O dia em que os abutres aguardavam minha morte e uma menina órfã me salvou com água do seu sapato: A verdade oculta que destruiu e salvou minha família.
PARTE 1
O sol de setembro em La Mancha é implacável. Ele castiga a terra seca e ocre como um martelo de chumbo derretido, fazendo o ar vibrar sobre o asfalto e as cigarras cantarem com uma insistência implacável e ensurdecedora. Mas naquela terça-feira, o calor que eu senti, Aureliano Menéndez, não vinha apenas do céu. Vinha de dentro. Era um fogo alimentado pela raiva, pela decepção e por um profundo sentimento de fracasso que queimava minhas entranhas mais do que os quarenta graus Celsius marcados no termômetro do meu BMW.
Eu dirigia sem rumo, cada vez mais longe de Toledo, da minha empresa e, acima de tudo, tentando fugir da verdade que acabara de descobrir. Quarenta anos de trabalho árduo. Quarenta anos construindo, tijolo por tijolo, a construtora mais respeitada da região, sacrificando fins de semana, férias e tempo com minha falecida esposa, tudo para dar à minha única filha, Isadora, um futuro de rainha. E foi assim que ele me recompensou.
Minhas mãos apertavam o volante de couro com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos. As palavras da auditoria ecoavam na minha cabeça como um refrão amaldiçoado: “Duzentos mil euros estão faltando, Dom Aureliano. Os desfalques levam a contas de jogos de azar online. O endereço IP pertence à sua filha . ”
“Droga!” gritei na solidão do carro, batendo no painel.
Dizem que o estresse é um assassino silencioso. Mas naquele dia, não foi silencioso. Foi um rugido. Primeiro, senti uma dor aguda no braço esquerdo, depois uma pressão no peito como se um elefante tivesse sentado em cima de mim. A estrada rural, cercada por campos de trigo já colhidos e esquecidos, começou a ondular diante dos meus olhos. O mundo girou. Freiei instintivamente, arrastando o carro em direção ao acostamento de cascalho, levantando uma nuvem de poeira.

Abri a porta ofegante, mas o ar estava em chamas. Tentei sair, dar um passo, pedir ajuda, mas minhas pernas de cinquenta e dois anos, cansadas de carregar o peso do mundo, cederam. Caí de cara no asfalto escaldante. A última coisa de que me lembro antes de a escuridão me engolir foi o cheiro de alcatrão derretido e o som do silêncio absoluto do planalto, quebrado apenas pelo grasnido distante de algo circulando acima de mim.
Não sei quanto tempo fiquei lá. O tempo se torna fluido quando se está à beira do abismo. Mas me lembro de acordar. Não foi um despertar repentino, mas uma subida lenta de um poço profundo e escuro.
A primeira coisa que senti foi dor. Minha cabeça latejava como um tambor e minha pele ardia. Mas havia algo mais. Uma sombra. Uma sombra pequena e irregular movendo-se acima de mim, dando-me um alívio do sol implacável. E sons. Sons guturais, assobios e uma voz fina, infantil, mas repleta de coragem feroz.
“Saiam daqui! Vão embora, criaturas nojentas!” gritou a voz.
Abri os olhos com dificuldade. A luz feria minhas retinas. Pisquei, tentando focar. O que vi parecia uma alucinação causada pela febre e pelo calor.
A menos de dois metros de mim, meia dúzia de enormes e repulsivos abutres negros pairavam desajeitadamente sobre o asfalto, aproximando-se com a macabra paciência da morte. Mas entre eles e meu corpo indefeso, havia uma barreira intransponível: uma garotinha.
Ela não devia ter mais de quatro anos. Era minúscula, um passarinho de ossos delicados. Seus cabelos castanhos estavam emaranhados, cheios de poeira e palha. Usava um vestido azul que um dia fora bonito, mas agora estava desbotado e sujo, pendendo de seus ombros ossudos. Seus pés… Meu Deus, seus pés estavam descalços naquele asfalto que podia fritar um ovo, pretos de sujeira e calos.
Mas o que me fascinou foram os seus olhos. Grandes, escuros, imensos em seu rosto sujo. Ela segurava uma pedra em uma mão e um pedaço de pau seco na outra, encarando as aves de rapina como uma guerreira espartana defendendo as Termópilas.
“Deixem-no em paz!” gritou ele novamente, atirando a pedra com toda a força do seu bracinho.
Um dos abutres grasnou de irritação e alçou voo pesadamente para pousar na cerca de madeira podre que delimitava o campo. Os outros o seguiram a contragosto.
A garota se virou para mim. Ao ver meus olhos abertos, largou o graveto e se ajoelhou ao meu lado. Seu rosto estava coberto de suor e sujeira, mas sua expressão era de pura preocupação.
“Senhor… senhor, o senhor está vivo?”, perguntou ele, aproximando o ouvido da minha boca.
Tentei falar, mas minha garganta estava áspera como lixa. Só saiu um gemido rouco.
“Água…” implorei.
A garota olhou em volta, desesperada. Estávamos no meio do nada. Campos secos, um horizonte plano, calor. Não havia casas, postos de gasolina, fontes de água. Apenas a estrada vazia.
—Espere, senhor. Não durma. Naira cuidará do senhor.
Ela se levantou e correu. Meus olhos a seguiram, embaçados. Vi-a correr em direção à vala, onde a tempestade da semana passada deixara uma poça estagnada, uma mistura de lama e água esverdeada. Vi-a tirar uma das sandálias de borracha que estavam penduradas em seu pescoço (ela nem as estava usando), uma coisa velha e quebrada que provavelmente havia encontrado no lixo.
Eu a observei encher a sandália com aquele líquido turvo e correr de volta em minha direção, caminhando com cuidado para não derramar uma única gota, como se estivesse carregando o cálice sagrado.
Ele se ajoelhou novamente, ergueu minha cabeça com uma força que parecia impossível naqueles braços de arame e aproximou a sola de borracha dos meus lábios rachados.
—Beba, senhor. É água. Está um pouco suja, mas vai molhá-lo.
Na minha vida de luxo, de vinhos finos e água mineral engarrafada, jamais imaginei que um dia beberia água barrenta de um sapato velho. Mas naquele instante, aquele líquido morno e terroso tinha um gosto divino. Bebi-o com avidez, tossindo um pouco.
A menina, Naira, sorriu. Faltava-lhe um dente de leite.
“Vai ficar tudo bem. Minha mãe costumava dizer que a água cura tudo.”
Desabei de volta no asfalto, sentindo-me um pouco mais lúcido. Olhei para cima e vi o que projetava minha sombra. Não era uma nuvem. Eram galhos secos de oliveira e giesta que a garota havia arrastado e empilhado desajeitadamente sobre meu corpo, criando um teto improvisado para me proteger do sol.
O silêncio retornou, mas agora era diferente. Ele não estava mais sozinho.
Passaram-se alguns minutos, talvez uma hora. Recuperei o controle dos meus membros. A dor no peito havia diminuído, restando apenas um leve eco de exaustão. Sentei-me com dificuldade. O mundo girou e estabilizou.
Olhei para a garota. Ela estava agachada a cerca de um metro de distância, olhando fixamente para mim, chupando o dedão do pé num gesto tão inocente que contrastava brutalmente com a miséria de sua aparência.
E então, minha antiga natureza retornou. A natureza do empresário desconfiado, do milionário que vê ameaças em cada sombra, do pai ferido que acabara de ser roubado pela própria filha.
Toquei no bolso interno do meu casaco. A carteira estava lá. Olhei para o meu pulso esquerdo. O Rolex de ouro, herdado do meu pai, ainda estava lá, brilhando obscenamente ao sol.
“Quem é você?”, perguntei, com a voz mais áspera do que pretendia. “O que está fazendo aqui sozinha? Onde estão seus pais?”
Naira estremeceu ligeiramente com meu tom brusco. Ela tirou o dedo da boca.
—Meu nome é Naira. Não tenho pais aqui. Moro… por aqui.
Ele apontou vagamente em direção ao horizonte.
“Você me tocou?”, perguntei, verificando meus bolsos novamente. “Você pegou alguma coisa?”
O rosto da menina mudou. O brilho em seus olhos se apagou, substituído por uma tristeza ancestral, uma resignação que nenhuma criança deveria jamais conhecer.
—Não, senhor. Eu apenas o protegi com um pouco de sombra e lhe dei água. Os pássaros maus queriam comê-lo.
Instantaneamente me senti um idiota, mas o orgulho é difícil de quebrar. Levantei-me, cambaleando. Sacudi a poeira do terno italiano de mil euros, agora arruinado.
“Tudo bem… obrigada”, murmurei, sem olhar nos olhos dela. “Aqui, para você comprar alguma coisa.”
