VENDIDO AO REI ALEIJADO: PENSEI QUE MINHA VIDA TINHA ACABADO, MAS QUANDO ELE SE LEVANTOU DA CADEIRA DE RODAS, SOUBE QUE A VINGANÇA ESTAVA APENAS COMEÇANDO.
CAPÍTULO 1: O PREÇO DO SANGUE
(Esta história é para todos aqueles que foram subestimados. Para aqueles que tiveram que engolir veneno e sorrir. Para aqueles que sabem que a vingança é um prato que se cozinha lentamente, muito lentamente.)
A chuva em Madri tem um jeito peculiar de cair nos bairros pobres. Em Vallecas, a água não limpa as ruas; apenas faz a sujeira brilhar sob a luz alaranjada dos postes quebrados. Era uma terça-feira fria e úmida de novembro quando senti que minha vida, como eu a conhecia, havia chegado ao fim definitivamente.
Subi as escadas do meu prédio arrastando os pés. O elevador estava fora de serviço há três meses, e minhas pernas, depois de doze horas de turnos duplos — primeiro limpando escritórios em Azca e depois servindo mesas em um barzinho decadente em Entrevías — pareciam de chumbo. Minhas costas doíam exatamente onde estava a cicatriz, aquele lembrete constante de que, neste mundo, se você não tem dinheiro, você é bucha de canhão.
Ao colocar a chave na fechadura, ouvi o tilintar de garrafas. Parei. Um arrepio, completamente alheio ao frio lá fora, percorreu minha nuca. Meu pai, Roberto, estava em casa. E, a julgar pelo som, não estava sozinho; estava com seu velho amigo: a garrafa de uísque barato do Mercadona.
Empurrei a porta. O cheiro me atingiu como um tapa na cara: uma mistura rançosa de tabaco preto, álcool evaporado e aquele aroma doce e podre do desespero.
Roberto estava sentado no sofá, aquele que tínhamos resgatado do lixo cinco anos atrás. Ele encarava fixamente a televisão desligada, mas quando entrei, virou a cabeça com uma rapidez que me alarmou. Seus olhos estavam vermelhos, sim, mas havia algo mais. Um brilho febril. Uma espécie de euforia maníaca que me assustava mais do que sua habitual depressão causada pela bebida.
“Isabel, minha filha”, disse ele, com a voz embargada. “Sente-se. Precisamos conversar. Não, melhor ainda… precisamos comemorar.”

Deixei minha bolsa na mesa da cozinha, empurrando para o lado uma pilha de contas de luz ainda fechadas com o aviso “CORTAÇÃO IMINENTE” em letras vermelhas. “Não tenho nada para comemorar, pai. Meus pés doem e preciso acordar às cinco amanhã. Se você vai me pedir dinheiro para o bingo, a resposta é não. Não tenho nenhum. É isso.”
Roberto soltou uma risada seca, quase um coaxar. Levantou-se do sofá, cambaleando um pouco, mas se obrigou a ficar de pé. Caminhou até mim e agarrou meus ombros. Suas mãos tremiam. “Não é dinheiro que eu preciso, filha. É que não precisamos mais dele. Acabou!”, gritou, e um pouco de saliva caiu na minha bochecha. “A dívida. Os cinco milhões de euros que eu devia aos russos… desapareceram.”
Eu paralisei. Meu coração disparou dolorosamente contra as costelas. “Do que você está falando?”, sussurrei, sentindo o chão tremer sob meus pés. “Ninguém perdoa uma dívida de cinco milhões de euros, pai. Aqueles homens… aqueles homens matam por quinhentos euros. O que você fez?”
Roberto me soltou e sentou-se novamente, enchendo outro copo até a borda. “Eles não a perdoaram, Isabel. Eles a compraram. Alguém absorveu minha dívida. Alguém muito poderoso. Alguém que busca… uma aliança.”
“Uma aliança?”, repeti, incrédulo. Olhei em volta do nosso apartamento de cinquenta metros quadrados, com o teto úmido e os móveis descascando. “Que tipo de aliança alguém poderia querer com um bêbado falido como você? Não temos nada.”
Roberto evitou meu olhar. Olhou para as mãos, aquelas mãos que nunca tinham feito trabalho pesado, apenas embaralhado cartas e jogado dados. “Comigo não, Isabel”, murmurou ele, tão baixo que mal consegui ouvi-lo. “Com você.”
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Eu não conseguia nem ouvir o trânsito na Avenida de la Albufera. Só conseguia ouvir o pulsar do meu próprio sangue nos meus ouvidos.
“O que você disse?”, perguntei, com a voz gélida.
“Gabriel Valdés”, ele pronunciou o nome como uma bomba. “O chefe da família Valdés.”
Dei um passo para trás, esbarrando no balcão da cozinha. Toda Madri conhecia aquele nome. A família Valdés era a realeza do crime organizado na Espanha. Controlavam a construção civil, os portos, a política. Mas Gabriel… —O Aleijado—, eu disse, sentindo náuseas—. O Rei Quebrado.
Há três anos, Gabriel Valdés sobreviveu a um atentado. Um carro-bomba no coração do bairro de Salamanca. Ele sobreviveu milagrosamente, mas corriam boatos de que estava destruído. Fisicamente paralisado, mentalmente instável. Um vegetal numa cadeira de rodas, babando e precisando de fraldas.
“Ele precisa de uma esposa”, continuou meu pai, falando rapidamente agora, como se quisesse dizer as palavras antes que se arrependesse. “Os conselheiros dele, aquele tal de Victor Cortes… dizem que ele precisa de uma imagem de estabilidade para impedir que os abutres tomem conta da empresa. Precisam de alguém discreta. Alguém que não faça perguntas. Alguém que cuide dele.”
—E você me ofereceu isso—eu disse. Não era uma pergunta.
“Eles iam me matar, Isabel!” gritou ele de repente, batendo com o punho na mesa e fazendo o copo voar. “Os russos me deram um ultimato! Iriam vir esta noite e cortar meus dedos um por um! Víctor Cortés descobriu a dívida e me ofereceu um acordo. Sua mão em troca da minha vida. Em troca da nossa liberdade.”
“Nossa liberdade?” Eu ri, uma risada histérica e entrecortada. “Não, pai. Sua liberdade. Você está me condenando a uma gaiola dourada com um homem que não consegue nem limpar a própria bunda. Você está me vendendo como uma cabra.”
Roberto se levantou, o rosto vermelho de raiva e vergonha. “Você deveria estar me agradecendo! Vai morar num palácio! Terá criados! Nunca mais precisará limpar a bagunça dos outros! Que futuro você tem aqui, hein? Casar com algum mecânico da vizinhança e ter três filhos antes dos trinta? Estou lhe dando uma saída!”
—Você está me dando a mesma coisa que deu ao Rafa!
O nome do meu irmão caiu entre nós como uma bigorna. O rosto do meu pai empalideceu. A raiva desapareceu, substituída por puro medo.
“Não… não fale dele”, gaguejou ele.
“Vou falar sobre ele!” gritei, e as lágrimas que eu vinha segurando há anos começaram a arder nos meus olhos. “Ele tinha quatorze anos, pai. Quatorze! E você o vendeu para aquela quadrilha de tráfico humano por causa de uma dívida de pôquer. Você deixou que o levassem bem na minha frente enquanto eu gritava. E agora… nove anos depois, você está fazendo a mesma coisa comigo.”
Aproximei-me dele, com os punhos cerrados, desejando ter coragem para lhe dar um soco. “Você é um monstro. Eu queria que os russos tivessem te encontrado.”
Roberto desabou no sofá, enterrando o rosto nas mãos, soluçando com o choro patético de quem sabe que é culpado, mas não tem a menor intenção de mudar. “Eu não tive escolha, Isabel… Eu não tenho escolha. Eles vêm te buscar amanhã às oito. O carro dos Valdés. Se você não estiver lá… Víctor disse que a dívida está sendo reativada. E desta vez, eles não vão me matar sozinho. Ele disse… ele disse que começariam por você. Que te levariam para um dos clubes deles na fronteira antes de te matar.”
Fiquei ali parada, encarando o homem que me dera a vida e depois a tirara duas vezes. Senti algo se quebrar dentro do meu peito. Não era meu coração; esse já estava despedaçado desde que levaram Rafa. Era a esperança.
“Tudo bem”, eu disse, com uma calma que me assustou. “Eu vou.”
Meu pai ergueu os olhos, surpreso. “Você vai fazer isso?”
—Eu farei isso. Mas não por você. Não por causa da sua dívida. Farei isso porque prefiro estar no inferno com o diabo do que viver mais um minuto sob o mesmo teto que você.
Me virei e entrei no meu pequeno quarto. Tirei a velha mala debaixo da cama. Enquanto arrumava minhas poucas roupas — algumas calças jeans usadas, dois vestidos baratos, meu uniforme — minha mente começou a trabalhar. Fria. Calculista.
