Ela me rejeitou por ser humana, sem saber que eu carregava em meu ventre a herdeira mais poderosa de sua alcateia: a princesa perdida desperta.
CAPÍTULO 1: A FRIO DO MÁRMORE
A dor começou como uma dor surda na região lombar, algo que inicialmente atribuí ao cansaço de manter aquela mansão, que nunca senti que me pertencesse, impecável. Mas, em poucos minutos, a sensação mudou. Transformou-se numa faixa de ferro em brasa que circundava meu estômago, sufocando-me.
Agarrei a borda da ilha da cozinha, sentindo o mármore frio sob meus dedos. Meus nós dos dedos ficaram brancos.
—Alejandro… —Eu suspirei.
A enorme casa estava silenciosa, exceto pelo som incessante da chuva batendo contra as janelas do chão ao teto que davam para as ruas molhadas de Madri. Era uma daquelas noites de outono em que a cidade parece chorar.
Meu marido, meu “marido por contrato”, estava no saguão. Eu conseguia ver seu reflexo no espelho antigo enquanto ele ajeitava sua gravata de seda azul-marinho. Ele estava impecável. Frio. Distante. Como sempre.
“Alejandro, por favor…” Entrei cambaleando no corredor, arrastando os pés. “Tem alguma coisa errada. Eu preciso… preciso de um médico.”
Alejandro virou-se lentamente. Seus olhos, de um cinza tempestuoso penetrante, examinaram-me da cabeça aos pés. Não havia preocupação neles, apenas uma leve irritação, como se eu fosse uma mancha em seu terno de grife. Ele checou seu relógio de ouro.
“Elena, já estou atrasado”, disse ele, com aquela voz suave e distante que usava em reuniões de negócios. “O jantar de eleição do conselho começa em vinte minutos. Meu pai está me esperando. Não tenho tempo para o seu drama.”
“Não consigo dirigir”, sussurrei, curvando-me enquanto outra cãibra me atingia. Senti minhas pernas cederem. “Dói. Por favor.”

Ele suspirou. Era o som que um homem faz quando perde a paciência com uma criança caprichosa.
“Provavelmente são só cólicas. Vocês humanos são tão… frágeis.” Ele tirou o celular do bolso interno do paletó e digitou algo rapidamente. “Vou chamar um carro para você. Vá à clínica particular. Mande a conta para minha assistente.”
“Você vai embora?” Minha voz falhou, soando patética até para mim mesma. “Você vai me deixar assim?”
“Eu tenho prioridades, Elena. Você sabia disso quando assinou o contrato.” Ele abriu a porta da frente. O vento uivava, infiltrando-se no hall de entrada impecável e trazendo consigo o cheiro de terra úmida e asfalto. “O carro chega em cinco minutos. Não me ligue a menos que a casa esteja pegando fogo.”
A porta bateu com força. O som da fechadura automática foi como um tiro no silêncio.
Eu fiquei ali, sozinha, no corredor de uma casa que valia milhões, mas era desprovida de aconchego. Ouvi o som do motor do seu sedã de luxo se afastando pela rua. Ele não olhou para trás. Ele nunca olhou para trás.
CAPÍTULO 2: A BATIDA CARDÍACA IMPOSSÍVEL
A sala de espera do hospital cheirava a antisséptico e café velho de máquina. Eu estava encolhida numa cadeira de plástico dura, abraçando-me, tentando conter o tremor nas mãos. A dor aguda havia diminuído, dando lugar a um medo surdo e constante.
“Sra. Blackwood?” chamou o médico. Ela parecia exausta, com olheiras profundas, típicas de uma profissional de saúde em turno noturno.
Levantei-me, com as pernas ainda tremendo.
“É só Elena”, corrigi automaticamente. Nunca senti que tinha o direito de usar o sobrenome de Alejandro. Não quando eu era apenas uma funcionária de fachada na vida dele, uma esposa de papel para manter as aparências.
Dentro da sala de exames, o silêncio tornou-se denso enquanto o médico movia o transdutor de ultrassom sobre meu abdômen. O gel estava frio. Prendi a respiração, preparando-me para o pior.
“Será… será um tumor?” sussurrei, com a voz embargada. “Tenho me sentido tão mal ultimamente.”
A médica virou a tela na minha direção. Sua expressão suavizou-se.
“Não é um tumor, Elena”, disse ele gentilmente. “É uma batida do coração.”
Fiquei paralisado, encarando a imagem granulada em preto e branco. Um pequeno tremor rítmico pulsava no centro. Bum-bum. Bum-bum.
—Você está grávida, Elena. De aproximadamente oito semanas.
O mundo parou. Grávida? Era impossível. Alejandro era um lobisomem, um Alfa puro-sangue. Eu era humana. Uniões entre nossas espécies eram raras, e a concepção era quase impossível sem um laço de acasalamento predestinado, algo que definitivamente não tínhamos.
“Mas… eu sou humano”, gaguejei. “Os médicos disseram…”
O médico franziu a testa, olhando para minha ficha e depois de volta para a tela.
“Tem certeza? Os níveis de energia do feto estão altos. Muito altos.” Ela baixou a voz, como se temesse que alguém pudesse nos ouvir. “Este bebê tem um espírito de lobo, um espírito muito forte. E você? Seus sinais vitais estão se recuperando mais rápido do que deveriam.”
“Eu só tenho sorte”, menti, com o coração batendo forte no peito.
Eu não podia ser uma loba. Eu nunca havia me transformado. Nunca havia escutado a “voz” interior. Eu era apenas Elena, a órfã, a ninguém que Alejandro havia tirado das ruas para sua própria conveniência.
-Preciso ir.
Saí cambaleando do hospital, agarrando a foto do ultrassom no bolso como se fosse uma tábua de salvação. Um bebê. O bebê de Alejandro.
Uma onda de esperança tola, quase infantil, me invadiu enquanto eu caminhava sob a garoa. Talvez… talvez isso mudasse as coisas. Alexander era obcecado por seu legado. Ele precisava de um herdeiro para garantir sua posição no conselho. Se eu lhe desse um filho, ele finalmente olharia para mim? Pararia de me tratar como uma transação comercial?
Peguei meu celular para ligar para ele. Meu polegar tremeu sobre o nome dele na tela: Marido .
Naquele exato momento, uma notificação de notícia urgente apareceu na minha tela.
“ALEJANDRO BLACKWOOD, CANDIDATO A ALPHA, ANUNCIA SEU NOIVADO COM SUA NAMORADA DE INFÂNCIA.”
Fiquei paralisada no meio da calçada. Meus dedos dormentes clicaram no link do vídeo.
A tela se encheu de imagens da gala. Flashes disparavam. E lá, em um pódio, estava Alejandro. Mas ele não usava sua máscara fria. Ele estava sorrindo. Um sorriso genuíno e caloroso, um sorriso que eu nunca tinha visto antes.
Pendurada em seu braço estava uma mulher: Rocío. Ela era deslumbrante, alta, com uma cascata de cabelos ruivos e olhos que brilhavam com a força de uma loba. Usava um vestido verde-esmeralda que delineava uma pequena, porém visível, barriga de grávida.
Um repórter colocou um microfone na frente do rosto de Alejandro.
—Alpha Blackwood, é verdade? Este é o seu par predestinado?
Alejandro olhou para Rocío com uma devoção que me deu ânsia de vômito. Ele colocou uma mão protetora em sua barriga.
“Eu e a Rocío temos uma longa história”, disse ele suavemente. “E sim, ela está grávida do meu filhote. O futuro desta matilha está garantido.”
O telefone escorregou da minha mão. Caiu no asfalto molhado com um estrondo, quebrando a tela e partindo meu coração.
Ele mentiu. Disse-me que o contrato era de três anos. Disse-me que não estava interessado em amor. E agora desfilava por aí com a amante, reivindicando o filho de outro homem como seu — porque eu sabia que Rocío estava fora do país havia meses — enquanto sua verdadeira esposa estava na chuva com o herdeiro deles crescendo dentro dela.
As lágrimas, quentes e amargas, misturavam-se com a chuva no meu rosto.
“Você prometeu…” sussurrei para a rua vazia. “Você prometeu que não me humilharia.”
A dor de estômago voltou, mais aguda desta vez, uma cólica que me fez dobrar de dor. Mas não era apenas uma cólica física. Era uma sensação de puxão. Lá no fundo do meu peito, algo estalou . Uma fechadura se rompendo. Uma represa estourando.
Um calor abrasador inundou minhas veias, absoluto e aterrador. Minha visão ficou turva, avermelhada nas bordas.
CAPÍTULO 3: O CHAMADO DO SANGUE
A milhares de quilômetros de distância, na sala do trono de obsidiana do Reino Licano do Norte, no alto dos Pirineus, uma vitrine de vidro explodiu em mil pedaços.
O rei Lucas ergueu os olhos do mapa de guerra, arregalados. Dentro da vitrine, um antigo amuleto de prata, a Pedra de Sangue, brilhava com uma luz ofuscante. Não brilhava há vinte e dois anos. Não desde a noite em que a rainha morreu. Não desde a noite em que a princesa se perdeu.
Ao seu lado, o príncipe Raúl deixou cair sua espada de treino. O metal tilintou contra a pedra.
“Pai”, disse ele, quase sem fôlego. “O senhor sente isso?”
Era um pulso. Uma batida cardíaca que ecoava pela terra, um grito de socorro que vibrava nos ossos de cada lobo real.
“Ela está viva!” rugiu o Rei Lucas, sua voz fazendo tremer os alicerces do castelo. “Minha filha está viva e sofrendo!”
“Preparem o jato”, ordenou Raúl aos guardas, com os olhos brilhando como prata líquida. “Rastreiem o sinal. Vamos voar para o sul imediatamente. Se alguém encostar um dedo nele, vou reduzir o território deles a cinzas.”
De volta à cidade, eu caí.
Desabei na calçada molhada, ofegante. Minha pele parecia estar em chamas. Meus ossos doíam como se tentassem se rearranjar sob a pele.
“Socorro”, pensei. “Alguém, por favor, me ajude.”
Mas ninguém parou. Os carros passavam em alta velocidade, respingando água suja no meu vestido. Os pedestres circulavam ao meu redor, murmurando sobre “bêbados” ou “malucos”. Eu era invisível. Exatamente como sempre fui. Exatamente como Alejandro queria que eu fosse.
Rastejei para um beco estreito, buscando refúgio da chuva torrencial. Encostei-me à parede de tijolos molhada, protegendo meu estômago com as mãos.
“Não vou deixar que ele te machuque”, sussurrei para o bebê, minha voz quase inaudível. “Não vou deixar que ele te rejeite como me rejeitou.”
As sombras se alongavam no beco. Passos se aproximavam. Pesados. Ameaçadores.
