era repugnante. Cinzas, sangue podre e algo metálico que instantaneamente anestesiou minha língua. No instante em que o líquido tocou minha garganta, minha mão livre se fechou sobre o pingente que Zara havia me dado por baixo da camisa.
Eu o esmaguei.
O vidro estilhaçou-se na minha palma, libertando um pulso silencioso de magia rastreadora. Um farol na noite.
Então, a dor me atingiu.
O frasco escorregou dos meus dedos e se estilhaçou contra o chão de pedra. Caí de joelhos, as mãos agarrando minha garganta enquanto o líquido ardente queimava meu estômago, meu coração, minha alma.
Não era um veneno físico. Era algo vivo.
Senti a tinta negra infiltrar-se em minhas veias, invadindo minha corrente sanguínea. Eu procurava minha loba. Senti seu uivo em minha mente, não de fúria, mas de pura agonia enquanto a escuridão a envolvia, sufocando sua luz, distorcendo sua própria essência.
—Ahhh! —o grito rasgou minha garganta.
Minha visão ficou turva. As bordas do meu mundo ficaram vermelhas como sangue. Comecei a esquecer. A cor do céu. O som da risada da minha mãe. O calor dos braços de Caspian. Tudo estava sendo apagado, substituído por uma frieza maliciosa e uma obediência cega.
“Magnífico”, sussurrou Lucian, agachando-se à minha frente para observar meu tormento como um cientista estudando um inseto. “Eu consigo ver. Seus olhos… aquele belo prateado está se afogando em carmesim. Renda-se, Beatrice. É mais fácil se você parar de lutar.”
“Vá… para… o… inferno…” Eu ofeguei, mas minha voz soou distante, como se viesse do fundo de um poço.
“Eu já estive lá”, ele riu. “Meu irmão me mandou há quinze anos. Agora eu trouxe um pedaço dele para você.”
A corrupção atingiu meu coração. Senti-a apertar meu laço com Caspian, tentando rompê-lo. Agarrei-me a esse fio de ouro com desespero mental, ancorando-me a ele enquanto a tempestade rugia.
E então, a parede leste do salão explodiu.
Não era uma entrada; era uma demolição. Pedras e poeira voavam pelo ar enquanto uma besta enorme, com pelagem tão negra quanto a noite, rasgava a alvenaria.
Cáspio.
Seu rugido fez tremer os alicerces da propriedade. Era o som de um rei que perdera toda a misericórdia. Ele se transformou no meio do salto, sua forma humana aterrissando com um baque surdo, nu, magnífico e aterrador. Seus olhos dourados percorreram o cômodo e se fixaram em mim.
Ele viu meus olhos. Viu o vermelho sangrento devorando a prata.
“NÃO!” Seu grito foi de partir o coração. “Beatriz!”
Caspian avançou, com a intenção de despedaçar Lucian com as próprias mãos.
“Pare!” gritou Lucian, sem se mexer um centímetro.
Caspian parou abruptamente, com as garras a centímetros da garganta do irmão. Não porque Lucian o tivesse ordenado, mas por causa do que Lucian segurava naquele momento. Não era uma arma. Era um segundo frasco, este cheio de um líquido azul brilhante.
“Mate-me e ela ficará assim para sempre”, disse Lucian calmamente, balançando o frasco. “A corrupção é reversível, irmão. Mas apenas com este antídoto. E a fórmula morre comigo.”
Caspian tremia de fúria contida, cada músculo do seu corpo tenso como um cabo de aço.
“Você está mentindo”, rosnou ele.
“Você está disposto a arriscar a sanidade da sua parceira?” Lucian sorriu cruelmente. “Olhe para mim. Se você me tocar, eu deixo cair o frasco. Se seus guardas atacarem, meus Renegados têm ordens para se matarem antes que você possa interrogá-los. Você estará além da redenção. Ela será um monstro para sempre.”
Atrás de Caspian, a muralha caída se encheu de figuras. Matthias, Zara e uma dúzia de guardas reais entraram, armas em punho. Mas paralisaram diante da cena.
Eu estava perdendo a batalha.
A escuridão havia tomado conta dos meus membros. Senti-me erguer, mas não fui eu quem deu o comando. Minhas pernas se moviam com uma graça estranha e letal. Meu lobo permanecia em silêncio, aprisionado em uma jaula de sombras no recôndito mais profundo da minha mente.