Gabriel Valdés. A família Valdés tinha recursos infinitos. Tinham olhos e ouvidos em todo o lado. Se alguém em Espanha conseguisse encontrar um rapaz desaparecido há nove anos, seriam eles. Talvez, só talvez, esta maldição fosse uma oportunidade. Eu casaria com o Rei Aleijado. Suportaria a sua deficiência, a sua loucura. E usaria o seu poder para encontrar o Rafa.
E quando eu conseguisse… quando meu irmão voltasse, eu voltaria para buscar meu pai. E que Deus me perdoe, mas eu não teria misericórdia.
CAPÍTULO 2: A GAIOLA DOURADA
Na manhã seguinte, o bairro de Vallecas despertou sob uma névoa cinzenta. Mas em frente ao meu prédio, quebrando a monotonia dos carros amassados e das vans de entrega, estava um Rolls-Royce Phantom preto tão polido que parecia um buraco negro na realidade.
Saí do prédio com minha mala. Não olhei para trás. Meu pai não tinha saído do quarto. É melhor assim.
Um homem saiu do carro. Ele vestia um impecável terno preto e óculos escuros, apesar do tempo nublado. Abriu a porta traseira para mim sem dizer uma palavra, sem um sorriso. Senti como se estivesse entrando em um carro funerário.
A viagem durou quarenta minutos, mas pareceu que atravessamos dois mundos diferentes. Deixamos para trás os blocos de tijolos aparentes, as roupas estendidas nas varandas e os grafites, para entrar na Madri das largas avenidas, das árvores perfeitamente podadas e das imponentes fachadas do século XIX.
O carro parou em frente a uma mansão em La Moraleja, protegida por muros de pedra de três metros de altura e câmeras de segurança a cada cinco passos. O portão de ferro forjado, adornado com dois leões rampantes, abriu-se lentamente.
Ao sair do carro, o ar tinha um cheiro diferente. Cheirava a pinheiros, terra úmida e dinheiro antigo.
Dois homens me esperavam na entrada. Eu os reconheci pelas fotos nas colunas de fofoca e nas páginas de crimes.
O mais velho era Víctor Cortés. O “Regente”. O homem que comandava o império Valdés desde o acidente de Gabriel. Tinha cerca de cinquenta anos, cabelos grisalhos penteados para trás com gel e um rosto tão afiado quanto o de uma ave de rapina. Olhou para mim com a mesma expressão que se faz para um sapato sujo.
O outro era mais novo. Mateo Cortés, filho de Víctor. Loiro, bonito à moda dos anúncios de perfume, mas com olhos que podiam despir-te e, ao mesmo tempo, fazer-te sentir impuras.
“Você está na hora”, disse Victor, sem estender a mão. “Sou Victor Cortés. Este é meu filho, Mateo. Presumo que seu pai já tenha lhe explicado as regras.”
“Ele me disse que você me comprou”, respondi, mantendo o queixo erguido. “Ele não mencionou nenhuma regra.”
Mateo caiu na gargalhada e desceu um degrau, invadindo meu espaço pessoal. Ele cheirava a tabaco caro e colônia excessivamente doce. “Ele tem personalidade, pai. Gostei. Aquele velho bêbado disse que você era bonita, mas foi modesto.” Ele levantou a mão e tentou tocar uma mecha do meu cabelo.
Afastei a mão dele com um tapa. “Não me toque”, eu disse, fixando meus olhos nos dele.
Mateo sorriu, mas seus olhos se tornaram frios. “Relaxe, gatinha. Eu só estava conferindo a mercadoria. Seria uma pena desperdiçar uma beleza como você cuidando de um vegetal. Gabriel não pode… bem, você sabe. Ele não pode fazer nada. Se algum dia você se sentir sozinha à noite e precisar de um homem de verdade, meu quarto fica na ala leste.”
“Prefiro dormir com uma víbora”, respondi.
Victor estalou a língua impacientemente. “Chega, Mateo. E você, garota, se acalme. Você não é ninguém aqui. É só uma funcionária de luxo com um anel no dedo. Seu trabalho é limpar a baba do Gabriel, sorrir para as fotos e ficar de boca fechada. Se fizer isso bem, viverá confortavelmente. Se não… bem, acidentes acontecem.”
“Quero vê-lo”, eu disse, ignorando sua ameaça.
—Claro. Vamos apresentar você ao seu… noivo.
Eles me guiaram pela mansão. Era impressionante, sim. Tetos altos, obras de arte originais, tapetes persas. Mas era fria. Não havia fotos de família, nem flores frescas, nem vida. Era um mausoléu.
Chegamos a uma enorme biblioteca no térreo. As cortinas estavam semiabertas, deixando o ambiente com pouca luz.
“Ali está ele”, disse Victor, apontando para a lareira apagada. “O grande Gabriel Valdés.”
Aproximei-me lentamente. Meu coração batia forte contra as costelas. Ele estava em uma cadeira de rodas de alta tecnologia, coberta de botões e suportes. Mas o homem nela parecia um trapo.
Gabriel Valdés. Ele se lembrava dele das reportagens antes do acidente: alto, forte, com um olhar capaz de derreter câmeras. O homem à sua frente era uma sombra. Sua cabeça estava caída sobre o ombro direito, como se seu pescoço não pudesse sustentá-la. Seus cabelos negros caíam sobre a testa, um pouco compridos e despenteados. Suas mãos repousavam frouxamente nos braços da poltrona, os dedos curvados em uma garra espasmódica.
E a pior parte era a boca dele. Estava entreaberta, e um fiozinho de saliva escorria do canto dos lábios, molhando a gola da camisa branca.
Atrás da cadeira, imóvel como uma estátua, estava um homem gigantesco e careca com um semblante severo. Presumi que fosse seu guarda-costas pessoal.
“Gabriel”, disse Victor, falando muito alto e muito devagar, como se estivesse falando com um idiota. “Gabriel, veja quem chegou. É Isabel. Sua namorada. Você se lembra do casamento?”
Gabriel soltou um som gutural, um gemido rouco. Sua cabeça virou muito lentamente, em movimentos bruscos, até que seu rosto ficou diretamente em frente ao meu. Seus olhos eram cinzentos. Cinzentos como uma tempestade. Mas eram vidrados, desfocados. Pareciam olhar através de mim, para o nada.
“Não… não… via…” ele gaguejou. As palavras saíram arrastadas e confusas.
Senti uma pontada de dor no peito. Não por mim, mas por ele. Ver um ser humano reduzido a isso, exibido pelos mesmos homens que devoravam sua fortuna, foi cruel.
Ajoelhei-me à sua frente para não ter que olhar para ele de cima. Peguei um lenço de papel do bolso e limpei delicadamente a saliva do seu queixo. “Olá, Gabriel”, disse baixinho. “Sou Isabel.”
Ele piscou lentamente. Seu olhar percorreu meu rosto. “Bo… ni… ta…” ele conseguiu dizer.
Mateo riu da porta. “Patético. O Leão de Madrid virou um bebê gigante. Está vendo o que te espera, Isabel? Trocar fraldas e ouvir balbucios.”
Ignorei Mateo e encarei os olhos de Gabriel. E então, aconteceu. Foi tão rápido que pensei ter imaginado. Por uma fração de segundo, quase um instante, a névoa nos olhos cinzentos de Gabriel se dissipou. O véu vítreo se levantou e, de repente, eu estava encarando um abismo de inteligência afiada e fria. Não havia loucura naquele olhar. Havia cálculo. Havia uma intensidade predatória que me deixou sem fôlego. Ele olhou para mim, olhou para mim de verdade, e eu vi um aviso claro: Não diga nada .
Então suas pálpebras caíram, sua cabeça inclinou-se novamente e ele tornou-se inválido mais uma vez.
Sentei-me de repente, tonta. Olhei para Víctor, Mateo, o guarda-costas. Ninguém parecia ter notado. “Ele… ele está tomando algum remédio?”, perguntei, tentando disfarçar o tremor na minha voz.
“Com firmeza”, disse Victor, olhando para o relógio. “É o único jeito de mantê-lo calmo. Às vezes ele tem… crises. Ele grita. Ele se bate. É melhor assim. Bom, o casamento é daqui a três dias. Vão te levar para o seu quarto. Você vai provar o vestido amanhã. E lembre-se, Isabel: ele não entende nada, mas nós vemos tudo.”
Saí da biblioteca arrepiada. Minha mente gritava uma coisa: É mentira . Aquele homem não estava em estado vegetativo. Aquele homem estava lá, preso em seu próprio corpo, ou… fingindo. E se ele estivesse fingindo, então esse jogo era muito mais perigoso do que meu pai jamais poderia ter imaginado.
CAPÍTULO 3: O CASAMENTO NEGRO
Os três dias seguintes passaram como um borrão. Trataram-me como uma boneca. Mediram-me, vestiram-me, arrumaram-me o cabelo. Ninguém pediu a minha opinião. Ninguém me perguntou como eu estava.
Eu mal vi Gabriel. Mantiveram-no em sua ala da casa, “descansando”. Mas eu senti sua presença. Senti aqueles olhos cinzentos me observando das sombras.