“Ora, ora”, zombou uma voz rouca. “Vejam só o que temos aqui. Presa fácil.”
Olhei para cima. Três homens estavam ali, verdadeiros brutamontes. Exalavam um odor fétido de álcool barato e violência latente. Um deles sacou uma faca.
“Dê-nos sua bolsa, querida”, riu o líder, exibindo a folha à luz fraca de um poste distante. “E talvez suas joias também. Esse anel parece caro.”
Tentei me levantar, mas minhas pernas não obedeciam.
“Por favor”, implorei, ofegante. “Não tenho dinheiro. Deixe-me ir.”
“Sem dinheiro?” O homem franziu a testa. Ele avançou para cima de mim, agarrando meu pulso com força. “Então vamos resolver isso de outro jeito.”
Eu gritei. Levantei as mãos para proteger a barriga, fechei os olhos e esperei pelo corte.
Mas a faca nunca me tocou.
Uma explosão de luz prateada emanou do meu corpo. Foi como uma onda de choque. Arremessou os bandidos para trás como bonecos de pano, jogando-os contra a parede oposta.
“O quê…?” Olhei para as minhas mãos. Elas estavam brilhando. Uma suave luminescência branca pulsava sob a minha pele, percorrendo minhas veias como mercúrio. Luz curativa. O verdadeiro dom dos Lycans, embora eu ainda não soubesse o que era.
Os bandidos se levantaram com dificuldade, os olhos arregalados de terror.
“O que ela é?” gritou um deles. “Ela é uma bruxa! Vamos embora!”
Antes que pudessem escapar, o vento mudou de direção. O ar ficou pesado, denso de ozônio e com uma sensação de domínio absoluto. Um som como um trovão ecoou pelo beco.
Uma fila de SUVs pretos parou bruscamente na entrada do beco, com os pneus soltando fumaça. Eles tinham vindo direto do aeroporto, ignorando todas as leis de trânsito.
As portas se abriram de repente.
Dois homens saíram do veículo da frente. Um era mais velho, imponente, com cabelos grisalhos e olhos como moedas antigas. O outro era jovem, corpulento, com um rosto que parecia… parecia com o meu.
Rei Lucas e Príncipe Raul.
Os bandidos nem sequer tentaram lutar. Eles olharam para aqueles homens gigantescos em ternos impecáveis, que emanavam um poder letal, e fugiram para a noite.
O rei Lucas não os perseguiu. Ele correu na minha direção, caindo de joelhos na lama, sem se importar com seu terno de grife italiana.
“Elena…” ele sussurrou. Suas mãos tremiam enquanto acariciavam meu rosto. “Minha filhinha. Minha lua.”
Olhei para ele. Senti um aperto no peito. Não o aperto romântico que sentia por Alejandro, mas algo mais profundo, mais ancestral. Sangue do meu sangue.
“Quem… quem é você?”, eu sussurrei com a voz rouca.
“Eu sou seu pai”, disse Lucas, com lágrimas escorrendo pelo rosto marcado pela batalha. “E nós vamos te levar para casa.”
Ele me ergueu nos braços como se eu não pesasse nada. Ele parecia tão forte, tão seguro. Pela primeira vez na vida, senti que não era um fardo. Senti que pertencia a algum lugar.
“Meu marido…” murmurei, sentindo a inconsciência me invadir. “Preciso contar a ele…”
“Shhh”, disse Raúl, afastando os cabelos molhados da minha testa. Seus olhos estavam gélidos enquanto olhava para a aliança no meu dedo. “Ele te deixou na chuva. Aquele homem não é seu marido.”
CAPÍTULO 4: A VERDADE REVELADA
Na manhã seguinte, acordei em uma cama feita de nuvens. Os lençóis eram de pura seda. O ar tinha cheiro de lavanda e ar fresco da montanha, puro e revigorante.
Sentei-me abruptamente, com o pânico explodindo em meu peito.
“O bebê!” exclamei, levando as mãos à barriga.
“O bebê está seguro”, disse uma voz suave. Uma mulher vestida com uma túnica de curandeira estava perto da janela. “E você também, princesa.”
Princesa?
Olhei em volta. O cômodo era digno de um palácio. Acessórios de ouro, cortinas de veludo, tetos altos pintados com afrescos. Era muito diferente da mansão fria e moderna de Alexandre.
A porta se abriu. O rei Lucas e Raúl entraram. Eles me olharam com um amor tão intenso que me fez sentir uma dor no peito.
“Você acordou”, sussurrou Lucas. Ele sentou-se na beira da cama com uma delicadeza que desmentia seu tamanho. “Estivemos procurando por você durante vinte e dois anos, minha filha. Desde a peste.”
“A peste?”, perguntei, confuso.
“A Grande Doença”, explicou Raúl. “Ameaçou a linhagem real. Mãe, a Rainha… ela lançou um feitiço sobre o seu lobo para mascarar o seu cheiro e o enviou para longe para protegê-lo. Ela morreu antes de poder nos dizer onde você estava.”
“Cresci num orfanato”, sussurrei. “Pensava que não era ninguém.”
“Você nunca foi uma ‘ninguém’”, disse o Rei Lucas com firmeza. “Você é uma lobisomem. Uma de verdade. E aquele bebê…” Ele olhou para minha barriga, surpreso. “Aquele bebê despertou seu lobo. Ele quebrou o feitiço para salvá-la. O sangue dele é poderoso.”
Levantei da cama, sentindo o chão frio sob meus pés.
—Preciso voltar.
A sala ficou em silêncio. O rosto de Raúl endureceu.
—Voltar para ele? Para o homem que deixou você voltar para casa a pé na chuva enquanto carregava o filho dele?
“Eu tenho que fazer isso”, eu disse, levantando-me. Eu me sentia mais forte. A náusea tinha passado. “Temos um contrato. Se eu o quebrar, ele vai tirar tudo de mim. O dinheiro para o tratamento do Dario, meu irmão adotivo… ele vai parar de pagar.”
“Dario está seguro”, disse Lucas calmamente. “Encontramos seus registros de pagamento. Já o transferimos para o Hospital Real. Ele está recebendo o melhor tratamento do mundo, o tipo de tratamento que o dinheiro de Alpha não poderia comprar. Você não deve nada a esse homem.”
“Devo-lhe uma despedida”, disse eu, com a voz trêmula, mas firme. Caminhei até o espelho de corpo inteiro. A mulher que me encarava já não se parecia com a garçonete assustada. Meus olhos brilhavam. Minha pele tinha um brilho etéreo. “Devo-lhe a verdade. Preciso me divorciar dele.”
Raul levantou-se, cruzando os braços.
“Ele não vai assinar. Alfas como ele… não abrem mão de suas propriedades.”
“Então eu o farei fazer isso”, eu disse. Virei-me para encará-los. “Eu sou uma princesa Lycan. Ele não pode me possuir.”
Lucas olhou para Raúl e assentiu lentamente com a cabeça.
“Muito bem. Mas você não irá sozinho. Nós o levaremos. E se ele o desrespeitar, se ele lhe lançar um olhar de desprezo…” Os olhos de Lucas brilharam prateados, “Eu o lembrarei de que um lobo da matilha jamais desafia um lobisomem.”
CAPÍTULO 5: O REENCONTRO
Alejandro Blackwood andava de um lado para o outro em seu escritório. Não havia dormido. O baile de gala fora um sucesso estrondoso. A diretoria adorou a história dele e de Rocío: amantes trágicos reunidos, destino cumprido. Era perfeita para sua campanha.
Então, por que eu senti vontade de vomitar?
Por que a imagem de Elena agarrando a barriga na cozinha o assombrava toda vez que ele fechava os olhos?
“São só cólicas”, disse para si mesmo. “Ela é humana. Humanos são dramáticos.”
Mas ele ligou para casa. Ninguém atendeu. Ligou para o celular dela. Caiu direto na caixa postal. Ela não tinha voltado para casa.
“Senhor.” Seu assistente, um beta nervoso chamado Ben, bateu na porta.
“O que está acontecendo?”, perguntou Alejandro de repente.
—Há um problema na porta principal.
—Qual a situação?
—Um comboio, senhor. Insígnias reais. Parece… parece o Rei Lycan.
Alexandre ficou paralisado. Os licantropos nunca desciam do Norte. Consideravam os lobos em matilha inferiores. Por que estavam ali?
“Deixem-nos entrar”, ordenou ele, abotoando o paletó. Precisava aparentar estar no controle da situação.
Ele saiu para a entrada de paralelepípedos. Três enormes SUVs pretas estavam lá, com os motores ligados. As portas se abriram.
O rei Lucas surgiu. Em seguida, o príncipe Raúl. O poder que emanavam era sufocante, uma pressão física palpável no ar. O lobo interior de Alexandre ansiava por curvar a cabeça em submissão. Ele se obrigou a ficar de pé.
“Vossa Majestade”, disse Alexandre, inclinando levemente a cabeça. “A que devo esta honra?”
Lucas não respondeu. Ele se virou para o carro e estendeu a mão.
—Venha cá, filha.
Alejandro franziu a testa. Filha?
Uma mulher saiu. Usava um vestido de seda prateada que delineava suas curvas e um casaco de pele branca sobre os ombros. Seus cabelos estavam soltos, esvoaçando ao vento. Ela parecia majestosa, inatingível.
E ela era a cara da Elena.
“Elena?” Alejandro sussurrou. O nome escapou de seus lábios como uma pedra.
Ela caminhou em direção a ele. Não desviou o olhar. Não recuou. Olhou-o diretamente nos olhos e, pela primeira vez, ele viu. O fogo. A força.
“Olá, Alejandro”, disse ela. Sua voz era fria, desprovida da timidez e do calor que normalmente demonstrava por ele. “Precisamos conversar.”
“Você…” Alejandro deu um passo à frente, tentando agarrar seu braço. “Onde você esteve? Eu estava te chamando.”
Raul se colocou entre eles, um rosnado baixo vibrando em seu peito como um motor a diesel.
—Não a toque.
Alexandre recuou instintivamente.
“Ela é minha esposa”, rosnou ele, seu próprio orgulho de Alfa inflamando-se. “Eu tenho esse direito…”
“Não mais”, disse Elena. Ela enfiou a mão na bolsa de grife e tirou um envelope grosso. Bateu com ele no peito de Alejandro. “Papéis do divórcio. Assine.”
Alejandro olhou para os papéis e depois para ela, incrédulo.
—Divórcio? Você não pode se divorciar de mim. O contrato diz…
“O contrato é nulo”, interrompeu o Rei Lucas. “Você assinou um contrato com uma humana chamada Elena Doe. Esta é a Princesa Elena da Corte Lycan. Suas leis não se aplicam a ela.”
Alexandre sentiu o chão tremer sob seus pés. Princesa? Sua esposa por casamento, a mulher que ele tratava como uma serva?