Voltei-me para o Cáspio.
Ele olhou para mim, e eu vi seu coração se partir. Ele viu minha ausência em meus olhos.
—Beatriz… —ele sussurrou.
Meus lábios se curvaram num sorriso que eu não sentia. Um sorriso predatório.
“E aí, amigão”, disse minha boca, com uma voz que era minha, mas distorcida, cheia de sarcasmo. “Sentiu minha falta?”
Não! Não! Gritei dentro da minha própria cabeça, batendo contra as paredes da minha prisão mental. Caspian, sou eu! Estou aqui! Não dê ouvidos a ele!
Mas meu corpo não obedeceu. Meu corpo caminhou até ficar ao lado de Lucian, como um animal de estimação leal.
Lucian passou um braço em volta dos meus ombros e, embora eu sentisse náuseas na alma, meu corpo relaxou ao seu toque.
“Acho que temos uma nova ordem mundial, irmão”, disse Lucian triunfantemente. “Agora, ajoelhe-se. Ou ordenarei que sua rainha corte a própria garganta na sua frente.”
Caspian olhou para mim. Olhou para a faca que minha mão havia pegado da mesa próxima sem que eu quisesse. Olhou para a lâmina pressionada contra a minha pele.
E o Rei Alfa, o lobo mais poderoso da Espanha, caiu de joelhos.
“Vença”, disse Caspian, com a voz sem vida. “Você vence. Só não o machuque.”
A escuridão caiu sobre minha mente como uma cortina final.
PARTE 6: A PRISIONEIRA DA PRÓPRIA PELE
Três dias.
Passaram-se três dias, mas pareceram três séculos.
Eu estava presa em um lugar frio e escuro dentro da minha própria cabeça. Eu podia ver através dos meus olhos como se fossem janelas, podia ouvir através dos meus ouvidos, mas não podia tocar em nada. Eu era uma passageira no meu próprio corpo, forçada a testemunhar as atrocidades que Lucian me obrigava a cometer ou a assistir.
Ele nos levou à sua fortaleza na Serra Nevada, uma construção brutalista esculpida na rocha viva, escondida por feitiços e tempestades de neve perpétuas.
Lucian não matou Caspian. Isso teria sido misericórdia demais.
Mantive-o acorrentado nas masmorras mais profundas, enfraquecido por correntes de prata e acônito, mantendo-o vivo apenas para torturá-lo com a minha presença.
Todos os dias, Lucian me obrigava a descer as escadas. Ele me fazia vestir sedas pretas e joias pesadas, e me obrigava a sentar em frente à cela de Caspian e recitar palavras de ódio para ele.
“Eu nunca te amei ”, disse minha boca. “Você era fraco ”, disse minha voz. “Lucian é o verdadeiro Rei . ”
E a cada vez, Caspian olhava para mim da escuridão de sua cela, ensanguentado e ferido, mas seus olhos dourados nunca vacilavam.
Eu sei que você está aí, Beatriz , a voz dela ecoou na minha mente através da conexão. Não dê ouvidos ao que sua boca diz. Ouça seu coração. Eu te amo. Eu não vou desistir.
Ele era minha âncora. Sua fé inabalável foi a única coisa que impediu que a corrupção me consumisse completamente.
Era a terceira noite. Lucian estava na sala de guerra, planejando sua marcha sobre Madri. Ele queria tomar o Palácio Real e forçar os líderes da matilha a jurarem lealdade à “Nova Rainha”.
Meu corpo estava em posição de alerta no corredor, imóvel como uma estátua.
Chega , pensei.
A palavra ecoou no vazio da minha mente.
Suficiente.
Senti um calor repentino na minha omoplata. A Coroa Lunar. Lucian pensava que a corrupção tinha sufocado a marca, mas estava enganado. A marca era divina. Não podia ser destruída, apenas suprimida. E agora, alimentada pela minha raiva e pelos constantes chamados de Caspian, estava despertando.
“Você não é uma escrava “, sussurrou uma voz ancestral em minha mente. “Não era meu lobo. Era algo maior. Você é a Rainha. Comande-se.”
Concentrei-me na minha mão direita. Ela pendia inerte ao meu lado.