O casamento foi realizado na capela particular da propriedade. Não havia flores brancas, nem música alegre, nem convidados chorando de emoção. A capela estava repleta de homens de terno escuro: sócios, políticos corruptos e chefes de clãs rivais que vieram conferir se o boato era verdadeiro: se a família Valdés estava acabada.
Eu usava um vestido de renda e seda que custava mais do que eu poderia ganhar em dez vidas, mas me sentia nua. Caminhei sozinha até o altar. O silêncio era profundo, quebrado apenas pelo som dos meus saltos na pedra e pelos sussurros cruéis dos convidados.
“Pobre coitada”, disse uma mulher adornada com joias. “Tão jovem e condenada a ser enfermeira.” “Dizem que ela foi comprada num leilão de dívidas”, riu um homem. “Uma moça da classe trabalhadora para limpar a bagunça do rei.”
Cheguei ao altar. Gabriel estava lá, em sua cadeira, vestindo um impecável terno preto que contrastava fortemente com sua postura curvada. Marcos, o guarda-costas gigante, estava atrás dele, amparando-o. A cabeça de Gabriel estava baixa. Ele não olhou para mim.
O padre realizou a cerimônia em cinco minutos, como quem lê um documento burocrático. —Gabriel Valdés, você aceita Isabel García como sua legítima esposa?
Gabriel soltó un gemido ininteligible. Víctor, que hacía de padrino, asintió por él. —Dice que sí.
—Isabel García, ¿acepta…?
Miré a Gabriel. Miré sus manos inertes. Miré a Víctor, sonriendo con suficiencia. Miré a Mateo, guiñándome un ojo desde la primera fila. Pensé en Rafa. Pensé en mi padre. Pensé en la libertad. —Sí, acepto.
—Os declaro marido y mujer. Puede besar a la novia.
Me incliné sobre la silla. El olor de Gabriel era una mezcla de sándalo y algo metálico, limpio y masculino. Sus labios estaban fríos, pero cuando los rocé con los míos, sentí una tensión eléctrica. Por segunda vez, sentí algo que no debería estar ahí. Una ligera presión de sus labios contra los míos. Un beso real. Me separé rápidamente, con el corazón desbocado.
La recepción fue una tortura. Víctor y Mateo se paseaban como dueños y señores, recibiendo felicitaciones por su “gestión caritativa” de la empresa y la familia. Yo me quedé junto a la silla de Gabriel en una esquina, como un mueble más.
—¿Tienes sed? —le pregunté en un susurro, sintiéndome estúpida hablando con alguien que supuestamente no entendía.
Gabriel no respondió. Pero su mano derecha, oculta bajo la manta que cubría sus piernas, se movió. Su dedo índice golpeó el reposabrazos dos veces. Tac-tac. Un código.
Tragué saliva. Miré alrededor. Nadie nos prestaba atención. —¿Entiendes lo que digo? —susurré. Tac-tac. Dos golpes. Sí.
El aire se me escapó de los pulmones. —¿Es todo una actuación? Tac-tac.
Dios mío. Me acerqué más, fingiendo acomodarle la corbata. —¿Por qué? —le susurré al oído.
Esta vez no hubo golpes. Solo un susurro, tan bajo que el ruido de la música lo cubrió casi por completo, pero tan claro que se grabó en mi cerebro. —Esta noche. En mi habitación. No cierres la puerta con llave.
Me aparté de golpe, fingiendo una sonrisa nerviosa para cualquiera que estuviera mirando. Gabriel volvió a dejar caer la cabeza, babeando un poco. El Rey Tullido no estaba roto. El Rey estaba cazando. Y yo acababa de convertirme en su cómplice.
CAPÍTULO 4: LA REVELACIÓN
La suite nupcial era enorme, fría y estaba decorada con velas que parecían puestas para un funeral más que para una noche de bodas. Me habían dejado allí sola después de llevarse a Gabriel a su habitación contigua, conectada por una puerta doble.
Víctor me había dado las instrucciones antes de irse: —No lo molestes. Marcos lo acostará. Si necesita algo por la noche, sonará un timbre. Tu trabajo es ir y ver qué pasa. Nada más. Buenas noches, señora Valdés.
Cerré la puerta principal y me quedé de pie en medio de la habitación, temblando. Llevaba puesto un camisón de seda blanca que me habían dejado sobre la cama. Me sentía ridícula.
Las horas pasaron. El reloj de pared marcó la una, las dos… La casa se sumió en el silencio absoluto.
Miré la puerta comunicante. “No cierres con llave”, había dicho. Me senté en el borde de la cama, esperando. ¿A qué? ¿A que entrara caminando? ¿A que me mataran por saber demasiado?
A las tres de la mañana, escuché un sonido. No fue el timbre. Fue el clic suave de la cerradura de la puerta comunicante girando. La puerta se abrió.
Contuve la respiración, esperando ver la silla de ruedas. Pero la silla no apareció.
Primero vi una mano agarrando el marco de la puerta. Una mano fuerte, venosa, firme. Y luego, una figura emergió de las sombras.
Gabriel Valdés entró en mi habitación. Caminando. No caminaba con dificultad. No cojeaba. Se movía con la gracia letal de una pantera. Llevaba puestos unos pantalones de pijama oscuros y una camiseta negra que se ajustaba a un torso ancho y musculoso.
Se cerró la puerta a su espalda y se giró hacia mí. Ya no había cabeza ladeada. Ya no había boca abierta. Ya no había ojos vidriosos. Su postura era recta, imponente, ocupando todo el espacio con una autoridad que me hizo sentir diminuta. Sus ojos grises brillaban en la oscuridad con una inteligencia feroz.
—Cierra la boca, Isabel —dijo, y su voz era grave, profunda, como el rugido de un motor potente—. Si gritas, el juego se acaba y los dos morimos antes del amanecer.
Me puse de pie de un salto, retrocediendo hasta chocar con el tocador. —Tú… tú caminas —tartamudeé—. Todo es mentira. Llevas tres años engañándolos a todos.
Gabriel avanzó hacia mí. No con prisa, sino con determinación. Se detuvo a un metro de distancia. Podía sentir el calor que emanaba de su cuerpo, la energía contenida. —Llevo tres años sentado en esa maldita silla, viendo cómo los hombres que juraron lealtad a mi padre me robaban, se burlaban de mí y planeaban mi muerte. Tres años siendo un mueble en mi propia casa. Tres años esperando el momento perfecto para levantarme y cortarles la cabeza.
—¿Por qué? —pregunté, incapaz de procesar la magnitud del engaño—. ¿Por qué seguir fingiendo?
—Porque Víctor Cortés fue quien puso la bomba en mi coche —dijo Gabriel con frialdad—. Él intentó matarme. Si hubiera despertado del coma sano, lo habría intentado de nuevo y probablemente habría tenido éxito. Necesitaba que se confiaran. Necesitaba que creyeran que el león estaba muerto para que las hienas se acercaran lo suficiente. Y ahora… ahora tengo la lista de todos los traidores. Tengo las pruebas.
Se acercó un paso más. Levantó una mano y, con una delicadeza sorprendente, me tocó la barbilla, obligándome a mirarlo a los ojos. —Pero me faltaba una pieza. Necesitaba a alguien que pudiera entrar donde yo no puedo. Alguien que nadie sospechara. Una esposa trofeo. Una chica de barrio asustada a la que todos ignoran.
Me aparté de su toque, recuperando mi fuego. —Me has usado. Igual que mi padre.
Gabriel sorriu, e desta vez não era um sorriso amigável, mas o sorriso de um predador admirando sua presa. “Eu escolhi você, Isabel. Eu tenho te observado. Eu sei quem você é. Eu sei que você trabalha dezesseis horas por dia e não reclama. Eu sei que você enfrentou um cobrador de dívidas com uma faca de cozinha dois anos atrás. Você tem coragem. E você tem ódio.”
Ele se virou, caminhou até a mesinha onde havia uma garrafa de uísque e se serviu de dois copos. Virou um de uma vez e me ofereceu o outro. “E eu sei sobre Rafael.”
O mundo parou. O som daquele nome em seus lábios, pronunciado com sua voz verdadeira, foi como um golpe físico. “O que você sabe?”, sussurrei.
—Eu sei que seu pai o vendeu. Sei que você o procura há nove anos. E sei onde ele está.
Senti minhas pernas fraquejarem. Agarrei a borda da penteadeira para não cair. “Diga-me”, implorei, com os olhos marejados. “Diga-me!”
“Ele está vivo”, disse Gabriel, olhando fixamente para mim. “Ele está em uma casa segura ao sul de Cádiz, controlada por uma facção da máfia russa. A mesma facção para a qual Víctor Cortés está negociando a venda das minhas rotas de transporte.”
Aproximei-me dele, agarrei seu braço e cravei minhas unhas em seu bíceps duro como pedra. “Me ajude a tirar isso. Por favor. Eu faço qualquer coisa.”