“Não aceito isso”, disse ele, elevando a voz. “Você me pertence. Você assinou.”
“Era sua”, corrigiu Elena gentilmente. “E você me descartou por uma foto na imprensa. Você escolheu a Rocío. Agora fique com ela.”
Ele se virou para ir embora.
Alejandro entrou em pânico. Não sabia porquê, mas a ideia de ela ir embora, de ela realmente ir embora, o aterrorizava mais do que perder a eleição para o conselho.
“Elena, espere!” ele gritou. “E nós? E…?” Ele se lembrou da noite anterior. “E o médico? Você disse que estava doente.”
Elena parou. Virou ligeiramente a cabeça, mostrando-lhe o seu perfil.
“Eu não estava doente, Alejandro”, mentiu ela, com a voz firme como aço. “Foi apenas estresse. Mas não se preocupe, estou me sentindo muito melhor agora.”
Ele entrou no carro. A porta se fechou.
E Alexandre ficou parado na porta, segurando os papéis do divórcio, observando sua esposa “humana” se afastar com um rei, levando consigo o segredo que poderia tanto destruí-lo quanto salvá-lo.
CAPÍTULO 5: ECOS NA MANSÃO DE VIDRO
O silêncio na mansão de La Moraleja não era pacífico; era predatório. Não era a serena tranquilidade de uma biblioteca antiga, mas o silêncio pesado, denso e sufocante de um túmulo recém-selado.
Alejandro Blackwood permanecia imóvel no centro do hall de entrada de pé-direito duplo. Sua mão direita, ainda enluvada com uma luva de couro cara, apertava os papéis do divórcio com tanta força que seus nós dos dedos estalaram, competindo com o som do papel amassando. A porta da frente havia se fechado minutos atrás, mas ele continuava encarando a madeira escura, esperando. Esperando, contra toda a lógica, que ela voltasse.
“Elena?” ele chamou. Sua voz ecoou nas paredes frias de mármore, retornando a ele vazia e zombeteira.
Ele estava ingenuamente esperando que ela saísse da cozinha, enxugando as mãos naquele avental florido desbotado que ele sempre secretamente detestara por ser “brega”. Ele esperava ouvi-la perguntar se ele queria chá, ou se ela precisava que ele passasse uma camisa para o dia seguinte.
Mas a cozinha estava escura. O fogão, sempre quente a essa hora com o jantar sendo preparado, estava frio ao toque. Não havia cheiro de ensopado, nem o aroma suave do amaciante de roupas que ela usava. Não havia zumbidos suaves. Não havia calor.
Ela entrou na sala de estar. Tudo estava perfeito. Perfeito demais. Parecia uma foto de revista de arquitetura, estéril e sem vida. O toque de Elena havia desaparecido completamente. A manta de lã com a qual ela sempre se aconchegava no sofá enquanto lia romances baratos estava dobrada com precisão militar. Seus livros de bolso haviam sumido da mesinha de centro.
Era como se ele nunca tivesse existido. Como se os últimos três anos tivessem sido uma alucinação febril.
“Ele vai voltar”, murmurou para si mesmo, dirigindo-se ao bar privativo de mogno. Serviu-se de um uísque escocês puro, enchendo o copo de cristal até a borda. “Ele não tem para onde ir. Não tem ninguém. Precisa do dinheiro para Dario.”
Dario .
Essa era a sua vantagem. Seu trunfo na manga. O irmão adotivo doente de Elena era o elo que a mantinha presa a ele. Alejandro sabia que era cruel, mas no mundo dos negócios e da alcateia, a crueldade muitas vezes era sinônimo de eficiência.
Ela pegou seu celular pessoal, ignorando as doze chamadas perdidas de seu coordenador de campanha e as mensagens de texto histéricas de Rocío. Discou o número direto do administrador do hospital particular onde Darío estava recebendo tratamento.
“Sou o Sr. Blackwood”, disse ele, com a voz firme, recuperando aquela autoridade de líder que antes lhe abria todas as portas. “Quero verificar como está o paciente Dario Miller. Eu cuido da sua fatura e quero garantir que não haja interrupções no seu atendimento.”
Houve uma pausa do outro lado da linha, apenas o som rítmico de alguém digitando em um computador. Aqueles segundos pareceram uma eternidade.
“Ah, Sr. Blackwood”, respondeu o administrador num tom alegre que irritou os ouvidos de Alexander. “Que bom que ligou. Aliás, o Sr. Miller recebeu alta ontem à tarde.”
Alejandro franziu a testa, deixando o copo de uísque a meio caminho da boca.
—Recebeu alta? Isso é impossível. Ele estava em estado crítico. Quem autorizou isso? Se ele sair de lá, vai morrer.
“Não foi uma alta para ir para casa, senhor. Foi uma transferência. Uma equipe médica particular veio buscá-lo. Nunca vi nada igual, Sr. Blackwood. Eram especialistas de alto nível, com equipamentos que nós nem sequer temos.”
“E a conta?” perguntou Alejandro, sentindo um arrepio percorrer seu estômago. “Há um saldo considerável a pagar.”
—Totalmente pago, senhor.
Alejandro apertou o telefone com tanta força que a carcaça rangeu.
“Quem pagou por isso?”, exigiu ele, um rosnado baixo escapando de sua garganta, o lobo interior despertando diante da ameaça de perder o controle. “Exijo saber quem pagou.”
—A ordem de transferência e o pagamento vieram de… deixe-me ver… —Houve um momento de silêncio enquanto o homem lia a tela—. Ah, aqui está. Do “Northern Sovereign Trust”.
Alexandre ficou paralisado. O mundo pareceu girar em torno do próprio eixo.
O Northern Sovereign Trust não era um banco comum. Era a conta pessoal do Rei Lycan. Era dinheiro ancestral, dinheiro manchado de sangue, dinheiro com um poder que fazia a fortuna dos Blackwood parecer troco.
Ele desligou o telefone sem se despedir. O copo de uísque escorregou de sua outra mão, estilhaçando-se no chão de madeira. Líquido âmbar e cacos de vidro caíram sobre o tapete persa, mas ele nem sequer pestanejou.
Ela não precisava disso.
A ficha caiu para ele com a força de um soco no estômago. Elena não dependia mais dele. Não era mais. Ela não era mais a pobre garçonete que ele havia “salvado” da ruína. Ela era uma princesa. Tinha recursos ilimitados. Tinha uma família. E ela tinha ido embora.
Ele subiu as escadas como um autômato, não indo para seu quarto principal, mas para o final do corredor. Empurrou a porta do quarto de hóspedes.
Era ali que ela dormia nos últimos três meses, desde que ele começara a se “distanciar” para preparar o terreno com Rocío. Ela entrou.
O quarto estava vazio. O guarda-roupa estava aberto e despojado, com apenas alguns cabides de arame balançando suavemente. Mas sobre o travesseiro perfeitamente alisado havia um pequeno pedaço de papel dobrado.
Ela pegou o papel. O papel tinha o cheiro dela. Baunilha, detergente barato e… algo mais. Algo novo. Um cheiro selvagem, como o de uma floresta densa e neve virgem.
Ele desdobrou o papel. Não era uma carta de despedida lacrimosa. Não era um insulto.
Era uma lista.
Ele olhou fixamente para a última linha.
Consulta médica.
Ela não estava mentindo. Ela realmente estava doente. Naquela noite, quando ele a viu curvada de dor na cozinha, não era teatro. Era real. E ele… ele a mandou embora de Uber debaixo de uma chuva torrencial enquanto ia a um evento de gala segurar a mão de outra mulher para as câmeras.
A culpa, aguda e desconhecida, apertou seu peito. Era uma sensação estranha para um Alfa acostumado a sempre estar certo. Ele sentou-se na beirada da cama. Pela primeira vez, percebeu como o colchão era duro. Percebeu como o quarto estava frio, virado para o norte, onde o aquecimento não chegava direito.
Ele a colocou no pior quarto da casa enquanto dormia entre lençóis de algodão egípcio.
“Eu estraguei tudo”, sussurrou ele para o quarto vazio.
Mas então, o instinto Alfa, aquele orgulho maldito que o levara ao topo, rebelou-se contra a derrota.
“Ela é minha esposa”, rosnou ele, levantando-se de um salto. Seus olhos brilharam em dourado por um instante. “Com contrato ou sem contrato, princesa ou serva, ela me pertence. E eu vou tê-la de volta.”
CAPÍTULO 6: O ABRIGO DA NEVE E DO SANGUE
Duas semanas depois, a paisagem havia mudado drasticamente. Longe do asfalto cinzento e da chuva de Madrid, o Palácio de Lycan, no norte, erguia-se como uma fortaleza de gelo e pedra esculpida na própria montanha.
Era um lugar de beleza brutal. Os picos nevados tocavam o céu, e o ar era tão puro que doía respirá-lo.
Elena estava sentada no terraço ensolarado do palácio, envolta num cobertor de pele branca tão macio que parecia feito de nuvens. Através das enormes janelas de vidro reforçado, ela observava a neve cair suavemente pelo vale.
Ela estava diferente. As rugas de expressão ao redor dos olhos haviam desaparecido. Sua pele, antes pálida e amarelada pelo cansaço, agora irradiava uma saúde sobrenatural, com um tom rosado nas bochechas que denunciava a magia que corria em suas veias.
E a barriga dela… a barriga dela já apresentava uma curva pequena, mas firme.
As gestações de licantropos não eram como as humanas. Eram rápidas, intensas. O bebê crescia em ritmo acelerado, alimentando-se do poder recém-descoberto que despertara em Elena. Era um parasita divino, que exigia energia constante.
—Você ainda não almoçou.
A voz grave interrompeu seus pensamentos. O príncipe Raúl entrou na sala. Ele vestia roupas de ginástica, uma camiseta justa que acentuava cada músculo de seu torso enorme. Nas mãos, carregava um prato com um bife gigantesco, quase cru.
“Você precisa da proteína, Elena”, insistiu ela, colocando o prato sobre a mesa de vidro com um baque. “O cachorrinho está com fome. Consigo ouvir o coração dele batendo forte do corredor. Ele precisa de energia.”
Elena franziu o nariz, desviando o olhar da carne ensanguentada.
“Quero pêssegos”, disse ela, num tom caprichoso que jamais ousaria usar com Alejandro. “Pêssegos em calda. Aqueles baratinhos que vêm em lata. Os que eu comprava no supermercado da esquina.”
Raúl soltou uma gargalhada profunda, um som que ecoou em seu peito. Sentou-se ao lado dela, fazendo o sofá ranger sob seu peso.
“Você é uma princesa real, herdeira de uma linhagem milenar, e quer frutas em conserva cheias de açúcar processado?” Ela balançou a cabeça, mas um sorriso caloroso surgiu em seus lábios. “Enviarei um guarda à cidade humana mais próxima. Mas primeiro, coma a carne. Por favor.”