“Mova-o “, ordenei a ele.
Nada.
MOVA-O.
Despejei toda a minha vontade, todo o meu amor por Caspian, todo o meu ódio por Lucian naquele pensamento. Imaginei a energia prateada da marca percorrendo meu braço, queimando a tinta negra da corrupção.
Meu dedo mindinho se contraiu.
Foi um movimento minúsculo. Quase imperceptível. Mas foi meu.
Um choque percorreu meu corpo. A corrupção se agitou, sibilando, tentando esmagar a rebelião, mas eu já tinha uma posição consolidada.
De novo.
Meu dedo indicador se moveu. Depois, meu polegar.
Suor — suor de verdade, resultado do meu esforço — formou gotas na minha testa. Meu corpo começou a tremer enquanto eu travava uma guerra silenciosa e invisível contra a magia de Lucian.
” Vamos andar” , pensei. ” Não para onde ele quer. Para onde eu quero.”
Dei um passo. Foi desajeitado, como o de uma criança aprendendo a andar. Mas era um passo em direção à escadaria da masmorra.
Os guardas renegados que passavam me olharam de relance, confusos com meu comportamento errático, mas não ousaram questionar a Rainha de seu mestre. Eles presumiram que eu fazia parte de sua patrulha.
Passo a passo, lutando por cada centímetro, eu desci para a escuridão.
O ar ficou mais frio. O cheiro de mofo e sangue velho invadiu minhas narinas. Minha loba, pressentindo meu sucesso, começou a arranhar as grades de sua jaula mental. Companheiro. Perto. Socorro.
Cheguei à cela de Caspian.
Ele estava lá, pendurado pelos pulsos, a cabeça baixa. Seu torso nu estava coberto de lacerações. Parecia meio morto.
Mas quando parei em frente às grades, ele ergueu a cabeça bruscamente.
“Beatriz?” ele sussurrou com a voz rouca, tomada pela sede.
A corrupção tentou retomar o controle, forçando um sorriso de escárnio no meu rosto.
“Vim para ver você morrer”, disse minha boca.
Mas a minha mão… a minha mão direita, sobre a qual eu havia recuperado o controle, ergueu-se. Tremendo violentamente, meus dedos formaram um sinal.
Um círculo. Depois, cruzaram dois dedos.
Era o nosso código. Círculo de confiança. Juntos.
Os olhos de Caspian se arregalaram. Compreensão e esperança irromperam em seu rosto como um nascer do sol. Ele se endireitou, ignorando a dor das correntes.
“Você está aí”, ele sussurrou. Não era uma pergunta.
Minha mão continuava se movendo, dolorosamente devagar. Apontei para o meu peito. Depois apontei para ele. Então fiz um gesto de mordida.
Link. Completo. Agora.
Caspian entendeu imediatamente. Zara havia dito: um vínculo completo, selado com a mordida e a troca de sangue e alma, criaria uma conexão tão poderosa que poderia expurgar qualquer magia externa. Mas Caspian recusou, temendo que sua escuridão me prejudicasse.
Agora, era nossa única salvação.
“Aproxime-se”, disse Caspian, sua voz recuperando a autoridade de um rei. “Venha aqui, Beatriz. Lute. Eu sei que você consegue.”
A corrupção gritava em minha mente, pressentindo o perigo. Tentou fazer minhas pernas se contorcerem. Meus joelhos cederam. Caí no chão em frente à cela.
Mas eu não desisti. Eu rastejei.
Rastejei sobre a pedra fria, centímetro por centímetro, enquanto minha mente gritava de esforço. Alcancei as grades.
Caspian caiu de joelhos do outro lado, o mais perto que as correntes permitiam. Ele pressionou o rosto contra as grades.
“Faça isso”, ela insistiu, expondo o pescoço. A veia pulsava ali, forte e vital. “Reivindique-me. Marque-me. Use-me para retornar à luz.”
Levantei-me, agarrando-me às barras de ferro para manter o equilíbrio. O metal queimava minha pele ferida, mas a dor me ajudava a me concentrar.
Olhei para o pescoço dele. Olhei para o homem que escolheu se ajoelhar e morrer em vez de me ver sofrer.
Minha loba escapou da jaula com um uivo ensurdecedor que abalou minha alma.
MEU.
Lancei-me para a frente.
