Com costelas quebradas e a alma por um fio, enviei uma mensagem desesperada para o número errado: não era para o meu irmão, mas para o homem mais perigoso de Madrid, e naquela noite a minha vida mudou para sempre.

PARTE 1

O som de uma costela humana quebrando é algo que você nunca esquece. É um som inconfundível, visceral. Não é o estalo limpo e seco de um galho quebrando sob os pés em uma floresta de outono. Não. É um estalo úmido e abafado, abafado pela carne e pelos músculos, que vibra profundamente dentro do próprio torso como uma onda de choque de horror. Eu, Eva Velasco, enfermeira de profissão, conhecia esse som teoricamente; eu o havia estudado em livros didáticos e o ouvido em salas de emergência caóticas. Mas ouvi-lo vindo do meu próprio corpo, no silêncio sepulcral da minha cozinha no centro de Madri, foi uma experiência que reescreveu minha definição de medo.

Ouvi o som uma fração de segundo antes da dor me atingir. Era como se meu cérebro precisasse daquele instante para processar a violência do que acabara de acontecer. Então, com um solavanco violento que parecia arrancar minha alma, o ar saiu dos meus pulmões num sibilo agonizante. Fiquei impossibilitado de inspirar novamente. O oxigênio foi instantaneamente substituído por uma agonia lancinante, um fogo líquido irradiando do meu lado esquerdo e consumindo cada nervo do meu corpo.

Meus joelhos cederam e eu desabei no chão frio e azulejado da cozinha. Ofeguei, debatendo-me como um peixe fora d’água, lutando por um ar que meu corpo se recusava a aceitar. Minha visão se encheu de borrões negros que dançavam, ameaçando me engolir na inconsciência, e o gosto metálico de sangue invadiu minha boca.

“Veja só o que você me fez fazer, Eva”, disse Marcos.

Sua voz era calma, quase clínica. Talvez essa fosse a coisa mais assustadora em Marcos Torres. Ele não gritava. Não perdia a paciência de forma ruidosa e caótica como os abusadores que vemos em filmes para a televisão. Marcos era um detetive da Polícia Nacional de Madri, um homem treinado para controlar situações, um homem que sabia exatamente como infligir a máxima dor sem deixar marcas visíveis que pudessem incriminá-lo em um exame superficial. Ele era a lei e, em nosso apartamento, era juiz e executor.

Esta noite, porém, algo se quebrou nele, além dos meus ossos. Ele havia perdido aquela frieza e precisão. Golpeara com muita força, com muita fúria reprimida.

Do chão, agarrando meu lado com as duas mãos numa tentativa inútil de conter a dor excruciante, olhei para ele. Incapaz de falar, incapaz de me mover. Cada respiração superficial era uma tortura, como se mil facas enferrujadas se retorcessem dentro da minha caixa torácica a cada leve movimento do meu diafragma.

Ele estava de pé sobre mim, ajustando calmamente os botões de punho de sua camisa impecável. Olhou para mim com um toque de decepção em seus olhos frios, como se eu fosse uma mancha de vinho tinto em um tapete persa caro, e não a mulher com quem ele havia compartilhado sua vida e sua cama nos últimos dois anos, não a mulher a quem ele havia prometido amar e proteger.

“Preciso ir à delegacia. O turno da noite está uma bagunça”, disse Marcos, passando por cima das minhas pernas encolhidas sem sequer me tocar, como se eu fosse um obstáculo inanimado. “Limpe essa bagunça. E Eva… se você não estiver na cama, apresentável e calma, quando eu voltar, teremos que terminar esta conversa. E garanto que você não vai gostar do final.”

Ele caminhou até a entrada, pegou as chaves e o teclado numérico do console. Ouvi a pesada porta de carvalho do apartamento abrir e fechar. O som do trinco deslizando com firmeza metálica ecoou no silêncio como um tiro, fazendo-me estremecer de puro terror.

Esperei. Não sei quanto tempo. Contei os minutos pelas batidas erráticas e dolorosas do meu próprio coração apavorado. Um, dois, três minutos. Talvez cinco. Precisava ter certeza absoluta de que ele tinha ido embora, de que não estava esperando do outro lado da porta para ver se eu tentava me mexer. Quando o silêncio do prédio me convenceu de que eu estava sozinha, o verdadeiro pesadelo começou.

Rastejar pelo chão de madeira polida foi uma provação que ninguém deveria jamais ter que suportar. Cada centímetro conquistado era uma vitória de Pirro, paga com gemidos que eu tentava abafar mordendo o lábio até sangrar. Do ponto de vista médico, meu instinto de enfermeira funcionava no piloto automático, apesar do pânico. Eu sabia o que estava errado. Reconheci os sintomas com uma clareza aterradora: as costelas quebradas eram óbvias, mas a extrema falta de ar, a dor lancinante e a sensação de que meu peito não estava se expandindo corretamente do lado esquerdo apontavam para algo pior: um pneumotórax. Um pulmão perfurado.

Eu precisava de um hospital. Precisava de oxigênio, raio-X, um dreno torácico e morfina. Precisava desesperadamente de ajuda profissional. Mas a cruel realidade da minha vida era que o lugar criado para me salvar era uma armadilha. Eu não podia ir ao pronto-socorro. Marcos tinha amigos, informantes e associados em quase todos os principais prontos-socorros de Madri. Chamavam isso de “A Irmandade Azul”. Se eu aparecesse com ferimentos suspeitos, o protocolo ditava chamar a polícia. E a polícia chamaria Marcos. Sempre o chamavam. Ele chegava antes mesmo que eu pudesse contar minha história, seu distintivo brilhando, seu sorriso encantador no rosto, explicando que sua noiva era “instável”, “desastrada” ou tinha “problemas de saúde mental”. E eu voltava para casa com ele, para uma punição ainda pior por ter tentado fugir.

Só havia uma pessoa no mundo que podia me ajudar. Meu irmãozinho, Leo. Ele era o único que nunca acreditou na fachada de Marcos, o policial perfeito, o namorado ideal. Leo enxergou a escuridão nos olhos de Marcos que eu tentei ignorar por tanto tempo.

Com um esforço sobre-humano, arrastei-me até o banheiro do corredor. Era o único cômodo da casa cuja fechadura Marcos ainda não havia quebrado em um de seus acessos de fúria anteriores, provavelmente porque era pequeno e raramente o usávamos. Arrastei minha bolsa para dentro. Fechei a porta e girei a fechadura com os dedos trêmulos. Encostei-me na pia fria, tremendo violentamente, não apenas de dor, mas também pelo terror gélido do que estava fazendo.

Peguei o celular que Marcos me emprestou da bolsa. A tela estava coberta por uma série de rachaduras, resultado de uma queda na noite anterior, mas, milagrosamente, ele ligou. A luz azulada me incomodou. Eram 23h42.

Abri o aplicativo de mensagens. Minha visão estava tão turva pelas lágrimas e pelo choque que mal conseguia distinguir as letras. Minhas mãos tremiam incontrolavelmente, contraindo-se com a adrenalina e a dor. Tentei discar o número de Leo de memória. Eu havia apagado o contato dele da minha agenda há meses para protegê-lo, porque Marcos checava meu celular todas as noites, procurando por evidências de um caso inexistente ou de que eu estava conversando com minha família mais do que era “permitido”.

Seis, seis, nove… meu polegar, manchado de sangue do meu lábio mordido, escorregou no vidro quebrado e liso. Eu queria discar oito. Disquei nove.

Eu não percebi. Naquele momento, o mundo se resumiu à necessidade desesperada de enviar um sinal de socorro antes de desmaiar. Eu só precisava que alguém, meus parentes de sangue, soubesse que eu estava morrendo naquele banheiro.

Digitei a mensagem, meus dedos tropeçando nas teclas virtuais:

“Ele fez isso de novo. Quebrou minhas costelas. Acho que não consigo respirar direito. Ele me trancou aqui dentro. Por favor, Leo, me ajude. Calle del Amparo 24, 4B. O código abaixo é 8890. Venha rápido.”

Apertei enviar. O telefone escorregou das minhas mãos dormentes e caiu no chão com um baque. Encostei a cabeça na pia do banheiro e as lágrimas quentes finalmente transbordaram, escorrendo pelas minhas bochechas e se misturando ao sangue. A dor havia deixado de ser uma série de pontadas agudas e se transformado em um peso surdo, esmagador e onipotente que me puxava para uma escuridão tentadora.

Fechei os olhos e rezei. Rezei para qualquer deus que estivesse ouvindo, para que Leo estivesse acordado, para que não estivesse estudando com o celular no silencioso, para que estivesse por perto.

Bzzzt.

O telefone vibrou contra minha perna no chão. O som foi como um choque elétrico. Uma nova onda de agonia percorreu minha lateral enquanto eu tentava alcançá-lo, e eu solucei alto. Apertei o telefone desesperadamente.

Uma nova mensagem. De um número desconhecido.

“Quem é você?”

Franzi a testa, confusa em meio à minha névoa de tristeza. Por que Leo estava me perguntando quem eu era? Talvez ele tivesse trocado de número e não tivesse me contado. Ou talvez estivesse apenas sendo cauteloso. Minha mente lutava para processar tudo aquilo.

Com os dedos desajeitados, respondi:

“Sou Eva. Leo, por favor. Acho que meu pulmão foi perfurado. Foi o Marcos. Ele está voltando. Estou no banheiro.”

Eu fiquei olhando para a tela, hipnotizado pelos três pontos que indicavam que a outra pessoa estava digitando. Eles apareciam, desapareciam e reapareciam. Foi um minuto de puro terror. Um minuto em que a terrível constatação começou a se infiltrar na minha mente: eu havia enviado a mensagem para a pessoa errada. Eu havia enviado meu último pedido de ajuda para um estranho que provavelmente pensaria que era uma piada de mau gosto ou que eu era um viciado em drogas, e simplesmente voltaria a dormir.

Então o telefone vibrou novamente. Uma única frase apareceu na tela, vinda daquele número desconhecido.

“Estou a caminho.”