Meti a mão no bolso e tirei uma nota de cinquenta euros. Estendi-a para ela. Ela olhou para a nota sem expressão, como se eu estivesse lhe oferecendo uma folha de alface. Ela não a aceitou.
—Não quero papel, senhor. O senhor tem um sanduíche? Estou com fome.
Eu não tinha nada. Meu carro estava vazio. Eu me sentia impotente, e essa impotência se transformou em irritação.
—Não, eu não tenho comida. Vá para casa, menina. Você não pode ficar aqui na estrada. É perigoso.
“Não tenho casa”, disse ela com uma indiferença que me arrepiou.
—Então volte para a aldeia. Vá, se perca!
Acenei com a mão, como se estivesse espantando uma mosca. Ou um abutre. Naira olhou para mim por mais um segundo, os olhos se enchendo de lágrimas que ela se recusava a deixar cair, pegou a sandália molhada e se virou. Começou a caminhar pelo acostamento da estrada, com a frágil dignidade de quem não tem mais nada a perder.
Entrei no carro. O ar condicionado atingiu meu rosto, frio e estéril. Liguei o motor. Olhei pelo retrovisor. Vi-a se afastando, um minúsculo ponto azul na vasta extensão amarela de Castela.
“Alguém vai buscá-la”, pensei. “Não é problema meu. Já tenho problemas suficientes. Tenho uma empresa para salvar e uma filha ladra para lidar.”
Pisei no acelerador e deixei para trás a garota que havia salvado minha vida. Eu não sabia, naquele momento, que estava cometendo o maior erro da minha vida, nem que o destino, caprichoso e justo, me traria de volta àquele mesmo lugar muito antes do que eu imaginava.
A mansão estava silenciosa quando cheguei. Minha casa, uma vila restaurada nos arredores de Toledo, sempre me parecera um refúgio. Hoje, parecia um mausoléu. Mármore frio, tetos altos, ecos vazios.
Isadora não estava lá. Dalva, minha governanta há quinze anos, saiu da cozinha enxugando as mãos no avental.
—Dom Aureliano! Virgem Santa! O que aconteceu com você? Você está com uma aparência horrível.
—Só estou um pouco tonta, Dalva. É o calor. Não é nada.
—Devo ligar para o médico?
—Não. Só quero tomar um banho e dormir. A Isadora ligou?
Dalva baixou o olhar.
—Não, senhor. Mas chegou um mensageiro. Outra carta registrada do banco.
Assenti com a cabeça, sentindo novamente o peso do mundo. Subi as escadas arrastando os pés. Tirei meu terno sujo, joguei-o no chão e entrei no chuveiro. A água limpa lavou a poeira da rua, mas eu não conseguia me livrar do gosto de lama na boca. Nem da imagem daqueles olhos grandes e escuros me olhando com preocupação.
“Naira cuida de você . ”
Deitei-me, mas o sono não vinha. Revirava-me na cama king-size, entre lençóis de algodão egípcio, pensando na menina que dormia na vala. Pensando em Isadora, que tinha tido tudo: as melhores escolas, viagens, carros, amor… e me roubou tudo. E aquela menina, que nem sequer tinha sapatos, me deu a sua água.
A culpa é um animal noturno. Ela me devorou por horas.
Na manhã seguinte, acordei com uma decisão em mente. Eu não podia salvar o mundo, mas também não podia deixar aquela garotinha lá. Talvez eu pudesse levá-la para um abrigo, ou pelo menos dar-lhe alguma comida decente.
Me vesti rapidamente. Procurei meu relógio na mesa de cabeceira. Não estava lá.
Revirei o banheiro, o chão, os bolsos do meu terno sujo. Nada. Meu Rolex. Trinta mil euros em ouro e valor sentimental.
A raiva explodiu novamente, intensa e repentina.
“A garota!” exclamei em voz alta. “Droga, é claro que era ela! ‘Eu não a toquei, senhor.’ Ladrazinha!”
Senti-me justificado. Meu cinismo estava certo. Ela me drogou com sua doçura para me roubar enquanto eu estava inconsciente. Claro que sim. Eu era um garoto de rua, o que eu esperava?
Desci as escadas furiosa.
—Dalva, não espere que eu coma. Vou recuperar o que é meu.
Voltei para a estrada com uma determinação vingativa. Eu ia encontrar aquela pirralha e levá-la para a Guarda Civil. Ninguém ri de Aureliano Menéndez.
Cheguei ao local exato do incidente. As marcas dos meus pneus ainda estavam no cascalho. Saí do carro, sentindo o calor me atingir novamente.
Olhei em volta. Nada. Apenas campos e silêncio.
Caminhei até o lugar onde eu estava deitada. Os restos dos galhos secos que ela usara para me dar sombra ainda estavam lá, espalhados como um monumento à minha própria vulnerabilidade.
“Menina!” gritei. “Eu sei que você está por aqui! Apareça!”
Ninguém respondeu.
Caminhei um pouco mais em direção ao milharal seco. E então vi algo que me paralisou.
A cerca de cinquenta metros de distância, agachada no chão duro, estava ela. A mancha azul.
Aproximei-me com passos firmes, pronto para exigir meu relógio. Mas, à medida que me aproximava, meus passos diminuíram.
Naira não estava se escondendo. Ela estava trabalhando. Com suas mãozinhas sujas, cavava um pequeno buraco na terra árida. Ao lado dela, havia uma planta murcha, um girassol triste que ela claramente resgatara de algum aterro sanitário, com as raízes envoltas em plástico.
“O que você está fazendo?”, perguntei, com a voz falhando.
Naira deu um pulo de susto e se virou. Quando me viu, seus olhos se arregalaram, mas não havia medo, apenas uma alegre surpresa.
—Senhor! Ele voltou!
“Eu te perguntei o que você está fazendo”, insisti, embora minha raiva estivesse se desfazendo.
“Estou plantando”, disse ela, voltando à sua tarefa. “Encontrei esta flor no lixo da aldeia; ela estava chorando. Minha mãe disse que a terra cura a tristeza. E como foi aqui que você caiu e ficou triste, pensei que se eu plantasse a flor aqui, nós duas ficaríamos felizes.”
Fiquei sem palavras. Senti um nó na garganta.
—Por que… por que você acha que eu estava triste?
—Porque ela parecia estar com dor. E porque ela gritava coisas horríveis enquanto dormia. Ela gritava um nome… Isa… Dora…
O ar saiu dos meus pulmões.
—Escuta, menina. Perdi uma coisa aqui ontem. Um relógio. De ouro. Muito caro.
Naira olhou fixamente para mim. Ela parou de cavar. Limpou as mãos no vestido, deixando mais duas manchas de lama no tecido já sujo.
—Ah, sim. O relógio brilhante.
Ele se levantou e caminhou até uma grande pedra ao lado do poste da cerca. Com algum esforço, moveu a pedra. Debaixo dela, em uma cavidade cuidadosamente limpa de insetos e forrada com folhas secas, estava meu Rolex.
Ele pegou e me entregou.
—Eu escondi ali para que os pássaros não o pegassem, nem homens maus que passassem por perto. Eu esperava que você voltasse para buscá-lo.
Peguei o relógio. Estava intacto. Brilhava à luz do sol, um luxo absurdo em meio a tanta pobreza. Olhei para o relógio, olhei para a garota.
“Por que você não ficou com ele?”, perguntei, com a voz trêmula. “Você poderia tê-lo vendido. Poderia ter comprado muita comida. Sapatos. Um vestido novo.”
Naira inclinou a cabeça, como se eu tivesse dito alguma besteira.
“Porque não é meu, senhor. É seu. E roubar é errado. Minha mãe costumava dizer que se você pega o que não é seu, isso mancha seu coração. E eu não quero um coração sujo, só pés sujos.”
Caí de joelhos. Não por causa do calor, nem por um ataque cardíaco. Caí de joelhos, tomado pela pureza daquela criança. Quarenta anos nos negócios, lidando com tubarões, vendo minha própria filha me roubar… e essa garotinha, que não tinha nada, tinha mais honra do que todos nós juntos.
“Você está com fome, Naira?”, perguntei, com os olhos marejados.
“Muito”, admitiu ela, tocando a barriga.
—Vamos lá. Vamos comer.
—Você não vai mais gritar comigo?
—Não. Nunca mais. Prometo.
Levei-a ao “Venta Manolo”, um restaurante de beira de estrada onde caminhoneiros e meus próprios funcionários paravam. Quando entramos, havia silêncio. Eu, de terno (agora limpo), e ela, segurando minha mão, suja e descalça.
Manolo, o dono, aproximou-se, enxugando as mãos.
—Dom Aureliano… está tudo bem?