Elena suspirou, mas pegou o garfo. Ela sabia que ele tinha razão. Sentia o bebê, uma presença constante e exigente, drenando suas forças.
Raúl observou-a comer por um instante, com a expressão ficando séria.
“Ele ligou de novo”, disse ela baixinho.
Elena enrijeceu. O garfo parou a meio caminho da sua boca. Sua mão livre voou instintivamente para o estômago, cobrindo-o.
—Alejandro—não era uma pergunta.
—Ele quer uma reunião. Insiste que existem “discrepâncias legais” no pedido de divórcio. Seus advogados estão sobrecarregando nosso escritório com burocracia. Ele se recusa a assinar até vê-lo pessoalmente.
“Ele está enrolando”, suspirou Elena, largando o garfo. Seu apetite havia desaparecido. “Ele é um Alfa, Raúl. Ele odeia perder. Não se trata de mim, nem de amor. Trata-se do orgulho dele. Ele não suporta que a ‘empregada’ tenha sido quem o deixou. Ele não suporta que eu tenha quebrado o contrato antes dele.”
“Sejam quais forem os motivos dele”, rosnou Raúl, seus olhos prateados escurecendo com uma raiva mal contida, “ele é persistente. Ele está acampado na fronteira do nosso território. Meu pai acha que você deve se encontrar com ele uma última vez. Acabe com isso formalmente. Corte a cabeça da serpente.”
“Eu não consigo”, sussurrou Elena. O medo frio e pegajoso percorreu sua espinha novamente. “Olhe para mim, Raúl.”
Ela abriu ligeiramente o roupão, revelando a inegável curva de sua barriga sob o tecido de seda.
“É óbvio. Se ele me vir… se ele sentir o cheiro do bebê… ele saberá que é seu herdeiro. Alexander é obcecado pelo legado. Se ele souber que estou carregando seu filho, ele nunca me deixará ir. Ele usará todas as leis, humanas e da alcateia, para reivindicá-lo. Ele começará uma guerra.”
Raul inclinou-se para a frente, segurando as mãos dela nas suas. Suas mãos eram enormes, calejadas pela espada, mas seu toque era incrivelmente gentil.
“Podemos disfarçar o cheiro. Os feiticeiros da corte prepararam um amuleto. E o casaco vai esconder a barriga. Você é uma princesa lobisomem agora, Elena. Você tem a Guarda Real ao seu lado. Você tem seu pai. Você tem a mim. Não precisa ter medo dele. Ele é apenas um lobo. Você é a lua.”
Elena olhou pela janela, para o sul, na direção de onde sabia que ele estava esperando. Ela o odiava pelo que ele tinha feito. Odiava-o por ter escolhido Rocío. Mas, no fundo, naquela parte traiçoeira do seu coração que ainda se lembrava de como ele lhe dera um emprego quando ninguém mais o faria, ela sentia falta dele.
Senti falta do jeito como ele franzia a testa ao ler o jornal. Senti falta do som da sua voz, mesmo quando estava fria. Era a angústia de um vínculo incompleto, a tortura de um parceiro desconhecido.
“Tudo bem”, disse ela finalmente, roubando um pedaço de carne do prato para agradar a Raúl. “Organize a reunião. Mas em terreno neutro. E você vem comigo.”
“Eu não estaria em nenhum outro lugar”, prometeu Raúl, beijando os nós dos dedos. “Se ele tentar alguma coisa, eu arranco a garganta dele antes que ele possa piscar.”
CAPÍTULO 7: A MENTIRA BRANCA
O encontro foi marcado no L’Étoile , um restaurante sofisticado na cidade fronteiriça, um local neutro na Suíça entre os territórios dos rebanhos do sul e do reino do norte.
Alejandro chegou vinte minutos mais cedo. Estava nervoso, embora jamais admitisse. Ajustou os punhos da camisa pela décima vez e checou seu reflexo na janela escura. Parecia cansado. As olheiras eram profundas; não dormira bem desde que ela partira.
Ao lado dele, sentada na cabine de couro vermelho, estava Rocío.
Ela estava lixando as unhas, com uma expressão entediada e magnífica.
“Não entendo por que tenho que estar aqui, Alejandro”, reclamou ela, estalando uma bolha de chiclete. O gesto contrastava vulgarmente com a elegância do lugar. “É uma reunião de divórcio. Os advogados não podem cuidar disso? Tenho uma massagem pré-natal marcada para as cinco.”
“Preciso que você assine os papéis como testemunha”, mentiu Alejandro, sem olhar para ela.
A verdade era mais sombria. Ele queria que Elena visse Rocío. Queria lembrá-la do que ela estava “perdendo”. Queria deixá-la com ciúmes. Era mesquinho. Era cruel. Era a tática de um homem desesperado que sentia que estava perdendo o controle da narrativa.
“Ali estão eles”, disse Rocío, apontando com uma unha perfeitamente cuidada em direção à entrada.
Uma limusine preta, com bandeiras diplomáticas no para-choque, parou em frente à janela. O manobrista abriu a porta com uma reverência que nunca havia feito a Alejandro.
Raúl foi o primeiro a sair. Parecia um deus da guerra espremido num terno de três peças. Sua presença preenchia a calçada, fazendo com que os transeuntes instintivamente se afastassem.
E então… Elena.
Alejandro sentiu um nó na garganta.
Ela era deslumbrante. Usava um vestido esvoaçante de veludo prateado sob um pesado casaco de lã de cashmere. Seus cabelos estavam trançados com fios de diamantes verdadeiros. Ela se movia com uma graça fluida que ele jamais vira. Não caminhava mais de cabeça baixa, tentando ocupar o mínimo de espaço possível. Caminhava como se o chão sob seus pés fosse dela.
Ela não parecia sua serva. Ela parecia uma rainha.
“Parece… diferente”, murmurou Rocío, com os olhos semicerrados de inveja. “Parece caro.”
Elena entrou no restaurante. O maître a conduziu até a mesa. Ela só olhou para Alejandro quando já estava parada bem em frente a ele. Sentou-se na outra ponta da mesa. Raúl estava de pé atrás da cadeira, de braços cruzados, encarando Alejandro com um olhar mortal.
“Alejandro”, disse ela. Sua voz era fresca, calma, educada. Como se estivesse falando com um estranho. “Vamos terminar com isso?”
“Você está ótima”, disse Alejandro, ignorando os papéis sobre a mesa. Seu lobo uivou por dentro, desejando se aproximar, sentir o cheiro dela. “A vida de lobisomem combina com você.”
“Sim, ela se importa”, respondeu, dando um gole na água que lhe foi servida. “Estou cercada de pessoas que me valorizam. É uma mudança revigorante.”
O dardo atingiu o alvo. Alejandro fez uma careta.
“Eu te valorizei”, disse ele, inclinando-se para a frente. “Eu te dei um lar. Eu te dei um propósito. Eu te tirei das ruas.”
“Você me deu um aspirador de pó e uma lista de tarefas”, corrigiu Elena gentilmente, sem elevar a voz. “E quando senti dor, você me chamou um Uber.”
“Eu não sabia!” Alejandro deixou escapar, a culpa se transformando em defesa. “Você nunca me disse que era…” Ele parou, olhando para os garçons humanos e baixando a voz. “Você nunca me disse quem você era.”
“Teria feito diferença?” perguntou Elena. Seus olhos cinzentos, antes cheios de adoração por ele, agora estavam repletos de uma tristeza ancestral. “Se eu não fosse uma princesa, se eu fosse apenas Elena, a humana… você teria vindo ao hospital? Teria segurado minha mão? Ou teria me deixado sozinha porque tinha um jantar importante?”
Alejandro abriu a boca e a fechou em seguida. Não tinha resposta. E o silêncio era a resposta mais brutal de todas.
Elena sorriu, um sorriso triste e abatido.
—Assine os papéis, Alejandro.
“Não”, disse ele. Empurrou os documentos para longe. “Quero que você volte para casa. Podemos renegociar o contrato. Eu demito os funcionários. Você não vai precisar mover um dedo. Você pode ser uma esposa de verdade. Nós podemos… nós podemos tentar.”
Rocío deu um suspiro de espanto, deixando cair a lixa de unha.
—Alejandro! E eu? E o nosso bebê? —Ela colocou dramaticamente a mão na barriga lisa.
Alejandro olhou para ela, com um lampejo de irritação nos olhos. De repente, a beleza de Rocío lhe pareceu vazia, artificial.
—Discutiremos isso mais tarde, Rocío.
“Não há nada a discutir”, disse Elena. Ela se levantou.
Ao fazer isso, seu casaco abriu ligeiramente. O movimento foi sutil, mas o ar-condicionado do restaurante prendeu o tecido do vestido, pressionando-o contra seu corpo por um instante.
Ali havia uma curva. Uma pequena protuberância firme e inegável.
Alejandro congelou. Seu coração parou de bater por um segundo inteiro. Seus olhos percorreram seu estômago e, em seguida, seu rosto.
“Elena…” ele sussurrou. Levantou-se lentamente, como que em transe. “Você… você está grávida?”
O silêncio à mesa era ensurdecedor. Raúl mudou o peso de um pé para o outro, movendo a mão para dentro do paletó, pronto para sacar uma arma.
Elena fechou o casaco rapidamente, apertando o cinto. Seu rosto empalideceu, perdendo o viço saudável.
“Eu já te disse”, disse ela, com a voz trêmula pela primeira vez. “Eu estava doente. Era um tumor. Fiz uma cirurgia. É inchaço pós-operatório.”
“Um tumor?” Alejandro deu a volta na mesa. Seus instintos alfa gritavam. Cheirava… cheirava a vida. Cheirava a leite e mel por baixo do perfume que o mascarava. “Não parecia um tumor. Parecia uma criança.”
Ele se aproximou dela, invadindo seu espaço pessoal.
—É meu?
A pergunta pairava no ar, carregada de eletricidade estática.
—Foi por isso que você estava no hospital naquela noite? Foi por isso que você estava com dor?
“Recue!” avisou Raúl, dando um passo à frente e empurrando Alejandro no peito. Era como empurrar uma parede de tijolos.
“Responda-me!” rugiu Alejandro, sua voz de Alfa fazendo tilintar os copos de cristal nas mesas próximas. Os clientes se viraram com medo. “Ele é meu filho?!”
Elena olhou-o nos olhos. Ela sabia que aquela era sua única chance. Ela tinha que quebrá-lo. Tinha que fazê-lo parar de procurar. Ela reuniu toda a dor que sentira naquela noite de chuva.
“Não”, mentiu ela. A palavra saiu fria, sem vida. “Eu o perdi.”
Alejandro cambaleou para trás como se tivesse levado um tiro.
-Que?