Soltei um suspiro entrecortado que se transformou num gemido de dor. Não era assim que Leo costumava falar. Leo estaria em pânico, digitando tudo em maiúsculas, fazendo um milhão de perguntas, me ligando imediatamente. Mas talvez o choque o tivesse deixado sério e eficiente. Talvez ele estivesse com alguém.

Esperei. Dez minutos pareceram horas. Depois, vinte. A dor piorou exponencialmente. Minha respiração ficou mais superficial e rápida, uma série de suspiros curtos que não conseguiam oxigenar meu sangue. O pequeno banheiro começou a girar ao meu redor. Senti frio, um frio profundo que parecia vir de dentro.

De repente, o silêncio opressivo do apartamento se estilhaçou.

RACHADURA!

Não foi uma batida na porta. Não foi o som de uma chave girando. Parecia que a porta da frente do apartamento tinha sido arrombada por um aríete medieval. A madeira rangeu e quebrou com um estrondo que fez as paredes tremerem.

Eu paralisei. Meu coração parou por um instante.

Marcos estava de volta. Ele tinha percebido algo, ou talvez simplesmente tivesse decidido voltar mais cedo para terminar o que havia começado. Se ele me encontrasse aqui, com o telefone na mão, depois de ter pedido ajuda… ele me mataria. Esta noite não seria apenas uma surra. Esta noite seria a noite em que Eva Velasco se tornaria mais uma estatística nos noticiários da manhã sobre violência de gênero.

Mas então ouvi passos. Pesados, rápidos, decididos. E não era apenas uma pessoa. Eram várias. O som de botas militares movendo-se com precisão tática pelo piso de madeira do corredor. Não era o passo arrogante de Marcos. Era diferente.

“Verifiquem o quarto principal”, ordenou uma voz.

Era uma voz que eu nunca tinha ouvido antes. Profunda, ressonante como o som de cascalho sendo triturado, autoritária e absolutamente aterradora. Não havia questionamento naquela voz, apenas ordem.

—Livre a área ao redor. Se alguém se aproximar deste apartamento, seja quem for, impeça-o(a).

Parei de respirar completamente. Não era o Marcos. E definitivamente não eram o Leo e seus amigos da faculdade.

Os passos se aproximaram do banheiro. Vi a sombra de pés sob a porta. Encolhi-me o máximo que pude, pressionando os joelhos contra o peito, apesar da dor lancinante que isso causava nas minhas costelas quebradas.

A maçaneta girou violentamente. A trava emperrou, batendo contra o batente.

“Trancada. Ela está aqui dentro”, disse uma voz mais jovem do outro lado.

—Afastem-se—ordenou a voz grave.

Fechei os olhos com força, preparando-me para o fim. Por favor, que seja rápido. Por favor, que não doa mais.

A porta não apenas se abriu. Ela explodiu para dentro.

Um único chute poderoso, desferido com força devastadora, arrancou a moldura da porta das dobradiças e lançou lascas de madeira e pedaços da porta voando em minha direção como estilhaços. Gritei, um som agudo e animalesco, e instintivamente levantei as mãos para proteger o rosto, encolhendo-me contra os azulejos frios.

O silêncio voltou a pairar sobre o pequeno banheiro destruído, mais pesado do que antes.

Lentamente, tremendo da cabeça aos pés, baixei as mãos e olhei para cima.

Parado na entrada do que restava, estava um homem que parecia ter sido esculpido nas próprias sombras da noite madrilenha. Alto e imponente, preenchia o espaço com uma presença avassaladora. Vestia um terno cinza-carvão feito sob medida que exalava dinheiro e poder, o tipo de terno que custa mais do que um ano de aluguel deste apartamento. Seus cabelos escuros estavam perfeitamente penteados para trás, e seus olhos…

Seus olhos eram frios, duros e terrivelmente escuros, fixos em mim com uma intensidade que me paralisou. Não havia compaixão neles, mas também não havia a crueldade sádica que eu costumava ver em Marcos. Havia uma avaliação clínica, uma inteligência predatória.

Ele não era policial. Ele não era paramédico. Meu cérebro, lutando para processar a informação em meio ao pânico, levou um segundo para reconhecer o rosto que eu já tinha visto tantas vezes nas primeiras páginas de jornais sensacionalistas ou em reportagens investigativas borradas na televisão.

Era Lucas Moregu.

Todos em Madri sabiam quem ele era, embora poucos ousassem pronunciar seu nome em voz alta em certos círculos. Ele não era apenas um empresário com ligações duvidosas. Era o chefe de uma das organizações criminosas mais poderosas e esquivas da Espanha. Chamavam-no de “O Arquiteto” pela maneira como construía e desmantelava impérios nas sombras, ou às vezes, em sussurros mais temerosos, “O Ceifador”.

Ele olhou para mim, examinando-me da cabeça aos pés. Seus olhos demoraram-se nos hematomas que começavam a aparecer no meu queixo, na maneira antinatural como ele segurava meu lado esquerdo e no puro terror que devia estar emanando dos meus olhos.

Para minha surpresa, ele se abaixou. Não pareceu se importar que o tecido impecável de sua calça de grife estivesse em contato com o chão sujo e úmido do banheiro. Estendeu uma mão grande, com dedos longos e fortes, e pegou meu celular, que ainda estava no chão ao lado da minha perna.

Ela lançou um olhar para a tela iluminada, confirmando a troca de mensagens. Leu meu apelo desesperado. Então, seus olhos escuros voltaram-se para os meus.

“Você não é Sofia”, disse ele. Sua voz era baixa, suave como veludo, mas com um tom metálico e perigoso que fazia o ar vibrar.

“Eu… eu queria ligar para o Leo”, consegui dizer, minha voz um sussurro embargado e choroso, lágrimas escorrendo livremente pelo meu rosto. “Enviei a mensagem para o número errado. Me desculpe. Por favor, não me machuque. Por favor, vá embora antes que ele volte.”

Lucas Moregu me encarou por um longo momento. Era como se ele estivesse vendo mais do que apenas uma mulher espancada no chão do banheiro. Vi seus olhos registrarem o leve tremor em meu corpo quando ele moveu a mão perto de mim. Ele podia ver a marca característica, a impressão de uma bota na minha camisa, exatamente onde minhas costelas estavam esmagadas.

Ele se ergueu num movimento fluido, imponente sobre mim como uma torre escura. Virou-se ligeiramente para os homens atrás dele no corredor. Agora eu conseguia ver dois deles, gigantes silenciosos que mal tentavam esconder seu armamento pesado.

“Ligue para o Dr. Aranda”, ordenou Lucas. Seu tom não admitia contestação. “Diga a ele para preparar a pequena sala de cirurgia na fazenda. Imediatamente.”

“Chefe”, hesitou um dos homens, a voz um sussurro nervoso. “Ela é civil. E este é território policial. Se a levarmos, as coisas vão ficar muito complicadas.”

Lucas virou ligeiramente a cabeça na direção de seu subordinado, estreitando os olhos de um jeito que fez o homem instintivamente dar um passo para trás.

“Ela mandou uma mensagem para aquele número, Diego.” A voz de Lucas baixou uma oitava, tornando-se quase glacial. “Aquele telefone não tocava desde o dia em que enterramos minha irmã. O destino a enviou para mim. Não vou questionar.”

Ele olhou para mim novamente. Sua expressão suavizou-se imperceptivelmente, uma rachadura em sua armadura.

—Você consegue andar?

Balancei a cabeça negativamente, um movimento mínimo que me fez soltar um gemido involuntário.

—Dói… dói demais.

Lucas Moregu, um homem conhecido por ordenar execuções sem pestanejar, abaixou-se novamente. E então fez algo que me deixou sem fôlego: foi surpreendentemente gentil. Deslizou um braço forte e quente por baixo dos meus joelhos e o outro por trás das minhas costas, tomando o máximo cuidado para não pressionar minhas costelas quebradas.

Ele me ergueu do chão como se eu fosse uma pena. Gritei quando a mudança de posição sacudiu meu torso, e minha cabeça caiu contra o peito dele. Ele tinha um cheiro caro: uma mistura de colônia de sândalo, couro de boa qualidade, o cheiro metálico de uma arma e o frescor da chuva de uma noite madrilenha.

Era um aroma inebriante e aterrador ao mesmo tempo.

“Eu te protejo”, murmurou ele perto do meu ouvido, a voz vibrando no peito contra minha bochecha. “Agora você está segura.”

Ele passou por cima dos destroços da porta do banheiro. Enquanto me carregava pelo corredor, vi a porta da frente do apartamento. Ela não tinha sido apenas arrombada; tinha sido destruída. A madeira estava estilhaçada, o metal retorcido.

No patamar da escada, com um olhar completamente atordoado e aterrorizado, de roupão e com os cabelos enrolados em bobes, estava minha vizinha, a idosa Sra. Carmen. Seus olhos estavam arregalados de choque enquanto observava o gigante de terno escuro me carregando, ladeado por seus seguranças.

Lucas parou por um segundo. Ele olhou para a Sra. Carmen.

“A senhora ainda não viu nada esta noite”, disse ele.

Não foi uma ameaça gritada. Foi uma constatação, proferida com uma calma arrepiante. Era a voz de alguém capaz de fazer uma pessoa desaparecer com um único telefonema.

A Sra. Carmen assentiu freneticamente, pálida como um fantasma, e bateu a porta com força, trancando todas as trancas audíveis.

Lucas me conduziu para o ar fresco da noite madrilenha. Começara a chover, uma garoa fina que umedecia meu rosto e misturava minhas lágrimas à chuva. Uma comitiva de três SUVs pretos idênticos e de aparência sinistra estava parada no meio da estreita Calle del Amparo, bloqueando completamente o trânsito com uma arrogância que só o verdadeiro poder pode ostentar.

Ele caminhou diretamente até o veículo do meio. Um motorista já estava lá, abrindo a porta traseira.

Nesse instante, um carro surgiu em alta velocidade na esquina, derrapando sobre o calçamento molhado. Luzes azuis e vermelhas piscavam, refletindo nas fachadas dos prédios antigos.