—Está tudo perfeito, Manolo. Prepare a melhor mesa para nós. E traga comida. Muita comida. Tortilha, croquetes, lombo de porco, batatas, suco de laranja… tudo o que você tiver.
“E a garota?” perguntou Manolo, baixando a voz.
—A moça é minha convidada de honra. Trate-a como uma princesa.
Naira comeu como se não houvesse amanhã, mas com uma delicadeza surpreendente. Ela não se engasgou; saboreou cada mordida, fechando os olhos.
“Está delicioso, Sr. Aureliano”, disse ele com a boca cheia de pão. “O senhor não come?”
—Não estou com fome. Só quero te ver comer. Me diga, Naira… o que aconteceu com a sua mãe? Você fala muito dela.
A menina pousou o garfo. Sua expressão escureceu.
—Mamãe ficou doente. Ela estava tossindo sangue. Muito sangue. Morávamos num quartinho na cidade vizinha. Um dia, uns homens vieram e a levaram embora de ambulância. Disseram para eu ficar na casa da vizinha, mas a vizinha não me quis. Fui procurar mamãe no hospital, mas me disseram que ela tinha ido para o céu.
—E seu pai?
—Eu não tenho pai. Mamãe disse que papai era um príncipe que se perdeu pelo caminho.
—E há quanto tempo você está sozinho?
—Não sei. Muitas luas. Conto as luas cheias. Duas já se passaram.
Dois meses. Dois meses sobrevivendo sozinha nas ruas com quatro anos de idade. Senti uma profunda náusea em relação ao sistema, ao mundo, a mim mesma por não ter procurado ajuda antes.
—Naira, você gostaria de vir comigo um pouco? Eu tenho que ir trabalhar. Em uma obra. Tem máquinas enormes.
Os olhos dela brilharam.
—Sério? Tipo tratores?
—Sim, como escavadeiras.
-Sim!
Levar a moça até o canteiro de obras foi um verdadeiro espetáculo. Meus operários, homens rudes e curtidos pelo sol e pelo cimento, ficaram completamente atônitos. Jenaro, meu capataz, um homem que parecia um urso pardo de quase dois metros de altura, se aproximou.
—Chefe, o que houve com essa visita?
—É a Naira, Jenaro. Ela… ela está supervisionando hoje.
Jenaro se abaixou, com os joelhos rangendo.
—Olá, chefe. Você gosta de cimento?
“Tem cheiro de chuva”, disse ela.
Jenaro riu, uma risada profunda.
—Você tem razão, droga! Cimento molhado cheira a chuva. Nunca tinha pensado nisso.
Passamos a tarde lá. Naira corria de um lado para o outro (com cuidado, eu a vigiava atentamente) carregando pregos para os carpinteiros e água para os pedreiros. Ela transformou a atmosfera do canteiro de obras. Onde geralmente havia gritos e tensão, agora havia risos.
Ao cair da noite, quando o sol começou a pintar o céu de violeta, a realidade me atingiu. Eu tinha que ir para casa. Não podia levá-la de volta para a estrada. Mas também não podia simplesmente empurrá-la para dentro. Ou podia?
Eu sou Aureliano Menéndez. Faço o que quero.
—Jenaro—Antes de sair, chamei meu capataz. —Vou levar a garota para casa. Ela não tem para onde ir.
A expressão de Jenaro mudou. Ele empalideceu sob o bronzeado de operário. Olhou para Naira, que brincava com um pedaço de mangueira, e depois para mim. Nervoso, tirou o capacete.
—Dom Aureliano… há algo que… droga, não sei se devo.
-O que está acontecendo?
—A menina. Naira. Ela se parece muito com ela.
-A quem?
—Para Celina.
O nome me soava familiar, mas distante. Como uma nota de rodapé entre os milhares de funcionários que já passaram pela minha empresa.
—Celina?
—Celina Santos. Ela trabalhou aqui há cinco anos. Na administração do projeto de habitação social.
-E?
Jenaro engoliu em seco, olhando em volta como se tivesse medo de ser ouvido.
—Ela era uma moça maravilhosa, muito trabalhadora. Mas… ela engravidou. E a senhorita Isadora… bem, a filha dela trabalhava em recursos humanos naquela época, lembra? Quando você estava viajando pela Alemanha.
Assenti com a cabeça lentamente. Eu me lembrava vagamente.
“A Isadora a demitiu”, disparou Jenaro. “Disse que uma mulher grávida no canteiro de obras era um risco. Que ela causava uma má impressão. A Celina implorou. Disse que não tinha ninguém, que precisava do plano de saúde. Mas a senhorita Isadora foi… inflexível. Até cruel, se me permite, chefe. Ela a jogou na rua sem indenização, alegando baixo desempenho, o que era mentira.”
Senti um arrepio gélido no estômago.
—Você está dizendo que Naira é filha daquele funcionário? Aquele que minha filha demitiu?
“Ela tem o mesmo rosto, chefe. E a idade bate. Celina saiu da cidade devastada. Ouvi dizer que ela se virava limpando casas, que ficou doente… Se a garota está na rua, é porque Celina morreu. E se Celina morreu na pobreza…”
Ele não precisava terminar a frase. A culpa é nossa .
Olhei para Naira. Não via mais apenas uma garotinha fofa. Vi uma vítima direta da ganância e da frieza da minha própria família. Minha filha, aquela que eu havia mimado demais, condenara essa criança à orfandade e à pobreza mesmo antes de ela nascer.
A culpa deixou de ser um animal noturno. Tornou-se um monstro que me devorava em plena luz do dia.
“Entre no carro, Naira”, eu disse com a voz rouca. “Vamos para casa.”
—Para a sua casa, tio Aureliano? — perguntou ela, já tendo me promovido de “senhor” a “tio”.
—Sim. Para a minha casa. E a partir de hoje, ela também é sua.
A viagem de volta foi silenciosa. Eu estava processando a bomba que Jenaro acabara de soltar. Isadora estava em casa. Ela tinha que estar. E hoje ela ia me ouvir.
Chegamos. A casa estava iluminada. Entrei segurando a mão de Naira. A menina olhava fixamente para o teto alto e os lustres, boquiaberta.
“É um castelo!” ela sussurrou.
Isadora apareceu no saguão. Ela carregava uma taça de vinho e parecia ter estado chorando, mas quando nos viu, sua expressão endureceu.
“Papai, finalmente você chegou. Eu estava morrendo de preocupação. Onde você esteve…?” Ela parou abruptamente ao ver a garotinha. “O que é isso? Quem é ela?”
“Esta é Naira”, eu disse, batendo a porta atrás de mim. “E ela vai ficar aqui. Dalva, por favor, prepare um banho quente para o bebê e encontre algumas roupas antigas da Isadora, de quando ela era pequena. E um pouco de comida.”
Dalva, coitada, não fez perguntas. Ela simplesmente olhou para a criança com infinita ternura.
—Venha comigo, querida. Vamos te dar um banho de espuma.
“Com bolhas de sabão?” perguntou Naira.
—Com montanhas de bolhas.
Quando eles saíram, Isadora se virou para mim, furiosa.
“Você enlouqueceu? Traz um mendigo para casa? Pai, temos um problema sério. Preciso conversar com você sobre… sobre dinheiro.”
“O dinheiro que você roubou de mim?”, perguntei, aproximando-me dela. Isadora recuou, assustada com a frieza da minha voz. “Isso não me importa mais, Isadora. Dinheiro vem e vai. Mas decência… decência é outra coisa.”
-Do que você está falando?
—Estou falando de Celina Santos.
O nome a atingiu como um tapa na cara. Isadora empalideceu tanto que sua maquiagem se destacou como uma máscara. A taça de vinho tremeu em sua mão.
“Quem?”, ele tentou fingir.
—Não minta para mim. Jenaro me contou tudo. Você demitiu uma mulher grávida, sozinha e sem recursos, há cinco anos. Por capricho. Por pura crueldade.
—Ela era inútil! Estava sempre atrasada!
“Ela era uma mulher que precisava de ajuda, e você a condenou! Aquela moça ali em cima, aquela ‘mendiga’, como você a chama, é filha da Celina. Celina está morta, Isadora. Ela morreu doente e pobre porque você tirou o sustento dela. E aquela moça tem vivido nas ruas, comendo lixo, enquanto você gastou duzentos mil euros em jogos de azar online.”
Isadora deixou cair o copo. O cristal estilhaçou-se contra o chão de mármore, derramando vinho tinto como sangue. Ela desabou no sofá, cobrindo o rosto com as mãos.
—Eu não sabia… Eu não sabia que ele tinha morrido…
—Bem, agora você sabe. E eu juro pela memória da sua mãe que você vai consertar isso. Aquela menina fica. E você vai cuidar dela. Você vai olhar nos olhos dela todos os dias e se lembrar do que fez.
