A Herdeira Cega de Madrid: Quando o império criminoso do meu pai desmoronou, eu tive que provar que, na escuridão total, eu era a única capaz de enxergar a verdade e sobreviver à guerra.

PARTE 1

Meu mundo nunca foi preto. Essa é a primeira mentira que as pessoas que enxergam contam a si mesmas sobre nós. Preto é uma cor, e eu não entendo de cores. Meu mundo é uma vasta e complexa sinfonia de texturas, vibrações, ecos e temperaturas. É um mapa tridimensional que é desenhado e apagado na minha mente a cada som que reverbera nas paredes.

Sei que meu pai, Fausto Beltrán, entrou em casa não porque ouvi a porta de carvalho maciço abrir — aquelas dobradiças são lubrificadas demais pelos funcionários —, mas pela sutil mudança na pressão do ar no hall de mármore. Sei disso pelo aroma que o precede: uma mistura cara de couro italiano dos seus sapatos, a fumaça rançosa dos charutos que fuma quando está estressado e aquela colônia amadeirada que usa para mascarar o cheiro metálico e ácido do medo.

Medo. Esse tem sido o cheiro constante em nossa mansão em La Moraleja, nos arredores de Madri, desde que me lembro.

Durante doze anos, meu pai tentou construir uma fortaleza em torno da minha “deficiência”. Muros altos, câmeras de segurança que eu não conseguia ver, guardas com cheiro de café barato e tédio em suas cabines. Fausto Beltrán, conhecido em certos círculos comerciais obscuros como “O Leão”, achava que poderia manter seu filhote seguro simplesmente negando a realidade da selva.

“Você está segura aqui, meu amor”, ele sussurrava para mim à noite, quando vinha me dar um beijo de boa noite, e eu sentia o frio do seu relógio de ouro contra a minha testa. “Ninguém nunca vai te machucar. Papai vai cuidar de tudo.”

Mas papai não conseguia controlar o silêncio. Aquele silêncio denso e aveludado que preenchia minha vida, quebrado apenas pelo som dos meus passos hesitantes e pelo arrastar da minha bengala branca contra os móveis Luís XV que abarrotavam a casa. Eu era uma prisioneira de luxo, uma boneca de porcelana imperfeita mantida em uma caixa de vidro à prova de balas.

Até que Isolda chegou. E com ela, veio o barulho.

O som da primeira batida foi seco, rítmico, quase musical. Madeira contra madeira. Não era o tilintar de taças de cristal da Boêmia nos jantares de negócios do meu pai, nem o lamento das sirenes distantes na M-30. Era um som tribal, ancestral, ecoando no porão de pedra da nossa casa.

“De novo”, disse Isolda. Sua voz não era a da empregada submissa que servia o café da manhã havia oito meses. Não tinha aquele tom condescendente e piedoso que todos usavam comigo. Sua voz era como lixa: áspera, direta, com um forte sotaque sulista que não admitia contestação. “Não dê ouvidos à vara, Valentina! Sinta o ar!”

Eu estava descalço sobre o chão frio de granito. O suor grudava na minha camiseta, colado às minhas costas. Meus pulmões ardiam. Virei a cabeça, tentando localizá-la na escuridão da minha mente. Meus olhos, inúteis desde o nascimento, fitavam o vazio, mas todo o meu ser era um radar a todo vapor.

Senti a vibração de seus passos rápidos me cercando. Uma predadora paciente. Isolda, a mulher que viera para esfregar o chão e agora me ensinava a sobreviver.

“Ataquem!” ele gritou.

Eu não ouvi o estrondo. Eu o senti. Uma compressão repentina do ar à minha esquerda, uma perturbação na atmosfera tranquila do porão. O instinto, algo que permanecera adormecido sob camadas de superproteção, assumiu o controle. Eu não me assustei. Não tentei me esconder atrás da parede.

Dei um passo em direção ao perigo. Levantei o cabo da minha vassoura, cortei em ângulo, tentando interceptar a trajetória que minha mente havia calculado em uma fração de segundo.

Rachadura!

O impacto fez meus braços vibrarem até os ombros. A dor era aguda, real, gloriosa. Eu havia bloqueado o golpe.

— Bom — disse Isolda, e eu pude ouvir o sorriso forçado em sua voz. — Mas você hesitou, criança. E na rua, hesitar é como quebrar uma costela. Ou pior. É preciso antecipar. O vento muda antes do soco chegar. Escute o vento.

“Estou tentando…” sussurrei, com o coração batendo forte contra as costelas.

—Não tente. Faça. Ou eu te esmago.

Três golpes rápidos. Alto, baixo, de lado. Bloqueei os dois primeiros; o som da madeira se chocando foi meu aplauso. Mas o terceiro foi uma finta. Senti a bengala de Isolda atingir meu quadril. O ar escapou dos meus pulmões com um chiado. Curvei-me de dor, mordendo o lábio para não gritar. Eu não ia lhe dar a satisfação de me ouvir chorar. Já chorei demais na minha vida.

E então, senti a outra presença. Aquela que estivera à porta, observando em silêncio.

O cheiro de tabaco caro e de medo rançoso impregnava o porão. A porta foi aberta violentamente, batendo com força contra a parede de pedra.

—Mas que diabos é isso?

A voz do meu pai era um trovão grave, aquele tom gutural que ele usava quando falava ao telefone com sócios que o tinham deixado na mão em algum porto de contêineres. O tipo de voz que precedia longos silêncios.

Deixei cair o bastão. O barulho foi obsceno no silêncio repentino. Tentei me endireitar, ignorando a dor aguda no quadril.

“Pai, você chegou cedo…” Minha voz saiu trêmula, traindo a força que eu sentira segundos antes.

Senti Isolda se mover. Um passo suave para o lado, colocando-se sutilmente entre a fúria do meu pai e eu. Um gesto suicida. Ninguém se interpunha entre “O Leão” e seu alvo.

“Eu te fiz uma pergunta”, murmurou ele, ignorando-me e concentrando sua raiva na mulher. “Que diabos você está fazendo com a minha filha no porão?”

“Ensinando-o”, respondeu Isolda. Sua voz não tremia. Nem um pouco. Era firme como rocha.

—Para quê? Para ser morta? Ela é cega, pelo amor de Deus! Ela mal consegue descer as escadas do jardim sem se apoiar no braço de alguém!

“Isso não é verdade”, a raiva subiu à minha garganta, uma dignidade ferida que eu nem sabia que possuía até aquele momento. Minha voz falhou, mas saiu alta e clara. “Eu posso fazer mais do que você pensa! Eu não sou mais um bebê, pai! Pare de me tratar como se eu estivesse quebrada!”

Ouvi sua respiração parar por um segundo. Ele não estava acostumado com sua boneca de porcelana gritando com ele.

“Suba para o seu quarto, Valentina”, ordenou ele, com aquela frieza arrepiante que congelava as salas de reuniões. “Imediatamente.”

—Não, escute-me…

—Eu disse entre!

A ordem cortou o ar como um estalo de chicote. Cerrei os dentes até doerem. Senti lágrimas quentes de frustração arderem atrás dos meus olhos inúteis. Eu odiava receber ordens daquele jeito. Eu odiava ser a garota obediente.

Mas eu obedeci. Virei-me para onde sabia que ficavam as escadas. Não usei minha bengala. Não estendi os braços como uma sonâmbula. Subi os degraus de granito rapidamente, roçando a parede com os nós dos dedos para me guiar, contando os degraus mentalmente como Isolda me ensinara. Um, dois, três, vire. Um, dois, três.

Eu não tropecei. Nem uma vez. Eu sabia que ele estava observando, e queria que ele visse, mesmo que por um segundo, que sua filha não precisava mais ser carregada.

Parei no patamar superior, escondido pela curva da escada, e encostei o ouvido na parede de pedra fria. O som subia perfeitamente do porão aberto.

“Você está demitido”, disse meu pai com a voz gélida. “Pegue suas coisas. Quero você fora da minha propriedade em dez minutos. Se eu te vir por aqui depois disso, vou chamar a segurança para te arrastarem para fora.”

Houve um silêncio. Eu podia imaginar Isolda lá embaixo, firme, sem baixar o olhar.

—Não, Dom Fausto. Eu não fui demitido.