Meus dentes cravaram-se na junção do seu ombro com o pescoço. Sangue quente encheu minha boca. E naquele instante, o mundo explodiu em luz.
PARTE 7: O RENASCIMENTO DA RAINHA DE PRATA
O gosto do seu sangue não era metálico; tinha gosto de tempestade, de terra molhada, de lar .
No instante em que meus dentes romperam sua pele, o universo pareceu parar. E então, recomeçou.
Não foi apenas uma faísca. Foi uma explosão nuclear na minha alma. Senti Caspian me invadindo, não como a corrupção sombria e fria de Lucian, mas como um fogo dourado, quente e protetor. Suas memórias, sua força, seu amor incondicional inundaram minha mente, varrendo a tinta negra da magia negra como um tsunami de luz pura.
“AHHHH!” Gritei, mas não de dor. De poder.
Minhas costas se arquearam. A marca da Coroa Lunar em minha omoplata, que vinha ardendo fracamente, explodiu em uma coluna de luz prateada que iluminou a masmorra com a intensidade de uma estrela.
A corrupção gritou. Eu podia ouvi-la, uma entidade separada morrendo dentro de mim, evaporando-se diante da majestade de um vínculo verdadeiro e completo.
As grades da cela, feitas de ferro reforçado por feitiço, começaram a brilhar em vermelho vivo, depois em branco. Derreteram como cera sob o calor da nossa energia combinada. As correntes de prata que prendiam Caspian se estilhaçaram, explodindo em mil fragmentos cintilantes.
Caspian caiu para a frente, livre, e eu o amparei. Ou ele me amparou. Eu já não sabia onde eu terminava e onde ele começava.
“Beatriz…” ele ofegou contra meu pescoço, lambendo a marca da minha mordida em seu ombro, selando o vínculo de seu lado.
Levantei a cabeça. Minha visão não era mais vermelha. Era nítida, de outro mundo. Eu podia ver as partículas de poeira flutuando no ar, podia ouvir as batidas dos corações dos guardas três andares acima.
E minha loba… minha linda e mortal loba prateada… estava livre.
Ela apareceu sem pedir permissão. Meu corpo se contorceu, ossos quebrando e se reformando em milissegundos, uma transformação fluida e exultante. Onde antes havia uma mulher quebrada, agora havia uma loba gigante, sua pelagem brilhando prateada, a marca da Coroa Lunar reluzindo em seu flanco como uma tatuagem de luz viva.
Caspian rugiu, um som de puro triunfo, e mudou tão rapidamente quanto surgiu. Seu lobo negro, enorme e terrível, estremeceu, sua pelagem absorvendo a luz que eu irradiava.
“Minha “, sua voz rosnou em minha mente, clara como cristal. ” Você é minha. Eu sou seu. Somos um só.”
“Vamos caçá -los”, respondeu minha loba, mostrando os dentes.
A porta da masmorra se abriu de repente. Uma dúzia de ladinos invadiu o local, atraídos pela clarão de luz. Pararam abruptamente, com os olhos vermelhos arregalados de terror ao avistarem duas divindades lupinas livres e furiosas.
Não tivemos misericórdia.
Caspian era uma sombra letal, movendo-se mais rápido do que os olhos podiam acompanhar. Eu era a luz ofuscante. Descobri que não precisava tocá-los para lutar. Um rosnado carregado com o poder da Coroa Lunar enviou uma onda de choque que arremessou os três primeiros contra a parede de pedra, quebrando seus ossos.
Subimos as escadas a toda velocidade. Andar por andar, limpamos a fortaleza. Não era apenas uma luta; era uma dança. Nos movíamos em perfeita sincronia, cobrindo os pontos cegos um do outro, antecipando cada movimento graças à nossa conexão mental.
Chegamos ao grande salão. Lucian estava lá, de pé ao lado de um mapa de guerra, cercado por seus generais.
Quando as portas duplas se abriram de repente, Lucian se virou. Seu rosto empalideceu ao ver seu irmão, livre e em sua forma de lobo. Mas seu verdadeiro terror veio quando me viu.
Retornei à minha forma humana, a luz prateada tecendo um manto de pura energia ao redor do meu corpo nu. Meus olhos brilhavam como duas luas cheias.