“Eu não consigo, pai… Estou com medo. Tem gente… tem gente perigosa atrás de mim por causa das dívidas. Se eles descobrirem que tem uma menininha aqui…”
—Que pessoas?
—Agiotas. Eles não são do banco, pai. São gente ruim. Eu devo muito mais do que peguei emprestado da empresa. Eles me ameaçaram. Disseram que sabem onde moramos.
Um silêncio pesado e aterrador pairou sobre a sala. Ela acabara de jogar uma garota inocente na boca do leão.
Naquele instante, o telefone fixo tocou. O telefone fixo nunca tocava naquele horário.
Eu removi.
-Sim?
“Boa noite, Dom Aureliano”, disse uma voz suave, metálica e sinistra. “Vemos que o senhor tem uma nova inquilina. Uma menina muito bonita. Seria uma pena se algo lhe acontecesse por causa dos erros de sua filha, não é?”
Meu sangue gelou. Eles estavam nos observando.
“Escute com atenção, seu filho da puta…” comecei.
—Não, escute. Queremos meio milhão de euros. Amanhã ao meio-dia. Caso contrário, a menina paga. E acredite, acidentes na infância são muito trágicos.
Eles desligaram.
Olhei para o último andar, onde pude ouvir Naira rindo enquanto brincava com bolhas de sabão. Eu havia trazido a filha da minha vítima para casa para salvá-la e agora, por causa do meu próprio sangue, eu a havia colocado na mira de assassinos.
Mas, enquanto eu ouvia o riso dela, algo mudou dentro de mim. O medo desapareceu, substituído por uma determinação fria e letal. Eles haviam ameaçado a garota que me deu água quando eu estava morrendo de sede.
Ninguém toca na minha família. E a partir de hoje, Naira é a minha família.
“Isadora”, eu disse, desligando o telefone. “Enxugue essas lágrimas. Temos trabalho a fazer. Vamos precisar de ajuda. Ligue para Jenaro. E faça um café. Ninguém vai dormir esta noite.”
A guerra tinha começado. E eu não ia perdê-la.
PARTE 2: A FORTALEZA E A DÍVIDA DE SANGUE
Desliguei o telefone e o clique do fone batendo na base soou como o martelo de um juiz. A ameaça do homem, aquela voz metálica e sem alma, ainda ecoava no ar estéril da minha sala de mármore. “Acidentes na infância são muito trágicos . “
Olhei para as minhas mãos. Eram mãos de construtor, mãos que ergueram prédios, assinaram cheques milionários e apertaram as mãos de políticos e banqueiros. Mas naquele momento, pareciam as mãos mais inúteis do mundo. Tremiam. Não de medo de morrer — Aureliano Menéndez já tinha vivido o suficiente —, mas do terror absoluto de ter falhado com uma menina que nem sequer era minha parente, mas que me salvara a vida com um gole de água suja.
Isadora me olhava do sofá. Minha filha. A menina dos meus olhos, a princesa a quem dei tudo para que não sofresse, e que acabou se tornando a arquiteta da nossa própria destruição. Ela estava pálida, o rímel borrado nas bochechas, parecendo mais uma criança assustada do que a mulher de vinte e oito anos que deveria ser.
“Pai…” ela sussurrou, com a voz embargada. “O que vamos fazer? Não temos meio milhão de euros em dinheiro vivo. As contas da empresa são auditadas; se eu sacar esse dinheiro, todos os alarmes de lavagem de dinheiro vão disparar. E minhas contas… minhas contas estão vazias.”
Olhei para ela e, pela primeira vez em anos, não vi decepção. Vi uma aliada em potencial. Se quiséssemos sobreviver a isso, eu precisava que Isadora parasse de se fazer de vítima e começasse a ser a leoa que sua mãe fora.
“Não vamos pagar, Isadora”, eu disse, com uma firmeza surpreendente na voz. “Porque se pagarmos hoje, amanhã vão exigir o dobro. É assim que esses parasitas agem. Eles sugam seu sangue até você secar e depois te jogam na sarjeta. Exatamente como você fez com a Celina.”
Isadora estremeceu como se eu a tivesse atingido, mas eu não desviei o olhar.
“Levante-se desse sofá”, ordenei. “Lave o rosto. E comporte-se como a filha de Aureliano Menéndez. Temos uma menininha lá em cima que pensa estar num castelo de conto de fadas. Se ela vir medo nos seus olhos, o mundo dela vai desmoronar. E eu não vou deixar isso acontecer.”
—Mas, pai, eles são perigosos. Eles sabem onde moramos.
“Nós também somos perigosos, filha. Eles só ainda não sabem disso. Ligue para Jenaro. Diga para ele trazer os rapazes. Os de confiança. Os da velha guarda.”
“Aos trabalhadores?”, perguntou ela, confusa.
“Eles não são apenas trabalhadores, Isadora. São homens cujos salários eu paguei durante trinta anos, a quem ajudei com hipotecas, a quem resgatei. Eles são lealdade. Algo que você e eu tínhamos esquecido.”
Enquanto Isadora corria para fazer a ligação, eu subi as escadas de dois em dois degraus. O silêncio na casa era opressivo, quebrado apenas pelo som da água respingando no banheiro de hóspedes.
Empurrei a porta delicadamente.
A cena que presenciei me despedaçou e me reconstruiu ao mesmo tempo. Naira estava na enorme banheira, cercada por montanhas de espuma branca. Apenas sua pequena cabeça castanha e seus imensos olhos, brilhando de felicidade, eram visíveis. Dalva estava ajoelhada ao lado dela, ensaboando delicadamente seus cabelos com ternura maternal.
“Tio Aureliano!” gritou Naira ao me ver, jogando um punhado de espuma para o ar. “Olha! Eu sou uma nuvem!”
Forcei o maior sorriso que consegui encontrar no meu repertório.
—Você é a nuvem mais bonita de Toledo, Naira. Você gosta de água quente?
“É tão agradável e quentinho! E tem cheiro de flores. Lá fora, a água está sempre fria e às vezes arde na garganta. Aqui não arde.”
Aproximei-me e sentei-me na borda da banheira, sem me importar em molhar as calças do meu terno. Toquei sua bochecha úmida. Estava limpa. Pela primeira vez em meses, aquela pele estava livre de poeira e sujeira.
—Naira, escuta. Hoje à noite, algumas pessoas virão à casa. Amigos meus. Homens grandes e fortes.
Seu sorriso vacilou por um instante. Seus instintos de sobrevivência nas ruas vieram à tona.
—Homens maus? Tipo aqueles que gritam no parque quando bebem vinho?
—Não, meu amor. Homens bons. Como Jenaro, aquele com a escavadeira. Eles virão… para brincar de guardas. Nós vamos proteger o castelo.
“Protegê-lo de quê?”, perguntou ele, sua inocência me atingindo como uma agulha.
“Dos dragões”, improvisei. “Mas não se preocupe. Eu sou o cavaleiro de armadura cinza. E ninguém passa por mim.”
Ela olhou para mim, estudando-me com aquela sabedoria ancestral que as crianças que sofreram possuem. Então, ela assentiu com a cabeça.
—Certo. Se você é o cavaleiro, eu sou a princesa que cura dragões para que eles possam ser bons.
-Negócio.
Desci as escadas no exato momento em que os faróis de três vans iluminaram a entrada de cascalho. Eram dez horas da noite.
Jenaro entrou primeiro, preenchendo o saguão com sua presença imponente. Atrás dele vinha Paco, “Caolho”, um carpinteiro de fôrmas que perdera um olho em um acidente vinte anos antes e para quem eu pagara a melhor prótese e mantivera na folha de pagamento; Luis, o eletricista, um homem silencioso que tudo via; e mais quatro. Homens com mãos como pás e rostos curtidos pelo sol castelhano. Não carregavam armas, apenas ferramentas: barras de ferro, chaves inglesas pesadas e, acima de tudo, lealdade inabalável.
“Chefe”, disse Jenaro, tirando o boné. “A senhorita Isadora disse que estamos tendo problemas com ‘cobranças indevidas’.”
—Pior do que isso, Jenaro. Temos ameaças contra uma garota. Contra Naira.
A atmosfera no saguão mudou instantaneamente. A temperatura caiu dez graus. Aqueles homens tinham conhecido Naira naquela mesma tarde. Tinham-na visto correr, rir, trazer-lhes água. Para um homem do campo, uma menina é sagrada. Tocar numa menina é assinar a própria sentença de morte.
“Quem são eles?” perguntou Paco, segurando uma chave de cano na mão.
—Emprestadores online. Pequenos vigaristas com tecnologia cara. Eles querem entrar no mercado. Eles querem nos assustar.