Ouvi meu pai exclamar, incrédulo. O homem temido por vereadores e chefes de polícia ficou paralisado pela audácia de uma empregada doméstica andaluza.

—Com licença, o que você disse?

“Você não vai me demitir”, ela repetiu, com uma calma aterradora. “Porque você sabe que eu estou certa. Você cercou a garota com muros, alarmes e guarda-costas pagos, mas não a protegeu. Você a deixou indefesa, vulnerável. E no seu mundo, Fausto Beltrán, pessoas vulneráveis ​​acabam em uma vala.”

Ouvi os passos pesados ​​do meu pai diminuindo a distância entre eles. Imaginei sua mão apertando o braço dela, não com força letal, mas com força suficiente para intimidar qualquer empresário na Castellana.

“Você não sabe nada sobre o meu mundo, empregada”, sussurrou ele, perigosamente baixo.

—Eu sei o suficiente. Sei que você tem um ponto fraco. Um calcanhar de Aquiles de um metro e sessenta que não enxerga o perigo chegando. Toda Madri sabe disso. Quanto tempo você acha que vai levar para uma das suas “parceiras” do leste ou do sul decidir que ela é o caminho mais rápido para te derrubar?

—Tenho segurança. Pago uma fortuna aos melhores ex-militares.

“Segurança pode ser comprada, Fausto. E o que pode ser comprado pode ser subornado com uma maleta maior, ou eliminado com uma bala bem colocada. Mas uma filha que sabe se defender, que ‘enxerga’ com os ouvidos, que não entra em pânico quando as luzes se apagam… isso é algo que nenhuma quantia de dinheiro no mundo pode tirar.”

O silêncio que se seguiu foi insuportável. Prendi a respiração lá em cima. Eu sabia que meu pai queria bater nela, expulsá-la de casa, impor sua autoridade. Mas a verdade de Isolda era como ácido, corroendo seu orgulho.

“Suba”, disse ele finalmente, soltando-a com um empurrão brusco. “Conversamos amanhã. E graças a Deus estou cansado hoje.”

Ouvi os passos de Isolda se afastando em direção à escada de serviço. Antes de ela sair do porão, ouvi-a murmurar:

“Sua filha é mais forte do que você pensa, chefe. Ela é feita de ferro. A questão é se você tem coragem suficiente para deixá-la provar isso para você.”

Naquela noite, a tensão na casa era palpável. Meu pai não jantou conosco. Ele se trancou em seu escritório, e o cheiro de conhaque Jerez envelhecido e fumaça de charuto invadiu o ambiente por baixo da porta.

Eu sabia o que estava fazendo. Estava investigando. Fausto Beltrán não deixava pontas soltas. Antes de expulsar a mulher que desafiara sua autoridade, ele ia descobrir quem diabos ela era de verdade. Ninguém aprende a lutar com tanta precisão limpando móveis.

Na manhã seguinte, o ambiente havia mudado. Não fui acordado pelo silêncio habitual, mas pelo som de vozes baixas e tensas vindas da cozinha.

Desci as escadas com cuidado. Meu pai estava sentado à mesa de mármore da cozinha, com uma xícara de café preto agora frio à sua frente. Ele tinha olheiras profundas. Isolda estava de pé junto ao balcão, de braços cruzados, olhando pela janela para o jardim impecavelmente cuidado.

“Sente-se, Valentina”, disse meu pai quando entrei. Sua voz parecia cansada, como se ele tivesse carregado pedras a noite toda.

Sentei-me. Minhas mãos buscaram a borda da mesa para me orientar.

Fausto atirou uma pasta de papel pardo sobre a mesa. Ela caiu com um baque surdo em frente a Isolda.

“Fiz alguns telefonemas ontem à noite”, disse ele, olhando para a mulher. “Meus contatos no sul são bons. Demorei um pouco, porque você se esforçou bastante para encobrir seus rastros. Nome falso, número do seguro social de um primo falecido… muito profissional.”

Isolda não se mexeu. Nem um músculo.

—Seu nome verdadeiro é Carmen. Carmen “A Loba” Vargas. De um bairro barra-pesada de Sevilha.

O nome pairava no ar da cozinha de design. “La Loba”. Soava perigoso, selvagem.

—Você começou a lutar aos quinze anos em combates ilegais em parques industriais. Boxe sem luvas, lutas em gaiola… qualquer coisa por dinheiro fácil. Você era bom. Muito bom. Invicto em quarenta lutas. Dizem que uma vez você lutou de olhos vendados contra dois homens para ganhar uma aposta dupla, só pela pura audácia da coisa.

Senti um arrepio de admiração e medo. A mulher que me ensinava a usar a máquina de lavar era uma lenda do submundo.

—E então você desapareceu— continuou meu pai, com a voz ficando mais sombria. —Dez anos atrás. Logo depois do “Torneio do Porto” em Algeciras. Na noite em que seu irmãozinho morreu.

Pude sentir Isolda ficar tensa. Sua respiração parou por um segundo. Foi a primeira vez que a senti vulnerável.

Meu pai contava a história, não com crueldade, mas com uma espécie de respeito sombrio. Isolda lutava para pagar o tratamento médico do irmão; ele era um menino inteligente que queria ser engenheiro. No torneio final, a máfia local, que controlava as apostas no porto, exigiu que ela perdesse a partida na quinta rodada. Havia muito dinheiro em jogo.

Isolda tentou perder. Tentou mesmo. Mas o instinto de sobrevivência é uma fera difícil de domar. Quando seu oponente tentou quebrar seu joelho, seu corpo reagiu. Ela o nocauteou em trinta segundos. Venceu a luta, mas perdeu a guerra. Naquela mesma noite, em represália pelas perdas nas apostas, seu irmão “sofreu um acidente” no porto.

“Aqueles que organizavam aquelas brigas, aqueles que movimentavam o dinheiro das apostas no sul…” Meu pai fez uma pausa, e o silêncio ficou carregado de culpa. “…eles eram meus sócios. Pessoas com quem eu negociava naquela época, transportando mercadorias pelo Estreito.”

Senti náuseas. O ar na cozinha ficou irrespirável. Meu pai, o grande provedor, o protetor, havia financiado indiretamente o inferno dessa mulher.

“Você sabia quem eu era quando entrou nesta casa”, disse Fausto, olhando Isolda nos olhos. Não era uma pergunta. “Você sabia de onde vinha parte do meu dinheiro.”

“Eu sabia”, disse Isolda com a voz rouca e sussurrada, carregada de uma década de dor.

“Por quê?”, perguntou ele, genuinamente perplexo. “Vingança? Você está aqui para nos matar enquanto dormimos? É por isso que está treinando minha filha, para virá-la contra mim?”

Isolda se afastou do balcão e caminhou lentamente em minha direção. Senti sua mão calejada e forte repousar em meu ombro. Não era um gesto ameaçador, mas sim de proteção e posse.

“Cheguei a esta casa há oito meses determinada a odiá-lo, Fausto Beltrán”, disse ela, olhando para meu pai por cima da minha cabeça. “Vim em busca de uma fraqueza, uma forma de retribuir a dor que seu mundo me causou. Você era o peixe grande que nunca sujava as mãos.”

Ele apertou meu ombro delicadamente.

—Mas então conheci Valentina. Vi essa garota presa em uma torre de marfim, com medo da própria sombra, cercada de luxo, mas vazia de vida. E vi meu irmão. Vi um garoto brilhante que nunca teve uma chance de verdade, aprisionado pelas consequências dos pecados alheios.

A voz de Isolda falhou pela primeira vez.

“Não consigo perdoar o que aconteceu há dez anos. Nunca perdoarei o seu mundo, Fausto. Mas posso escolher quem proteger agora. Sua filha tem a mesma chama que meu irmão tinha, mas você a está extinguindo com seu medo.”

Ele se inclinou e sussurrou no meu ouvido, tão suavemente que só eu pude ouvi-lo:

“Ninguém vai tocar nessa garota enquanto eu estiver vivo. Juro pela memória de Luca.”

Meu pai encarava as duas mulheres que desafiavam seu autocontrole em sua própria cozinha. Eu vi, ou talvez senti, sua postura rígida começar a ruir levemente. O grande Leão estava encurralado pela verdade.

Ele se levantou da cadeira, arrastando os pés como um homem muito mais velho. Caminhou até a porta da cozinha e parou sem olhar para nós.