Era uma viatura da Polícia Nacional. Era Marcos.

Meu coração congelou no peito. O alívio momentâneo de ter sido resgatada evaporou-se, substituído por um terror primitivo.

O carro da polícia freou bruscamente a poucos metros de nós, o motor morrendo com um rugido final. Os faróis iluminaram a cena com um brilho duro e acusador, delineando a silhueta de Lucas e os SUVs pretos.

Enterrei meu rosto na lapela do terno de Lucas, tremendo incontrolavelmente, encolhendo-me em seus braços como uma menininha.

“É ele”, sussurrei, com a voz embargada pelo pânico. “É ele! Ele vai nos matar!”

Lucas não hesitou. Nem sequer se virou imediatamente. Simplesmente apertou o meu braço, certificando-se de que eu estava firme e protegida contra o seu corpo. Senti a dureza de algo sob o seu casaco, perto da minha anca. Uma arma.

“Coloque-a no carro”, disse Lucas ao motorista, com a voz completamente desprovida de emoção, como se estivesse falando do tempo. “Mantenha-a firme e em segurança. Deixe Diego ficar com ela.”

—Espere! Pare aí mesmo!

A voz de Marcos ecoou pela rua estreita, carregada da autoridade arrogante e furiosa de um homem acostumado a que o mundo lhe obedecesse às ordens sem questionamento.

Ouvi o som da porta da viatura abrindo e fechando com força. Passos rápidos e pesados ​​se aproximaram. Consegui visualizá-lo: a mão no coldre da arma de serviço, o peito estufado, o rosto vermelho de raiva.

“Afastem-se da garota! Isto é um sequestro em andamento! Eu sou um policial!”

Lucas me colocou delicadamente no banco de trás do SUV, seu couro macio e suave. O interior cheirava a carro novo e segurança. Ele se inclinou sobre mim por uma fração de segundo, seus olhos escuros encontrando os meus. Havia uma intensidade neles que me deixou sem fôlego.

—Fique quieta, Eva. Não olhe.

Ele fechou a porta, me trancando dentro daquele santuário à prova de som e, eu suspeitava, à prova de balas. Fiquei ali parada, encolhida, meu coração martelando contra minhas costelas quebradas, incapaz de obedecê-lo. Virei-me e olhei pela janela escura.

Marcos Torres parou a cerca de três metros de Lucas. Marcos era um homem grande, de ombros largos, frequentador assíduo da academia, e tinha uma presença imponente que usava para intimidar suspeitos e a mim. Mas ali, na rua chuvosa, de frente para Lucas Moregu e ladeado pelos dois seguranças de Lucas, que eram como montanhas silenciosas de músculos, Marcos de repente pareceu pequeno. Parecia um valentão de escola enfrentando um soldado veterano.

Quando Marcos finalmente viu o rosto do homem parado calmamente na chuva, seu passo confiante vacilou. Sua arrogância visivelmente se desfez.

“Moregu…” disse Marcos. A palavra saiu como um suspiro sufocado.

Eu conseguia vê-lo empalidecer mesmo sob a luz alaranjada dos postes. Marcos era um policial corrupto, o que significava que ele conhecia a verdadeira hierarquia da cidade. Ele sabia quem controlava quem. Sabia que existiam os peixes grandes e que existiam os tubarões que devoravam os peixes grandes. E Lucas Moregu não era alguém com quem você gostaria de cruzar o caminho numa terça-feira chuvosa, se prezasse sua vida ou sua carreira.

“Detetive Torres.” A voz de Lucas era calma, quase entediada, mas chegou perfeitamente através da janela do carro. Ele sabia o nome dele. Claro que sabia. Lucas Moregu provavelmente sabia os nomes, endereços e pecados secretos de todos os policiais da sua cidade — os bons, os maus e os que estavam na sua folha de pagamento.

Marcos tentou recuperar o equilíbrio, tentou colocar novamente a máscara da autoridade legal.

“Isto… isto é uma briga doméstica, Moregu”, disse Marcos, erguendo o queixo, embora eu pudesse ver sua mão tremendo levemente sobre a arma. “Não é da sua conta. Aquela mulher é minha noiva. Ela é… instável. Ela tem problemas. Eu mesmo a estava levando ao hospital para ser avaliada.”

Lucas deu um passo à frente. Apenas um. Foi um movimento lento e deliberado. Suas mãos estavam casualmente nos bolsos, uma postura relaxada que era, paradoxalmente, a coisa mais ameaçadora que ele já vira. Ele exalava uma confiança letal.

“Ela tem três costelas quebradas”, disse Lucas suavemente, mas sua voz cortou o ar da noite como uma lâmina de barbear. “Provavelmente um pulmão colapsado. E ela tem hematomas no pescoço compatíveis com tentativa de estrangulamento manual.”

“Ela caiu!” Marcos mentiu rapidamente, rápido demais, a voz embargada pelo nervosismo. “Ela é desastrada. Caiu da escada do prédio. Olha, Moregu, eu não sei por que você está se metendo nisso, mas você não quer problemas com a Polícia Nacional! Vá embora! Eu cuido da minha garota. O problema é meu!”

Lucas sorriu. Não era um sorriso de divertimento. Era uma expressão fria e cortante que não chegava aos seus olhos escuros. Era o sorriso de um lobo que acabara de encurralar um coelho que ainda pensava que poderia escapar.

Ele tirou um celular do bolso do paletó. Não era o smartphone mais recente dele. Era o meu. Meu celular antigo, com a tela trincada e manchada de sangue.

“Você reconhece este telefone, detetive?”, perguntou Lucas, segurando-o delicadamente entre dois dedos.

Marcos franziu a testa, confuso com a mudança de tática.

—Não. O quê…?

“Ela também não te reconheceu esta noite, Marcos”, disse Lucas. Seu tom tornou-se pensativo, quase filosófico. “Ela usou este telefone para implorar pela vida. Ela suplicou para o número errado, um completo estranho, para salvá-la de você. Do homem que jurou protegê-la. Você sabe o quão desesperada uma mulher precisa estar para confiar no vazio antes do próprio parceiro?”

Lucas fez um gesto quase imperceptível com dois dedos da mão esquerda.

A reação foi instantânea. Os dois seguranças de Lucas se moveram com uma velocidade impressionante. Antes que Marcos pudesse sequer pensar em sacar sua arma, antes que seu cérebro policial pudesse reagir à ameaça, já era tarde demais.

Um dos homens imobilizou Marcos com uma chave de braço, torcendo-o para trás com força suficiente para fazê-lo gritar de dor. O outro desferiu um chute forte e brutal atrás do joelho dele, obrigando-o a cair de joelhos sobre o calçamento molhado.

A arma de Marcos foi arrancada do coldre com eficiência profissional.

“Ei! Você não pode fazer isso!” gritou Marcos. Sua arrogância havia desaparecido completamente, substituída por um pânico cru e estridente. “Eu sou um policial! Eu tenho um rádio! Eles sabem que estou aqui! Isso é agredir um agente da lei!”

Lucas caminhou calmamente em direção a ele. Parou em frente ao detetive ajoelhado. Inclinou-se para a frente, aproximando o rosto a centímetros do de Marcos, invadindo seu espaço pessoal com uma ameaça palpável.

“Hoje à noite você não é policial, Marcos”, sussurrou Lucas. Eu conseguia ler seus lábios através do vidro. Sua voz era a própria morte. “Hoje à noite você é apenas um homem que sente prazer em espancar mulheres indefesas até deixá-las em estado deplorável.”

Lucas enfiou a mão no casaco de Marcos, ignorando seus protestos. Tirou a carteira com seu distintivo e identificação policial. Olhou para eles com desdém por um segundo e depois os jogou no chão, em uma poça de água suja, como se fossem lixo.

“Se você fosse outra pessoa, se fosse apenas mais um bandido de quinta categoria nesta cidade, já estaria morto. Eu teria te estripado aqui mesmo. Mas a morte é fácil demais para você. Rápida demais.”

Lucas endireitou-se. Olhou para o homem que segurava o braço direito de Marcos, o homem a quem ele chamava de Diego.

—Diego. —A voz de Lucas era casual, como se ele estivesse pedindo um café em um bar—. Quebre as mãos dele.

Fiquei sem ar.

“Ambos”, acrescentou Lucas friamente. “Certifique-se de que seus ossos estejam tão quebrados que ele nunca mais possa segurar uma arma. E que ele nunca mais possa levantar a mão contra uma mulher.”

“Não! Não, por favor! Moregu, espere!” gritou Marcos, contorcendo-se desesperadamente, com os olhos arregalados de terror. “Por favor! Eu farei qualquer coisa que você quiser! Eu lhe darei informações!”

Lucas nem sequer olhou para ele. Virou-se e começou a caminhar de volta para o SUV onde eu estava.

Atrás dele, o som nauseante e inconfundível de ossos quebrando sob pressão precisa ecoava no ar da noite. Em seguida, veio um grito de Marcos, um uivo agudo e prolongado de pura agonia que me fez tapar os ouvidos com as mãos trêmulas.

Então o som se repetiu. Um segundo estalo. Um segundo grito, ainda mais desesperado, que se transformou em soluços.

Lucas não olhou para trás nem uma vez. Abriu a porta do carro e deslizou para o banco ao meu lado, trazendo consigo o cheiro de chuva e perigo.

Eu estava encolhida contra a porta oposta, com os olhos arregalados de horror e incredulidade. Eu odiava Marcos. Eu queria que ele sofresse. Mas ouvir aquilo — a brutalidade fria e eficiente da ordem de Lucas e sua execução — era algo para o qual eu não estava preparada.

“O que… o que você fez?” sussurrei, com a voz tão trêmula que mal dava para ouvir.

Lucas se virou para mim. Seu rosto estava calmo, indecifrável novamente, como se nada tivesse acontecido.

“Resolvi o problema temporariamente”, respondeu ele calmamente.

Ele bateu na divisória de vidro que separava a parte traseira da parte do motorista.

—Vamos. Para a fazenda.