“Que venham, então”, resmungou Jenaro. “Vamos murar as entradas laterais. Luis, verifique o perímetro e bloqueie todos os acessos, exceto o principal. Paco, você e os meninos vão para o jardim. Se uma folha se mexer, quero saber.”
Naquela noite, minha mansão deixou de ser um lar perfeito e se transformou em uma fortaleza. Isadora preparou café e lanches para os homens. Eu a observei servi-los humildemente, ouvindo seus “obrigada, senhorita” com a cabeça baixa. Ela estava aprendendo. A lição estava sendo aprendida da maneira mais difícil, mas estava sendo aprendida.
Às três da manhã, estávamos todos no salão principal, com as luzes apagadas para podermos ver o exterior sem sermos vistos. Naira dormia no andar de cima com Dalva, sem saber que, no andar de baixo, oito homens vigiavam seu sono, prontos para lutar por ela.
Sentei-me ao lado de Isadora no chão, encostando as costas no sofá.
“Papai…” ela sussurrou na escuridão. “Você acha que a mamãe nos perdoaria?”
A pergunta me pegou de surpresa. Minha esposa, Elena, havia falecido dez anos atrás. Ela era a personificação da bondade.
—Sua mãe… sua mãe teria acolhido Celina. Ela a teria ajudado. Ela não a teria rejeitado.
—Eu sei. É por isso que dói tanto. Quando vi a Celina naquele dia no escritório… ela estava tão magra, tão desesperada. E eu senti… inveja.
“Inveja?” Olhei para ela, incrédula. “De quê? Você tinha tudo.”
“Ela tinha coisas, pai. Mas ela tinha uma luz. Ela estava grávida e, mesmo sendo pobre, brilhava. Ela era feliz com o bebê. Eu me sentia vazio, sozinho nesta casa enorme, com você sempre viajando. Eu queria apagar a luz dela para não me sentir tão no escuro. E veja o que eu fiz. Eu apaguei a vida dela.”
“Não podemos ressuscitar os mortos, Isadora. Mas podemos cuidar dos vivos. Naira é sua penitência, mas também sua redenção. Se você a salvar, você se salva.”
O amanhecer chegou sem incidentes, mas com uma tensão palpável. O prazo final era meio-dia.
Às onze da manhã, meu telefone tocou novamente. Era ele. Marco Antonio, o cobrador de dívidas.
—Bom dia, Dom Aureliano. Espero que já tenha o dinheiro. O tempo está se esgotando.
“Eu tenho”, menti, com a voz cansada e derrotada. “Mas não em dinheiro vivo. Tenho joias. Relógios. Títulos ao portador. Vale mais de meio milhão.”
Houve uma pausa do outro lado da linha. A ganância é previsível.
-Onde?
—No antigo posto de gasolina da rodovia regional 402. Aquele abandonado. Ao meio-dia. Vou sozinho.
“Se virmos um único policial, vamos direto para a casa dele. E acredite, os muros deles não são tão altos quanto eles pensam.”
—Eu irei sozinha. Quero acabar com isso.
Desliguei o telefone. Jenaro estava me olhando, com os braços cruzados.
—Tem certeza de que quer fazer isso, chefe? Podemos chamar a Guarda Civil.
“Não, Jenaro. Se chamarmos a Guarda Civil, eles farão um boletim de ocorrência, virão, anotarão tudo e irão embora. E essas pessoas ficarão esperando. Elas atacarão quando não estivermos olhando. Preciso que elas entendam a mensagem na linguagem delas. A linguagem do medo.”
—Eu vou com você — disse Jenaro.
—Não. Fique aqui. Você é a última linha de defesa da Naira. Se eu não voltar… leve a garota para Portugal. Eu tenho uma conta lá em nome da minha irmã. Use-a.
Jenaro assentiu com a cabeça, com os olhos marejados.
—Cuidado, Dom Aureliano. Aquelas pessoas não têm honra.
Peguei a maleta. Dentro não havia dinheiro, nem joias. Havia tijolos. Literalmente. Pedaços de tijolo da minha própria construção, embrulhados em jornal. Eram pesados o suficiente para parecerem reais.
Entrei no meu carro e dirigi em direção ao posto de gasolina abandonado. O sol estava alto, exatamente como no dia em que encontrei Naira. A paisagem era a mesma: seca, árida, implacável. Mas eu não era mais o mesmo homem.
Cheguei cinco minutos antes do meio-dia. O posto de gasolina era uma estrutura de ferrugem e concreto no meio do nada. Estacionei e esperei.
Exatamente ao meio-dia, um Audi preto com vidros fumê surgiu no horizonte, levantando uma nuvem de poeira. Parou a dez metros de mim.
Três homens saíram. O do meio, vestindo um terno barato e óculos escuros, devia ser Marco Antônio. Os outros dois eram fortes como touro, brutamontes de academia com caras nada amigáveis.
Saí do carro com a pasta.
“Dom Aureliano”, disse Marco Antonio, com um sorriso de tubarão. “Pontual. Gostei disso.”
“Aqui está”, eu disse, erguendo a pasta. “Agora, quero sua palavra. Acabou. Perdoe a dívida da minha filha e esqueça de nós.”
Marco Antonio riu. Era uma risada seca e desagradável.
—Nossa… que gentileza. Primeiro, me dê a maleta.
Um dos gorilas se aproximou. Entreguei-lhe a pasta. Ele a abriu ali mesmo.
O silêncio que se seguiu ao ver os tijolos quebrados foi ensurdecedor. O gorila lançou um olhar furioso para o seu chefe. Marco Antonio ficou vermelho de raiva.
“Que diabos é isso?”, gritou ele. “Você acha que é tão esperto, velho?”
“Acho que sou um operário da construção civil”, eu disse, mantendo a calma. “Trabalho com tijolos. E é só isso que você vai conseguir de mim.”
“Vou te matar aqui mesmo”, rosnou Marco Antonio, sacando uma pistola da cintura.
“Faça isso”, eu disse, abrindo os braços. “Mate-me. Mas primeiro, olhe ao seu redor.”
Marco Antonio hesitou. Olhou para os campos de milho secos que rodeavam o posto de gasolina.
Em meio aos altos juncos, figuras começaram a surgir. Não eram policiais. Eram meus homens. Mas não eram os seis que estavam em casa. Eram cinquenta.
Eu havia feito mais de uma ligação. Liguei para todos os subempreiteiros da região. Encanadores, carpinteiros, soldadores, motoristas de caminhão. Homens que eu empregava. Homens que respeitavam Dom Aureliano.
Eles permaneceram ali, em silêncio, cercando o posto de gasolina. Cinquenta homens com barras de ferro, pás e correntes. Cinquenta trabalhadores furiosos sob o sol escaldante.
Marco Antonio empalideceu. Ele baixou ligeiramente a arma.
“O que é isto?”, gaguejou ele.
“Isto é Castela, filho”, eu disse, dando um passo à frente. “E aqui, quando se mexe com uma família, mexe com a família de todos. Essa arma tem, o quê? Quinze balas? Há cinquenta pais ali. Faça as contas.”
Marco Antonio olhou para seus gorilas. Eles recuaram. Sabiam que a batalha estava perdida. Não eram soldados, eram valentões. E valentões ficam apavorados quando sua vítima se levanta em grupo.
“Isso não acabou”, sibilou Marco Antonio, guardando a pistola no coldre e recuando em direção ao carro. “Você tem recursos, velho. Mas nós temos tecnologia. E sabemos coisas que você não sabe.”
“Saia daqui”, gritei. “E se eu vir seu carro perto da minha casa de novo, juro que vamos enterrá-lo sob os alicerces do próximo prédio que eu construir. E ninguém nunca vai te encontrar.”
Eles entraram no Audi e derraparam ao arrancar, fugindo como ratos.
Meus homens começaram a vibrar, erguendo suas ferramentas no ar. Eu me senti eufórico, invencível. Eu havia vencido.
Voltei para casa dirigindo com o coração leve. Pensei que tudo tinha acabado.
Mas quando entrei na sala, o sorriso congelou no meu rosto.
Isadora chorava novamente, mas desta vez de puro terror. Jenaro estava no chão, sangrando de uma sobrancelha, tentando se levantar. E no centro da sala, sentada com dignidade imperial na minha poltrona favorita, estava uma velha vestida de preto sombrio, com uma bengala de madeira na mão e um olhar capaz de cortar aço.
Ao lado dela, Naira permaneceu sentada, imóvel, segurando o pulso.
A velha olhou para mim. Seus olhos eram idênticos aos de Naira.
“Então você é o ‘cavalheiro'”, disse a velha com voz rouca. “Você está atrasado. Os monstros já entraram.”