Gabriel olhou para minhas mãos em seu braço e depois para meus olhos. Sua expressão suavizou-se um pouco. “É o seguinte, Isabel. Haverá um jantar de gala beneficente aqui amanhã à noite. Victor planeja anunciar minha incapacidade legal total e assumir o controle completo da empresa. Ele vai assinar o acordo com os russos no meu escritório enquanto eu estiver ‘dormindo’.” Ele se inclinou em minha direção, seu rosto a centímetros do meu. “Quero que você seja meus olhos e ouvidos amanhã. Quero que você distraia Mateo. Quero que você me ajude a destruí-los. E quando Victor cair… eu mesmo irei encontrar seu irmão e trazê-lo de volta para você.”
Olhei para aquele homem. O Rei Aleijado, que na verdade era um guerreiro à espreita na escuridão. Vi a sede de vingança em seus olhos, a mesma sede que eu alimentava há nove anos. Peguei o copo de uísque que ele me ofereceu e o bebi de um só gole. O líquido queimou minha garganta, despertando-me.
“Fechado”, eu disse, batendo o copo na mesa. “Por onde começamos?”
Gabriel sorriu. “Comece tirando esse camisolão ridículo e vestindo roupas confortáveis. Temos trabalho a fazer. Vamos revisar o Livro Negro.”
CAPÍTULO 5: O PACTO DAS SOMBRAS
O uísque queimava, mas a verdade queimava ainda mais.
Coloquei o copo sobre a mesa de mogno com um baque seco que ecoou no silêncio da madrugada. Gabriel Valdés estava parado diante da janela, contemplando os jardins escuros de sua própria prisão dourada. Ele não era mais o homem destruído que me fora apresentado na capela. Sua silhueta contra a lua cheia era como uma montanha: imóvel, perigosa e repleta de segredos.
“O Livro Negro”, eu disse, quebrando o silêncio. Meus olhos se fixaram no caderno de couro gasto que ele havia tirado de um compartimento escondido sob o assoalho, embaixo de onde ele costumava estacionar sua cadeira de rodas. “O que exatamente tem aí dentro?”
Gabriel se virou. Seus movimentos eram fluidos, uma dança de músculos controlados que contrastava fortemente com a imagem espasmódica que ele havia projetado por três anos. Ele se aproximou da mesa, abriu seu caderno e o virou na minha direção.
—A autópsia de uma traição, Isabel.
Aproximei-me. As páginas estavam cobertas por uma caligrafia compacta e meticulosa, escrita com tinta preta. Havia datas, horários, nomes, valores e números de contas bancárias.
—Veja aqui—ele apontou para uma anotação de seis meses atrás—. 14 de maio. Víctor Cortés se encontra com Sergei Volkov no Hotel Ritz. Quarto 404. Eles transferem três milhões de euros da conta de operações logísticas para uma empresa de fachada nas Ilhas Cayman. Descrição: “Consultoria externa”.
“Roubo”, sussurrei.
“Desfalque sistemático”, corrigiu ele, com a voz fria como aço. “Mas isso é só o dinheiro. Dinheiro pode ser recuperado. O que não pode ser recuperado é sangue. Vire a página.”
Obedeci. Meus dedos tremeram levemente enquanto eu virava o papel grosso. A página seguinte não tinha números, mas transcrições de conversas.
—“A planta não vai durar mais um inverno. Se não morrer por causas naturais, nós a ajudaremos. Um travesseiro, um deslize com a medicação… ninguém vai fazer perguntas.”
Senti um arrepio percorrer minha espinha. Li a anotação na margem: Voz identificada: Mateo Cortés. 2 de fevereiro. 3h45. Corredor principal.
Olhei para Gabriel. Seu rosto era uma máscara de pedra, mas seus olhos cinzentos ardiam com um fogo contido. “Você os ouviu tramando seu assassinato.”
“Eu os ouvi rindo”, disse ele, com a voz baixando uma oitava e ficando rouca. “Ouvi Mateo apostando com o pai sobre quanto tempo eu levaria para me engasgar com a minha própria saliva. Ouvi Victor dizer que era uma pena a bomba não ter me explodido em pedacinhos, porque limpar a minha ‘sujeira’ era um saco.”
Ele se inclinou sobre a mesa, com os punhos apoiados no caderno. “Imagine, Isabel. Imagine-se presa em uma cadeira, fingindo que sua mente é purê de batatas, enquanto os homens que seu pai acolheu como família, os homens a quem você deu poder e riqueza, discutem se devem matá-la agora ou espremer um pouco mais. Imagine ter forças para se levantar e quebrar seus pescoços, mas ter que ficar imóvel, babando, deixando que acariciem sua cabeça como um cachorro sarnento.”
A intensidade da sua dor me impressionou. Compreendi então que a sua paralisia fingida não fora uma estratégia covarde, mas um exercício de força de vontade sobre-humana. Era preciso uma mente de ferro para suportar aquela humilhação diária sem se quebrar.
“Por que agora?”, perguntei. “Por que se revelar amanhã?”
“Porque amanhã eles vão cruzar a linha vermelha.” Gabriel fechou o livro com força. “Amanhã, durante o Jantar de Gala Beneficente, Victor assinará um acordo com o Sindicato Volkov. Ele não vai apenas vender minhas rotas de transporte. Ele vai dar a eles acesso aos portos do sul.”
“E daí?”, perguntei, sem compreender totalmente a gravidade da situação. “São criminosos fazendo negócios com outros criminosos.”
Gabriel olhou para mim com severidade. “Minha família tem regras, Isabel. Meu pai tinha regras. Transportamos mercadorias, sim. Tabaco, álcool, artigos de luxo isentos de impostos. Às vezes, informações. Mas nunca, em hipótese alguma, tocamos em carne humana.”
O ar preso nos meus pulmões. Carne humana. “Tráfico”, sussurrei, pensando em Rafa.
“Víctor e Mateo querem usar a infraestrutura de Valdés para transportar pessoas. Mulheres do leste. Crianças de zonas de conflito. E isso…” Gabriel cerrou os dentes até que um músculo da bochecha se contraiu, “isso é algo que não permitirei enquanto eu viver. Foi por isso que seu irmão desapareceu, Isabel. Porque Víctor começou a fazer esses acordos pelas minhas costas muito antes do acidente. Rafa foi uma das primeiras vítimas de seus ‘testes piloto’”.
A raiva subiu-me à garganta, quente e amarga. Pensei em Mateo, com seu rosto bonito e mãos macias, tocando meu cabelo, fazendo investidas. Pensei em Víctor, com seus ternos caros e ar de respeitabilidade. Eram monstros. Monstros de verdade disfarçados de cavalheiros.
“Quero matá-los”, eu disse. Não foi um pensamento racional. Foi um instinto primitivo.
“E você vai”, prometeu Gabriel. “Mas não com uma arma num beco escuro. Isso seria rápido demais. Fácil demais. Vamos destruí-los na frente de todos. Vamos tirar deles os nomes, o dinheiro, a reputação e a liberdade. E então, quando não forem nada, quando estiverem ajoelhados na lama… aí sim, largaremos a espada.”
Ele estendeu a mão. “Mas preciso que você seja forte. Amanhã será o dia mais difícil da sua vida. Você terá que sorrir enquanto Mateo a insulta. Terá que ser a esposa troféu idiota enquanto Victor destrói meu legado. Você consegue?”
Olhei para a mão dele. Grande. Calejada. Uma mão capaz de construir e destruir. “Já limpei vômito de bêbados por cinco euros a hora, Gabriel. Vi meu pai vender os móveis da minha mãe para jogar pôquer. Suportei nove anos sabendo que meu irmão estava perdido.” Olhei-o nos olhos, deixando-o ver minha própria escuridão. “Não subestime minha capacidade de engolir veneno e cuspi-lo depois.”
Gabriel sorriu. Um sorriso lento, predatório e estranhamente belo. “Ótimo. Então, vamos começar o treinamento. Temos quatro horas antes do amanhecer e Marcos vem me ‘acordar’.”
As quatro horas seguintes foram uma correria. Não houve sexo, nem romance, embora a tensão sexual no ar fosse tão palpável que quase se podia senti-la. Houve trabalho.
Gabriel me ensinou códigos. — Se eu bater duas vezes no braço direito da cadeira, significa “escute com atenção”. Se eu bater uma vez no esquerdo, significa “perigo, afaste-se”. Se eu inclinar a cabeça para trás, significa que preciso que você crie uma distração, qualquer distração. Um desmaio, um grito, derrubar um copo. Qualquer coisa.
Ele me fez memorizar os rostos dos principais associados que estariam presentes no baile de gala. Mostrou-me fotos em um tablet criptografado. “Este é o Juiz Marchena. Corrupto até a medula, mas um covarde. Se vir o navio afundando, será o primeiro a pular fora. Esta é Elena Volkova, filha do contato russo. Vaidosa. Se você a bajular, ela contará tudo.”
Ensaiamos. Eu andava pela sala fingindo ser a anfitriã, e ele, sentado na beira da cama, corrigia minha postura, meu olhar, meu tom de voz.