“Enxugue o suor dele”, disse ele com a voz rouca. “E amanhã… quero que você o ensine a usar uma faca. Não quero cabos de vassoura. Quero aço.”

Isolda assentiu com a cabeça, lenta e solenemente.

Fausto havia aceitado o treinamento. Mas, ao fazê-lo, moveu involuntariamente uma peça crucial no tabuleiro de xadrez do poder em Madri. Nos círculos criminosos, os rumores se espalham mais rápido que balas. E um boato sobre a filha cega do chefão da logística treinando para a guerra com uma lenda das lutas de rua só poderia significar uma coisa:

A guerra já estava a caminho. E desta vez, não seria num porto distante. Seria na minha própria casa.

O treinamento deixou de ser uma brincadeira secreta no porão. Tornou-se nossa religião. Isolda, ou “A Loba”, como passei a chamá-la mentalmente, não demonstrava nenhuma piedade.

“O mundo não vai parar para você lutar, garota”, ela me dizia enquanto me obrigava a treinar com a música no volume máximo, a TV ligada e ela gritando instruções contraditórias. “Aprenda a filtrar. Seu inimigo tem um som único. A respiração, o farfalhar das roupas, o ritmo dos passos. O resto é só ruído. Encontre o sinal no caos.”

Numa manhã de terça-feira, ele me tirou da segurança de La Moraleja. Sem os guarda-costas habituais. Sem o carro blindado com vidros escuros. Só nós dois, pegando o metrô como pessoas normais, rumo ao centro de Madri.

Fomos a El Rastro, o mercado a céu aberto mais caótico da cidade. Para uma garota cega acostumada ao silêncio climatizado da minha mansão, aquilo era o inferno na Terra.

Era uma densa parede de som: os gritos dos vendedores ambulantes oferecendo pechinchas, a barganha agressiva das senhoras idosas, a música dos realejos misturada com reggaeton barato, o latido dos cães, as buzinas dos carros presos no trânsito da Rua Toledo. E os cheiros… churros fritos, couro velho, gente suada, aromas picantes.

“Isto é uma loucura, Isolda”, sussurrei, agarrando-me ao seu braço como um náufrago a uma tábua. Sentia-me tonta, sobrecarregada pelo excesso de informação sensorial.

Isolda parou no meio da multidão que se aglomerava. Ela soltou meu braço.

“Isolda!” gritei, em pânico. Estendi as mãos, mas só toquei nos casacos e sacolas plásticas dos desconhecidos. As pessoas me empurravam, murmurando “desculpe” ou “saia da minha frente”.

“Estou aqui”, disse sua voz, surgindo à minha direita, calma em meio à confusão. “Não use as mãos para ver, Valentina. Use a cabeça. Silencie o ruído. Onde estou?”

Fechei os olhos (ainda mais do que já estavam fechados, um reflexo para me concentrar). Respirei fundo, absorvendo o ar pesado de Madri. Tentei separar as camadas de som. Os gritos eram a camada superior. O trânsito, a inferior. E entre elas… passos.

—À minha direita. Às três horas. A dois metros de distância—eu disse, apontando sem olhar.

—Certo. Agora, me diga quem está te seguindo.

Eu paralisei. —O quê?

“Tem alguém três quarteirões atrás de nós. Ele não é turista. Não está olhando as barracas. O ritmo dele é diferente. Encontre-o.”

Forcei-me a acalmar meu coração acelerado. Escutei. Havia centenas de passos. Tênis, saltos clicando no calçamento de pedra, botas pesadas. Mas havia alguns… alguns passos leves, quase arrastados, que pararam quando paramos. Respiração rápida e nervosa, muito perto das minhas costas. Cheirava a tabaco barato e ansiedade.

—Atrás de mim— sussurrei. —Para a esquerda.

“Não se vire”, disse Isolda. “Ele é um batedor de carteiras insignificante. Ele está de olho na sua bolsa. Espere que ele faça o movimento dele.”

Senti o homem se aproximar. Sua “bolha” de ar invadiu a minha. Senti o calor do seu corpo perto do meu lado esquerdo. Sua mão foi rápida, habilidosa, deslizando em direção à abertura da minha mochila.

Eu não pensei. Meu corpo, programado por meses de repetição, dor e ordens ríspidas de Isolda, reagiu por conta própria.

Minha mão esquerda estendeu-se rapidamente e interceptou o pulso do ladrão milímetros antes que ele tocasse na minha bolsa. Era um pulso fino e ossudo.

O homem soltou um grito de surpresa. Antes que pudesse recuar, girei o quadril, usando o impulso dele contra ele, e apliquei uma alavanca com o polegar que Isolda me ensinara na semana anterior.

“Aaaay! Me solta, sua louca!” gritou o homem, forçado a se ajoelhar no chão de paralelepípedos pela dor insuportável no dedo.

O burburinho do Rastro parou ao nosso redor, formando um círculo de curiosos. Eu tremia, estava pálida, mas mantive o homem imobilizado, sentindo-o se contorcer sob meu aperto.

“Deixe-o ir”, disse a voz de Isolda ao meu lado. “Ele aprendeu a lição. E você também.”

Soltei o homem, que se levantou praguejando e sumiu na multidão mais rápido que um rato. As pessoas murmuravam, algumas aplaudiam timidamente. Eu só queria vomitar.

Voltamos para casa em silêncio, de táxi. Eu não parava de tocar minhas mãos, que tremiam incessantemente. Eu havia sentido poder. Eu havia sentido controle. Eu não era a vítima.

Quando chegamos à segurança das muralhas de pedra de La Moraleja, pouco antes de entrarmos, parei.

“Eu sabia exatamente onde estava”, disse a Isolda, minha voz soando estranha aos meus próprios ouvidos. “Eu senti isso antes mesmo de ele me tocar. Como se… como se o próprio ar me alertasse sobre suas intenções.”

Isolda colocou a mão no meu ombro. Senti o seu sorriso, um daqueles raros sorrisos genuínos.

“Isso é instinto, Valentina. Os olhos mentem, se distraem com luzes e cores. O medo mente. Mas o ar… o ar nunca mente. Agora você é uma loba.”

Mas a sensação de triunfo durou pouco. A realidade do mundo do meu pai nos atingiu novamente apenas uma semana depois.

O “convite” não chegou por carta registrada, nem por mensagem criptografada no celular seguro do meu pai. Chegou na forma de um homem.

Era uma tarde chuvosa de novembro. Eu estava na sala de estar, praticando nós com uma corda, ouvindo o incessante bater da chuva contra as janelas blindadas. Isolda estava na cozinha. Meu pai estava em seu escritório.

O interfone da porta da frente tocou. Os guardas na cabine externa falaram com meu pai na linha interna. Eu conseguia sentir a tensão de Fausto através das paredes. Algo estava errado.

Dez minutos depois, a porta da sala se abriu. Meu pai entrou e, com ele, um cheiro que não pertencia à nossa casa. Era o cheiro de perfume caro, o ozônio da rua chuvosa e, por baixo de tudo, o inconfundível aroma de perigo. Frio, calculista.

“Valentina, este é o Sr. Rossi”, disse meu pai. Sua voz estava tensa, como uma corda de violino prestes a se romper. Ele usou um nome falso; eu soube imediatamente.

— Um prazer, senhorita Beltrán — disse o homem. Sua voz era suave, polida, com um leve sotaque italiano que parecia ensaiado. Era uma voz aveludada que escondia facas. Ele não se moveu em minha direção. Permaneceu ali com uma imobilidade antinatural.

—O Sr. Rossi é um… sócio comercial. Ele está aqui em nome de alguns amigos do sul da Europa.

—Venho em nome do “Cardeal” — corrigiu-se o homem gentilmente.

Senti o coração do meu pai disparar. “O Cardeal.” O nome proibido em nossa casa. O chefão que controlava as rotas do Mediterrâneo e que passara anos tentando assumir o controle da operação logística do meu pai em Madri. Ele era seu rival mais perigoso, um homem conhecido por sua crueldade e sua devoção religiosa quase fanática.

“O que o Cardeal quer na minha casa?”, perguntou Fausto, e eu pude ouvir sua mão deslizando em direção ao revólver que ele sempre carregava na parte inferior das costas quando estava nervoso.