O verdadeiro perigo não estava lá fora, no posto de gasolina. O verdadeiro perigo acabara de entrar pela porta da frente, trazendo consigo os fantasmas do passado que eu pensava estarem enterrados.
PARTE 3: BLOOD REIVINDICA SUA DÍVIDA
O silêncio na sala era denso, quase insuportável. A euforia da minha vitória no posto de gasolina havia evaporado como água no deserto. Olhei para Jenaro, meu fiel capataz, que limpava o sangue da sobrancelha com um lenço sujo.
“Desculpe, chefe”, murmurou ele, constrangido. “Ela entrou como um fantasma. Quando nos demos conta, já estava lá dentro. E… bem, ela é uma senhora idosa. Não podíamos simplesmente arrastá-la para fora.”
A velha bateu com a bengala no chão, um som seco e autoritário que ecoou no mármore.
—Eu não sou uma “velha senhora”. Eu sou Benedita Santos. E vim buscar o que é meu.
Naira olhou para mim, seus olhos escuros alternando entre a velha e eu. Havia medo em seu olhar, mas também curiosidade.
“Tio Aureliano…” disse a menina em um sussurro. “Esta senhora diz que é minha bisavó. Ela diz que minha mãe era neta dela.”
Aproximei-me lentamente, avaliando a intrusa. Benedita Santos era pequena, curvada pela idade e pelo trabalho árduo, a pele bronzeada como couro velho e as mãos deformadas pela artrite. Mas emanava uma força primordial. Vestia-se de luto profundo, o luto das aldeias espanholas que dura uma vida inteira.
“Sra. Benedita”, eu disse, tentando retomar o controle da minha casa. “Se a senhora é quem diz ser, seja bem-vinda. Mas entrar assim, agredindo meus funcionários…”
“Seus funcionários tentaram me impedir de ver minha própria filha”, interrompeu ela, levantando-se com dificuldade, mas com orgulho. “Estou procurando por essa menina há meses. Desde que minha neta Celina morreu sozinha naquele hospital de caridade, vasculhei todos os orfanatos, todas as igrejas, todos os becos desta província maldita. E agora me dizem que ela está aqui, na casa dos assassinos de sua mãe.”
A palavra “assassinos” pairava no ar, pesada e tóxica. Isadora soluçava no sofá.
“Nós não a matamos…” minha filha tentou se defender.
Benedita virou a cabeça em sua direção tão rápido quanto uma víbora.
“Você!” Sua voz subiu uma oitava, carregada de veneno. “Eu te reconheço. Você é a garota rica. Aquela que brincava de boneca com Celina no orfanato de San José quando tinha seis anos.”
Eu paralisei. Olhei para Isadora.
“Do que você está falando?”, perguntei, indagando.
Isadora encolheu-se, curvando-se em forma de bola.
—Eu… eu fiquei em um orfanato por alguns meses, pai. Antes de você e a mamãe me adotarem. Você não se lembra? Eu tinha cinco anos.
Sim, eu me lembrei. Elena e eu adotamos Isadora porque não podíamos ter filhos biológicos. Sabíamos que ela vinha de uma instituição, mas eu nunca imaginei que…
“Você e Celina eram inseparáveis”, continuou Benedita, implacavelmente. “Dormiam no mesmo beliche. Prometeram ser irmãs para sempre. E quando aquelas pessoas bondosas te adotaram e deixaram Celina para trás, ela chorou por anos. Anos esperando que você voltasse para buscá-la. E quando o destino finalmente as uniu novamente, quando ela veio pedir um emprego na sua empresa… você a reconheceu, não é?”
Isadora assentiu com a cabeça, deixando as lágrimas caírem livremente.
—Eu a reconheci.
“E o que você fez?”, rugiu a velha. “Você a abraçou? Você a ajudou? Não. Você teve vergonha dela. Você teve vergonha do seu passado como uma menina pobre. E quando ela engravidou, você a jogou fora como uma cadela para apagar a sua própria história. Você a deixou morrer de tristeza e fome!”
Benedita avançou em direção a Isadora, erguendo sua bengala, mas eu me coloquei à sua frente.
“Chega!” gritei. “O que minha filha fez é imperdoável, senhora. E acredite, ela vai pagar por isso pelo resto da vida com a consciência. Mas agora, o que importa é Naira.”
Benedita baixou a bengala, tremendo de raiva. Ela se virou para a garota.
—Vamos, Naira. Pegue suas coisas. Estamos indo embora. Você não vai ficar com essas pessoas nem mais um minuto.
Naira se levantou, agarrando o pulso. Olhou para Benedita, uma estranha que reivindicava seu sangue, e depois olhou para mim, o homem que prometera ser seu cavaleiro. E olhou para Isadora, a mulher que chorava inconsolavelmente.
“Para onde vamos?”, perguntou Naira.
—Para casa, filha. Para a minha casa. É pequena e o telhado tem goteiras, mas lá existe amor verdadeiro, não comprado com dinheiro sujo.
“Mas…” Naira hesitou. “O tio Aureliano me deu um banho de espuma. E me comprou sapatos. E me disse que me protegeria dos dragões.”
“São os dragões, garota”, cuspiu Benedita.
Naquele instante, as luzes da casa piscaram. Uma vez. Duas vezes. E então se apagaram.
A escuridão nos envolveu, mal rompida pela luz do luar que entrava pelas janelas.
—Jenaro—eu disse, alerta—. O que há de errado com o gerador?
—Não sei, chefe. Eu devia ter pulado.
Então ouvimos o barulho. Uma janela quebrando nos fundos da casa. Depois outra. E o som inconfundível de um alarme tentando disparar, mas sendo abruptamente silenciado.
Marco Antonio não havia desistido. Minha demonstração de força no posto de gasolina só serviu a um propósito: fazê-los parar de fingir que eram agiotas e começar a fingir que eram assassinos de aluguel. Eles não estavam lá para cobrar. Estavam lá para se vingar.
“No chão!” gritei, agarrando Naira e jogando-a atrás do grande sofá de couro.
Benedita ficou ali parada, confusa na penumbra.
—O que está acontecendo? É mais um dos seus truques?
“Abaixa-te, droga!” Agarrei-lhe o braço e forcei-a a agachar-se ao nosso lado.
“Eles estão lá dentro”, sussurrou Jenaro, que havia rastejado até nós. Ele tinha uma enorme chave inglesa na mão. “Paco e Luis não estão respondendo aos rádios.”
Um medo gélido e sufocante percorreu minha espinha. Eles haviam neutralizado meus homens lá fora. Eram profissionais.
“Isadora”, eu disse, segurando minha filha pelos ombros. “Escute. Leve Naira e Benedita. Leve-as para o porão. Feche a porta blindada e não a abra até que eu lhe diga a senha.”
—Qual é a senha?
—“Girassol”. A senha é “Girassol”.
“E você?” perguntou Isadora, tremendo.
—Jenaro e eu vamos conversar com esses senhores.
Vi Isadora pegar Naira no colo. A menina não chorava. Estava naquele estado de choque silencioso que aprendera nas ruas. Benedita as seguiu a contragosto, finalmente entendendo que a ameaça era real.
Quando eles desapareceram pelo corredor da cozinha em direção ao porão, Jenaro e eu ficamos sozinhos na sala de estar escura.
“Quantos você acha que são?”, sussurrou Jenaro.
—São muitas. E tudo o que temos são ferramentas.
“Chega”, disse Jenaro, e vi seus dentes brilharem num sorriso selvagem. “Esta casa também é minha agora, chefe.”
Vimos as sombras se movendo pelo saguão. Eram três. Usavam balaclavas e carregavam tacos de beisebol, e um deles carregava algo que parecia uma espingarda de cano serrado.
“Menendez!” gritou a voz de Marco Antonio do lado de fora. “Eu sei que você está aí. E sei que a garota está aí. Saia ou vamos incendiar a casa com todo mundo dentro!”
Eu não esperei. Conheço minha casa. Conheço cada tábua do assoalho que range.
—Agora— sussurrei.
Jenaro atirou um vaso de porcelana em direção ao canto oposto da sala. O barulho chamou a atenção dos intrusos, que apontaram suas lanternas naquela direção.
Aproveitando a distração, saí de trás do sofá e me lancei sobre o mais próximo. Não sou lutador, sou um velho homem de negócios, mas a adrenalina é uma droga poderosa. Acertei-o no joelho com um castiçal de prata maciça. Ouvi o osso estalar e seu grito.
Jenaro foi mais direto. Ele avançou como um touro contra o cara com a espingarda. A arma disparou, lançando um pedaço de gesso do teto, e o estrondo nos ensurdeceu por um instante. Jenaro acertou o ombro do cara com a chave inglesa, e ele caiu gritando.