O comboio de três veículos partiu sem problemas, afastando-se da Rua Amparo, deixando para trás um detetive da polícia devastado, ajoelhado no chão molhado, gritando de dor e segurando as mãos inúteis contra o peito.

A viagem foi uma mistura de silêncio tenso e minha própria luta contra a dor e o choque. A adrenalina estava começando a passar, e com ela, o efeito anestésico natural que ela havia proporcionado. A dor nas minhas costelas voltou com força total, aguda e lancinante a cada pequena vibração do carro. Comecei a sentir náuseas.

O interior do carro era como uma nave espacial de luxo: silencioso, com bancos de couro macio e uma iluminação ambiente âmbar suave. Contrastava fortemente com a violência que acabávamos de deixar para trás.

“Para onde você está me levando?”, murmurei, fechando os olhos para vencer a tontura.

“Para a minha fazenda, nos arredores”, respondeu Lucas. Ele estava olhando para o próprio celular, digitando mensagens rápidas, processando as consequências do que acabara de fazer. Ignorava meu celular antigo, que eu havia deixado no console central entre nós. “Tenho instalações médicas particulares lá. Você precisa de um cirurgião torácico discreto, não de um residente do pronto-socorro que faz perguntas demais.”

“Por quê?”, perguntei novamente. Precisava entender. Virei a cabeça cuidadosamente para observar seu perfil anguloso na penumbra. Ele era um homem belo de uma forma aterradora. “Por que você veio pessoalmente? Você… você é o chefe. Poderia ter mandado qualquer um.”

Lucas fez uma pausa. Seus dedos pairaram sobre a tela do celular. Lentamente, ele pegou meu celular velho e quebrado. Ficou encarando a tela escura por um longo momento.

“Este número… este número de telefone para o qual você enviou a mensagem por engano… pertencia à minha irmã. À Sofia”, disse ela. Sua voz mudou. Perdeu aquela dureza profissional, aquela armadura de indiferença. Tornou-se mais grave, tingida por uma tristeza antiga e dolorosa. “Ela morreu há três anos. Uma família rival a usou para chegar até mim. Não conseguiram me atingir, então a atingiram.”

Prendi a respiração. A vulnerabilidade em sua voz era chocante.

“Mantive a linha ativa”, continuou Lucas, ainda encarando o telefone como se fosse uma relíquia sagrada. “Pago a conta religiosamente todo mês. Carrego a bateria toda semana. Não sei por quê. Talvez… talvez alguma parte idiota de mim pensasse que, se eu mantivesse a linha dela aberta, ela não teria realmente ido embora. Talvez eu estivesse esperando que o universo me desse uma segunda chance, um milagre.”

Ela se virou para me olhar diretamente. Seus olhos escuros eram intensos, buscando algo em meu rosto, analisando-me não como uma vítima, mas como um enigma.

—Quando o telefone tocou esta noite, quando vibrou na minha mesa pela primeira vez em três anos… por um segundo, quase pensei que fosse um fantasma. Pensei que tinha enlouquecido.

Ele fez um gesto na minha direção com a mão que segurava o telefone.

—Mas não era um fantasma. Era você. Uma mulher de verdade, de carne e osso, sendo esmagada por um homem que jurou protegê-la. Ler suas mensagens… foi como reviver aquela noite.

Ele se inclinou um pouco mais para perto. Sua presença preencheu o carro.

“Não consegui salvar a Sofia. Cheguei tarde demais para ela”, disse Lucas. Sua voz carregava uma promessa sombria e inflexível, uma determinação que me arrepiou. “Então vou salvar você, Eva. Quer você goste ou não. O universo me deu essa chance e eu não vou desperdiçá-la.”

O carro começou a diminuir a velocidade. Olhei pela janela. Estávamos saindo da rodovia e entrando em uma estrada particular, ladeada por altos muros de pedra. Passamos por enormes portões de ferro forjado que se abriam automaticamente. Vi guardas armados com fuzis de assalto patrulhando o perímetro, sombras vigilantes sob as luzes de segurança.

Diante de nós erguia-se uma enorme mansão, uma estrutura moderna de pedra e vidro que mais parecia uma fortaleza inexpugnável do que uma casa. Estava rodeada por jardins escuros e bosques.

Naquele momento, percebi uma verdade que era ao mesmo tempo aterradora e libertadora: minha vida como Eva Velasco, a enfermeira anônima no centro de Madri que vivia com medo de seu noivo policial, havia terminado. Aquela mulher havia morrido no chão da cozinha.

Ela não tinha sido simplesmente resgatada. Ela tinha sido reivindicada por uma força muito mais sombria e poderosa do que Marcos Torres.

O carro parou em frente à entrada principal, que estava bem iluminada. Diego abriu a porta do meu lado.

“Você consegue se levantar agora?” perguntou Lucas, aparecendo ao meu lado.

Tentei me mexer, mas a dor era insuportável. O mundo girou.

“Acho que não…” sussurrei, sentindo a consciência me escapar.

Ele não esperou. Levantou-me novamente nos braços com aquela força natural e uma delicadeza surpreendente, e carregou-me em direção à entrada da mansão. Apoiei a cabeça em seu ombro, exausta e dolorida demais para resistir.

Eu tinha pavor dele. Eu sabia o que ele era. Um criminoso, um assassino, um homem que ordenou que as mãos de outro homem fossem quebradas sem pestanejar. Mas, quando finalmente sucumbi à escuridão do desmaio, meu último pensamento coerente foi inegável:

De todos os monstros em Madri naquela noite, esse monstro foi o único que veio me socorrer quando gritei por socorro. E em seus braços, pela primeira vez em dois anos, me senti estranhamente segura.

PARTE 2: A Gaiola Dourada e o Fantasma de Sophie

A consciência retornou em ondas lentas, pesadas e desconexas, como se eu estivesse emergindo de um oceano de melaço escuro. Não foi o despertar abrupto, ofegante e cheio de pânico ao qual me acostumei nos últimos dois anos com Marcos — aquele tipo de despertar em que você acorda sobressaltado esperando um golpe, um grito ou uma acusação infundada. Não. Este despertar foi denso, abafado, com um cheiro clínico de antisséptico estranhamente misturado com lavanda cara e lustra-móveis antigos.

Pisquei, sentindo como se minhas pálpebras pesassem uma tonelada. A luz era fraca, quente, nada parecida com a luz fluorescente forte de um hospital público. Meus olhos levaram alguns segundos para focar. O teto acima de mim era alto, muito alto, adornado com intrincados moldes de gesso que pareciam mais adequados a uma sala do Museu do Prado do que a um quarto de doente. No centro, pendia um lustre de cristal, apagado agora, mas que prometia esplendor.

Tentei me mexer, e a lembrança da noite anterior me atingiu antes da dor. No entanto, quando a dor chegou, era uma pontada surda e distante no meu lado esquerdo, não a agonia aguda e excruciante de que me lembrava no chão da minha cozinha. Ela havia sido substituída pela sensação flutuante, algodonosa e ligeiramente nauseante dos analgésicos fortes.

—Calma, senhorita Velasco. Não tente bancar a heroína ainda.

A voz era desconhecida, masculina, com um tom clínico, mas estranhamente gentil. Virei lentamente a cabeça no travesseiro, que era mais macio do que qualquer outro em que eu já tivesse dormido.

Sentado numa poltrona de couro ao lado da cama, lendo um prontuário médico num tablet, estava um homem na casa dos cinquenta anos. Tinha cabelos grisalhos penteados com esmero, usava óculos de armação fina e um impecável jaleco branco sobre uma camisa azul-celeste e gravata. Ao lado dele, um monitor portátil de sinais vitais, elegante e moderno, emitia um bip rítmico e reconfortante: bip, bip, bip .

“Onde…?” Minha voz saiu como um coaxar seco, como se eu tivesse engolido lixa. Tossi fracamente, e a dor nas minhas costelas protestou. “Onde estou?”

“Ela está na propriedade do Sr. Moregu, nos arredores de Madri, perto das montanhas”, respondeu o médico, levantando-se agilmente para verificar o soro intravenoso conectado ao meu braço. “Sou o Dr. Aranda. Ontem à noite, tratei o pneumotórax dela e coloquei suas costelas de volta no lugar. Ela tinha três fraturas, Eva. Uma delas, a sétima costela, havia perfurado a pleura do pulmão esquerdo. Foi um ferimento grave. Se eu tivesse esperado mais uma hora, ou se o Sr. Moregu não a tivesse trazido aqui tão rapidamente, ela teria se afogado no próprio sangue.”

Encarei o fio transparente que serpenteava do meu braço até a bolsa de soro. Memórias me invadiram num turbilhão vertiginoso, imagens estroboscópicas de terror e salvação: o chão frio do banheiro. A mensagem errada. A porta arrombada. O homem de terno cinza. O som dos ossos de Marcos quebrando na chuva.

“O homem…” sussurrei, sentindo um arrepio que nada tinha a ver com a febre. “Lucas. Sr. Moregu.”

“Ele está fora”, disse o Dr. Aranda, baixando a voz como se temesse ser ouvido, apesar das pesadas portas de madeira. “Ele está andando de um lado para o outro no corredor desde as seis da manhã. Como um leão enjaulado, se me permitem a expressão.”

Meu coração disparou dolorosamente contra minhas costelas machucadas. O chefe do crime mais temido de Madri estava à espera. À minha espera.

“Posso ir embora?”, perguntei, embora no fundo eu já soubesse a resposta. Olhei para a janela, onde pesadas cortinas de veludo bloqueavam a luz do dia.

O Dr. Aranda olhou para mim por cima dos óculos. Era um olhar complexo: metade simpatia profissional, metade advertência severa.

“Do ponto de vista médico, absolutamente não. Ela precisa de repouso absoluto por pelo menos duas semanas para garantir que o pulmão se feche corretamente e as costelas cicatrizem. Do ponto de vista logístico…” Ele fez uma pausa, verificando os níveis do monitor. “Essa é uma pergunta para o Sr. Moregu. Mas eu aconselho você a descansar. Você está segura aqui, Eva. Mais segura do que em qualquer hospital público.”