“Não abaixe a cabeça, Isabel”, repreendeu-me ela quando olhei para baixo depois de uma pergunta imaginária. “Agora você é a Sra. Valdés. Mesmo que seja de Vallecas, mesmo que se sinta pequena… você carrega meu sobrenome. E ninguém, absolutamente ninguém, despreza uma Valdés. Mantenha a cabeça erguida. Olhe para eles como se lhe devessem dinheiro.”
Tentei de novo. Ergui o queixo. Endireitei as costas. Caminhei com a mesma desenvoltura que vira nas mulheres ricas do bairro de Salamanca. Gabriel assentiu, satisfeito. “Melhor. Muito melhor. Você tem garra, Isabel. Só precisa aprender a controlar a chama.”
Às seis da manhã, a luz cinzenta da aurora começou a filtrar-se pelas cortinas. Gabriel levantou-se e esticou os braços, sentindo as costas estalar. “O tempo acabou. Marcos chega em dez minutos.”
Ele olhou para mim uma última vez, agora de pé em toda a sua imponência física. “A partir deste momento, sou o aleijado novamente. Não importa o que aconteça, não importa o que digam. Não reaja. Não olhe para mim em busca de ajuda. Até que eu dê o sinal esta noite, estou indefeso. Entendeu?”
-Entendido.
Gabriel aproximou-se da cadeira de rodas no canto. Sentou-se. E diante dos meus olhos, transformou-se. Seus ombros caíram. Seu pescoço curvou-se naquele ângulo antinatural. Sua boca relaxou até ficar mole. Seus olhos, aqueles olhos cinzentos que minutos antes haviam penetrado minha alma, esvaziaram-se de vida, tornando-se vidrados e vazios. Foi aterrador. E brilhante.
A porta que ligava os dois lados se abriu e Marcos entrou. O gigante olhou para mim, depois para Gabriel na cadeira, e assentiu levemente. Ele sabia que eu sabia. Eu fazia parte do círculo íntimo. “Senhora”, disse Marcos com sua voz grave, “está na hora de se arrumar. Victor quer tomar café da manhã com a senhora para repassar o protocolo.”
Olhei para Gabriel uma última vez. Um fio fino de saliva começava a escorrer pelo seu queixo. Senti uma pontada de dor, mas também de orgulho. Aguenta firme, Rei , pensei. Só mais algumas horas.
CAPÍTULO 6: A DANÇA DAS VÍBORAS
No dia do baile de gala, a mansão se transformou num verdadeiro formigueiro. Equipes de catering, floristas, técnicos de som e seguranças particulares entravam e saíam. O ar estava impregnado com o aroma de lilases frescos e uma tensão palpável.
Eu estava no meu camarim, sendo manipulada por três estilistas que Victor havia contratado. Eles me tratavam como um manequim, puxando meu cabelo, passando pó no meu rosto, apertando o espartilho do vestido até que eu mal conseguisse respirar.
O vestido era espetacular, eu tinha que admitir. Vermelho-sangue. Seda selvagem. Um decote coração que deixava meus ombros à mostra e uma saia com uma fenda lateral ousada. Gabriel o havia escolhido, eu me lembrava. Vermelho. A cor da guerra.
Quando desci as escadas, Victor estava me esperando no saguão. Ele vestia um smoking de veludo preto e segurava uma taça de champanhe. “Ora, ora”, disse ele, olhando-me de cima a baixo. “Parece que dinheiro bem gasto faz milagres. Você quase se parece com uma de nós, Isabel.”
“Obrigada, Victor”, eu disse, forçando um sorriso doce. “Só espero estar à altura das expectativas de Gabriel.”
Victor soltou uma risada seca. “O Gabriel é baixinho, minha querida. O Gabriel é um problema. Mas não se preocupe, hoje à noite anunciaremos minha tutela legal permanente. Eu cuido de tudo. Você só precisa posar para as fotos e garantir que ele não babe nos convidados importantes.”
Naquele instante, Mateo apareceu. Ele vestia um terno branco que o fazia parecer um príncipe de conto de fadas, se príncipes tivessem olhos de cobra. Parou ao meu lado e sussurrou, o suficiente para que Víctor não ouvisse, mas eu conseguisse: “Esse vermelho fica incrível em você. Será que sua roupa íntima combina? Hoje à noite, quando meu pai anunciar que está no comando, vou dar minha própria festa particular. E você será a convidada de honra.”
Senti náuseas, mas me lembrei das palavras de Gabriel: Olhe para eles como se lhe devessem dinheiro . Virei-me para Mateo e encontrei seu olhar. “Cuidado com o que deseja, Mateo. Às vezes, coisas vermelhas… mancham. E sangue é muito difícil de tirar de um terno branco.”
Mateo piscou, surpreso com a minha resposta, mas antes que pudesse replicar, as portas duplas se abriram. O momento havia chegado.
Gabriel apareceu, empurrado por Marcos. Vestia um smoking preto feito sob medida, embora sua postura comprometesse a elegância do traje. Sua cabeça estava caída sobre o peito. Marcos havia discretamente colocado um guardanapo de seda em seu colo para “fugas”.
Caminhei até ele e coloquei a mão em seu ombro. Senti o músculo rígido e tenso sob o tecido. “Oi, querido”, disse em voz alta o suficiente para que todos ouvissem. “Você está lindo.”
Gabriel soltou um rosnado baixo. Sua mão direita, escondida sob o cobertor, bateu uma vez no apoio de braço. Estou pronto .
O baile de gala foi um desfile de hipocrisia. Trezentos convidados lotaram o grande salão. Lustres brilhavam como diamantes, refletindo nas joias das mulheres e nos relógios de ouro dos homens. Políticos, juízes, celebridades da televisão e criminosos de alto escalão estavam todos misturados, todos sorrindo, todos cúmplices.
Caminhei ao lado da cadeira de Gabriel, acenando e sorrindo até minhas bochechas doerem. “Oh, é tão trágico”, ouvi a esposa do prefeito dizer. “Ele era tão bonito. E agora veja só como ele está.”
“Dizem que o cérebro dele liquefez”, comentou um banqueiro. “Victor fez um trabalho exemplar mantendo a empresa à tona.”
Cada comentário era uma facada nas costas. Mas cada comentário também alimentava o fogo nos olhos de Gabriel, que, embora parecessem sem vida, eu sabia que estavam registrando tudo.
No meio da noite, Victor subiu ao palco. A música parou. Um holofote iluminou o “Regent”. “Amigos, parceiros, família”, começou Victor, com sua voz de orador experiente. “Obrigado por virem esta noite. Hoje celebramos não apenas a caridade, mas o futuro.”
Ela fez uma pausa dramática, olhando para onde Gabriel e eu estávamos. “Como vocês sabem, nosso amado Gabriel lutou bravamente nestes últimos três anos. Mas a realidade é dura. Os médicos confirmaram que sua condição é irreversível. Suas capacidades cognitivas se foram para sempre.”
Um murmúrio de tristeza fingida percorreu a sala. “É por isso”, continuou Víctor, tirando um documento do bolso do paletó, “que tomei a dolorosa decisão de assumir a tutela legal plena de Gabriel e o controle total da Empresas Valdés. É o que o pai dele teria desejado. É o que é necessário para proteger seu legado.”
Victor apontou para uma mesa lateral onde estavam sentados alguns advogados e homens com aparência do Leste Europeu. Os russos. “E para inaugurar esta nova era”, disse ele, “vou assinar aqui e agora um acordo histórico com nossos parceiros internacionais, o Grupo Volkov, que expandirá nossos horizontes como nunca antes.”
A sala irrompeu em aplausos. Mateo, ao lado do palco, ergueu seu copo triunfante. Olhei para Gabriel. Sua mão direita bateu duas vezes no apoio de braço. Rápido. Com força. Agora .
Inclinei-me para ele, fingindo enxugar seu rosto. “Chegou a hora, meu amor”, sussurrei.
Endireitei-me e, com a voz projetada do meu diafragma, exatamente como havia ensaiado, gritei: “Espere, Victor!”
Um silêncio sepulcral tomou conta da sala como o de uma guilhotina. Todos se voltaram para mim. Victor, no palco, franziu a testa. “Isabel, minha querida, este não é o momento…”
“Acho que este é o momento perfeito”, eu disse, caminhando para o centro da pista e deixando Gabriel para trás. “Antes de assinar qualquer coisa, antes de vender a empresa… acho que você deveria perguntar ao dono o que ele pensa.”
Victor soltou uma risada nervosa. “Para a dona? Isabel, por favor, não se faça de boba. Gabriel nem sequer pode ter uma opinião sobre a cor das meias dele.”
“Tem certeza disso?”, perguntei, sorrindo.
Então, dei o sinal. Deixei cair minha taça de champanhe no chão. O vidro estilhaçou-se com um som seco e violento.
Atrás de mim, ouvi o guincho dos freios. Não, não eram freios. Era o som do cobertor de Gabriel deslizando para o chão. Um suspiro abafado ecoou pelo quarto. Virei-me lentamente.