Mas ainda havia um terceiro. E Marco Antônio estava entrando pela porta arrombada.
O terceiro me agarrou pelo pescoço e me jogou contra a parede. Vi estrelas. Senti o metal frio de uma faca contra minha garganta.
“Fim de jogo, vovô”, ele sibilou.
“Deixem-no ir!” A voz veio da entrada da cozinha.
Não era Isadora. Não era Jenaro.
Era Benedita.
A velha senhora tinha voltado. E não estava sozinha. Em suas mãos nodosas, ela segurava uma velha espingarda de caça de dois canos, uma relíquia que eu guardava em uma vitrine decorativa no corredor e que eu pensava estar descarregada. Mas Benedita, uma mulher do campo, deve ter encontrado os cartuchos na gaveta de baixo em segundos.
Ele mirou com uma mão surpreendentemente firme, apesar de estar na casa dos setenta anos.
“Na minha aldeia caçamos javalis”, disse Benedita com uma calma aterradora. “E você é maior e mais lento que um javali. Deixe o pai do ladrão ir embora.”
O bandido hesitou. Um segundo de hesitação é uma eternidade.
Aproveitei a oportunidade para lhe dar uma joelhada na virilha. Ele soltou a joelhada, curvando-se de dor. Benedita atirou no teto, não para matar, mas para provar que a arma funcionava. A explosão foi apocalíptica naquele espaço fechado.
“Saiam daqui!” gritou a velha, recarregando (só Deus sabe como ela sabia fazer isso tão rápido) o segundo canhão.
Marco Antonio, ao ver seus homens caídos e uma velha enlouquecida com uma espingarda, tomou a decisão mais sábia de sua miserável vida. Ele fugiu.
Quando o som dos pneus cantando se dissipou, Jenaro acendeu uma lanterna. A sala de estar era um campo de batalha. Móveis quebrados, vidros estilhaçados, sangue no tapete persa.
Eu me deixei cair numa poltrona, ofegante. Benedita abaixou a espingarda e encostou-se na parede, parecendo de repente muito velha e muito cansada.
Isadora saiu do esconderijo com Naira. A menina correu em minha direção e me abraçou pelas pernas.
—Tio Aureliano, você derrotou os dragões?
Acariciei sua cabeça, com as mãos tremendo incontrolavelmente.
—Sim, pequenina. Mas desta vez… desta vez uma boa bruxa me ajudou.
Olhei para Benedita. Ela encontrou meu olhar. Havia ódio em seus olhos, sim. Mas havia também algo novo. Respeito. O respeito que nasce nas trincheiras quando dois inimigos lutam contra um mal maior.
“Não pense que isso muda alguma coisa”, disse ela, recuperando o fôlego. “Eu ainda acho que você é culpado. Eu ainda quero levar a garota.”
“Eu sei”, eu disse, levantando-me com dor. “Mas você viu o que tem lá fora, Benedita. Aquelas pessoas não vão parar. Se você levar Naira para sua casa, eles vão até lá. E sua porta não é reforçada. Aqui… aqui temos uma chance.”
Benedita olhou para Naira, que se agarrava a Isadora. Isadora chorava em silêncio, segurando a menina como se ela fosse sua tábua de salvação.
—Aquela mulher… a filha dela… —disse Benedita, apontando para Isadora—. Ela pegou o pão da minha neta.
“Eu sei”, eu disse. “Mas hoje, Isadora se colocou na frente de Naira quando elas entraram. Ela estava preparada para morrer por ela.”
Benedita permaneceu em silêncio por um longo tempo.
“Vou ficar”, declarou ela finalmente. “Vou ficar até que esses demônios estejam na cadeia ou a dois metros debaixo da terra. Dormirei no chão se for preciso, mas não vou abandonar minha bisneta.”
—Ela vai dormir no quarto de hóspedes, senhora. O melhor da casa.
Naquela noite, ninguém dormiu. Mas, pela primeira vez, a frente estava unida. Tínhamos a força bruta dos meus trabalhadores, o dinheiro (embora congelado) da minha empresa e, agora, a ferocidade ancestral de uma avó espanhola que não tinha mais nada a perder.
No entanto, eu sabia que não era suficiente. Marco Antônio voltaria com mais homens. Precisávamos atacar. Precisávamos acabar com isso de uma vez por todas. E para isso, eu precisava encontrar a peça que faltava nessa história.
Enquanto Naira dormia no colo de sua bisavó, aproximei-me de Benedita com uma xícara de café quente.
—Sra. Benedita… Preciso que me diga a verdade sobre o pai de Naira.
A velha senhora ergueu os olhos da xícara fumegante.
—Por quê? Aquele homem não sabe de nada.
“Bem, ele vai ter que descobrir. Porque para vencer esta guerra, preciso de um exército. E não há soldado mais perigoso do que um pai que descobre que sua filha está em perigo.”
Benedita suspirou, e nesse suspiro, parte de sua aspereza desapareceu.
—O nome dele é Carlos. Carlos Montero. Ele era engenheiro. Trabalhou para você, Dom Aureliano.
O nome me atingiu como um soco no estômago. Carlos. Meu melhor engenheiro civil. O homem mais honesto que já conheci. Aquele que, de repente, partiu há cinco anos dizendo estar com o coração partido.
“Meu Deus…” murmurei. “O Pai está mais perto do que pensamos.”
PARTE 4: OS FUNDAMENTOS DE UMA NOVA VIDA
O dia amanheceu cinzento, um daqueles que em Castela prenunciam uma tempestade. Mas a verdadeira tempestade estava dentro do meu escritório. Eu tinha o telefone na mão e o número de Carlos Montero na tela. Não falava com ele há cinco anos.
Benedita sentou-se à minha frente, observando atentamente. Isadora estava no jardim com Naira e Jenaro, que não se afastaram delas por um segundo. A casa parecia silenciosa, mas era o silêncio tenso de um campo minado.
Eu verifiquei.
—Alô? —A voz de Carlos soava exatamente como eu me lembrava: calma, profunda, profissional.
—Carlos. Meu nome é Aureliano Menéndez.
Do outro lado da linha, houve silêncio.
—Dom Aureliano. Que surpresa. Faz muito tempo. Aconteceu alguma coisa com os planos do viaduto? Sei que os terminei antes de partir.
—Não se trata do viaduto, Carlos. Trata-se de Celina.
Ouvi sua respiração falhar. O som de um homem prendendo a respiração diante do fantasma do seu passado.
“Celina?” Sua voz falhou. “Você sabe onde ela está? Estou procurando por ela há anos. Ela desapareceu sem deixar rastro. Fui até a aldeia dela, perguntei aos vizinhos… ninguém me disse nada.”
—Carlos, você tem que vir à minha casa. Agora.
Ela está lá? Ela está bem?
Olhei para Benedita. A velha enxugou uma lágrima furtiva com a ponta do xale.
—Não, Carlos. Celina não está aqui. Mas… tem alguém que você precisa conhecer. Alguém que tem os olhos dela.
Não precisei dizer mais nada. Ele desligou e disse que chegaria em uma hora. Ele morava em Madri agora, mas viria de avião pela rodovia.
Enquanto esperávamos, elaborei o plano. Não podíamos esperar que Marco Antônio atacasse novamente. Tínhamos que atraí-lo para uma armadilha final. Uma da qual ele não pudesse escapar.
Liguei para o Comissário Velasco. Não para a central telefônica, mas para o celular pessoal dele. Velasco e eu tínhamos estudado juntos. Eu havia construído a casa de praia para ele a preço de custo. Ele me devia uma.
—Velasco, preciso de um favor. Não, preciso de um milagre. Tenho provas de extorsão, invasão de propriedade e agressão. Mas preciso pegá-los em flagrante. Preciso que você me dê cobertura extraoficial.
—Aurélio, isso é muito arriscado. Se der errado…
“Se isso der errado, estou morto de qualquer maneira. Escute, vou invocá-los. Vou dizer que me rendo. Que lhes entregarei as escrituras da empresa.”
— Você está louco?
—É a isca, Pepe. A maior isca do mundo. Eles não vão conseguir resistir.
Carlos chegou em cinquenta minutos. Entrou na sala com o rosto pálido e perturbado, procurando desesperadamente. Quando viu Benedita, parou.
“Dona Benedita?”, perguntou ele, incrédulo.
—Olá, Carlos —disse a velha senhora gentilmente—. Você demorou muito.
—Eu… eu a procurei. Juro. Fui até a casa, mas eles não moravam mais lá.
“Fomos despejados, filho. Tivemos que ir para a cidade. E lá… lá perdemos a batalha.”
—Celina?
—Ele morreu, Carlos.
Vi o homem desabar. Ele caiu de joelhos, cobrindo o rosto. Um grito silencioso e terrível, daquele tipo que faz os ombros tremerem.