—Tem certeza? —A palavra soava estranha na minha língua, como um conceito em um idioma estrangeiro que eu havia esquecido como falar.

Naquele instante, ouviu-se uma batida suave, quase imperceptível, na pesada porta de mogno. Ela se abriu antes que o Dr. Aranda pudesse dar permissão.

Lucas Moregu entrou.

Ele havia mudado. Não vestia mais o impecável terno cinza da noite anterior. Tirara o paletó. A camisa social branca estava desabotoada na gola e as mangas arregaçadas até os cotovelos, revelando antebraços poderosos cobertos de músculos definidos e, para minha surpresa, algumas cicatrizes e tatuagens desbotadas que denunciavam um passado violento anterior aos ternos caros. Parecia cansado. Havia um leve rastro de barba por fazer e olheiras, mas aquela aura predatória, aquela eletricidade estática que preenchia o ambiente quando ele entrava, permanecia.

“Doutor”, disse Lucas. Sua voz estava grave e rouca, como se não a tivesse usado por horas. “Qual é o veredicto?”

O Dr. Aranda fechou sua pasta de couro com um clique.

“Ela está acordada e alerta. A dor está suportável por enquanto. Ela precisa de hidratação, repouso e evitar qualquer estresse emocional forte. Voltarei amanhã de manhã para verificar o dreno torácico.” O médico acenou brevemente com a cabeça, demonstrando sua compreensão, e então se dirigiu à porta. “Sr. Moregu.”

Lucas assentiu brevemente com a cabeça e o médico saiu, fechando a porta com um clique suave, porém definitivo.

De repente, o quarto, que antes era enorme, pareceu encolher até se tornar claustrofóbico. Só havia Eva e “O Ceifador”. A enfermeira e o mafioso.

Lucas não se aproximou da cama imediatamente. Manteve distância, como se eu fosse um animal selvagem ferido que pudesse morder. Caminhou até a janela e abriu um pouco a pesada cortina. Um raio de luz acinzentada da tarde de inverno invadiu o ambiente, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar.

“Você sabe o que o detetive Marcos Torres está fazendo neste momento?”, perguntou Lucas, sem olhar para mim, com o olhar fixo nos jardins da propriedade.

Estremeci violentamente ao ouvir seu nome. Minhas mãos se fecharam em punhos sobre os lençóis de algodão egípcio.

“Não…” sussurrei.

“Ele está sendo submetido a uma cirurgia no Hospital Universitário La Paz”, disse Lucas com uma calma arrepiante. “Será necessária uma equipe de três cirurgiões ortopédicos e microcirurgiões para tentar reconstruir os ossos de suas mãos. Diego fez um trabalho… minucioso. Ele provavelmente nunca recuperará totalmente sua coordenação motora fina. Ele nunca mais conseguirá segurar uma arma de serviço com firmeza. Sua carreira nas ruas acabou. Ele provavelmente será obrigado a se aposentar por invalidez.”

Observei as costas largas de Lucas, a tensão em seus ombros.

“Você o deixou incapacitado”, eu disse. Não era uma acusação, era um fato.

Lucas virou-se lentamente. Seus olhos eram escuros, poços insondáveis.

“Eu o detive. Há uma diferença. Neutralizei a ameaça imediata.” Ele caminhou em direção à cama, movendo-se com aquela graça silenciosa e letal dos grandes felinos. Arrastou a cadeira que o Dr. Aranda havia deixado vazia, puxou-a para mais perto da cama e sentou-se.

De perto, eu conseguia ver reflexos dourados em suas íris escuras. Conseguia sentir o leve aroma de tabaco de cachimbo e sândalo que emanava dele.

“Por quê?” perguntei, com a voz trêmula apesar dos meus esforços para parecer firme. “Por que você fez tudo isso, Lucas? Eu não sou ninguém. Sou apenas uma enfermeira fazendo turnos duplos que nem sabe escrever um número de telefone direito.”

“Você não é ninguém”, ele respondeu. Olhou para as minhas mãos, que repousavam sobre o edredom branco. Meus nós dos dedos estavam machucados e arranhados de tanto bater na porta do banheiro em meu desespero. “Você mandou mensagem para o número da Sofia. Acredita em destino, Eva?”

“Não”, sussurrei, sentindo uma lágrima escapar do canto do meu olho. “Eu acredito em azar. Minha vida inteira tem sido azar.”

“Eu também não acreditava em destino”, admitiu Lucas, baixando a voz. “Sofia era minha gêmea. Ela era a luz na minha sombra. A parte boa da família Moregu. Quando ela morreu, o mundo perdeu a cor para mim. Eu guardei aquele telefone porque não suportava a ideia de apagá-la da minha vida. Quando tocou… pensei que fosse um sinal. Ou um teste.”

Ele fez uma pausa, seu olhar se intensificando até que eu me sentisse nua sob os lençóis.

“Eu vi você naquele banheiro, Eva. Eu vi você quebrada, aterrorizada, sangrando… mas você tinha barricado a porta. Você tinha pedido ajuda. Você estava lutando com unhas e dentes para sobreviver. Eu vi o mesmo fogo nos seus olhos que ela tinha.” Ele estendeu a mão e a deixou pairar sobre a minha por um segundo, sem me tocar de fato, como se tivesse medo de me quebrar também. “Eu não consegui salvar Sofia do monstro dela. Mas eu não podia deixar você lá com o seu.”

“Então, o que sou eu agora?”, perguntei, com as lágrimas embaçando minha visão. “Sou sua prisioneira? Seu animal de estimação resgatado?”

A expressão de Lucas endureceu ligeiramente, seu maxilar se contraiu.

“Você é meu convidado. Você está sob minha proteção, sob meu teto . No código da minha família, isso significa algo sagrado. Significa que ninguém — nem a polícia, nem Marcos, nem mesmo o próprio diabo — pode tocar um fio de cabelo seu enquanto você estiver nesta casa.”

“E se eu quiser voltar para casa?”, questionei, embora a ideia de retornar ao meu apartamento destruído me desse náuseas.

“Você não tem mais um lar para onde voltar, Eva”, disse Lucas impiedosamente, destruindo minhas ilusões com a brutal verdade. “Marcos já contou a sua história. Esta manhã, ele disse aos seus superiores que você teve um surto psicótico, que o atacou num acesso de fúria, que o feriu com a ajuda de alguns capangas e que fugiu com um membro de uma gangue local. Há um mandado de prisão contra você. Se você passar por aqueles portões de ferro, a primeira patrulha que a vir vai prendê-la. E vão levá-la direto para a cela de Marcos, ou para um hospital psiquiátrico onde ele terá acesso irrestrito a você.”

Senti o sangue fugir do meu rosto. O monitor cardíaco começou a apitar mais rápido, bip-bip-bip-bip , denunciando meu pânico crescente.

“Então estou presa”, sussurrei, com o desespero me apertando a garganta.

Lucas se levantou. Sua sombra se projetou sobre mim, mas não parecia ameaçadora, e sim estranhamente protetora. Uma montanha bloqueando o vento.

“Você está se escondendo ”, corrigiu ela com firmeza. “Melhore. Recupere seus ossos. Coma. Durma sem medo de alguém entrar pela porta. Quando estiver forte, quando puder ficar de pé sem desmaiar, conversaremos sobre o seu futuro. Até lá, tudo nesta casa é seu. Peça o que quiser.”

Ele se virou para sair, com o paletó pendurado em um dedo sobre o ombro.

—Lucas…

Ele parou na porta, com a mão na maçaneta de latão. Não se virou.

“Obrigada”, sussurrei. Era uma palavra complicada, carregada de medo, confusão e uma gratidão estranha e distorcida, mas era real.

Lucas não olhou para trás. Apenas acenou com a cabeça uma vez, um aceno seco, e saiu, deixando-me sozinha no silêncio luxuoso da gaiola dourada que ele havia construído para mim. Olhei ao redor do quarto. Era bonito, aconchegante, seguro. E, no entanto, era o lugar mais aterrador em que eu já estivera, porque eu sabia que a dívida que estava contraindo com aquele homem era impagável.

Os dias passavam num turbilhão de sono induzido por medicamentos e despertares tranquilos. O mundo de Eva Velasco se resumia às quatro paredes da suíte de hóspedes e às visitas do Dr. Aranda. Era um mundo de luxo silencioso. As funcionárias, mulheres discretas em uniformes cinza, traziam-me bandejas de comida gourmet: caldos nutritivos, carnes macias, frutas cortadas. No início, mal as toquei. Enfermeiras particulares trocavam meus curativos e verificavam delicadamente a drenagem, enquanto uma suave música clássica tocava em alto-falantes escondidos no teto.

Mas era um confinamento solitário. Não vi Lucas depois daquela primeira noite. Ele era um fantasma na própria casa. Eu sabia que ele estava lá; às vezes ouvia o ronco de um motor potente na entrada de cascalho à noite, ou vozes graves no corredor, mas ele nunca entrava.

Na quarta manhã, o Dr. Aranda removeu o dreno torácico. A sensação foi estranha, uma pressão interna seguida de alívio imediato, pois consegui respirar um pouco mais profundamente, embora minhas costelas ainda doíssem profundamente, como se fossem feitas de vidro quebrado.

“Você precisa se movimentar, Eva”, disse o Dr. Aranda enquanto guardava seus equipamentos. “Seus pulmões precisam se expandir para evitar pneumonia. Ande pelo quarto. Se você se sentir forte o suficiente, pode caminhar pelo corredor deste andar, mas não desça ainda.”

Assenti com a cabeça. Assim que o médico saiu, tirei as pernas da cama. Eu vestia um pijama de seda cor champanhe que alguém havia comprado para mim. Servia perfeitamente, o que me incomodou. Como sabiam meu tamanho? Teriam me medido enquanto eu dormia? Levantei-me, cambaleando um pouco. O espelho de corpo inteiro refletia a imagem de uma estranha. Eu estava pálida, quase translúcida, com olheiras arroxeadas. Meu cabelo estava limpo, mas sem brilho. Mas os hematomas no meu pescoço, as marcas dos dedos de Marcos, estavam desbotando para um amarelo doentio. E meus olhos… meus olhos pareciam diferentes. O olhar assustado e inocente que eu tivera por dois anos estava mudando, endurecendo em uma curiosidade cautelosa.