“O Cardeal ouviu coisas muito interessantes sobre sua família ultimamente, Dom Fausto”, disse Rossi. Ele se moveu pela sala, seus passos quase inaudíveis sobre os tapetes persas. “Ele diz que você está quebrando a trégua tácita que tínhamos. Ele diz que você está armando a garota.”

“O que eu faço dentro da minha própria casa é problema meu”, resmungou meu pai.

“Não mais. Os rumores estão correndo soltos, Fausto. Dizem que a garota cega não precisa mais de bengala. Dizem que ela tem um campeão de luta de rua a treinando. O Cardeal acha que você está se preparando para uma guerra ofensiva, e isso o deixa nervoso.”

Rossi parou perto de onde eu estava sentado. Eu conseguia ouvir o farfalhar do tecido de seu terno de seda.

—A “Mesa de Negociações” foi convocada. Eles querem resolver essas tensões territoriais de uma vez por todas. De uma maneira… civilizada, como cavalheiros à moda antiga.

Meu pai soltou uma risada seca e sem humor.

—Civilizados? Você acha que estamos em um filme de gângsteres dos anos 70? Aqui nos matamos uns aos outros nas ruas com carros-bomba e assassinos de aluguel em motocicletas.

“Sangue em excesso atrai a atenção da polícia e dos políticos. Os negócios sofrem.” Rossi deu de ombros, um movimento fluido. “O Conselho propõe uma solução antiga para os tempos modernos. Um duelo. Um campeão de cada grande família. O vencedor assume o controle unificado das rotas de distribuição da península.”

Ela fez uma pausa dramática. O silêncio na sala era tão denso que eu mal conseguia respirar.

—E o Cardeal sugere que, se sua filha é tão perigosa e especial quanto dizem os rumores… talvez ela devesse ser a pessoa a representá-lo no círculo.

O som do tapa foi brutal. Meu pai atravessou a sala em um segundo. Ele não o atingiu com a mão aberta; atingiu-o no rosto com a coronha da pistola.

Rossi caiu no chão com um gemido abafado. Ouvi-o cuspir sangue no tapete.

“Se alguém ousar tocar num fio de cabelo da minha filha!”, rugiu Fausto, fora de si, apontando a arma para a cabeça dela. “Juro por Deus que ninguém sairá vivo! Queimarei Madrid inteira, se for preciso!”

O italiano levantou-se lentamente, limpando o sangue do lábio rachado com um lenço de seda imaculado. Não parecia assustado, apenas incomodado com a situação.

“Essa reação é exatamente o que o Cardeal esperava, Dom Fausto. Você é previsível. Seu amor pela moça é sua fraqueza.”

Rossi tirou um envelope preto do bolso interno do paletó e o colocou sobre uma mesa de centro com meticuloso cuidado.

“Isto não é uma sugestão, Beltrán. É um ultimato. O duelo será daqui a oito dias, em local neutro. Ou envias o teu campeão para a arena… ou consideraremos que declaraste guerra total. E se houver guerra, bombardearemos esta preciosa casa com todos vocês dentro. A decisão é tua: arriscar um na arena ou sacrificar todos vocês no fogo.”

O emissário ajeitou o paletó, deu-nos um pequeno aceno de cabeça em tom de deboche e saiu da casa sem nos virar as costas em nenhum momento.

Quando a porta da frente se fechou, meu pai desabou no sofá, respirando como um animal ferido. Ouvi os passos rápidos de Isolda vindo da cozinha. Ela não disse nada. Apenas ficou ali parada, uma presença sólida em meio ao caos.

Fausto encarou o envelope preto. Sabia que era uma armadilha. Uma emboscada disfarçada de antiga honra. Mas o medo havia se infiltrado em seus ossos. O Cardeal sabia. Sabia que Fausto jamais me enviaria para lutar contra seus gorilas. Sabia que Fausto iria pessoalmente, ou enviaria seus melhores homens, deixando a casa e minha segurança vulneráveis.

Foi uma jogada de mestre no xadrez criminoso. Xeque-mate em três lances.

O que o Cardeal e seu emissário ricamente vestido não sabiam, o que meu próprio pai ainda custava a acreditar, era que uma menina de porcelana assustada não morava mais naquela casa.

Havia uma loba que havia provado sangue no matadouro. E ela estava com fome.

Oito dias. Esse foi o período marcado pelo relógio da morte para nossa família.

PARTE 2: O SOM DA CHUVA E A BEIRA DO MEDO

Os oito dias que se seguiram à visita do Sr. Rossi não foram dias; foram uma eternidade comprimida em horas de ansiedade e pólvora. A mansão em La Moraleja deixou de ser um lar. Transformou-se num bunker, um animal ferido encolhendo-se sobre si mesmo, aguardando o golpe final.

Meu pai, Fausto, perdeu a compostura que o caracterizara durante toda a minha vida. Ele deixou de ser “O Leão” da logística, o homem capaz de transportar contêineres para o outro lado do mundo com um telefonema. Tornou-se um pai apavorado, e não há nada mais perigoso ou imprevisível neste mundo.

Eu conseguia ouvi-lo andando de um lado para o outro pelos corredores às três da manhã. Seus passos, normalmente firmes e rítmicos, agora eram um arrastar pesado de solas de couro no piso de mármore. Eu conseguia ouvir o tilintar do copo contra a garrafa de conhaque, repetidamente. Eu conseguia ouvir seus murmúrios frenéticos ao telefone criptografado, dando ordens contraditórias.

“Tripliquem a segurança do perímetro!” ele gritou por um instante. “Não, cancelem isso! Preparem o helicóptero! Vamos para a propriedade dos Gredos esta noite!”

Mas nós não fomos embora. Porque Isolda estava lá.

Isolda se tornara uma sombra de granito na cozinha. Ela não falava muito, mas sua presença era uma âncora que impedia a casa de ser destruída pela histeria do meu pai. Ela sabia, e eu sabia, que fugir era inútil. O Cardeal tinha olhos em todos os lugares. Se saíssemos para a estrada, seríamos alvos móveis. Se ficássemos, seríamos alvos imóveis. A única diferença era o terreno. E esta casa, com todos os seus corredores e segredos, era o nosso terreno.

No terceiro dia, a discussão começou.

Era uma tarde tempestuosa. O céu de Madri se abrira ao nosso redor, um aguaceiro torrencial batendo contra o vidro à prova de balas como se tentasse estilhaçá-lo. Eu estava na sala de estar, sentada no tapete, desmontando e remontando uma pistola Glock 19 que Isolda havia me dado. Sem balas, é claro. “Aprenda o peso, Valentina”, ela me disse. “Aprenda como as peças se encaixam. Suas mãos precisam saber consertar o que quebra no escuro.”

Meu pai invadiu a sala de estar como um furacão. Ele cheirava a suor frio e desespero.

“Deixe isso em paz!” ele gritou, arrancando a arma das minhas mãos. O metal frio desapareceu ao meu toque. “Você não vai tocar nisso! Vamos embora! Está resolvido!”

Ouvi o som de uma mala sendo arrastada pelo chão de madeira. As rodas rangiam.

“Eu disse que vamos embora!” ele berrou, agarrando meu braço para me puxar para cima. “O helicóptero vai pousar no jardim em dez minutos. Vamos para Portugal. Tenho uma casa segura no Algarve. Ninguém vai nos encontrar lá.”

Me libertei de seu aperto com um movimento repentino que Isolda me ensinara: torci meu pulso contra a abertura do seu polegar. Meu pai, surpreso, deu um passo para trás.

“Eu não vou embora!” gritei. Minha própria voz me surpreendeu. Soava mais grave, mais firme.

“Você não entende nada, garota!” Sua voz falhou, e naquele tom trêmulo pude ouvir o puro terror de um pai vendo sua filha morta. “Isso é uma armadilha! O torneio é uma farsa. Eles querem nos matar. Você é minha fraqueza, Valentina. Se eles pegarem você, me pegam também. É por isso que estou escondendo você! Para que não possam me usar!”

Havia um silêncio terrível, quebrado apenas pelo rugido da chuva e pelo trovão distante que fazia as janelas vibrarem.

“Estou cansada, pai”, eu disse. E era verdade. Sentia um cansaço antigo nos ossos, um peso que não combinava com meus treze anos. “Estou cansada de ser a desculpa perfeita para todos te ameaçarem. Estou cansada de você me tratar como se eu fosse feita de vidro soprado.”