“Naquela noite”, disse Elena, mantendo o olhar fixo no dele, embora por dentro estivesse desmoronando. “Quando você me mandou embora na chuva… eu sofri um aborto espontâneo. O estresse, o frio, a rejeição… meu corpo não aguentou. Perdi o bebê no beco antes que meu pai me encontrasse.”
Foi uma mentira cruel. Uma mentira terrível. Mas uma mentira necessária.
O rosto de Alejandro se desfez. A cor sumiu de sua pele, deixando-a acinzentada. Ele parecia um homem que acabara de ser estripado vivo.
—Você… você estava grávida? E eu…?
“E você foi a um baile de gala”, concluiu ela, implacável. “Você escolheu sua reputação em vez do seu filho. Você escolheu aquele jantar em vez da minha saúde. Então não me peça para voltar para casa, Alejandro. Você destruiu nosso lar. Você matou a única coisa que poderia nos unir.”
Elena se virou e saiu do restaurante, de cabeça erguida, embora lágrimas escorressem livremente pelo seu rosto assim que virou as costas. Raúl a seguiu de perto, lançando um último olhar de desprezo para a Alfa devastada.
Alejandro estava parado no meio do restaurante, rodeado por pessoas que murmuravam, sem conseguir respirar.
Ele havia matado o próprio filho.
CAPÍTULO 8: O RASTRO DA MENTIRA
A chuva tinha voltado. Parecia que sempre chovia quando a vida de Alejandro estava desmoronando.
Ele estava sentado em seu carro no estacionamento do restaurante. Não conseguia dirigir. Suas mãos tremiam tanto que ele não conseguia colocar a chave na ignição. O ar dentro do carro parecia viciado.
Rocío estava sentada ao lado dele, retocando o batom no espelho do guarda-sol.
“Bem”, disse ela, estalando os lábios para conferir a cor. “Isso foi dramático. Pelo menos ele se foi, não é? Ele vai assinar os papéis pelo correio. Agora podemos nos concentrar na campanha. Precisamos escolher um berçário para o bebê; a imprensa vai adorar.”
Alejandro virou lentamente a cabeça para olhá-la. Olhá-la de verdade.
Ela era linda, sim. Perfeita para fotos. Mas era superficial. Vaidosa. Cruel. Ela havia testemunhado a destruição de um homem e tudo o que lhe importava era o batom.
“Saia daqui”, disse ele em voz baixa.
“O quê?” Rocío piscou, confusa.
—Saia do meu carro.
—Alejandro, não seja bobo. Está chovendo.
“Saia do meu carro e saia da minha vida!” ele rugiu, socando o volante com força.
“Você não pode falar comigo assim!”, gritou Rocío. “Estou carregando seu herdeiro!”
“Você está usando?” perguntou Alejandro. A dúvida que o atormentava há semanas, aquela vozinha que ele ignorava, de repente se cristalizou em certeza. “Você cheira a perfume caro e laquê, Rocío. Você nunca cheira a grávida. Elena… mesmo com o perfume bloqueado, ela cheirava diferente. Ela cheirava a mudança. Você cheira igual a um ano atrás.”
“Eu… uso bloqueadores”, gaguejou ela, desviando o olhar. “Para mascarar o cheiro dos rivais. É por segurança.”
“Saia!” Alejandro inclinou-se sobre ela e abriu a porta do passageiro com um empurrão. “Vá embora antes que eu perca o pouco de humanidade que me resta!”
Rocío, apavorada com o brilho dourado nos olhos dele, saiu cambaleando do carro na chuva.
Alejandro bateu a porta com força e saiu dirigindo, deixando marcas de pneus no asfalto.
Eu precisava pensar. Eu precisava da verdade.
Ele dirigiu como um louco até a clínica do médico da matilha, o Dr. Aris, que havia “examinado” Rocío e confirmado a gravidez.
Ele irrompeu no escritório, assustando a recepcionista. Entrou na sala de Aris e agarrou o homem pelas lapelas do jaleco branco, levantando-o do chão.
“A verdade!” rosnou Alejandro, mostrando os dentes. “Rocío está grávida do meu filho?”
O médico tremia, com os pés balançando no ar. Ele exalava um cheiro de medo rançoso.
—Alpha, eu… ela me pagou. Ela disse que foi só uma mentirinha para garantir o noivado. Disse que engravidaria de verdade depois do casamento. Por favor, não me mate!
Alejandro atirou o médico para o outro lado da sala. O homem caiu em cima de um arquivo.
Tudo era mentira. Rocío estava vazia. Seu “herdeiro” perfeito era uma farsa.
E Elena… Elena alegava ter perdido o filho na floresta. Seu filho de verdade.
Alejandro saiu da sala de consulta, seu lobo interior uivando com uma necessidade ardente de verdade. Ele não foi para casa. Foi para o último lugar onde Elena estivera “sozinha”. Para a orla da Floresta Grimwood, onde o sinal do celular dela havia desaparecido naquela noite, onde o Rei Lucas a encontrara.
Chovia novamente, lavando os rastros físicos. Mas, para um Alfa do seu calibre, as marcas de cheiro impregnadas no solo levaram meses para desaparecer.
Ela encontrou o lugar. Um beco sujo perto da linha das árvores. O ar ainda carregava o cheiro metálico e rançoso dos bandidos que a atacaram. Suas garras se estenderam, arranhando os tijolos.
“Se ela perder o bebê aqui”, sussurrou ele, com o coração batendo forte contra as costelas, “eu vou sentir o cheiro.”
Um aborto espontâneo é um trauma físico violento. Deixa um cheiro de dor, de sangue profundo, de uma vida abruptamente interrompida. Cheira a morte e ao fim.
Ele caiu de joelhos na lama, sem se importar com as calças do seu terno de mil euros. Inspirou profundamente, fechando os olhos, apavorado com o que poderia encontrar.
Ele sentiu o cheiro do medo dela. Sentiu o cheiro do desespero dela. Sentiu o cheiro da violência dos agressores.
Mas não havia cheiro de morte. Não havia sangue fetal no chão.
Em vez disso, o ar crepitava com uma poderosa energia residual. Cheirava a ozônio, relâmpagos, pinheiros e neve pura. Cheirava à verdadeira magia Lycan.
“Eles não apenas a encontraram”, percebeu Alejandro, com os olhos arregalados. “Eles a resgataram.”
Ela se levantou, examinando a clareira com sua visão térmica, embora não houvesse mais ninguém ali. Se tivesse abortado a missão, a terra exalaria tristeza. Mas não. Cheirava a resgate. Cheirava a sobrevivência. Cheirava a milagre.
“Ela mentiu”, ele sussurrou. A constatação o atingiu como uma onda, mas desta vez não foi dolorosa. Foi eufórica. “Ela me disse que o perdeu para me manter longe. Para protegê-lo de mim.”
Ele olhou para o norte, em direção às montanhas invisíveis por trás da cortina de chuva, onde o rastro do perfume real o conduzia.
—Ela ainda está grávida. Meu herdeiro está vivo.
Um rosnado feroz e possessivo, repleto de uma esperança aterradora, escapou de sua garganta.
Ela pensou que poderia esconder o filho dele. Pensou que poderia fugir para o Rei dos Licantropos e que ele não a seguiria. Ela subestimou o que um Alfa seria capaz de fazer por sua verdadeira família.
“Estou chegando”, prometeu ele ao vento, deixando a chuva lavar o laquê e a fachada de político perfeito. “Não me importa se você é uma princesa. Não me importa se seu pai é um rei. Você é minha esposa. E estou indo buscar minha família, mesmo que tenha que rastejar no gelo para chegar até você.”
CAPÍTULO 9: A PEREGRINAÇÃO DO GELO
A jornada para o norte foi solitária e brutal. Alexandre não levou um exército. Não levou seu beta, seus guarda-costas ou seus advogados. Foi sozinho.
Ele dirigiu seu carro esportivo até que o asfalto deu lugar a trilhas de terra congeladas e, finalmente, até que as estradas se tornaram intransitáveis devido à neve. Abandonou o veículo na vala, um símbolo de sua antiga vida de luxo sem sentido, e começou a caminhar.
Ele parou na fronteira do território dos Lycans, onde os Picos Sussurrantes se erguiam como adagas contra o céu cinzento. O frio era absoluto, uma entidade viva que penetrava seu casaco de grife e se instalava em seus ossos. Ele conhecia as regras: se uma matilha de lobos cruzasse a fronteira real sem um convite explícito, a Guarda da Neve tinha permissão para matar à vista.
Mas ela não se importou. Ela simplesmente ficou ali parada, na linha invisível, esperando.
Horas se passaram. O sol se pôs no horizonte, pintando a neve em tons de violeta e cinza sombrio. O vento uivava, lançando agulhas de gelo em seu rosto. Seu lobo interior gania, incitando-o a se transformar, a correr, a buscar calor. Mas Alexander se recusou.
Este foi o seu castigo.
Ele havia deixado Elena na chuva em Madri. Ele a esperaria na neve no Norte.
—Você é teimoso(a).
A voz cortou o ar. Alejandro ergueu os olhos, com os cílios paralisados.
O príncipe Raul estava de pé em um cume rochoso acima dele, envolto em peles brancas que o tornavam quase invisível na paisagem. Ele o encarou com uma mistura de frio divertimento e desprezo.
“A maioria dos Alfas teria desistido há horas”, disse Raúl, sua voz ecoando pelo vale. “Ou teriam morrido de hipotermia. Sua resistência é… notável.”
“Não vou embora”, disse Alejandro com a voz rouca, embargada pelo frio. “Não sem falar com ela.”
“Ela não quer falar com você”, disse Raúl, saltando do cume. Ele aterrissou silenciosamente na neve profunda, um feito impossível para um lobo normal. “Ela está se curando, Alejandro. Ela está feliz. Por que trazer sua escuridão de volta para a vida dela?”
“Porque eu cometi um erro”, admitiu Alejandro. O orgulho que definira sua vida se dissolveu na frieza. “Porque eu destruí a única coisa que importava. Porque eu sei que Raúl mentiu para mim. Eu sei que o bebê está vivo.”
Raul ficou tenso. Seus olhos prateados se estreitaram.
—E você veio reivindicá-lo? Como se fosse sua propriedade?
“Vim implorar”, disse Alexandre, caindo de joelhos. Não por causa do frio, mas pelo peso da culpa. “Vim implorar pela minha família.”
Raúl o observou por um longo minuto. Ele farejou o ar, captando o cheiro do homem ajoelhado.
“Você exala arrependimento”, observou o príncipe. “É um cheiro amargo, como cinzas frias.” Ele se virou, dando-lhe as costas. “Siga-me. Mas saiba disto, lobo: se você a perturbar, se causar a ela um único momento de estresse que coloque sua gravidez em risco, eu mesmo o atirarei desta montanha. E não haverá corpo para enterrar.”