Abri a porta do quarto. O corredor era uma imensa galeria, com painéis de madeira escura e pinturas a óleo em pesadas molduras douradas. Estava silencioso. A casa parecia vazia e viva ao mesmo tempo, respirando em seu próprio ritmo lento.

Caminhei devagar, apoiando-me na parede com a mão. Meus pés descalços sobre os tapetes persas permaneciam silenciosos. Passei por várias portas fechadas até chegar ao fim do corredor, onde portas duplas estavam entreabertas. Uma luz quente e o aroma de lenha queimada emanavam delas.

Entrei. Era uma biblioteca de dois andares, o sonho de qualquer amante de livros. Estantes do chão ao teto repletas de volumes encadernados em couro, uma escada em espiral de ferro forjado e uma enorme lareira de pedra onde o fogo crepitava alegremente, combatendo o frio úmido das montanhas de Madri.

E lá estava Lucas, sentado numa poltrona de couro gasta junto à lareira.

Ele tinha um copo de uísque na mão e uma pasta aberta no colo. Vestia uma blusa de gola alta preta e calças escuras, parecendo menos um chefe da máfia e mais um intelectual atormentado. Ele ergueu os olhos quando entrei. Não pareceu surpreso, como se tivesse pressentido minha presença antes mesmo de me ver.

“Você está andando”, observou ele.

“O médico disse que eu precisava”, respondi, sentindo-me exposta ali parada, invadindo seu santuário. “Eu não sabia que você estava aqui. A casa está tão… silenciosa.”

“Esta é a minha casa, Eva. Estou em todo lugar.” Ele fechou a pasta e apontou para a poltrona em frente à sua. “Sente-se. Você parece que vai desmaiar.”

Caminhei até lá e sentei-me com cuidado. O calor da lareira era um bálsamo para meus ossos doloridos.

“Onde estão todos?” perguntei. “Os guardas, os funcionários…”

“Meus homens ficam na ala oeste ou na guarita de segurança”, explicou Lucas, dando um gole em sua bebida. “Prefiro o silêncio nos meus aposentos privados. Barulho me lembra de coisas que eu preferiria esquecer. E neste ramo, silêncio é um luxo caro.”

Olhei por cima da lareira. Havia um grande retrato pendurado ali, iluminado por uma luz suave. Mostrava dois jovens. Um era Lucas, talvez com vinte anos, já com aquele olhar intenso, mas com um sorriso que eu ainda não tinha visto no Lucas de hoje. A outra era uma mulher que se parecia com o seu reflexo no espelho, mas com traços mais suaves e um brilho nos olhos que parecia desafiar a câmera.

“É ela?” perguntei suavemente. “Sofia?”

O olhar de Lucas seguiu o meu. Sua expressão, normalmente uma máscara de controle, se desfez em uma tristeza profunda e visceral.

“Sim. Foi tirada um mês antes de eu morrer.” Ele olhou para o copo, girando o líquido âmbar. “Ela era a única pessoa neste mundo que realmente me conhecia. Não o Chefe, não o Ceifador. Apenas Lucas.”

“O que aconteceu com ele?”, perguntei. Eu sabia que estava pisando em ovos, mas precisava entender o homem que tinha minha vida em suas mãos.

Lucas olhou para mim e, por um instante, seus olhos ficaram novamente tão frios quanto gelo.

—Ela se apaixonou pelo homem errado. Um homem que prometeu protegê-la, um “civil”, um advogado íntegro. Mas quando meus inimigos vieram atrás dela para me prejudicar, ele não lutou. Ele fugiu. Ele a abandonou para salvar a própria pele. Eles a encontraram sozinha em seu apartamento.

Senti um arrepio percorrer minha espinha.

“E o homem?” sussurrei.

“O homem não é mais um problema”, disse Lucas simplesmente. A convicção em seu tom era absoluta.

“Foi por isso que você me salvou?”, perguntei, juntando as peças do quebra-cabeça. “Porque Marcos é como ele?”

“Em parte”, admitiu Lucas. “Mas principalmente porque você não fugiu. Você estava apavorada, Eva, mas mandava mensagens, trancava a porta, procurava uma saída. Sofia… no fim, ela desistiu. Ela aceitou seu destino. Você não. Eu admiro isso. Sobreviver é um instinto feio e sujo, mas é poderoso.”

Ele se levantou, caminhou até um pequeno bar e se serviu de um copo d’água. Trouxe-o para mim.

—Você tem uma família, Eva. Além do irmão para quem você tentou escrever.

Peguei a água, minha mão roçando na dela. Sua pele estava quente.

“Leo é meu irmãozinho. Ele está na universidade, estudando arquitetura. É tudo o que me resta. Nossos pais morreram há anos.” Inclinei-me para a frente, a urgência vencendo o medo. “Preciso ligar para ele, Lucas. Ele deve estar morrendo de preocupação. Se Marcos contou aquela história de que eu fugi… Leo não vai acreditar, mas vai ficar com medo.”

O rosto de Lucas ficou inexpressivo, como uma parede de pedra. Ele se virou de volta para a janela, de costas para mim.

“Leo foi ao seu apartamento na noite do incidente”, disse Lucas.

Endireitei-me, fazendo uma careta de dor.

—Foi mesmo? Ela está bem? Marcos fez alguma coisa com ela?

—Marcos não estava lá quando ele chegou, mas a polícia estava. Eles lhe contaram a versão oficial: que você teve uma convulsão, que agrediu Marcos e fugiu.

“Ele não vai acreditar”, eu disse veementemente. “Ele sabe que Marcos é abusivo. Ele já viu isso.”

“Ele sabe disso”, concordou Lucas, “mas ele é apenas um estudante de vinte anos lutando contra a máquina da Polícia Nacional. Ele tentou registrar um boletim de ocorrência de pessoa desaparecida. Eles o ameaçaram de prisão por obstrução da justiça e desacato. Disseram a ele que, se continuasse incomodando o ‘pobre Detetive Torres’, arruinariam seu futuro e sua carreira antes mesmo de começarem.”

“Preciso dizer a ele que estou bem”, eu disse, instintivamente procurando um telefone que não tinha. “Por favor, Lucas. Deixe-me fazer uma ligação. Só cinco segundos.”

Lucas se virou. Sua silhueta estava delineada contra a janela escura.

-Não.

“Por quê?” perguntei, elevando a voz, com a frustração fervilhando dentro de mim. “Ele é meu irmão! É cruel deixá-lo sofrer!”

“Se você ligar para ele, Marcos vai saber”, disse Lucas, com a voz áspera e cortante. “Marcos grampeou o telefone do seu irmão. Ilegalmente, claro, mas ele fez isso. Ele tem um carro descaracterizado estacionado em frente ao dormitório dele. Ele está esperando, Eva. Ele está esperando você cometer um erro. Ele está esperando que seus instintos a traiam e que você entre em contato com sua família. No momento em que você fizer isso, ele vai rastrear a ligação. E se ele não conseguir chegar até você aqui… ele vai usar o Leo para atraí-la para fora do esconderijo. Ele vai atrás dele.”

Deitei-me no sofá, derrotada, sentindo o ar sair dos meus pulmões.

—Então… eu tenho que deixar ele pensar que estou morta? Ou desaparecida?

“Deixe-o pensar que você desapareceu”, corrigiu Lucas, aproximando-se e agachando-se em frente à minha poltrona até ficar na altura dos meus olhos. Foi um gesto íntimo que fez o cômodo grande parecer pequeno. “É mais seguro para você e, mais importante, é mais seguro para Leo. A ignorância é o escudo dele agora. Se ele não souber onde você está, não poderá traí-la, nem mesmo sob tortura.”

Ele me encarou, seus olhos escuros encontrando os meus.

“Eu sei que dói. Sei que você se sente presa e que me odeia por isso. Mas você precisa confiar em mim. Marcos Torres é mais do que apenas um abusador rancoroso agora. Ele é um animal encurralado, humilhado e ferido. E ele está vindo atrás de você. Ele não vai parar até te pegar ou até estar morto.”

Enquanto isso, do outro lado da cidade, o silêncio estéril de um quarto particular do Hospital La Paz foi quebrado por um grito de pura e impotente raiva. Marcos Torres jazia na cama, com as duas mãos envoltas em grossos gessos e bandagens que chegavam aos cotovelos, sustentadas por tipoias. Eram pesados ​​e inúteis martelos nas extremidades de seus braços. Sua carreira, seu ego, sua vida como ele a conhecia… tudo despedaçado. E ele sabia quem era o culpado. E sabia que Eva o tinha visto cair.

PARTE 3: O Pacto com o Diabo

Duas semanas se transformaram em três. O tempo na propriedade de Lucas Moregu tinha uma qualidade estranha, elástica. Meus hematomas externos quase desapareceram, deixando apenas sombras amareladas na minha pele que a maquiagem podia facilmente cobrir. Minhas costelas estavam cicatrizando, transformando a dor aguda em uma dor surda e constante que se intensificava com a chuva. Mas a cura física era a parte fácil.

A parte difícil era o silêncio. E a espera.

Eu havia me tornado presença constante na biblioteca. Lia vorazmente, tentando não pensar em Leo, tentando não pensar na minha antiga vida que havia desaparecido. Lucas e eu havíamos desenvolvido uma rotina estranha. Jantávamos juntos algumas noites. No início, em silêncio. Depois, com conversas tímidas. Descobri que ele era um homem culto, que amava história e ópera, e que carregava o peso de seu império criminoso com uma mistura de orgulho e um cansaço infinito. Ele descobriu que eu não era apenas uma vítima assustada; que eu tinha opiniões, que eu podia debater, que eu tinha um senso de humor seco que às vezes conseguia arrancar um meio sorriso dele.