Dei um passo na direção de onde podia ouvir sua respiração ofegante.

“Pai, eu não sou sua fraqueza por ser cega. Sou sua fraqueza porque você insiste que eu seja. Seus pecados já me alcançaram. Nasci neste mundo de merda. Você não pode mudar isso com dinheiro, escolas particulares ou viagens para o Algarve. Mas você pode decidir algo agora: vai me esconder até que me encontrem e cortem minha garganta, tremendo de medo num canto? Ou vai me deixar sobreviver?”

Meu pai ficou sem palavras. Eu conseguia ouvir sua respiração ofegante. Eu sabia que ele estava chorando. Fausto Beltrán, o Homem de Gelo, estava chorando no meio de sua sala de estar decorada com bom gosto.

“Deixe-me ser forte”, sussurrei, baixando a voz. “Confie em mim, pai. Pela primeira vez, confie em mim mais do que confia nas suas paredes.”

Atrás de nós, ouvi o farfalhar do jeans. Isolda. Ela estivera na porta o tempo todo, silenciosa como uma pantera.

“Você acha que ela está pronta?”, perguntou meu pai à empregada, com a voz embargada, buscando tanto absolvição quanto condenação.

Isolda caminhou em nossa direção. Suas botas de trabalho ecoavam na madeira.

“Não”, disse ela com uma honestidade brutal que doía mais do que uma mentirinha. “Ninguém está preparado para o que está por vir, Dom Fausto. A guerra não é algo para o qual você se prepara; é algo de que você sobrevive. Mas ela tem algo que você perdeu anos atrás em meio a todo esse luxo e segurança.”

“O quê?”, perguntou ele.

“Fome”, disse Isolda. Ela colocou a mão na minha cabeça. “Ela tem fome de vida. E isso é mais perigoso do que qualquer arma.”

Naquela noite, sob a pior tempestade do outono madrilenho, subimos ao terraço plano da mansão.

Meu pai tentou nos impedir, mas Isolda olhou para ele com aqueles olhos escuros que já tinham visto sangue demais e disse: “Se você não aprender a lutar no inferno, não sobreviverá nas ruas”. E ele, derrotado pela própria lógica, nos seguiu, permanecendo sob o limiar da escada, um espectador imerso em seu próprio pesadelo.

O terraço estava um caos. Não havia teto. A água caía com força, como chicotadas geladas, encharcando-me em segundos. Minhas roupas grudavam no corpo, pesadas e frias. O piso externo de azulejos parecia uma pista de patinação no gelo.

Mas a pior parte não era o frio nem a água. Era o barulho.

Para uma pessoa cega, o som é o mapa do mundo. Construo minha realidade com base em ecos, rangidos e reverberações. Mas a chuva torrencial apagou tudo isso. Era um ruído branco ensurdecedor e constante. Milhões de gotas atingindo o chão, os corrimãos, minha própria cabeça. Era como tentar enxergar através de uma televisão sem sinal. Pura estática.

Pela primeira vez em anos, senti-me completamente cega. O pânico apertou-me a garganta. Virei-me desorientada. Não sabia onde ficava a beira do telhado. Não sabia onde estava Isolda.

“Isolda!” gritei, mas o vento levou minha voz à boca.

“Defenda-se!” A voz de Isolda vinha de todos os lados e de lugar nenhum. Parecia ricochetear na chuva.

Senti um impacto no ombro. Um empurrão forte. Caí no chão molhado, engolindo água. Arranhei as palmas das mãos na pedra áspera.

“Levante-se!” ela rugiu. “Você está morto! Se isso fosse real, você já estaria sangrando até a morte!”

Levantei-me, tremendo e chorando. As lágrimas se misturavam com a chuva quente no meu rosto.

“Não consigo ouvir nada!” gritei desesperadamente. “Está muito barulho! Não sei onde você está!”

“Então pare de escutar com os ouvidos, droga!” A voz dela estava perto agora, à minha esquerda, mas quando me virei e desferi um soco, acertei apenas o ar úmido. “Seus ouvidos estão te enganando com esse barulho! Sinta! Use os pés! A água muda quando alguém se move!”

Fiquei parada. Respirei fundo, engolindo água. Tentei silenciar o rugido da chuva na minha cabeça. Concentrei-me no chão. Nas solas dos meus pés, através das solas de borracha dos meus tênis.

O telhado era uma piscina rasa. A água escorria em direção aos ralos. Era um sistema fluido. Se algo grande se movesse dentro desse sistema, a água tinha que reagir.

Fechei os olhos com força. Esqueci o som do trovão. Esqueci os gritos do meu pai à distância.

E então, eu senti.

Não era um som. Era uma ondulação. Uma pequena vibração no solo alagado. Um respingo que não seguia o ritmo aleatório da chuva. Alguém havia pisado pesadamente a três metros de mim, deslocando a água para a minha direita.

Virei meu corpo na direção daquela onda.

Senti o ar mudar antes do golpe. O bastão de Isolda vinha em direção às minhas costelas. Abaixei-me. O bastão passou zunindo perto da minha cabeça, cortando as gotas de chuva.

Não parei. Aproveitando a posição agachada, estendi a perna direita num amplo arco, buscando contato. Minha canela colidiu com algo sólido: uma bota.

Isolda, assustada com o puxão repentino no chão escorregadio, perdeu o equilíbrio. Ouvi o suspiro ofegante dela e depois o baque pesado e molhado do seu corpo caindo em uma grande poça.

Ao ouvir o som, lancei-me sobre ela. Não com técnica, mas com desespero. Montei-a, prendendo seus braços com meus joelhos, e coloquei meu antebraço contra sua garganta.

Estávamos ambas ofegantes, encharcadas, com água escorrendo pelo rosto. Eu conseguia sentir o pulso acelerado de Isolda debaixo do meu braço.

“Eu te encontrei”, sussurrei, cuspindo água.

Houve um segundo de tensão absoluta. E então, senti o peito de Isolda subir e descer. Ela estava rindo. Uma risada rouca, profunda e libertadora que ressoava de sua caixa torácica contra a minha.

“Você me encontrou, loba”, disse ela, dando-me um tapa nas costas. “Você me derrubou no chão.”

Ela relaxou sob o meu peso. Desci de cima dela e sentei-me no chão molhado ao seu lado. A chuva ainda caía, mas eu já não tinha medo. Não era mais barulho. Era informação.

“Se você consegue lutar aqui”, disse Isolda, sentando-se e torcendo o rabo de cavalo encharcado, “se você consegue me encontrar no meio desse caos… você consegue lutar em qualquer inferno para onde esses bastardos te arrastarem.”

Ouvimos passos apressados. Meu pai veio correndo, escorregando, e se jogou de joelhos ao nosso lado. Ele nos abraçou, sem se importar que estivéssemos cobertos de lama e água. Ele me apertou contra o peito, tremendo.

“Você é louca”, disse ele a Isolda, mas não havia raiva em sua voz, apenas uma reverência admirada. “Vocês dois são loucos.”

“Estamos vivos”, corrigiu Isolda.

Mais tarde, secos e com roupas quentes, o ambiente na cozinha havia mudado para sempre. Isolda preparou chocolate quente para nós, espesso e escuro. Meu pai sentou-se conosco, não como o chefe, mas como um igual.

“Amanhã”, disse meu pai, olhando para a xícara, “vou ligar para Victor.”

Isolda ergueu o olhar abruptamente.

—Victor “O Açougueiro”? Pensei que ele tivesse se aposentado em um mosteiro ou algo assim.

“Ele se aposentou numa fazenda de porcos em Toledo”, disse meu pai com um meio sorriso triste. “Ele jurou que nunca mais tocaria numa arma. Mas eu devo a ele a minha vida três vezes. E ele adora a Valentina. Se formos cair naquela armadilha, preciso de um motorista que não tenha medo de atravessar uma parede de tijolos.”

Senti um calor no peito que não vinha do chocolate. Meu pai estava reunindo uma equipe. Ele não estava mais tentando fugir. Estava se preparando para atacar.

“Isolda”, disse ele. “Preciso que você consiga roupas adequadas para ela. Nada de agasalhos esportivos. Se ela vai comparecer perante o Conselho, precisa parecer uma Beltrán. Precisa parecer da realeza. Mas roupas que a façam arrasar.”

“Está tudo sob controle”, disse ela.