CAPÍTULO 10: O PREÇO DO SILÊNCIO
O interior do Palácio Lycan contrastava fortemente com o exterior. Era quente, iluminado pelo fogo de enormes lareiras de pedra. Cheirava a madeira de cedro, especiarias ancestrais e segurança.
Mas Alejandro sentiu frio por dentro.
Ele foi conduzido a uma sala de estar privativa, um cômodo repleto de móveis de veludo e tapeçarias que contavam a história de antigos reis. Ele não se sentou. Não conseguia. Andava de um lado para o outro, deixando poças de água derretida nos tapetes de valor inestimável, com o coração batendo forte contra as costelas como um pássaro preso.
A porta se abriu.
Elena entrou.
Alejandro parou de respirar.
Lucía estava radiante. Não havia outra palavra para descrevê-la. Sua pele tinha um brilho perolado, quase mágico. Seus cabelos eram mais espessos e brilhantes, caindo em ondas escuras sobre os ombros. Ela vestia um simples vestido de seda azul-escuro que fluía sobre suas curvas, acentuando sua radiância.
Ela não se parecia em nada com a mulher pálida e frenética que ele havia enviado de Uber. Ela parecia uma rainha. Ela parecia o seu destino.
“Alejandro”, disse ela suavemente. Sua voz era calma, distante. Doía mais do que se ela tivesse gritado com ele.
—Raúl disse que você se recusou a ir embora.
“Eu não consegui”, sussurrou ele, absorvendo a imagem dela como um homem morrendo de sede. “Elena, eu…” Ele deu um passo à frente, mas parou abruptamente quando ela instintivamente recuou, envolvendo-o pela cintura num gesto protetor.
Aquele pequeno gesto partiu-lhe o coração mais do que qualquer palavra. Ela tinha medo dele.
“Por que você está aqui?”, perguntou ela, mantendo distância. “Assinamos os papéis. O dinheiro foi transferido. Não há mais nada a discutir.”
“Há muito o que discutir”, implorou ele. “Eu estava errado. Sobre tudo.”
“Você estava errado sobre muitas coisas”, concordou ela, com uma calma arrepiante. “Você achava que eu era fraca. Você achava que eu era um fardo. Você achava que minha humanidade me tornava inferior.”
“Eu pensei que estava protegendo a matilha”, argumentou ele, com o desespero transparecendo em sua voz. “Pensei que precisava de uma companheira metamorfa para garantir nosso legado, para manter o poder político. Eu estava cego, Elena. Eu não te vi. Eu não vi que força não tem nada a ver com presas.”
“E agora que você sabe que sou uma Princesa Lycan…” ela disse, um sorriso amargo curvando seus lábios. “Agora sou digna. Agora sou suficiente para o grande Alfa Blackwood.”
“Não!” gritou Alexandre, depois baixou a voz, envergonhado de seu acesso de raiva. “Não se trata do seu sangue. Não me importa se você é uma princesa ou uma plebeia. Trata-se de silêncio.”
Ele deu mais um passo em direção a ela, arriscando-se a provocar sua ira.
“Desde que você foi embora, a casa está tão silenciosa, Elena. Ouço seus passos no corredor, mas você não está lá. Sinto o seu cheiro de baunilha nos travesseiros, mas ele está desaparecendo a cada dia. Estou ficando louco. Eu não quero uma princesa. Eu quero minha esposa. Eu quero a mulher que me fazia rir quando eu queimava a torrada.”
Elena desviou o olhar. Sua compostura vacilou ligeiramente.
—É tarde demais, Alejandro. Você fez sua escolha. Você escolheu Rocío.
“A Rocío se foi”, disse ela rapidamente. “Eu a expulsei. Percebi… percebi que ela não era nada. Era uma mentira. Você era a única coisa real na minha vida.”
Ele estava perto o suficiente para sentir o cheiro. E lá estava. A prova final que ele havia viajado centenas de quilômetros para encontrar.
Não era apenas baunilha e chuva. Era algo mais rico, mais profundo. Cheirava a leite doce e flores frescas. O aroma inconfundível de uma loba.
E então, os sentidos de Alpha captaram o som.
Tum, tum… tum, tum.
Um segundo coração. Rápido, palpitante, forte. Uma batida de tambor que ressoava em sincronia com a sua própria.
Alejandro não soltou um suspiro. Não se afastou. Simplesmente fechou os olhos, e uma única lágrima, quente e pesada, escapou, traçando um caminho por sua bochecha suja.
“Eu fui até o beco, Elena”, ele sussurrou. Sua voz tremia, não de raiva, mas de pura dor. “Eu fui até o lugar onde você disse que o perdeu. Eu me ajoelhei na lama. Senti o cheiro do medo. Senti o cheiro da violência… mas não senti o cheiro da morte.”
Ele abriu os olhos, fixando seu olhar cinzento e tempestuoso no dela.
—Eu sabia que você estava mentindo.
Elena enrijeceu. Suas mãos voaram para o estômago, cobrindo-o completamente, um escudo de carne e osso contra ele.
“Alejandro, vá”, disse ela, com a voz se elevando, o pânico tomando conta. “Por favor…”
“Por quê?” ele sussurrou, caindo de joelhos diante dela. Ele estava na altura da barriga dela. “Eu suspeitava, mas ver você… ouvir as batidas do coração dele… isso me despedaça, Elena. Por que você me fez acreditar que ele tinha ido embora? Sou tão monstruoso aos seus olhos?”
“Porque eu não confiei em você”, chorou Elena, finalmente desabando. Lágrimas brotaram em seus olhos. “Eu não confiei em você com ele. Você me rejeitou, Alejandro. Você me tratou como uma transação comercial. Eu não ia deixar meu filho ser criado por um homem que valorizava o poder acima do amor. Eu não ia deixar você transformá-lo em outro Alfa frio como você.”
A confirmação o atingiu com mais força do que qualquer golpe físico. Ela não havia escondido o bebê por despeito. Ela o fizera por medo. Medo dele. Medo do que ele representava.
“Me desculpe…” ele soluçou, enterrando o rosto nas mãos sujas, com a testa encostada no chão aos pés dela. “Meu Deus, Elena, me desculpe.”
CAPÍTULO 11: O FIO QUE SE ROMPE
Elena viu o homem que outrora fora o centro do seu universo desmoronar a seus pés. Ela esperava raiva. Esperava que ele reivindicasse seus direitos como pai, que chamasse seus advogados, que ameaçasse uma guerra entre alcateias.
Eu não esperava essa devastação total.
Sua loba, desperta e sensível, choramingou contra seu peito, incitando-a a confortar seu companheiro. “Ele está com dor”, sussurrou a loba. “Ele é nosso.”
Lentamente, com cautela, ela estendeu a mão. Seus dedos tremiam. Ela tocou seus cabelos escuros e despenteados. Estavam macios, embora úmidos pela neve derretida.
—Levante-se, Alejandro—, disse ele gentilmente.
Ele ergueu o olhar. Seus olhos estavam vermelhos, seu rosto molhado de lágrimas e sujeira. Parecia uma criança perdida, não um líder poderoso.
“Eu não mereço isso”, sussurrou ela, olhando para a barriga. “E eu não mereço você.”
“Não”, ela concordou. Ela não ia dourar a pílula. “Você não nos merece. Ainda não. Mas…” Ela respirou fundo. “Ele é seu filho. E ele merece conhecer o pai, se o pai estiver disposto a mudar. Se o pai estiver disposto a ser um homem, não apenas um Alfa.”
Alexandre levantou-se lentamente, olhando para ela como se fosse uma divindade que lhe tivesse concedido uma segunda vida.
“Eu vou mudar”, jurou ele. A intensidade em sua voz era aterradora. “Serei o que você precisar. Dormirei no chão. Abandonarei a matilha. Lavarei a louça. Qualquer coisa.”
“Não preciso que você abandone a matilha”, disse ela, enxugando uma lágrima. “Preciso que você esteja aqui. Preciso que você seja gentil. Preciso…”
De repente, uma onda de tontura a atingiu.
O quarto girou violentamente. As cores ficaram turvas. Uma dor aguda, como um gancho em brasa, atravessou seu lado direito, muito pior do que as dores anteriores.
“Ah!” Elena exclamou, curvando-se para a frente.
“Elena?” Alejandro apareceu instantaneamente, segurando-a antes que ela caísse no chão. Seus braços eram fortes, firmes. “O que houve? O que está acontecendo?”
“Não… eu não sei.” Seu rosto empalideceu em segundos. Gotas de suor se formaram em sua testa. “Dói. O bebê… parece pesado. Como fogo.”
As pernas dela cederam. Alejandro a ergueu nos braços, gritando pelo corredor com uma voz que fez as janelas tremerem.
—SOCORRO! PRECISAMOS DE UM MÉDICO! AGORA!
CAPÍTULO 12: O VÍNCULO DA VIDA OU DA MORTE
A Curandeira Real, uma licantropa idosa chamada Amaia, com olhos brancos devido à catarata, mas com perfeita visão espiritual, irrompeu na sala. Atrás dela, o Rei Lucas e Raúl entraram apressadamente, com os rostos pálidos.
Alejandro se recusava a sair do seu lado da cama. Ele segurava a mão de Elena com tanta força que temia quebrar seus ossos, mas ela o apertava com a mesma intensidade.
Amaia colocou suas mãos enrugadas na barriga de Elena. Ela murmurou palavras antigas, e uma luz verde emanou de suas palmas. Ela franziu a testa, as rugas em seu rosto se aprofundando.
“O que foi?” perguntou Alejandro, com a voz embargada pelo pânico. “O bebê está bem?”
“O bebê é forte”, disse Amaia, com seriedade. “Forte demais. Esse é o problema.”
Ele olhou para Elena, que respirava com dificuldade, com os olhos vidrados devido à febre repentina.
—Seu corpo humano foi suprimido pela magia durante vinte e dois anos. Agora, o bebê, um Alfa Lycan de sangue puro, está absorvendo mais poder do que ela consegue gerar. É um parasita divino. Seu lado humano está rejeitando a influência mágica. Está entrando em colapso.
“O que isso significa?” perguntou Raúl, aproximando-se da cama.
“Significa”, disse a curandeira suavemente, “que o corpo dela está falhando. Se não estabilizarmos a energia dela na próxima hora, vamos perdê-la. E a criança.”
O mundo de Alejandro parou. Ele acabara de encontrá-la. Acabara de reconquistá-la. Não podia perdê-la agora.
“Peguem minha energia”, disse ele imediatamente, estendendo o braço. “Eu sou um Alfa. Eu sou o pai. Peguem o que precisarem. Matem-me se for preciso, mas salvem-nos.”
“Não funciona assim”, disse a curandeira, balançando a cabeça. “Uma transfusão de energia bruta a esgotaria. Ela precisa de uma âncora.”