Mas a ameaça de Marcos sempre pairou sobre nós como uma nuvem de tempestade.

Em uma noite de terça-feira, essa rotina foi quebrada.

Eu estava sentada junto à janela do meu quarto, observando uma tempestade se formar sobre a Serra de Guadarrama. O céu estava pesado, elétrico, num tom vermelho-púrpura. Alguém bateu na porta. Não eram as batidas tímidas de uma empregada, mas duas batidas fortes e impositivas.

—Entre—, eu disse, sabendo quem era.

Lucas entrou. Parecia exausto. Sua gravata estava desfeita e sua camisa amassada, como se tivesse passado o dia em reuniões tensas. Em uma das mãos, carregava uma capa preta para roupas e na outra, uma pequena caixa de veludo.

“Você está com uma aparência melhor”, disse ela, me avaliando. Ela não sorriu, mas a tensão em seus ombros diminuiu um pouco quando me viu.

“Sinto-me melhor”, disse eu, levantando-me e cruzando os braços, um hábito defensivo do qual ainda não conseguia me livrar. “Não te vejo há dois dias.”

“A guerra leva tempo”, disse ele secamente. Colocou a capa do edredom na cama. “Há um jantar hoje à noite. Lá embaixo.”

Analisei o caso.

—Um jantar? Temos convidados?

“Não. Só nós dois”, disse Lucas. Ele colocou a caixa de veludo na mesa de cabeceira. “Eu fui um anfitrião negligente. E há… coisas que precisamos discutir sobre o seu futuro. A situação mudou.”

Ela se virou para sair, mas parou na porta.

—Vista seu vestido, Eva. Vejo você na sala de jantar em uma hora.

Uma hora depois, eu estava diante do espelho. O vestido era deslumbrante. Seda verde-esmeralda escura, de mangas compridas e gola alta na frente, mas com um decote nas costas de tirar o fôlego. Ele drapeava sobre meu corpo como água líquida, escondendo minhas cicatrizes e, ao mesmo tempo, revelando minha silhueta. Era elegante, caro e me fazia sentir poderosa, algo que eu não sentia há anos.

Olhei para a caixa de veludo. Dentro havia uma fina corrente de platina com um pingente estranho: um diamante bruto, não polido, irregular e selvagem. Não era “bonito” no sentido tradicional. Era resistente. Era duro.

Eu o coloquei. O diamante frio repousou contra meu esterno.

Quando desci a grande escadaria, Lucas estava me esperando lá embaixo. Ele havia tomado banho e vestido um impecável terno preto. Quando ergueu os olhos e me viu, sua respiração ficou visivelmente presa por um segundo. Foi uma reação facial mínima, quase imperceptível, mas eu a vi. Seus olhos percorreram minha figura com uma apreciação que fez minhas bochechas corarem, não de vergonha, mas com algo eletrizante.

Ele me ofereceu o braço.

—Você é perigosa, Eva.

“Isso é um elogio?”, perguntei, segurando seu braço. Seu bíceps era de pedra sob o tecido.

—No meu mundo, esse é o maior elogio possível.

Jantamos na sala de jantar formal, numa longa mesa de mogno posta para vinte pessoas, mas ocupada por apenas duas. As velas tremeluziam, projetando longas sombras. A princípio, conversamos sobre trivialidades, mas quando o prato principal foi servido, a atmosfera mudou. A tempestade lá fora havia começado, a chuva batendo com fúria nas janelas.

Lucas serviu-se de vinho, mas não o bebeu.

“Marcos fez a sua jogada”, disse ele de repente. Sem rodeios.

Minha mão congelou em torno do copo de cristal.

“Que movimento?” perguntei, baixando a voz para um sussurro.

“Ele entrou em contato com a família Petrov. A Bratva russa ”, disse Lucas, com a voz calma, mas carregada de presságio. “Eles são meus rivais diretos pelo controle das rotas de importação no sul. São selvagens, Eva. Não têm código de honra. Marcos… aquele tolo desesperado… está vendendo segredos da polícia para eles. Rotas de patrulha, mudanças de turno, códigos de segurança para os depósitos de provas. Ele está traindo o próprio departamento e o país.”

“Em troca de quê?”, perguntei, embora temesse a resposta.

“Em troca de uma coisa. Em troca de mim”, disse Lucas. “E de você. Ele me quer morto para recuperar seu orgulho. E ele quer você por… bem, você sabe por quê.”

—Então… eles estão vindo atrás de nós?

—Eles estão vindo atrás da fazenda. Os Petrovs acham que sou fraco. Acham que estou distraído protegendo um “civil”.

Lucas colocou a mão sobre a mesa e cobriu a minha. Sua palma era calejada, quente e reconfortante.

“Preciso que você entenda o perigo, Eva. Isso não é apenas um ex-namorado ciumento. É uma guerra sindical. E vai ser sangrenta.”

“O que fazemos?” perguntei. Fiquei surpresa ao perceber que minha voz não estava tremendo. “Devo fugir? Vocês vão me expulsar?”

O polegar de Lucas roçou nos meus nós dos dedos. Ele me olhou com uma intensidade que me fez esquecer como respirar.

“Tenho um jato particular esperando na pista de Torrejón, com os motores ligados. Posso te enviar para a Europa hoje à noite. Para a Suíça. Tenho uma casa segura lá, contas bancárias em nome de uma nova identidade falsa. Você estará segura. Estará escondida. Será rica. Mas estará sozinha. Nunca poderei visitá-la, para não levar ninguém até você.”

Ele apertou minha mão.

“A escolha é sua, Eva. Você pode ir embora esta noite e viver uma vida longa e segura. Ou pode ficar. Se ficar… você será um alvo. Mas será o meu alvo, e eu o protegerei. E lutaremos por você.”

Olhei para Lucas. Olhei para o homem que arrombou uma porta para me salvar. O homem que zelara pelo meu sono. Pensei em Marcos, lá fora, vendendo a alma aos russos só para me ferir. Se eu fugisse para a Suíça, passaria o resto da vida olhando por cima do ombro, esperando ver a sombra de Marcos em cada esquina. Viveria com medo.

Eu estava cansada de ter medo. Eu estava cansada de ser a vítima.

Olhei para o diamante bruto no meu peito. Resiliente. Duro.

“Estou cansada de fugir, Lucas”, eu disse baixinho. Virei minha mão e entrelacei meus dedos nos dele, apertando com força. “Estou cansada de me esconder em banheiros. Não vou a lugar nenhum.”

Lucas soltou o ar que parecia estar prendendo há uma eternidade. Levantou-se, puxando-me delicadamente para que eu também me levantasse. Não soltou minha mão. Puxou-me para si até que nossos corpos quase se tocassem. Eu podia sentir o calor que emanava dele, ver seu pulso pulsando em seu pescoço.

“Tudo bem”, murmurou ele, com a voz rouca, baixando a cabeça até que sua testa quase tocasse a minha. “Porque eu não tinha certeza se teria forças para te deixar ir.”

Ele se inclinou. Seus lábios roçaram minha testa num beijo casto e protetor que acendeu uma chama em meu ventre. Então, ele desceu mais, procurando minha boca. Fechei os olhos, antecipando o toque, desejando-o.

-Chefe.

O momento se despedaçou.

Diego, o chefe de segurança, estava parado na porta da sala de jantar. Seu rosto, normalmente impassível, estava pálido à luz de velas. Ele carregava um fuzil de assalto a tiracolo e seu fone de ouvido apresentava estática.

Lucas se afastou de mim instantaneamente, sua máscara de “Ceifador” caindo de volta sobre seu rosto, transformando o amante em um guerreiro em uma fração de segundo.

—O que foi, Diego?

—Os sensores de perímetro—disse Diego, com a voz tensa—. Eles não foram acionados.

Lucas franziu a testa.

-O que você quer dizer?

—Quer dizer, eles estão mortos. Livres de culpa. Alguém invadiu o sistema por dentro do circuito de segurança local. Estamos às cegas, senhor.

CLACK!

As luzes da sala de jantar piscaram uma vez. Duas vezes. E então toda a propriedade, a imensa fortaleza de pedra, mergulhou na escuridão absoluta.

O som da chuva batendo nas janelas de repente ficou muito mais alto.

“Abaixa!” gritou Lucas, empurrando-me com força para debaixo da pesada mesa de carvalho maciço, no exato momento em que o som de vidro quebrando ecoou no saguão principal.

PARTE 4: A Noite dos Cristais

O mundo mergulhou no caos. Debaixo da mesa, o piso de madeira vibrava contra minhas palmas. As luzes vermelhas de emergência se acenderam, banhando a sala de jantar em um brilho sangrento e sinistro que distorcia as sombras.

“Eles estão lá dentro!” gritou Diego, disparando uma rajada no corredor escuro. O som dos tiros em um espaço tão confinado era ensurdecedor e doloroso.

“Para o quarto do pânico!” ordenou Lucas, puxando meu braço debaixo da mesa. Ele se moveu com uma velocidade assustadora. Uma pistola preta apareceu em sua mão direita, uma que eu não o tinha visto sacar. “Vamos, Eva! Anda logo!”

Corremos para o corredor. Sombras dançavam nas paredes, alongando-se e encolhendo com a luz vermelha intermitente. Eu podia ouvir gritos em russo, ordens bradadas violentamente e o som inconfundível de botas pesadas batendo no piso de mármore do saguão.

Lucas disparou duas vezes na escuridão da escadaria principal. Vi uma figura despencar escada abaixo, uma forma escura.

“Cortaram a energia dos elevadores do subsolo!” gritou Lucas, avaliando a situação em milissegundos. “A sala de pânico é uma armadilha mortal se cortarem o ar. Estamos isolados. Para o telhado! O helicóptero!”

Virámo-nos em direção à escada de serviço, aquela que os funcionários usavam. A minha respiração era um suspiro doloroso. As minhas costelas, embora curadas, protestavam a cada passo, latejando em sincronia com o meu coração acelerado. O vestido de seda não parava de se enrolar nas minhas pernas, então agarrei-o e puxei-o para cima, correndo descalça porque tinha perdido os meus saltos debaixo da mesa.