Os dias seguintes foram um turbilhão de preparativos táticos. Isolda me ensinou a usar facas de cerâmica, que não disparam detectores de metal. Ela me ensinou a costurá-las nas bainhas das minhas roupas. Ela me ensinou a andar não como um cego tateando no escuro, mas como um predador à espreita.

E na noite anterior ao “torneio”, Isolda veio ao meu quarto. Ela carregava algo nas mãos. O cheiro de couro e seda novos invadiu meu quarto.

“Experimente”, disse ele.

Era um terno. Não um vestidinho de menininha. Um terno preto, sob medida, feito de um tecido resistente, porém flexível como uma segunda pele. Calças que me permitiam chutar alto, um paletó com reforços sutis nos antebraços que poderiam evitar um corte superficial.

“E isto”, disse ele, colocando algo em minhas mãos. Era um par de óculos escuros.

Fiz uma careta.

—Odeio óculos. Eles me fazem parecer frágil.

“Não servem para se esconder”, disse Isolda. “São táticas. Têm um revestimento espelhado. Ninguém conseguirá ver para onde você está ‘olhando’ ou ouvindo. Seu olhar é sua única vantagem, uma que eles não entendem. Não a revele.”

Coloquei meus óculos. O mundo ainda estava escuro, mas eu me sentia diferente. Eu me sentia blindado.

“Amanhã iremos ao matadouro”, sussurrou Isolda, ajeitando a gola do meu casaco. “Tenha medo, Valentina. O medo a mantém acordada. Mas não deixe suas mãos tremerem.”

“Elas não estão tremendo”, eu disse, erguendo as mãos na escuridão. Estavam firmes como rochas.

—Ótimo. Porque amanhã, Madri saberá quem é realmente a filha do Leão.

PARTE 3: A DANÇA NA ESCURIDÃO

A viagem até o local do encontro foi como um funeral sobre rodas. Estávamos em um comboio de três veículos. Estávamos no do meio, um Suburban blindado que cheirava a couro limpo e óleo de arma.

Meu pai estava dirigindo. Ele insistiu. “Ninguém leva minha filha ao seu destino final além de mim”, ele dissera. Ao meu lado estava Isolda, checando os carregadores da pistola pela enésima vez, o clique metálico servindo como um metrônomo para meus nervos. Na frente, no banco do passageiro, estava o tio Victor.

Victor não cheirava a perfume caro. Cheirava a tabaco escuro, ao campo e a uma violência antiga e adormecida. Não falava muito, mas a sua presença preenchia o carro. Carregava uma espingarda de cano serrado entre as pernas com a mesma indiferença com que outros carregam um guarda-chuva.

“Estamos entrando em Vallecas”, anunciou Víctor com sua voz rouca, como cascalho triturado. “Zona industrial. Há muitos becos sem saída. É um bom lugar para uma emboscada.”

“Eu sei”, disse meu pai. Suas mãos apertavam o volante com tanta força que o couro rangia. “É o antigo matadouro no sul. Está fechado há dez anos.”

O carro começou a vibrar de forma diferente. O asfalto liso da rodovia deu lugar a uma estrada de terra e cascalho. Pedras batiam na parte inferior do carro blindado como granizo. Eu conseguia perceber a mudança na acústica externa; não havia mais tráfego livre, mas o eco dos prédios próximos, armazéns industriais vazios que refletiam o som amplificado do motor.

“Estamos quase lá”, disse Isolda. Ela tocou meu joelho. “Valentina?”

“Estou pronta”, menti. Ou talvez não estivesse mentindo. Meu coração estava acelerado, mas minha mente estava estranhamente lúcida, fria. Era a clareza da água gelada.

O carro parou. O motor morreu, mas o silêncio que se seguiu não era pacífico. Era um silêncio pesado, elétrico. Abaixei o vidro um centímetro.

O cheiro me atingiu primeiro. Não era sangue fresco; o matadouro estava fechado há anos. Cheirava a ferrugem, umidade estagnada, pó de cimento e urina de gato. Mas, por baixo disso, cheirava a homens. Muitos homens. Tabaco, suor nervoso, perfume barato.

“Há muita gente”, sussurrei. “Gente demais para um duelo de honra.”

“Quantos?” perguntou Victor sem se virar.

Fechei os olhos por trás dos meus óculos escuros. Escutei. O vento assobiava entre as estruturas metálicas. Havia um eco metálico acima. Passos nas grades.

—Lá em cima. Nos corredores. Eu conto… seis, talvez oito pessoas se movimentando. E lá embaixo, na nossa frente, tem um grupo grande. Dez ou doze.

“É uma execução”, disse meu pai, sacando a arma do coldre. “Eles nos trouxeram aqui para nos fuzilar.”

“Não”, disse Isolda. “Ainda não. Primeiro querem o espetáculo. Querem humilhá-la vendo sua filha cair. Isso nos dá tempo.”

Saímos do carro. O ar frio de novembro açoitou meu rosto. Meus sapatos silenciosos de sola de borracha tocaram o cascalho. Caminhei entre meu pai e Isolda. Senti o calor de seus corpos ao meu lado.

Entramos no salão principal. A acústica mudou drasticamente. O teto era incrivelmente alto; eu sabia disso pelo longo e ressonante eco dos meus passos . Era um espaço cavernoso e imenso.

“Bem-vindos!”, bradou uma voz amplificada por um megafone. Era Rossi, o italiano. Sua voz vinha do andar de cima, à esquerda. Um segundo andar. Uma sala de controle com vista para a fábrica.

“Que entre o campeão Beltrán”, disse Rossi sarcasticamente. “O nosso está impaciente.”

No centro do navio, eu podia sentir a presença de alguém enorme. Sua respiração era pesada, como a de um touro antes do abate. Ele arrastava os pés. Um gigante.

Meu pai agarrou meu braço.

—Não faça isso, Valentina. Vamos voltar para o carro. Victor pode atirar em nós para conseguir passar.

“Se fizermos isso, morreremos todos à porta”, sussurrei. “Tenho de entrar. Tenho de os distrair.”

Me afastei dele e dei um passo à frente. Meus bastões de Kali, duas hastes de polímero endurecido que Isolda me dera, estavam escondidos nas mangas da minha jaqueta.

“Uma condição!” gritei na escuridão acima. Minha voz ecoou nas paredes de metal.

Ouviram-se risos de escárnio nas passarelas.

“A garota quer negociar?”, zombou Rossi. “O que você quer? Uma boneca?”

“A luz”, eu disse, apontando para onde sentia o calor dos holofotes de halogênio girando sobre o ringue improvisado. “Isso me incomoda. Tenho fotofobia. Se vamos lutar, quero que seja no escuro. Ou será que o seu gorila tem medo de não enxergar uma garota cega?”

Um silêncio profundo tomou conta da sala. O orgulho do gigante havia sido ferido.

“Desligue essa merda!” rugiu uma voz grave do centro da arena. O gigante. “Eu não preciso de luz para quebrar o pescoço de uma criança.”

“Faça o que quiser”, disse Rossi, divertido. “Deixe a garota morrer em paz. Nós temos óculos de visão noturna mesmo. Desligue-os.”

O som dos disjuntores desarmando foi o som mais lindo que eu já tinha ouvido. Clack. Clack. Clack.

O zumbido dos holofotes se dissipou. O navio mergulhou na escuridão. Para eles, o mundo acabara de desaparecer. Para mim, o mundo apenas começara.

—Agora— Isolda sussurrou atrás de mim.

Ouvi o clangor metálico dos pinos das granadas de fumaça sendo puxados. Isolda as rolou em direção ao centro. Pssssshhhhh . O som do gás escapando preencheu o espaço, um chiado como o de uma cobra gigante.

“Fogo!” gritou Rossi de cima, percebendo tarde demais que haviam perdido o controle visual.

O caos se instaurou.

As passarelas explodiram em clarões. O som de armas automáticas em um espaço fechado é indescritível. É uma dor física nos tímpanos. Você sente a pressão do ar de cada disparo martelando contra o seu peito.

Joguei-me no chão e rolei. Não para trás, em direção à segurança, mas para a frente, em direção à fumaça.

A fumaça é a melhor amiga de uma pessoa cega. Ela confunde o som, sim, mas também o cheiro e a temperatura. Cria o caos. E no caos, as pessoas que enxergam cometem erros.