Ele fez uma pausa, olhando para Alejandro e depois para Elena. O silêncio na sala tornou-se pesado.
“A menos que…?” perguntou o rei Lucas, compreendendo o que o curandeiro não estava dizendo.
“A menos que o vínculo entre os dois seja completo”, disse Amaia. “Um vínculo verdadeiro permite compartilhar a força vital de alma para alma. Se você a marcar, se unir suas essências, poderá nutrir o lobo dela com a sua força. Poderá segurá-la enquanto o filhote mama.”
O silêncio tomou conta da sala.
O rei Lucas deu um passo à frente, com voz severa.
“A marca de acasalamento é permanente, Alejandro. Uma vez que você a morde, não há divórcio. Nem contratos. Não há volta. Vocês estarão ligados para a eternidade. Você sentirá a dor dela, e ela sentirá a sua.”
Alejandro olhou para Elena. Seus olhos estavam fechados, sua respiração era superficial e irregular.
Ele não hesitou. Nem por um segundo.
“Não quero contrato”, disse ele, com a voz rouca. “Nunca quis.”
Ele se inclinou sobre ela, afastando os cabelos suados de seu pescoço.
—Elena… você consegue me ouvir?
Suas pálpebras se abriram com dificuldade. Seus olhos cinzentos estavam turvos.
“Alejandro…” ela sussurrou. “Dói. Estou com medo.”
“Eu sei, querida. Eu sei.” Ele acariciou o rosto dela. “Eu posso ajudar, mas preciso que você me aceite. Preciso te marcar. Preciso ser seu, completamente e verdadeiramente. Você me permite?”
Elena olhou nos olhos dele. Ela viu o medo ali, sim. Mas também viu o amor. O amor inegável, avassalador e desesperado que ele vinha tentando esconder há meses sob camadas de arrogância.
“Você me rejeitou…” ela o lembrou fracamente, uma lágrima solitária escorrendo por sua têmpora.
“Eu fui um tolo”, disse ele, com a voz embargada. “Passei a vida buscando poder, pensando que era isso que eu precisava para ser um Alfa. Mas você… você é o poder. Você é tudo o que eu preciso. Por favor, Elena. Deixe-me salvá-la. Deixe-me ser seu.”
Ela assentiu com a cabeça. Foi um movimento pequeno, quase imperceptível, mas suficiente.
“Está bem”, ela sussurrou, expondo o pescoço. “Salve-nos.”
CAPÍTULO 13: A MARCA DA LUA
Alejandro baixou a cabeça até a curva do pescoço, exatamente onde seu pulso pulsava freneticamente sob a pele pálida. Seu coração batia forte nos ouvidos.
Isso não foi apenas uma mordida. Foi um voto. Foi um casamento mais antigo e sagrado do que qualquer pedaço de papel assinado em um tribunal.
Estendeu suas presas. Sussurrou uma prece silenciosa à Deusa da Lua. E então, mordeu.
A sensação era eletrizante.
Não era dor. Era uma explosão de luz dourada que conectou suas mentes.
Alejandro sentiu a barreira em sua mente se estilhaçar. De repente, ele a sentiu . Sentiu seu medo, seu esgotamento físico, seu amor feroz pelo bebê… e seu amor por ele, enterrado profundamente sob camadas de dor e desconfiança, mas ainda vivo.
Ela dedicou toda a sua força ao vínculo. Ela canalizou cada grama de seu poder Alfa para dentro dela, preenchendo as lacunas, estabilizando sua loba, alimentando a filhote faminta com sua própria essência.
“Eu te protejo”, disse ele em silêncio, mente a mente. “Não vou te deixar ir.”
Elena deu um suspiro, arqueando as costas para fora do colchão. A cor voltou às suas bochechas num instante. A dor lancinante no estômago desapareceu, substituída por uma sensação calorosa e vibrante de segurança. O bebê se acalmou, embalado pela energia paterna que invadia o ambiente.
Alexander recuou lentamente, lambendo a gota de sangue que escorria da marca. A ferida cicatrizou instantaneamente, deixando uma cicatriz prateada em forma de crescente: a marca da matilha Blackwood, mas brilhando com o esplendor da realeza Lycan.
“Está feito”, disse a curandeira Amaia, verificando o pulso de Elena com um sorriso satisfeito. “Seus sinais vitais estão se estabilizando. O bebê está calmo.”
Raúl soltou um longo suspiro que nem percebera estar prendendo e encostou-se na parede. O rei Lucas enxugou discretamente uma lágrima.
Alejandro encostou a testa na de Elena. Ambos respiravam com dificuldade, compartilhando o mesmo ar.
“Você está bem”, murmurou ele. “Você está segura.”
“Eu consigo te sentir”, ela sussurrou, com espanto na voz. Seus olhos agora tinham reflexos dourados misturados com cinza. “Na minha cabeça… você parece quente. E você parece… tanta tristeza.”
“Me desculpe”, disse ele, beijando o nariz dela. “Passarei todos os dias do resto da minha vida tentando compensar você.”
Ela sorriu, um sorriso cansado, mas genuíno, o primeiro sorriso verdadeiro que lhe dera em meses.
“Você pode começar me trazendo aqueles pêssegos”, murmurou ela, fechando os olhos enquanto um sono tranquilo a envolvia. “E talvez uma massagem nos pés.”
Alejandro deu uma risada, um som de puro alívio que dissipou a tensão no ar.
—Feito. Considere feito, minha Lua.
CAPÍTULO 14: O RETORNO DO ALFA
A recuperação foi lenta, mas constante. Nas semanas seguintes, Alejandro não saiu do lado de Elena. Dormia numa cadeira desconfortável ao lado da cama dela, recusando-se a usar o quarto de hóspedes. Alimentava-a, lia para ela os enfadonhos relatórios do conselho para ajudá-la a dormir e discutia com Raúl sobre a melhor maneira de afofar os travesseiros dela.
Sua matilha no sul, a Matilha Blackwood, estava em um estado de caos controlado sem seu líder físico, mas Alexander não se importava. Ele dava ordens por videochamadas, mas seu lugar era lá, no norte congelado.
Certa tarde, eles estavam sentados no jardim de inverno do palácio. A neve lá fora começava a derreter, dando lugar aos primeiros brotos da primavera. Elena estava enrolada em cobertores, observando o pôr do sol.
“Meu pai quer que eu fique”, disse ela de repente, quebrando o silêncio confortável. “Aqui, no Norte. Ele diz que o bebê deve ser criado como um príncipe, na segurança do castelo.”
Alejandro ficou tenso. Largou o livro que estava lendo e olhou para as mãos. Sabia que Lucas tinha razão. Eles estavam seguros ali. Ali, ela era da realeza.
“E o que você quer?”, perguntou ela, temendo a resposta, mas precisando saber.
Elena se virou para encará-lo. Seus olhos brilhavam com uma determinação recém-descoberta.
—Eu quero um lar, Alejandro. Não um castelo, não uma fortaleza de gelo. Um lar.
Ele olhou pela janela, em direção ao sul.
—Você se lembra da casa que comprou em La Moraleja? Aquela casa fria e moderna que você escolheu por causa do contrato?
Ele assentiu com a cabeça, fazendo uma careta ao se lembrar do ocorrido.
—Era um mausoléu. Eu odiei.
“Era sim”, concordou ela. “Mas tinha um quintal enorme. E uma cozinha iluminada.” Ela pegou a mão dele e entrelaçou seus dedos. A marca em seu pescoço pulsou com calor. “Quero voltar, Alejandro. Mas não como hóspede. Não como esposa por contrato. Quero que seja nossa. Quero pintar o quarto do bebê de amarelo, não daquele cinza ‘chique’ que você gosta. Quero demitir os funcionários esnobes e cozinhar nossas próprias refeições. Quero que nosso filho corra naquele gramado.”
“Você quer voltar para a matilha?” perguntou Alejandro, com a esperança desabrochando em seu peito como uma flor no deserto. “Afinal?”
“Quero voltar para o meu marido”, corrigiu ela gentilmente. “E quero mostrar à sua matilha o que é uma Luna de verdade. Não um troféu, mas uma companheira.”
Alexandre se inclinou e beijou a testa dela, tomado por uma imensa gratidão.
—Se é isso que você quer, podemos pintar a casa de rosa neon.
CAPÍTULO 15: A NOVA ERA
O retorno ao Bando Blackwood não foi silencioso. Eles chegaram em um comboio de veículos todo-terreno Lycan, escoltados por Raul e um esquadrão da Guarda Real do Norte. Quando os carros pararam em frente à mansão, todo o bando estava esperando no jardim da frente.
Eles pareciam nervosos. Tinham ouvido os rumores. Seu Alfa havia ido à guerra por um “humano” e retornado com uma Princesa Lycan. A dinâmica de poder havia mudado para sempre.
Alejandro saiu primeiro. Estendeu a mão para ajudar Elena a descer. Ela estava no último mês de gravidez, com a barriga grande e radiante, transbordando saúde e força.
Dessa vez, ela não se escondeu atrás dele. Ela ficou ao lado dele.
Ela olhou para a multidão. Para as pessoas que a haviam ignorado, para aquelas que haviam murmurado sobre sua origem humilde, para aquelas que haviam zombado de suas roupas baratas.
Ela liberou uma fração de sua aura. Não foi um ataque. Não foi dominação agressiva. Foi uma declaração.
Estou aqui. Sou forte. Sou sua mãe.
Os lobos baixaram a cabeça em uníssono, exibindo seus pescoços. Submissão. Não por medo, mas por reconhecimento.
—Bem-vinda de volta, Luna—, disse o Beta da matilha, curvando-se profundamente.
Elena sorriu. Ela olhou para Alejandro. Ele a encarava com um orgulho tão intenso que fez seu coração se encher de alegria.
“Vamos entrar”, disse ela. “Tenho um quarto de bebê para pintar.”
Eles entraram na casa. Cheirava a lustra-móveis e ar viciado.
“Primeiro as coisas mais importantes”, disse Elena, caminhando com dificuldade. “Abra as janelas. Está com cheiro de museu aqui dentro.”
Alejandro riu. Caminhou até as janelas e as abriu de par em par, deixando entrar o ar fresco da primavera e o canto dos pássaros. Virou-se para ela. A luz do sol iluminou seus cabelos, criando uma auréola.
Ele caminhou em direção a ela e a abraçou pela cintura, tomando cuidado com a barriga dela.
“Eu te amo”, disse ele. Era fácil dizer agora. Essencial. “Eu te amo, Elena Blackwood.”
“Eu também te amo, Alejandro”, sussurrou ela, inclinando-se para beijá-lo. “Agora traga a tinta. Temos trabalho a fazer.”