Gabriel Valdés ergueu a cabeça. Endireitou o pescoço. Alinhou os ombros. Colocou as mãos nos braços da poltrona e, com um movimento poderoso, impulsionou-se para cima. O Rei Coxo estava de pé.
Ele era imenso. Os holofotes brilhavam sobre ele, e ele parecia um deus vingativo descido do Olimpo. Com calma, ajeitou o paletó do smoking, passou a mão pelos cabelos para ajeitar o rosto e então fixou o olhar no palco.
“Boa noite, Victor”, disse Gabriel. Sua voz, potente e clara, sem qualquer traço de gagueira, preencheu cada canto da sala sem a necessidade de um microfone. “Acho que você está sentado na minha cadeira.”
CAPÍTULO 7: A RESSURREIÇÃO
O caos é algo curioso. Às vezes é barulhento, frenético. Mas outras vezes, o caos é silencioso. É o momento em que trezentas pessoas prendem a respiração ao mesmo tempo, incapazes de processar o que seus olhos estão vendo.
Víctor Cortés congelou no palco, com a caneta tinteiro a meio caminho do papel. Seu rosto passou do vermelho da euforia à palidez mortal em um segundo. “Ga… Gabriel”, gaguejou. O microfone captou seu tremor. “M-mas… os médicos… os relatórios…”
Gabriel começou a andar. Não mancava. Seus passos eram firmes, rítmicos, o som da morte se aproximando em sapatos de couro italiano. As pessoas se afastavam à sua passagem, abrindo um amplo caminho, olhando para ele com uma mistura de terror e reverência.
“Os médicos recebem salário, Victor. Assim como os juízes. Assim como você”, disse Gabriel, caminhando à sua frente. “Três anos. Três anos esperando que você cometesse o erro de achar que tinha vencido.”
Ele chegou ao pé do palco. Mateo, que estava perto da escada, reagiu primeiro. O pânico em seus olhos transformou-se em violência desesperada. “É uma armadilha!”, gritou, sacando uma pequena pistola que escondia na cintura. “Matem-no! Ele está sozinho!”
Mateo apontou para Gabriel. Mas Gabriel não se intimidou. Nem sequer piscou. “Não estou sozinho, Mateo. Nunca estive.”
Antes que Mateo pudesse puxar o gatilho, uma garrafa de vidro voou da multidão e o atingiu na cabeça. Fui eu. Eu havia pegado uma garrafa de vinho de uma mesa próxima e a arremessado com a precisão que se aprende em brigas de bar em Vallecas.
O chute de Mateo passou ao lado do gol, atingindo o teto. Ele cambaleou, atordoado. Nesse instante, Marcos, o guarda-costas gigante, se moveu. Surgiu das sombras e derrubou Mateo com a força de um trem de carga. O estalo de ossos quebrando ecoou quando ambos atingiram o chão.
O pânico se instaurou na sala. Os convidados começaram a gritar e a correr para as saídas. “Fechem as portas!”, ordenou Gabriel. Sua voz ecoou acima da confusão.
As portas maciças do salão se fecharam com um estrondo. Nas varandas superiores, onde os músicos estavam, surgiu uma dúzia de homens armados, portando fuzis de assalto. Eles ostentavam o emblema da velha guarda da família Valdés. Os leais. Aqueles que Marcos havia reunido secretamente.
O silêncio retornou, mais pesado e aterrador do que antes.
Gabriel subiu lentamente os degraus do palco. Victor recuou até esbarrar na mesa de autógrafos. Os russos, percebendo a situação, ergueram as mãos lentamente, deixando claro que não iriam morrer lutando uma luta que não era deles.
Gabriel parou em frente a Victor. Ele era uma cabeça mais alto que ele. A diferença entre o predador alfa e a hiena carniceira nunca tinha sido tão óbvia.
“Eu te dei tudo, Victor”, disse Gabriel, com a voz carregada de uma decepção mais dolorosa que a raiva. “Você era o melhor amigo do meu pai. Você me viu crescer. Eu confiei minha vida a você. E por quê? Por dinheiro? Por inveja?”
Victor tremia tanto que mal conseguia ficar de pé. “Gabriel… filho… escuta. Era necessário. Os negócios estavam mudando. Você era muito fraco. Não queria se envolver com tráfico, não queria evoluir… Fiz isso pela família.”
“Pela família?” Gabriel lhe deu um tapa. Um golpe forte, com as costas da mão, que derrubou Victor no chão. “Você plantou uma bomba no meu carro. Tentou me matar. E quando falhou, me prendeu dentro do meu próprio corpo. Planejou me vender em peças. E sequestrou e vendeu crianças inocentes usando meus caminhões.”
Gabriel se virou para mim. Eu estava aos pés do palco, respirando com dificuldade, meu coração pulsando com pura adrenalina. “Isabel”, ele me chamou. “Suba aqui.”
Subi as escadas. Minhas pernas tremiam, não de medo, mas de expectativa. Gabriel olhou para mim e apontou para Víctor, que rastejava pelo chão tentando fugir. “Este homem comprou sua vida. Este homem é responsável por seu irmão ter sido vendido como gado. Este homem é o arquiteto de toda a sua dor.”
Gabriel tirou o Livro Negro do bolso do paletó e o jogou sobre o peito de Victor. “Está tudo aqui. Cada centavo roubado. Cada criança vendida. Cada traição. A polícia já tem uma cópia. Mas estão demorando para chegar aqui.”
Ele se aproximou de mim e sussurrou: “Eu prometi vingança. Aqui está. O que você quer fazer?”
Olhei para Victor. O homem arrogante que me chamara de “funcionária glorificada” poucas horas antes agora choramingava no chão, com a maquiagem borrada e o lábio rachado. Eu poderia pedir a Gabriel que o matasse. Eu mesma poderia fazer isso. Havia uma arma no chão, aquela que Mateo deixara cair.
Mas então pensei em Rafa. Pensei nos nove anos de busca. A morte foi fácil demais para Víctor. Rápida demais. Agachei-me ao lado dele. Ele cheirava a urina e medo. “Víctor”, eu disse baixinho. “Olhe para mim.”
Ele ergueu o olhar, com os olhos cheios de lágrimas. “Isabel, por favor… eu te tirei da pobreza…”
“Você vai me dizer exatamente onde meu irmão está”, eu disse. “Você vai me dar o código de acesso, o nome do contato russo e a localização exata da cela. E se você mentir para mim, ou se hesitar por um segundo sequer… eu pedirei ao meu marido para deixá-la sozinha com Marcos no porão. E acredite, Marcos tem uma imaginação fértil.”
Victor assentiu freneticamente. “Sim! Sim! Está em Cádiz! No armazém do Porto de Santa Maria. Contêiner 4B. O código é 7734. Eu juro! Leve! Só não me mate!”
Levantei-me e olhei para Gabriel. Assenti com a cabeça. “Entendi.”
Gabriel sorriu. Voltou-se para a plateia, para a elite corrupta de Madri que assistia a tudo aterrorizada. “A festa acabou”, anunciou. “Víctor Cortés e seu filho Mateo estão fora da família. A partir de hoje, a Empresas Valdés está de volta às minhas mãos. E qualquer um que tenha feito negócios escusos com eles…” Seu olhar percorreu a sala, parando no juiz Marchena e nos associados de Víctor. “Considerem isso seu único aviso. Desapareçam. Ou irei atrás de vocês.”
Ele fez um sinal para Marcos. “Leve-os embora. Entregue-os às autoridades… mas certifique-se de que eles tropecem algumas vezes na escada antes de chegarem à delegacia.”
Enquanto os guardas arrastavam Victor e o inconsciente Mateo para fora da sala, Gabriel veio em minha direção. Ele segurou meu rosto entre as mãos na frente de todos. Ele não se importava mais com quem estivesse olhando. “Você se saiu bem, minha rainha.”
“Ainda não acabou”, eu disse, segurando seus pulsos. “Rafa.”
“Eu sei.” Gabriel olhou para o relógio. “O helicóptero está esperando no jardim dos fundos. Levaremos uma hora e meia para chegar a Cádiz. Marcos tem uma equipe tática pronta lá. Vamos resgatar seu irmão. Agora.”
Senti as lágrimas finalmente começarem a fluir. —Sério?
Gabriel beijou minha testa. “Eu te disse que incendiaria o mundo por você, Isabel. O fogo apenas começou. Vamos lá.”
Saímos do salão de baile de mãos dadas, deixando para trás o caos, os gritos e os destroços de uma vida construída sobre mentiras. Caminhamos noite adentro, em direção ao helicóptero cujas hélices já começavam a cortar o ar, rumo ao sul, em direção à verdade.
Eu havia sido vendida ao Rei Aleijado. Mas me apaixonei pelo homem por trás da máscara. E juntos, iríamos recuperar o que era nosso por direito.
CAPÍTULO 8: CINCO ANOS DEPOIS – A RAINHA DE MADRID
Madri não havia mudado, mas nós sim.