“Acabou, Lucian”, eu disse. Minha voz ecoou em múltiplos ecos, a voz da Rainha, a voz da Deusa.
“Impossível”, sussurrou ele, dando um passo para trás. “A corrupção é permanente. Você não pode…”
“Você subestimou duas coisas”, disse Caspian, voltando à sua forma humana, nu e despreocupado, irradiando uma ameaça mortal. “O poder da Coroa Lunar. E o quanto eu a amo.”
Lucian olhou em volta, procurando uma saída, mas seus generais estavam recuando, o medo da “Rainha Prateada” superando a lealdade ao usurpador.
“Matem-nos!” gritou Lucian. “Todos eles! Quem me trouxer as cabeças deles será o novo Delta!”
Ninguém se mexeu.
Dei um passo à frente. A marca no meu ombro pulsou.
“Ajoelhe-se”, ordenei suavemente.
Não foi um grito. Foi um sussurro que carregava o peso da autoridade divina.
E um a um, os Renegados , os generais corruptos, até mesmo os guardas pessoais de Lucian… caíram de joelhos. Suas testas tocaram o chão. Eles não puderam resistir. Meu sangue cantava com o comando da Deusa da Lua, e seus lobos interiores reconheceram sua mestra suprema.
Apenas Lucian permaneceu de pé, tremendo, lutando contra a pressão invisível que tentava dobrar seus joelhos.
“Eu… sou… o Rei…” ele ofegou, com veias negras pulsando em seu pescoço.
“Você não é nada”, disse Caspian, parando ao meu lado e pegando minha mão.
Lucian soltou um rugido de desespero e sacou uma adaga negra do cinto. Ele se lançou sobre mim numa última tentativa suicida.
Nem sequer pisquei.
Caspian tentou interceptá-lo, mas eu o detive com um pensamento. Ele é meu.
Estendi a mão em direção a Lucian. Um raio de luz prateada saiu da minha palma e o atingiu no peito.
Ele não o matou. Ele fez algo pior.
A luz consumiu a magia negra dentro dele. Consumiu a corrupção que ele usara para obter poder. Consumiu sua ligação com as sombras. Lucian gritou enquanto a escuridão emanava de seus poros como fumaça, dissipando-se no ar.
Quando a luz se dissipou, Lucian caiu no chão. Ele estava ofegante, vivo, mas seus olhos… seus olhos não eram mais negros ou vermelhos. Eram de um castanho opaco, humano.
Ele tentou se transformar em lobo. Nada aconteceu.
“O que… o que você fez comigo?”, ela soluçou, olhando para as mãos trêmulas.
“Eu te purifiquei”, disse friamente. “Seu lobo te rejeitou, Lucian. A Deusa te considerou indigno. Agora você é apenas um homem. Sem matilha. Sem poder. Sem magia.”
O silêncio na sala era absoluto. O destino de um lobo sem lobo era pior que a morte para a nossa espécie. Era uma solidão eterna.
Caspian olhou para o irmão caído e depois para mim. Havia espanto em seus olhos.
“Levem-no para as celas”, ordenou Caspian aos guardas que ainda estavam ajoelhados. “Ele será julgado pelo Conselho.”
Enquanto arrastavam Lucian, que gritava e chorava, Caspian se virou para mim. Ele me abraçou e afundou o rosto em meus cabelos.
“Você conseguiu”, ela sussurrou, com o corpo tremendo devido à adrenalina residual. “Meu Deus, Beatriz, você conseguiu.”
—Conseguimos—corrigi-o, apoiando a cabeça em seu peito, ouvindo as batidas fortes e constantes de seu coração—. Estamos inteiros.
PARTE 8: AS CICATRIZES DA VITÓRIA
Duas semanas depois.
A varanda do Palácio Real de Madrid dava para uma praça lotada. Milhares de lobos das cinco principais alcateias da Espanha estavam reunidos. O ar vibrava de expectativa.
Parei diante do espelho de corpo inteiro em meus aposentos privados. O vestido da coroação era uma obra-prima de seda branca e prateada, desenhado para deixar minhas costas nuas, exibindo com orgulho a marca da Coroa Lunar e, logo abaixo, a cicatriz prateada onde a adaga de Lucian havia roçado minha pele dias antes.
Zara ajustou a última prega da minha saia.