CAPÍTULO 16: O NASCIMENTO DO SOL DA MEIA-NOITE
O quarto das crianças era pintado de amarelo. Não um amarelo pálido e tímido, mas a cor do sol do meio-dia, dos dentes-de-leão e da pura alegria.
Elena estava no meio da sala, com uma das mãos apoiada no encosto da cadeira de balanço de madeira. Lá fora, uma tempestade de primavera sacudia as janelas. Era a mesma tempestade de meses atrás, quando ela havia partido. Mas desta vez, ela estava dentro de casa. Segura. Aquecida. Amada.
“Alejandro”, ela chamou. Sua voz era calma, mas havia um fio de tensão que fez os pelos de seus braços se arrepiarem.
Ele apareceu na porta em segundos, ainda com uma chave de fenda na mão; estava montando o berço.
—O quê? O que houve? É o bebê?
“Chegou a hora”, disse ela. Apertou a cadeira com mais força, os nós dos dedos ficando brancos enquanto uma contração a percorria. “Minha bolsa estourou.”
Alejandro deixou cair a chave de fenda. O som metálico ecoou no chão de madeira. O pânico brilhou em seus olhos. O pânico puro e apavorado de um homem que sabe que está prestes a enfrentar o momento mais importante de sua vida.
—Agora? Mas o médico disse que faltam mais duas semanas.
“Seu filho não se importa com a agenda do médico”, disse Elena, ofegante, lutando contra a dor. “Ele quer sair. Agora.”
Alejandro se mexeu. Ele não chamou um Uber. Ele não olhou para o relógio. Ele não ligou para seu assistente.
Ele a ergueu nos braços, segurando-a como se ela fosse feita de cristal e luz das estrelas.
“Eu te protejo”, sussurrou ele, apressando-a para o quarto principal, onde tudo estava preparado para um parto domiciliar, como era tradição entre os Lycans. “Eu te protejo, Elena.”
O parto foi rápido e violento. Nascimentos de licantropos não eram eventos delicados; eram verdadeiras batalhas. O filhote lutou para vir ao mundo com a mesma ferocidade que sua mãe usara para sobreviver nele.
O curandeiro da matilha e uma parteira Lycan enviados por Lucas circulavam pelo quarto, mas Alejandro se recusava a sair do lado de Elena. Ele sentou-se atrás dela na cama, encostando as costas em seu peito, com as mãos entrelaçadas.
“Respire”, instruiu ele, com a voz firme, embora seu coração estivesse batendo descontroladamente contra as costas dela. “Você é forte. Você é uma rainha.”
“Dói!” gritou Elena, jogando a cabeça para trás contra o ombro. “Eu não consigo!”
“Você consegue”, prometeu ele, beijando o suor em sua têmpora. “Você atravessou uma nevasca para me salvar. Você enfrentou um rei. Isso não é nada.”
Ele a alimentava com sua força através da ligação entre eles. Elena podia sentir: uma corrente de energia quente e dourada fluindo dele para ela, suavizando a dor aguda, dando-lhe forças para continuar quando seus músculos ameaçavam ceder. Era a parceria com a qual ela sempre sonhara.
“Só mais uma!” ordenou o curandeiro. “Está quase aqui!”
Elena gritou, um som primal de esforço e libertação.
E então… silêncio.
Seguido por um choro furioso e molhado que encheu o quarto.
“É um menino”, anunciou a curandeira, com um sorriso cansado. Ela enrolou o pequeno ser que se debatia em um cobertor macio e o entregou a Elena.
Alejandro inclinou-se sobre o ombro dele, prendendo a respiração.
O bebê era perfeito. Tinha uma mecha de cabelo preto, igualzinha à do pai. Mas quando piscou e abriu os olhos, eles não eram cinzentos. Eram prateados. Prateados derretidos e brilhantes, a marca inconfundível do Lycan.
“Ele é lindo”, sussurrou Alejandro, com a voz embargada. Estendeu um dedo trêmulo e a pequena mão do bebê o envolveu. O aperto era surpreendentemente forte. “Olá, filho. Sou eu, papai.”
Lágrimas escorriam pelo rosto de Alejandro, pingando no ombro de Elena.
Elena recostou-se nele, exausta, mas eufórica.
“Nós conseguimos”, murmurou ele. “Formamos uma família.”
—Você conseguiu—corrigiu Alejandro. —Eu apenas segurei sua mão.
“Você ficou”, disse ela, fechando os olhos. “Isso é tudo o que eu sempre quis.”
CAPÍTULO 17: O FIM DO COMEÇO
A apresentação do herdeiro da matilha foi um momento que entraria para a história.
Alejandro estava na varanda da casa da alcateia, com Elena ao seu lado. Ela segurava o bebê enrolado em uma manta bordada com a lua da Floresta Negra e o brasão real dos Lycans. Toda a alcateia estava reunida no gramado. Estavam em silêncio, aguardando.
“Este é Julian”, anunciou Alejandro, com a voz transbordando orgulho paternal. “Julian Lucas Blackwood. O futuro Alfa.”
Elena deu um passo à frente. Ela puxou o cobertor para trás para que a matilha pudesse vê-lo.
Julian cerrou um pequeno punho e seus olhos captaram a luz do sol, brilhando em tons prateados.
Um suspiro coletivo percorreu a multidão. Um herdeiro Lycan.
A matilha caiu de joelhos. Não foi forçado. Foi reverência. Eles sabiam o que aquilo significava. Sua matilha não era mais apenas um território; era uma dinastia. Eles eram protegidos pelo sangue de reis.
Raúl estava na primeira fila. O Príncipe do Norte acenou lentamente com a cabeça para Alejandro. Era um gesto de respeito. De igual para igual. De irmão para irmão.
Alexandre acenou com a cabeça em resposta. A inimizade havia terminado.
Naquela noite, depois que as comemorações diminuíram, Alejandro encontrou Elena no berçário amarelo. Ela embalava Julián, cantarolando aquela melodia suave e triste que costumava cantarolar quando estava sozinha na cozinha. Mas não soava mais triste. Soava como uma canção de ninar cheia de promessas.
“Você deveria dormir”, disse Alejandro suavemente, encostando-se no batente da porta. “Ela finalmente dormiu.”
“Eu simplesmente gosto de olhar para ele”, admitiu Elena. “Tenho medo de que, se eu fechar os olhos, acorde sozinha naquele pequeno apartamento.”
Alejandro caminhou em direção a ela. Pegou o bebê de seus braços e o colocou delicadamente no berço. Em seguida, virou-se para Elena e a ergueu nos braços, como uma noiva.
“Você nunca mais ficará sozinha”, ele prometeu. “Eu assinei um contrato, lembra?”
Elena riu, envolvendo os braços em volta do pescoço dele.
—O contrato é nulo.
“Então assinarei um novo”, disse ele, conduzindo-a ao seu quarto. “Escrito com o que você quiser. Sangue, tinta, estrelas. Sou seu, Elena. Até a lua cair do céu.”
Ele a deitou na cama. Não se virou. Não foi para o outro lado. Deitou-se ao lado dela, puxando-a para seus braços e entrelaçando suas pernas.
“Boa noite, esposa”, ele sussurrou.
“Boa noite, marido”, ela respondeu.
E enquanto adormecia, envolvida pelo seu perfume e calor, Elena percebeu que o médico estivera errado todos aqueles anos atrás. Ela não estava quebrada. Ela não estava vazia. Ela simplesmente estava esperando o momento certo para se preencher de luz.
EPÍLOGO: CINCO ANOS DEPOIS
Cinco anos depois, a propriedade Blackwood estava um caos. Não do tipo ruim, mas do bom. Havia brinquedos espalhados pelo gramado impecável, um triciclo tombado na entrada da garagem e o som de risadas altas ecoando do jardim.
“Você não pode me pegar!” gritou Julian. Ele tinha cinco anos e conseguia se transformar facilmente entre um menino de cabelos negros e um pequeno filhote de lobo de pelagem prateada. Ele era rápido. Rápido como um lobisomem.
“Ah, eu vou te pegar!” rugiu Alexander em tom de brincadeira, perseguindo-o em forma humana, com a gravata desfeita e as mangas arregaçadas. Ele pegou o filhote, jogando-o para o alto. Julian voltou a ser o centro das atenções do pai, aterrissando como uma criança risonha.
—De novo! De novo!
Elena observava da varanda, com uma das mãos novamente repousando sobre a barriga inchada.
“Outra criança. Desta vez é uma menina”, disse a curandeira, que viera fazer uma visita. Ela sorriu, tomando um gole de chá.
A porta se abriu atrás de Elena. Raúl saiu, segurando um copo de limonada. Ele a visitava com frequência, geralmente sob o pretexto de “relações diplomáticas”, mas, na verdade, só queria mimar o sobrinho.
“Ele é rápido”, observou Raúl. “Ele será um bom rei.”
“Ele será um bom homem”, corrigiu Elena. “Isso é mais importante.”
Alejandro carregou Julián escada acima. Ele estava ofegante, com os cabelos despenteados e a camisa manchada de grama. Parecia mais feliz do que ela jamais o vira.
Ele colocou Julian no chão, que imediatamente correu em direção a Raul.
—Tio Raul, tio Raul! Você trouxe a espada?
“Talvez”, sorriu Raúl, levando a criança embora em tom conspiratório.
Alejandro caminhou até Elena. Ele se ajoelhou em frente à cadeira dela e lhe deu um beijo na barriga.
“Como ela está?”, perguntou ele.
“Ela está calma hoje”, disse Elena. “Ao contrário do irmão dela.”
Alejandro repousou a cabeça no colo dela, fechando os olhos sob o sol da tarde.
—Eu estava pensando—ele disse—no aniversário.
-Qual?
—O dia em que nos conhecemos. O dia em que você derramou vinho nos meus sapatos italianos naquele restaurante.
Elena riu.
—Não foi nesse dia que nos conhecemos. Foi no dia em que você tentou me demitir.
“O melhor erro da minha vida”, murmurou ele. “Se você não tivesse derramado aquele vinho, se eu não tivesse sido obrigado a te notar… eu poderia ter perdido toda a minha vida.”
“Você foi uma idiota”, disse Elena carinhosamente, passando os dedos pelos cabelos.
“Eu era”, concordou ele. “Mas eu era um idiota sortudo.”
Ele se levantou e a puxou delicadamente para mais perto. Beijou-a, lenta e profundamente, ali mesmo na varanda, para que toda a matilha visse. Ele não se importava mais com a reputação. Não se importava em parecer frio ou forte. Ele tinha a única força que importava.
Ele a tinha.
E essa é a história de como um servo humano fez um rei Alfa se ajoelhar. Descobriu-se que os laços mais fortes não são feitos de magia ou linhagem sanguínea. São feitos de perdão. Alexander aprendeu que o poder não é nada sem amor. E Elena aprendeu que até os começos mais conturbados podem levar a um final feliz.
FIM