Deslizei pelo cimento frio. Ouvi as botas do gigante. Ele tossia, girava em círculos, socava o ar.

“Onde você está, rato?!” ele gritou.

Ele estava a dois metros de distância, à minha direita. Seus passos eram pesados, desajeitados. Eu não conseguia ver nada. Nem com luz nem sem, a fumaça bloqueava tudo.

Eu me agachei. Peguei minhas bengalas. Me movi não correndo, mas fluindo, exatamente como Isolda me ensinara no telhado molhado.

Eu fiquei atrás dele. Não ataquei sua cabeça; ele era muito alto. Ataquei seu corpo.

Golpeei a parte de trás do joelho direito dele com toda a minha força com a bengala de polímero. O som foi agudo e desagradável. Algo estalou. O gigante uivou e sua perna cedeu. Ele caiu de joelhos, na minha altura.

“Aqui estou”, sussurrei em seu ouvido.

Antes que ele pudesse se virar, cravei a ponta do segundo bastão em seu plexo solar, tirando-lhe o fôlego, depois girei sobre o calcanhar e desferi um chute giratório em sua têmpora. Eu não tinha a força de um homem, mas usava botas com biqueira de aço e sabia exatamente onde golpear. O gigante desabou como um saco de cimento.

“Pai!” gritei por cima do som dos tiros. “Três horas! Tem dois deles descendo a escada em espiral!”

Meu pai atirava às cegas para cima, protegendo-se atrás de uma coluna. Quando me ouviu, virou-se e desferiu uma rajada em direção à escada de metal. Ouvi gritos e corpos caindo.

“Você o pegou!” Confirmei.

Isolda estava ao meu lado num instante, protegendo minhas costas.

“Temos que sair daqui!” ela gritou. “Eles estão todos vindo! Vão nos cercar!”

A fumaça começou a se dissipar nas correntes de ar. Os lasers vermelhos das miras táticas começaram a cortar a névoa como dedos ensanguentados à procura de presas.

“Larguem as armas!” A voz de Rossi estava histérica agora. “Larguem as armas ou lançaremos granadas de fragmentação!”

Estávamos presos atrás de uma pilha de paletes velhos. Meu pai, Isolda e eu. Victor estava do lado de fora, no carro. Estávamos sozinhos.

“Acabou”, disse meu pai, ofegante, enquanto recarregava o último pente. “Valentina, me perdoe.”

“Não”, eu disse. Fechei os olhos e escutei. Não ouvi os assassinos. Ouvi outra coisa. Um rugido. Um motor diesel V8 acelerando ao máximo, vindo do lado sul do navio.

“Chão!” gritei, puxando meu pai para baixo.

Boom!

A parede sul do prédio, uma estrutura de tijolos e chapas metálicas, explodiu para dentro. Não foi uma bomba. Foi um impacto cinético. O Suburban blindado do tio Victor atravessou a parede como se fosse feita de papel machê, envolto em uma nuvem de poeira e destroços.

O caminhão derrapou, esmagando caixas e fazendo os assassinos correrem pelo chão para salvar suas vidas. Victor disparou sua espingarda pela janela com uma mão enquanto dirigia com a outra, rindo maniacamente.

“O táxi chegou!” gritou Victor pelo megafone do carro. “Entrem, droga!”

Corremos. Foi a corrida mais longa da minha vida. As balas rasgavam o chão sob nossos pés. Isolda me empurrou em direção à porta traseira aberta da caminhonete. Pulei para dentro, batendo a canela. Meu pai pulou atrás de mim, atirando para trás. Isolda se jogou para fora no último segundo, quando Victor acelerou, girando o veículo 180 graus.

As balas tilintavam contra a blindagem do carro como uma chuva de granizo de metal. Ping. Ping. Pang.

Victor tirou o carro pelo mesmo buraco que havia feito, destruindo a suspensão ao passar por cima dos tijolos, e partimos em disparada pela noite de Vallecas.

Estávamos vivos.

Eu me deixei cair no chão do carro, respirando o ar viciado, mas seguro. Meu pai me abraçou, examinando meu rosto com as mãos trêmulas.

Você está bem? Eles te bateram?

“Estou bem”, eu disse, tentando acalmar a respiração. “O gigante… caiu.”

—Eu vi— disse Isolda, limpando o sangue de um corte na sobrancelha. —Você o viu cair melhor do que ninguém.

Mas então, algo na minha memória auditiva fez um clique.

—Espere—eu disse, sentando-me abruptamente—. Espere um momento.

“O que houve?”, perguntou meu pai.

—No armazém… antes de Victor chegar. Ouvi Rossi falando ao telefone. Ele não estava falando com os homens dele que estavam lá dentro. Estava falando com alguém do lado de fora.

“O que ele disse?”, perguntou Victor, olhando pelo retrovisor.

Fechei os olhos, rebobinando a fita da minha memória, isolando as frequências em meio aos tiros.

Ele disse: “Acionem o Plano B. Eles estão todos aqui. A casa está vazia, mas vão ao hospital. Vão atrás da mãe. Não deixem nada dos Beltrán.”

O silêncio no carro era absoluto. Mais frio que a morte.

Minha mãe, Elena, foi internada na Clínica Internacional Ruber, recuperando-se de uma cirurgia de rotina na vesícula biliar. Pensávamos que ela estaria segura lá, registrada com um nome falso, em território neutro.

“Victor!” O grito do meu pai era um rugido animalesco. “Para o Ruber! Agora mesmo! Acelere fundo!”

“Segure-se!” gritou Victor, e senti a aceleração me jogar contra o assento.

A armadilha do matadouro não era o fim. Era uma distração. O verdadeiro alvo jazia indefeso em um leito de hospital do outro lado de Madri. E nós estávamos do outro lado da cidade, com o trânsito da hora do rush contra nós.

PARTE 4: SILÊNCIO NO SALÃO QUATRO

Madri à noite é uma selva de luzes vermelhas e sirenes, mas para nós, dentro do “Monstro” blindado, era um obstáculo a ser superado. Víctor dirigia como um louco pela M-30, subindo nos canteiros centrais, ignorando os semáforos, usando a sirene ilegal que havia instalado para abrir caminho no mar de carros como Moisés.

“Faltam dez minutos!” gritou meu pai, olhando para o relógio em desespero. Ele estava tentando ligar para os seguranças particulares que ficavam na porta da minha mãe, mas ninguém atendia. Aquilo era um mau sinal. Um sinal muito ruim.

“Eles estão mortos”, disse Isolda, fria e pragmática. “Se não responderem, significa que já se mudaram para o apartamento.”

Eu estava sentada no chão do carro, de olhos fechados, visualizando o hospital. Já tinha estado lá muitas vezes visitando minha mãe. Conhecia a acústica. O rangido do piso de linóleo. O teto baixo que abafava o eco. O zumbido constante dos aparelhos de ar condicionado.

“Não podemos entrar pela porta da frente”, eu disse de repente.

“O que você está dizendo?” Meu pai se virou para mim.

“Se eles já estiverem lá, terão alguém no saguão observando. Assim que você entrar, eles te verão. Ou entrarão no elevador conosco ou nos bloquearão. É um gargalo. Vão nos matar na recepção.”

“Então, o que fazemos?” perguntou Victor, desviando para evitar um ônibus. “Vamos de avião?”

“Pela lavanderia”, eu disse. “A entrada de serviço fica na rua dos fundos. Ela dá acesso ao elevador de serviço. Esse elevador não tem música e não para em todos os andares se você tiver a chave de serviço.”

“E como você sabe disso?”, perguntou meu pai.

—Porque fiquei entediado quando fui visitar a mamãe. Gostei de explorar os sons do prédio. Eu sei como chegar lá.

Meu pai olhou para mim por um segundo e depois assentiu com a cabeça.

—Victor, rua de trás. Entrada de mercadorias.

Chegamos derrapando. A rua de trás estava escura, cheia de contêineres de lixo e caminhões de entrega estacionados. Saltamos do veículo em movimento. Fausto, Isolda e I. Víctor ficaram no carro para dar cobertura à saída.

A porta de serviço estava trancada com uma corrente grossa. Isolda não perdeu tempo procurando gazuas. Sacou sua pistola com silenciador e atirou duas vezes na fechadura. O metal estilhaçou. Entramos.