“Você está pronta, minha rainha”, disse ela, com um sorriso de orgulho maternal.
“Estou apavorada, Zara”, confessei, alisando o tecido com as mãos suadas. “Lutar contra monstros em uma masmorra é uma coisa. Governar um país é outra bem diferente.”
—Você não governará sozinho. E conquistou o respeito deles da maneira mais difícil: sangrando por eles.
A porta se abriu e Caspian entrou. Ele vestia seu uniforme militar completo, repleto de medalhas, com a capa de veludo azul-marinho sobre os ombros. Mas tudo o que eu vi foram seus olhos. Aqueles olhos dourados que me fitavam como se eu fosse a única pessoa no mundo.
“Eles estão nos esperando”, disse ele, oferecendo-me o braço.
“Você acha que eles vão me aceitar?”, perguntei. “Sério? Há apenas um mês eu era a garota que servia café. A garota rejeitada.”
Caspian aproximou-se, segurou meu rosto entre as mãos e beijou minha testa.
—Eles não apenas a aceitarão, Beatriz. Eles a adorarão. Porque você fez o que nenhum rei ou rainha fez em séculos. Você perdoou.
Ele tinha razão. Após a queda de Lucian, em vez de executar seu exército de Renegados , usei o poder da Coroa Lunar para purificá-los, um por um. Foi exaustivo. Passei dias na cama me recuperando. Mas salvamos centenas. Lobos que haviam sido sequestrados e corrompidos contra a sua vontade agora estavam livres, sãos e haviam jurado lealdade eterna a nós. Eles eram minha guarda pessoal agora: Os Redimidos .
Saímos para a varanda.
O rugido da multidão era ensurdecedor. “Viva a Rainha Prateada! Viva o Rei Alfa!”
Caspian ergueu a mão e o silêncio tomou conta da praça.
—Vila dos Lobos—sua voz, amplificada por magia, alcançou todos os cantos—. Por muito tempo vivemos sob a sombra do medo e da divisão. Julgamos o valor pela linhagem, pela força bruta. Mas uma mulher me ensinou… nos ensinou… que o verdadeiro poder reside no espírito.
Ela se virou para mim e pegou a coroa que repousava sobre uma almofada de veludo segurada por Matthias. Era uma coroa nova, forjada com o ferro fundido das correntes de nossa prisão e diamantes brancos.
—Beatriz Torres. Minha parceira. Minha salvadora. Minha igual.
Caspian colocou a coroa na minha cabeça. Era pesada, mas era um peso que eu estava disposto a suportar.
—Eu te coro Rainha da Espanha e Protetora do Reino.
A multidão irrompeu em aplausos. Vi rostos familiares entre eles. Vi Dario e Lydia, chorando e aplaudindo. Dario havia cumprido sua promessa; estava se esforçando para se redimir, servindo na fronteira norte. Vi os Rogues purificados , de pé, orgulhosos em seus novos uniformes cinza.
Levantei a mão e minha marca brilhou ao sol da tarde.
“Não prometo ser perfeita”, disse eu, com a voz clara e firme. “Mas prometo lutar por cada um de vocês. Pelos fortes e pelos fragilizados. Pelos Alfas e pelos sem classificação. Porque eu já fui os dois. E sei que juntos, somos invencíveis.”
Caspian passou o braço em volta da minha cintura e me beijou diante de todo o reino. O laço entre nós cantava uma melodia de pura felicidade.
Naquela noite, durante o banquete comemorativo, retirei-me por um instante para o jardim. Precisava de ar. A lua cheia brilhava intensamente sobre minha cabeça, minha mãe celestial velando por mim.
—Vocês estão se escondendo dos seus fiéis?
Me virei. Caspian estava lá, com duas taças de vinho.
—Eu só estava dando uma pausa. É… avassalador.
“Você se acostuma”, disse ele, entregando-me um copo. “A propósito, chegou uma carta de Lucian. Da prisão do mosteiro.”
Fiquei tenso.
—O que está escrito?
—Ele pede perdão. Diz que o silêncio em sua mente, sem a magia negra, está o enlouquecendo de remorso.
Suspirei, olhando para a lua.
—Talvez um dia eu possa perdoá-lo. Mas não hoje.