Cinco anos se passaram desde a noite em que Gabriel se levantou da cadeira e o mundo estremeceu. Cinco anos desde que resgatamos Rafa daquela caçamba de lixo enferrujada em Cádiz. Cinco anos desde que deixei de ser Isabel, a faxineira de Vallecas, e me tornei Isabel Valdés, a mulher que sussurra no ouvido do Rei.
Eu estava no meu escritório, no 40º andar da Crystal Tower, contemplando o horizonte da cidade . Não usava mais jeans baratos nem tênis surrados. Vestia um terno branco Armani, saltos agulha que tilintavam como marteladas em mármore e um relógio Patek Philippe no pulso que valia mais do que todo o prédio onde morei.
Mas por baixo da seda e do ouro, ela ainda tinha a cicatriz nas costas. E ainda tinha a faca na alma.
A porta se abriu e minha secretária, uma jovem nervosa, entrou. “A senhora Valdés, vereadora de planejamento urbano, está aqui. Ela disse que não pode esperar mais.”
Sorri, mas não calorosamente. “Mostre-lhe como entrar, Lucia. E traga o dossiê vermelho.”
O vereador entrou suando, apesar do ar condicionado. Era um homem baixo e robusto que havia tentado bloquear nosso novo projeto de habitação social no sul de Madri. “Sra. Valdés”, disse ele, tentando parecer autoritário, “já disse ao seu marido que não vou assinar as licenças. Aquele terreno é destinado a escritórios de luxo, não a… caridade.”
Caminhei lentamente em sua direção. “Gabriel não lida com esses assuntos, vereador. Gabriel lida com segurança. Eu lido com expansão. E isso não é caridade. É justiça.”
Abri a pasta vermelha sobre a mesa. Havia fotos. Fotos do vereador em um iate em Ibiza, rodeado de pó branco e pessoas que não eram sua esposa. O rosto do homem empalideceu completamente. “Onde… onde você conseguiu isso?”
“Temos olhos em todos os lugares, vereador.” Fechei a pasta delicadamente. “Ele vai assinar as licenças. Ele vai aprovar a construção do centro médico que meu irmão vai administrar. E ele vai fazer isso hoje. Fui claro?”
O homem estava tremendo. Ele assentiu com a cabeça, incapaz de falar, assinou os papéis com a mão trêmula e fugiu do meu escritório.
Suspirei e me recostei na minha poltrona de couro. O poder era exaustivo. Mas era necessário.
Meu telefone tocou. Era um toque específico. O do Gabriel. “Conte-me”, respondi, suavizando a voz. “Você já fez o político chorar?” perguntou Gabriel. Eu podia ouvir o sorriso em sua voz. “Ele fugiu. Como estão as coisas em casa?” “Sua filha decidiu que não quer comer legumes. Ela diz que se ‘papai é o rei’, ela é a princesa, e princesas só comem sorvete. Preciso de reforços.”
Eu ri. Uma risada genuína, leve. — Estou indo aí.
A mansão em La Moraleja já não era um mausoléu. Agora estava repleta de luz. Havia brinquedos no jardim, flores frescas em todos os cômodos e música.
Quando entrei, fui recebida por um turbilhão de cachos negros e energia inesgotável. “Mamãe!” Sofia, nossa filha de quatro anos, se jogou em meus braços. Ela tinha os olhos cinzentos de Gabriel e meu queixo teimoso. Ela era perfeita. E era a única coisa que eu temia perder.
Gabriel apareceu atrás dela, enxugando as mãos com um pano de prato. Ele vestia jeans e uma camiseta preta, e embora tivesse alguns fios de cabelo grisalhos nas têmporas, ainda era o homem mais imponente que ela já conhecera. Seu mancar havia desaparecido completamente anos atrás, graças a uma reabilitação brutal, embora em dias chuvosos ela às vezes o visse massageando o joelho esquerdo.
“Senti sua falta”, disse ela, dando-me um beijo que me fez esquecer o vereador e a máfia. “Só se passaram seis horas.” “Muitas horas.”
Naquela noite, jantamos em família. Não só nós três. Rafa também veio. Meu irmão tinha mudado. Aos vinte e oito anos, ele não era mais o garoto assustado que tínhamos tirado da lixeira. Ele se formou com honras na faculdade de medicina, financiada por Gabriel, e agora se especializava em cirurgia de trauma.
Mas as sombras ainda estavam lá.
Rafa tinha cicatrizes que suas roupas não conseguiam esconder. Queimaduras de cigarro nos braços. E outras, invisíveis, em sua mente. Ele não gostava de espaços fechados. Dormia com a luz acesa. E quando alguém de repente elevava a voz, ele estremecia.
“Como estão as coisas no hospital, Rafa?”, perguntou Gabriel, servindo-lhe vinho. Gabriel tratava Rafa não como um cunhado, mas como um filho pródigo. Protegia-o com uma ferocidade que por vezes era assustadora.
“Bom”, disse Rafa, sorrindo timidamente. “Hoje participei de uma cirurgia de coração aberto. O Dr. Méndez disse que tenho mãos boas. Mãos firmes.”
“Você tem mãos de cirurgião”, eu disse, apertando a mão dele sobre a mesa. “Mamãe ficaria orgulhosa.”
Rafa baixou o olhar. “Às vezes… às vezes penso que não mereço isto. Que devia ter morrido naquele buraco.”
Gabriel pousou os talheres. O clangor metálico silenciou a todos nós. “Escute, Rafael”, disse Gabriel com aquela voz que não admitia contestação. “Sobreviver não é pecado. É uma vitória. Cada respiração que você dá é um insulto àqueles que tentaram destruí-lo. Você vive porque é forte. E você vive porque nós o amamos. Nunca mais diga isso.”
Rafa assentiu com a cabeça, os olhos marejados. “Obrigado, Gabriel.”
Parecia uma noite perfeita. Paz. Família. Sucesso. Mas, no nosso mundo, a paz é apenas o tempo que o inimigo leva para se reabastecer.
CAPÍTULO 9: O FANTASMA DE Kyiv
O golpe não veio com uma explosão, mas com um presente.
Três dias depois, era aniversário da Sofia. Comemoramos com uma festa no jardim. Castelos infláveis, palhaços e metade da alta sociedade madrilenha trazendo presentes para a filha dos Valdés.
Eu estava observando Sofia enquanto ela brincava, com aquela paranoia constante que nunca desaparecia, quando Marcos, nosso chefe de segurança (agora muito mais velho e com mais cicatrizes), se aproximou de Gabriel e sussurrou algo em seu ouvido.
Observei a transformação no rosto de Gabriel. Seu sorriso paternal desapareceu, substituído pela máscara pétrea do Rei. Ele me fez um gesto discreto. Deixei Sofia com a babá e me aproximei.
“O que houve?”, perguntei baixinho. “Um pacote”, disse Gabriel. “Chegou pelo correio normal. Sem remetente. Mas passou pela segurança porque estava endereçado à ‘Enfermeira’.”
Senti um aperto no estômago. Só uma pessoa me chamava assim, com desprezo. Víctor Cortés. Mas Víctor estava morto. Gabriel tinha se certificado disso na prisão, quatro anos atrás. Um “acidente” no chuveiro.
—Vamos para o escritório.
Na sala blindada, sobre a mesa, havia uma caixa de madeira preta. Marcos a abriu cuidadosamente, usando luvas. Dentro, não havia uma bomba. Havia uma boneca. Uma boneca de porcelana russa antiga. Uma matriosca. Mas estava quebrada. O rosto da boneca estava desfigurado e lágrimas de sangue vermelho vivo haviam sido pintadas nele.
E ao lado da boneca, um bilhete escrito com uma caligrafia elegante e feminina: “O Rei matou o peão, mas esqueceu-se da Rainha. Dívidas de sangue são herdadas, Gabriel. E meu pai, Sergei Volkov, quer receber sua parte.”
Gabriel bateu com o punho na mesa. “Elena Volkova”, rosnou ele.
Lembrei-me do nome. A filha do chefe da máfia russa com quem Victor ia fazer negócios. “Pensei que os russos tivessem se retirado depois do que aconteceu em Cádiz”, eu disse.
“Eles recuaram para se reagrupar”, disse Gabriel, andando de um lado para o outro como um leão enjaulado. “Sergei morreu de câncer no ano passado. Sua filha, Elena, assumiu o controle. Ela é diferente do pai. Não se interessa por dinheiro. É visceral. Vingativa. Nós o humilhamos publicamente, destruímos seus negócios na Espanha. E agora ela está vindo atrás daquilo que mais nos machuca.”
Ela olhou pela janela, em direção ao jardim onde Sofia ria. “Ela está vindo buscar minha filha.”
Um frio pavor me dominou, mas eu o reprimi instantaneamente. Não. Eu não era mais a garota assustada de Vallecas. Eu era Isabel Valdés. “Bem, que ela venha”, eu disse, sacando uma pistola Glock 19 do cofre escondido atrás de um quadro. “Porque desta vez, não vou esperar por um ataque. Desta vez, vou recebê-la à porta.”