O cheiro de detergente industrial, roupas limpas e desinfetante forte invadiu minhas narinas. Era o cheiro de doença asséptica.

“O elevador de carga fica à direita”, sussurrei. “Vinte degraus.”

Corremos pelo corredor de serviço. Chamamos o elevador. Demorou uma eternidade. O zumbido do motor descendo era uma contagem regressiva na minha cabeça. Zzzzzzzzzzz .

As portas se abriram. Entramos. Meu pai apertou o botão do quarto andar.

“Escute”, eu disse enquanto subíamos as escadas.

O silêncio no elevador era total.

—Quando as portas se abrem… não deveria haver silêncio. É um hospital. Deveria haver enfermeiras circulando, carrinhos de medicamentos, monitores apitando, televisões ligadas nos quartos.

O elevador parou. Ding .

As portas se abriram.

Silêncio. Um silêncio denso, pesado, antinatural.

“Eles esvaziaram a fábrica”, sussurrou meu pai, pálido. “Ou mataram todos.”

Saímos para o corredor. As luzes estavam baixas, no modo noturno. Isolda ia na frente, meu pai atrás dela, e eu no meio. Caminhamos perto da parede.

Passamos pelo posto de enfermagem. Não havia ninguém lá. Apenas uma xícara de café fumegante no balcão e um telefone pendurado delicadamente pelo fio. Tinham sido levados embora rapidamente.

O quarto da minha mãe, o 402, ficava no final do corredor.

De repente, parei abruptamente. Agarrei a jaqueta do meu pai.

“Pare!” sussurrei.

“O que foi?”, sussurrou ele, parando abruptamente.

Eu me concentrei. Não era um som no chão. Vinha do andar de cima. Um rangido suave e rítmico. Como tecido roçando em gesso.

“Tem alguém no teto”, eu disse, apontando para as placas do forro suspenso no corredor. “Bem acima de nós. Consigo ouvir a respiração. É lenta. Estão esperando.”

Meu pai não hesitou. Não fez perguntas. Levantou a arma para o teto e disparou três vezes através da parede de gesso.

BAM! BAM! BAM!

O teto desabou numa chuva de poeira branca e destroços. Um corpo caiu pesadamente no chão à nossa frente. Um homem vestido de preto, com um fuzil de assalto, caiu morto. Ele estava à espera, na emboscada perfeita.

“Eles nos descobriram!” gritou Isolda.

A porta do quarto 402 abriu-se no final do corredor.

Un hombre salió. Era Rossi. El traje impecable ahora estaba manchado de polvo y sangre seca. Tenía a mi madre, Elena, agarrada por el cuello. Ella llevaba la bata de hospital, estaba pálida, con los ojos desorbitados por el terror, y una vía intravenosa arrancada colgando de su brazo.

Rossi tenía una pistola presionada contra la sien de ella.

—¡Suelten las armas! —gritó Rossi. Su voz retumbó en el pasillo vacío—. ¡Suelten las armas o pinto la pared con los sesos de su mujer, Beltrán!

Mi padre se congeló. Su peor pesadilla estaba ocurriendo frente a sus ojos. La invencibilidad del León se evaporó.

Lentamente, muy lentamente, dejó su pistola en el suelo. Le hizo un gesto a Isolda. Ella dudó, pero al ver los ojos suplicantes de mi padre, también dejó su arma.

Rossi sonrió. Una sonrisa de tiburón acorralado.

—Muy bien. Ahora, la niña. Que venga conmigo. El Cardenal quiere conocer a la “maravilla” antes de mataros a todos.

—No —dijo mi padre—. Llévame a mí.

—No estoy negociando, Fausto. La niña. Ahora.

Mi padre me miró. Había una agonía infinita en su rostro. Pero yo… yo estaba escuchando.

Estaba escuchando el zumbido eléctrico de una máquina de vending que había a la mitad del pasillo, a la derecha de Rossi. Estaba escuchando el latido acelerado de mi madre. Y estaba escuchando el clic suave del seguro de la pistola de Rossi, que ya estaba quitado.

Di un paso al frente. Levanté las manos vacías.

—Voy —dije. Mi voz sonaba tranquila. Demasiado tranquila.

—Valentina… —gimió mi madre.

—Cállate, Elena —espetó Rossi—. Ven aquí, ciega. Camina despacio.

Empecé a caminar por el pasillo. Cerré los ojos detrás de mis gafas oscuras. Hice un sonido con la boca. Un chasquido de lengua suave. Click.

Ecolocalización. El sonido viajó por el pasillo, rebotó en Rossi, rebotó en mi madre, rebotó en la pared detrás de ellos. La imagen se formó en mi mente en blanco y negro.

Rossi estaba tenso. Su peso estaba sobre la pierna izquierda. El arma estaba pegada a la sien derecha de mi madre. Pero detrás de él… justo detrás de su cabeza, en la pared… había una caja metálica. Un armario de mangueras contra incendios con puerta de cristal.

Seguí caminando. Diez pasos. Cinco pasos. Tres pasos.

—No soy ciega —dije cuando estuve lo suficientemente cerca para oler su miedo.

—¿Qué? —preguntó Rossi, confundido por un microsegundo.

—Solo veo diferente.

Y entonces, me moví.

No ataqué a Rossi. No ataqué a mi madre.

Me agaché y cogí una bandeja metálica de instrumental médico que había en un carrito abandonado junto a mí. Y con un movimiento de frisbee, la lancé con toda mi fuerza y precisión auditiva, no hacia él, sino hacia la caja de cristal detrás de su cabeza.

¡CRASH!

El sonido del cristal rompiéndose y el metal chocando contra metal justo detrás de su oreja fue explosivo. Fue un estruendo inesperado en el silencio tenso.

El reflejo humano es inevitable. Cuando oyes un ruido fuerte y repentino detrás de ti, te estremeces. Tu atención se rompe.

Rossi virou a cabeça um centímetro na direção do ruído. Sua mão, por reflexo de simpatia, afastou-se dois centímetros da cabeça da minha mãe.

Dois centímetros. Era tudo o que precisávamos.

“Chão!” gritei.

Minha mãe, percebendo algo em minha voz, deixou-se cair no chão como um peso morto, arrastando Rossi desequilibrada.

BOOM!

O tiro não veio do meu pai, nem de Isolda. Veio da entrada do corredor.

Victor tinha subido as escadas, desobedecendo à ordem de permanecer no carro. Sua espingarda de cano serrado estalou.

O tiro atingiu Rossi no ombro direito, fraturando sua clavícula e arremessando-o contra a parede. A arma caiu de sua mão inerte.

Isolda correu. Passou por mim num instante. Alcançou Rossi antes mesmo que ele pudesse pegar a arma com a mão esquerda. Não houve piedade. Isolda chutou-o no rosto, deixando-o inconsciente instantaneamente.

Acabou.

O silêncio voltou ao corredor, mas desta vez era um silêncio de alívio, quebrado apenas pelos soluços da minha mãe.

Meu pai correu em sua direção, ergueu-a do chão, beijando seu rosto, seus cabelos, suas mãos.

Eu estava parada no meio do corredor. Minhas pernas tremiam. A adrenalina estava passando, deixando um gosto metálico na minha boca.

Senti uma mão no meu ombro. Era Victor.

“Belo tiro, garota”, disse ele com sua voz rouca. “Belo tiro.”

“Eu não filmei nada”, eu disse, com um sorriso fraco.

—Você fez algo melhor. Você o fez olhar para o outro lado.

Saímos do hospital antes da chegada da polícia. O império do meu pai em Madri foi reduzido a cinzas. A casa em La Moraleja já não era segura. Nossa antiga vida terminou naquela noite, em um corredor da Clínica Ruber.

Mas enquanto o carro blindado nos levava para longe, noite adentro, rumo a um futuro incerto, talvez para Portugal ou mais além, percebi algo.

Meu pai carregava minha mãe nos braços, no banco de trás. Isolda limpava sua pistola. Victor dirigia, cantarolando uma antiga canção folclórica.

E eu… eu não tinha mais medo do escuro. Porque eu havia descoberto que, na escuridão, eu era o único que carregava a luz.

Fausto Beltrán perdera seu reino naquela noite. Mas ganhara uma herdeira. E o submundo do crime logo descobriria que não há nada mais perigoso do que uma loba que não precisa ver a lua para caçar.

FIM