“Você não precisa”, disse Caspian, pousando o copo e me abraçando por trás. “Você já fez o suficiente. Agora é a nossa vez de viver. É a nossa vez de sermos felizes.”
Virei-me em seus braços, passando as mãos pelo seu peito, sentindo o laço forte e inquebrável sob a minha pele.
“E viveram felizes para sempre?”, brinquei.
Caspian sorriu, aquele sorriso de lobo que fez minhas pernas tremerem.
“Felizes para sempre” é chato. Prefiro “Felizes e selvagens”.
—Gostei da ideia.
Ele me beijou, e sob o luar e as estrelas, eu soube que toda a dor, todo o medo, todas as lágrimas tinham valido a pena. Eu havia encontrado meu lugar. Eu havia encontrado minha matilha. E eu havia encontrado a mim mesma.
PARTE 9: EPÍLOGO – O LEGADO
(Cinco anos depois)
O jardim do palácio ecoava com risos de crianças.
—Você não vai me pegar, pai!
Um pequeno borrão de cabelo preto e olhos dourados cruzou o gramado a uma velocidade impossível para uma criança de quatro anos. Leo, nosso primogênito.
Caspian correu atrás dele, fingindo que não conseguia alcançá-lo, rosnando em tom de brincadeira.
Eu estava sentada em um banco de pedra, com uma mão na minha barriga de sete meses de gravidez, sorrindo enquanto observava meus dois filhos brincarem.
O reino havia mudado. As antigas leis que discriminavam os lobos de baixa patente haviam sido abolidas. As escolas estavam abertas a todos. Os Redimidos haviam se tornado a força de paz mais respeitada do continente. E a lenda da Rainha Prateada era contada em todos os lares.
Dario havia ascendido ao posto de Beta em sua matilha por mérito próprio, e Lydia estudava medicina na universidade. Às vezes, eles vinham visitá-los, e embora o passado nunca seja completamente esquecido, as feridas haviam cicatrizado.
—Mãe, mãe! Olha!
Leo parou na minha frente, ofegante. Em sua pequena mão, ele segurava uma flor azul.
“Para você, minha Rainha”, disse ele, imitando o tom solene de seu pai.
Eu ri e aceitei.
—Obrigado, meu príncipe.
Caspian sentou-se desleixadamente no banco ao meu lado, passou um braço em volta dos meus ombros e beijou minha têmpora.
“Ele é rápido”, comentou ela, observando nosso filho perseguir uma borboleta. “Ele vai ser um ótimo Alfa.”
“Ele vai ser um grande homem”, corrigi. “Alfa ou não.”
-VERDADEIRO.
Caspian colocou a mão na minha barriga, e o bebê lá dentro deu um chute entusiasmado.
—Como ela está?
—Ela está inquieta. Acho que ela quer entrar na corrida agora.
—Outra guerreira, como sua mãe.
Eu me encostei nele, fechei os olhos, aproveitando o sol, o cheiro de pinheiros e flores, a paz que tinha sido tão difícil para nós conquistarmos.
Às vezes, eu ainda tinha pesadelos com a masmorra. Com a sensação da corrupção invadindo minhas veias. Mas toda vez que eu acordava gritando, Caspian estava lá, me abraçando, me lembrando quem eu era.
Olhei para a marca no meu ombro. Ela não brilhava mais constantemente, apenas quando eu queria ou quando sentia uma emoção forte. Ela havia se tornado parte de mim, uma lembrança de que a luz mais brilhante nasce da escuridão mais profunda.
—Caspian— eu disse baixinho.
-Hum?
-Obrigado.
Ele olhou para mim, confuso.
-Porque?
—Por me enxergar. Quando ninguém mais o faria. Por esperar por mim.
Caspian sorriu, e eu vi em seus olhos o mesmo amor intenso do primeiro dia, amadurecido pelos anos e pelas provações.
—Eu não tive escolha, Beatriz. Minha alma te reconheceu antes mesmo de meus olhos te verem. Você é o meu destino.
Leo pulou em cima de nós, interrompendo o momento com um grito de guerra, e nós três acabamos rindo e nos abraçando muito no banco do jardim.
A garota rejeitada havia morrido há muito tempo. A Rainha havia nascido. Mas naquele momento, ela era apenas Beatriz. Mãe, companheira, loba. E ela era perfeitamente feliz.
FIM