De repente, o sistema de interfone da casa começou a funcionar com um chiado de estática.

— Eva…

A voz estava distorcida, amplificada pelas caixas de som em cada sala, mas era inconfundivelmente a de Marcos. Parecia arrastada, medicada, mas repleta de uma alegria maníaca e tóxica.

— Eu sei que você está aí, querida. Saia, Eva. Os russos só querem ele. Eu só quero te levar para casa. Eu te perdoo, Eva. Eu te perdoo por ter sido uma menina má.

“Não dê ouvidos a ele”, rosnou Lucas, empurrando-me escada acima e protegendo minhas costas com o corpo.

” Você achou que podia me trocar por algo melhor? ” Marcos riu, uma risada úmida e rouca. ” Ele não pode te salvar. Ele é só um bandido com dinheiro. Eu sou a lei.”

Chegamos ao patamar do terceiro andar. O vento uivava por uma janela quebrada no final do corredor, trazendo chuva e frio para dentro.

Três homens vestidos com roupas táticas pretas e balaclavas viraram a esquina no final do corredor.

“Contato!” gritou um deles em russo.

“Proteja-se!” Lucas me empurrou violentamente para um nicho decorativo na parede e abriu fogo.

O corredor se transformou num túnel de ruído e morte. Balas rasgavam o gesso da parede acima da minha cabeça, enchendo o ar com poeira branca e destroços. Tapei os ouvidos, gritando silenciosamente, encolhida no chão.

Vi Lucas disparar com precisão letal, abatendo o primeiro homem. Mas eram muitos. Uma rajada de metralhadora varreu o corredor.

Ouvi um som úmido, um baque surdo , e Lucas grunhiu. Seu corpo se contraiu violentamente e ele se chocou contra a parede ao meu lado.

“Lucas!” exclamei, boquiaberto.

Uma mancha escura se espalhava rapidamente por sua camisa branca, logo acima do quadril direito. Sangue. Muito sangue.

“Estou bem”, mentiu ele, rangendo os dentes, o rosto pálido sob a luz estroboscópica vermelha. “Vamos! O telhado está a dez metros daqui.”

Ele cambaleou. Sua mão esquerda pressionou a ferida, e o sangue jorrou entre seus dedos.

“Você não consegue andar”, eu disse, com o pânico me corroendo a garganta.

“Não vou morrer aqui e não vou deixar que te toquem”, disse ele, olhando para mim com uma ferocidade que me assustou. “Levante-se!”

Agarrei-me ao seu braço bom. Meus instintos de enfermeira tomaram o lugar do medo.

—Apoie-se em mim. Apoie-se em mim, droga!

Usando meu corpo como apoio, ajudei-o a seguir em frente. Juntos, cambaleando, chegamos à pesada porta de aço que dava para o heliporto. Lucas bateu com a mão ensanguentada no painel de controle. A porta sibilou e se abriu.

Saímos em meio à tempestade.

O vento no telhado era uma força física, quase nos derrubando no chão. A chuva caía em torrentes horizontais, encharcando-nos instantaneamente. Mas acima do vento uivante, ouvimos o som celestial das hélices cortando o ar. O helicóptero preto de Lucas estava lá, com os rotores girando, pronto para decolar. Silas, o piloto, nos sinalizava freneticamente da cabine.

“Estamos quase lá…!” Comecei a gritar.

-ALTO!

O grito rasgou o vento.

Paramos. Entre nós e o helicóptero, bloqueando a estrada, estava Marcos Torres.

Ele parecia um espectro saído de um pesadelo. Usava um avental hospitalar sujo, enfiado dentro de calças jeans, e uma jaqueta policial roubada. Suas mãos… suas mãos eram tocos grotescos envoltos em bandagens sujas e úmidas, garras de gesso inúteis. Mas ele não estava sozinho. Atrás dele, um gigante russo apontava uma espingarda de cano serrado diretamente para o peito de Lucas.

Marcos sorriu, com os cabelos grudados no crânio pela chuva, os olhos esbugalhados pelos analgésicos e pela loucura.

“Olha só para você”, cuspiu Marcos, dando um passo em nossa direção. “O grande Lucas Moregu, sangrando até a morte como um porco. E você, Eva… olha o que você fez. A culpa é toda sua.”

Lucas tentou levantar a arma, mas seu braço tremia incontrolavelmente devido à perda de sangue. Ele estava prestes a desmaiar.

“Mate-o”, ordenou Marcos ao russo. “Deixe-a comigo. Preciso lhe ensinar uma lição sobre lealdade.”

O russo engatilhou a espingarda. Clique-clique.

O tempo pareceu desacelerar. Olhei para o helicóptero, pairando a poucos metros acima de mim, suas luzes de pouso varrendo o convés molhado. Olhei para a mão trêmula de Lucas. Olhei para a lanterna tática de alta potência que Lucas usava presa ao cinto.

Marcos estava rindo, aproximando-se de mim, ignorando Lucas, confiante em sua vitória.

Eu não pensei. Eu agi.

Arranquei a lanterna do cinto de Lucas.

“Ei!” gritei com toda a força dos meus pulmões.

O russo virou a cabeça na minha direção, surpreso.

Liguei a lanterna no modo estroboscópico com potência máxima e apontei-a diretamente para os olhos dele, a menos de dois metros de distância.

O efeito foi cegante. Na escuridão da noite, com as pupilas dilatadas, a luz foi como um golpe físico. O russo rugiu de dor, levando a mão ao rosto, instantaneamente cego. O tiro de espingarda errou o alvo, atingindo o chão de concreto e lançando faíscas.

“AGORA!” gritei.

Lucas, reunindo forças de algum lugar profundo dentro de si, ergueu a pistola e atirou. Ele não mirou nos homens. Mirou no tanque industrial de propano que alimentava o sistema de aquecimento do telhado, bem atrás de Marcos e do russo.

BOOM!

Uma bola de fogo alaranjada irrompeu na noite, arremessando Marcos e o russo para trás como bonecos de pano. A onda de choque nos derrubou no chão.

“VAMOS LÁ!” gritou Lucas.

Rastejamos em direção ao helicóptero. Silas saltou para fora, agarrou Lucas pelo colete salva-vidas e o puxou para dentro. Eu saltei atrás dele. O helicóptero decolou bruscamente, fazendo uma curva para evitar as chamas que agora consumiam o telhado.

Fechei a porta de correr, bloqueando o ruído da tempestade. O silêncio relativo da cabana nos envolveu.

Rastejei até Lucas. Ele estava deitado no chão de metal, com os olhos fechados e a pele acinzentada. Havia uma poça de sangue se espalhando sob ele.

“Kit médico!” gritei para Silas. “Me dê o kit de primeiros socorros!”

“Está debaixo do assento!” gritou o piloto. “Estamos a vinte minutos da clínica veterinária segura! Aguente firme!”

Abri o kit. Minhas mãos, que tremiam quando tentei discar um número de telefone semanas atrás, agora estavam firmes como rochas. Eu era enfermeira. Este era o meu território.

Rasguei a camisa de Lucas. O ferimento era feio, um buraco irregular borbulhando com sangue escuro.

“Fique comigo, Lucas”, ordenei, pressionando firmemente uma gaze hemostática sobre o ferimento. Ele gemeu, abrindo os olhos e me encarando com dificuldade. “Não ouse morrer. Não depois de tudo isso.”

Lucas olhou para mim, um sorriso fraco e sangrento curvando seus lábios pálidos.

“Você…” ela sussurrou, com a voz quase inaudível. “Você o cegou?”

“Eu improvisei”, eu disse, com as lágrimas se misturando à chuva e ao sangue no meu rosto. “Agora cale a boca e respire.”

“Eu te disse…” ele sussurrou, fechando os olhos novamente enquanto perdia a consciência. “Eu te disse que não ia fugir.”

Enquanto o helicóptero sobrevoava a noite em direção à segurança das florestas do norte, olhei para minhas mãos, manchadas com o sangue do homem que eu amava. O medo havia desaparecido. Em seu lugar, havia uma determinação fria e implacável, como o diamante que eu usava no pescoço.

Marcos provavelmente estava morto, consumido pelo fogo. Mas se ele tivesse sobrevivido… se aquele monstro tivesse sobrevivido à queda… da próxima vez que nos encontrássemos, eu não seria a vítima trêmula no banheiro.

Eu seria a guerra.

EPÍLOGO: O Amanhecer

Dois dias depois, em uma clínica particular clandestina escondida em uma fazenda, Lucas acordou.

Eu estava sentada ao lado dele, dormindo em uma cadeira desconfortável, com a cabeça apoiada em sua cama. Acordei quando senti sua mão em meu cabelo.

“Você está vivo”, eu disse, com a voz rouca de exaustão.

“Obrigado”, disse ele. Sua voz estava fraca, mas seus olhos estavam claros.

“Estamos quites”, eu disse suavemente, pegando sua mão e beijando seus nós dos dedos. “Você me salvou. Eu te salvei. A dívida está paga.”

Lucas balançou a cabeça lentamente. Ele apertou minha mão.

—Não é uma dívida, Eva. É uma parceria.

Olhei pela janela, onde o sol nascente iluminava os campos de trigo. O mundo continuava girando. A polícia procurava corpos na fazenda incendiada. Corria o boato de que Marcos havia desaparecido, que só tinham encontrado a placa derretida do seu carro.

Que ele venha, pensei. Que Marcos venha. Que os russos venham.

Olhei para Lucas, o homem mais perigoso de Madrid, que agora me encarava com devoção absoluta.

“Vamos reconstruir”, eu disse. “E vamos garantir que ninguém nunca mais nos machuque.”

Lucas sorriu, aquele sorriso afiado e perigoso que me havia cativado.

—Do seu jeito, Eva. Faremos do seu jeito.

O número errado acabou sendo o destino certo. E essa é a nossa história. Não a história de como eu sobrevivi, mas a história de como começamos a reinar.

FIM