CAPÍTULO 10: A CAÇADA
A guerra havia retornado a Madri, mas desta vez era uma guerra de sombras.
Gabriel mobilizou todo o “exército” de Valdés. Reforçamos a segurança. Rafa e Sofía foram transferidos para uma casa segura, um bunker subterrâneo nos arredores da cidade, guardado por dez dos nossos melhores homens.
Eu me recusei a me esconder. “Se eu me esconder, vou parecer fraco”, eu disse a Gabriel. “E se eu parecer fraco, eles vão atacar com mais força. Eu tenho que seguir meu plano. Eu tenho que ser a isca.”
Gabriel detestava a ideia, mas sabia que estava certo. “Marcos será sua sombra. E eu estarei a dois passos de distância, sempre.”
A armadilha foi armada para a inauguração do “Centro Médico Rafael García”, o hospital que havíamos construído no sul de Madri. Sabíamos que Elena Volkova não resistiria. Era um evento público, repleto de imprensa. O palco perfeito para uma humilhação pública, que era bem o seu estilo.
Na noite de inauguração, o hospital estava cercado por policiais e nossos próprios agentes à paisana. Rafa insistiu em estar lá. “Este é o meu hospital, Isabel”, disse-me ele. “Não vou deixar que algum mafioso russo me tire isto também. Eles já levaram minha adolescência. Não vão levar meu sonho.”
Permitimos que ele fosse, mas com um colete à prova de balas por baixo do smoking.
O evento estava transcorrendo normalmente. Discursos, canapés, fotos. Eu sorria, apertava mãos, mas meus olhos percorriam constantemente o salão. Gabriel estava na sala de controle de segurança, monitorando as câmeras.
“Isabel,” a voz de Gabriel soou tensa no meu fone de ouvido. “Temos uma anomalia. Três garçons no segundo andar. Eles não estão na lista de funcionários autorizados. Eles estão se movendo em direção ao sistema de ventilação.”
“Gás?” perguntei, ainda sorrindo enquanto cumprimentava o prefeito. “Possivelmente. Ou pior. Estou a caminho. Marcos, tire o Rafa do palco. Agora!”
Mas era tarde demais. As luzes se apagaram abruptamente. O sistema de som emitiu um guincho agudo e, em seguida, uma voz feminina suave com forte sotaque russo preencheu o auditório escuro.
“Boa noite, Madrid. Gostaram do meu presente? O Rei Coxo contou-lhes uma história de heróis há cinco anos. Mas hoje… hoje vamos contar uma tragédia.”
Ouviram-se tiros no andar de cima. As pessoas começaram a gritar. No meio do caos, vi um ponteiro laser vermelho riscando a escuridão. Estava procurando por Rafa.
“Rafa, desce!” gritei, atirando-me sobre ele. Empurrei-o no exato momento em que uma bala atingiu o púlpito de madeira onde ele estivera segundos antes. Estilhaços voaram por toda parte.
Marcos surgiu do nada, atirando em direção às passarelas superiores. “Para o porão!”, gritou ele. “Senhora, leve seu irmão!”
Corremos. Arrastei Rafa pelos corredores de serviço do hospital, aqueles que ele mesmo havia projetado. Ele conhecia o prédio melhor do que ninguém. “Há uma saída pelo necrotério”, Rafa ofegou. “Os túneis de lixo.”
-Vamos.
Mas quando chegamos ao necrotério, a porta estava trancada. E no fim do corredor, ela apareceu. Elena Volkova. Ela era alta, loira e vestia um macacão de couro tático preto. Não parecia uma chefe da máfia; parecia uma modelo matadora. Carregava uma submetralhadora e sorria.
“Isabel García”, disse ele. “A Cinderela do crime. E o pequeno Rafa, o brinquedo quebrado.”
Ela apontou a arma. Estávamos encurralados. Eu tinha meu revólver na mochila, mas estava longe demais, a três segundos de sacá-lo. Ela atiraria em um só golpe.
“Onde está o seu rei agora?”, zombou Elena. “Ele está manco de novo?”
“O rei está ocupado”, disse uma voz atrás de Elena.
Elena se virou, mas não rápido o suficiente. Gabriel emergiu das sombras de uma sala lateral. Ele não portava uma arma de fogo. Segurava um bisturi cirúrgico, que havia retirado de uma bandeja. Moveu-se com uma velocidade assustadora.
Elena atirou, mas Gabriel se esquivou da rajada de tiros, diminuindo a distância. Com um movimento fluido, ele cravou o bisturi em seu ombro direito, fazendo-a derrubar a submetralhadora. Elena gritou de dor e fúria, sacando uma faca de combate com a mão esquerda.
Eles começaram a lutar. Era uma dança brutal. Elena era rápida, treinada por ex-agentes da KGB. Mas Gabriel… Gabriel lutava com a fúria de um pai protegendo sua matilha. Trocaram golpes, cortes. Vi sangue na camisa branca de Gabriel.
“Isabel, atira!” gritou Gabriel, bloqueando uma estocada de Elena que visava sua garganta.
Peguei minha Glock. Minhas mãos tremiam. Gabriel e Elena estavam muito perto, girando, esbarrando um no outro. Se eu atirasse, poderia acertá-lo. “Não posso!” gritei. “Vocês vão se matar!”
Elena chutou Gabriel no joelho operado, o esquerdo. Gabriel gemeu e caiu de joelhos. Elena ergueu a faca para o golpe final.
“Não!” O grito não foi meu. Foi do Rafa.
Meu irmão, o menino que tinha medo de barulhos altos, o menino que tremia, avançou. Não violentamente, mas com precisão. Ele segurava uma seringa na mão, uma que havia pegado na ambulância. Enfiou-a no pescoço de Elena, bem acima da artéria carótida.
Elena congelou. Deixou cair a faca, agarrando a garganta. Seus olhos reviraram. Ela desabou no chão, convulsionando, e depois ficou imóvel.
Gabriel se levantou, respirando com dificuldade, agarrando o lado sangrando. Ele olhou para Rafa, que estava de pé ao lado do corpo da mulher, tremendo, encarando a seringa vazia.
“O que foi isso?” perguntou Gabriel, ofegante. “Succinilcolina”, sussurrou Rafa. “Um relaxante muscular paralisante. Ele vai parar de respirar… agora mesmo.”
Rafa deixou-se cair contra a parede, deslizando até o chão. Começou a chorar. Não de medo, mas de libertação. Ele havia matado o monstro. Não era mais a vítima.
Aproximei-me deles. Passei um braço em volta de Rafa e o outro em volta de Gabriel. Estávamos cobertos de sangue, suor e poeira. “Acabou”, eu disse. “De verdade.”
CAPÍTULO 11: EPÍLOGO – A PAZ VIGILANTE
Um mês depois, estávamos no terraço da nossa casa de verão em Ibiza. O sol se punha sobre o Mediterrâneo, tingindo a água de dourado e vermelho, as cores da nossa vida.
Gabriel estava sentado numa espreguiçadeira, lendo um livro. O ferimento na lateral do corpo havia cicatrizado, deixando uma nova marca na pele. Sofia brincava na areia com Rafa. Rafa ria. Uma risada pura, sem sombras. Ele havia começado a namorar uma enfermeira do hospital, uma garota alegre que não sabia nada sobre seu passado e que o fazia feliz.
Sentei-me ao lado de Gabriel e ofereci-lhe uma taça de vinho. “No que você está pensando?”, perguntou ele, fechando o livro.
“Nunca pensei que veria isso.” Apontei para nossa filha e meu irmão. “Achei que minha vida seria esfregar o chão e pagar dívidas até morrer.”
Gabriel pegou minha mão e beijou meus nós dos dedos. “Você mudou seu destino, Isabel. Você não foi uma vítima. Você foi uma guerreira.”
“Nós dois éramos.” Olhei em seus olhos cinzentos, aqueles olhos que tanto me salvaram quanto me condenaram. “Você acha que virão mais? Outros inimigos?”
Gabriel fitou o horizonte. Seus olhos endureceram por um segundo, o olhar antigo do Rei, antes de se suavizarem novamente ao olhar para sua filha. “Sempre haverá lobos, Isabel. O mundo está cheio deles. Mas nós não somos ovelhas. Somos os pastores. E se eles vierem…”
“Nós vamos caçá-los”, completei a frase por ele.
Gabriel sorriu. “Vamos caçá-los. Mas não hoje. Hoje somos apenas uma família assistindo ao pôr do sol.”
Ele se inclinou e me beijou. Um beijo lento, o gosto de sal já presente, um beijo que prometia um futuro. Havíamos pago o preço com sangue. Havíamos sobrevivido à traição. E agora, éramos os mestres do nosso próprio reino.
Olhei para Sofia, que corria em nossa direção com uma concha na mão, gritando: “Papai, mamãe, olhem!” E, pela primeira vez em toda a minha vida, não senti medo. Senti que estava exatamente onde deveria estar.
FIM