Foi então que a porta do jardim se abriu. Naira entrou correndo, com as mãos cobertas de terra.
—Tio Aureliano! Olha! Encontramos uma minhoca gigante!
Carlos ergueu a cabeça. Viu a garota. E o tempo parou.
Naira parou abruptamente ao ver a estranha chorando no chão. Com a empatia incomum que possuía, aproximou-se lentamente. Colocou a minhoca (felizmente) num vaso de flores e enxugou as mãos no vestido.
Ela se aproximou de Carlos e colocou uma pequena mão em seu ombro.
—Não chore, senhor. O senhor está ferido?
Carlos olhou para ela como se estivesse vendo uma aparição divina. Seus olhos percorreram o rosto dela, reconhecendo cada traço. O nariz de Celina. O queixo de Celina. Mas também… suas próprias orelhas. Sua própria testa.
“Meu Deus…” Carlos sussurrou. “Meu Deus.”
“Naira”, eu disse baixinho. “Este é o Carlos. Ele era… ele era um grande amigo da sua mãe.”
Os olhos de Naira se arregalaram em choque.
—Você conhecia minha mãe? Sabe onde está o colar de estrela dela? Ela perdeu e chorou muito.
Carlos soluçava, um riso misturado com lágrimas. Ele enfiou a mão no bolso do paletó, tirou uma carteira velha e, de um compartimento secreto, desvendou-se de uma corrente de prata barata com estrelinhas.
—Encontrei-o no canteiro de obras no dia em que ele partiu—, disse Carlos, com a voz trêmula. —Carreguei-o comigo durante cinco anos, na esperança de o devolver a ele.
Naira tocou no colar, fascinada.
—É seu!
Carlos olhou para a garota, depois para mim e, em seguida, para Benedita.
-É…?
“Ela é sua, Carlos”, confirmou Benedita. “Celina descobriu depois de ser demitida. Ela queria te contar, mas era orgulhosa demais. Ela achou que você sabia da demissão e que não tinha feito nada. Ela achou que você não a amava.”
“Eu a amava”, disse Carlos, devastado. “Saí da empresa porque não conseguia suportar estar lá sem ela.”
Carlos abraçou Naira. Foi um abraço desajeitado, desesperado, repleto do amor acumulado durante cinco anos de vazio. Naira, surpresa a princípio, relaxou e retribuiu o abraço.
“Você cheira a menta”, disse ela. “Como o chiclete que a mamãe gostava.”
Tínhamos o exército inteiro. Agora era hora de vencer a guerra.
O plano era simples e suicida. Combinei de me encontrar com Marco Antonio no canteiro de obras do meu novo condomínio, nos arredores da cidade. Um lugar labiríntico, cheio de concreto, vigas de aço e sombras. Disse a ele que lhe entregaria as escrituras para transferir a propriedade da minha empresa ali, longe de testemunhas, em troca de ele deixar minha família em paz.
Ele concordou. A ganância é sempre cega.
Cheguei às seis da tarde. O sol começava a se pôr, alongando as sombras dos guindastes como dedos gigantes. Eu tinha um microfone preso ao peito, conectado diretamente à van do Comissário Velasco, estacionada a um quilômetro de distância.
Mas meu verdadeiro seguro não era a polícia. Era a minha fundação.
Marco Antonio chegou com dois carros. Seis homens. Estavam armados até os dentes. Sentiam-se vencedores.
—Dom Aureliano—disse ele, caminhando pela estrutura de concreto aparente do que seria o estacionamento subterrâneo—. Que lugar poético para falir.
“Foi aqui que tudo começou”, eu disse, colocando a pasta com os documentos falsificados sobre um palete de tijolos. “E é aqui que tudo termina. Assine e vá embora.”
Marco Antonio pegou a pasta. Ele a folheou. E sorriu.
—Perfeito. Agora, de joelhos.
-Que?
—Não vamos deixar nenhuma ponta solta, velho. Você assina, “comete suicídio” por causa da pressão financeira e nós ficamos com tudo. Inclusive com a garota. Ela vende bem em certos mercados.
Senti uma fúria gélida, mas também alívio. Eu tinha dito aquilo. Estava gravado.
“Tem certeza de que quer fazer isso, Marco?”, perguntei. “Você está no meu território.”
—Sua terra agora é minha terra.
Ele fez um sinal para seus homens. Eles ergueram suas armas.
—Agora! — gritei.
Nenhum policial apareceu. Ainda não.
O que aconteceu foi que as luzes de construção, os holofotes de halogênio de mil watts que usamos para trabalhar à noite, acenderam-se repentinamente, todos ao mesmo tempo, cegando-os.
E então, o som. O rugido dos motores a diesel.
Das sombras do túnel emergiram três escavadeiras gigantes e dois rolos compressores. Conduzidas por Jenaro, Paco e os outros, as máquinas avançaram como bestas pré-históricas, bloqueando as saídas.
“Que diabos…!” gritou Marco Antonio, tapando os olhos.
Do andaime superior, sacos de cimento começaram a cair como chuva. Carlos estava lá em cima, coordenando a operação. Os sacos estouraram ao atingir o chão, criando uma nuvem sufocante de poeira branca que lhe bloqueou a visão.
“Polícia! Larguem as armas!” A voz de Velasco ecoou pelos megafones.
Os homens de Marco Antonio, cegos, tossindo, cercados por máquinas pesadas e com os GEOs descendo de rapel dos andares superiores, renderam-se em segundos.
Marco Antonio tentou correr em direção a uma saída lateral. Mas Carlos estava lá.
Carlos, o engenheiro quieto, saltou do primeiro andar em cima dele. Rolaram pelo chão em meio à poeira de cimento. Carlos tinha cinco anos de raiva reprimida. Cinco anos perdendo a infância da filha. Deu-lhe um soco, acho que quebrou o nariz dele, e depois outro.
Tive que separá-los antes que ele o matasse.
“Carlos! Pare com isso!” gritei, agarrando-o. “Chega! Acabou! Naira precisa de você fora da cadeia!”
Carlos parou, ofegante, com os nós dos dedos sangrando. Ele olhou para o mafioso que choramingava no chão.
“Se você chegar perto da minha filha de novo”, Carlos sussurrou no ouvido de Marco Antonio, “eu vou te envolver em concreto. E eu sei como misturá-lo para que só endureça quando você parar de respirar.”
A polícia os levou embora. Velasco piscou para mim enquanto colocavam Marco Antonio na viatura.
—Belo show de luzes, Aureliano. Você vai levar uma multa por operar máquinas pesadas fora do horário permitido.
—Passe para mim. Pago com prazer.
Três meses depois.
Meu jardim não é mais minimalista. É um caos maravilhoso de girassóis. Naira diz que os girassóis se voltam para o sol e que devemos sempre procurar as coisas boas.
Estamos sentados na varanda. É domingo e tem paella.
Isadora está arrumando a mesa. Ela mudou. Não usa mais roupas de grife nem fica checando o celular a cada dois segundos. Ela trabalha na fundação que criamos: a Fundação Celina Santos. Ajudamos mães solteiras a encontrar emprego e moradia. Isadora trabalha lá oito horas por dia e, à noite, estuda Serviço Social. Ela não vai apagar o passado, mas está construindo um futuro.
Benedita mora na casa de hóspedes do jardim. Ela diz que prefere sua independência, mas a verdade é que gosta de garantir que Jenaro faça a poda das roseiras corretamente. Eles se tornaram amigos inseparáveis; discutem sobre futebol e se devem ou não incluir cebola na tortilla espanhola.
E o Carlos… O Carlos vem todo fim de semana. Ele está procurando uma casa em Toledo para se mudar para perto.
Olho para a grama. Naira está lá, correndo com uma pipa. Carlos corre atrás dela, fazendo palhaçadas, deixando-a ganhar. A risada da menina é o som mais lindo que já ouvi. Melhor que qualquer sinfonia, melhor que o som do dinheiro.
Naira para e acena para mim.
“Vovô Aureliano!” ele grita. “Olha como ele voa alto!”
Vovô. Ele me promoveu de novo. De senhor a tio, de tio a vovô.
Olho para o meu pulso. Não estou mais usando o Rolex de ouro. Vendi e doei o dinheiro para a fundação. Agora uso um relógio de plástico rosa que a Naira “comprou” para mim com a economia que tinha guardado no cofrinho. Ela diz que ele marca a hora da felicidade.
Dou um gole de vinho e sorrio. Os abutres se foram. E em seu lugar, deixaram-me uma família. Uma família estranha, despedaçada e remendada, feita de fragmentos de culpa, perdão e amor. Mas é a minha família. E desta vez, não os decepcionarei.
FIM